{"id":58836,"date":"2026-08-02T10:24:35","date_gmt":"2026-08-02T13:24:35","guid":{"rendered":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/?p=58836"},"modified":"2026-08-02T10:54:36","modified_gmt":"2026-08-02T13:54:36","slug":"conversacao-clinica-do-ipsm-mg","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2026\/08\/02\/conversacao-clinica-do-ipsm-mg\/","title":{"rendered":"Conversa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica do IPSM-MG"},"content":{"rendered":"<p><em>Frederico Feu de Carvalho<br \/>\n<\/em>Psicanalista<br \/>\nMembro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP) e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP)<br \/>\n<em>E-mail<\/em>:\u00a0 <a href=\"mailto:fredericofeu@gmail.com\">fredericofeu@gmail.com<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol>\n<li><strong> A entrevista<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Entrevistar publicamente um paciente \u00e9 um acontecimento que sempre reserva algumas surpresas, seja para a assist\u00eancia, para a equipe que conduz o caso ou para o pr\u00f3prio paciente. Acredito que n\u00e3o tenha sido diferente em rela\u00e7\u00e3o a essa entrevista realizada sob a \u00e9gide do IPSM-MG em uma institui\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica de Belo Horizonte. Esses efeitos de surpresa decorrem do dispositivo e da reconfigura\u00e7\u00e3o discursiva produzida pela \u201centrevista de orienta\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica\u201d, isto \u00e9, o giro de um quarto de volta entre o discurso universit\u00e1rio e o discurso anal\u00edtico.<\/p>\n<p>\u00c9 o momento em que a institui\u00e7\u00e3o, que se encontra na assist\u00eancia, se cala para ouvir o que o paciente tem a dizer, esclarecer e mesmo sugerir sobre seu pr\u00f3prio caso e seu tratamento a partir de uma posi\u00e7\u00e3o que comporta uma <em>extimidade<\/em> em rela\u00e7\u00e3o aos lugares e fun\u00e7\u00f5es institu\u00eddas. Aquele que conduz a entrevista, da mesma forma, ocupa essa posi\u00e7\u00e3o <em>\u00eaxtima<\/em> em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 institui\u00e7\u00e3o, contribuindo com um outro olhar e uma outra perspectiva. Ele d\u00e1 ao entrevistado a prerrogativa do saber; faz falar o que nem sempre se escuta; recolhe elementos que permitem construir o caso cl\u00ednico e reorientar o tratamento a partir de sua singularidade<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o a esse caso, havia impasses na condu\u00e7\u00e3o do tratamento devido \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de recusa do paciente para com o tratamento. Uma das surpresas dessa entrevista, dentre outras, foi a maneira como o paciente se disp\u00f4s a ser escutado, uma maneira mais d\u00f3cil, em contraste com os embates habituais que o caracterizam.<\/p>\n<p>O entrevistado manteve-se firme em sua convic\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o tem nenhum transtorno mental, embora de uma forma que nos pareceu amb\u00edgua. Tal ambiguidade nos leva a distinguir aquilo que se sabe consigo, mas que n\u00e3o se pode admitir, e o saber do Outro, com o qual n\u00e3o se consente. \u00c9 esse abismo que ser\u00e1 preciso transpor.<\/p>\n<p>Ele tampouco se aprofundou nos aspectos de sua hist\u00f3ria pessoal. Para al\u00e9m das respostas evasivas e generalidades, deixou evidente, no entanto, a exist\u00eancia de lacunas subjetivas. Em um determinado momento, quando falava dos conflitos e das persegui\u00e7\u00f5es contra ele, quis encerrar a entrevista, mas depois consentiu em prosseguir. Admite que est\u00e1 mais protegido e seguro em rela\u00e7\u00e3o a esses ataques na institui\u00e7\u00e3o, o que pode contribuir para o consentimento a ser dado ao fato de estar internado.