{"id":566,"date":"2012-08-17T06:51:47","date_gmt":"2012-08-17T09:51:47","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=566"},"modified":"2012-08-17T06:51:47","modified_gmt":"2012-08-17T09:51:47","slug":"o-erro-comum-e-a-paixao-transexual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2012\/08\/17\/o-erro-comum-e-a-paixao-transexual\/","title":{"rendered":"O Erro Comum E A Paix\u00e3o Transexual"},"content":{"rendered":"<h6>YOLANDA VILELA<\/h6>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p><strong>Quest\u00f5es Freudianas<\/strong><\/p>\n<p>Introduzir a quest\u00e3o do transexualismo exige evocar Freud e suas formula\u00e7\u00f5es acerca da subjetiva\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a sexual. Embora os desenvolvimentos te\u00f3ricos freudianos n\u00e3o digam respeito diretamente ao fen\u00f4meno transexual, uma vez que as transforma\u00e7\u00f5es corporais que acompanham esse fen\u00f4meno foram incrementadas a partir da segunda metade do s\u00e9culo passado, as elabora\u00e7\u00f5es de Freud sobre os destinos do complexo de \u00c9dipo podem ser esclarecedoras se retomadas em uma articula\u00e7\u00e3o com as contribui\u00e7\u00f5es ulteriores de Jacques Lacan.<\/p>\n<p>Assim, pode-se dizer que Freud aponta sa\u00eddas poss\u00edveis para a trama edipiana e elabora quest\u00f5es relativas \u00e0 subjetiva\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a sexual em alguns textos da chamada segunda t\u00f3pica. Entre os seus artigos mais fundamentais sobre o tema, encontram-se: \u201cA organiza\u00e7\u00e3o genital infantil\u201d (1923), \u201cA dissolu\u00e7\u00e3o do Complexo de \u00c9dipo\u201d (1924) e \u201cAlgumas consequ\u00eancias ps\u00edquicas da distin\u00e7\u00e3o anat\u00f4mica entre os sexos\u201d (1925). Assim, no que diz respeito ao menino, por exemplo, Freud dir\u00e1 que a simples amea\u00e7a de castra\u00e7\u00e3o por parte dos adultos n\u00e3o tem grandes efeitos sobre ele; da mesma forma, a vis\u00e3o do sexo das meninas o faz dizer \u201cisso vai crescer\u201d. Em outras palavras, para Freud, \u00e9 necess\u00e1rio que os dois fatores estejam juntos: amea\u00e7a e vis\u00e3o do \u00f3rg\u00e3o do outro sexo para que algo do \u201ccomplexo de castra\u00e7\u00e3o\u201d possa surgir e operar. Ao admitir a possibilidade da castra\u00e7\u00e3o, o menino se v\u00ea, ent\u00e3o, obrigado a renunciar \u00e0 sexualidade, que se manifesta, nessa \u00e9poca, sobretudo, pela masturba\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim, o \u201ccomplexo de castra\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 determinante quanto \u00e0 dissolu\u00e7\u00e3o do complexo de \u00c9dipo, pois ele exerce uma fun\u00e7\u00e3o normalizante \u2014 fun\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 completa nem constante: frequentemente, o menino n\u00e3o renuncia \u00e0 sua sexualidade, seja porque ele n\u00e3o quer admitir a realidade da castra\u00e7\u00e3o, dando prosseguimento \u00e0 masturba\u00e7\u00e3o, seja porque, apesar da interrup\u00e7\u00e3o da masturba\u00e7\u00e3o, a atividade fantasm\u00e1tica edipiana persiste e at\u00e9 mesmo se acentua, incidindo sobre a vida sexual na idade adulta.<\/p>\n<p>Ao estabelecer a primazia do falo para os dois sexos, Freud insiste sobre o fato de que o justo valor da significa\u00e7\u00e3o do \u201ccomplexo de castra\u00e7\u00e3o\u201d s\u00f3 pode ser apreciado com a condi\u00e7\u00e3o de considerarmos que ele se d\u00e1 na fase do primado do falo. \u00c9 poss\u00edvel extrair da\u00ed duas consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>A primeira \u00e9 que as experi\u00eancias pr\u00e9vias de perda (do seio, das fezes) n\u00e3o t\u00eam a mesma significa\u00e7\u00e3o que a castra\u00e7\u00e3o, visto que elas acontecem no \u00e2mbito da rela\u00e7\u00e3o dual entre m\u00e3e\/crian\u00e7a, ao passo que a castra\u00e7\u00e3o \u00e9 justamente o que pode colocar um fim nessa rela\u00e7\u00e3o (para os dois sexos). Em outros termos, para Freud, s\u00f3 se pode falar em complexo de castra\u00e7\u00e3o a partir do momento em que a representa\u00e7\u00e3o de uma perda est\u00e1 associada ao \u00f3rg\u00e3o genital masculino.