{"id":564,"date":"2012-08-17T06:51:47","date_gmt":"2012-08-17T09:51:47","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=564"},"modified":"2012-08-17T06:51:47","modified_gmt":"2012-08-17T09:51:47","slug":"o-que-e-que-tem-um-corpo-e-nao-existe-resposta-o-grande-outro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2012\/08\/17\/o-que-e-que-tem-um-corpo-e-nao-existe-resposta-o-grande-outro\/","title":{"rendered":"O Que \u00c9 Que Tem Um Corpo E N\u00e3o Existe? Resposta: O Grande Outro"},"content":{"rendered":"<h6>SANDRA ESPINHA<\/h6>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p><strong>O Outro Que N\u00e3o Existe<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 no contexto do Semin\u00e1rio, livro 17: o avesso da psican\u00e1lise (1969-1970\/1992), em que Lacan define o \u201ccampo lacaniano\u201d como o campo do gozo estruturado pelos discursos como la\u00e7os sociais, que se encontra a cita\u00e7\u00e3o que d\u00e1 t\u00edtulo a este trabalho (LACAN, 1969-1970\/1992, p.62).<\/p>\n<p>Segundo Miller, com os quatro discursos, Lacan introduz, em seu ensino, a ideia de uma \u201crela\u00e7\u00e3o primitiva e origin\u00e1ria\u201d entre o significante e o gozo (MILLER, 2000, 95), que implica sua ren\u00fancia \u00e0 autonomia do simb\u00f3lico. O gozo \u00e9 apresentado como o ponto de inser\u00e7\u00e3o do aparelho significante, que veicula tanto o sujeito barrado como uma falta, quanto o gozo como uma perda. O acento passa a incidir sobre o significante como aparelho de gozo e sobre a repeti\u00e7\u00e3o como retorno do gozo.<\/p>\n<p>\u201cO discurso \u2014 diz Lacan \u2014 toca nisso sem cessar, posto que \u00e9 dali que ele se origina. E o agita de novo, desde que tenta retornar a essa origem\u201d (LACAN, 1969-1970\/1992, p.66). Lacan formula, ent\u00e3o, que \u201cn\u00e3o h\u00e1 discurso \u2014 e n\u00e3o apenas o anal\u00edtico \u2014 que n\u00e3o seja do gozo\u201d e que \u201co saber \u00e9 um meio de gozo\u201d (LACAN, 1969-1970\/1992, p.74). O significante \u00e9 n\u00e3o apenas causa do gozo, mas emerge dele.<\/p>\n<p>A ordem simb\u00f3lica torna-se impens\u00e1vel sem essa conex\u00e3o com o gozo e sem um retorno ao corpo, uma vez que o corpo \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o do gozo. O significante \u00e9 apresentado como suscet\u00edvel de se materializar no corpo, e Lacan faz do fantasma \u201cUma crian\u00e7a \u00e9 espancada\u201d uma articula\u00e7\u00e3o significante que n\u00e3o realiza um efeito de verdade, mas de gozo. Por meio dessa frase fantasm\u00e1tica, o sujeito \u201crecebe sua mensagem sob a forma invertida \u2014 aqui, isto quer dizer seu gozo sob a forma do gozo do Outro\u201d (LACAN, 1969-1970\/1992, p.62).<\/p>\n<p>No semin\u00e1rio O Outro que n\u00e3o existe e seus comit\u00eas de \u00e9tica, Miller afirma que Lacan substitui o grande Outro pela estrutura do discurso, ap\u00f3s reconhecer sua estrutura de fic\u00e7\u00e3o e sua consist\u00eancia apenas como la\u00e7o entre os sujeitos que falam. O Outro que n\u00e3o existe traduz esse estatuto inconsistente do Outro, reduzido ao semblante, do qual resta apenas o seu significante \u2014 S(A). \u201cO Outro, do qual dizemos que n\u00e3o existe [\u2026] n\u00e3o \u00e9 da ordem do real\u201d, diz Miller (2005a, p.121), o real \u00e9 o gozo.<\/p>\n<p>A estrutura\u00e7\u00e3o dos quatro discursos \u00e9 uma nova edi\u00e7\u00e3o do Outro \u201ccomo estrutura no real\u201d (MILLER, 2005a, p.115), ou seja, como o que \u201cassegura a conjun\u00e7\u00e3o do significante e do significado e a rela\u00e7\u00e3o com o referente\u201d (MILLER, 2005a, p.121) e funda o la\u00e7o social. Essa inclus\u00e3o do real na estrutura do discurso apresenta a inexist\u00eancia do Outro, n\u00e3o como antin\u00f4mica do real, mas correlativa deste.<\/p>\n<p>A no\u00e7\u00e3o de discurso unifica o que Lacan havia formalizado, em dois tempos, sob os nomes de aliena\u00e7\u00e3o e separa\u00e7\u00e3o, como a matriz l\u00f3gica do inconsciente. Por interm\u00e9dio da aliena\u00e7\u00e3o, definida como um processo simb\u00f3lico de identifica\u00e7\u00e3o significante do sujeito, que comporta uma perda, Lacan concebe o recalque freudiano. A separa\u00e7\u00e3o, por sua vez, \u00e9 uma irrup\u00e7\u00e3o de gozo, \u00e9 o momento pulsional pelo qual a puls\u00e3o \u00e9 apresentada como resposta ao recalque. A separa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma resposta de gozo correlativa da opera\u00e7\u00e3o puramente simb\u00f3lica da aliena\u00e7\u00e3o. Nesse momento do ensino de Lacan, o gozo \u00e9 modelado a partir do sujeito, e o inconsciente \u00e9 descrito sob o modelo da puls\u00e3o como uma borda que se abre e se fecha. Por meio do mito da lam\u00ednula, a libido passa a ser definida \u201cn\u00e3o mais como desejo significado [\u2026], mas libido como \u00f3rg\u00e3o, objeto perdido e matriz de todos os objetos perdidos\u201d (MILLER, 2000, p.94).