{"id":58767,"date":"2026-03-02T10:10:53","date_gmt":"2026-03-02T13:10:53","guid":{"rendered":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/?p=58767"},"modified":"2026-03-02T14:51:56","modified_gmt":"2026-03-02T17:51:56","slug":"de-um-brilho-especial-a-obscuridade-mortifera-da-realidade-ensinamentos-de-uma-entrevista-clinica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2026\/03\/02\/de-um-brilho-especial-a-obscuridade-mortifera-da-realidade-ensinamentos-de-uma-entrevista-clinica\/","title":{"rendered":"De um brilho especial \u00e0 obscuridade mort\u00edfera da realidade: ensinamentos de uma entrevista cl\u00ednica"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_section css=&#8221;.vc_custom_1772473821460{background-color: #FCF4DF !important;}&#8221;][vc_row][vc_column][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]Fernando Casula Ribeiro Pereira<\/p>\n<h5>Psiquiatra e psicanalista<br \/>\nMembro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP)<br \/>\ne da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP)<br \/>\nE-mail: fernando.casula@hotmail.com<\/h5>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column el_class=&#8221;.flow-columns { -webkit-column-count: 3; \/* Chrome, Safari, Opera *\/ -moz-column-count: 3; \/* Firefox *\/ column-count: 3; \/* Number of columns *\/ -webkit-column-gap: 40px; -moz-column-gap: 40px; column-gap: 40px; \/* Space between columns *\/ }&#8221;][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]\u201cSou portador de um brilho especial.\u201d<\/p>\n<p>Essa frase foi dita pelo paciente durante uma \u201centrevista cl\u00ednica\u201d de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana. Ela traduz o ponto fundamental do caso: o lugar de exce\u00e7\u00e3o que o sujeito se coloca. O brilho especial n\u00e3o \u00e9 um brilho qualquer, ele \u00e9 compar\u00e1vel e est\u00e1 igualmente sob o estatuto que rege a met\u00e1fora delirante \u201cA Mulher de Deus\u201d do\u00a0 presidente Schreber, embora n\u00e3o se constitua em si mesmo uma met\u00e1fora estabilizadora. Contudo, confere-lhe um lugar acima e fora da lei \u2013\u00a0 al\u00e9m ou aqu\u00e9m de todo bem e de todo mal. Esse brilho reveste de sentido o que se apresenta como ponto de certeza do real que n\u00e3o recebe media\u00e7\u00e3o pela lei simb\u00f3lica, constituindo, assim, o cerne da defesa delirante de conte\u00fado m\u00edstico interpretativo.<\/p>\n<p>Importante marcar que uma \u201centrevista cl\u00ednica\u201d de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, outrora conhecida como \u201capresenta\u00e7\u00e3o de pacientes\u201d, se diferencia, no que diz respeito \u00e0 l\u00f3gica discursiva, das apresenta\u00e7\u00f5es realizadas no contexto psiqui\u00e1trico cl\u00e1ssico (FERREIRA, 2013). Pois trata-se de um dispositivo reconhecidamente de interven\u00e7\u00e3o cl\u00ednica capaz de produzir importantes efeitos terap\u00eauticos, na medida em que favorece a presentifica\u00e7\u00e3o do real colocado em cena pelo psic\u00f3tico, conjugado ao saber fazer do entrevistador implicado com a transmiss\u00e3o desse real.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #5a7583;\">Podemos dizer que a partir do lugar de exce\u00e7\u00e3o em que se aloja o sujeito, portador do brilho especial, toda uma cadeia de interpreta\u00e7\u00e3o delirante se constr\u00f3i<\/span><\/h3>\n<p>Nesse sentido, vimos o entrevistador retomar insistentemente o dito brilho especial, certamente para dele extrair o fen\u00f4meno elementar\u00a0 em sua pungente certeza: um ponto de puro real assem\u00e2ntico encontrado num estado de trema, ou at\u00e9 mesmo numa alucina\u00e7\u00e3o corporal ou sensorial, antes que a interpreta\u00e7\u00e3o delirante viesse a recobri-lo pelo sentido. Lembremos que Lacan buscava esse ponto em cada uma das entrevistas que fazia, segundo nos relembra J.