{"id":472,"date":"2012-03-15T06:50:50","date_gmt":"2012-03-15T09:50:50","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=472"},"modified":"2012-03-15T06:50:50","modified_gmt":"2012-03-15T09:50:50","slug":"a-sintonia-do-eu-com-o-sintoma-a-problematica-da-angustia-na-neurose-obsessiva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2012\/03\/15\/a-sintonia-do-eu-com-o-sintoma-a-problematica-da-angustia-na-neurose-obsessiva\/","title":{"rendered":"A Sintonia Do Eu Com O Sintoma: A Problem\u00e1tica Da Ang\u00fastia Na Neurose Obsessiva"},"content":{"rendered":"<h6 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\" style=\"text-align: justify;\"><strong style=\"font-size: 14px;\">SIMONE SOUTO\u00a0<\/strong><\/h6>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A despeito de sua complexidade, se acompanhamos Freud no texto \u201cInibi\u00e7\u00e3o, sintoma e ang\u00fastia\u201d (1926\/1976), acabamos por nos render a seu interesse e entusiasmo ao constatar a import\u00e2ncia do estudo da neurose obsessiva para a compreens\u00e3o dos mecanismos da forma\u00e7\u00e3o do sintoma e sua rela\u00e7\u00e3o com a ang\u00fastia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, \u00e9 \u201cna esperan\u00e7a de aprender alguma coisa a mais sobre o sintoma\u201d (FREUD, 1926\/1976, p.135) que, a certa altura desse texto, Freud passa ao estudo mais detalhado da neurose obsessiva. Em \u201cInibi\u00e7\u00e3o, sintoma e ang\u00fastia\u201d, Freud considera a neurose obsessiva o tema mais interessante e compensador da pesquisa anal\u00edtica. Possivelmente, porque, como veremos, no que se refere \u00e0 forma\u00e7\u00e3o dos sintomas, encontramos, na neurose obsessiva, uma multiplicidade de mecanismos que se sobrep\u00f5em e\/ou se sucedem, cada um visando a compensar o fracasso do outro. \u00c9 tamb\u00e9m na neurose obsessiva que encontramos uma maior sintonia do eu com o sintoma, n\u00e3o s\u00f3 porque, com a ajuda desses diversos mecanismos, o eu, em certa medida, incorpora o sintoma em sua organiza\u00e7\u00e3o, mas principalmente porque, como sublinha Freud, na neurose obsessiva, a forma que o sintoma assume torna-se muito valiosa para o eu, pois obt\u00e9m para este n\u00e3o apenas certas vantagens \u2014 ganhos secund\u00e1rios, como no caso da histeria \u2014 mas uma satisfa\u00e7\u00e3o narc\u00edsica. Esta \u00e9, a meu ver, o aspecto mais importante da rela\u00e7\u00e3o do eu com o sintoma na neurose obsessiva: o sintoma, na neurose obsessiva, \u00e9 acompanhado de uma sensa\u00e7\u00e3o de prazer, e n\u00e3o de desprazer, como na histeria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como nos esclarece Freud, os sistemas que o neur\u00f3tico obsessivo constr\u00f3i lisonjeiam seu amor pr\u00f3prio, fazendo-o sentir-se melhor que as outras pessoas porque \u00e9 especialmente limpo, ou especialmente consciencioso, ou especialmente organizado, etc. Dessa forma, podemos dizer que, se o sintoma, na histeria, nos coloca diante da dificuldade de reconhecer uma satisfa\u00e7\u00e3o no desprazer, a neurose obsessiva nos coloca o desafio de lidar com um sintoma que \u00e9 reconhecidamente uma fonte de satisfa\u00e7\u00e3o, de prazer, do qual o sujeito n\u00e3o quer abrir m\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos inferir, portanto, que o grande interesse demonstrado por Freud em \u201cInibi\u00e7\u00e3o, sintoma e ang\u00fastia\u201d, no estudo da neurose obsessiva, se deve ao fato de que, nessa neurose, encontramos, de maneira mais evidente, o sintoma como sendo a \u201csignifica\u00e7\u00e3o de uma satisfa\u00e7\u00e3o\u201d (FREUD, 1926\/1976, p.135) (Bedeutung eine Befriedigung). Ou seja, parece-me que Freud, nesse texto, n\u00e3o est\u00e1 interessado no sentido do sintoma, no sintoma como algo que pode ser decifrado, mas no sintoma como uma satisfa\u00e7\u00e3o. \u00c9 essa vertente do sintoma que, a meu ver, designa essa \u201calguma coisa a mais\u201d que Freud pretende entender, quando recorre ao estudo pormenorizado da neurose obsessiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como eu