{"id":568,"date":"2012-08-17T06:51:47","date_gmt":"2012-08-17T09:51:47","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=568"},"modified":"2025-12-01T17:26:04","modified_gmt":"2025-12-01T20:26:04","slug":"almanaque-on-line-entrevista-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2012\/08\/17\/almanaque-on-line-entrevista-3\/","title":{"rendered":"Almanaque On-Line Entrevista &#8211; PATR\u00cdCIO ALVAREZ"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>PATR\u00cdCIO ALVAREZ<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Horizontal-Almanaque-11.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"640\" data-large_image_height=\"480\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-569\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Horizontal-Almanaque-11.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Horizontal-Almanaque-11.jpg 640w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Horizontal-Almanaque-11-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cA insensatez do sintoma: os corpos e as normas\u201d ser\u00e1 o tema de trabalho da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica do Instituto, neste semestre. Sua escolha se articula \u00e0 prepara\u00e7\u00e3o para o VI ENAPOL e toma como orienta\u00e7\u00e3o o argumento de \u00c9ric Laurent (2013) para esse Encontro. A apresenta\u00e7\u00e3o do tema parte da afirma\u00e7\u00e3o de que, hoje, \u201co sintoma est\u00e1 no corpo\u201d, n\u00e3o se oferece \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o e tem como resposta do mestre contempor\u00e2neo variadas tentativas de normatiza\u00e7\u00e3o e padroniza\u00e7\u00e3o dos corpos (medicaliza\u00e7\u00e3o, judicializa\u00e7\u00e3o, etc), pol\u00edtica da qual a psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana n\u00e3o compartilha. Se, na Fran\u00e7a, discute-se, atualmente, a quest\u00e3o da instrumentaliza\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise, para justificar a posi\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria ao casamento para todos, no Brasil, estamos sendo chamados a nos posicionar em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o das interna\u00e7\u00f5es compuls\u00f3rias de usu\u00e1rios do crack.<\/p>\n<p><strong>Almanaque On-Line: Em Seu Argumento, Laurent Indica Que \u201cPrecisamos Conceber O Sintoma N\u00e3o Com Base Na Cren\u00e7a No Nome-Do-Pai, Mas Baseados Na Efetividade Da Pr\u00e1tica Psicanal\u00edtica. Essa Pr\u00e1tica Obt\u00e9m, Por Meio Do Seu Manejo Da Verdade, Alguma Coisa Que Toca O Real. A Partir Do Simb\u00f3lico, Alguma Coisa Ressoa No Corpo E Faz Com Que O Sintoma Responda\u201d (LAURENT, 2013). Ele Diz, Ainda, Que A Quest\u00e3o, Para A Psican\u00e1lise, \u00c9 \u201cComo Falam Os Corpos Para Al\u00e9m Do Sintoma Hist\u00e9rico, Que Sup\u00f5e No Horizonte O Amor Ao Pai\u201d (LAURENT, 2013). Em Seu Texto De Apresenta\u00e7\u00e3o Do VI ENAPOL, Sua Pergunta \u00c9: \u201cCom Qual Corpo Se Fala?\u201d (ALVAREZ, 2013). Como Se Articulam As Duas Quest\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Patr\u00edcio Alvarez<\/strong>: Na verdade, no primeiro ensino de Lacan, o corpo est\u00e1 do lado do Nome-do-Pai: \u00e9 um corpo regulado por esse significante, e, at\u00e9 mesmo o que existe de real, nesse corpo, \u00e9 regulado pelo significante f\u00e1lico. Durante esse primeiro ensino, o que fica do lado de fora pertence ao campo da psicose.