-A. Miller (1996, p. 149) no texto \u201cLi\u00e7\u00f5es sobre a apresenta\u00e7\u00e3o de doentes\u201d, em <em>Matemas 1<\/em>.<\/p>\n<p>O paciente em quest\u00e3o n\u00e3o nos contou e nem apresentou este tipo de fen\u00f4meno durante a entrevista. O que ele nos oferece em forma de certeza \u00e9 seu del\u00edrio. Lembremos que Lacan (1955-56\/1992) no Semin\u00e1rio 3 tamb\u00e9m confere\u00a0 ao del\u00edrio o estatuto de fen\u00f4meno elementar.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_empty_space height=&#8221;20&#8243;][vc_single_image image=&#8221;58771&#8243; img_size=&#8221;full&#8221; css=&#8221;&#8221;][vc_empty_space height=&#8221;20&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text css=&#8221;&#8221; el_class=&#8221;.flow-columns { -webkit-column-count: 3; \/* Chrome, Safari, Opera *\/ -moz-column-count: 3; \/* Firefox *\/ column-count: 3; \/* Number of columns *\/ -webkit-column-gap: 40px; -moz-column-gap: 40px; column-gap: 40px; \/* Space between columns *\/ }&#8221;]Nesse sentido, vimos o entrevistador retomar insistentemente o dito brilho especial, certamente para dele extrair o fen\u00f4meno elementar\u00a0 em sua pungente certeza: um ponto de puro real assem\u00e2ntico encontrado num estado de trema, ou at\u00e9 mesmo numa alucina\u00e7\u00e3o corporal ou sensorial, antes que a interpreta\u00e7\u00e3o delirante viesse a recobri-lo pelo sentido. Lembremos que Lacan buscava esse ponto em cada uma das entrevistas que fazia, segundo nos relembra J.-A. Miller (1996, p. 149) no texto \u201cLi\u00e7\u00f5es sobre a apresenta\u00e7\u00e3o de doentes\u201d, em <em>Matemas 1<\/em>.<\/p>\n<p>O paciente em quest\u00e3o n\u00e3o nos contou e nem apresentou este tipo de fen\u00f4meno durante a entrevista. O que ele nos oferece em forma de certeza \u00e9 seu del\u00edrio. Lembremos que Lacan (1955-56\/1992) no Semin\u00e1rio 3 tamb\u00e9m confere\u00a0 ao del\u00edrio o estatuto de fen\u00f4meno elementar.<\/p>\n<p>Podemos dizer que a partir do lugar de exce\u00e7\u00e3o em que se aloja o sujeito, portador do brilho especial, toda uma cadeia de interpreta\u00e7\u00e3o delirante se constr\u00f3i. Importante marcar que \u00e9 no plano do pensamento que isso acontece. Vimos tamb\u00e9m o entrevistador, ao bom estilo de De Cl\u00e9rambault, procurar com uma certa insist\u00eancia trazer \u00e0 luz na fala do paciente a diferencia\u00e7\u00e3o do que no pensamento se deixa invadir por outra ideia delirante, de uma poss\u00edvel sonoriza\u00e7\u00e3o do pensamento, o que em psicopatologia se chama de alucina\u00e7\u00e3o. Assim, podemos dizer que, no n\u00edvel psicopatol\u00f3gico, deparamos com altera\u00e7\u00f5es tanto da forma, quanto do conte\u00fado do pensamento, e descartamos a presen\u00e7a de alucina\u00e7\u00f5es auditivas, o que nos permite inferir que se trata\u00a0 de uma psicose desencadeada delirante cr\u00f4nica sem alucina\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O paciente n\u00e3o localiza com precis\u00e3o temporal o momento a partir do qual come\u00e7ou ter essas ideias, mas faz uma ressignifica\u00e7\u00e3o delirante de sua hist\u00f3ria desde a inf\u00e2ncia, remontando \u00e0 \u00e9poca em que estava sendo gestado no \u00fatero de sua m\u00e3e: \u201cL\u00e1 j\u00e1 havia os esp\u00edritos do mal prontos para n\u00e3o o deixarem nascer\u201d. Sempre foi rodeado por esses esp\u00edritos, ou de pessoas que os encarnavam, e que exigiam dele combate espiritual.<\/p>\n<p>O brilho especial lhe confere poder de se proteger e de proteger \u201cas pessoas certas\u201d. Cita m\u00fasicas (funks e raps) que falam sobre isso&#8230; as interpreta como feitas para ele. Tamb\u00e9m se identifica a v\u00e1rios personagens b\u00edblicos; no entanto, diz que seu car\u00e1ter \u00e9 \u00fanico.<\/p>\n<p>A resposta do sujeito muitas vezes \u00e9 a passagem ao ato agressivo, seja reativa ao del\u00edrio, seja impulsivamente buscando al\u00edvio afetivo.