dizia anteriormente, na neurose obsessiva, os mecanismos de defesa se constituem de forma complexa e m\u00faltipla. Assim, podemos destacar tr\u00eas mecanismos de defesa presentes na forma\u00e7\u00e3o dos sintomas na neurose obsessiva:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Recalque<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Regress\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Forma\u00e7\u00f5es reativas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Recalque<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A neurose obsessiva se constitui a partir do mesmo mecanismo presente na histeria: o recalque, que \u00e9, por excel\u00eancia, o mecanismo de forma\u00e7\u00e3o da neurose. O recalque \u00e9 um mecanismo de defesa que, segundo Freud, visa a manter afastadas da consci\u00eancia as experi\u00eancias traum\u00e1ticas vividas na inf\u00e2ncia, ligadas ao Complexo de \u00c9dipo. Isto \u00e9, o recalque visa a desviar as exig\u00eancias libidinais do complexo edipiano e o consequente perigo da castra\u00e7\u00e3o. Mas, apesar de se constituir a partir do mesmo mecanismo que a histeria, a neurose obsessiva vai-se modelar de forma bem diferente. Como j\u00e1 vimos, na histeria, as experi\u00eancias da inf\u00e2ncia ligadas ao Complexo de \u00c9dipo s\u00e3o acompanhadas de uma sensa\u00e7\u00e3o de desprazer, uma falta de prazer, um prazer a menos (-). Um exemplo disso \u00e9 a repulsa ligada \u00e0 cena prim\u00e1ria de sedu\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, ao sexo. No caso da neurose obsessiva, ao contr\u00e1rio, as experi\u00eancias da inf\u00e2ncia ligadas ao Complexo de \u00c9dipo ser\u00e3o acompanhadas de um intenso prazer, um prazer a mais (+).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se seguirmos a l\u00f3gica freudiana a prop\u00f3sito do mecanismo do recalque, constataremos que uma experi\u00eancia s\u00f3 se torna traum\u00e1tica se causar desprazer, e esse seria o motivo pelo qual a lembran\u00e7a dessa experi\u00eancia seria afastada da consci\u00eancia, ou seja, recalcada. Na verdade, \u00e9 exatamente assim que ocorre, segundo Freud: a condi\u00e7\u00e3o para que o recalque aconte\u00e7a \u00e9 que a for\u00e7a motora do desprazer adquira mais vigor do que o prazer obtido na experi\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o. Estamos, ent\u00e3o, com uma dificuldade no que concerne ao mecanismo do recalque na neurose obsessiva. Como explicar o recalque na neurose obsessiva uma vez que nela as experi\u00eancias ligadas ao Complexo de \u00c9dipo s\u00e3o acompanhadas de intenso prazer? Por que, ent\u00e3o, elas precisariam ser recalcadas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Freud parte da constata\u00e7\u00e3o de que o aparelho ps\u00edquico funciona a partir do princ\u00edpio de const\u00e2ncia, ou , como diz Lacan, por homeostase. Isso significa que o aparelho ps\u00edquico busca sempre manter o n\u00edvel de tens\u00e3o o mais baixo poss\u00edvel. Assim, qualquer coisa que ameace esse equil\u00edbrio, seja um prazer a menos (como na histeria), seja um prazer a mais (como na neurose obsessiva), \u00e9 sentida pelo aparelho ps\u00edquico como um aumento de tens\u00e3o que causa desprazer, tornando-se, assim, uma condi\u00e7\u00e3o para o recalque. Por\u00e9m, existe ainda outro fator a ser considerado, porque, no que concerne \u00e0 experi\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o, ela nunca se completa, ou seja, a satisfa\u00e7\u00e3o obtida nunca ser\u00e1 toda. Sempre haver\u00e1 uma diferen\u00e7a entre a satisfa\u00e7\u00e3o obtida e aquela que era esperada. Assim, no caso da neurose obsessiva, por mais prazer que o sujeito obtenha, isso ter\u00e1 um limite que tamb\u00e9m ser\u00e1 sentido como desprazer, tornando-se, portanto, condi\u00e7\u00e3o para o recalque. O recalque opera quando entra em jogo algo que n\u00e3o pode ser absorvido pela homeostase, isto \u00e9, algo que est\u00e1 para al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir da\u00ed, podemos entender por que, para o neur\u00f3tico