{"id":58838,"date":"2026-08-02T10:25:31","date_gmt":"2026-08-02T13:25:31","guid":{"rendered":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/?p=58838"},"modified":"2026-08-02T10:52:31","modified_gmt":"2026-08-02T13:52:31","slug":"entrevista-com-antonio-teixeira-ebp-amp","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2026\/08\/02\/entrevista-com-antonio-teixeira-ebp-amp\/","title":{"rendered":"Entrevista com Ant\u00f4nio Teixeira &#8211; EBP\/AMP"},"content":{"rendered":"<p><strong>Almanaque 37: <\/strong>\u201cQue seria um mundo sem Freud?\u201d (Stefan Zweig \u2013 1939).<\/p>\n<p>A pergunta acima, formulada em 1939 no \u201cElogio F\u00fanebre\u201d a Freud, por seu amigo Stefan Zweig, teria uma resposta, sobretudo em pleno s\u00e9culo XXI?<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f4nio Teixeira:<\/strong><\/p>\n<p>Pensar no que seria de nosso mundo se Freud n\u00e3o tivesse existido, como formula Stefan Zweig, em seu necrol\u00f3gio, \u00e9 uma especula\u00e7\u00e3o contrafactual ao mesmo tempo dif\u00edcil e curiosa. Ela nos conduz a conjecturar sobre o que veio a ser o acontecimento Freud como marca de uma ruptura sobre a ordena\u00e7\u00e3o discursiva do mundo, ao mesmo tempo que nos leva a questionar se essa ruptura se deu porque algo ali j\u00e1 estava de fato prestes a se romper. O mundo a que Freud pertencia era, como sabemos, a Viena do final do s\u00e9culo 19 que tanto encantava o jovem Stefan Zweig, o qual chegara a acreditar que a institui\u00e7\u00e3o do Direito, como conquista da cultura, ali estaria pr\u00f3xima de suprimir a barb\u00e1rie da civiliza\u00e7\u00e3o. Stefan Zweig se fiava, como sabemos, na ideia de uma comunidade universal que garantiria a paz, guiado pela promessa que para ele era o legado de seu lugar de nascen\u00e7a, o imp\u00e9rio austro-h\u00fangaro, estado de m\u00faltiplos povos, culturas e idiomas, onde conviviam a nacionalidade h\u00fangara, a tcheca, a eslovaca, a italiana, a eslovena, a ucraniana, a romena e a croata, al\u00e9m dos judeus que, mesmo n\u00e3o pertencendo a nenhuma nacionalidade, se integravam na vida vienense daquele per\u00edodo. Tudo parecia caminhar para a paz duradoura que a pr\u00f3pria arquitetura imponente e s\u00f3lida dos edif\u00edcios vienenses traduzia, na ilus\u00e3o de que o avan\u00e7o da civiliza\u00e7\u00e3o teria de certo modo superado os desastres hist\u00f3ricos das guerras oitocentistas. Vivia-se numa sociedade cuja ambi\u00e7\u00e3o era preservar-se a si mesma.<\/p>\n<p>Pois sabemos que a hist\u00f3ria da maturidade de Zweig, na primeira metade do s\u00e9culo 20, \u00e9 a hist\u00f3ria do esfacelamento dessas convic\u00e7\u00f5es. No lugar da paz duradoura, a loucura da primeira guerra e dos desvarios nacionalistas que desmembraram o Imp\u00e9rio Austro-h\u00fangaro que lhe parecia erigido sob o ideal da concilia\u00e7\u00e3o. Com a segunda guerra e seu ex\u00edlio para a Am\u00e9rica do Sul, a recorda\u00e7\u00e3o que Zweig tinha da \u00c1ustria de sua juventude \u00e9 agora o ref\u00fagio metaf\u00edsico de uma comunidade que se transfere, no t\u00edtulo de um de seus \u00faltimos livros, para sua cren\u00e7a no Brasil como pa\u00eds do futuro, onde ele tentava projetar seu ideal de concilia\u00e7\u00e3o e multiplicidade cultural.