<\/p>\n<p>O segundo estatuto do corpo, correspondente ao objeto a, j\u00e1 estabelece uma diferen\u00e7a que amplia a cl\u00ednica e a rela\u00e7\u00e3o ao sintoma: \u00e9 a opera\u00e7\u00e3o l\u00f3gica da separa\u00e7\u00e3o o que permite extrair o objeto a e, em torno desse buraco e de sua borda, criar a superf\u00edcie que constitui o corpo. Portanto, n\u00e3o \u00e9 o Nome-do-Pai que produz o corpo, mas essa opera\u00e7\u00e3o l\u00f3gica inicial. E o Nome-do-Pai funciona como uma duplica\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica dessa opera\u00e7\u00e3o, ao elevar o buraco ao estatuto da falta-a-ser, ou seja, da castra\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, consegue regular o gozo, constituindo, assim, a perda do objeto a e, em seguida, a sua busca, chamada de desejo, insatisfeito ou imposs\u00edvel. Mas, ent\u00e3o, o Nome-do-Pai n\u00e3o \u00e9 original, e, por isso, nesse momento, Lacan diz que a fun\u00e7\u00e3o do pai \u00e9 a de \u201cunir o desejo \u00e0 lei\u201d, porque sua fun\u00e7\u00e3o \u00e9 secund\u00e1ria: se ocorrer, o gozo \u00e9 regulado por essa lei. Mas h\u00e1 muitos casos em que n\u00e3o \u00e9 regulado dessa forma, e Lacan se dedica, nesses anos, a investig\u00e1-los: a psicose, a debilidade mental, o fen\u00f4meno psicossom\u00e1tico, as tatuagens, a pervers\u00e3o, o luto, a viol\u00eancia e muitos mais s\u00e3o modos em que algo do objeto a n\u00e3o \u00e9 regulado pelo desejo nem pelo Nome-do-Pai.<\/p>\n<p>O terceiro estatuto do corpo leva mais longe essa diferen\u00e7a: come\u00e7a em O Semin\u00e1rio, livro 17, quando Lacan afirma, categoricamente, que a castra\u00e7\u00e3o \u00e9 operada pela linguagem, ou seja, n\u00e3o pelo pai. \u00c9 o que permite a Lacan localizar o pai como uma inven\u00e7\u00e3o da neurose, situando-o como o mais al\u00e9m do \u00c9dipo. \u00c9ric Laurent se refere a isso quando diz que o sintoma hist\u00e9rico sup\u00f5e, em seu horizonte, o amor ao pai. Assim, o que come\u00e7ou em O Semin\u00e1rio, livro 11, ao localizar o pai como a duplica\u00e7\u00e3o da opera\u00e7\u00e3o de separa\u00e7\u00e3o, culmina com esse conceito e, assim, abre o segundo ensino de Lacan.<\/p>\n<p>Vemos como o mais al\u00e9m do \u00c9dipo, que est\u00e1 sendo investigado, atualmente, na Europa, pelo PIPOL VI1, se articula, intimamente, com a nossa pesquisa sobre o corpo. Qual \u00e9 o corpo que se constitui mais al\u00e9m do \u00c9dipo, se a opera\u00e7\u00e3o do Nome-do-Pai n\u00e3o \u00e9 o que a constitui? \u00c9 um corpo diferente, definido por Lacan, em O Semin\u00e1rio, livro 23, como uma caixa de resson\u00e2ncia na qual um dizer produz efeitos: \u201ca puls\u00e3o \u00e9 o eco no corpo de que h\u00e1 um dizer\u201d. Assim, n\u00e3o \u00e9 o corpo do Nome-do-Pai, nem mesmo o do objeto a: \u00e9 o corpo do sintoma e do sinthoma. \u00c9 o instrumento que temos para tocar um real: o simb\u00f3lico ressoa no corpo pelo sintoma.<\/p>\n<p>Isso interroga a nossa pr\u00e1tica e \u00e9 o que o argumento de \u00c9ric Laurent assinala: o modo como o corpo fala mais al\u00e9m do sintoma hist\u00e9rico, isto \u00e9, mais al\u00e9m do \u00c9dipo.