{"id":58842,"date":"2026-08-02T10:32:27","date_gmt":"2026-08-02T13:32:27","guid":{"rendered":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/?p=58842"},"modified":"2026-08-02T10:49:53","modified_gmt":"2026-08-02T13:49:53","slug":"a-moral-sexual-contemporanea-identificacao-identidade-e-supereu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2026\/08\/02\/a-moral-sexual-contemporanea-identificacao-identidade-e-supereu\/","title":{"rendered":"A moral sexual\u00a0\u00a0 contempor\u00e2nea: identifica\u00e7\u00e3o, identidade e supereu"},"content":{"rendered":"<p><em>Bernardo Micherif Carneiro<br \/>\n<\/em>Psicanalista<br \/>\nMembro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP) e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP)<br \/>\nDoutor em Educa\u00e7\u00e3o e Mestre em Psicologia pela UFMG.<br \/>\n<em>E-mail:<\/em> <a href=\"mailto:bernardomcarneiro@yahoo.com.br\">bernardomcarneiro@yahoo.com.br<\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Freud (1930\/1996) nos apresentou o supereu como a inst\u00e2ncia decisiva do mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o. Ele considerou que as exig\u00eancias sociais de uma \u00e9poca seriam medidas pela presen\u00e7a do supereu na cultura. Na atualidade, marcada pela queda dos ideais coletivos, o imperativo supereg\u00f3ico parece manter o seu papel como suporte da moral e dos costumes da sociedade. Mas qual \u00e9 a moral sexual de nossa \u00e9poca? Qual o mal-estar de nossa civiliza\u00e7\u00e3o? Poder\u00edamos ler o mundo de hoje a partir do que Freud ensinou? Trata-se de quest\u00f5es que nos exigem um retorno \u00e0 obra de Freud para, sob a luz de Lacan, atualizar nossas hip\u00f3teses.<\/p>\n<p>Em uma sociedade marcada pela repress\u00e3o sexual, Freud constatou que a ren\u00fancia pulsional cria a consci\u00eancia moral e, portanto, conduz \u00e0 exig\u00eancia de mais ren\u00fancia. Quanto mais se sacrifica a vida sexual e a agressividade, mais a gula do supereu vocifera de modo cruel e implac\u00e1vel. Se a interdi\u00e7\u00e3o do gozo n\u00e3o arrefece a incid\u00eancia do supereu, Freud (1930\/1996, p. 131) conclui: \u201ca ren\u00fancia instintiva n\u00e3o basta, pois o desejo persiste e n\u00e3o pode ser escondido do superego\u201d.<\/p>\n<p>No decl\u00ednio do complexo de \u00c9dipo, frente \u00e0 amea\u00e7a de castra\u00e7\u00e3o, a crian\u00e7a renuncia \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o sexual com um de seus primeiros objetos de investimento libidinal \u2013 a m\u00e3e \u2013 e abdica do desejo de agress\u00e3o contra a autoridade que o impediu de se satisfazer \u2013 o pai. A crian\u00e7a abandona o investimento libidinal nos pais e incorpora uma identifica\u00e7\u00e3o ao pai que serve de substrato ao supereu, que retorna contra o eu a agressividade interditada.<\/p>\n<p>O supereu passa a exercer uma vigil\u00e2ncia permanente sobre os desejos sexuais do sujeito, o que coloca em jogo uma necessidade de ser punido pelo que deseja. A autorrecrimina\u00e7\u00e3o explicita uma liga\u00e7\u00e3o \u00edntima entre a puls\u00e3o de morte e a libido, o que Freud designou como masoquismo moral: um supereu s\u00e1dico incidindo sobre o gozo masoquista com o objeto da puls\u00e3o. Como conclui Freud (1924\/1996, p. 188), se a puls\u00e3o de morte \u201ctem a significa\u00e7\u00e3o de um componente er\u00f3tico, a pr\u00f3pria destrui\u00e7\u00e3o de si mesmo pelo indiv\u00edduo n\u00e3o pode se realizar sem uma satisfa\u00e7\u00e3o libidinal\u201d.