<\/p>\n<p>Se nos voltarmos, ent\u00e3o, para Freud, o que se nota \u00e9 a n\u00edtida contraposi\u00e7\u00e3o entre seu realismo pessimista e o otimismo ing\u00eanuo de Stefan Zweig. O otimista, diante de Freud, parece ser um pessimista desinformado. Zweig se engana, em seu entender, por desconsiderar a viol\u00eancia inerente \u00e0 pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o do Direito, supostamente institu\u00eddo para regul\u00e1-la. Freud n\u00e3o se surpreende com a brutalidade da guerra que esfacelou a esperan\u00e7a de Zweig, por saber que os ideais que organizam os acordos sociais trazem consigo a brutalidade que os dissolve, como j\u00e1 se via nas inquisi\u00e7\u00f5es do Santo Of\u00edcio e hoje se repetem nas reiteradas interven\u00e7\u00f5es pretensamente humanit\u00e1rias do imp\u00e9rio americano. Acontece, por\u00e9m, que quando se estabelecem os mecanismos de regula\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia pela via do semblante, no interior da cultura, passamos a acreditar na harmonia social como consequ\u00eancia de seu ordenamento discursivo, e com isso perdemos de vista o fato de que a funda\u00e7\u00e3o do Direito implica a imposi\u00e7\u00e3o de uma viol\u00eancia que em seu universo n\u00e3o se deixa explicitar.<\/p>\n<p>Existe, na cren\u00e7a de uma organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, um \u201cn\u00e3o querer saber\u201d desse fator que n\u00e3o se organiza. E isso n\u00e3o passa desapercebido por Freud, na medida em que ele sabe que essa ignor\u00e2ncia ativa comporta consequ\u00eancias tanto cl\u00ednicas quanto sociais. Sua pr\u00e1tica lhe demonstra que para fazer parte de uma comunidade discursiva, o sujeito necessita se afastar dos fatores pulsionais que possam romp\u00ea-lo, o que faz desse \u201cn\u00e3o querer saber\u201d um fator de debilidade mental articulado \u00e0 pr\u00f3pria estrutura do discurso. \u00c9 por isso que ao afirmar que sua doutrina somente poderia ter nascido no contexto da sociedade vienense do s\u00e9culo 19, Freud tinha em mente o encontro da psican\u00e1lise com essa ignor\u00e2ncia ativa que se manifesta no comportamento f\u00fatil de uma sociedade que ocultava sua pr\u00f3pria crise, que evitava se haver com a causa de sua decad\u00eancia. Por mais que a insolv\u00eancia econ\u00f4mica do imp\u00e9rio austro-h\u00fangaro j\u00e1 crescesse a olhos vistos para todos os lados, os vienenses continuavam a frequentar os bailes e os sal\u00f5es como se nada estivesse acontecendo, como se toda uma cultura pudesse se constituir em torno desse n\u00e3o querer saber. O s\u00e9culo 19 repete, nesse sentido, a frivolidade setecentista vis\u00edvel no desenvolvimento est\u00e9tico do rococ\u00f3, arte que fazia a del\u00edcia de uma aristocracia decadente entregue \u00e0 superficialidade r\u00f3sea dos motivos florais e dos temas buc\u00f3licos de Fragonard, para n\u00e3o se haver com a ferocidade da revolta popular que em pouco tempo eclodiria na Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. J\u00e1 h\u00e1, ali\u00e1s, quem diga que nosso Instagram seria a vers\u00e3o rococ\u00f3 do s\u00e9culo 21, o que n\u00e3o me parece implaus\u00edvel, mas isso demanda uma outra discuss\u00e3o&#8230; Pensar, portanto, no que seria um mundo sem Freud, para retomar a quest\u00e3o de Zweig, talvez seja especular sobre um mundo estruturado pelo \u201cn\u00e3o querer saber\u201d da puls\u00e3o a que Freud sempre esteve sens\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>Almanaque 37: <\/strong><\/p>\n<p>No debate contempor\u00e2neo, Freud e sua cria\u00e7\u00e3o &#8211; a psican\u00e1lise &#8211; est\u00e3o mais do que nunca integrados \u00e0 cultura. No entanto, nota-se, com muita frequ\u00eancia, em alguns campos desse debate, um artif\u00edcio no uso de seu nome: passa-se da valida\u00e7\u00e3o emprestada \u00e0 quest\u00e3o atrav\u00e9s de Freud e, a seguir, ao prop\u00f3sito de uma destitui\u00e7\u00e3o do seu saber. A que voc\u00ea atribui tal fato?