<\/p>\n<p>A segunda consequ\u00eancia \u00e9 que o complexo de castra\u00e7\u00e3o diz respeito tanto ao homem quanto \u00e0 mulher. O clit\u00f3ris da menina se comporta, inicialmente, exatamente como um p\u00eanis. Por\u00e9m, na menina, a vis\u00e3o do \u00f3rg\u00e3o do outro sexo desencadeia imediatamente o complexo. A partir do momento em que ela percebe o \u00f3rg\u00e3o masculino, ela se sente v\u00edtima de uma castra\u00e7\u00e3o. Ela se considera, de in\u00edcio, uma v\u00edtima isolada, depois estende progressivamente essa ideia \u00e0s outras crian\u00e7as e aos adultos do mesmo sexo, que lhe parecem, ent\u00e3o, desvalorizados. Tal \u00e9 a tese de Freud em \u201cA dissolu\u00e7\u00e3o do complexo de \u00c9dipo\u201d. A forma de express\u00e3o que toma na menina o complexo de castra\u00e7\u00e3o \u00e9 a inveja do p\u00eanis: \u201cLogo de entrada ela julgou e decidiu, ela viu isso, sabe que n\u00e3o o tem e quer t\u00ea-lo\u201d: eis o que afirma Freud em \u201cAlgumas consequ\u00eancias ps\u00edquicas da distin\u00e7\u00e3o anat\u00f4mica entre os sexos\u201d.<\/p>\n<p>A inveja do p\u00eanis pode subsistir como inveja de ser dotada de um p\u00eanis, mas a evolu\u00e7\u00e3o normal \u00e9 aquela em que ela encontra seu equivalente simb\u00f3lico no desejo de ter um filho, o que leva a menina a escolher o pai como objeto de amor. O \u201ccomplexo de castra\u00e7\u00e3o\u201d exerce, portanto, uma fun\u00e7\u00e3o normalizante, fazendo a menina entrar no \u00c9dipo, orientando-a para a heterossexualidade.<\/p>\n<p>No entanto, Freud n\u00e3o deixa de evocar as consequ\u00eancias patol\u00f3gicas do complexo de castra\u00e7\u00e3o na mulher: a inveja do p\u00eanis pode persistir indefinidamente no inconsciente e ser um fator de ci\u00fames e depress\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse resumo das quest\u00f5es freudianas aponta, a nosso ver, para as dificuldades que envolvem a quest\u00e3o da subjetiva\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a sexual. Se, nesses desenvolvimentos, a hip\u00f3tese da psicose n\u00e3o \u00e9 aventada por Freud, os impasses da sexua\u00e7\u00e3o retomados por Lacan encontram a\u00ed um terreno f\u00e9rtil para nos orientar sobre as sutilezas do transexualismo enquanto fen\u00f4meno (cl\u00ednico) moderno.<\/p>\n<p><strong>O Aporte Lacaniano<\/strong><\/p>\n<p>Ao retomar, portanto, o \u201ccomplexo de castra\u00e7\u00e3o\u201d freudiano, Lacan vai limitar-se ao termo \u201ccastra\u00e7\u00e3o\u201d, que ele ir\u00e1 definir como uma opera\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica que determina uma estrutura subjetiva.<\/p>\n<p>Assim, para Lacan, a castra\u00e7\u00e3o n\u00e3o diz respeito ao \u00f3rg\u00e3o real; \u00e9 precisamente quando a castra\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica n\u00e3o acontece, isto \u00e9, nas psicoses, que se podem observar mutila\u00e7\u00f5es de partes do corpo (do p\u00eanis, por exemplo) que confirmam que aquilo que foi foraclu\u00eddo do simb\u00f3lico retorna no real.<\/p>\n<p>A castra\u00e7\u00e3o incide, portanto, sobre o falo na medida em que ele \u00e9 um objeto imagin\u00e1rio, e n\u00e3o real. \u00c9 por isso que Lacan n\u00e3o considera as rela\u00e7\u00f5es do \u201ccomplexo de castra\u00e7\u00e3o\u201d e do \u201ccomplexo de \u00c9dipo\u201d de maneira oposta, segundo os sexos.<\/p>\n<p>Para ele, a crian\u00e7a (menino ou menina) quer ser o falo para captar o desejo da m\u00e3e (o chamado primeiro tempo do \u00c9dipo). A interdi\u00e7\u00e3o do incesto (segundo tempo) deve desaloj\u00e1-la dessa posi\u00e7\u00e3o ideal de falo materno. Essa interdi\u00e7\u00e3o se deve ao pai simb\u00f3lico, ou seja, uma lei que deve ser garantida pelo discurso da m\u00e3e. Tal interdi\u00e7\u00e3o n\u00e3o visa somente \u00e0 crian\u00e7a, ela visa tamb\u00e9m \u00e0 m\u00e3e, por essa raz\u00e3o, \u00e9 compreendida pela crian\u00e7a como algo que castra a m\u00e3e. No chamado terceiro tempo do \u00c9dipo, interv\u00e9m o que Lacan chama \u201cpai real\u201d, aquele que tem o falo ou, mais exatamente, aquele que \u00e9 suposto t\u00ea-lo, aquele que faz uso do falo e se faz preferir pela m\u00e3e. O menino, que renunciou a ser o falo da m\u00e3e, ir\u00e1 identificar-se ao pai; quanto \u00e0 menina, esse terceiro tempo lhe ensinou de que lado ela deve-se voltar para encontrar o falo.<\/p>\n<p>A castra\u00e7\u00e3o implica, inicialmente, a ren\u00fancia a \u201cser o falo\u201d, mas ela leva tamb\u00e9m \u00e0 ren\u00fancia a \u201cter o falo\u201d, ou seja, ren\u00fancia quanto a ser o mestre, o possuidor do falo.