<\/p>\n<p>Essa subordina\u00e7\u00e3o do gozo sexual a uma lei moral insensata revela o paradoxo do supereu. Ali onde se acredita interditar o gozo, este \u00e9 incitado em sua via perversa. O imperativo moral \u00e9 um imperativo de gozo que vocifera a deprecia\u00e7\u00e3o de seu objeto. A alian\u00e7a com o supereu torna a sexualidade fundamentalmente masoquista. O eu resta identificado ao objeto a ser atacado, condi\u00e7\u00e3o que Freud localizou na constru\u00e7\u00e3o do fantasma \u201cBate-se em uma crian\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>A identifica\u00e7\u00e3o \u00e9 um tema que est\u00e1 presente em todo o percurso da obra de Freud e constituiu a mat\u00e9ria-prima que o levou ao conceito de supereu. Foi a partir da abordagem do tema que Freud localizou uma parte do eu que se coloca como um agente ps\u00edquico da censura.<\/p>\n<p>Contudo, na atualidade, o conceito de identifica\u00e7\u00e3o tem cedido espa\u00e7o para a refer\u00eancia \u00e0 identidade. Presenciamos a eros\u00e3o dos discursos tradicionais que orientavam a identifica\u00e7\u00e3o ao tipo ideal do sexo, ensinando o que conv\u00e9m para se tornar um bom rapaz ou uma boa mo\u00e7a. Com a ascens\u00e3o do capitalismo, os ideais coletivos perderam for\u00e7a frente ao culto \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o imediata. A moral sexual civilizada da era moderna, que era regida pela censura, deu lugar a uma nova moral: \u00e9 proibido proibir.<\/p>\n<p>Sob essa nova perspectiva, a identifica\u00e7\u00e3o ao tipo ideal do sexo \u00e9 denunciada como imposi\u00e7\u00e3o de um autoritarismo faloc\u00eantrico obsoleto. Contesta-se essa via tradicional opondo-lhe a ideia de que toda forma de existir vale a pena, ou que cabe a cada um decidir o que fazer com o pr\u00f3prio corpo. Ou mesmo tentando se defender do mal-entendido da rela\u00e7\u00e3o sexual com um controle contratual: tudo tem que ser previamente dito e definido, sem lugar para conting\u00eancias.<\/p>\n<p>Essa nova moral do nosso mundo parece tornar proeminente a presen\u00e7a do imperativo supereg\u00f3ico \u201cGoza!\u201d. Todavia, poder\u00edamos levantar a hip\u00f3tese de que, quanto mais a identidade prevalece como via de acesso \u00e0 pr\u00f3pria exist\u00eancia, mais o encontro amoroso e a rela\u00e7\u00e3o sexual podem encontrar dificuldades.<\/p>\n<p>Partindo da atualidade do debate sobre g\u00eanero, coloco a quest\u00e3o: poder\u00edamos ler a ascens\u00e3o da identidade de g\u00eanero a partir da refer\u00eancia freudiana \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o sexual? Para avan\u00e7ar nessa investiga\u00e7\u00e3o, abordarei, em sequ\u00eancia, tr\u00eas textos em que Freud avan\u00e7a em sua concep\u00e7\u00e3o da identifica\u00e7\u00e3o: <em>Psicologia das massas e an\u00e1lise do eu <\/em>(1921), <em>Introdu\u00e7\u00e3o ao narcisismo <\/em>(1914) e <em>Luto e melancolia <\/em>(1915). A proposta \u00e9 recorrer \u00e0 leitura que Lacan fez dessas tr\u00eas refer\u00eancias para extrair delas a atualidade da obra de Freud para nossa \u00e9poca.<\/p>\n<p><strong>Um tra\u00e7o do desamparo<\/strong><\/p>\n<p>Em <em>Psicologia das massas e an\u00e1lise do eu<\/em>, Freud (1921\/1996) se refere a tr\u00eas tipos de identifica\u00e7\u00e3o. Dentre elas, destaca-se uma que n\u00e3o est\u00e1 sustentada no amor, mas apenas em um tra\u00e7o particular qualquer, <em>einziger Zug<\/em>. Lacan pesca esse termo como um achado determinante para os rumos de seu ensino e o traduz como tra\u00e7o un\u00e1rio.