obsessivo, o prazer a mais ou, para usar um termo lacaniano, o gozo, \u00e9 muitas vezes acompanhado de sentimentos de ang\u00fastia, p\u00e2nico, culpa, depress\u00e3o, etc. Ou, ainda, por que, muitas vezes, o obsessivo acaba por evitar o prazer para n\u00e3o ter que se haver com essa diferen\u00e7a entre a satisfa\u00e7\u00e3o obtida e a satisfa\u00e7\u00e3o esperada. \u00c9 por isso que, na base da experi\u00eancia do obsessivo, existe sempre o que Lacan chamou de \u201ccerto receio de desinflar\u201d (LACAN, 1960-1961\/1992, p.235), relacionado com o que resulta do encontro com a satisfa\u00e7\u00e3o. Aqui, Lacan nos lembra da f\u00e1bula da r\u00e3 que queria fazer-se t\u00e3o grande quanto o boi: \u201cO miser\u00e1vel animal, como sabem, inchou tanto que estourou\u201d (LACAN, 1960-1961\/1992, p.235).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O testemunho de um paciente exemplifica bem esse impasse obsessivo: segundo ele, o sucesso lhe era proibido porque qualquer coisa que lhe deixava feliz, que lhe dava prazer, seja no amor, seja no trabalho, chegava sempre em um ponto, em um limite no qual se transformava em um sofrimento horr\u00edvel. Assim, preferia evitar qualquer situa\u00e7\u00e3o que o deixasse feliz, que lhe desse prazer. Dessa forma, isolava-se cada vez mais: n\u00e3o sa\u00eda de casa, evitava o contato com as pessoas , etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse exemplo nos permite entender a constata\u00e7\u00e3o de Freud segundo a qual o resultado desse processo, na neurose obsessiva, ser\u00e1 \u201cum eu extremamente restringido que ficar\u00e1 reduzido a procurar satisfa\u00e7\u00e3o nos sintomas\u201d (FREUD, 1926\/1976, p.141).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No in\u00edcio do texto \u201cInibi\u00e7\u00e3o , sintoma e ang\u00fastia\u201d, Freud define o sintoma da seguinte forma: \u201co sintoma \u00e9 um sinal e um substituto de uma satisfa\u00e7\u00e3o pulsional que permaneceu em estado jacente; \u00e9 uma consequ\u00eancia do processo de recalque\u201d (FREUD, 1926\/1976, p.112). Isso quer dizer que, primeiramente, o recalque n\u00e3o \u00e9 totalmente eficaz, e que, de algum modo, a satisfa\u00e7\u00e3o pulsional encontra um substituto, apesar dele. Mas, como substituto da satisfa\u00e7\u00e3o pulsional, o sintoma tende a cumprir o mesmo destino desta, ou seja, tende a manter sua exist\u00eancia fora da organiza\u00e7\u00e3o do eu, mas que, no entanto, n\u00e3o deixa de ter incid\u00eancias sobre ele, tal qual \u201cum corpo estranho que mant\u00e9m uma sucess\u00e3o constante de est\u00edmulos e rea\u00e7\u00f5es no tecido no qual est\u00e1 encavado\u201d (FREUD, 1926\/1976, p.120). De acordo com Freud, o sintoma \u00e9, portanto, uma pe\u00e7a do mundo interno (do eu) que \u00e9 estranha a ele (pois adv\u00e9m do isso). Sendo assim, a luta inicial do recalque contra a satisfa\u00e7\u00e3o pulsional se prolonga na luta contra o sintoma. O neologismo criado por Lacan, \u201cextimidade\u201d, localiza, de maneira precisa, essa posi\u00e7\u00e3o do sintoma como algo que est\u00e1 exclu\u00eddo, mas internamente, ou seja, algo que \u00e9 estranho, exterior, mas, ao mesmo tempo, \u00edntimo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dessa maneira, observa-se que, na neurose obsessiva, nessa luta secund\u00e1ria contra o sintoma, o eu apresenta \u201cduas faces com express\u00f5es contradit\u00f3rias\u201d (FREUD, 1926\/1976, p.120): ao mesmo tempo em que luta contra a satisfa\u00e7\u00e3o pulsional, utiliza o seu poder de s\u00edntese para impedir que os sintomas \u201cpermane\u00e7am isolados e alheios, empregando todos os m\u00e9todos poss\u00edveis para agreg\u00e1-los a si e para incorpor\u00e1-los em sua organiza\u00e7\u00e3o por meio desses v\u00ednculos\u201d (FREUD, 1926\/1976, p.120). Assim, os sintomas que fazem parte dessa neurose se enquadram, em geral, em dois grupos de tend\u00eancias opostas:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1) sintomas negativos (proibi\u00e7\u00f5es, precau\u00e7\u00f5es e expia\u00e7\u00e3o);<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2) sintomas positivos (satisfa\u00e7\u00f5es substitutivas que ami\u00fade aparecem com um disfarce simb\u00f3lico).