<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f4nio Teixeira:<\/strong><\/p>\n<p>A sua segunda pergunta cai muito bem, pois me permite dar continuidade \u00e0 minha resposta anterior. Pois quando se diz que Freud e sua doutrina se encontram integrados \u00e0 cultura, \u00e9 como se pud\u00e9ssemos afirmar que n\u00e3o existe mundo sem Freud, ao mesmo tempo em que constatamos, como voc\u00ea nota muito bem, que em muitos campos da cultura as pessoas se valem do pensamento freudiano com o \u00fanico intuito de neutraliz\u00e1-lo, de revogar suas consequ\u00eancias. Isso significa que pensar um mundo sem Freud talvez n\u00e3o seja uma especula\u00e7\u00e3o t\u00e3o abstrata assim: esse mundo sem Freud j\u00e1 existe concretamente e se amplia cada vez mais a nosso redor. Ele j\u00e1 acontece plenamente nos pa\u00edses em que a psican\u00e1lise n\u00e3o prosperou, nas comunidades em que se logrou revogar a cl\u00ednica psicanal\u00edtica do acolhimento do sofrimento mental, nas sociedades que conseguiram apagar sua import\u00e2ncia no pensamento da cultura ou dela fizeram um farrapo que servisse de remendo a algum tipo de vis\u00e3o do mundo, seja na forma do suspiro existencialista ou do imbr\u00f3glio freudo-marxista denunciado por Lacan, mas isso pouco importa. O que h\u00e1 de fato de mais grave nesse mundo sem Freud, que hoje prospera a olhos vistos na revoga\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise das universidades e na desqualifica\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica freudiana por discursos pretensamente cient\u00edficos, \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o do \u201cn\u00e3o querer saber\u201d no triunfo progressivo da idiocracia. A idiocracia, patologia epist\u00eamica que n\u00e3o constava nos dicion\u00e1rios at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, se verifica na constata\u00e7\u00e3o de que a tolice, como deriva estrutural do \u201cn\u00e3o querer saber\u201d, se afirma cada vez mais como uma for\u00e7a est\u00e1vel e triunfante.<\/p>\n<p>Isso j\u00e1 podia ser visto na encena\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie inglesa <em>Years and Years<\/em>, em que Emma Thompson encarnava Viviane Rook, personagem s\u00edntese da idiocracia atual. Temos ali uma candidata inexpressiva que deveria ter suas pretens\u00f5es pol\u00edticas abortadas pela ignor\u00e2ncia que demonstra abertamente durante os debates, quando n\u00e3o consegue responder as perguntas mais b\u00e1sicas relacionadas aos temas da administra\u00e7\u00e3o. Mas a personagem chama a aten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico ao dizer que \u201cn\u00e3o d\u00e1 a m\u00ednima\u201d (\u201c<em>I don\u00b4t give a shit<\/em>\u201d) para os refugiados. O efeito ultrajante da frase tem o efeito que se queria obter: ele tira o foco de sua inaptid\u00e3o e faz com que todos queiram saber quem \u00e9 essa pessoa que tem a coragem de dizer o que pensa publicamente. E o desfecho da idiocracia, como se viu no Brasil, em 2018, \u00e9 bem conhecido: o triunfo do pior. Ele se marca como uma \u00e9poca em que o tolo, que antes ocultava sua tolice, passa a ostent\u00e1-la orgulhosamente, conforme se v\u00ea na comunidade desavergonhada dos legend\u00e1rios. A idiocracia assim se articula \u00e0 posi\u00e7\u00e3o canalha tematizada por Lacan, na qual o n\u00e3o querer saber suprime a intelig\u00eancia do desejo, colocando no seu lugar a platitude das frases feitas e dos lugares comuns.