<\/p>\n<p>Cabe ressaltar que o mundo no tempo presente \u00e9 constantemente reinterpretado, sem uma constru\u00e7\u00e3o delirante sistematizada. As ideias s\u00e3o listadas uma ao lado da outra, sem se anularem, mesmo que sejam contradit\u00f3rias, pois n\u00e3o obedecem \u00e0 l\u00f3gica formal do pensamento. Observamos que algumas respostas do paciente variam de acordo com o aspecto sonoro das palavras, e outras s\u00e3o constru\u00eddas a partir de mal-entendidos colocados pelo entrevistador. Observamos falas repletas de deslizamentos meton\u00edmicos. Exemplos: \u201cNasci no m\u00eas sete&#8230; setembro&#8230; setembro amarelo. Sou amigo de Jorge e Jo\u00e3o&#8230; Jorj\u00e3o. Sou a sobra ou sombra de Deus\u201d. Inclusive o aparecimento de um mosquito durante a entrevista obedece a uma l\u00f3gica semelhante: o mosquito pousava nele, logo estavam perturbados, tal como pousou na cama de uma crian\u00e7a que julgou ter sido abusada.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_empty_space height=&#8221;20&#8243;][vc_single_image image=&#8221;58772&#8243; img_size=&#8221;full&#8221; css=&#8221;&#8221;][vc_empty_space height=&#8221;20&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text css=&#8221;&#8221; el_class=&#8221;.flow-columns { -webkit-column-count: 3; \/* Chrome, Safari, Opera *\/ -moz-column-count: 3; \/* Firefox *\/ column-count: 3; \/* Number of columns *\/ -webkit-column-gap: 40px; -moz-column-gap: 40px; column-gap: 40px; \/* Space between columns *\/ }&#8221;]Cabe ressaltar que, embora tenha exposto livremente suas ideias, houve um ponto central delirante dissimulado e que somente foi tocado de forma alusiva atrav\u00e9s de temas afins. O tema do abusador e da crian\u00e7a abusada assume relev\u00e2ncia, assim como o uso abusivo de crack, a exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia do tr\u00e1fico e os atos agressivos reativos ao del\u00edrio fazem parte desse contexto e n\u00e3o foram ditos diretamente durante a entrevista. O portador do brilho especial se identifica tanto com o abusador quanto com o abusado, e, por n\u00e3o poder contar estruturalmente com o recurso do fantasma e da lei simb\u00f3lica, sucumbe \u00e0 certeza de um real que se imp\u00f5e desde fora. A resposta do sujeito muitas vezes \u00e9 a passagem ao ato agressivo, seja reativa ao del\u00edrio, seja impulsivamente buscando al\u00edvio afetivo.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #5a7583;\">Espera-se que as constru\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas a partir da cl\u00ednica contribuam com a equipe de tratamento no sentido da condu\u00e7\u00e3o do caso.<\/span><\/h3>\n<p>A atividade entrevista cl\u00ednica \u00e9 composta por dois tempos: primeiro trata-se do encontro entre o entrevistador e o paciente entrevistado perante a plateia composta pela equipe de tratamento e demais interessados na transmiss\u00e3o da psican\u00e1lise e no segundo, os participantes do primeiro encontro, sem a presen\u00e7a do paciente, retomam as falas da entrevista numa discuss\u00e3o que visa a constru\u00e7\u00e3o de saber cl\u00ednico partindo do singular transmitido por um real enquanto \u201cimposs\u00edvel de suportar\u201d. Ent\u00e3o, a partir de observa\u00e7\u00f5es colocadas pelo comentador, a palavra circula entre participantes da plateia, em formato de conversa\u00e7\u00e3o. Espera-se que as constru\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas a partir da cl\u00ednica contribuam com a equipe de tratamento no sentido da condu\u00e7\u00e3o do caso. A discuss\u00e3o que se segue reflete isso.<\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es nosogr\u00e1ficas e psicopatologia lacaniana<\/strong><\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao aspecto semiol\u00f3gico, encontramos um paciente preservado do ponto de vista cognitivo e afetivo. O afeto \u00e9 s\u00edntone sem ambival\u00eancias e o humor normot\u00edmico, sem exalta\u00e7\u00f5es. A fun\u00e7\u00e3o sensoperceptiva encontra-se sem altera\u00e7\u00f5es, ou seja, n\u00e3o apresenta aparentemente alucina\u00e7\u00f5es.