<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><strong> A estrutura<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Na discuss\u00e3o que se seguiu \u00e0 entrevista, foi levantada a hip\u00f3tese diagn\u00f3stica de uma estrutura paranoica ou, mais especificamente, de uma esquizofrenia paranoide, o que nos remeteu \u00e0 descri\u00e7\u00e3o de Freud do quadro de Schreber. Essa hip\u00f3tese se justifica em fun\u00e7\u00e3o das caracter\u00edsticas do caso cl\u00ednico. De fato, encontramos no caso tanto os elementos t\u00edpicos da esquizofrenia, como as manipula\u00e7\u00f5es e extra\u00e7\u00f5es corporais, a err\u00e2ncia e a desorganiza\u00e7\u00e3o pulsional, quanto aqueles elementos t\u00edpicos da paranoia, como o sentimento persecut\u00f3rio, a infla\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria do Eu e a predomin\u00e2ncia das defesas.<\/p>\n<p>Esse quadro h\u00edbrido, entre esquizofrenia e paranoia, comporta tamb\u00e9m uma relativa mobilidade, o que talvez seja a sua principal caracter\u00edstica. Tomando como exemplo Schreber, suas manifesta\u00e7\u00f5es iniciais foram claramente hipocondr\u00edacas, especialmente na primeira crise. No segundo desencadeamento, apresentava um quadro de estupor e de completa desorganiza\u00e7\u00e3o ps\u00edquica, denominado por Schreber de \u201cassassinato de alma\u201d e por Lacan de \u201cdesastre do imagin\u00e1rio\u201d. As etapas de sua recupera\u00e7\u00e3o, por sua vez, podem ser descritas como um trabalho delirante progressivo, equivalente a uma paranoiza\u00e7\u00e3o, at\u00e9 sua estabiliza\u00e7\u00e3o final. A partir das elabora\u00e7\u00f5es de Freud e de Lacan, e tamb\u00e9m dos coment\u00e1rios sobre a l\u00f3gica do del\u00edrio de J. C. Maleval (1998), podemos enumerar quatro etapas da constru\u00e7\u00e3o delirante de Schreber, que Freud considerava sua \u201ctentativa de cura\u201d.<\/p>\n<ul>\n<li>Momento de desencadeamento da psicose a partir de sua nomea\u00e7\u00e3o como Juiz da Corte de Apela\u00e7\u00e3o de Dresden, com a produ\u00e7\u00e3o concomitante de uma ang\u00fastia dilacerante frente ao colapso da realidade. Corresponde ao desastre do imagin\u00e1rio e \u00e0 invas\u00e3o avassaladora de um gozo corporal, fora de toda significa\u00e7\u00e3o, como resultado da foraclus\u00e3o do significante do nome-do-pai, acompanhado de profundo horror, desagrega\u00e7\u00e3o ps\u00edquica e desamparo.<\/li>\n<li>Primeiras tentativas de constru\u00e7\u00e3o delirante do gozo invasivo. O sujeito busca dar um sentido \u00e0quilo que o invade, apoiando-se em suas pr\u00f3prias alucina\u00e7\u00f5es, criando a ideia de que fora largado nas m\u00e3os do seu m\u00e9dico, Dr. Flechsig, para fins de abuso sexual.<\/li>\n<li>Identifica\u00e7\u00e3o do gozo do Outro e sistematiza\u00e7\u00e3o do del\u00edrio. Corresponde \u00e0 \u201cparanoiza\u00e7\u00e3o\u201d, levando \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o de seu lugar de objeto do gozo do Outro para cumprir a vontade de Deus, ou seja, sua transforma\u00e7\u00e3o em mulher. Trata-se de uma elabora\u00e7\u00e3o que, ao mesmo tempo em que \u00e9 vivida como um embate, provocando a indigna\u00e7\u00e3o contra essa vontade superior, favorece a megalomania e a reconstitui\u00e7\u00e3o de um Eu minimamente consistente.<\/li>\n<li>Consentimento com sua condi\u00e7\u00e3o de objeto como \u201cA mulher de Deus\u201d, gra\u00e7as ao prop\u00f3sito de reden\u00e7\u00e3o da humanidade e de cria\u00e7\u00e3o de uma nova ra\u00e7a de homens. Coincide com o momento de estabiliza\u00e7\u00e3o e apaziguamento sustentados pela realiza\u00e7\u00e3o assint\u00f3tica da met\u00e1fora delirante \u201cA mulher de Deus\u201d. O sujeito consente com o gozo do Outro a partir do fortalecimento narc\u00edsico do Eu.