{"id":58761,"date":"2026-03-02T10:20:17","date_gmt":"2026-03-02T13:20:17","guid":{"rendered":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/?p=58761"},"modified":"2026-03-02T14:49:55","modified_gmt":"2026-03-02T17:49:55","slug":"o-espaco-de-um-abraco-joyce-lom-e-sua-mulher-glove","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2026\/03\/02\/o-espaco-de-um-abraco-joyce-lom-e-sua-mulher-glove\/","title":{"rendered":"O espa\u00e7o de um abra\u00e7o: Joyce Lom e sua mulher G(love)"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_section css=&#8221;.vc_custom_1772473653096{background-color: #EADAD0 !important;}&#8221;][vc_row][vc_column][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]S\u00e9rgio de Mattos<\/p>\n<h5>Psicanalista<br \/>\nMembro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP)<br \/>\ne da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP)<br \/>\nA. E. em exerc\u00edcio, 2022-2024<br \/>\nE-mail: sergioecmattos@hotmail.com<\/h5>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column el_class=&#8221;.flow-columns { -webkit-column-count: 3; \/* Chrome, Safari, Opera *\/ -moz-column-count: 3; \/* Firefox *\/ column-count: 3; \/* Number of columns *\/ -webkit-column-gap: 40px; -moz-column-gap: 40px; column-gap: 40px; \/* Space between columns *\/ }&#8221;][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]Lacan se serve da met\u00e1fora da luva (<em>glove<\/em>), para pensar a rela\u00e7\u00e3o entre Joyce e sua esposa Nora, explicando o que o permite ter um corpo e, pela via do amor, fazer existir sua esquisita rela\u00e7\u00e3o sexual. Mas essa n\u00e3o \u00e9 uma luva\u00a0<em>pr\u00eat-\u00e0-porter<\/em>. Ele faz da luva-Nora sua pr\u00f3pria obra, por meio da qual pode conter o corpo que lhe escapa. Depreende-se da\u00ed uma fun\u00e7\u00e3o estabilizadora para seu gozo. Nora \u00e9 a mulher-ajuste, ajusta um corpo a Joyce. J.-A. Miller comenta que Lacan salva assim a rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>Mas o que quer dizer \u201csalvar a rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d, se Lacan \u00e9 justamente aquele que enuncia o aforisma \u201cn\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d? O amor e a arte s\u00e3o tentativas de contornar esse imposs\u00edvel. Joyce, com sua inven\u00e7\u00e3o, escreve uma topologia do imposs\u00edvel: transforma o n\u00e3o-haver-rela\u00e7\u00e3o em estilo, em sinthoma.<\/p>\n<p><strong><em>Ishmael in love<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Na fic\u00e7\u00e3o\u00a0<em>Ishmael in love<\/em>, lemos o que se passa com o amor de um golfinho por Lisabeth, especialista nas rela\u00e7\u00f5es entre humanos e cet\u00e1ceos. O que \u00e9 esse amor? A excita\u00e7\u00e3o e a \u00e2nsia de estar pr\u00f3ximo. Qual a natureza dessa atra\u00e7\u00e3o? \u201c\u00c9 minha necessidade da sua companhia\u201d (SILVERBERG, 1980), diz Ishmael sobre Lisabeth. \u201cAcredito que ela me compreende como nenhum membro de minha esp\u00e9cie \u00e9 capaz de fazer\u201d (SILVERBERG, 1980). O corpo \u00e9, entretanto, obst\u00e1culo: ele tem 175 kg e 2,9 m; ela, 1,80 m e 52 kg.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]<\/p>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #993300;\">Ele faz da luva-Nora sua pr\u00f3pria obra, por meio da qual pode conter o corpo que lhe escapa. Depreende-se da\u00ed uma fun\u00e7\u00e3o estabilizadora para seu gozo. Nora \u00e9 a mulher-ajuste, ajusta um corpo a Joyce. J.