<\/p>\n<p><strong>Uma Extra\u00e7\u00e3o Corporal: A Libra De Carne<\/strong><\/p>\n<p>A fun\u00e7\u00e3o da separa\u00e7\u00e3o, que encontra seu desenvolvimento no bin\u00e1rio aliena\u00e7\u00e3o-separa\u00e7\u00e3o, \u00e9 introduzida no Semin\u00e1rio 10: a ang\u00fastia como uma separa\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os e promove a queda da primariedade do falo simb\u00f3lico como paradigma da passagem de um \u00f3rg\u00e3o do corpo ao significante. A concep\u00e7\u00e3o da libido como um \u00f3rg\u00e3o e novo paradigma do objeto perdido substitui o falo em causa na castra\u00e7\u00e3o. Como \u00f3rg\u00e3o perdido, a libido n\u00e3o \u00e9 separada pela castra\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 o resultado de uma perda em que n\u00e3o h\u00e1 um agente. Isso significa que, nesse momento do ensino de Lacan, \u201co princ\u00edpio da ang\u00fastia de castra\u00e7\u00e3o [\u2026] n\u00e3o se inscreve no \u00c9dipo\u201d (MILLER, 2005b, p.35), mas se situa no n\u00edvel do \u00f3rg\u00e3o como tal. Lacan faz da detumesc\u00eancia do \u00f3rg\u00e3o, ou seja, do apagamento da fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica no ato sexual, o princ\u00edpio da ang\u00fastia de castra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo Miller, no Semin\u00e1rio 10, ao visar a um status do objeto anterior \u00e0 lei e ao desejo, anterior \u00e0 sua simboliza\u00e7\u00e3o f\u00e1lica e \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o paterna, Lacan realiza uma \u201cdes-edipianiza\u00e7\u00e3o\u201d da castra\u00e7\u00e3o. A fun\u00e7\u00e3o da separa\u00e7\u00e3o realiza a disjun\u00e7\u00e3o do \u00c9dipo e da castra\u00e7\u00e3o e, \u201csimultaneamente, abre o cat\u00e1logo dos objetos a\u201d (MILLER, 2005b, p.40).<\/p>\n<p>A ang\u00fastia, cuja defini\u00e7\u00e3o como sinal do real passa a prevalecer sobre a sua no\u00e7\u00e3o de signo do desejo do Outro, torna-se a via utilizada para aceder a esse objeto real, cujo paradigma \u00e9 o seio, objeto de satisfa\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o, ou seja, objeto de uma satisfa\u00e7\u00e3o que \u00e9 gozo. O \u00c9dipo surge, ent\u00e3o, como uma elucubra\u00e7\u00e3o de saber sobre a separa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 do registro de uma automutila\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para Miller, o Semin\u00e1rio 10 constitui um corte no ensino de Lacan em rela\u00e7\u00e3o ao objeto e ao corpo. Nele, Lacan deixa de lado a forma especular unit\u00e1ria do corpo e interessa-se pelas suas descri\u00e7\u00f5es realistas e anat\u00f4micas, opondo \u00e0 no\u00e7\u00e3o de tra\u00e7o, como o que transforma o corpo em significante, a no\u00e7\u00e3o de corte, que, ao contr\u00e1rio, separa um resto que \u00e9 gozo, um resto-\u00f3rg\u00e3o. \u201cO objeto a \u00e9 elaborado essencialmente como uma pura e simples extra\u00e7\u00e3o corporal\u201d (MILLER, 2005b, p.66). Nesse semin\u00e1rio, pode-se ler, com Lacan, o seguinte:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>O que nos interessa nessa quest\u00e3o, e ao qual \u00e9 preciso reduzir a dial\u00e9tica da causa, n\u00e3o \u00e9 o corpo participante em sua totalidade. [\u2026] mas \u00e9 que sempre h\u00e1 no corpo, em virtude desse engajamento na dial\u00e9tica significante, algo de separado, algo de sacrificado, algo de inerte, que \u00e9 a libra de carne (LACAN, 1962-1963\/2005, p.242).<\/em><\/p>\n<p>E, ainda, sobre essa fun\u00e7\u00e3o da causa:<\/p>\n<p><em>Pois bem, se essa causa se revela t\u00e3o irredut\u00edvel, \u00e9 na medida em que [\u2026] \u00e9 id\u00eantica em sua fun\u00e7\u00e3o ao que lhes venho ensinando a delimitar e manejar, este ano, como a parte de n\u00f3s mesmos, a parte de nossa carne que permanece necessariamente aprisionada na m\u00e1quina formal, sem o que o formalismo l\u00f3gico, para n\u00f3s, n\u00e3o seria absolutamente nada. [\u2026] N\u00f3s lhe damos n\u00e3o simplesmente a mat\u00e9ria, n\u00e3o apenas nosso ser de pensamento, mas o peda\u00e7o carnal arrancado de n\u00f3s mesmos. [\u2026] \u00c9 essa parte de n\u00f3s que \u00e9 aprisionada na m\u00e1quina e fica irrecuper\u00e1vel para sempre. Objeto perdido nos diferentes n\u00edveis da experi\u00eancia corporal em que se produz seu corte, \u00e9 ela que constitui o suporte, o substrato aut\u00eantico, de toda fun\u00e7\u00e3o da causa. Essa parte corporal de n\u00f3s \u00e9, essencialmente e por fun\u00e7\u00e3o, parcial. Conv\u00e9m lembrar que ela \u00e9 corpo e que somos objetais, o que significa que n\u00e3o somos objetos do desejo sen\u00e3o como corpo (LACAN, 1962-1963\/2005, p.237).