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Se essa hip\u00f3tese diagn\u00f3stica estiver correta, \u00e9 poss\u00edvel conjecturar que o paciente entrevistado obteve um relativo sucesso em localizar o gozo invasivo no Outro, permitindo assim que a condi\u00e7\u00e3o esquizofr\u00eanica de desagrega\u00e7\u00e3o corporal e desvario pulsional encontrasse uma ancoragem gra\u00e7as ao seu trabalho de elabora\u00e7\u00e3o delirante. N\u00e3o se trata apenas de uma racionaliza\u00e7\u00e3o proporcionada pelo del\u00edrio, mas de uma montagem libidinal que transfere o gozo do corpo para o campo do Outro e estabiliza minimamente, embora de forma fr\u00e1gil, o campo da realidade. \u00c9 o que nos d\u00e1 a impress\u00e3o ao mesmo tempo de solidez e impenetrabilidade do del\u00edrio.<\/p>\n<p>Essa transfer\u00eancia de gozo do corpo para o campo do Outro pela via da elabora\u00e7\u00e3o delirante pode ser considerada como um suced\u00e2neo da extra\u00e7\u00e3o do objeto <em>a<\/em> na psicose paranoica. Como sabemos, a estrutura psic\u00f3tica pode ser considerada como um caso de n\u00e3o extra\u00e7\u00e3o do objeto<em> a<\/em>. Essa concep\u00e7\u00e3o completa e esclarece aquela da foraclus\u00e3o do significante do Nome-do-Pai, conforme a nota 16 acrescentada por Lacan (1966\/1998, p. 559-560) ao texto \u201cDe uma quest\u00e3o preliminar a todo tratamento poss\u00edvel da psicose\u201d, e que foi comentada por J-A Miller (1996) no texto \u201cSuplemento topol\u00f3gico a \u2018Uma quest\u00e3o preliminar&#8230;\u2019\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 duas vertentes justapostas da extra\u00e7\u00e3o do objeto<em> a<\/em>. A primeira pode ser localizada a partir de um recorte corporal desse objeto que, ao mesmo tempo, obtura para o sujeito o furo da castra\u00e7\u00e3o (a\/-f, conforme a nota\u00e7\u00e3o de Lacan). Corresponde ao que Freud denominava de moeda de troca da fantasia na passagem do princ\u00edpio do prazer ao princ\u00edpio da realidade, ou seja, o <em>quantum<\/em> libidinal que o sujeito ret\u00e9m por meio da fantasia a fim de aceder ao princ\u00edpio de realidade, o que equivale a uma transposi\u00e7\u00e3o do gozo ao qual se renunciou para o inconsciente.<\/p>\n<p>A segunda vertente da extra\u00e7\u00e3o do objeto<em> a<\/em> incide sobre o pr\u00f3prio campo da realidade, abrindo a\u00ed uma janela correspondente \u00e0 falta do objeto da fantasia, que condensa e localiza o gozo para o sujeito a fim de causar o seu desejo. Um dos resultados da n\u00e3o extra\u00e7\u00e3o do objeto<em> a<\/em> do campo da realidade na psicose seria, justamente, a presen\u00e7a insidiosa do olhar e da voz alucinat\u00f3ria nesse campo.<\/p>\n<p>Na paranoia, o sujeito n\u00e3o se separa desse objeto. O objeto permanece no bolso, diz Lacan. O paranoico \u00e9 um sujeito de posses e sob a constante amea\u00e7a do Outro que quer priv\u00e1-lo, agredi-lo, enfim, subtrair ou destruir isso que ele possui e do qual ele tem dificuldades em se separar. Se isso d\u00e1 ao Eu paranoico uma consist\u00eancia imagin\u00e1ria, que chamamos megalomania, \u00e9 \u00e0s custas da posse desse objeto do qual ele n\u00e3o se separou e que mant\u00e9m no seu bolso. \u00c9 o que acarreta a convic\u00e7\u00e3o de superioridade intelectual do nosso paciente, que assim desbanca o saber do Outro para se afirmar como detentor do saber, tal como Schreber entendia ter sido escolhido como o salvador da humanidade.