{"id":58840,"date":"2026-08-02T10:28:55","date_gmt":"2026-08-02T13:28:55","guid":{"rendered":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/?p=58840"},"modified":"2026-08-03T17:16:35","modified_gmt":"2026-08-03T20:16:35","slug":"a-atualidade-de-freud-para-o-debate-contemporaneo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2026\/08\/02\/a-atualidade-de-freud-para-o-debate-contemporaneo\/","title":{"rendered":"A atualidade de Freud para o debate contempor\u00e2neo"},"content":{"rendered":"<h5><em>Gilson Iannini<br \/>\n<\/em>Psicanalista<br \/>\nMembro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP)<br \/>\ne da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP)<br \/>\n<em>E-mail:<\/em> <a href=\"mailto:gilsoniannini@yahoo.com.br\">gilsoniannini@yahoo.com.br<\/a><\/h5>\n<p>Paradoxalmente, talvez Lacan s\u00f3 encontre Freud de fato quando abandona o pr\u00f3prio \u201cretorno a Freud\u201d: n\u00e3o mais apenas no inconsciente estruturado como uma linguagem, mas em <em>lalangue<\/em>, no falasser, na puls\u00e3o, nas redes e na materialidade gozosa da palavra.<\/p>\n<blockquote><p>Pertence verdadeiramente ao seu tempo [escreve Agamben] aquele que n\u00e3o coincide perfeitamente com ele nem se adequa \u00e0s suas exig\u00eancias e \u00e9, por isso, nesse sentido, inatual; mas, precisamente por isso, exatamente atrav\u00e9s dessa separa\u00e7\u00e3o e desse anacronismo, ele \u00e9 capaz, mais do que outros, de perceber e de apreender o seu tempo. (AGAMBEN, 2014)<\/p><\/blockquote>\n<p>Quando apago a luz do quarto, ou entro subitamente num ambiente escuro, a escurid\u00e3o toma conta de tudo. N\u00e3o sou capaz de dar um passo sem arriscar um trope\u00e7o. Estendo a m\u00e3o, procurando alcan\u00e7ar o interruptor do abajur ou, talvez, o celular sobre a mesa. Enquanto vou tateando, procurando sem achar, aos poucos come\u00e7o a enxergar certos contornos de objetos, uma ou outra nesga de luz, uma esp\u00e9cie de aura. Na verdade, alguns minutos depois de cair na escurid\u00e3o, nossas retinas acabam se adaptando \u00e0 aus\u00eancia de luz, ajustando a sensibilidade \u00e0 luminosidade, num jogo complexo do sistema fotoqu\u00edmico. Fato \u00e9 que, aos poucos, conseguimos como que enxergar na escurid\u00e3o ou mesmo enxergar a pr\u00f3pria escurid\u00e3o. O fen\u00f4meno \u00e9 bem descrito e facilmente replic\u00e1vel por qualquer um.<\/p>\n<p>Analogamente, o presente n\u00e3o \u00e9 imediatamente vis\u00edvel. Quem, com toda honestidade, sabe dizer \u201co que est\u00e1 acontecendo, de verdade, aqui, hoje\u201d? As marcas do presente s\u00f3 se d\u00e3o a ver a quem se acostuma a enxergar na penumbra. Afinal, como escreveu Agamben (2014), \u201ccontempor\u00e2neo \u00e9, exatamente, aquele que sabe ver essa obscuridade, que \u00e9 capaz de escrever mergulhando a pena nas trevas do presente.\u201d<\/p>\n<p>Nesse sentido, talvez Freud permane\u00e7a contempor\u00e2neo justamente no ponto em que sua obra resiste \u00e0s leituras demasiado luminosas, demasiado organizadas, demasiado transparentes de si mesma. Durante d\u00e9cadas, parte importante da recep\u00e7\u00e3o de Freud passou pela media\u00e7\u00e3o estruturalista do primeiro ensino de Lacan, cujo alcance e fecundidade s\u00e3o ineg\u00e1veis.<\/p>\n<p>Mas talvez algumas das intui\u00e7\u00f5es mais radicais de Freud apare\u00e7am justamente ali onde a linguagem deixa de funcionar apenas como estrutura de significa\u00e7\u00e3o e passa a operar como aparelho de gozo, como marca inscrita no corpo, como rede pulsional de tra\u00e7os, intensidades, restos sonoros e conting\u00eancias. N\u00e3o \u00e9 casual que o \u00faltimo Lacan \u2013 o do falasser, de <em>lalangue<\/em> e do inconsciente real \u2013 reencontre precisamente esse ponto.