-A. Miller comenta que Lacan salva assim a rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/span><\/h3>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_empty_space height=&#8221;20&#8243;][vc_single_image image=&#8221;58764&#8243; img_size=&#8221;full&#8221; css=&#8221;&#8221;][vc_empty_space height=&#8221;20&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column el_class=&#8221;.flow-columns { -webkit-column-count: 3; \/* Chrome, Safari, Opera *\/ -moz-column-count: 3; \/* Firefox *\/ column-count: 3; \/* Number of columns *\/ -webkit-column-gap: 40px; -moz-column-gap: 40px; column-gap: 40px; \/* Space between columns *\/ }&#8221;][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]<\/p>\n<blockquote><p>N\u00e3o estou seguro se sinto desejos sexuais, \u00e9 mais como se um anseio generalizado gerasse uma perturba\u00e7\u00e3o generalizada por sua presen\u00e7a, que traduzo em termos sexuais para tornar compreens\u00edvel para mim [\u2026] ela n\u00e3o tem os tra\u00e7os que busco em uma parceira, bico proeminente e elegantes barbatanas. Os tra\u00e7os f\u00edsicos desej\u00e1veis da sua esp\u00e9cie n\u00e3o t\u00eam import\u00e2ncia para mim e em alguns aspectos t\u00eam um valor negativo. \u00c9 o caso das duas gl\u00e2ndulas mam\u00e1rias na regi\u00e3o peitoral que certamente atrapalham seu nado. \u00c9 certo que Lisabeth lamenta o tamanho e o lugar destas gl\u00e2ndulas, j\u00e1 que cuidadosamente as cobre. (SILVERBERG, 1980)<\/p><\/blockquote>\n<p>Essa cena lateraliza o aforisma lacaniano: a rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o existe. A tentativa de uni\u00e3o dos corpos culmina na asfixia. A rela\u00e7\u00e3o, em vez de propor\u00e7\u00e3o, revela o abismo de esp\u00e9cie, de linguagem, de gozo. Onde Ishmael busca encontro, encontra-se o real do desencontro.<\/p>\n<p>Ishmael n\u00e3o entende a rela\u00e7\u00e3o sexual entre humanos; considera poss\u00edvel que se reproduzam de maneira rand\u00f4mica, o que lhe parece estranho e perverso, e lamenta: \u201cPreciso ler mais\u201d. Todo o conto converge para o desencontro. Arrebatado, deixa escapar: \u201cLisabeth, <em>I love you<\/em>! Venha viver comigo e ser meu amor\u201d (SILVERBERG, 1980). Ao implorar por sua companhia, ela se desnuda na piscina; ele treme \u2013 \u201caquela feiura das gl\u00e2ndulas e ainda aquele inesperado peda\u00e7o de pelos corporais adicionais\u201d (SILVERBERG, 1980). Na \u00e1gua, esquecido de tudo, corre, aperta-a entre barbatanas, imaginando o abra\u00e7o humano. Sente a m\u00e3o que lhe batia, signo de reciprocidade; logo percebe, com o c\u00e9rebro enevoado de paix\u00e3o, que ela n\u00e3o tinha mais ar. Subiu r\u00e1pido \u00e0 superf\u00edcie. \u201cMinha querida Lisabeth estava chocada, ofegante, respirou fundo e tentou escapar de mim, exausta, seu p\u00e1lido corpo tremendo. E, em voz fraca, disse:\u00a0\u2018Voc\u00ea quase me afogou, Ishmael\u2019\u201d (SILVERBERG, 1980).<\/p>\n<p>Essa cena lateraliza o aforisma lacaniano: a rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o existe. A tentativa de uni\u00e3o dos corpos culmina na asfixia. A rela\u00e7\u00e3o, em vez de propor\u00e7\u00e3o, revela o abismo de esp\u00e9cie, de linguagem, de gozo. Onde Ishmael busca encontro, encontra-se o real do desencontro.<\/p>\n<p><strong>O espa\u00e7o de um abra\u00e7o<\/strong><\/p>\n<p>Nas correspond\u00eancias entre Joyce e Nora, verifica-se que a luva virada ao avesso \u00e9 sua mulher, Nora. Desse modo, ele considera que ela lhe cai como uma luva. N\u00e3o \u00e9 apenas preciso que ela lhe caia como uma luva, mas que ela o cerre como uma luva&#8230; e acrescenta que ela tamb\u00e9m n\u00e3o serve absolutamente para nada.<\/p>\n<p>Que ela lhe caia como uma luva, o cerre e n\u00e3o sirva para nada: s\u00e3o as tr\u00eas condi\u00e7\u00f5es dessa constru\u00e7\u00e3o. Ser uma luva fabricada \u00e0 sua medida (<em>handmade<\/em>), que lhe d\u00ea consist\u00eancia \u2013 mantenha seu corpo como um \u2013 e n\u00e3o sirva para nada, ser uma mulher degradada, tornada puro objeto-dejeto, produzindo uma localiza\u00e7\u00e3o para seu gozo.<\/p>\n<p>A met\u00e1fora da luva da qual se serve Lacan baseia-se nas correspond\u00eancias de Joyce e Nora e no op\u00fasculo de 1768 de Kant, em que o fil\u00f3sofo utiliza essa pe\u00e7a do vestu\u00e1rio para provar a natureza real do espa\u00e7o, isto \u00e9, sua exist\u00eancia como um <em>a priori<\/em>. Contudo, Lacan discorda dessa ideia kantiana de um espa\u00e7o dado, conforme Kant (1768\/1983) o concebe, mas, ao contr\u00e1rio, considera-o uma constru\u00e7\u00e3o que depende do imagin\u00e1rio e do simb\u00f3lico.