<\/p>\n<p>Essa consist\u00eancia do Eu na paranoia, diz Freud, adv\u00e9m do investimento narc\u00edsico no Eu em detrimento do investimento libidinal naqueles objetos que povoam o seu mundo. A condi\u00e7\u00e3o do investimento libidinal de objeto \u00e9, justamente, a extra\u00e7\u00e3o do objeto<em> a<\/em>, que passa assim ao campo do Outro, cavando a\u00ed uma falta que concerne \u00e0 causa do desejo para o neur\u00f3tico. Na paranoia, ao contr\u00e1rio, o gozo est\u00e1 localizado no Outro, que mant\u00e9m ent\u00e3o sua consist\u00eancia, enquanto o objeto precioso e agalm\u00e1tico permanece do lado do sujeito, guardado no seu bolso, que se v\u00ea assim, ele mesmo, como objeto do gozo do Outro.<\/p>\n<p>Isso nos conduz \u00e0 fala do paciente de que ele \u00e9 como um caderno cujas folhas est\u00e3o embaralhadas e desamarradas da brochura. O contexto dessa fala \u00e9 aquele da falta de mem\u00f3ria causada pelas interven\u00e7\u00f5es e extra\u00e7\u00f5es corporais a que teria sido submetido, e que, na psicose, podem ser compreendidas como uma extra\u00e7\u00e3o no real daquilo que n\u00e3o foi extra\u00eddo simbolicamente por meio da met\u00e1fora paterna. Nesse sentido, esse caderno nos remete aos buracos e \u00e0 fragmenta\u00e7\u00e3o narrativa de sua hist\u00f3ria. Mas podemos tamb\u00e9m nos servir dessa express\u00e3o como uma forma de nomear sua singularidade, isto \u00e9, sua maneira singular de habitar a estrutura. Nesse sentido, essas folhas soltas apontam para uma desconex\u00e3o subjetiva que produz impasse no la\u00e7o social e no tratamento por n\u00e3o poder exercer a sua fun\u00e7\u00e3o de caderno.<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><strong> O tratamento<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>A quest\u00e3o que norteou a conversa\u00e7\u00e3o talvez possa ser formulada nesses termos: o que poderia servir a esse sujeito como uma brochura a fim de que essas folhas soltas pudessem exercer a sua fun\u00e7\u00e3o de caderno? O que poderia ser introduzido como uma conex\u00e3o ou mesmo como um anteparo a fim de que esse caderno possa exercer essa fun\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Devemos nos lembrar que a estabiliza\u00e7\u00e3o de Schreber, o quarto ponto da progress\u00e3o do seu del\u00edrio, se mostrou pouco eficiente e duradoura. Podemos conjecturar se essa fragilidade de sua solu\u00e7\u00e3o, que se mostrou t\u00e3o eficiente a princ\u00edpio, ao ponto de revogar a sua interdi\u00e7\u00e3o judicial, n\u00e3o seria devida, justamente, ao consentimento com a sua posi\u00e7\u00e3o de objeto do gozo do Outro a partir da met\u00e1fora delirante \u201cA mulher de Deus\u201d. Ademais, o paciente em quest\u00e3o parece muito pouco inclinado a consentir com essa posi\u00e7\u00e3o de objeto. Ele se encontra pronto para o embate frente a tudo que possa lhe sugerir essa imposi\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 poss\u00edvel que ele possa ceder um pouco em rela\u00e7\u00e3o ao objeto que traz no bolso, de forma que, para al\u00e9m de seu consentimento \u00e0 sua posi\u00e7\u00e3o de objeto frente ao Outro, ele possa advir como um sujeito minimamente dividido, isto \u00e9, minimamente separado desse objeto que traz colado ao corpo.<\/p>\n<p>Podemos alinhar aqui alguns pontos levantados no debate que se seguiu \u00e0 entrevista e que foram retomados durante a conversa\u00e7\u00e3o. O primeiro deles incide sobre a distin\u00e7\u00e3o entre ter um sofrimento ps\u00edquico e ter um transtorno mental. O paciente entende ter algum sofrimento ps\u00edquico, mesmo que n\u00e3o admita um transtorno mental, o que o iguala ao comum dos mortais, e n\u00e3o a um enfermo.<\/p>\n<p>Essa mudan\u00e7a de foco, que de alguma forma j\u00e1 est\u00e1 em curso, poderia redirecionar a escuta do caso, da estrutura cl\u00ednica \u00e0 singularidade do sujeito. Fundamentalmente, o que se produz \u00e9 uma mudan\u00e7a de discurso, na medida em que o saber passa para o lado do paciente, como um narrador de sua hist\u00f3ria, traumas e conting\u00eancias, esvaziando assim o que o saber do Outro pode comportar de paranoico.