<\/p>\n<p>Tomemos, por exemplo, o processo de escrita de <em>Al\u00e9m do princ\u00edpio de prazer<\/em>, publicado em 1920, alvo de diversas disputas e controv\u00e9rsias. Para come\u00e7ar, ele foi elaborado num per\u00edodo especialmente turbulento tanto do ponto de vista hist\u00f3rico quanto do ponto de vista pessoal, sem contar as pr\u00f3prias transforma\u00e7\u00f5es da teoria e da cl\u00ednica psicanal\u00edtica. O texto foi iniciado logo ap\u00f3s o final da Primeira Guerra Mundial, enquanto a epidemia de gripe espanhola vitimava milh\u00f5es de pessoas, incluindo a jovem e saud\u00e1vel Sophie, filha de Freud. Do mesmo modo, a cl\u00ednica receberia um forte influxo dos traumatizados de guerra, cuja gram\u00e1tica de sofrimentos parecia denunciar um certo esgotamento de hip\u00f3teses te\u00f3ricas e de protocolos cl\u00ednicos calcados em um primeiro modelo da interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em que medida a superf\u00edcie do texto espelha todos ou alguns desses acontecimentos? Como tais acontecimentos \u201cexteriores\u201d incidem no texto? Se um texto fosse uma superf\u00edcie plana, como um espelho bem polido, talvez acontecimentos paralelos pudessem ser refletidos em \u00e2ngulos id\u00eanticos aos \u00e2ngulos de incid\u00eancia. Refletida, a luz seria devolvida a seu meio de origem, sem que houvesse refra\u00e7\u00e3o, sem opacidades ou ru\u00eddos. Foi isso que supuseram \u2013 e ainda sup\u00f5em \u2013 alguns leitores. <em>Al\u00e9m do princ\u00edpio de prazer<\/em> espelharia o pessimismo de Freud, seu luto, suas perdas.<\/p>\n<p>Mas acontecimentos quase nunca s\u00e3o paralelos: s\u00e3o, antes, obl\u00edquos, ou tangenciam outros acontecimentos, ou os cortam. Al\u00e9m disso, n\u00e3o incidem em superf\u00edcies planas, dispostas a devolver aos olhos do leitor o que o autor mesmo recebeu. Do mesmo modo, um texto n\u00e3o \u00e9 uma superf\u00edcie plana, mas, antes, \u00e9 composto por camadas ou placas que se chocam e que deslizam umas sobre as outras, amarradas por fios nem sempre vis\u00edveis, nem sempre ancorados em terra firme. Tampouco um texto \u00e9 uma mat\u00e9ria opaca, impenetr\u00e1vel, que nada absorve do exterior ou que extingue tudo que lhe \u00e9 estranho.<\/p>\n<p>Talvez isso valha tamb\u00e9m para o pr\u00f3prio inconsciente freudiano. Durante muito tempo, sobretudo sob forte influ\u00eancia do paradigma estruturalista, lemos Freud prioritariamente a partir da ordem simb\u00f3lica, da estrutura da linguagem, da combinat\u00f3ria significante. Essa leitura foi decisiva e extraordinariamente fecunda. Mas ela talvez tenha deixado relativamente na sombra algo que retorna com for\u00e7a justamente no <em>Al\u00e9m do princ\u00edpio de prazer<\/em>: uma concep\u00e7\u00e3o do psiquismo menos centrada na transpar\u00eancia do sentido do que em circuitos pulsionais, intensidades, repeti\u00e7\u00f5es, tra\u00e7os, insist\u00eancias, marcas corporais e formas de gozo que excedem o regime cl\u00e1ssico da interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 casual que seja precisamente em torno da repeti\u00e7\u00e3o, do trauma e da puls\u00e3o que o \u00faltimo ensino de Lacan reencontre Freud.<\/p>\n<p>O falasser lacaniano j\u00e1 n\u00e3o coincide inteiramente com o sujeito do significante. <em>Lalangue<\/em> j\u00e1 n\u00e3o se reduz \u00e0 estrutura diferencial da linguagem. A palavra passa a ser pensada tamb\u00e9m como acontecimento de corpo, como materialidade sonora, como aparelho de gozo. E talvez Freud estivesse mais pr\u00f3ximo disso desde o in\u00edcio do que muitas vezes supomos.<\/p>\n<p>Exatamente porque mergulhou profundamente nas trevas do presente \u00e9 que Freud construiu, com escombros e materiais diversos, um texto que nos fornece ainda hoje elementos potentes para pensar desde problemas cl\u00ednicos, como a ub\u00edqua compuls\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o, at\u00e9 a pol\u00edtica, com a instrumentaliza\u00e7\u00e3o perversa da puls\u00e3o de morte a servi\u00e7o da bio e da necropol\u00edtica. Mas talvez nos permita tamb\u00e9m reler o pr\u00f3prio inconsciente menos como uma gram\u00e1tica est\u00e1vel de significa\u00e7\u00f5es ocultas do que como uma rede din\u00e2mica de inscri\u00e7\u00f5es, retranscri\u00e7\u00f5es, restos, acidentes e circuitos pulsionais parcialmente opacos ao pr\u00f3prio sujeito.