<\/p>\n<p>\u00c9 not\u00e1vel que o falo, que aparece sob v\u00e1rios aspectos, nos sonhos e nas fantasias, esteja sempre separado do corpo. Lacan explica essa separa\u00e7\u00e3o como um efeito da eleva\u00e7\u00e3o do falo \u00e0 fun\u00e7\u00e3o de significante. Em outras palavras, a partir do momento em que o sujeito \u00e9 submetido \u00e0s leis da linguagem, ou seja, a partir do momento em que o significante f\u00e1lico entra em jogo, o objeto f\u00e1lico \u00e9 imaginariamente cortado (castrado). Correlativamente, ele \u00e9 \u201cnegativizado\u201d na imagem do corpo, o que significa que o investimento libidinal que constitui o falo n\u00e3o \u00e9 representado nessa imagem (a castra\u00e7\u00e3o desvincula o falo do corpo e afirma uma n\u00e3o correspond\u00eancia entre falo e \u00f3rg\u00e3o).<\/p>\n<p>A castra\u00e7\u00e3o n\u00e3o incide somente sobre o sujeito, ela incide tamb\u00e9m, e antes de tudo, sobre o Outro: uma falta simb\u00f3lica \u00e9 ent\u00e3o instaurada. Como se disse, a castra\u00e7\u00e3o \u00e9 apreendida imaginariamente como sendo a da m\u00e3e. Mas essa falta da m\u00e3e, \u00e9 preciso que o sujeito a simbolize, ou seja, \u00e9 preciso que o sujeito reconhe\u00e7a que n\u00e3o h\u00e1 no Outro uma garantia \u00e0 qual ele se possa agarrar.<\/p>\n<p>A partir dessas considera\u00e7\u00f5es, pode-se retomar a m\u00e1xima de Freud que se encontra em \u201cA dissolu\u00e7\u00e3o do complexo de \u00c9dipo\u201d, segundo a qual \u201ca anatomia \u00e9 o destino\u201d, a fim de se introduzir algumas quest\u00f5es referentes ao transexualismo. Se a anatomia foi evocada por Freud como um fator inerente aos destinos do complexo de \u00c9dipo, ou seja, se tornar-se homem ou mulher \u00e9 algo que depende da subjetiva\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a sexual, seria preciso indagar por que o destino estaria, no caso de muitos sujeitos transexualistas, literalmente, vinculado \u00e0 anatomia.<\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es Gerais Sobre O Transexualismo<\/strong><\/p>\n<p>Em seu estudo sobre o transexualismo, Marina C. Teixeira (2012) esclarece que esse fen\u00f4meno se intensificou a partir dos anos 1950, instaurando quest\u00f5es de ordem biol\u00f3gica, social, psiqui\u00e1trica, pol\u00edtica, \u00e9tica e outras. O transexualista postula, antes de tudo, o direito de pertencer ao sexo de sua escolha, ou seja, n\u00e3o h\u00e1 que se conformar com a anatomia. Com as t\u00e9cnicas desenvolvidas a partir dos progressos da ci\u00eancia \u2014 t\u00e9cnicas de tratamento hormonal, conhecimentos na \u00e1rea da endocrinologia, etc. \u2014 as barreiras para se atravessar fronteiras e escolher o pr\u00f3prio sexo deixaram de existir. Assim, o transexualista pode ser definido como o homem ou a mulher que desejam mudar o pr\u00f3prio sexo para viver conforme o sexo oposto ao seu de nascimento, ou que j\u00e1 mudaram o sexo anat\u00f4mico de origem e adquiriram as caracter\u00edsticas do sexo oposto, por meio de interven\u00e7\u00f5es no corpo.<\/p>\n<p>No final dos anos 1950 e durante a d\u00e9cada de 1960, a combina\u00e7\u00e3o entre fatores gen\u00e9ticos, hormonais, gonadais e anat\u00f4micos tornou-se a verdade biol\u00f3gica sobre a determina\u00e7\u00e3o sexual nos seres humanos. Essa afirma\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica da multiplicidade causal da diferen\u00e7a sexual consolidou a diferen\u00e7a sexual em termos de duas classes (macho e f\u00eamea) e tornou poss\u00edvel determinar a chamada \u201ccondi\u00e7\u00e3o intersexuada\u201d, propiciada por um arranjo patol\u00f3gico (contingencial) entre esses fatores. O hermafroditismo ilustra exemplarmente essa condi\u00e7\u00e3o intersexuada devido a um dist\u00farbio biol\u00f3gico.<\/p>\n<p>A condi\u00e7\u00e3o intersexuada acabou fundamentando a hip\u00f3tese da \u201cidentidade de g\u00eanero\u201d (\u201ceu me identifico com o g\u00eanero tal\u201d\u2026, por exemplo) como o \u201cterceiro n\u00edvel de diferencia\u00e7\u00e3o sexual\u201d, ou uma terceira classe, na qual a identidade passa a ser definida pelos atributos ps\u00edquicos, como o g\u00eanero. Nessa terceira classe, o sexo seria especificado independentemente da presen\u00e7a ou da aus\u00eancia de p\u00eanis.<\/p>\n<p>Assim, lembra Teixeira (2012), os \u201cestudos do g\u00eanero\u201d foram animados pela perspectiva de que existem tr\u00eas n\u00edveis do sexual. No n\u00edvel biol\u00f3gico, a natureza vai al\u00e9m da deformidade, pois, entre o tipo macho e o tipo f\u00eamea, existem seres humanos que apresentam uma mistura dos dois sexos. No n\u00edvel social, existe um c\u00f3digo sexuado por meio do qual a sociedade atribui a cada um um papel segundo o seu sexo, de tal modo que a vida sexual \u00e9 orientada por esse c\u00f3digo. No n\u00edvel psicol\u00f3gico, trata-se do \u201csexo subjetivo\u201d, aquele que o indiv\u00edduo reconhece em si mesmo.