<\/p>\n<p>Abordar um tra\u00e7o de identifica\u00e7\u00e3o fora do registro do amor implica que ele se escreve exclu\u00eddo do campo do Outro. Segundo Lacan, trata-se de uma marca do encontro com um buraco, (\u023a) o que, nos termos de Freud, poder\u00edamos considerar um desamparo fundamental, <em>Hilflosigkeit<\/em>. Uma irrup\u00e7\u00e3o de gozo, com a qual o sujeito n\u00e3o sabe o que fazer, marca esse encontro traum\u00e1tico. Dessa experi\u00eancia resta um rastro, o tra\u00e7o un\u00e1rio, significante da inexist\u00eancia do Outro, S(\u023a).<\/p>\n<p>O tra\u00e7o un\u00e1rio abre um vazio entre o corpo e o gozo, inscreve-se como uma cicatriz que introduz no campo do Outro o corpo como imagem e o gozo como morte. \u00c9 do apagamento do tra\u00e7o que o sujeito adv\u00e9m no significante, dividido entre ser o efeito desse tra\u00e7o e ser o suporte de sua aus\u00eancia. A reitera\u00e7\u00e3o do gozo do tra\u00e7o un\u00e1rio no Outro \u00e9 o que permite que essa marca reapare\u00e7a como significante mestre no <em>a posteriori<\/em>, no efeito retroativo da estrutura de linguagem.<\/p>\n<p>Se o Um do tra\u00e7o se constitui, a princ\u00edpio, como uma marca da exist\u00eancia do sujeito, sua inser\u00e7\u00e3o no campo do Outro desloca a quest\u00e3o do existir para um enigma sobre o ser. O problema do ser \u00e9 o que introduz o tra\u00e7o identificat\u00f3rio na esfera do amor. A demanda de ser amado a partir de seu tra\u00e7o diferencial torna-se o suporte da idealiza\u00e7\u00e3o, da miragem na qual o sujeito se deixa capturar frente ao olhar do Outro. Nessa montagem, o enigma do gozo do corpo \u00e9 deslocado para uma pergunta sobre o desejo da m\u00e3e. Uma sobreposi\u00e7\u00e3o decisiva para os rumos da puls\u00e3o sexual.<\/p>\n<p><strong>A imagem ideal do objeto<\/strong><\/p>\n<p>No texto <em>Introdu\u00e7\u00e3o ao narcisismo<\/em>, Freud (1914\/1996) nos apresenta o modelo da identifica\u00e7\u00e3o narc\u00edsica a partir dos conceitos de ideal do eu e eu ideal. Podemos considerar que esse par conceitual \u00e9 hom\u00f3logo a duas vers\u00f5es do supereu, respectivamente, o supereu paterno e o supereu materno.<\/p>\n<p>O ideal do eu designa a identifica\u00e7\u00e3o ao tra\u00e7o un\u00e1rio na medida em que desse lugar o sujeito pode se ver como am\u00e1vel frente ao olhar do Outro. \u00c9 o tra\u00e7o particular que porta o assentimento do Outro, um significante da identifica\u00e7\u00e3o ao pai introjetado como signo do pertencimento a um romance familiar. O supereu ocupa a\u00ed sua fun\u00e7\u00e3o como inst\u00e2ncia que mede a dist\u00e2ncia do sujeito em rela\u00e7\u00e3o ao seu ideal. Ele funciona como um vigia permanente dos desejos do sujeito que, a qualquer passo em falso, vocifera sua recrimina\u00e7\u00e3o e seus insultos.<\/p>\n<p>Se o ideal do eu coloca em jogo a identifica\u00e7\u00e3o ao significante paterno, para o eu ideal o que est\u00e1 em quest\u00e3o \u00e9 a identifica\u00e7\u00e3o ao objeto do desejo da m\u00e3e. Ou, como diria Freud, se o ideal do eu \u00e9 a identifica\u00e7\u00e3o resultante do complexo de \u00c9dipo, o eu ideal \u00e9 uma identifica\u00e7\u00e3o derivada das primeiras catexias objetais do isso. \u00c9 na dispers\u00e3o dos objetos pulsionais, que caracteriza o autoerotismo como um \u201csentir falta de si\u201d (LACAN, 1962-63\/2005, p. 132), \u00e9 dessa desordem que se isola uma imagem do objeto na qual a crian\u00e7a encontra seu eu ideal, em rela\u00e7\u00e3o ao qual os outros objetos ser\u00e3o o resto.