<\/p>\n<p>Nesse sentido, Freud \u00e9 perfeitamente contempor\u00e2neo n\u00e3o apenas de seu pr\u00f3prio tempo, mas tamb\u00e9m do nosso. Justamente porque neutraliza as luzes de sua \u00e9poca, ele est\u00e1 profundamente enraizado naquilo que, em seu tempo hist\u00f3rico, \u00e9, na verdade, inatual. N\u00e3o foi a psican\u00e1lise que desativou o dispositivo m\u00e9dico que silenciava o sofrimento hist\u00e9rico e, ao faz\u00ea-lo, lhe deu voz, uma voz que, justamente, denunciava o liame invis\u00edvel entre um certo saber psicopatol\u00f3gico e a hipocrisia sexual? N\u00e3o foi Freud quem retirou os sonhos e as fantasias sexuais infantis das brumas do absurdo e da inexist\u00eancia e lhes emprestou uma linguagem e uma forma? N\u00e3o foi o div\u00e3 \u2013 e a associa\u00e7\u00e3o livre \u2013 que liberou a palavra das regras t\u00e1citas da conversa\u00e7\u00e3o ordin\u00e1ria e ofereceu a ela um espa\u00e7o em que aquilo que n\u00e3o se pode dizer finalmente ganhava corpo e surpreendia inclusive aquele que fala?<\/p>\n<p>Mas talvez hoje devamos acrescentar:<\/p>\n<p>Freud n\u00e3o apenas mostrou que o inconsciente fala. Mostrou tamb\u00e9m \u2013 ainda que frequentemente n\u00e3o o tenhamos lido assim \u2013 que o corpo fala, goza e insiste de maneiras que n\u00e3o se deixam reduzir inteiramente ao regime do sentido.<\/p>\n<p>Nesse ponto, o \u00faltimo Lacan talvez tenha reencontrado algo decisivo do gesto freudiano: n\u00e3o mais apenas o inconsciente estruturado como uma linguagem, mas o inconsciente real, pulsional, essa zona em que linguagem, corpo e gozo tornam-se insepar\u00e1veis.<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise est\u00e1, assim, enraizada na hist\u00f3ria. N\u00e3o apenas como testemunha: tamb\u00e9m como agente transformador dessa mesma hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por acaso que o cr\u00edtico liter\u00e1rio palestino Edward Said (2004, p. 55) sublinhou que \u201ctextos inertes permanecem em suas \u00e9pocas\u201d, mas \u201caqueles que se contrap\u00f5em vigorosamente \u00e0s barreiras hist\u00f3ricas s\u00e3o os que permanecem conosco gera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s gera\u00e7\u00e3o\u201d. Segundo Said, Freud foi \u201cum inversor e remapeador de geografias e genealogias aceitas ou estabelecidas\u201d. Ele assim se presta, \u201cpela mem\u00f3ria, pesquisa e reflex\u00e3o, a uma estrutura\u00e7\u00e3o sem fim, tanto no sentido individual como coletivo\u201d. E conclui:<\/p>\n<p>Que n\u00f3s, diferentes leitores de diferentes per\u00edodos hist\u00f3ricos, em contextos culturais diferentes, continuemos a faz\u00ea-lo em nossas leituras de Freud, me parece nada menos do que uma justifica\u00e7\u00e3o do poder que o seu trabalho tem para instigar novos pensamentos, bem como para iluminar situa\u00e7\u00f5es com que ele mesmo talvez jamais tenha sonhado. (SAID, 2004, p. 57)<\/p>\n<p>Imposs\u00edvel ser mais claro do que isso.<\/p>\n<p>Talvez seja justamente por isso que Freud continue retornando nos momentos em que certas formas de sofrimento escapam \u00e0s gram\u00e1ticas estabelecidas. N\u00e3o apenas porque tenha antecipado conte\u00fados espec\u00edficos de nosso tempo, mas porque construiu um aparelho conceitual singularmente sens\u00edvel \u00e0s zonas de opacidade do sujeito, \u00e0s falhas das causalidades lineares e \u00e0 dimens\u00e3o contingente dos arranjos entre corpo, linguagem e gozo.<\/p>\n<p>Durante d\u00e9cadas, o chamado \u201cretorno a Freud\u201d passou, legitimamente, pela media\u00e7\u00e3o das grandes ferramentas conceituais do s\u00e9culo XX: a lingu\u00edstica estrutural, a antropologia estrutural, a l\u00f3gica, a teoria do significante. Lacan retornou a Freud em companhia do que havia de melhor no pensamento de seu tempo. Mas talvez tenha encontrado Freud de maneira ainda mais radical justamente quando atravessou os limites do paradigma estruturalista e formulou no\u00e7\u00f5es como <em>lalangue<\/em>, o falasser e o sinthoma.