<\/p>\n<p>No n\u00edvel psicol\u00f3gico, os transexualistas seriam a evid\u00eancia de que, de fato, existiria o terceiro n\u00edvel de diferencia\u00e7\u00e3o sexual, ou seja, o \u201csexo psicol\u00f3gico\u201d, pois o sexo que esses sujeitos reconhecem em si mesmos n\u00e3o equivale \u00e0 determina\u00e7\u00e3o anat\u00f4mica.<\/p>\n<p>Dessa forma, a aus\u00eancia de adequa\u00e7\u00e3o entre sexo e g\u00eanero, no transexualismo, se d\u00e1 sem quaisquer perturba\u00e7\u00f5es, sejam elas gen\u00e9ticas ou hormonais. Por essa raz\u00e3o, os casos de transexualismo n\u00e3o podem ser inclu\u00eddos na zona de intersexo; mais do que isso, o sujeito transexual passou a ser a prova viva da exist\u00eancia do terceiro n\u00edvel da diferencia\u00e7\u00e3o sexual. O fen\u00f4meno \u201ctrans\u201d tornou-se o expoente m\u00e1ximo da verdade da n\u00e3o correspond\u00eancia entre sexo e g\u00eanero.<\/p>\n<p><strong>O Transexualismo Segundo Stoller<\/strong><\/p>\n<p>Robert Stoller, psiquiatra americano de forma\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica, come\u00e7ou estudando os intersexuados e chegou, em seguida, aos transexuais. Tanto em suas pesquisas como em sua cl\u00ednica, ele sempre privilegiou a disjun\u00e7\u00e3o entre sexo e g\u00eanero. Stoller tentava isolar uma estrutura que fosse pr\u00f3pria do transexualismo, pois ele acreditava ter cernido a sua forma pura, que, por sua vez, estaria vinculada ao momento de forma\u00e7\u00e3o do que chamou \u201cn\u00facleo fundamental da identidade de g\u00eanero\u201d. Em 1968, Stoller publicou Sex and gender, em que afirmava, entre outras coisas, ter descoberto algo que escapara a Freud: a hip\u00f3tese de uma identidade de g\u00eanero feminina no \u00e2mago da sexualidade humana. Para Stoller, o g\u00eanero seria o sentimento \u00edntimo de pertencimento a um sexo. O n\u00facleo da identidade de g\u00eanero (masculinidade e feminilidade) se formaria no est\u00e1gio mais precoce da rela\u00e7\u00e3o de objeto, est\u00e1gio em que a crian\u00e7a se encontra fundida simbioticamente com a m\u00e3e. Assim, toda crian\u00e7a traria a marca de uma impregna\u00e7\u00e3o (imprinting) psicol\u00f3gica da feminilidade primitiva devido ao contato simbi\u00f3tico com a m\u00e3e.<\/p>\n<p>Para Stoller, a aquisi\u00e7\u00e3o da identidade de g\u00eanero se processaria em tr\u00eas n\u00edveis. Em um primeiro momento, h\u00e1 o encontro da crian\u00e7a com a protofeminilidade (feminilidade primordial); em um segundo momento, o n\u00facleo da identidade de g\u00eanero \u00e9 fixado em fun\u00e7\u00e3o do modo como a m\u00e3e conduz a separa\u00e7\u00e3o ou o afrouxamento do la\u00e7o simbi\u00f3tico primitivo entre ela e a crian\u00e7a; e, em um momento posterior, surgem os conflitos propriamente freudianos. Segundo Stoller, o desejo da m\u00e3e (segundo momento) seria fundamental na g\u00eanese do transexualismo. Ele chega a falar em uma verdadeira \u201cprograma\u00e7\u00e3o\u201d da crian\u00e7a pelo desejo da m\u00e3e. Para Stoller, portanto, a origem do transexualismo se deve \u00e0 preval\u00eancia da feminilidade experimentada de modo absolutamente gratificante, e por isso mesmo fixada como n\u00facleo da identidade de g\u00eanero.<\/p>\n<p>Vale lembrar que, nos casos acompanhados por Stoller, os sujeitos n\u00e3o deliravam ao modo do Presidente Schreber, isto \u00e9, eles n\u00e3o apresentavam uma psicose extraordin\u00e1ria; ao mesmo tempo, esses transexuais eram relativamente apaziguados quanto \u00e0 identidade de g\u00eanero, ou seja, prevalecia a certeza de que o sexo anat\u00f4mico estava absolutamente na contram\u00e3o do g\u00eanero, e n\u00e3o a d\u00favida quanto ao pertencimento a este ou \u00e0quele sexo. Por\u00e9m, a grande maioria dos transexuais vivia invadida por sentimentos depressivos, tristeza e ang\u00fastia pela inadequa\u00e7\u00e3o entre sexo (corpo) e g\u00eanero. Esse quadro contribuiu para que Stoller solidificasse cada vez mais a sua hip\u00f3tese segundo a qual \u00e9 uma perturba\u00e7\u00e3o da identidade de g\u00eanero que se encontra no centro da quest\u00e3o do transexualismo.<\/p>\n<p>No que diz respeito ao tratamento desses sujeitos, Stoller tinha certa prud\u00eancia, uma vez que os sujeitos operados apresentavam, a m\u00e9dio e a longo prazos, quadros bastante graves. Ele era favor\u00e1vel \u00e0s terapias iniciadas precocemente com aquelas crian\u00e7as que apresentassem uma sintomatologia indicando transexualismo: Stoller preconizava a cria\u00e7\u00e3o de um \u201ccomplexo de \u00c9dipo artificial\u201d para esses casos.