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Freud, o grupo defensivo, negativo, dos sintomas, \u00e9 o mais antigo dos dois, mas, no decorrer do processo, \u201cas satisfa\u00e7\u00f5es, que zombam de todas as medidas defensivas, levam vantagem\u201d (FREUD, 1926\/1976, p.135). Assim, como observa Freud, a forma\u00e7\u00e3o dos sintomas, na neurose obsessiva, assinala seu triunfo, ao conseguir combinar a proibi\u00e7\u00e3o com a satisfa\u00e7\u00e3o, de modo que o que era originalmente uma ordem defensiva ou proibi\u00e7\u00e3o acaba adquirindo, tamb\u00e9m, a signific\u00e2ncia de uma satisfa\u00e7\u00e3o. Aqui, \u00e9 preciso fazer um par\u00eantese e sublinhar a import\u00e2ncia do supereu na forma\u00e7\u00e3o dos sintomas da neurose obsessiva, uma vez que o supereu, como nos esclarece Lacan, \u00e9 exatamente essa inst\u00e2ncia que incorpora a proibi\u00e7\u00e3o e a satisfa\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo, ou seja, a lei e o gozo. O supereu ordena o gozo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dessa forma, \u201co eu faz uma adapta\u00e7\u00e3o ao sintoma e passa a se comportar como se reconhecesse que o sintoma chegara para ficar e que a \u00fanica coisa a fazer \u00e9 aceitar a situa\u00e7\u00e3o de bom grado\u201d (FREUD, 1926\/1976, p.121). Ou seja, o eu se adapta a esse corpo estranho que \u00e9 o sintoma, ele o incorpora. Portanto, na neurose obsessiva, o sintoma se funde cada vez mais com o eu, colocando-se cada vez mais em sintonia com este, que passa a se apresentar, em sua gl\u00f3ria, com todos os seus sintomas, que se tornam, dessa maneira, tra\u00e7os fundamentais de sua personalidade. Parece-me, ent\u00e3o, que \u00e9 na neurose obsessiva que temos a oportunidade de constatar a frase de Freud segundo a qual \u201co eu \u00e9 id\u00eantico ao isso, sendo apenas uma parte especialmente diferenciada do mesmo\u201d (FREUD, 1926\/1976, p.119).Por outro lado, o sintoma, por sua vez, para fugir ao recalque e ser aceito pelo eu, apresenta-se como um substituto da satisfa\u00e7\u00e3o pulsional, mas de forma muito mais reduzida, deslocada e inibida. No entanto, a despeito desse disfarce, o sintoma renova continuamente suas exig\u00eancias de satisfa\u00e7\u00e3o, obrigando o eu, por sua vez, a dar um sinal de desprazer, ou seja, a se deparar com a ang\u00fastia. Ent\u00e3o, para fazer frente a essa falha do recalque e \u00e0 consequente presentifica\u00e7\u00e3o da ang\u00fastia, o obsessivo lan\u00e7a m\u00e3o de outro mecanismo defensivo fundamental: a regress\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Regress\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Freud (1917\/1976, p.419), os neur\u00f3ticos repetem, na atualidade, atrav\u00e9s de seus sintomas, uma experi\u00eancia traum\u00e1tica do passado, experi\u00eancia na qual parecem ter-se fixado. Isso acontece desse modo porque, diante da impossibilidade de satisfa\u00e7\u00e3o (perigo da castra\u00e7\u00e3o), a libido \u00e9 compelida a tomar o caminho da regress\u00e3o para tentar encontrar satisfa\u00e7\u00e3o em per\u00edodos anteriores do seu desenvolvimento. Podemos dizer, ent\u00e3o, que h\u00e1 um retorno da libido para um ponto de fixa\u00e7\u00e3o onde, ao mesmo tempo, a libido ter-se-ia fixado e interrompido seu percurso. Esse ponto de fixa\u00e7\u00e3o nada mais \u00e9 do que a experi\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o ligada ao Complexo de \u00c9dipo, que, uma vez recalcada, passa a funcionar como um ponto de atra\u00e7\u00e3o da libido no inconsciente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/download1.png\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"502\" data-large_image_height=\"364\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-473\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/download1.