<\/p>\n<p>Nesse ponto, Freud aparece menos como um pensador da decifra\u00e7\u00e3o de sentidos ocultos e mais como um pensador das redes associativas, das retranscri\u00e7\u00f5es, das fixa\u00e7\u00f5es pulsionais, dos acidentes de corpo, dos restos sonoros e dos modos singulares de gozo. Talvez o verdadeiro retorno contempor\u00e2neo a Freud comece exatamente a\u00ed.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que Freud nunca abordou o autismo, descrito pela primeira vez em 1943, portanto cinco anos ap\u00f3s sua morte. \u00c9 claro que a psican\u00e1lise, ao longo do tempo, disse muita bobagem acerca do autismo, como a hip\u00f3tese da \u201cm\u00e3e-geladeira\u201d, e pagou o pre\u00e7o do ostracismo te\u00f3rico e cl\u00ednico por isso. Recentemente, v\u00e1rios autores t\u00eam retomado o problema em outras chaves, como demonstram, por exemplo, \u00c9ric Laurent, Jean-Claude Maleval e outros.<\/p>\n<p>Mas o que pretendo mostrar aqui \u00e9 outra coisa. \u00c9 como um retorno contempor\u00e2neo a Freud \u2013 talvez um retorno distinto daquele das d\u00e9cadas de 1950 e 1960 \u2013 pode nos ajudar a recolocar o problema em bases mais complexas e mais rigorosas.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de abandonar as contribui\u00e7\u00f5es decisivas da lingu\u00edstica estrutural para a psican\u00e1lise, mas de reconhecer que certas quest\u00f5es contempor\u00e2neas talvez exijam modelos menos centrados exclusivamente na ordem do sentido e mais atentos aos modos de articula\u00e7\u00e3o entre corpo, linguagem, conting\u00eancia e gozo.<\/p>\n<p>Tomemos um exemplo. Um pouco mais ou um pouco menos de um s\u00e9culo nos separa, hoje, dos textos de Freud, cuja obra se estende, aproximadamente, de 1895 at\u00e9 1939. H\u00e1 neles, contudo, algo de extremamente contempor\u00e2neo. Freud n\u00e3o esteve apenas \u00e0 frente de seu tempo. Em uma s\u00e9rie de aspectos, certas intui\u00e7\u00f5es epistemol\u00f3gicas freudianas permanecem surpreendentemente atuais.<\/p>\n<p>Por exemplo, quando afirma que \u201ca Patologia n\u00e3o p\u00f4de fazer justi\u00e7a ao problema da causa imediata da doen\u00e7a nas neuroses enquanto esteve preocupada apenas em decidir se essas afec\u00e7\u00f5es eram de natureza end\u00f3gena ou ex\u00f3gena\u201d (FREUD, 1912\/2016, p. 79).<\/p>\n<p>Talvez at\u00e9 hoje um certo discurso psicopatol\u00f3gico esteja demasiado aprisionado nessa pobre \u2013 ou at\u00e9 mesmo falsa \u2013 dicotomia entre fatores gen\u00e9ticos ou ambientais, biol\u00f3gicos ou ps\u00edquicos.<\/p>\n<p>A perspectiva freudiana \u00e9, nesse sentido, mais moderna e mais ousada:<\/p>\n<blockquote><p>a Psican\u00e1lise nos advertiu a abandonarmos a infecunda oposi\u00e7\u00e3o entre fatores externos e internos, entre destino e constitui\u00e7\u00e3o, e nos ensinou a encontrar a causa\u00e7\u00e3o do adoecimento neur\u00f3tico regularmente em uma determinada situa\u00e7\u00e3o ps\u00edquica que pode se produzir por diversos caminhos. (FREUD, 1912\/2016, p. 79)<\/p><\/blockquote>\n<p>Ou, ainda, quando insiste: \u201cassim se mistura e se une continuamente na observa\u00e7\u00e3o aquilo que n\u00f3s, na teoria, queremos distinguir como um par de opostos \u2013 heran\u00e7a e aquisi\u00e7\u00e3o\u201d (FREUD, 1920\/2016, p. 192).<\/p>\n<p>Mas talvez o ponto decisivo esteja em outro lugar. Freud n\u00e3o apenas recusa causalidades simples; ele constr\u00f3i um modelo profundamente heterog\u00eaneo do psiquismo. Um modelo em que tra\u00e7os mn\u00eamicos, inscri\u00e7\u00f5es corporais, fantasias, acidentes contingentes, repeti\u00e7\u00f5es, marcas de linguagem e intensidades pulsionais passam a operar em rede, retranscrevendo-se mutuamente.