<\/p>\n<p>O que interessa ressaltar aqui \u00e9 que, apesar dos resultados incertos da longa experi\u00eancia de Stoller com os transexuais, a disjun\u00e7\u00e3o entre sexo e g\u00eanero consolidou a apreens\u00e3o social do fen\u00f4meno mais em concord\u00e2ncia com o pensamento de Stoller e menos em articula\u00e7\u00e3o com o campo das psicoses.<\/p>\n<p><strong>Lacan E A Face Psic\u00f3tica Do Sujeito Transexualista<\/strong><\/p>\n<p>As refer\u00eancias de Jacques Lacan sobre o transexualismo n\u00e3o s\u00e3o abundantes; por\u00e9m, suas indica\u00e7\u00f5es s\u00e3o precisas e esclarecedoras quanto ao que, de fato, est\u00e1 em quest\u00e3o na grande maioria dos casos de transexualismo, seja feminino, seja masculino. Assim, em 1971, no semin\u00e1rio De um discurso que n\u00e3o fosse semblante, Lacan faz refer\u00eancia a Robert Stoller, nos seguintes termos:<\/p>\n<p>\u201cComo s\u00f3 os reencontrarei na segunda quarta-feira de fevereiro, talvez voc\u00eas tenham tempo de ler alguma coisa. Visto que estou recomendando um livro, para variar, isso far\u00e1 aumentar sua tiragem. Chama-se Sex and gender (Sexo e g\u00eanero), de um certo Stoller. \u00c9 muito interessante de ler. Primeiro porque desemboca num assunto importante \u2014 o dos transexuais, com um certo n\u00famero de casos muito bem observados, com seus correlatos familiares. Talvez voc\u00eas saibam que o transexualismo consiste, precisamente, num desejo muito en\u00e9rgico de passar, seja por que meio for, para o sexo oposto, nem que seja submetendo-se a uma opera\u00e7\u00e3o, quando se est\u00e1 do lado masculino. No livro voc\u00eas certamente aprender\u00e3o muitas coisas sobre esse transexualismo, pois as observa\u00e7\u00f5es que se encontram ali s\u00e3o absolutamente utiliz\u00e1veis. Aprender\u00e3o tamb\u00e9m o car\u00e1ter completamente inoperante do aparato dial\u00e9tico com que o autor do livro trata essas quest\u00f5es, o que o faz deparar, para explicar seus casos, com enormes dificuldades, que surgem diretamente diante dele. Uma das coisas mais surpreendentes \u00e9 que a face psic\u00f3tica desses casos \u00e9 completamente eludida pelo autor, na falta de qualquer referencial, j\u00e1 que nunca lhe chegou aos ouvidos a foraclus\u00e3o lacaniana, que explica prontamente e com muita facilidade a forma desses casos\u201d (LACAN, 1971\/2009, p.30).<\/p>\n<p>O discurso anal\u00edtico indica a condi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via para que um ser falante tenha um sexo, qualquer que seja a sua anatomia inicial. Essa condi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via \u00e9 o consentimento com a inscri\u00e7\u00e3o na fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica. Isso implica experimentar o gozo f\u00e1lico, que \u00e9 um gozo positivado, localizado em um \u00f3rg\u00e3o tornado instrumento (organon) por sua correla\u00e7\u00e3o com o significante f\u00e1lico. Por\u00e9m, o gozo f\u00e1lico comporta tamb\u00e9m a negatividade do complexo de castra\u00e7\u00e3o freudiano: o sujeito goza de sua castra\u00e7\u00e3o, a partir de sua castra\u00e7\u00e3o. Uma vez inscrito na fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, o sujeito ir\u00e1 escolher colocar-se como homem ou como mulher \u2014 esses termos s\u00f3 t\u00eam sentido a partir da abordagem do outro sexo e da maneira segundo a qual ele usar\u00e1, para isso, a fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica.<\/p>\n<p>Portanto, para o discurso psicanal\u00edtico, n\u00e3o h\u00e1 sexua\u00e7\u00e3o sem fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica. Na psicose, que est\u00e1 exclu\u00edda disso, o sexo toma formas inst\u00e1veis, a serem constru\u00eddas em cada caso, formas que s\u00e3o frequentemente correlatas ao empuxo-\u00e0-mullher que Lacan associou ao desencadeamento.<\/p>\n<p>Em O Semin\u00e1rio, livro 19: \u2026ou pior, Lacan faz outra declara\u00e7\u00e3o contundente que esclarece quanto ao que est\u00e1 em jogo no caso do sujeito transexualista. Vejamos:<\/p>\n<p>\u201cNessas condi\u00e7\u00f5es, para ter acesso ao outro sexo, realmente \u00e9 preciso pagar o pre\u00e7o, o da pequena diferen\u00e7a, que passa enganosamente para o real por interm\u00e9dio do \u00f3rg\u00e3o, justamente no que ele deixa de ser tomado como tal e, ao mesmo tempo, revela o que significa ser \u00f3rg\u00e3o. Um \u00f3rg\u00e3o s\u00f3 \u00e9 instrumento por meio disto em que todo instrumento se baseia: \u00e9 que ele \u00e9 um significante. \u00c9 como significante que o transexual n\u00e3o o quer mais, e n\u00e3o como \u00f3rg\u00e3o. No que ele padece de um erro, que \u00e9 justamente o erro comum. Sua paix\u00e3o, a do transexual, \u00e9 a loucura de querer livrar-se desse erro, o erro comum que n\u00e3o v\u00ea que o significante \u00e9 o gozo e que o falo \u00e9 apenas o significado. O transexual n\u00e3o quer mais ser significado como falo pelo discurso sexual, o qual, como anuncio, \u00e9 imposs\u00edvel. Existe apenas um erro, que \u00e9 querer for\u00e7ar pela cirurgia o discurso sexual, que, na medida em que \u00e9 imposs\u00edvel, \u00e9 a passagem do real\u201d (LACAN, 1971-1972\/2012, p.17).