<\/p>\n<p><strong>Almanaque 37: <\/strong><\/p>\n<p>Serge Cottet<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> afirmou que, certamente, Freud localiza-se como her\u00f3i cultural, mas em exclus\u00e3o interna \u00e0 cultura. Como voc\u00ea nos ajuda a pensar esta quest\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f4nio Teixeira:<\/strong><\/p>\n<p>Ao se pensar em Freud como her\u00f3i cultural, conforme prop\u00f5e Serge Cottet, \u00e9 preciso tomar cuidado para n\u00e3o idealizar Freud, sem deixar de reconhecer a posi\u00e7\u00e3o de fundador que ele, de fato, assume em exclus\u00e3o interna \u00e0 cultura. Freud efetivamente enfrenta a solid\u00e3o heroica de quem ocupa o lugar de fundador de uma obra que se inscreve na cultura, mas fora de todos os par\u00e2metros do que era culturalmente admitido, e por isso tenta se colocar como protetor de seu legado, conforme o sentido etimol\u00f3gico do que her\u00f3i significa: aquele que protege. Falamos, portanto, seguindo Serge Cottet, de uma posi\u00e7\u00e3o de exclus\u00e3o interna, no intuito de indicar que a via constitu\u00edda por Freud faz existir, no interior da cultura, dimens\u00f5es recalcadas pela cultura e que nela n\u00e3o tinham representa\u00e7\u00e3o, tais como a pervers\u00e3o polimorfa da sexualidade infantil, a satisfa\u00e7\u00e3o autoer\u00f3tica da puls\u00e3o ou a fun\u00e7\u00e3o do desejo inconsciente. Essa mesma solid\u00e3o que se manifesta, em Jacques Lacan, no seu discurso de funda\u00e7\u00e3o da Escola Francesa de Psican\u00e1lise (\u201cEu fundo, t\u00e3o s\u00f3 como sempre estive em minha rela\u00e7\u00e3o com a Causa freudiana&#8230;\u201d), testemunha a posi\u00e7\u00e3o heroica do refundador que visava fazer novamente existir a psican\u00e1lise freudiana, deteriorada em sua ess\u00eancia pela apropria\u00e7\u00e3o cultural de sua doutrina colocada a servi\u00e7o dos ideais de uma sociedade puritana. Essa pergunta nos conduz a uma medita\u00e7\u00e3o sobre o que vem a ser a posi\u00e7\u00e3o do autor como fundador de uma obra, que tive a ocasi\u00e3o de desenvolver numa confer\u00eancia intitulada \u201cO horizonte da obra em Jacques Lacan\u201d.<\/p>\n<p><strong>Almanaque 37: <\/strong><\/p>\n<p>Algumas tonalidades do modo de vida da sociedade atual s\u00e3o creditadas a Freud, \u00e0 exist\u00eancia e ao ensinamento da psican\u00e1lise, florescidos em nosso s\u00e9culo, evidentemente fomentadas pelas conhecidas tecnologias. Menciono tr\u00eas delas \u2013 talvez as mais ostensivas e entrela\u00e7adas \u2013 e lhe pe\u00e7o que nos esclare\u00e7a, justamente, o mal-entendido (t\u00e3o familiar \u00e0 psican\u00e1lise!) sobre a atribui\u00e7\u00e3o de origem a \u201cFreud explica\u201d!<\/p>\n<p>1 &#8211; O tudo dizer em sua tor\u00e7\u00e3o \u201cprivado se torna p\u00fablico\u201d ou, de outro modo, \u201co \u00edntimo como tudo revelado\u201d (como se fosse poss\u00edvel): ideal da transpar\u00eancia.<\/p>\n<p>2 &#8211; O ilus\u00f3rio imp\u00e9rio do direito \u00e0 verdade, \u00e0 liberdade concernida a \u201co corpo \u00e9 meu\u201d e a tudo o que toca a sexualidade e \u00e0 sua exposi\u00e7\u00e3o, numa cruzada contra a vergonha e \u00e9tica.<\/p>\n<p>3 &#8211; Uma sexualidade \u2013 herdeira das cores acima mencionadas \u2013 restrita aos movimentos de corpos e \u00e0 crueza do linguajar musical dito \u201cjovem\u201d.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f4nio Teixeira:<\/strong><\/p>\n<p>No que diz respeito \u00e0 primeira quest\u00e3o, parece-me que o ideal de transpar\u00eancia seja consequ\u00eancia dos dispositivos de rela\u00e7\u00e3o contratuais erigidos na ordem da ideologia mercantil, onde tudo deve estar necessariamente expl\u00edcito nas cl\u00e1usulas de uma negocia\u00e7\u00e3o. A psican\u00e1lise disso se demarca, visto que em vez de fazer uma apologia da transpar\u00eancia, ela se afirma como lugar de direito ao segredo no campo de sua opera\u00e7\u00e3o cl\u00ednica. E isso \u00e9 fundamental. Jean-Claude Milner nos adverte, em sua \u201cPol\u00edtica das coisas\u201d, da import\u00e2ncia do direito ao segredo como \u00fanica garantia do sujeito