<\/p>\n<p>A identifica\u00e7\u00e3o \u00e0 imagem do objeto surge como a precipita\u00e7\u00e3o de uma resposta ao olhar da m\u00e3e, suporte da imagem especular. A prematura\u00e7\u00e3o que Lacan aponta na assun\u00e7\u00e3o dessa imagem indica uma hi\u00e2ncia original em sua estrutura, um desamparo insuper\u00e1vel. Contudo, o eu ideal ergue-se como uma est\u00e1tua, uma imagem idealizada e eternizada. A encarna\u00e7\u00e3o desse objeto pela crian\u00e7a \u00e9 o correlato da imago da m\u00e3e devoradora, a m\u00e3e que pode reincorporar seu objeto.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 a si mesmo que o sujeito encontra no espelho do Outro, mas sim o poder de fascina\u00e7\u00e3o de seu investimento narc\u00edsico em uma imagem do objeto que n\u00e3o comporta resto. Esse valor libidinal do eu ideal faz com que o sujeito n\u00e3o esteja \u201cdisposto a renunciar \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o narcisista de sua inf\u00e2ncia\u201d (FREUD, 1914\/1996, p. 100). Com isso, o eu nunca est\u00e1 s\u00f3, mas sempre carregando consigo um g\u00eameo que ele \u201creencontrar\u00e1 sem cessar como o quadro mesmo das suas categorias, da sua apreens\u00e3o do mundo\u201d (LACAN, 1953-54\/1986, p. 321).<\/p>\n<p>Mas essa domina\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria do eu ideal oculta a dimens\u00e3o n\u00e3o especular da puls\u00e3o, do gozo do corpo. Quando o olhar da m\u00e3e sobre a crian\u00e7a se ausenta, o eclipse de i(a) desvela um desamparo original. Essa experi\u00eancia imp\u00f5e que a crian\u00e7a se separe de seu eu ideal, ou seja, do lugar onde \u00e9 capturada pela fala do Outro, para ascender como sujeito da linguagem. Lacan traduz esse deslocamento em seu grafo do desejo.<\/p>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/bernardo.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"787\" data-large_image_height=\"854\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-58843\" src=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/bernardo.jpg\" alt=\"\" width=\"461\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/bernardo.jpg 787w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/bernardo-276x300.jpg 276w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/bernardo-768x833.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 461px) 100vw, 461px\" \/><\/a><\/p>\n<p>A quest\u00e3o sobre o desejo da m\u00e3e se abre, como um \u201c<em>Che vuoi?<\/em>\u201d, para al\u00e9m da crian\u00e7a como objeto de investimento. Como consequ\u00eancia, h\u00e1 uma perda no registro da imagem, uma negativiza\u00e7\u00e3o de i(a), que Freud designou como castra\u00e7\u00e3o. Essa \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o para que advenha um sujeito de desejo (<em>d<\/em>), marcado pela falta de um objeto que ele busca para recuperar uma suposta satisfa\u00e7\u00e3o infantil. Como diz Freud (1905\/1996, p. 210): \u201cO encontro do objeto \u00e9, na verdade, um reencontro\u201d.<\/p>\n<p>A pergunta sobre o desejo da m\u00e3e condiciona a rela\u00e7\u00e3o do sujeito com seu pr\u00f3prio desejo. A resposta ao enigma materno \u00e9 a fantasia ($\u00e0a), f\u00f3rmula da conjun\u00e7\u00e3o do sujeito com um objeto enquadrado em uma imagem fixada. Nos termos de Lacan, trata-se da fantasia fundamental, o fantasma. Identificando-se ao objeto do desejo da m\u00e3e, o sujeito faz de i(a), o eu ideal, o suporte do seu desejo. O fantasma subordina a satisfa\u00e7\u00e3o libidinal \u00e0 sua l\u00f3gica.<\/p>\n<p>Contudo, devido ao fantasma comportar uma excita\u00e7\u00e3o sexual com desejos incestuosos, ele sofre a a\u00e7\u00e3o de supereu. Esse censor exige uma ren\u00fancia pulsional, imp\u00f5e que a satisfa\u00e7\u00e3o da libido esteja em conformidade com o ideal do Outro. Com isso, o ideal do eu, I(A), se constitui como uma identifica\u00e7\u00e3o dessexualizada que permite ao sujeito manter seu fantasma \u00e0 dist\u00e2ncia. O fantasma se fixa na forma de uma pervers\u00e3o sexual, uma satisfa\u00e7\u00e3o interditada, enquanto o sujeito se dedica a buscar a adequa\u00e7\u00e3o ao seu ideal do eu.