<\/p>\n<p>Esse \u201cerro comum\u201d ao qual se refere Lacan \u00e9 o do meio social, dos pais, que atribuem um sexo ao sujeito em fun\u00e7\u00e3o de sua anatomia. Quando o adulto designa \u201c\u00e9 um menino\u201d ou \u201c\u00e9 uma menina\u201d, tal nomea\u00e7\u00e3o \u00e9 feita sob a \u00e9gide da linguagem e do complexo de castra\u00e7\u00e3o. O \u201c\u00e9 um menino\u201d ou o \u201c\u00e9 uma menina\u201d n\u00e3o permanece apenas no plano do real biol\u00f3gico, anat\u00f4mico. Dessa forma, um pai (ou uma m\u00e3e) que diz \u201c\u00e9 um menino, \u00e9 porque ele tem um instrumento f\u00e1lico e deve-se comportar em conformidade com isso\u201d, ou \u201c\u00e9 uma menina porque ela n\u00e3o tem esse instrumento f\u00e1lico e espera-se dela certa feminilidade\u201d, etc. \u00c9 nesse sentido que menino e menina passam a ser significados do significante falo. A\u00ed est\u00e1 o \u201cerro comum\u201d: isso s\u00f3 ser\u00e1 verdade se a crian\u00e7a consentir com o gozo f\u00e1lico, se ela tirar da\u00ed consequ\u00eancias em sua rela\u00e7\u00e3o com o homem e com a mulher, e as aceitar.<\/p>\n<p>O que ensina Lacan a partir dessas duas elabora\u00e7\u00f5es \u00e9 que, se a crian\u00e7a rejeitar o gozo f\u00e1lico, ou seja, se houver uma recusa do significante do Nome-do-Pai, os ditos dos adultos ser\u00e3o necessariamente invalidados, logo, falsos. Segundo Lacan, portanto, o transexualista \u00e9 aquele que quer livrar-se do erro que fez a pequena diferen\u00e7a anat\u00f4mica passar para o real por meio da linguagem. Ele quer, ent\u00e3o, mudar de \u00f3rg\u00e3o para liberar-se desse erro, visto que foi a partir do \u00f3rg\u00e3o que ele foi significado menino ou menina nas categorias f\u00e1licas por ele recusadas. N\u00e3o \u00e9 o \u00f3rg\u00e3o que o transexual rejeita, mas o significante enquanto significante do gozo sexual que, por n\u00e3o estar correlato ao falo, \u00e9 demasiado real. Da\u00ed a sua ideia de intervir no \u00f3rg\u00e3o, realmente, intervir sobre o que ele chamar\u00e1 de \u201cerro da natureza\u201d. Recusar a fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica o situa como psic\u00f3tico, sua rela\u00e7\u00e3o com o sexo escapa \u00e0 l\u00f3gica f\u00e1lica da sexua\u00e7\u00e3o. O sexo dever\u00e1, ent\u00e3o, ser inventado para o sujeito, de modo a fazer supl\u00eancia \u00e0 fun\u00e7\u00e3o que lhe falta.<\/p>\n<p>Em um texto publicado na revista La Cause Freudienne, G. Morel (1995) comenta essas elabora\u00e7\u00f5es de Lacan e apresenta um caso cl\u00ednico de transexualismo feminino. Nesse artigo \u2014 \u201cUm caso de travestismo feminino\u201d \u2014 a autora afirma ter entendido melhor o porqu\u00ea de esses sujeitos conseguirem convencer m\u00e9dicos e psiquiatras de que o seu \u00fanico problema \u00e9 terem nascido do lado errado quanto ao sexo. O que explica o aumento, sobretudo nos EUA, das opera\u00e7\u00f5es de transexuais mulheres, o que era raro nos anos 1970, quando Stoller publicou Sexo e g\u00eanero. Ela afirma:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cA diferen\u00e7a stolleriana entre sexo anat\u00f4mico e identidade de g\u00eanero ps\u00edquica referida \u00e0 consci\u00eancia \u00edntima de se pertencer a um sexo e n\u00e3o a outro n\u00e3o \u00e9 de muita ajuda conceitual. Contudo, \u00e9 sobre ela que se apoiam maci\u00e7amente os cl\u00ednicos americanos e a jurisprud\u00eancia, principalmente na Fran\u00e7a\u201d (MOREL, 1995, p.21).<\/p>\n<p><strong>Um Fragmento Cl\u00ednico<\/strong><\/p>\n<p>Alguns fragmentos do caso acompanhado por Morel (1995) ser\u00e3o aqui reproduzidos. \u00c9 poss\u00edvel situar, na descri\u00e7\u00e3o das entrevistas, as sutilezas que envolvem a l\u00f3gica de uma psicose ordin\u00e1ria. A paciente chega ao consult\u00f3rio da analista explicando que \u00e9 mulher anatomicamente e legalmente, mas que se sentia, se experimentava, como homem. Fora aconselhada a procurar um psicanalista antes de passar pela opera\u00e7\u00e3o que lhe devolveria seu \u201cverdadeiro corpo de homem\u201d. A cirurgia a ajudaria a encontrar a \u201cprova de seu ser\u201d \u2014 o p\u00eanis \u2014 que harmonizaria seu corpo com a convic\u00e7\u00e3o \u00edntima de pertencer ao sexo masculino.