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_empty_space height=&#8221;20&#8243;][vc_single_image image=&#8221;58773&#8243; img_size=&#8221;full&#8221; css=&#8221;&#8221;][vc_empty_space height=&#8221;20&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante desses sintomas listados, consideramos a hip\u00f3tese diagn\u00f3stica de paranoia interpretativa, e, como diagn\u00f3stico diferencial, esquizofrenia paranoide.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A paranoia interpretativa \u00e9 conhecida tamb\u00e9m como \u201cloucura racional\u201d. Obedece a uma l\u00f3gica de decifra\u00e7\u00e3o de acordo com um sistema fundamental de significa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O grupo das paranoias, tamb\u00e9m conhecidas como psicoses delirantes sistematizadas, encontra-se, conforme descreve Henry Ey (1981), elencadas no hall das doen\u00e7as mentais cr\u00f4nicas. Esse grande grupo se subdivide em tr\u00eas:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Del\u00edrios passionais e de reivindica\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Del\u00edrio sensitivo de rela\u00e7\u00e3o (Kretschmer)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Del\u00edrio de interpreta\u00e7\u00e3o (S\u00e9rieux e Capgras)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Consideramos que o caso em quest\u00e3o se encontra classificado no grupo 3. A paranoia interpretativa \u00e9 conhecida tamb\u00e9m como \u201cloucura racional\u201d. Obedece a uma l\u00f3gica de decifra\u00e7\u00e3o de acordo com um sistema fundamental de significa\u00e7\u00e3o. A estrutura desses Del\u00edrios, como dizia Cl\u00e9rambault (por oposi\u00e7\u00e3o aos Del\u00edrios passionais), n\u00e3o \u00e9 \u201cem setor\u201d, mas \u201cem malha\u201d. Ou seja, o conte\u00fado dos sistemas delirantes (interpreta\u00e7\u00f5es, alus\u00f5es, suposi\u00e7\u00f5es, pseudo-racioc\u00ednios) constitui um sistema mais livre e difuso, uma justaposi\u00e7\u00e3o ou mosaico de ideias delirantes, em vez de uma organiza\u00e7\u00e3o coerente e concisa.\u00a0 Dessa forma, o Del\u00edrio pode ser constitu\u00eddo pelos temas mais diversos. O tema da persegui\u00e7\u00e3o pode ir desde a persegui\u00e7\u00e3o policial ao compl\u00f4 de fam\u00edlia ou de legi\u00f5es de esp\u00edritos do mal, etc. Os temas megaloman\u00edacos variam desde a filia\u00e7\u00e3o aristocr\u00e1tica \u00e0 miss\u00e3o divina. O portador do brilho especial conjuga tanto a face megaloman\u00edaca da miss\u00e3o divina quanto a persecut\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Henry Ey enfatiza aspectos m\u00e9dicos jur\u00eddicos e envolvimento com a justi\u00e7a relacionados aos del\u00edrios paranoicos, os quais decorrem tanto de apelos reivindicativos dos pr\u00f3prios pacientes ou den\u00fancias por parte de terceiros \u00e0 agressividade reativa advinda de del\u00edrios de persegui\u00e7\u00e3o, quanto decorrentes de passagens ao ato ( atos auto e heteroagressivos cometidos como tentativa de al\u00edvio afetivo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Unglauben<\/em> freudiana e a certeza<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A descren\u00e7a do sujeito psic\u00f3tico no pai, naquilo que, no c\u00f3digo da linguagem, representa a lei, Freud j\u00e1 a assinalava para Fliess no seu \u201cRascunho K\u201d. Nele, podemos ler: \u201cO elemento b\u00e1sico da paranoia \u00e9 o mecanismo da proje\u00e7\u00e3o, que envolve a recusa da cren\u00e7a na autocensura\u201d (FREUD, (1896\/1976, p. 309). O que nos chama a aten\u00e7\u00e3o nesse esquema de Freud \u00e9 que a \u201crecusa de cren\u00e7a\u201d \u00e9 colocada por ele como anterior ao recalque e como