<\/em><\/p>\n<p><strong>O Corpo Para Al\u00e9m Do Especular<\/strong><\/p>\n<p>Lacan inventa uma nova esp\u00e9cie de objeto cujo estatuto determina um outro corpo que aquele do est\u00e1gio do espelho [corpo = i(a)] ou que o corpo significantizado do esquema \u00f3tico [corpo = I(A) \uf0de i(a)]. O objeto a \u00e9, no Semin\u00e1rio 10, particularmente, corporal. Aqui, a libra de carne \u00e9 um peda\u00e7o do corpo que o sujeito precisa entregar como garantia da ordem significante. O \u00f3rg\u00e3o a ser perdido n\u00e3o \u00e9 o \u00f3rg\u00e3o transformado em significante, mas \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o gozo, um resto real. O gozo \u00e9 liberado de sua arma\u00e7\u00e3o significante, f\u00e1lica, e o objeto a \u00e9 apresentado como n\u00e3o especulariz\u00e1vel, como objeto da ang\u00fastia. Sua intrus\u00e3o no campo visual, cuja consist\u00eancia sup\u00f5e o Nome-do-Pai e a castra\u00e7\u00e3o [i(a)\/-\uf06a], produz apari\u00e7\u00f5es ansiog\u00eanicas (MILLER, 2005b, p.63).<\/p>\n<p>A separa\u00e7\u00e3o do objeto real incide n\u00e3o sobre o corpo imagin\u00e1rio ou \u201cvisual\u201d do espelho, mas sobre o corpo libidinal, o corpo das zonas er\u00f3genas. O Um do corpo da boa forma d\u00e1 lugar ao corpo do informe (MILLER, 2005b, p.64). O Semin\u00e1rio 10 fornece uma nova descri\u00e7\u00e3o dos objetos parciais. O seio, que, no Semin\u00e1rio 4: as rela\u00e7\u00f5es de objeto, era descrito como um objeto da necessidade, tornado simb\u00f3lico, objeto do dom ou signo do amor do Outro, passa a ser concebido como um objeto da crian\u00e7a e n\u00e3o da m\u00e3e. O seio \u00e9 um objeto separado da crian\u00e7a que \u00e9 \u201caplicado, implantado na m\u00e3e\u201d (LACAN, 1962-1963\/2005, p.256). Da\u00ed, essa topologia estranha do corpo, que n\u00e3o se reduz a um esquema de duas dimens\u00f5es, que n\u00e3o \u00e9 mais estruturado como um dentro\/fora ou como o face a face do espelho, pois, como diz Lacan, \u201c[\u2026] o que mais existe de mim est\u00e1 do lado de fora, n\u00e3o tanto porque eu o tenha projetado, mas por ter sido cortado de mim [\u2026]\u201d (LACAN, 1962-1963\/2005, \/p.246).<\/p>\n<p><strong>Ter Um Corpo<\/strong><\/p>\n<p>Lacan apresenta o corpo como alguma coisa que necessita sempre de um princ\u00edpio de articula\u00e7\u00e3o para sustentar-se, formalizando-o de v\u00e1rias maneiras no percurso de seu ensino. \u201cPara Lacan, o corpo \u00e9 o resultado de uma constru\u00e7\u00e3o que se realiza em um ponto exterior ao sujeito [\u2026]. O corpo \u00e9 alguma coisa que se constitui fora e que \u00e9 apossado pelo sujeito\u201d (MANDIL, 2010, p.6).<\/p>\n<p>O corpo n\u00e3o \u00e9 uma evid\u00eancia inaugural, ele \u00e9 segundo em rela\u00e7\u00e3o ao organismo vivente. Ele n\u00e3o \u00e9 um dado da natureza, mas um produto transformado pelo discurso. O organismo, tornado corpo, pode ser abordado pelo Um de sua forma, do lado da imagem, mas tamb\u00e9m a partir do Um do gozo, do lado dos buracos de suas zonas er\u00f3genas pulsionais. Pelo Um de sua forma, o corpo se separa do organismo, e pelo Um de seu gozo, ele \u00e9 um organismo que \u201cdesliza at\u00e9 seu verdadeiro limite, que vai mais longe que o do corpo\u201d (LACAN, 1998, p.862). Se, de um lado, \u00e9 o corpo que oferece sua mat\u00e9ria ao significante e se transforma em significante, de outro, \u00e9 o significante que se materializa no corpo. Temos uma \u201csignificantiza\u00e7\u00e3o\u201d do corpo e uma \u201ccorporiza\u00e7\u00e3o\u201d do significante (MLLER, 2004, p. 65)<\/p>\n<p>No ensino do Lacan, o corpo \u00e9 um efeito da linguagem, ele \u00e9 \u201co leito do Outro\u201d. Em \u201cRadiofonia\u201d (1970\/2003), o corpo \u00e9 feito \u201cdeserto de gozo\u201d ou superf\u00edcie na qual se inscrevem os tra\u00e7os mortos de um gozo perdido, mas ele \u00e9 tamb\u00e9m buraco ou borda corporal, por meio da qual o gozo \u00e9 cativado para fora do corpo por objetos que o condensam e que s\u00e3o pe\u00e7as separadas do corpo: seio, fezes, olhar e voz. Mortificado pelo significante, o corpo se confunde com o Outro, com o corpo do simb\u00f3lico, mas ele \u00e9 tamb\u00e9m gozo pulsional, que busca restaurar o que lhe resta de vida na parcialidade dos objetos. Entre ambos, o encontro ser\u00e1 para sempre faltoso.