<\/p>\n<p><strong>Almanaque On-Line: \u00c9ric Laurent Evoca Jacques-Alain Miller Em Seu Pequeno Tratado Sobre A \u201cBiologia Lacaniana\u201d, Para Destacar A Maneira Como A Linguagem Biol\u00f3gica Se Apodera Do Corpo, Recortando-O Com Suas Pr\u00f3prias Mensagens, Sem Equ\u00edvoco. Como, Ent\u00e3o, Podemos Pensar Sobre A Produ\u00e7\u00e3o Do Sintoma Anal\u00edtico, A Partir De Um Corpo Que N\u00e3o Fala E Que Goza No Sil\u00eancio Pulsional De Uma Linguagem Sem Equ\u00edvocos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Patr\u00edcio Alvarez<\/strong>: N\u00e3o estamos longe de consider\u00e1-lo como uma batalha: o corpo que a ci\u00eancia recorta pode prescindir da linguagem, pode dispensar o equ\u00edvoco e o mal-entendido, porque foraclui o sujeito.<\/p>\n<p>Deixemos claro que n\u00e3o nos referimos \u00e0 ci\u00eancia, tal como concebida pelo Iluminismo e que muitos ainda defendem, destacando seus progressos \u00fateis \u00e0 humanidade, o que inclui os gadgets que utilizamos tanto. N\u00f3s n\u00e3o discutimos esses desenvolvimentos e, de fato, opor-se a eles \u00e9 uma forma de obscurantismo, contra o qual Lacan adverte insistentemente.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 essa a cr\u00edtica da psican\u00e1lise. Referimo-nos a um outro aspecto da ci\u00eancia, impulsionado pelo discurso capitalista: o que silencia os corpos, foracluindo o sujeito. O corpo da ci\u00eancia n\u00e3o fala porque os seus meios s\u00e3o outros: o bisturi e os procedimentos tecnol\u00f3gicos n\u00e3o s\u00e3o o problema de primeira ordem, mas as opera\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas que constituem a biopol\u00edtica. Ent\u00e3o, n\u00e3o acho que existam corpos que n\u00e3o falam, mas que a ci\u00eancia, em conjun\u00e7\u00e3o com o discurso capitalista, os silencia. Essa combina\u00e7\u00e3o, a que Lacan se refere v\u00e1rias vezes, em seu ensino, \u00e9 estudada, em filosofia, sob o nome de biopol\u00edtica. Agamben, por exemplo, tem demonstrado os instrumentos de que ela se utiliza para manipular os corpos.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a batalha: ou os corpos s\u00e3o manipulados biopoliticamente, ou os corpos falam. Ent\u00e3o, Laurent diz que \u201cas palavras e os corpos se separam na disposi\u00e7\u00e3o atual do Outro da civiliza\u00e7\u00e3o\u201d (LAURENT, 2013). Para Lacan, o corpo \u00e9 de um sujeito. Portanto, temos de fazer falar esse corpo que a ci\u00eancia tenta silenciar, porque \u00e9 o \u00fanico meio de resgat\u00e1-lo como de um sujeito. E para que o corpo fale, nosso instrumento fundamental \u00e9 o sintoma: essa \u201cjun\u00e7\u00e3o das palavras com os corpos\u201d, que Laurent (2013) indica com precis\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, responderia \u00e0 pergunta, dizendo que eu n\u00e3o acho que, estruturalmente, existam corpos que n\u00e3o falam, mas que s\u00e3o corpos silenciados. Todo corpo pode falar, mesmo aqueles que parecem gozar em sil\u00eancio, e a opera\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise consiste, precisamente, em faz\u00ea-los falar em sua pr\u00f3pria l\u00edngua: a cl\u00ednica do autismo, a cl\u00ednica da toxicomania e a cl\u00ednica da viol\u00eancia o demonstram a cada dia. Nossa cl\u00ednica atual trava essa batalha. Trata-se de uma \u00e9tica, mas, por que n\u00e3o, tamb\u00e9m de uma \u00e9pica.