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"218\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/download1.png 502w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/download1-300x218.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">fixa\u00e7\u00e3o recalque<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com Freud, no caso da neurose obsessiva, essas experi\u00eancias traum\u00e1ticas em que a libido se teria fixado possuem uma significa\u00e7\u00e3o s\u00e1dico-anal, isto \u00e9, s\u00e3o experi\u00eancias, lembran\u00e7as, que n\u00e3o teriam alcan\u00e7ado uma significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, sexual. Segundo Freud, na neurose obsessiva,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c[\u2026] a organiza\u00e7\u00e3o genital da libido \u00e9 d\u00e9bil e insuficientemente resistente, de modo que, quando o eu come\u00e7a seus esfor\u00e7os defensivos, a primeira coisa que ele consegue fazer \u00e9 lan\u00e7ar a libido de volta, no todo ou em parte, ao n\u00edvel anal-s\u00e1dico, mais antigo\u201d (FREUD, 1926\/1976, p.136).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, por exemplo, a cena de uma rela\u00e7\u00e3o sexual entre os pais pode ser compreendida como uma agress\u00e3o sadomasoquista, ou como coito anal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda quest\u00e3o que aqui se coloca \u00e9 que compreender o significado sexual significa se deparar com a castra\u00e7\u00e3o feminina. Como todo neur\u00f3tico, o obsessivo tem acesso \u00e0 significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, mas, para n\u00e3o ter que se haver com a castra\u00e7\u00e3o feminina, ele acaba por desconhecer a significa\u00e7\u00e3o sexual, f\u00e1lica, regredindo a um modo de satisfa\u00e7\u00e3o s\u00e1dico-anal. Freud deixa bem claro que, na ocasi\u00e3o em que se entra em uma neurose obsessiva, a fase f\u00e1lica j\u00e1 foi alcan\u00e7ada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/download1.png\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"502\" data-large_image_height=\"364\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-473\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/download1.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"218\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/download1.png 502w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/download1-300x218.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">satisfa\u00e7\u00e3o s\u00e1dico-anal castra\u00e7\u00e3o feminina<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, atrav\u00e9s da regress\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 os impulsos agressivos iniciais ser\u00e3o despertados de novo, mas tamb\u00e9m uma propor\u00e7\u00e3o de novos impulsos libidinais ter\u00e1 que seguir o caminho prescrito para eles pela regress\u00e3o e surgir\u00e1, tamb\u00e9m, como tend\u00eancias agressivas destrutivas: \u201cO eu nada poder\u00e1 empreender que n\u00e3o seja atra\u00eddo para a esfera desse conflito\u201d (FREUD, 1926\/1976, p.141).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dessa forma, com o intuito de evitar a castra\u00e7\u00e3o, os impulsos er\u00f3ticos, na neurose obsessiva, tomar\u00e3o o disfarce da agressividade. Como nos diz Freud:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA luta contra a sexualidade, doravante, ser\u00e1 levada sob o estandarte de princ\u00edpios \u00e9ticos. O ego recuar\u00e1 com assombro das instiga\u00e7\u00f5es \u00e0 crueldade e \u00e0 viol\u00eancia n\u00e3o tendo qualquer ideia de que, nelas, est\u00e1 combatendo desejos er\u00f3ticos, inclusive, alguns em rela\u00e7\u00e3o aos quais n\u00e3o teria aberto exce\u00e7\u00e3o alguma\u201d (FREUD, 1926\/1976, p.139).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Freud chama aten\u00e7\u00e3o para o fato de que, no interesse da masculinidade, isto \u00e9, para fugir da castra\u00e7\u00e3o, por vezes toda a atividade que pertence \u00e0 masculinidade \u00e9 paralisada; como observamos, por exemplo, em alguns casos de disfun\u00e7\u00f5es sexuais (impot\u00eancia, ejacula\u00e7\u00e3o precoce, etc.). Nesse contexto, \u201cdevido \u00e0 regress\u00e3o da libido, na neurose obsessiva, o conflito \u00e9 agravado em duas dire\u00e7\u00f5es: as for\u00e7as defensivas se tornam mais intolerantes e as for\u00e7as que devem ser desviadas, se tornam mais intoler\u00e1veis\u201d (FREUD, 1926\/1976, p.140).