<\/p>\n<p>Essa dist\u00e2ncia entre o ideal do eu e o fantasma mant\u00e9m intacta a fun\u00e7\u00e3o do eu ideal: \u201co que ele projeta diante de si como sendo seu ideal \u00e9 o substituto do narcisismo perdido de sua inf\u00e2ncia na qual ele era o seu pr\u00f3prio ideal\u201d (FREUD, 1914\/1996, p. 101). O eu ideal \u00e9 a imagem do que n\u00e3o pode falhar e que, portanto, mant\u00e9m-se velada. O ideal do eu torna-se uma via sublimada pela qual o sujeito pode colocar o seu eu ideal \u00e0 prova do amor do Outro. Ou seja, a demanda pelo amor do Outro oculta o gozo sexual com a imagem do objeto. Preserva-se o eu ideal em seu car\u00e1ter de totem, uma imagem imortalizada de um objeto morto. Lacan (1960-61\/1992, p. 478) diz: <strong>\u201c<\/strong>A imagem especular tem, certamente, uma face de investimento, mas tamb\u00e9m uma face de defesa. \u00c9 uma barragem contra o Pac\u00edfico do amor materno. Digamos simplesmente que o investimento do Outro \u00e9, em suma, defendido pelo eu ideal\u201d.<\/p>\n<p>A imagem do objeto morto e eternizado \u00e9 uma defesa frente ao desejo da m\u00e3e e, ao mesmo tempo, permite ao sujeito investir, secretamente, em seu gozo sexual aliado ao imperativo do supereu. \u00c9 em torno da tumba que se promove o ritual de adora\u00e7\u00e3o e sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p><strong>Um objeto que cai<\/strong><\/p>\n<p>Em <em>Luto e melancolia<\/em>, Freud d\u00e1 um passo em sua teoria da identifica\u00e7\u00e3o que considero decisivo para nossa investiga\u00e7\u00e3o. Ele se dedica a dois destinos distintos da perda do objeto, o que Lacan aborda a partir de seu conceito de objeto <em>a<\/em>. Se o amor \u00e9 narc\u00edsico, a perda do objeto idealizado, i(a), imp\u00f5e que o sujeito precisa lidar com o objeto <em>a<\/em>, n\u00e3o especular. Na melancolia, diante dessa perda, \u201c\u00e9 o objeto que triunfa\u201d (LACAN, 1962-63\/2005, p. 364).<\/p>\n<p>O eu se identifica ao objeto abandonado, o que leva Freud (1915\/1996, p. 254) a afirmar: \u201ca sombra do objeto caiu sobre o ego\u201d. O eu resta identificado ao objeto dejeto, aquele que n\u00e3o serve para nada. Isso faz incidir sobre ele uma moral implac\u00e1vel que o aborda como algu\u00e9m desprez\u00edvel. Essa dor moral de existir \u00e9 o que faz da melancolia um paradigma da incid\u00eancia do supereu.<\/p>\n<p>Aliado \u00e0s exig\u00eancias pulsionais do isso, o supereu faz recair sobre o eu uma sombra narc\u00edsica que o esmaga. Essa <em>der Schatten<\/em>, a sombra, \u00e9 um anteparo, uma imagem degradada que isola o eu identificado a um objeto que se sustenta na recrimina\u00e7\u00e3o que o supereu lhe imp\u00f5e. Se a identifica\u00e7\u00e3o a esse objeto resto \u00e9 o efeito da perda de um objeto idealizado, podemos supor que quanto mais enaltecido \u00e9 o ser amado, mais degradado ser\u00e1 o produto que resulta da perda desse ser.<\/p>\n<p>Se, por um lado, a incid\u00eancia do supereu incita o melanc\u00f3lico a adotar uma atitude de revolta por se sentir menosprezado, por outro lado, essa dor moral pode impulsion\u00e1-lo a se precipitar como um objeto a ser ejetado da cena. \u00c9 como objeto <em>a <\/em>que o sujeito se deixa cair no ato suicida. E Lacan (1962-63\/2005, p. 364) conclui: \u201cSe tantas vezes isso acontece na janela, se n\u00e3o atrav\u00e9s da janela, n\u00e3o \u00e9 por acaso. \u00c9 o recurso a uma estrutura que n\u00e3o \u00e9 outra sen\u00e3o a da fantasia\u201d.