<\/p>\n<p><strong>Almanaque On-Line: Como A Psican\u00e1lise Pode Contribuir Para Uma Abordagem Desse Novo Status Do Sintoma? Como A Psican\u00e1lise Pode Tratar Esses Sintomas Que N\u00e3o S\u00e3o Pass\u00edveis De Interpreta\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Patr\u00edcio Alvarez<\/strong>: Temos de estabelecer uma diferen\u00e7a, que parece sutil, mas produz muitas consequ\u00eancias: quando Laurent alude a um corpo que n\u00e3o fala, trata-se do corpo da biopol\u00edtica, que, como dissemos, n\u00e3o \u00e9 um corpo que n\u00e3o possa falar, mas que foi silenciado. E, como tal, podemos faz\u00ea-lo falar, resgatando o sujeito.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 diferente disso considerar o corpo que est\u00e1 para al\u00e9m do \u00c9dipo, que Laurent designa como aquele da cadeia r\u00edgida: \u201co corpo t\u00f3rico furado. O corpo como agenciamento do real, do simb\u00f3lico e do imagin\u00e1rio se apresenta em torno de um ou dois furos, e se mant\u00e9m sozinho\u201d (LAURENT, 2013). Esse corpo prescinde do Nome-do-Pai, como Lacan aponta, ao falar sobre as diferentes formas poss\u00edveis de amarra\u00e7\u00e3o, ao mostrar que o Nome-do-Pai \u00e9 uma duplica\u00e7\u00e3o poss\u00edvel de um dos registros \u2014 no caso da neurose \u2014 mas n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio: n\u00e3o toda a cl\u00ednica depende dele.<\/p>\n<p>Entretanto, n\u00e3o devemos nos confundir: esse corpo t\u00f3rico pode prescindir do Nome-do-Pai, mas n\u00e3o do simb\u00f3lico. O novo estatuto do sintoma n\u00e3o prescinde do simb\u00f3lico. Essa diferen\u00e7a sutil \u00e9 o que permite que a psican\u00e1lise possa operar sobre ele.<\/p>\n<p>As manifesta\u00e7\u00f5es dessa cadeia r\u00edgida s\u00e3o muitas, mas o fator comum que as unifica \u00e9 que n\u00e3o passam pelo sentido: na verdade, o Nome-do-Pai foi localizado por Lacan desde O Semin\u00e1rio, livro 11, como o que produz o la\u00e7o entre S1-S2, associando o sem sentido do S1 ao saber inconsciente. Na cadeia r\u00edgida, esse la\u00e7o n\u00e3o se produz, e Laurent diz que Lacan \u201cprop\u00f5e outra vers\u00e3o de um inconsciente que n\u00e3o \u00e9 constitu\u00eddo pelos efeitos do significante em um corpo imagin\u00e1rio, mas, sim, um inconsciente constitu\u00eddo desse n\u00f3 entre o imagin\u00e1rio, o simb\u00f3lico e o real. Inclui a inst\u00e2ncia do real que \u00e9 a pura repeti\u00e7\u00e3o do mesmo, o que Jacques-Alain Miller, em seu \u00faltimo curso, isolou na dimens\u00e3o do Um-sozinho que se repete\u201d (LAURENT, 2013), ou seja, o que Miller chama de itera\u00e7\u00e3o. Isso implica dizer que o pr\u00f3prio inconsciente \u00e9 afetado pela dispensa da amarra\u00e7\u00e3o ao pai. Mas esse inconsciente, que pode prescindir do pai e do sentido, n\u00e3o prescinde do sintoma.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, poder\u00edamos responder assim a essa pregunta: a rigor, nenhum sintoma \u00e9 pass\u00edvel de interpreta\u00e7\u00e3o, mesmo o sintoma neur\u00f3tico. \u201cVoc\u00eas sabem que o sintoma n\u00e3o pode ser interpretado diretamente, que \u00e9 preciso haver a transfer\u00eancia, isto \u00e9, a introdu\u00e7\u00e3o do Outro. [\u2026] O sintoma, por natureza, \u00e9 gozo [\u2026] n\u00e3o precisa de voc\u00eas como o acting-out, ele se basta\u201d (LACAN, 1962-1963\/2005, p.139-140), \u00e9 o que Lacan indica, desde O Semin\u00e1rio, livro 10.