<\/p>\n<p>Diz Lacan, em \u201cRadiofonia\u201c:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>Volto ao primeiro corpo do simb\u00f3lico, que conv\u00e9m entender como nenhuma met\u00e1fora. Prova disso \u00e9 que nada sen\u00e3o ele isola o corpo, a ser tomado no sentido ing\u00eanuo, isto \u00e9, aquele sobre o qual o ser que nele se ap\u00f3ia n\u00e3o sabe que \u00e9 a linguagem que lho confere, a tal ponto que ele n\u00e3o existiria, se n\u00e3o pudesse falar. O primeiro corpo faz o segundo, por se incorporar nele. Da\u00ed o incorp\u00f3reo que fica marcando o primeiro, desde o momento seguinte \u00e0 sua incorpora\u00e7\u00e3o. [\u2026] Mas \u00e9 incorporada que a estrutura faz o afeto, nem mais nem menos, afeto a ser tomado apenas a partir do que se articula do ser, s\u00f3 tendo ali ser de fato, por ser dito de algum lugar. [\u2026] O corpo, a lev\u00e1-lo a s\u00e9rio, \u00e9, para come\u00e7ar, aquilo que pode portar a marca adequada para situ\u00e1-lo numa sequ\u00eancia de significantes. A partir dessa marca, ele \u00e9 suporte da rela\u00e7\u00e3o, n\u00e3o eventual, mas necess\u00e1ria, pois subtrair-se dela continua a ser sustent\u00e1-la (LACAN, 1970\/2003, p.406).<\/em><\/p>\n<p>Tem-se, aqui, a tese de Lacan de que \u00e9 a linguagem que, ao se incorporar, nos concede um corpo. O Outro \u00e9 definido como um corpo simb\u00f3lico pr\u00e9vio \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o do corpo como tal, que, sendo segundo, s\u00f3 se sustenta pela marca necess\u00e1ria que o situa em uma sequ\u00eancia de significantes. S\u00f3 tem corpo, s\u00f3 toma posse de seu corpo o ser cujo corpo foi concedido pela linguagem. O corpo do ser falante \u00e9 da ordem de uma incorpora\u00e7\u00e3o da qual se trata de tomar posse, o que o uso dos pronomes possessivos \u201cmeu\u201d, \u201cteu\u201d, quando nos referimos ao corpo, \u00e9 uma indica\u00e7\u00e3o. Essa apropria\u00e7\u00e3o, no entanto, n\u00e3o se realiza inteiramente, pois, uma vez incorporado, o grande Outro permanece incorp\u00f3reo, restando dele apenas o seu significante: S(A).<\/p>\n<p><strong>O \u00d3rg\u00e3o Incorporal Da Libido E O Circuito Autoer\u00f3tico Da Puls\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A admiss\u00e3o do corpo no simb\u00f3lico transforma-o em significante. O corpo perde seu ser de vivente e ganha a perenidade que a mortifica\u00e7\u00e3o significante da vida lhe confere. A admiss\u00e3o do simb\u00f3lico no corpo \u00e9, todavia, outra coisa. Lacan a traduz como a cria\u00e7\u00e3o de um novo \u00f3rg\u00e3o, o \u00f3rg\u00e3o incorporal da libido, definido, no Semin\u00e1rio 11, como um \u00f3rg\u00e3o irreal, \u201cde modo algum imagin\u00e1rio\u201d, mas articulado ao real, ou seja, pass\u00edvel de se encarnar. A tatuagem \u00e9 o exemplo que Lacan d\u00e1 da encarna\u00e7\u00e3o desse \u00f3rg\u00e3o irreal no corpo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>O entalhe tem muito bem a fun\u00e7\u00e3o de ser para o Outro, de l\u00e1 situar o sujeito, marcando seu lugar no campo das rela\u00e7\u00f5es do grupo [\u2026] ao mesmo tempo, ela (tatuagem) tem, de maneira evidente, uma fun\u00e7\u00e3o er\u00f3tica [\u2026] (LACAN, 1964\/1985, p.195).<\/em><\/p>\n<p>A libido \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o incorporal que estende o ser do organismo a um limite que vai mais al\u00e9m dos limites do corpo. Aqui, o termo organismo \u00e9 utilizado por Lacan para significar a libido como o que resta de vida ao corpo mortificado pelo significante. Ao tornar-se corpo, o significante fragmenta seu gozo, localizando-o nas zonas er\u00f3genas, fontes da puls\u00e3o, e condensando-o, fora do corpo, nesse incorp\u00f3reo que \u00e9 o objeto a. Designado por uma letra, \u00edndice de um imposs\u00edvel de ser simbolizado, esse objeto, pelo gozo que condensa, \u00e9 o mais substancial do corpo, embora n\u00e3o tenha a sua materialidade. Concebido como imaginariz\u00e1vel, mas sem imagem e sem significante que o represente, o objeto a n\u00e3o faz parte da realidade corporal. Agora, sua consist\u00eancia deixa de ser corporal para tornar-se puramente l\u00f3gica.