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]<\/p>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #993300;\">A luva, como met\u00e1fora, portanto, n\u00e3o serve a Lacan para representar um espa\u00e7o emp\u00edrico, anat\u00f4mico \u2013 aquele do corpo enquanto organismo delimitado \u2013, mas para figurar uma topologia do gozo, em que o dentro e o fora se tornam revers\u00edveis.<\/span><\/h3>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_empty_space height=&#8221;20&#8243;][vc_single_image image=&#8221;58764&#8243; img_size=&#8221;full&#8221; css=&#8221;&#8221;][vc_empty_space height=&#8221;20&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column el_class=&#8221;.flow-columns { -webkit-column-count: 3; \/* Chrome, Safari, Opera *\/ -moz-column-count: 3; \/* Firefox *\/ column-count: 3; \/* Number of columns *\/ -webkit-column-gap: 40px; -moz-column-gap: 40px; column-gap: 40px; \/* Space between columns *\/ }&#8221;][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]A essa perspectiva lacaniana da constru\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o corresponde portanto a da constru\u00e7\u00e3o do corpo, da qual se serve Lacan, que se revela em Joyce, num texto escrito sobre a rela\u00e7\u00e3o de Blake e sua mulher. Identificando-se a Blake, o escritor exp\u00f5e sua pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o com Nora:<\/p>\n<p>Blake n\u00e3o se sentia atra\u00eddo por mulheres cultas ou refinadas; preferia a mulher simples, de mentalidade nebulosa e sensual, ou desejava que a alma de sua amada fosse uma cria\u00e7\u00e3o lenta e dolorosa sua, libertando e purificando diariamente, diante de seus pr\u00f3prios olhos, o dem\u00f4nio oculto na n\u00e9voa. (JOYCE, 2012, p. 232)<\/p>\n<p>Nas cartas endere\u00e7adas a Nora, ilustra-se a solu\u00e7\u00e3o joyceana:<\/p>\n<p>Querida\u00a0<em>Butterfly<\/em>&#8230; Espero que tenhas recebido bem as luvas que te obsequiei&#8230; O par mais bonito \u00e9 o de pele de raposa; est\u00e3o forrados de sua pr\u00f3pria pele, simplesmente postos ao avesso e devem ser quentes, quase tanto como certas partes do seu corpo,\u00a0<em>Butterfly<\/em>&#8230; (JOYCE, 2000, p. 69)<\/p>\n<p>A luva, como met\u00e1fora, portanto, n\u00e3o serve a Lacan para representar um espa\u00e7o emp\u00edrico, anat\u00f4mico \u2013 aquele do corpo enquanto organismo delimitado \u2013, mas para figurar uma topologia do gozo, em que o dentro e o fora se tornam revers\u00edveis. Assim como uma luva pode ser virada do avesso sem que se perca a continuidade da superf\u00edcie, o sujeito e o corpo se implicam por uma tor\u00e7\u00e3o: n\u00e3o se trata de dois termos distintos (um sujeito e um corpo), mas de um \u00fanico campo, o do gozo, que se volta sobre si mesmo.<\/p>\n<p>Em outras palavras, n\u00e3o se est\u00e1 dizendo que o corpo tem um interior ps\u00edquico e um exterior corporal, mas, ao contr\u00e1rio, que a linguagem vinda de \u201cfora\u201d do Outro percute e fura o corpo por \u201cdentro\u201d, e que o corpo, enquanto lugar de gozo, fura a linguagem por fora, o que nos faz pensar que o gozo ocorre na passagem de um lado ao outro, na fric\u00e7\u00e3o entre o significante e o corpo, entre o dizer e o sentir. O corpo \u00e9 ent\u00e3o aquilo que se veste e se despe da linguagem.<\/p>\n<p>A luva revirada captura esse entrela\u00e7amento sem interior e exterior est\u00e1veis, tornando preciso que seja estabilizado por uma borda, como uma luva.<\/p>\n<p><strong>Se h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual<\/strong><\/p>\n<p>Lacan encontra em Joyce um exemplo extraordin\u00e1rio da constitui\u00e7\u00e3o de um corpo de gozo como um modo de lidar com a n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o entre os sexos.