<\/p>\n<p>Precisamente, o sintoma n\u00e3o precisa do sentido ou do Outro, \u00e9 o analista que atua para esse for\u00e7amento, o de fazer passar o gozo do sintoma para a palavra, pela opera\u00e7\u00e3o da transfer\u00eancia. Esse for\u00e7amento \u00e9 o que viabiliza a passagem do inconsciente real ao inconsciente transferencial, o que permite que o gozo do sintoma fa\u00e7a la\u00e7o com o Outro, e que o S1 fa\u00e7a la\u00e7o com o S2. Sabemos que n\u00e3o \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o f\u00e1cil e que n\u00e3o \u00e9 o mesmo na neurose, na psicose ou nos sintomas contempor\u00e2neos, mas pode ser feito. Isso \u00e9 o que queremos dizer ao afirmar que todo corpo pode falar, o que a cl\u00ednica da psicose ensinou-nos em primeiro lugar.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m aprendemos que todo corpo pode falar, mas n\u00e3o necessariamente entrar no campo do sentido. E, para isso, as cl\u00ednicas da anorexia, da viol\u00eancia, da toxicomania, e at\u00e9 o ponto extremo, do autismo, nos ensinaram que esse procedimento de passagem para o inconsciente transferencial n\u00e3o \u00e9 sempre poss\u00edvel. N\u00f3s aprendemos que \u00e9 poss\u00edvel operar com o sintoma, sem passar necessariamente pelo sentido, e, para isso, \u00e9 t\u00e3o \u00fatil o conceito que Miller define como itera\u00e7\u00e3o, ao que Laurent se referia.<\/p>\n<p><strong>Almanaque On-Line: Sua Apresenta\u00e7\u00e3o Do ENAPOL Trata Das Tr\u00eas Teorias Do Corpo Em Lacan E Das Cl\u00ednicas Que Podem Ser Deduzidas De Cada Uma, Mas Levanta Um Problema Em Rela\u00e7\u00e3o \u00c0 Dificuldade De Elaborar Uma Cl\u00ednica Do Acontecimento De Corpo, Que Ainda Teria Que Ser Constru\u00edda. Considerando Tamb\u00e9m Sua Hip\u00f3tese De \u201cQue Uma Cl\u00ednica Se Baseia No Particular Da Classe, Talvez N\u00e3o Se Tenha Que Constru\u00ed-La, Mas Designar O Que H\u00e1 De Mais Singular Nesse Corpo Que Fala\u201d, Voc\u00ea Sugere Que O ENAPOL Seria A Ocasi\u00e3o Para Elaborarmos Uma Resposta. Poderia Falar-Nos Um Pouco Mais Sobre Isso?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Patr\u00edcio Alvarez<\/strong>: \u00c9 o ENAPOL que deveria responder! \u00c9 uma brincadeira, mas tem um pouco de verdade: geralmente, quando nos referimos ao corpo, usamos conceitos do primeiro ensino e, v\u00e1rias vezes, misturamos a cl\u00ednica do Nome-do-Pai e a cl\u00ednica do objeto a com a cl\u00ednica do acontecimento de corpo. Por exemplo, dizemos, levianamente, que um sintoma hist\u00e9rico \u00e9 um acontecimento de corpo.<\/p>\n<p>\u00c9ric Laurent define, de uma forma muito precisa: \u201cNessa perspectiva, pode-se distinguir o sintoma como acontecimento de corpo e o sintoma hist\u00e9rico\u201d (LAURENT, 2013), e eles n\u00e3o s\u00e3o a mesma coisa. O corpo t\u00f3rico, como dissemos, prescinde do Nome-do-Pai e inaugura uma s\u00e9rie de manifesta\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas novas.<\/p>\n<p>Assim, a cl\u00ednica do acontecimento de corpo \u00e9 muito mais ampla do que as duas anteriores: n\u00e3o se limita \u00e0 cl\u00ednica das estruturas \u2014 relativa ao Nome-do-Pai \u2014 nem \u00e0 cl\u00ednica do que est\u00e1 fora delas \u2014 aquela do objeto a \u2014 mas se refere aos diferentes modos poss\u00edveis de amarra\u00e7\u00e3o RSI: \u00e9 um conjunto aberto e, como tal, poderia fazer uma s\u00e9rie, mas n\u00e3o uma classifica\u00e7\u00e3o. Por isso, dizia que o particular da classe n\u00e3o a apreende.