<\/p>\n<p>No esquema lacaniano da puls\u00e3o, o ser do organismo libidinal \u00e9 uma esp\u00e9cie de pseud\u00f3pode que, mais al\u00e9m da realidade do corpo, estende-se sobre o campo do Outro, do qual se serve para contornar o objeto e retornar sobre o mais-de-gozar do corpo pr\u00f3prio. O trajeto significante da puls\u00e3o desenha o vazio mediador do objeto que articula esses significantes entre si. Aqui, n\u00e3o se trata do corpo deduzido a partir da imagem, mas a partir da forma pulsional do buraco do objeto, em uma rela\u00e7\u00e3o direta do simb\u00f3lico com o real, que n\u00e3o passa pela imagem. Esse esquema comporta o autoerotismo da puls\u00e3o, o objeto sendo apenas o meio da via de retorno da puls\u00e3o sobre ela mesma, um lugar vazio que pode ser ocupado por objetos diversos. Se o desejo \u00e9 o desejo do Outro, \u201ca puls\u00e3o \u00e9 a puls\u00e3o do Um\u201d (MILLER, 2011, aula 12). O Outro, \u201cnesse n\u00edvel, pode-se dizer que sua inexist\u00eancia \u00e9 verdadeiramente saliente\u201d (MILLER, 2011, aula 15). A puls\u00e3o n\u00e3o necessita da presen\u00e7a dos corpos e, embora seu territ\u00f3rio possa estender-se at\u00e9 os limites do universo da cultura, sobre o conjunto das representa\u00e7\u00f5es que a meton\u00edmia da linguagem torna poss\u00edvel, ela n\u00e3o d\u00e1 nenhum acesso ao gozo do Outro.<\/p>\n<p>A defini\u00e7\u00e3o lacaniana da puls\u00e3o como o \u201ceco no corpo do fato de que h\u00e1 o dizer\u201d faz alus\u00e3o n\u00e3o apenas a esse retorno sobre o corpo, mas \u00e0 sua insist\u00eancia. A puls\u00e3o fala sozinha e diz sempre a mesma coisa: \u201ch\u00e1 Um\u201d. O dizer se distingue dos ditos, que se edificam da dimens\u00e3o da verdade. O dizer \u00e9 o ato de produzir os ditos.<\/p>\n<p>Em \u201cRadiofonia\u201d (1970\/2003), ao inv\u00e9s de se referir \u00e0 aliena\u00e7\u00e3o-separa\u00e7\u00e3o, Lacan resume a entrada do sujeito e seu corpo na linguagem com a opera\u00e7\u00e3o de incorpora\u00e7\u00e3o, fazendo corresponder \u00e0 intrus\u00e3o significante a extrus\u00e3o do gozo (LACAN, 1970\/2003, p.407).<\/p>\n<p>Na ordem simb\u00f3lica, os significantes falam aos significantes, e o sujeito est\u00e1 ausente, mantendo-se fora da vida e fora do corpo, sob as formas da verdade e do desejo (MILLER, 2000, p.97). Quanto ao corpo, o significante surte efeitos, n\u00e3o de representa\u00e7\u00e3o, mas de afeto. Seu efeito maior \u00e9 o afeto da ang\u00fastia, concebido por Lacan como sendo n\u00e3o do sujeito, mas do corpo. A ang\u00fastia \u00e9 o tra\u00e7o deixado pela afeta\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica essencial, que \u00e9 incid\u00eancia da l\u00edngua sobre o corpo. Para Lacan, \u201c[\u2026] o n\u00facleo do acontecimento traum\u00e1tico n\u00e3o \u00e9 relacion\u00e1vel a um acidente, mas \u00e0 possibilidade mesma do acidente que deixa tra\u00e7os de afeta\u00e7\u00e3o\u201d (MILLLER, 2000, p.53). Portanto,<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>[\u2026] n\u00e3o \u00e9 a sedu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 a amea\u00e7a de castra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 a perda do amor, n\u00e3o \u00e9 a observa\u00e7\u00e3o do coito parental, n\u00e3o \u00e9 o \u00c9dipo que \u00e9 o princ\u00edpio do acontecimento fundamental, tra\u00e7ador de afeta\u00e7\u00e3o, por\u00e9m a rela\u00e7\u00e3o com a l\u00edngua (MILLLER, 2004, p.53).<\/em><\/p>\n<p>O corpo \u00e9 feito \u201ctabuleiro de jogo\u201d onde a disputa \u00e9 travada com as cartas do significante em seus efeitos de significado e de afeto. Foi com esse corpo disputado entre dois mestres que Freud come\u00e7ou. O corpo da hist\u00e9rica, apresentado no sintoma conversivo, \u00e9 o corpo disputado entre a autoconserva\u00e7\u00e3o e o gozo pulsional fragmentado, entre as puls\u00f5es do eu e as puls\u00f5es sexuais. No exemplo freudiano da cegueira hist\u00e9rica, um \u00f3rg\u00e3o, o olho, \u201ccessa de obedecer ao saber do corpo [\u2026] para tornar-se suporte de um se gozar\u201d (MILLLER, 2004, p.48). O olho \u00e9 separado de sua fun\u00e7\u00e3o de vis\u00e3o para consagrar-se ao gozo do olhar. Miller, aqui, distingue dois corpos. De um lado, o corpo-prazer ou o corpo-eu, que \u00e9 um corpo que sabe o que \u00e9 necess\u00e1rio para sobreviver e que \u00e9 regulado pelo prazer; de outro, o corpo-gozo, que \u00e9 um corpo libidinal, que n\u00e3o obedece ao eu e n\u00e3o \u00e9 o corpo de um prazer regulado, mas de um prazer que ultrapassa ou elimina a finalidade vital, tornando-se gozo.