<\/p>\n<p>Essa refer\u00eancia permite introduzir uma quest\u00e3o: como conceber\u00edamos o fantasma a partir do paradigma da posi\u00e7\u00e3o melanc\u00f3lica? Podemos considerar que a identifica\u00e7\u00e3o ao objeto do desejo da m\u00e3e como um eu ideal que n\u00e3o falha tem como correlato a identifica\u00e7\u00e3o ao objeto dejeto que o Outro pode descartar. Quando a posi\u00e7\u00e3o de objeto ideal vacila, o supereu exp\u00f5e a presen\u00e7a de um objeto imprest\u00e1vel.<\/p>\n<p>Trata-se da incid\u00eancia mort\u00edfera do supereu materno, que se revela na imago da m\u00e3e devoradora. Como se o eu ideal arrastasse sempre atr\u00e1s de si um cad\u00e1ver, um duplo insepar\u00e1vel. Quando o objeto <em>a<\/em> se revela por tr\u00e1s da imagem ideal, o supereu aponta para a sombra narc\u00edsica do objeto abandonado, anteparo derradeiro frente ao real.<\/p>\n<p>Para Freud, o ant\u00eddoto para esse v\u00ednculo mort\u00edfero entre o supereu e o fantasma estaria no luto do objeto perdido. Lacan (1958-59\/2016, p. 360) indica que, no luto, \u201ctal perda constitui uma <em>Verweifung<\/em>, um buraco, mas no real\u201d. Ali onde o ser amado era idealizado, resta uma hi\u00e2ncia, a aus\u00eancia de um significante para nomear o que perdura. O luto consiste em deixar cair todos os atributos narc\u00edsicos que foram investidos no objeto, separar i(a) e <em>a<\/em> para que se reestabele\u00e7a o objeto <em>a<\/em> como perda, como causa de desejo. Quando esse trabalho \u00e9 realizado, \u00e9 poss\u00edvel substituir um objeto por outro, na medida em que todo objeto \u00e9, na verdade, um substituto para esse objeto perdido e sempre reencontrado.<\/p>\n<p>O luto promove a desidentifica\u00e7\u00e3o ao dejeto, deixa cair a sombra do objeto para que o sujeito n\u00e3o se veja impulsionado a se lan\u00e7ar no suic\u00eddio como um objeto ca\u00eddo. O objeto perdido retira o sujeito da identifica\u00e7\u00e3o ao ser amado e viabiliza a posi\u00e7\u00e3o do amante castrado, aquele que d\u00e1 o que n\u00e3o tem.<\/p>\n<p>\u00c9 isso que feminiza a posi\u00e7\u00e3o do sujeito, ou, nos termos de Freud (1914\/1996, p. 107): \u201co neur\u00f3tico, que, por causa de suas excessivas catexias objetais, \u00e9 empobrecido em seu ego, sendo incapaz de realizar seu ideal do ego\u201d. Quando a castra\u00e7\u00e3o se imp\u00f5e sobre a identifica\u00e7\u00e3o narc\u00edsica, o amor se abre para enfrentar o objeto causa de desejo. Ou, como diz Lacan (1962-63\/2005, p. 197), \u201cs\u00f3 o amor permite ao gozo condescender ao desejo\u201d.<\/p>\n<p><strong>A identidade dejeto<\/strong><\/p>\n<p>O problema do g\u00eanero n\u00e3o estava colocado nesses termos \u00e0 \u00e9poca de Freud. Ele abordou a homossexualidade utilizando o termo corrente daquele momento: a invers\u00e3o. Contudo, ele n\u00e3o adotou a concep\u00e7\u00e3o de uma invers\u00e3o entre masculino e feminino. Ele descreveu os ditos invertidos \u201cestritamente em termos de identifica\u00e7\u00e3o e escolha objetal\u201d (LAURENT, 2007, p. 159).