condi\u00e7\u00e3o de possibilidade para a exist\u00eancia de qualquer representa\u00e7\u00e3o. Freud, ainda no texto citado, nos lembra que o del\u00edrio se instalaria, num segundo tempo, como tentativa de restaura\u00e7\u00e3o da cren\u00e7a prim\u00e1ria que n\u00e3o houve. A certeza delirante funciona pois como um substituto da cren\u00e7a prim\u00e1ria. Essa recusa prim\u00e1ria na autocensura que Freud detecta no paranoico \u00e9 ent\u00e3o tomada por Lacan como aus\u00eancia de um dos termos da cren\u00e7a. Em um determinado momento, Freud retifica o mecanismo fundamental da paranoia como sendo a aboli\u00e7\u00e3o: o que est\u00e1 abolido internamente \u00e9 retornado desde o exterior. O que \u00e9 lido por Lacan como: \u201cO que n\u00e3o veio \u00e0 luz no simb\u00f3lico aparece no real\u201d. Esse retorno vem como certeza em forma de del\u00edrio e alucina\u00e7\u00f5es, como imposi\u00e7\u00f5es e persegui\u00e7\u00f5es desde o campo do Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao contr\u00e1rio, a entrevista cl\u00ednica bem conduzida pode favorecer a captura do real pelo simb\u00f3lico, na medida em que o entrevistador n\u00e3o encarna o Outro gozador para o paciente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A descren\u00e7a do psic\u00f3tico na fun\u00e7\u00e3o de normatiza\u00e7\u00e3o do significante mestre n\u00e3o permite a subjetiva\u00e7\u00e3o da censura. Embora a censura venha do Outro, a falta de cren\u00e7a na fun\u00e7\u00e3o do mestre colabora para n\u00e3o a ratificar, impossibilitando assim que o sujeito dela se aproprie.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No texto \u201cDe uma quest\u00e3o preliminar&#8230;\u201d, Lacan utilizar\u00e1 com mais precis\u00e3o essas opera\u00e7\u00f5es, definindo que a <em>Verwerfung<\/em> (forclus\u00e3o) age num ponto espec\u00edfico da cadeia, num determinado significante chamado por ele de Nome-do-Pai. Esse significante especial responde no Outro (matriz de significantes) pela possibilidade do efeito metaf\u00f3rico de substitui\u00e7\u00e3o, pela possibilidade de funcionamento da pr\u00f3pria lei do significante, e pelo advir da significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica. Essa opera\u00e7\u00e3o permite que o sujeito se sirva da linguagem enquanto discurso. A descren\u00e7a em tal fun\u00e7\u00e3o \u2013 tamb\u00e9m designada como forclus\u00e3o do significante Nome-do-Pai \u2013 resulta em que a causa n\u00e3o adquira valor de exist\u00eancia para o sujeito e, assim, s\u00f3 poder\u00e1 fazer-se \u201cex-sistir\u201d no real (do lado de fora do simb\u00f3lico). A certeza do paciente entrevistado, de portar o brilho especial, estaria a\u00ed localizada. A forclus\u00e3o do significante Nome-do-Pai tamb\u00e9m marcaria para esse sujeito seu lugar de exce\u00e7\u00e3o, o qual a lei simb\u00f3lica e a lei da cultura n\u00e3o ordenam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Considerando os construtos expostos, deixo quest\u00f5es sobre possibilidades de interven\u00e7\u00e3o e o limite do tratamento. Obviamente, evitar a repeti\u00e7\u00e3o de atos agressivos faz parte da boa condu\u00e7\u00e3o cl\u00ednica. Para tanto, a conten\u00e7\u00e3o f\u00edsica atrav\u00e9s dos servi\u00e7os como o CAPS e as pr\u00f3prias paredes do hospital psiqui\u00e1trico est\u00e3o indicadas em momentos espec\u00edficos. O uso de neurol\u00e9pticos tamb\u00e9m \u00e9 indispens\u00e1vel. Interven\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica como eletroconvulsoterapia n\u00e3o me parece indicada, pois interpreta\u00e7\u00f5es delirantes n\u00e3o se mostram responsivas a essa interven\u00e7\u00e3o. O tratamento psicanal\u00edtico tem sua indica\u00e7\u00e3o ao considerar o modo como se opera o fazer com o gozo.