<\/p>\n<p>Em uma longa nota de <em>Sobre a din\u00e2mica da transfer\u00eancia<\/em>, Freud aborda com muita clareza e sofistica\u00e7\u00e3o algo que me parece extremamente contempor\u00e2neo em termos de modelos causais complexos:<\/p>\n<blockquote><p>Protejamo-nos aqui contra a obje\u00e7\u00e3o err\u00f4nea que acredita termos negado a import\u00e2ncia dos fatores inatos (constitucionais), por termos destacado as impress\u00f5es infantis. Tal cr\u00edtica origina-se na estreiteza da necessidade de causalidade dos homens, que quer se satisfazer com um \u00fanico momento origin\u00e1rio, ao contr\u00e1rio da configura\u00e7\u00e3o usual da realidade. A Psican\u00e1lise se pronunciou muito sobre os fatores acidentais da etiologia e pouco sobre os constitucionais; mas isso apenas porque p\u00f4de trazer algo de novo no primeiro caso, e no segundo n\u00e3o sabia mais do que em geral j\u00e1 se sabe. Rejeitamos o estabelecimento de uma oposi\u00e7\u00e3o fundamental entre as duas sequ\u00eancias de fatores etiol\u00f3gicos; supomos, antes, uma colabora\u00e7\u00e3o regular entre ambas, produzindo o efeito observado. Destino e Acaso determinam o destino de um homem; raras vezes, talvez nunca, uma dessas for\u00e7as apenas. A distribui\u00e7\u00e3o da efic\u00e1cia etiol\u00f3gica entre as duas s\u00f3 poder\u00e1 se realizar individualmente e em cada caso espec\u00edfico. A sequ\u00eancia em que grandezas alternantes de ambos os fatores se comp\u00f5em certamente tamb\u00e9m ter\u00e1 seus casos extremos. Dependendo do n\u00edvel do nosso conhecimento, iremos avaliar de modo diferente a parcela da constitui\u00e7\u00e3o ou da viv\u00eancia em cada caso espec\u00edfico, e nos reservamos o direito de modificarmos o nosso ju\u00edzo com a mudan\u00e7a de nossas compreens\u00f5es. Ali\u00e1s, poder\u00edamos arriscar a entender a pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o como o precipitado das influ\u00eancias acidentais sobre a infinita s\u00e9rie dos antepassados. (FREUD, 1912\/2017, p. 107-108, nota ii)<\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil n\u00e3o perceber aqui uma concep\u00e7\u00e3o do psiquismo muito distante de qualquer dualismo simples entre organismo e cultura. Mais ainda: Freud sugere algo pr\u00f3ximo de uma causalidade retroativa, em que conting\u00eancia e disposi\u00e7\u00e3o deixam de constituir s\u00e9ries independentes e passam a interferir umas nas outras. O passado se retranscreve, reorganiza-se, ganha novos sentidos e novos efeitos. O pr\u00f3prio corpo deixa de ser simples suporte biol\u00f3gico para tornar-se corpo atravessado pela linguagem e pela puls\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 casual que o \u00faltimo Lacan tenha reencontrado Freud precisamente nesse ponto. O falasser lacaniano designa justamente esse ser cujo corpo j\u00e1 n\u00e3o pode ser pensado fora dos efeitos de <em>lalangue<\/em>, isto \u00e9, fora das marcas sonoras, contingentes e pulsionais da linguagem sobre o corpo vivo. Nesse contexto, o inconsciente deixa de aparecer apenas como cadeia significante a ser decifrada e passa a incluir tamb\u00e9m modos de gozo, acontecimentos de corpo e arranjos singulares parcialmente opacos ao pr\u00f3prio sujeito.<\/p>\n<p>Tudo isso tem grandes implica\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas e pol\u00edticas. Tomemos um caso em que fatores externos e internos, ex\u00f3genos e end\u00f3genos, destino e constitui\u00e7\u00e3o se retroalimentam: a batalha em torno do autismo, ocorrida em diversos pa\u00edses, como a Fran\u00e7a e o Brasil, por exemplo.<\/p>\n<p>Se \u00e9 ineg\u00e1vel que fatores constitucionais ou disposicionais \u2013 ou, para dizermos com os termos de hoje, neurol\u00f3gicos ou gen\u00e9ticos \u2013 desempenham papel determinante no autismo, esses mesmos fatores n\u00e3o excluem uma complexa trama de fatores acidentais que retroalimentam os constitucionais, tampouco excluem o fato de que determinadas configura\u00e7\u00f5es familiares, hist\u00f3ricas e sociais favore\u00e7am ou desfavore\u00e7am a constru\u00e7\u00e3o de bordas para uma crian\u00e7a autista.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, mesmo se considerarmos a improv\u00e1vel hip\u00f3tese de uma determina\u00e7\u00e3o inteiramente gen\u00e9tica do autismo, na aus\u00eancia de uma terapia gen\u00e9tica tamb\u00e9m completamente eficaz, ainda assim a psican\u00e1lise lida com outra coisa: com a singularidade irredut\u00edvel, com o modo como cada pessoa autista ir\u00e1 se virar com o intervalo entre destino e acaso, isto \u00e9, entre a aparente necessidade das determina\u00e7\u00f5es \u2013 gen\u00e9ticas, neurais, simb\u00f3licas, corporais \u2013 e a conting\u00eancia das inven\u00e7\u00f5es e dos arranjos pass\u00edveis de serem constru\u00eddos por um sujeito em sua vida.