vulner\u00e1vel diante da viol\u00eancia do mais forte. Na quest\u00e3o da exposi\u00e7\u00e3o do caso cl\u00ednico, ele nos coloca de alerta quando a intimidade do sujeito se v\u00ea acoplada \u00e0 normalidade do grupo, lembrando-nos da import\u00e2ncia de se assegurar a n\u00e3o absor\u00e7\u00e3o da singularidade pelo coletivo nesse tipo de discuss\u00e3o. Dizer um segredo ao psicanalista tem aqui o sentido de apresentar o que n\u00e3o tem representa\u00e7\u00e3o no discurso comum, significa expressar o que n\u00e3o \u00e9 transparente ao coletivo e que por isso se manifesta como sofrimento de um gozo oculto no sintoma. E nessa perspectiva cabe ao analista ser o testemunho reservado desse segredo, ser aquele que permite fazer da experi\u00eancia cl\u00ednica o lugar secreto de sua elabora\u00e7\u00e3o singular.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica, portanto, indicada na segunda quest\u00e3o, de um ilus\u00f3rio imp\u00e9rio do direito \u00e0 verdade, \u00e0 liberdade concernida a \u201co corpo \u00e9 meu\u201d e sua exposi\u00e7\u00e3o sexual, parece incidir sobre uma outra exig\u00eancia de transpar\u00eancia que em nosso tempo se manifesta na forma de um ideal de autotranspar\u00eancia do eu. \u00c9 como se o sujeito pudesse ser reduzido \u00e0 transpar\u00eancia imagin\u00e1ria do eu, do qual o corpo n\u00e3o seria mais do que um inv\u00f3lucro do qual ele reivindica a propriedade. O risco maior desse ideal de autotranspar\u00eancia \u00e9 de que a demanda da reivindica\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria do \u201ceu sou x\u201d venha silenciar a palavra do desejo. A psican\u00e1lise nos ensina que a abertura de uma pergunta pelo desejo implica necessariamente o intervalo de uma suspens\u00e3o \u2013 por menor que ela seja \u2013 da reivindica\u00e7\u00e3o contratual da demanda formulada pelo indiv\u00edduo na representa\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria do eu. N\u00e3o se pode contratar uma psican\u00e1lise, pois se o contrato sup\u00f5e uma autonomia do indiv\u00edduo que sabe o que diz, a experi\u00eancia psicanal\u00edtica do inconsciente desmente precisamente esse ideal de autotranspar\u00eancia. S\u00f3 existe sujeito do inconsciente, para a psican\u00e1lise, porque aquele que se inscreve, em sua experi\u00eancia, n\u00e3o sabe do desejo que o faz falar, e por isso mesmo se surpreende com os efeitos de sua pr\u00f3pria enuncia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por sua vez, a ideia da sexualidade restrita ao movimento dos corpos, como voc\u00ea indica na \u00faltima pergunta, parece estampar os efeitos da revoga\u00e7\u00e3o do amor que Lacan indica no horizonte do discurso do capitalismo, como consequ\u00eancia da forclus\u00e3o da castra\u00e7\u00e3o na alian\u00e7a do sujeito ao objeto a, na forma do mais-gozar. O que se revela por detr\u00e1s do questionamento feroz dos semblantes em nome das reivindica\u00e7\u00f5es identit\u00e1rias de nosso momento, em muitos aspectos se relaciona \u00e0 exig\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o imposta por um discurso que s\u00f3 tem por princ\u00edpio a circula\u00e7\u00e3o do mais gozar, cujo correlato \u00e9 o sujeito consumista permanentemente frustrado e ao mesmo tempo fixado na demanda bul\u00edmica de satisfa\u00e7\u00e3o. No lugar, portanto, da repress\u00e3o sexual vitoriana em cujo contexto vimos nascer a psican\u00e1lise, o que se assiste hoje, observa J.-A. Miller, \u00e9 a passagem da interdi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e0 permiss\u00e3o, mas ao for\u00e7amento, ao imperativo do dever de gozo que nos imp\u00f5e uma coer\u00e7\u00e3o t\u00e3o intensa quanto aquela que nos impedia de gozar. Valor sem valor, esse corpo moderno, que Sade antecipava, finalmente se presta, em nossa moral contempor\u00e2nea, \u00e0 expans\u00e3o da exig\u00eancia de gozo que hoje se apresenta no culto da pornografia.