{"id":58834,"date":"2026-08-02T10:22:21","date_gmt":"2026-08-02T13:22:21","guid":{"rendered":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/?p=58834"},"modified":"2026-08-02T10:55:09","modified_gmt":"2026-08-02T13:55:09","slug":"le-coup-de-foudre-americano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2026\/08\/02\/le-coup-de-foudre-americano\/","title":{"rendered":"<em>LE COUP DE FOUDRE<\/em> AMERICANO"},"content":{"rendered":"<h5><em>Helenice de Castro<br \/>\n<\/em>Psicanalista<br \/>\nMembro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP) e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP)<br \/>\n<em>E-mail:<\/em> <a href=\"mailto:hedcastro@terra.com.br\">hedcastro@terra.com.br<\/a><\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em 1947, Simone de Beauvoir viajou aos Estados Unidos. Ao desembarcar em Nova York, entusiasmada por descobrir o pa\u00eds, mal poderia imaginar que sua vida estava prestes a mudar radicalmente. Em sua passagem por Chicago, por sugest\u00e3o de uma amiga de Nelson Algren, ela decidiu visit\u00e1-lo; ali nascia uma paix\u00e3o \u00e0 primeira vista entre a intelectual francesa e o solit\u00e1rio escritor americano.<\/p>\n<p>Iniciou-se, ent\u00e3o, uma extensa correspond\u00eancia, que duraria dezessete anos. Em 1997, as trezentas e quatro cartas de Beauvoir (2000) foram publicadas pela Gallimard sob o t\u00edtulo <em>Cartas a Nelson Algren: um amor transatl\u00e2ntico<\/em>. Mais do que registros rom\u00e2nticos, as cartas tornaram-se cr\u00f4nicas de uma era: nelas, \u201cCastor\u201d revive a Fran\u00e7a do p\u00f3s-guerra, os desafios da reconstru\u00e7\u00e3o nacional e as movimenta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de seu c\u00edrculo \u2013 incluindo a funda\u00e7\u00e3o da revista <em>Les Temps Modernes<\/em>. O texto nos conduz pelo meio parisiense de figuras como Raymond Queneau, Michel Leiris, Andr\u00e9 Gide e Merleau-Ponty.<\/p>\n<p>Contudo, a publica\u00e7\u00e3o dessas cartas causou controv\u00e9rsia no movimento feminista. Beauvoir chegou a ser chamada pejorativamente de \u201capaixonadinha\u201d (<em>midinette<\/em>) e a ser criticada por seu entusiasmo ao ler o sedutor italiano Giacomo Casanova.<\/p>\n<p>De fato, essa correspond\u00eancia surpreende ao revelar uma faceta amorosa de Beauvoir muito distinta daquela mantida com Jean-Paul Sartre. Enquanto a parceria com Sartre \u2013 o \u201camor necess\u00e1rio\u201d \u2013 baseava-se em um pacto intelectual que permitia encontros contingentes, com Algren surge uma mulher que n\u00e3o se intimida ao expressar o desejo de ser uma \u201cesposa obediente e ajuizada\u201d: algu\u00e9m que lavaria a lou\u00e7a, varreria o ch\u00e3o e sequer tocaria no amado sem autoriza\u00e7\u00e3o.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Podemos, ent\u00e3o, interrogar se a leitura dessas cartas \u2013 para al\u00e9m de ser uma esp\u00e9cie de di\u00e1rio de bordo de um extenso per\u00edodo da inusitada vida de Simone de Beauvoir \u2013 pode se tornar um interessante material de investiga\u00e7\u00e3o sobre o que Lacan desenvolve com as no\u00e7\u00f5es de arrebatamento e devasta\u00e7\u00e3o, as quais v\u00eam a constituir uma dolorosa realidade para a maioria das mulheres.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Percorrendo o livro at\u00e9 o final, ficamos sabendo que o encontro arrebatador de Beauvoir com Algren n\u00e3o deixar\u00e1 de mostrar sua face de devasta\u00e7\u00e3o, chegando a uma ruptura radical quando o amante anuncia publicamente os ressentimentos que o levaram a romper com aquela hist\u00f3ria de amor.<\/p>\n<p>Embora Simone de Beauvoir tenha tido um engajamento feminista muito importante, contribuindo, inclusive, para a aprova\u00e7\u00e3o da Lei Veil em 1975 \u2013 que garantiu o direito ao aborto na Fran\u00e7a \u2013, suas cartas sugerem que nenhuma milit\u00e2ncia pol\u00edtica evita o encontro da mulher com a inexist\u00eancia de um significante que nomeie o gozo feminino. Diante dessa falta, cada uma precisar\u00e1 inventar sua pr\u00f3pria resposta.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h6><strong>Refer\u00eancia<\/strong><\/h6>\n<h6>BEAUVOIR, S. de. <em>Cartas a Nelson Algren<\/em>: um amor transatl\u00e2ntico. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>\u00a0 Ver a carta de 03 de outubro de 1947 (BEAUVOIR, 2000).<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Agrade\u00e7o a Elisa Alvarenga pela men\u00e7\u00e3o ao livro de Simone de Beauvoir em uma reuni\u00e3o de cartel, o que me suscitou a l\u00ea-lo. J\u00e1 Laura Filgueiras de Campos desenvolveu esse tema em sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, intitulada As cartas de amor de Simone de Beauvoir: um estudo sobre o amor e as parcerias amorosas na modernidade.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Helenice de Castro Psicanalista Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP) e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP) E-mail: hedcastro@terra.com.br &nbsp; Em 1947, Simone de Beauvoir viajou aos Estados Unidos. Ao desembarcar em Nova York, entusiasmada por descobrir o pa\u00eds, mal poderia imaginar que sua vida estava prestes a mudar radicalmente. 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