<\/p>\n<p><strong>Lal\u00edngua: O Um Que Existe E O Corpo Vivo<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 sob essas coordenadas que Miller afirma ser poss\u00edvel dar vida \u00e0 defini\u00e7\u00e3o do \u201csinthoma\u201d como acontecimento de corpo. No final de seu ensino, Lacan parte da evid\u00eancia de que \u201ch\u00e1 o gozo\u201d como propriedade de um corpo vivo e que fala. O corpo \u00e9 introduzido como subst\u00e2ncia, mas apenas na condi\u00e7\u00e3o de que esta seja definida como aquilo de que se goza, ou seja, como subst\u00e2ncia gozante. O corpo \u00e9 o lugar do gozo em oposi\u00e7\u00e3o ao sujeito sem subst\u00e2ncia da falta-a-ser. O homem, feito sujeito do significante, n\u00e3o pode identificar seu ser com seu corpo. Essa implica\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o no sintoma faz Lacan substituir o sujeito pelo falasser, que inclui o corpo e que \u00e9 coerente com a no\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o h\u00e1 sentido que n\u00e3o seja do gozo, nem significante que n\u00e3o esteja conectado \u00e0 puls\u00e3o. \u201cO falasser \u00e9 aquele que por falar sup\u00f5e um ser ao corpo que ele tem, sup\u00f5e um ser ao ter, e seu ter essencial \u00e9 o corpo\u201d, n\u00e3o \u00e9 o falo. O falasser \u00e9 \u201co que apenas tem um corpo\u201d (MILLER, 2011, aula 14). O falasser \u00e9 o que fala com seu corpo.<\/p>\n<p>Essa primazia do gozo conduz ao Um-totalmente-s\u00f3, separado do Outro (MILLER, 2000, p.103) e que fala para si pr\u00f3prio com a puls\u00e3o. Fundamentalmente, o gozo \u00e9 o gozo do corpo pr\u00f3prio e, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 falta-a-ser do desejo, que \u00e9 do Outro que n\u00e3o existe, o gozo \u00e9 o que existe. A falta est\u00e1 no n\u00edvel do ser, enquanto que o gozo \u00e9 do registro da exist\u00eancia (MILLER, 2011, aula 12). O \u201ch\u00e1 Um\u201d, do gozo que existe, \u00e9 o correlato da inexist\u00eancia do Outro. Ele \u00e9 o significante pensado fora dos efeitos de sentido e concebido como gozo.<\/p>\n<p>A partir de uma abordagem generalizada da psicose, Lacan faz do real o que \u201cforaclui o sentido\u201d, sobre o qual ele tem primazia. O simb\u00f3lico \u00e9 definido n\u00e3o como uma articula\u00e7\u00e3o, mas como um buraco no real. Aqui, a tese lacaniana \u00e9 a de que esse furo no real, constitutivo da aus\u00eancia do Outro do Outro, \u00e9 o suporte do inconsciente (MILLER, 2010, p.93). A estrutura da linguagem aparece como derivada em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 inven\u00e7\u00e3o lacaniana de lal\u00edngua, que n\u00e3o \u00e9 sem o corpo. A palavra apresenta-se separada da comunica\u00e7\u00e3o e torna-se gozo do bl\u00e1-bl\u00e1-bl\u00e1. Lacan distingue o significante na lal\u00edngua do significante na linguagem. Na lal\u00edngua, o significante n\u00e3o representa o sujeito para outro significante, sua falta-a-ser, mas ele \u00e9 \u201csigno do sujeito\u201d, signo da presen\u00e7a de seu gozo ou letra de gozo. O significante como o que representa o sujeito deve ser extra\u00eddo de lal\u00edngua, da qual a linguagem torna-se uma elucubra\u00e7\u00e3o de saber.<\/p>\n<p>O inconsciente n\u00e3o \u00e9 mais o discurso do Outro, pois cada um s\u00f3 fala sua pr\u00f3pria l\u00edngua. Ele \u00e9 definido como um inconsciente real, ele \u00e9 a lal\u00edngua em sua coabita\u00e7\u00e3o com o corpo marcado pelo significante como pura diferen\u00e7a. O inconsciente torna-se uma hip\u00f3tese que se constr\u00f3i a partir do simb\u00f3lico encarnado na mat\u00e9ria mesma de lal\u00edngua (VINCIGUERRA, 2011). A ordem simb\u00f3lica \u00e9 reduzida a uma disposi\u00e7\u00e3o de semblantes.<\/p>\n<p>Miller enumera esse momento do ensino de Lacan como o sexto paradigma do gozo, no qual o conceito de palavra como comunica\u00e7\u00e3o, o Outro, o Nome-do-Pai e o s\u00edmbolo f\u00e1lico s\u00e3o reduzidos a semblantes e a terem \u201cuma fun\u00e7\u00e3o de grampo de elementos fundamentalmente disjuntos\u201d (MILLER, 2000, p.101). Acrescente-se que o pr\u00f3prio objeto a \u00e9 reduzido a um semblante e torna-se insuficiente para capturar o real, uma vez que ele \u00e9 o que desse real do gozo tem algum sentido. Trata-se de um paradigma fundado sobre um \u201cn\u00e3o h\u00e1\u201d, correlativo do \u201ch\u00e1 Um\u201d, e que se formula atrav\u00e9s do axioma \u201ca rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o existe\u201d. A puls\u00e3o \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o com a aus\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual (MILLER, 2012, p.149).