<\/p>\n<p>Um dos ganhos dessa reorienta\u00e7\u00e3o, como se ponderou, seria a possibilidade de constru\u00e7\u00e3o de um fio narrativo que pudesse, por um lado, preencher algumas de suas lacunas de mem\u00f3ria, dando a ele um contraponto ficcional para sua fragmenta\u00e7\u00e3o ps\u00edquica por meio do trabalho de \u201ctradu\u00e7\u00e3o constante do gozo enigm\u00e1tico\u201d, conforme express\u00e3o de Laurent (2006) e, por outro lado, isolar a dimens\u00e3o real daquelas lacunas que n\u00e3o podem ser preenchidas a fim de melhor cernir seu n\u00facleo real. Um outro efeito incide sobre o valor a ser dado \u00e0 medicaliza\u00e7\u00e3o, que passaria assim a ser apenas um elemento auxiliar do tratamento desse sofrimento ps\u00edquico, e n\u00e3o um comprovante de seu transtorno mental.<\/p>\n<p>Um segundo ponto surgido no debate que se seguiu \u00e0 entrevista, e que foi retomado na conversa\u00e7\u00e3o, diz respeito a dar ao sujeito um \u201clugar de exce\u00e7\u00e3o\u201d. Sabemos que reconhecer o lugar de exce\u00e7\u00e3o de alguns sujeitos pode ser uma estrat\u00e9gia eficaz de tratamento. Mas \u00e9 preciso ter cautela, nesse caso, quanto a esse lugar de exce\u00e7\u00e3o. A singularidade de cada sujeito j\u00e1 \u00e9, por si mesma, uma forma de reconhecer a sua exce\u00e7\u00e3o. Dar a esse sujeito um lugar na institui\u00e7\u00e3o a partir do reconhecimento de um saber, como o de um ajudante da equipe, refor\u00e7aria o que para ele tem um peso. A psicose se desencadeou quando ele ingressou ou estava em vias de ingressar em seu curso de forma\u00e7\u00e3o profissional, o que parece ter tido, para ele, o mesmo peso que teve, para Schreber, a nomea\u00e7\u00e3o para Presidente da Corte de Apela\u00e7\u00e3o de Dresden.<\/p>\n<p>Mas talvez pud\u00e9ssemos tirar um bom proveito de sua apresenta\u00e7\u00e3o como um ativista, especialmente quando esse ativismo aponta para alguma reconfigura\u00e7\u00e3o do la\u00e7o social, quando ele se apresenta como um \u201cfazer para\u201d e n\u00e3o apenas como um imperativo para fazer muitas coisas. Como fun\u00e7\u00e3o social, o \u201cfazer para\u201d \u00e9 tamb\u00e9m um \u201cfazer par\u201d; \u00e9 uma forma de nomea\u00e7\u00e3o, como lembra Lacan, que comporta um intervalo de si ao outro, na medida em que a \u00eanfase se desloca do Eu para a fun\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>O \u201cfazer para\u201d n\u00e3o tem o peso da exce\u00e7\u00e3o conferido ao objeto precioso, como a nomea\u00e7\u00e3o \u201cA mulher de Deus\u201d para Schreber, ou a posse do saber para esse paciente, com a carga idealizada que comporta, como aquele que <em>j\u00e1 sabe.<\/em><\/p>\n<p>Entre o saber em sua fun\u00e7\u00e3o mediadora, como <em>meio de gozo<\/em> (LACAN, 1969-70\/1992), e a certeza psic\u00f3tica, h\u00e1 um fosso dif\u00edcil de transpor. Seria preciso, como dissemos, que o paciente consentisse em ceder em rela\u00e7\u00e3o ao objeto que tem no bolso, isto \u00e9, que ele pudesse tomar o saber de uma forma assint\u00f3tica e menos idealizada; n\u00e3o como aquilo que se tem, como um objeto precioso e intrasfer\u00edvel, mas como aquilo que ele pode almejar como saber a ser compartilhado. Aquele que j\u00e1 possui o saber como objeto precioso n\u00e3o se divide em rela\u00e7\u00e3o ao saber; por isso a cautela quanto ao lugar de exce\u00e7\u00e3o que ele mesmo pode reivindicar na institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A cess\u00e3o de gozo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 posse do saber poderia, assim, atenuar o risco de uma cis\u00e3o do sujeito que j\u00e1 sabe. Seria uma maneira de se dividir em rela\u00e7\u00e3o ao objeto. Essa divis\u00e3o subjetiva \u00e9, muitas vezes, acess\u00edvel \u00e0 paranoia, mesmo que distinta de uma divis\u00e3o hist\u00e9rica. H\u00e1 paranoicos que se dividem pela via do humor, podendo assim zombar de si mesmos; h\u00e1 tamb\u00e9m aqueles que admitem ceder esse objeto, como que por empr\u00e9stimo, mantendo-se amarrados ao fio do seu carretel. Da mesma forma que h\u00e1 esquizofr\u00eanicos que se estabilizam ao dar forma a um objeto fora do corpo, por meio de uma escrita ou de uma obra a ser publicada, vendida ou exposta, das quais eles se separam.