{"id":48,"date":"2024-02-01T08:01:00","date_gmt":"2024-02-01T10:01:00","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=48"},"modified":"2024-02-01T08:01:00","modified_gmt":"2024-02-01T10:01:00","slug":"o-que-e-o-instituto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2024\/02\/01\/o-que-e-o-instituto\/","title":{"rendered":"O que \u00e9 o Instituto?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">J\u00c9SUS SANTIAGO<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que se imp\u00f5e como princ\u00edpio de orienta\u00e7\u00e3o para a cl\u00ednica psicanal\u00edtica se imp\u00f5e tamb\u00e9m para a pol\u00edtica lacaniana da psican\u00e1lise. Se n\u00e3o h\u00e1 cl\u00ednica sem \u00e9tica, o mesmo acontece com a pol\u00edtica que visa a se constituir como o horizonte que organiza e gere a vida institucional de uma comunidade de analistas. Logo, n\u00e3o h\u00e1 uma pol\u00edtica lacaniana sem \u00e9tica. E isso serve para todos aqueles grupos ou institui\u00e7\u00f5es que tentam se inspirar na pr\u00e1tica institucional exercida por Jacques Lacan durante sua longa trajet\u00f3ria de analista. E qual \u00e9 a \u00e9tica que orienta uma pol\u00edtica lacaniana para o discurso anal\u00edtico?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em artigo publicado no \u00faltimo n\u00famero da revista\u00a0<i>La Cause freudienne<\/i><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/2-uncategorised\/37-o-instituto#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, J.-A. Miller avan\u00e7a a ideia de que uma tal \u00e9tica deveria ser pensada segundo a antinomia entre duas perspectivas distintas: de um lado, a \u201c\u00e9tica da boa inten\u00e7\u00e3o\u201d, que n\u00e3o \u00e9 freudiana e que, sendo uma \u00e9tica da boa-f\u00e9, \u00e9 incompat\u00edvel com o campo freudiano. De outro lado, a \u201c\u00e9tica das consequ\u00eancias\u201d, que sempre se julga pelo ato e, mesmo, por meio do estatuto do ato, por seu valor e por suas consequ\u00eancias. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que essas duas perspectivas \u00e9ticas sempre est\u00e3o presentes como princ\u00edpio para os que se disp\u00f5em a governar e dirigir as iniciativas de uma comunidade de analistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Evidentemente, essas \u00e9ticas aparecem como tend\u00eancias, se efetivam de forma excludente no pr\u00f3prio modo de gest\u00e3o das quest\u00f5es que concernem \u00e0s atividades cotidianas da institui\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica: a forma\u00e7\u00e3o, o recrutamento, a autoriza\u00e7\u00e3o, a garantia, a produ\u00e7\u00e3o, etc. Em outros termos, tenta-se governar com a \u00e9tica da boa inten\u00e7\u00e3o, em que prevalece o culto aos belos princ\u00edpios do que seria uma institui\u00e7\u00e3o, que, supostamente, responderia pelos fundamentos da psican\u00e1lise. \u00c9 poss\u00edvel constatar que uma tal orienta\u00e7\u00e3o permanece, no essencial, inoperante, porque se mostra prisioneira dos limites da figura da \u201cbela-alma\u201d, que, no fundo, \u00e9 impotente para lidar com a complexidade da situa\u00e7\u00e3o na qual estamos todos envolvidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, a \u201c\u00e9tica das consequ\u00eancias\u201d busca se fiar na dimens\u00e3o pol\u00edtica de um ato que, ao assumir as tarefas de dire\u00e7\u00e3o, procura, necessariamente, incluir o Outro. Essa inclus\u00e3o do Outro quer dizer que, se a quest\u00e3o dos princ\u00edpios e fundamentos do conceito de Escola importa muito, \u00e9 preciso, entretanto, dar sequ\u00eancia ao momento l\u00f3gico do ato, pelo qual se pode instaurar algo novo no real de uma comunidade de analistas. \u00c9 s\u00f3 observar o que, nos \u00faltimos anos, temos feito com rela\u00e7\u00e3o ao discurso anal\u00edtico: mais do que belos discursos sobre a institui\u00e7\u00e3o ideal, temos, na verdade, dado provas de uma a\u00e7\u00e3o que visa a injetar novos elementos nesse real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num primeiro momento, foram as Jornadas Cl\u00ednicas e a ideia de que o analista deve se despojar de sua enfatua\u00e7\u00e3o, dando testemunho daquilo que ele faz em sua pr\u00e1tica cl\u00ednica. E, nesse mesmo tempo, institu\u00edmos entre n\u00f3s a pr\u00e1tica de produ\u00e7\u00e3o, proposta por Lacan, dos cart\u00e9is. No momento seguinte, assumimos a empreitada de dissolver os grupos e p\u00f4r em quest\u00e3o a l\u00f3gica dos chefes e l\u00edderes e passamos \u00e0 funda\u00e7\u00e3o da Escola. E, o que n\u00e3o poderia ser diferente, quase imediatamente criamos o passe de entrada como uma forma de reconhecer que a autoriza\u00e7\u00e3o do analista passa, necessariamente, por sua pr\u00f3pria experi\u00eancia de an\u00e1lise, e que uma Escola deve saber acolh\u00ea-la. Exatamente neste momento, estamos \u00e0s voltas com o ato de consecu\u00e7\u00e3o do Instituto e de sua Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A proposta do Instituto surge nos rastros da insist\u00eancia de Jacques