<\/p>\n<p><strong>Ter Um Sinthoma<\/strong><\/p>\n<p>Lal\u00edngua n\u00e3o \u00e9, todavia, um corpo. Ela \u00e9 uma multiplicidade de diferen\u00e7as, inconsistente e aberta. Para que haja um corpo, \u00e9 necess\u00e1rio que se estabele\u00e7am rela\u00e7\u00f5es entre seus elementos dispersos. Para que lal\u00edngua se converta em corpo, faz falta a incorpora\u00e7\u00e3o do corpo do simb\u00f3lico, que n\u00e3o poderia constituir-se como uma linguagem sem o gozo. H\u00e1 uma incid\u00eancia do significante sobre o gozo, mas h\u00e1 tamb\u00e9m uma incid\u00eancia do gozo sobre o significante e sobre a possibilidade de que ele se ordene ou n\u00e3o em um sistema. H\u00e1 solidariedade entre o acesso ao corpo do simb\u00f3lico e \u201cter um corpo\u201d. Uma perturba\u00e7\u00e3o ou uma n\u00e3o constitui\u00e7\u00e3o do corpo do simb\u00f3lico engendram efeitos, sempre singulares, no que se designa como \u201cter um corpo\u201d, que \u00e9 a possibilidade de fazer uso dele ou \u201cservir-se dele\u201d.<\/p>\n<p>Portanto, o Outro que n\u00e3o existe \u2014 ou o Outro inconsistente, do qual s\u00f3 existe o seu significante, que pode ser reduzido a uma s\u00e9rie de semblantes ou a um conector que mant\u00e9m juntos elementos disjuntos \u2014 tem um corpo. O \u201ch\u00e1 Um\u201d, que \u00e9 da ordem da exist\u00eancia, \u201cfaz aparecer o Outro do Outro sob a forma do Um\u201d (MILLER, 2000, p.102) do corpo. O corpo surge, ent\u00e3o, como o verdadeiro Outro do significante. Ao Outro, lugar do significante, Lacan acrescenta o corpo como lugar do Outro. O Outro, definido como corpo, significa que \u201co Outro do significante [\u2026] \u00e9 o Outro da verdade apenas na fic\u00e7\u00e3o. [\u2026] O Outro do significante \u00e9 o Outro do corpo e de seu gozo\u201d (MILLER, 2011, aula 13).<\/p>\n<p>O corpo como Outro, inclu\u00eddo no conceito de falasser, constitui a vers\u00e3o do inconsciente como real, cujo suporte \u00e9 a no\u00e7\u00e3o de sinthoma como o que resiste ao sentido. O n\u00f3 que constitui o sinthoma \u00e9 constru\u00eddo \u201crealmente\u201d para formar uma cadeia com a mat\u00e9ria significante, que n\u00e3o \u00e9 uma cadeia de sentido como retorno da verdade recalcada, mas uma cadeia de \u201cgozo-sentido\u201d (MILLER, 2011, aula 14). Pode-se dizer que o corpo como Outro \u00e9 o corpo concebido como um sinthoma.<\/p>\n<p>Na neurose, o corpo tem o estatuto particular do ser vivente afetado pela incorpora\u00e7\u00e3o do corpo do simb\u00f3lico. Nela, a separa\u00e7\u00e3o do objeto se opera. A puls\u00e3o se estrutura a partir do objeto perdido, que ela vai buscar na realidade, e que, a rigor, se aloja na fantasia, constitutiva da verdadeira realidade do neur\u00f3tico. O gozo retorna sobre o corpo sob a forma do sintoma, condensado em um saber que se pode decifrar a partir de seu valor f\u00e1lico, suportado pelo Nome-do-Pai, e como signo do que se tem de mais real.<\/p>\n<p>Na psicose, o que se passa \u00e9 que o objeto n\u00e3o \u00e9 subtra\u00eddo do corpo. Afetado pela linguagem, o corpo do psic\u00f3tico n\u00e3o \u00e9 esvaziado da libido. Esta n\u00e3o encontra uma localiza\u00e7\u00e3o e desloca-se \u00e0 deriva. O psic\u00f3tico \u201ctem seu objeto no bolso\u201d.<\/p>\n<p>Em \u201cEmbrollos del cuerpo\u201d, Miller esclarece sobre os fen\u00f4menos de corpo na psicose, dizendo o seguinte:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>[\u2026] no lugar da aliena\u00e7\u00e3o, n\u00e3o est\u00e1 a repress\u00e3o, mas a foraclus\u00e3o. No lugar da separa\u00e7\u00e3o, est\u00e3o os fen\u00f4menos do corpo, quer dizer, a puls\u00e3o n\u00e3o domesticada, a puls\u00e3o que n\u00e3o se articula facilmente com o objeto a. [\u2026] No que denominamos fen\u00f4menos psic\u00f3ticos do corpo, a puls\u00e3o emerge no real, corta suas pernas, parte sua cabe\u00e7a, atravessa seu corpo. Dito de outro modo, proponho reconhecer nos fen\u00f4menos do corpo a puls\u00e3o que passou ao real (MILLER, 2012, p.115-116).<\/em><\/p>\n<p>Na cl\u00ednica borromeana, que constitui a \u00faltima elabora\u00e7\u00e3o de Lacan sobre o real psicanal\u00edtico, a fun\u00e7\u00e3o \u201clocaliza\u00e7\u00e3o\u201d pode ser generalizada e escapar a essa clivagem neurose-psicose ou linguagem-corpo. Os \u201cfen\u00f4menos de corpo\u201d, que permitem abordar a n\u00e3o localiza\u00e7\u00e3o do gozo na psicose e os meios necess\u00e1rios para localiz\u00e1-lo por interm\u00e9dio de uma supl\u00eancia sinthom\u00e1tica \u00e0 forclus\u00e3o do Nome-do-Pai, est\u00e3o tamb\u00e9m presentes no corpo sintom\u00e1tico do neur\u00f3tico, seja na anatomia fantasm\u00e1tica da hist\u00e9rica, seja nos cortes do pensamento do obsessivo.