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O problema \u00e9 que esse mecanismo tamb\u00e9m fracassa no objetivo de evitar a irrup\u00e7\u00e3o das exig\u00eancias pulsionais e, consequentemente, da ang\u00fastia. Por isso, o obsessivo utilizar\u00e1, ainda, outro recurso: as forma\u00e7\u00f5es reativas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Forma\u00e7\u00f5es Reativas<br \/>\nAs forma\u00e7\u00f5es reativas s\u00e3o t\u00e9cnicas auxiliares e substitutas do recalque e da regress\u00e3o, mas que, ao mesmo tempo, os pressup\u00f5em. S\u00e3o elas:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desfazer o que foi feito<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isolar<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desfazer o que foi feito: o sujeito se esfor\u00e7a para dissipar a impress\u00e3o traum\u00e1tica por meio de um simbolismo motor, repetindo, de maneira diferente, o que n\u00e3o aconteceu de forma desejada, fazendo-o como se n\u00e3o tivesse acontecido, ou seja, ele tenta consertar o que julga que aconteceu de maneira errada, repetindo a a\u00e7\u00e3o como se ela n\u00e3o tivesse sido feita. Dessa forma, uma primeira a\u00e7\u00e3o \u00e9 cancelada por uma segunda, de modo que \u00e9 como se nenhuma a\u00e7\u00e3o tivesse ocorrido, ao passo que, na realidade, ambas ocorreram. Freud nos diz que \u00e9 uma tentativa de tornar o pr\u00f3prio passado inexistente. Mas o que acaba por acontecer \u00e9 uma repeti\u00e7\u00e3o infind\u00e1vel de a\u00e7\u00f5es motoras que, no esfor\u00e7o de desfazer a impress\u00e3o traum\u00e1tica, acaba por repeti-la. O que o sujeito repete \u00e9 o fracasso da a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isolar: diante de uma impress\u00e3o traum\u00e1tica, o paciente interpola um intervalo, suas conex\u00f5es associativas s\u00e3o interrompidas, permanecendo isoladas. A experi\u00eancia n\u00e3o \u00e9 esquecida como acontece, por exemplo, na histeria, em que temos a amn\u00e9sia. Ao inv\u00e9s disso, a experi\u00eancia traum\u00e1tica \u00e9 destitu\u00edda de afeto, permanecendo isolada, n\u00e3o sendo reproduzida nos processos comuns do pensamento. O isolamento motor destina-se a assegurar uma interrup\u00e7\u00e3o da liga\u00e7\u00e3o de pensamento, e o efeito acaba sendo o mesmo que o da amn\u00e9sia hist\u00e9rica, com a diferen\u00e7a que, uma vez destitu\u00eddas do afeto, as coisas podem ser ditas, mas n\u00e3o s\u00e3o relacionadas, n\u00e3o s\u00e3o ligadas ao trauma, isto \u00e9, inclu\u00eddas nas associa\u00e7\u00f5es relativas \u00e0 significa\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica. O efeito disso \u00e9 que ficamos impressionados como na neurose obsessiva as coisas podem ser t\u00e3o ditas e, ao mesmo tempo, serem t\u00e3o desconhecidas do pr\u00f3prio sujeito. Isolar, segundo Freud, \u00e9 remover a possibilidade de contato. \u00c9 um m\u00e9todo para evitar que alguma coisa seja tocada, e, quando um paciente isola uma impress\u00e3o interpolando um intervalo, ele permite que se compreenda que n\u00e3o deixar\u00e1 que seus pensamentos entrem em contato associativo com outros pensamentos. Freud observa que \u201cnesse esfor\u00e7o de impedir associa\u00e7\u00f5es e liga\u00e7\u00f5es de pensamento, o eu est\u00e1 obedecendo a uma das ordens mais antigas e fundamentais da neurose obsessiva: o tabu de tocar\u201d (FREUD, 1926\/1976, p.145). Segundo Freud, o toque, ou seja, o contato f\u00edsico, \u00e9 uma finalidade imediata das catexias objetais tanto agressivas como amorosas:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cVisto que a neurose obsessiva come\u00e7a por perseguir o toque er\u00f3tico e, depois, ap\u00f3s ter se verificado a regress\u00e3o, passa a perseguir o toque er\u00f3tico sob a forma de agressividade, depreende-se da\u00ed que nada \u00e9 t\u00e3o fortemente proscrito nessa neurose como tocar, nem t\u00e3o bem adequado para tornar-se o ponto central de um sistema de proibi\u00e7\u00f5es\u201d (FREUD, 1926\/1976, p.145).