<\/p>\n<p>Mas talvez possamos agora formular isso de maneira mais precisa. N\u00e3o se trata simplesmente de acrescentar \u201cfatores ps\u00edquicos\u201d a fatores biol\u00f3gicos, como se estiv\u00e9ssemos apenas ampliando o invent\u00e1rio causal. O problema \u00e9 mais radical. Certas condi\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas exigem modelos capazes de pensar conjuntamente corpo, linguagem e gozo sem reduzi-los a uma matriz \u00fanica de determina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse ponto, a no\u00e7\u00e3o lacaniana de falasser ganha import\u00e2ncia decisiva. Ela permite pensar um corpo que n\u00e3o \u00e9 apenas organismo biol\u00f3gico nem simples suporte imagin\u00e1rio de identifica\u00e7\u00f5es, mas corpo afetado pela linguagem, atravessado por marcas sonoras, ritmos, repeti\u00e7\u00f5es, fixa\u00e7\u00f5es e modos singulares de gozo. Talvez seja precisamente isso que muitos fen\u00f4menos cl\u00ednicos contempor\u00e2neos nos obriguem a recolocar no centro da discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, uma condi\u00e7\u00e3o como o TEA (Transtorno do Espectro Autista) n\u00e3o \u00e9 inteiramente imune ao discurso sobre ela, \u00e0 teoria que se produz sobre ela, \u00e0s formas de vida que se inventam, \u00e0s classifica\u00e7\u00f5es diagn\u00f3sticas e \u00e0s pol\u00edticas p\u00fablicas que estabelecem direitos, deveres e modos de reconhecimento.<\/p>\n<p>Para enfrentar problemas dessa natureza, o fil\u00f3sofo da ci\u00eancia canadense Ian Hacking distinguiu \u201ctipos indiferentes\u201d e \u201ctipos interativos\u201d. O comportamento dos \u00e1tomos n\u00e3o se altera de acordo com o que falamos sobre eles. Os rumos da economia, ao contr\u00e1rio, variam de acordo com as expectativas e discursos dos agentes pol\u00edticos e econ\u00f4micos. No primeiro caso, estamos diante de um tipo indiferente; no segundo, de um tipo interativo.<\/p>\n<p>Parte significativa dos assim chamados \u201ctranstornos mentais\u201d, ou das \u201cestruturas cl\u00ednicas\u201d, ou, ainda, das \u201ccondi\u00e7\u00f5es subjetivas\u201d, podem ser melhor descritos como tipos interativos. Al\u00e9m disso, pode haver efeitos de looping e de retroalimenta\u00e7\u00e3o que embaralham a fronteira entre o indiferente e o interativo, entre disposi\u00e7\u00e3o e conting\u00eancia, entre organismo e hist\u00f3ria. Essa distin\u00e7\u00e3o parece mais adequada do que a velha oposi\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancias naturais e ci\u00eancias humanas.<\/p>\n<p>O autismo, para retomarmos a discuss\u00e3o nestes termos, parece ser uma condi\u00e7\u00e3o em que as formas como as crian\u00e7as, as fam\u00edlias, as institui\u00e7\u00f5es e a pr\u00f3pria sociedade lidam com tal condi\u00e7\u00e3o afetam parcialmente essa pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o. Por isso, precisamos de uma ontologia aberta \u00e0 hist\u00f3ria e \u00e0 conting\u00eancia, capaz de reconhecer que determinadas classifica\u00e7\u00f5es n\u00e3o apenas descrevem sujeitos, mas tamb\u00e9m reorganizam experi\u00eancias, formas de sofrimento e modos de reconhecimento.<\/p>\n<p>Nesse sentido, talvez a palavra \u201cambiente\u201d seja fr\u00e1gil demais para dar conta da complexidade do que n\u00e3o \u00e9 determinado biologicamente. Frequentemente ela funciona como um conceito residual, dentro do qual se misturam, de maneira pouco rigorosa, fatores ps\u00edquicos, hist\u00f3ricos, sociais, lingu\u00edsticos, institucionais e pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Quer dizer: a propor\u00e7\u00e3o entre fatores constitucionais e contingentes n\u00e3o pode ser definida abstratamente, de uma vez por todas. Ela se reorganiza singularmente em cada caso, em cada trajet\u00f3ria, em cada modo de amarra\u00e7\u00e3o entre corpo, linguagem e gozo.