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #993300;\">Essa \u201crela\u00e7\u00e3o com o sinthoma\u201d \u00e9, portanto, o que substitui a n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o: \u00e9 o parceiro real de cada um, o ponto de amarra\u00e7\u00e3o que torna habit\u00e1vel o imposs\u00edvel do gozo.<\/span><\/h3>\n<p>Miller (1986), ao comentar <em>O Sinthoma<\/em>, nota que, em Joyce, Lacan encontra uma inven\u00e7\u00e3o que faz supl\u00eancia a esse imposs\u00edvel: trata-se da rela\u00e7\u00e3o entre o sujeito e o seu sinthoma. Sinthoma entendido como a alteridade interna ao falasser, isto \u00e9, o modo singular com que cada um amarra o real do gozo e d\u00e1 consist\u00eancia corporal e subjetiva.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_empty_space height=&#8221;20&#8243;][vc_single_image image=&#8221;58763&#8243; img_size=&#8221;full&#8221; css=&#8221;&#8221;][vc_empty_space height=&#8221;20&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]<\/p>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #993300;\">Joyce \u00e9 um <em>LOM\/Love\/Luva<\/em>; Ishmael, por\u00e9m, permanece no sem-soutien da rela\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel.<\/span><\/h3>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column el_class=&#8221;.flow-columns { -webkit-column-count: 3; \/* Chrome, Safari, Opera *\/ -moz-column-count: 3; \/* Firefox *\/ column-count: 3; \/* Number of columns *\/ -webkit-column-gap: 40px; -moz-column-gap: 40px; column-gap: 40px; \/* Space between columns *\/ }&#8221;][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]Dessa forma, \u201cse h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d, ela s\u00f3 existe no sentido restrito e deslocado em que o sujeito mant\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o com o seu pr\u00f3prio sinthoma \u2013 e n\u00e3o com o outro sexo.<\/p>\n<p>Essa \u201crela\u00e7\u00e3o com o sinthoma\u201d \u00e9, portanto, o que substitui a n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o: \u00e9 o parceiro real de cada um, o ponto de amarra\u00e7\u00e3o que torna habit\u00e1vel o imposs\u00edvel do gozo.<\/p>\n<p>Joyce, ao fazer de Nora sua \u201cluva revirada\u201d, e de sua escrita o lugar de consist\u00eancia do corpo, \u00e9 o exemplo dessa rela\u00e7\u00e3o. No lugar da n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o sexual, h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sinthom\u00e1tica: o encontro entre o falante e a forma que ele inventa para amarrar seu gozo, como uma forma de supl\u00eancia, fazendo um \u201cmodo de rela\u00e7\u00e3o\u201d poss\u00edvel, mas n\u00e3o entre dois sexos, e sim entre o sujeito e o seu sinthoma.<\/p>\n<p><strong>Joyce salva<\/strong><\/p>\n<p>Segundo Miller, Joyce \u201csalva\u201d a rela\u00e7\u00e3o sexual ao inventar uma topologia pautada na reviravolta da luva \u2013 uma forma singular de amarrar o que n\u00e3o se escreve, ou seja, amarrar a rela\u00e7\u00e3o poss\u00edvel do sujeito com seu gozo.<\/p>\n<blockquote><p>\u00d3 acolhe-me na tua&#8230; Em breve meu corpo vai penetrar no teu&#8230; Oxal\u00e1 que eu pudesse aninhar-me no teu \u00fatero como uma crian\u00e7a nascida de tua carne e teu sangue&#8230; na quente penumbra secreta de teu corpo. (JOYCE, 2017, p. 34)<\/p><\/blockquote>\n<p>Para que seu corpo tenha consist\u00eancia, Nora \u00e9 onde o escritor pode manter-se alojado e delimitado. L\u00ea-se nas cartas a ela endere\u00e7adas como o artista sem tantas condi\u00e7\u00f5es financeiras se dedica a vesti-la com vestidos, joias e luvas:<\/p>\n<blockquote><p>Enfeita teu corpo para mim, car\u00edssima. Quero-te bonita e feliz e amorosa e provocante, cheia de recorda\u00e7\u00f5es, cheia de vontade, quando nos encontramos. Lembras dos tr\u00eas adjetivos que usei em\u00a0<em>Os mortos<\/em>\u00a0falando sobre teu corpo? S\u00e3o estes: musical, estranho e perfumado. (JOYCE, 2017, p. 30)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>LOM tem um corpo<\/strong><\/p>\n<p>\u201cFazer um corpo\u201d \u00e9 poder ter o ar de t\u00ea-lo \u2013 e dele gozar da melhor maneira e de modo mais viv\u00edvel, j\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel gozar da completude da rela\u00e7\u00e3o sexual. Assim, para LOM (nome sonoro que d\u00e1 Lacan ao homem enquanto corpo\/linguagem), o\u00a0<em>ter<\/em>\u00a0precede o\u00a0<em>ser<\/em>. \u201cTenho um corpo!