<\/p>\n<p>Ainda em \u201cEmbrollos del cuerpo\u201d, Miller qualifica \u201cos fen\u00f4menos de corpo como sinthoma quando se instalam permanentemente, ordenando a vida do sujeito\u201d. Segundo ele, que esses fen\u00f4menos permanentes<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>[\u2026] possam assumir o papel de sinthomas, solicita que se veja uma forma de sinthoma no pr\u00f3prio Nome-do-Pai. O racioc\u00ednio de Lacan \u00e9 que se o Nome-do-Pai pode ser substitu\u00eddo por um tal \u2018fen\u00f4meno de corpo\u2019, por um sinthoma, ent\u00e3o, um n\u00e3o vale mais do que o outro. O que interessa [\u2026] \u00e9 uma busca muito pontual: qual \u00e9 a articula\u00e7\u00e3o significante que produz o fen\u00f4meno do corpo? (MILLER, 2012, p.110).<\/em><\/p>\n<\/div>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1964\/1998). \u201cPosi\u00e7\u00e3o do inconsciente\u201d, In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p.829-864.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1970\/2003). \u201cRadiofonia\u201d, In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p.403-447.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1962-1963\/2005). O Semin\u00e1rio, livro 10: a ang\u00fastia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1964\/1985). O Semin\u00e1rio, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1969-1970\/1992). O Semin\u00e1rio, livro 17: o avesso da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.<\/h6>\n<h6>MANDIL, R. A. Semblantes do corpo (1). MOTe digital, Revista digital da Del, RN, n.1, jul.2010, p.6. Dispon\u00edvel em: http:\/\/ebp.org.br\/PDF\/Revista_MOTen01_jul_2010.pdf. Acesso em: 25\/03\/2012.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cBiologia lacaniana\u201d, Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, S\u00e3o Paulo: E\u00f3lia, n.41, 2004, p.07-67.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. El Outro que no existe e sus comit\u00e9s de \u00e9tica. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2005a.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. Embrollos del cuerpo. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2012.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o \u00e0 leitura do Semin\u00e1rio 10\u201d, Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, S\u00e3o Paulo: E\u00f3lia, n.43, maio 2005b, p.07-81.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. O ser e o Um. Aula 12, 11 de maio de 2011.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. O ser e o Um. Aula 13, 18 de maio de 2011.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. O ser e o Um. Aula 14, 25 de maio de 2011.<\/h6>\n<h6>MILLER, J. A. O ser e o Um. Aula 15, 25 de maio de 2011.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cOs seis paradigmas do gozo\u201d, Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, S\u00e3o Paulo: E\u00f3lia, n.26\/27, abr. 2000, p.87-105.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. Perspectivas do Semin\u00e1rio 23 de Lacan. O sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010.<\/h6>\n<h6>VINCIGUERRA, R.-P. L\u2019ordre symbolique au XXIe si\u00e8cle. Il n\u2019est plus ce qu\u2019il \u00e9tait. Quelles consequences pour la cure?. Soir\u00e9es pr\u00e9paratoires au VIIIe Congr\u00e8s de l\u2019AMP, 2011.<\/h6>\n<h6>[1] Texto apresentado no N\u00facleo de Pesquisa em Psican\u00e1lise com crian\u00e7as do IPSM-MG, em 6 de junho de 2012.<\/h6>\n<\/div>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Sandra Espinha<\/strong><\/h6>\n<h6>Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP) e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP). E-mail:\u00a0<span id=\"cloakfeb4a45cd074b97f010329a1471368c6\"><a href=\"mailto:sandra_espinha@uol.com.br\">sandra_espinha@uol.com.br<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SANDRA ESPINHA O Outro Que N\u00e3o Existe \u00c9 no contexto do Semin\u00e1rio, livro 17: o avesso da psican\u00e1lise (1969-1970\/1992), em que Lacan define o \u201ccampo lacaniano\u201d como o campo do gozo estruturado pelos discursos como la\u00e7os sociais, que se encontra a cita\u00e7\u00e3o que d\u00e1 t\u00edtulo a este trabalho (LACAN, 1969-1970\/1992, p.62). Segundo Miller, com os&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-564","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-almanaque-11","category-7","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/564","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=564"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/564\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=564"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=564"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=564"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}