<\/p>\n<p>Nesse sentido \u2013 e contra um psicologismo rasteiro que ainda impera em muitos lugares \u2013 \u00c9ric Laurent (2014, p. 33) tem raz\u00e3o ao afirmar que:<\/p>\n<blockquote><p>a psican\u00e1lise n\u00e3o sup\u00f5e uma psicog\u00eanese das doen\u00e7as mentais. Ela afirma, em contrapartida, a import\u00e2ncia do corpo para todo ser falante, para todo falasser parasitado pela linguagem, o que \u00e9 bem diferente. A psican\u00e1lise, na sua aplica\u00e7\u00e3o no autismo, n\u00e3o depende das hip\u00f3teses etiol\u00f3gicas sobre seu fundamento org\u00e2nico.<\/p><\/blockquote>\n<p>Talvez seja justamente a\u00ed que a atualidade de Freud apare\u00e7a de maneira mais intensa: n\u00e3o quando o transformamos em monumento, doutrina estabilizada ou gram\u00e1tica interpretativa pronta, mas quando reencontramos, em sua obra, zonas ainda parcialmente obscuras, ainda parcialmente ileg\u00edveis.<\/p>\n<p>Durante muito tempo, parte importante da recep\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise privilegiou um Freud do sentido, da interpreta\u00e7\u00e3o, da decifra\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. E, evidentemente, esse Freud existe. Mas talvez exista tamb\u00e9m um outro Freud: o\u00a0 Freud das retranscri\u00e7\u00f5es, dos trilhamentos, das redes associativas, das fixa\u00e7\u00f5es pulsionais, dos acidentes contingentes, dos restos sonoros, dos acontecimentos de corpo e das temporalidades n\u00e3o lineares.<\/p>\n<p>Nesse ponto, certas intui\u00e7\u00f5es freudianas parecem estranhamente pr\u00f3ximas de problemas extremamente contempor\u00e2neos. N\u00e3o porque Freud tivesse antecipado as neuroci\u00eancias, a teoria das redes ou os modelos complexos atuais \u2013 essas analogias simplistas frequentemente empobrecem mais do que esclarecem \u2013, mas porque seu pensamento j\u00e1 operava segundo uma l\u00f3gica n\u00e3o linear, reticular e parcialmente descentralizada do psiquismo.<\/p>\n<p>O aparelho ps\u00edquico freudiano n\u00e3o funciona como uma m\u00e1quina transparente de representa\u00e7\u00f5es ordenadas. Desde o <em>Entwurf<\/em>, passando pela <em>Interpreta\u00e7\u00e3o do sonho<\/em> e culminando no <em>Al\u00e9m do princ\u00edpio de prazer<\/em>, encontramos modelos feitos de liga\u00e7\u00f5es, retranscri\u00e7\u00f5es, desvios, bloqueios, intensidades, facilita\u00e7\u00f5es e circuitos que se reorganizam continuamente. Ao contr\u00e1rio, a l\u00f3gica dos trilhamentos prevalece, numa esp\u00e9cie de teoria de redes neurais ou redes lingu\u00edsticas impl\u00edcita <em>avant la lettre<\/em>.<\/p>\n<p>Talvez o inconsciente freudiano esteja menos pr\u00f3ximo de uma gram\u00e1tica est\u00e1vel do que de uma rede din\u00e2mica de inscri\u00e7\u00f5es e retranscri\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Isso aparece de maneira especialmente clara na pr\u00f3pria pr\u00e1tica freudiana de leitura dos sonhos. O que Lacan inicialmente encontrou em Freud \u2013 met\u00e1fora e meton\u00edmia, os dois grandes eixos da lingu\u00edstica estrutural \u2013 talvez constitua apenas uma primeira aproxima\u00e7\u00e3o. A an\u00e1lise freudiana dos sonhos parece operar segundo uma lingu\u00edstica muito menos linear e muito menos bidimensional: uma l\u00f3gica reticular, feita de condensa\u00e7\u00f5es, deslocamentos, retranscri\u00e7\u00f5es e conex\u00f5es m\u00faltiplas, mais pr\u00f3xima de redes e \u00e1rvores de m\u00faltiplos planos, com aluvi\u00e3o ou nuvens, do que com uma estrutura s\u00f3 de dois eixos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m por isso o \u00faltimo Lacan talvez reencontre Freud precisamente quando abandona certa confian\u00e7a excessiva na estabilidade estrutural do significante e passa a pensar <em>lalangue<\/em>, isto \u00e9, a dimens\u00e3o material, sonora, contingente e gozosa da palavra. A palavra deixa ent\u00e3o de ser apenas ve\u00edculo de significa\u00e7\u00e3o para tornar-se acontecimento corporal, marca, res\u00edduo, ritmo, satisfa\u00e7\u00e3o pulsional. O inconsciente j\u00e1 n\u00e3o aparece apenas como algo que \u201cquer dizer\u201d, mas tamb\u00e9m como algo que insiste, que se repete, que goza.