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fragmento de um caso cl\u00ednico nos demonstra claramente essa estrat\u00e9gia obsessiva: um m\u00fasico que fez um sintoma no bra\u00e7o a partir do qual n\u00e3o podia mais tocar. Isso acontece logo depois da trai\u00e7\u00e3o da namorada que ele idealizava, mantendo por ela um amor sublime que a conservava intocada. Subjacente ao problema do bra\u00e7o, aparece um sintoma de impot\u00eancia como forma de evitar o toque er\u00f3tico. A cena de trai\u00e7\u00e3o lhe remete, depois de alguns anos de an\u00e1lise, a uma cena de inf\u00e2ncia na qual ele escutava os ru\u00eddos provenientes da rela\u00e7\u00e3o sexual entre o padrasto e a m\u00e3e.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A Ang\u00fastia: Um Resto A Concluir<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gostaria de concluir dizendo que, em \u201cInibi\u00e7\u00e3o, sintoma e ang\u00fastia\u201d, Freud, apesar de relacionar a ang\u00fastia com a perda do objeto e n\u00e3o com a presen\u00e7a do objeto, como o far\u00e1 Lacan, mais tarde (1962-1963\/2005), acaba por reconhecer, no decorrer desse texto, que a exig\u00eancia pulsional, ou seja, a imin\u00eancia da satisfa\u00e7\u00e3o, \u00e9 o que faz surgir a ang\u00fastia. Sendo assim, podemo-nos perguntar se a cria\u00e7\u00e3o dos sintomas, na neurose obsessiva, toda essa parafern\u00e1lia que o obsessivo cria, n\u00e3o seria uma tentativa de fugir da ang\u00fastia, sem abrir m\u00e3o da satisfa\u00e7\u00e3o. Para isso, ele se identifica ao sintoma, incorporando-o ao eu, ou seja, dando-lhe uma conforma\u00e7\u00e3o narc\u00edsica, o que lhe custa o pre\u00e7o da anula\u00e7\u00e3o do desejo, tanto dele pr\u00f3prio, como do outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez, seja este o cerne da an\u00e1lise, nos casos de neurose obsessiva: como ir al\u00e9m do narcisismo, como identificar-se ao sintoma sem anular o desejo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<h6 style=\"text-align: justify;\">[1] Texto apresentado nas Li\u00e7\u00f5es Introdut\u00f3rias, atividade do IPSM-MG, em 19\/06\/2012.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">FREUD, Sigmund (1926\/1976). \u201cInibi\u00e7\u00e3o, sintoma e ansiedade\u201d, In: Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro: Imago, vol. XX, p.107-198.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">______ (1917\/1976). \u201cOs caminhos da forma\u00e7\u00e3o dos sintomas\u201d, In: Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro: Imago, vol. XVI, p.419-439.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, Jacques (1960-1961). O Semin\u00e1rio, livro 8: a transfer\u00eancia. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">______ (1962-1963). O Semin\u00e1rio, livro 10: a ang\u00fastia. Rio de Janeiro: Imago, 2005.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Simone Souto<\/strong><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">Psicanalista, Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP) e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP). Diretora da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica do Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental de Minas Gerais- (IPSMMG). E-mail:\u00a0<span id=\"cloak5ea4f08ab68d71fae542014694f5942e\"><a href=\"mailto:ssouto.bhe@gmail.com\">ssouto.bhe@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SIMONE SOUTO\u00a0 A despeito de sua complexidade, se acompanhamos Freud no texto \u201cInibi\u00e7\u00e3o, sintoma e ang\u00fastia\u201d (1926\/1976), acabamos por nos render a seu interesse e entusiasmo ao constatar a import\u00e2ncia do estudo da neurose obsessiva para a compreens\u00e3o dos mecanismos da forma\u00e7\u00e3o do sintoma e sua rela\u00e7\u00e3o com a ang\u00fastia. 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