\u00a0 Assim, confrontar a certeza delirante do paciente com dados da realidade, n\u00e3o me parece indicado, pois servir\u00e1 apenas para presentificar um Outro invasivo e gozador, refor\u00e7ando a idea\u00e7\u00e3o delirante e precipitando a possibilidade de atos agressivos. Ao contr\u00e1rio, a entrevista cl\u00ednica bem conduzida pode favorecer a captura do real pelo simb\u00f3lico, na medida em que o entrevistador n\u00e3o encarna o Outro gozador para o paciente. Preservar o v\u00ednculo frouxo entre o terapeuta e o paciente, assim como o manejo por parte do analista, visando a instala\u00e7\u00e3o do \u201cbenef\u00edcio da d\u00favida\u201d para intervir contra a certeza do real, s\u00e3o interven\u00e7\u00f5es que possibilitam uma certa efic\u00e1cia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para concluir, diria que atua\u00e7\u00f5es auto e heteroagressivas cometidas pelo paciente durante os anos passados, e que geralmente s\u00e3o pass\u00edveis de puni\u00e7\u00e3o segundo o c\u00f3digo penal,\u00a0 n\u00e3o devem permanecer na obscuridade, como se nunca tivessem acontecido. \u00c9 melhor que sejam abordadas pela palavra e que tenham algum tipo de endere\u00e7amento \u00e0 justi\u00e7a. Pois a dificuldade de subjetiva\u00e7\u00e3o da lei, caracter\u00edstica da estrutura psic\u00f3tica, somada \u00e0 desresponsabiliza\u00e7\u00e3o pelos atos cometidos, pode favorecer a repeti\u00e7\u00e3o desses atos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>FERREIRA, C. Apresenta\u00e7\u00e3o de pacientes: dispositivo e discursos. <em>Almanaque On-line<\/em>, n. 12, mar. 2013.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A.\u00a0 Li\u00e7\u00f5es sobre a apresenta\u00e7\u00e3o de doentes. In: <em>Matemas I<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de S\u00e9rgio Laia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 3<\/em>: As psicoses. Tradu\u00e7\u00e3o de Alu\u00edsio Menezes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992. (Trabalho original proferido em 1955-56).<\/h6>\n<h6>EY, H. Psicoses delirantes cr\u00f4nicas. In: <em>Manual de Psiquiatria<\/em>. 5. ed. Editora Masson do Brasil Ltda., 1981<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Rascunho K: as neuroses de defesa. In: <em>Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, Vol. 1, 1976. (Trabalho original redigido em 1896).<\/h6>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][\/vc_section]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_section css=&#8221;.vc_custom_1772473821460{background-color: #FCF4DF !important;}&#8221;][vc_row][vc_column][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]Fernando Casula Ribeiro Pereira Psiquiatra e psicanalista Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP) e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP) E-mail: fernando.casula@hotmail.com [\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column el_class=&#8221;.flow-columns { -webkit-column-count: 3; \/* Chrome, Safari, Opera *\/ -moz-column-count: 3; \/* Firefox *\/ column-count: 3; \/* Number of columns *\/ -webkit-column-gap: 40px; -moz-column-gap: 40px; column-gap: 40px;&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58768,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[519,37],"tags":[],"class_list":["post-58767","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-36","category-o-que-se-conversou","category-519","category-37","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58767","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=58767"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58767\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58808,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58767\/revisions\/58808"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58768"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=58767"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=58767"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=58767"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}