<\/p>\n<p>Talvez isso permita recolocar de outro modo uma s\u00e9rie de impasses contempor\u00e2neos. Afinal, s\u00e3o outros corpos, outros modos de sofrimento, outras formas de la\u00e7o social, outras modalidades de segrega\u00e7\u00e3o e outras configura\u00e7\u00f5es do gozo que se apresentam hoje \u00e0 cl\u00ednica. S\u00e3o tamb\u00e9m outras crian\u00e7as, outros arranjos familiares, outras formas de circula\u00e7\u00e3o da palavra, outros modos de inscri\u00e7\u00e3o da linguagem sobre o corpo.<\/p>\n<p>Nesse sentido, reler Freud hoje talvez implique menos a fidelidade a uma ortodoxia do que a capacidade de reativar, em sua obra, aquilo que ainda resiste \u00e0s leituras demasiado luminosas e demasiado organizadas de si mesma. Talvez o verdadeiro retorno contempor\u00e2neo a Freud comece justamente a\u00ed: no ponto em que reencontramos, atrav\u00e9s do \u00faltimo Lacan, n\u00e3o apenas o inconsciente estruturado como uma linguagem, mas o inconsciente real, pulsional, reticular, parcialmente opaco, esse inconsciente que fala, mas tamb\u00e9m goza; que interpreta, mas tamb\u00e9m insiste; que produz sentido, mas tamb\u00e9m produz corpo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Refer\u00eancias <\/strong><\/h6>\n<h6>AGAMBEN, G. <em>Nudez<\/em>. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2014.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. <em>Obras incompletas de Sigmund Freud: <\/em>Neurose, Psicose, Pervers\u00e3o. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2016. (Trabalho original publicado em 1912).<\/h6>\n<h6>FREUD, S. <em>Al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer<\/em>. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2021. (Trabalho original publicado em 1920).<\/h6>\n<h6>FREUD, S. <em>Obras incompletas de Sigmund Freud<\/em>: Fundamentos da cl\u00ednica psicanal\u00edtica. Vol. 6. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2017. (Trabalho original publicado em 1912).<\/h6>\n<h6>FREUD, S.\u00a0 <em>A interpreta\u00e7\u00e3o do sonho<\/em>. Trad. Maria Rita Solzano Moraes. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2025. (Trabalho original publicado em 1900).<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. <em>A batalha do autismo<\/em>: da cl\u00ednica \u00e0 pol\u00edtica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2014.<\/h6>\n<h6>SAID, E. <em>Freud e os n\u00e3o-europeus<\/em>. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2004.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gilson Iannini Psicanalista Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP) e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP) E-mail: gilsoniannini@yahoo.com.br Paradoxalmente, talvez Lacan s\u00f3 encontre Freud de fato quando abandona o pr\u00f3prio \u201cretorno a Freud\u201d: n\u00e3o mais apenas no inconsciente estruturado como uma linguagem, mas em lalangue, no falasser, na puls\u00e3o, nas redes e na materialidade&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58858,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[521,39],"tags":[],"class_list":["post-58840","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque_37","category-trilhamentos","category-521","category-39","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58840","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=58840"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58840\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58874,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58840\/revisions\/58874"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58858"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=58840"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=58840"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=58840"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}