<\/p>\n<p>No in\u00edcio, sua convic\u00e7\u00e3o era uma impress\u00e3o estranha, um mal-estar em ser menina. Uma das \u00fanicas lembran\u00e7as de sua inf\u00e2ncia constitu\u00eda a matriz de sua decis\u00e3o de mudar de sexo: aos seis anos de idade, Ven viu um menino urinar em p\u00e9 e disse a si mesmo: \u00e9 isso que quero ser, um menino!<\/p>\n<p>De in\u00edcio, a analista considera tal lembran\u00e7a bastante freudiana, pois, ao ver o p\u00eanis de um coleguinha ou de um irm\u00e3o, \u201cela julgou e decidiu, ela viu isso, sabe que n\u00e3o o tem e quer t\u00ea-lo\u201d, como descreve Freud, em \u201cAlgumas consequ\u00eancias ps\u00edquicas da distin\u00e7\u00e3o anat\u00f4mica entre os sexos\u201d. O que estaria por tr\u00e1s dessa lembran\u00e7a encobridora, dessa imagem banal: uma cadeia significante articulada e recalcada que remeteria ao complexo de castra\u00e7\u00e3o freudiano? Ou o vazio da significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, a foraclus\u00e3o do Nome-do-Pai? Em outras palavras, observam-se, aqui, as sutilezas que envolvem o diagn\u00f3stico estrutural, pois a sintomatologia hist\u00e9rica pode, muitas vezes, e at\u00e9 certo ponto, coincidir com aquela de uma psicose n\u00e3o desencadeada.<\/p>\n<p>O plano da paciente de mudar de sexo, apoiado em uma certeza, apontava inicialmente para uma psicose. Por\u00e9m, o sujeito apresentava uma produ\u00e7\u00e3o on\u00edrica bastante metaf\u00f3rica e passava do masculino para o feminino com certa facilidade, o que fez com que sua formula\u00e7\u00e3o parecesse menos segura do que nas primeir\u00edssimas entrevistas. A hip\u00f3tese de um grande acting-out ancorado em uma fantasia constru\u00edda a partir de cenas traum\u00e1ticas violentas da sua inf\u00e2ncia n\u00e3o estava descartada. Ou seja, foi necess\u00e1rio um certo tempo para descartar a hip\u00f3tese de histeria e decidir quanto a um diagn\u00f3stico de psicose n\u00e3o desencadeada sem nenhum fen\u00f4meno elementar.<\/p>\n<p><strong>Outros Detalhes Do Caso<\/strong><\/p>\n<p>Ven \u00e9 filha de um funcion\u00e1rio importante de um governo deposto ap\u00f3s uma mudan\u00e7a de regime. O pai foi, ent\u00e3o, enviado para um campo de refugiados em um pa\u00eds vizinho. A m\u00e3e ficou com o filho, que ela julgava fr\u00e1gil. Ven foi enviada para a casa dos av\u00f3s maternos. Tr\u00eas anos depois, quando Ven tinha seis anos, o pai volta e vai busc\u00e1-la. Ela se lembra dessa volta para casa, mas n\u00e3o tem lembran\u00e7a alguma do per\u00edodo entre seus tr\u00eas e seis anos. Antes de chegar \u00e0 Fran\u00e7a, a fam\u00edlia ficou um ano em um pa\u00eds vizinho, onde as condi\u00e7\u00f5es de vida eram deplor\u00e1veis.<\/p>\n<p>A transforma\u00e7\u00e3o de Ven em homem foi progressiva: houve a vis\u00e3o do garotinho urinando no campo de refugiados acompanhada da convic\u00e7\u00e3o \u201c\u00e9 isso que sou ou que quero ser\u201d; certa raiva da m\u00e3e, que insistia em vesti-la de menina, toda arrumadinha; inveja do irm\u00e3o, preferido da m\u00e3e; quando os seios nascem, ela os esconde; como sua voz n\u00e3o se torna grave na adolesc\u00eancia, passa a exigir que seus colegas a tratem no masculino (em casa era tratada no feminino). Aos 20 anos passa a usar um cilindro dentro da cueca para \u201cobter a protuber\u00e2ncia\u201d; corta os cabelos bem curtos e usa as roupas de estudante do pai, \u201cas \u00fanicas que lhe caem bem\u201d.<\/p>\n<p>Um primeiro ponto que desvela certa altera\u00e7\u00e3o do simb\u00f3lico diz respeito ao pai e \u00e0 lei: quando da chegada da fam\u00edlia na Fran\u00e7a, no momento de declarar os filhos, ela acredita que bastaria que o pai a tivesse declarado homem para que tudo fosse diferente. A palavra do pai teria podido n\u00e3o apenas modificar o seu g\u00eanero, mas, talvez, metamorfosear sua anatomia aos sete anos de idade. O pai teria podido, assim, reparar esse erro da natureza. \u00c9 como se o desejo do pai tivesse for\u00e7a de lei. H\u00e1 a\u00ed uma esp\u00e9cie de continuidade entre o simb\u00f3lico da lei e o imagin\u00e1rio do corpo.