<\/p>\n<p>O que a psican\u00e1lise teria, ent\u00e3o, a dizer diante da onipresen\u00e7a do porn\u00f4 em nosso s\u00e9culo? Nada, responde J.-A. Miller, sen\u00e3o reafirmar que a rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o existe, que n\u00e3o existe programa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica do sexual, e que ao desconhecer a inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual, em seu esfor\u00e7o de tratar o sexo como satisfa\u00e7\u00e3o program\u00e1vel, nossa moral termina por reduzi-lo \u00e0 f\u00faria copulat\u00f3ria de uma descarga mec\u00e2nica carente de sentido. Mas seria, talvez, igualmente importante determinar o que a psican\u00e1lise n\u00e3o deve dizer. A psican\u00e1lise n\u00e3o deve cair na tenta\u00e7\u00e3o reacion\u00e1ria de suspirar por uma retomada do sentido atrav\u00e9s de uma idealiza\u00e7\u00e3o das representa\u00e7\u00f5es emblem\u00e1ticas do corpo, mas antes lidar com o estatuto sumamente prec\u00e1rio dos semblantes corporais do qual o ser falante se serve para se localizar. A procura da felicidade n\u00e3o deve, tampouco, nos servir de guia, at\u00e9 porque a quest\u00e3o da felicidade, tal como ela hoje se apresenta, n\u00e3o se refere sen\u00e3o a uma s\u00e9rie de imagens impostas pelo sistema de reprodu\u00e7\u00e3o de formas de vida sob a \u00e9gide do capitalismo. Seria ent\u00e3o o caso de dizer, como j\u00e1 tivemos ocasi\u00e3o de afirmar em outro momento, que a fun\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise consiste em reconduzir a subjetiva\u00e7\u00e3o corporal do sexo e do gozo a um regime de indiferen\u00e7a com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s normas de felicidade da cultura? Talvez sim. Pois \u00e9 somente nos mantendo indiferentes em rela\u00e7\u00e3o ao sexo e ao corpo, no sentido n\u00e3o de desconsider\u00e1-los, mas de n\u00e3o nos valermos de nenhum discurso normativo sobre eles, que poderemos lan\u00e7ar, finalmente, a possibilidade de agenciar formas singulares que, como tais, n\u00e3o servir\u00e3o de modelo \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Serge Cottet, psicanalista. Foi AME da \u00c9cole de la Cause Freudienne, membro da EBP e da AMP. Faleceu em 2017.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Almanaque 37: \u201cQue seria um mundo sem Freud?\u201d (Stefan Zweig \u2013 1939). A pergunta acima, formulada em 1939 no \u201cElogio F\u00fanebre\u201d a Freud, por seu amigo Stefan Zweig, teria uma resposta, sobretudo em pleno s\u00e9culo XXI? Ant\u00f4nio Teixeira: Pensar no que seria de nosso mundo se Freud n\u00e3o tivesse existido, como formula Stefan Zweig, em&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58860,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[521,38],"tags":[],"class_list":["post-58838","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque_37","category-encontros","category-521","category-38","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58838","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=58838"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58838\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58839,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58838\/revisions\/58839"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58860"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=58838"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=58838"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=58838"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}