Lacan em criar um Departamento de Psican\u00e1lise no contexto do ambiente universit\u00e1rio, no final da d\u00e9cada de 60. Isso desaguou no que todos conhecem como Departamento de Psican\u00e1lise da Universidade de Paris-VIII. Em 1975, ele realiza uma esp\u00e9cie de refunda\u00e7\u00e3o e renova\u00e7\u00e3o desse Departamento e, em 1976, cria os cursos e respectivos diplomas do DEA (um equivalente ao nosso mestrado) e do doutorado. Em 1977, surge a Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica. O pr\u00f3prio Miller afirma que, se ele inventou o \u201cInstituto foi para prosseguir, na Fran\u00e7a e em outros lugares, esta via que n\u00e3o \u00e9 outra sen\u00e3o a de Lacan\u201d<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/2-uncategorised\/37-o-instituto#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. E a pergunta que emerge, a partir da\u00ed, \u00e9 a seguinte: se j\u00e1 se tem a Escola de Lacan, por que seria necess\u00e1rio criar o Instituto? Qual \u00e9 a dial\u00e9tica que se instaura entre o ato de funda\u00e7\u00e3o, que promoveu uma iniciativa institucional e outra? Trata-se, simplesmente, de espa\u00e7os institucionais geogr\u00e1ficos distintos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Claro que n\u00e3o! Na verdade, estamos diante de duas l\u00f3gicas de funcionamento que se justificam por princ\u00edpios essencialmente distintos. E o ponto de partida dessa distin\u00e7\u00e3o \u00e9 o fato de que o discurso anal\u00edtico tende, invencivelmente, ele mesmo, a se destruir. A tese da autofagia pr\u00f3pria do discurso anal\u00edtico se justifica em fun\u00e7\u00e3o de que \u00e9 o saber suposto que alimenta e sustenta a psican\u00e1lise, e que \u00e9 esse mesmo saber que, por dentro, o corr\u00f3i. Essa forma espec\u00edfica do saber anal\u00edtico, que est\u00e1 na base da experi\u00eancia anal\u00edtica, \u00e9 o que anima a exist\u00eancia da Escola e o que permite ter como seu sustent\u00e1culo b\u00e1sico o dispositivo do passe. O passe existe apenas porque a experi\u00eancia anal\u00edtica secreta essa forma de saber, cuja l\u00f3gica \u00e9 aquela da resson\u00e2ncia do saber que se transmite pela via do trabalho de transfer\u00eancia. O saber suposto \u00e9 o que se motiva e se produz por interm\u00e9dio da transfer\u00eancia e, como modo de saber, ele est\u00e1 genuinamente ancorado na experi\u00eancia anal\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se o funcionamento da Escola se funda e se orienta pelo saber suposto e pela experi\u00eancia do passe, o Instituto, por sua vez, se baseia no saber exposto e naquilo que, no dom\u00ednio da psican\u00e1lise, lhe \u00e9 caracter\u00edstico, isto \u00e9, o matema. O Instituto \u00e9, portanto, o lugar em que predomina o saber exposto, o \u00fanico capaz de colocar limite ao processo inexor\u00e1vel de autofagia do saber suposto, pr\u00f3prio do discurso anal\u00edtico. \u00c9 por isso mesmo que se diz que o Instituto \u00e9 o aguilh\u00e3o da Escola. Ele \u00e9 o aguilh\u00e3o da Escola \u00e0 medida que, ao empunhar e priorizar a l\u00f3gica da argumenta\u00e7\u00e3o, em detrimento daquela da resson\u00e2ncia, ele estimula, por excel\u00eancia, a transfer\u00eancia de trabalho \u2014 transfer\u00eancia que apenas pode se personificar na demonstra\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do saber exposto. Nessa distin\u00e7\u00e3o entre o passe e o matema, saber suposto e saber exposto, entre a l\u00f3gica da resson\u00e2ncia e a da argumenta\u00e7\u00e3o, transmiss\u00e3o e demonstra\u00e7\u00e3o, o Instituto assume suas fei\u00e7\u00f5es de algo que permanecer\u00e1 para sempre como at\u00f3pico. \u201cEnquanto que a Escola se particulariza, esposando os contornos de cada cidade, regi\u00e3o, pa\u00eds, o Instituto, em qualquer lugar que exista, tenta ser o mesmo, tal como o matema\u201d<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/2-uncategorised\/37-o-instituto#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/2-uncategorised\/37-o-instituto#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0MILLER, J.-A. \u201cL\u2019acte entre intention et consequence\u201d. In:\u00a0<strong>La Cause freudienne<\/strong>, Politique lacanienne, n\u00ba 42.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/2-uncategorised\/37-o-instituto#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a>\u00a0MILLER, J.-A. \u201cOuverture de la surprise \u00e0 l\u2019\u00e9nigme\u201d. In:\u00a0<strong>IRMA-Le Conciliabule d\u2019 Angers<\/strong>: Effets de surprise dans les psychoses. Paris: Agalma, 1997, p. 13.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/2-uncategorised\/37-o-instituto#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a>\u00a0<i>Ibid<\/i>.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00c9SUS SANTIAGO O que se imp\u00f5e como princ\u00edpio de orienta\u00e7\u00e3o para a cl\u00ednica psicanal\u00edtica se imp\u00f5e tamb\u00e9m para a pol\u00edtica lacaniana da psican\u00e1lise. 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