<\/p>\n<p>Segundo Morel (1995) a psicose do sujeito aparece justamente em um ponto que poderia ser confundido com uma histeria. Trata-se da quest\u00e3o do retorno, no real, da quest\u00e3o do sexo. Essa quest\u00e3o se enuncia pelo vi\u00e9s do pequeno outro: o olhar das meninas a atormenta, ao passo que aquele dos meninos a deixa indiferente. Diante do enigma representado pelo olhar das meninas, Ven constr\u00f3i alguns cen\u00e1rios que poderiam remeter \u00e0 quest\u00e3o hist\u00e9rica \u201csou homem ou mulher?\u201d Contudo, nesse caso, o olhar \u00e9 fonte de grande tomento, de ang\u00fastia e de tentativas de passagem ao ato.<\/p>\n<p>Para Ven, o ato sexual equivale ao estupro. Ela n\u00e3o sente desejo sexual nem por homens nem por mulheres, ela tampouco se masturba. O que ela quer da mulher \u00e9 um amor plat\u00f4nico, absoluto, uma amizade perfeita, da qual o amor e o gozo est\u00e3o evidentemente exclu\u00eddos. Por que, ent\u00e3o, um p\u00eanis? Para dizer toda a \u201cverdade\u201d. \u201cSou de fato do sexo macho, mas como prov\u00e1-lo?\u201d<\/p>\n<p>Para esse sujeito, no lugar do meio-dizer, h\u00e1 a verdade toda, no lugar do falo velado, h\u00e1 o p\u00eanis como prova absoluta, e, no lugar da sutil mascarada, a roupa masculina, que a protege de um desvelamento por uma mulher, que, em seu caso, seria tr\u00e1gico, pois Ven n\u00e3o tem o p\u00eanis como prova.<\/p>\n<p>O que parece paradigm\u00e1tico, nesse caso, e que pode esclarecer quanto \u00e0 complexa demanda de certos sujeitos transexuais \u00e9 a pr\u00f3pria fun\u00e7\u00e3o do travestismo: aqui, \u00e9 o pr\u00f3prio travestismo que, ao funcionar como supl\u00eancia, permite evitar uma interven\u00e7\u00e3o real no corpo. Afinal, como diz a paciente: \u201cParecer \u00e9 ser\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/h6>\n<h6>COUTINHO, L. em \u201cDe frente com Gabi\u201d. 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(1971-1972\/2012). O Semin\u00e1rio, livro 19: \u2026ou pior. Rio de Janeiro: Zahar, p.17.<\/h6>\n<h6>LEA T. em \u201cDe frente com Gabi\u201d. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=6RZrCRKUXak. Acesso em: 02\/10\/2012.<\/h6>\n<h6>MOREL, G. \u201cUn cas de transvestisme f\u00e9minin\u201d, La Cause Freudienne, Paris: ECF, n. 30, 1995, p.20-26.<\/h6>\n<h6>NERY, J. W. Viagem solit\u00e1ria. Mem\u00f3rias de um transexual trinta anos depois. S\u00e3o Paulo: Editora Leya, 2011.<\/h6>\n<h6>NERY, J. W. em \u201cDe frente com Gabi\u201d. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=8hTnTk80GfE. Acesso em: 30\/07\/2012.<\/h6>\n<h6>STOLLER, R. Sex and gender. London: Hogart Press, 1968.<\/h6>\n<h6>STOLLER, R. A experi\u00eancia sexual. Rio de Janeiro: Imago, 1982.<\/h6>\n<h6>TEIXEIRA, M. C. A pessoa que se \u00e9. As rela\u00e7\u00f5es entre personalidade e corpo numa sexua\u00e7\u00e3o transexualista. Tese de doutorado defendida na FAFICH\/UFMG em 2012. In\u00e9dita.<\/h6>\n<h6>[1] Texto apresentado no N\u00facleo de Pesquisa em Psicose, no dia 19\/10\/2012.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Yolanda Vilela<\/strong><\/h6>\n<h6>Psicanalista membro correspondente da EBP-MG, mestrado (DEA) pela Universit\u00e9 de Paris 8, doutorado em Literatura Comparada pelo programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Estudos Liter\u00e1rios pela FALE-UFMG, p\u00f3s-doutorado em Literatura Comparada pelo programa de p\u00f3sgradua\u00e7\u00e3o em Estudos Liter\u00e1rios pela FALE-UFMG. E-mail:\u00a0<span id=\"cloak249c70aaa6557d750be5f1f9a8f4b163\"><a href=\"mailto:yolandavilela@gmail.com\">yolandavilela@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>YOLANDA VILELA Quest\u00f5es Freudianas Introduzir a quest\u00e3o do transexualismo exige evocar Freud e suas formula\u00e7\u00f5es acerca da subjetiva\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a sexual. Embora os desenvolvimentos te\u00f3ricos freudianos n\u00e3o digam respeito diretamente ao fen\u00f4meno transexual, uma vez que as transforma\u00e7\u00f5es corporais que acompanham esse fen\u00f4meno foram incrementadas a partir da segunda metade do s\u00e9culo passado, as elabora\u00e7\u00f5es&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-566","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-almanaque-11","category-7","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/566","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=566"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/566\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=566"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=566"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=566"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}