\u201d parece ser a primeira ideia que temos de n\u00f3s, nossa primeira aquisi\u00e7\u00e3o. O que n\u00e3o ocorre sem que haja uma instaura\u00e7\u00e3o do significante na carne pela via do gozo da palavra, da materialidade do fonema. Para construir esse corpo, n\u00e3o \u00e9 suficiente a da incorpora\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica da informa\u00e7\u00e3o, mas que a sonoriza\u00e7\u00e3o das palavras, os acentos, tons, inflex\u00f5es musicais e vibra\u00e7\u00f5es configuram um gozo necess\u00e1rio para a instaura\u00e7\u00e3o\/grampeamento do simb\u00f3lico, o\u00a0LOM. Por isso a escrita de Joyce \u00e9 t\u00e3o musical.<\/p>\n<p><strong>Um espelho topol\u00f3gico?<\/strong><\/p>\n<p>Joyce se arranja: h\u00e1 uma compatibilidade espacial entre ele e Nora-Love-Ajuste, quando, revirando a luva e vestindo-se desse espa\u00e7o, passa a constituir seu corpo. A escrita faz a fun\u00e7\u00e3o da pele: delimita, envolve, amarra. \u00c9 pela letra que o gozo se sustenta e que o corpo se torna habit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Joyce \u00e9 um <em>LOM\/Love\/Luva<\/em>; Ishmael, por\u00e9m, permanece no sem-soutien da rela\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Ishmael, por outro lado, n\u00e3o ser\u00e1 capaz de ter o corpo de Lisabeth como superf\u00edcie ajust\u00e1vel; apesar de todo o simb\u00f3lico adquirido, n\u00e3o ter\u00e1 o corpo da mulher \u2013 mesmo virando-a ao avesso. O imagin\u00e1rio, como registro constitutivo dessa geometria da rela\u00e7\u00e3o sexual, n\u00e3o lhe \u00e9 topologicamente compat\u00edvel.<\/p>\n<p>Joyce \u00e9 um\u00a0<em>LOM\/Love\/Luva<\/em>; Ishmael, por\u00e9m, permanece no <em>sem-soutien<\/em> da rela\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Quando Lacan diz que o corpo \u00e9 tomado como uma \u201cluva revirada\u201d, ele indica que: o corpo s\u00f3 se torna revers\u00edvel se h\u00e1 uma superf\u00edcie cont\u00ednua; e que essa superf\u00edcie \u00e9 dada pela imagem do corpo. \u00c9 a Gestalt especular que cria a borda, o dentro e o fora, e que permite que o corpo seja torcido, furado e \u201ccosturado\u201d como uma luva. Sem essa consist\u00eancia imagin\u00e1ria, n\u00e3o haveria superf\u00edcie para o reviramento, apenas a irrup\u00e7\u00e3o fragmentada do gozo. \u00c9 por isso que, em Joyce, a imagem corporal de Nora pode funcionar como borda de seu sinthoma, enquanto, para Ishmael \u2013 cuja imagem corporal n\u00e3o encontra compatibilidade com a forma humana \u2013, a inexist\u00eancia do suporte imagin\u00e1rio torna imposs\u00edvel a supl\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual, restando-lhe apenas o real do desencontro. O corpo de Lisabeth, n\u00e3o sendo topologicamente compat\u00edvel com o esquema corporal do golfinho, faz com que Ishmael permane\u00e7a <em>sem-soutien<\/em> da rela\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel \u2013 <em>soutien<\/em> como suporte e referindo-se \u00e0 pe\u00e7a de roupa intima feminina que tem a fun\u00e7\u00e3o de sustentar, acomodar e modelar os seios.