<\/p>\n<p>Essa cl\u00ednica do acontecimento de corpo n\u00e3o anula ou deixa de fora as duas anteriores, mas a sua rela\u00e7\u00e3o com elas \u00e9 ainda algo a investigar: trata-se de saber se v\u00e3o ser inclu\u00eddas, redistribu\u00eddas, ou se operam ao modo de funcionamento do conjunto aberto, formando uma s\u00e9rie de singularidades, uma s\u00e9rie de poss\u00edveis amarra\u00e7\u00f5es RSI. \u00c9 a grande descoberta do inclassific\u00e1vel: o fato de que n\u00e3o se possa fazer uma classifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o nos impede de tratar; sim, \u00e9 o que nos permite operar com o que \u00e9 invari\u00e1vel em toda a s\u00e9rie, o sintoma.<\/p>\n<p>Essas perguntas que nos fazemos s\u00e3o, muitas mais, as que podemos fazer para nosso Encontro: se pudermos obter um pequeno ganho de saber na constru\u00e7\u00e3o dessa cl\u00ednica do acontecimento de corpo, em nosso VI ENAPOL, seria \u00f3timo!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: M\u00e1rcia Mez\u00eancio.<\/h6>\n<\/div>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/h6>\n<h6>ALVAREZ, P. \u201dFalar com qual corpo?\u201d Dispon\u00edvel em: http:\/\/enapol.com\/pt\/template.php?file=Textos\/Hablar-con-cual-cuerpo_Patricio-Alvarez.html. Acesso em: 25 mar. 2013.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1962-1963\/2005). O Semin\u00e1rio, livro 10: a ang\u00fastia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. \u201cFalar com seu sintoma, falar com seu corpo\u201d. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.enapol.com\/pt\/template.php?file=Argumento.html. Acesso em: 25 mar. 2013.<\/h6>\n<h6>[1] O encontro internacional do continente europeu ocorrer\u00e1 em Bruxelas, em 6 e 7 de julho de 2013, com o t\u00edtulo \u201cDepois do \u00c9dipo, as mulheres se conjugam no futuro\u201d<\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PATR\u00cdCIO ALVAREZ &nbsp; &nbsp; \u201cA insensatez do sintoma: os corpos e as normas\u201d ser\u00e1 o tema de trabalho da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica do Instituto, neste semestre. Sua escolha se articula \u00e0 prepara\u00e7\u00e3o para o VI ENAPOL e toma como orienta\u00e7\u00e3o o argumento de \u00c9ric Laurent (2013) para esse Encontro. A apresenta\u00e7\u00e3o do tema parte da afirma\u00e7\u00e3o&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58217,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[7,1],"tags":[],"class_list":["post-568","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-11","category-sem-categoria","category-7","category-1","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/568","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=568"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/568\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58218,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/568\/revisions\/58218"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58217"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=568"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=568"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=568"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}