<\/p>\n<p>A dificuldade, no presente caso, reside no fato de o paciente n\u00e3o parecer muito disposto a ceder o seu saber para o Outro. Mas talvez seja poss\u00edvel, para ele, aceder ao saber universal a fim de sustentar seu ativismo, aquele saber que est\u00e1 disposto nos livros, e n\u00e3o encarnado por algu\u00e9m que figuraria como detentor desse saber. Podemos aludir aqui \u00e0 figura do mestre no discurso universit\u00e1rio, ou seja, o autor desencarnado em nome de quem se ensina e que sustenta esse saber universal. De todas as maneiras, nos pareceu mais promissor tirar proveito de sua posi\u00e7\u00e3o de ativista, \u00e0 qual supomos um saber pr\u00e1tico, do que apostar no saber universit\u00e1rio daquele que ensina.<\/p>\n<p>Trata-se de algo a ser constru\u00eddo. Mas penso que a posi\u00e7\u00e3o de aprendiz de quem se apresenta como parceiro do paciente na busca de um saber-fazer que ningu\u00e9m ainda det\u00e9m, possa ser uma ponte nessa constru\u00e7\u00e3o que vai da margem onde ele se encontra desamparado, em meio \u00e0s folhas soltas de seu caderno e da err\u00e2ncia pulsional de quem est\u00e1 \u00e0 deriva, a essa outra margem na qual se poderia consentir com um <em>fazer para<\/em>.<\/p>\n<p>Essa ponte seria ao mesmo tempo uma transposi\u00e7\u00e3o de margens, uma forma de conex\u00e3o e um amparo. Como uma brochura para se prender as folhas do caderno, a fim de que elas possam ser religadas a uma fun\u00e7\u00e3o, a que chamamos de sinthoma, essa forma singular de ser, de gozar e de se ligar ao mundo, mesmo que sem a ajuda do Nome-do-Pai.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Refer\u00eancias<\/h6>\n<h6>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 17<\/em>: O avesso da psican\u00e1lise. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradu\u00e7\u00e3o de Ary Roitman. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992. (Trabalho original proferido em 1969-70).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. De uma quest\u00e3o preliminar a todo tratamento poss\u00edvel da psicose. In: <em>Escritos. <\/em>Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 537-590. (Trabalho original publicado em 1957-58).<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. Os tratamentos psicanal\u00edticos das psicoses. <em>Pap\u00e9is de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 2, p. 15-24, mai. 2006.<\/h6>\n<h6>MALEVAL, J.-C. <em>L\u00f3gica del del\u00edrio<\/em>. Madrid: Del Serbal, 1998.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. Suplemento topol\u00f3gico a \u201cUma quest\u00e3o preliminar&#8230;\u201d. In: <em>Matemas I<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996, p. 119-137.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frederico Feu de Carvalho Psicanalista Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP) e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP) E-mail:\u00a0 fredericofeu@gmail.com &nbsp; A entrevista Entrevistar publicamente um paciente \u00e9 um acontecimento que sempre reserva algumas surpresas, seja para a assist\u00eancia, para a equipe que conduz o caso ou para o pr\u00f3prio paciente. 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