<\/p>\n<p>A escrita de Joyce funciona como superf\u00edcie mim\u00e9tica que especulariza o corpo de Nora e o transforma em borda para o corpo dele. N\u00e3o \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, mas uma opera\u00e7\u00e3o topol\u00f3gica: a continuidade imagin\u00e1ria do corpo de Nora \u00e9 revertida como luva e, na escrita, torna-se a pele suplementar onde Joyce encontra consist\u00eancia. Assim, a letra mimetiza a forma dela e, ao mesmo tempo, recobre o gozo dele, permitindo-lhe \u201cfazer um corpo\u201d a partir da superf\u00edcie da amada<\/p>\n<p><strong>O amor como supl\u00eancia do imposs\u00edvel<\/strong><\/p>\n<p>O aforisma \u201cn\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d encontra em Joyce sua exce\u00e7\u00e3o po\u00e9tica. Ele n\u00e3o escreve a rela\u00e7\u00e3o sexual \u2013 escreve\u00a0<em>o imposs\u00edvel dela<\/em>. O amor, em sua forma sinthom\u00e1tica, n\u00e3o \u00e9 fus\u00e3o, mas inven\u00e7\u00e3o e modo singular de dar corpo ao furo.<\/p>\n<p>Lacan dir\u00e1 que o amor \u00e9 o que \u201cd\u00e1 o que n\u00e3o se tem a quem n\u00e3o \u00e9\u201d \u2013 e Joyce encarna essa d\u00e1diva paradoxal, dando a Nora seu corpo ausente para que nela construa e encontre seu pr\u00f3prio lugar. Entre o golfinho e a mulher, o amor afoga; entre Joyce e Nora, o amor escreve.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que Lacan pode dizer, lendo Joyce, que s\u00f3 h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual quando h\u00e1 inven\u00e7\u00e3o, quando o sujeito cria uma forma, uma topologia, para habitar o imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Nora, como luva, \u00e9 o\u00a0<em>Love<\/em>\u00a0que d\u00e1 corpo ao\u00a0<em>LOM<\/em>.<\/p>\n<p>E, nesse gesto, Joyce reverte o aforisma: onde \u201cn\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d, ele fabrica \u2013 de letra e de carne \u2013 o espa\u00e7o de um abra\u00e7o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Refer\u00eancias<\/h6>\n<h6>JOYCE, J<em>.<\/em>\u00a0<em>Cartas de amor a Nora Barnacle<\/em>. Buenos Aires: Ed. Elaleph, 2000.<\/h6>\n<h6>JOYCE, J. <em>Cartas a Nora<\/em>. S\u00e3o Paulo: Iluminuras, 2007.<\/h6>\n<h6>JOYCE, J. William Blake. In: <em>De santos e s\u00e1bios<\/em>. S\u00e3o Paulo: Iluminuras, 2012.<\/h6>\n<h6>KANT, I. Sobre a primeira base da distin\u00e7\u00e3o entre esquerda e direita no espa\u00e7o. In: <em>Escritos pr\u00e9-cr\u00edticos<\/em>. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es 70, 1983. (Trabalho original publicado em 1768).<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-Alain. Li\u00e7\u00e3o IX \u2013 O Sinthoma. <em>Ornicar?<\/em>, n. 39, p. 13-16, 1986.<\/h6>\n<h6>SILVERBERG, R. Ishmael in love. In: ASIMOV, I. (Org.). <em>The Future I<\/em>. New York: Fawcett Crest, 1980.<\/h6>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][\/vc_section]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_section css=&#8221;.vc_custom_1772473653096{background-color: #EADAD0 !important;}&#8221;][vc_row][vc_column][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]S\u00e9rgio de Mattos Psicanalista Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP) e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP) A. E. em exerc\u00edcio, 2022-2024 E-mail: sergioecmattos@hotmail.com [\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column el_class=&#8221;.flow-columns { -webkit-column-count: 3; \/* Chrome, Safari, Opera *\/ -moz-column-count: 3; \/* Firefox *\/ column-count: 3; \/* Number of columns *\/ -webkit-column-gap: 40px; -moz-column-gap: 40px;&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58745,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[519,39],"tags":[],"class_list":["post-58761","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-36","category-trilhamentos","category-519","category-39","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58761","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=58761"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58761\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58807,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58761\/revisions\/58807"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58745"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=58761"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=58761"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=58761"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}