<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o sexual, Freud (1905\/1996) foi subversivo, situando a pervers\u00e3o na base da sexualidade humana. Ele partiu da tese in\u00e9dita da sexualidade infantil e da pervers\u00e3o polimorfa para argumentar que a fantasia perversa seria, desde a tenra idade, a via para a escolha do objeto sexual. Essa generaliza\u00e7\u00e3o da pervers\u00e3o sexual exclui a refer\u00eancia ao normal e coloca toda escolha de objeto, seja hetero ou homossexual, no \u00e2mbito do patol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de setenta, mais de trinta anos ap\u00f3s a morte de Freud, os homossexuais se inseriram na luta coletiva de contracultura a partir do debate sobre direitos civis, o que fez surgir o movimento gay. Esse advento da identifica\u00e7\u00e3o a um discurso \u201cpara todos\u201d foi seguido por uma escalada de reivindica\u00e7\u00f5es. A escolha do objeto sexual destacou-se na cena p\u00fablica como quest\u00e3o pol\u00edtica. No mesmo momento em que o movimento gay consolidava um novo estilo de vida, a sociedade patriarcal era abalada em suas bases. Revisava-se o sentido comum de fam\u00edlia, casamento, rela\u00e7\u00e3o sexual, normalidade etc.<\/p>\n<p>Estava sob suspeita o que Lacan chamou de <em>norme male<\/em>, a norma do macho. Questionava-se a distin\u00e7\u00e3o entre escolhas normais e perversas. A diversidade das escolhas de objeto sexual se abria em detrimento da tradi\u00e7\u00e3o patriarcal. Essa preval\u00eancia da satisfa\u00e7\u00e3o individual em rela\u00e7\u00e3o aos ideais coletivos era uma marca do \u201cindividualismo democr\u00e1tico de massa\u201d (MILLER, 2006, p. 16) que se consolidou com a ascens\u00e3o do capitalismo como ordem mundial.<\/p>\n<p>O discurso capitalista promoveu o objeto ao z\u00eanite social, incitando uma satisfa\u00e7\u00e3o solit\u00e1ria, imediata, meton\u00edmica e insaci\u00e1vel. Essa l\u00f3gica incidiu sobre a moral sexual de nossa \u00e9poca. As parcerias amorosas participam desse mercado acelerado das trocas de objeto; mulheres optam pela satisfa\u00e7\u00e3o profissional em detrimento da escolha pelo objeto filho ou da identifica\u00e7\u00e3o \u00e0 dona do lar; homens privilegiam a pornografia em preju\u00edzo do ato sexual, declinam do papel de provedor enquanto est\u00e3o \u00e0s voltas com a detumesc\u00eancia do \u00f3rg\u00e3o.<\/p>\n<p>Nessa conjuntura, o significante-mestre <em>gay<\/em> cedeu lugar a um novo paradigma: o <em>queer<\/em>. O universo <em>queer<\/em> contesta o movimento <em>gay<\/em>, alegando que este manteve-se dentro do regime ed\u00edpico, ordenado pelo modelo heteronormativo. Em contrapartida, o <em>queer<\/em> vem \u201ccelebrar a queda da utopia heterossexual\u201d (LAURENT, 2015, p. 23) e a proposta de uma pol\u00edtica sem universalidade, que recuse a normatiza\u00e7\u00e3o de qualquer identidade de g\u00eanero. A primazia do falo torna-se um sinal de imposi\u00e7\u00e3o de poder a ser denunciado e extirpado das rela\u00e7\u00f5es humanas. Uma marca de uma nova moral sexual.<\/p>\n<p>A repress\u00e3o sexual da tradi\u00e7\u00e3o patriarcal cede espa\u00e7o a um imperativo supereg\u00f3ico que incita o culto ao novo. \u00c9 preciso inovar sempre, trocar de parceiro, experimentar novas modalidades de rela\u00e7\u00e3o, encontrar recursos mais eficazes para a satisfa\u00e7\u00e3o do corpo, ajustar a pr\u00f3pria imagem ao modelo do momento, customizar novas identidades, etc. Inovar tornou-se um automatismo da atualidade. \u201cO novo autom\u00e1tico n\u00e3o inclui surpresa, conhecemos sua obsolesc\u00eancia. \u00c9 mortificado, mort\u00edfero, raz\u00e3o de sua insaciedade. O novo, como sintoma da cultura, \u00e9 glut\u00e3o, devorador. A glutonia, como tra\u00e7o, aponta o supereu na raiz\u201d (MILLER, 1997, p. 7).<\/p>\n<p>Essa reprograma\u00e7\u00e3o do gozo fora da refer\u00eancia \u00e0 fun\u00e7\u00e3o do falo dificulta o luto do objeto perdido e descarta o tra\u00e7o particular do fantasma que seria condi\u00e7\u00e3o para a escolha do objeto sexual. Se a identifica\u00e7\u00e3o sexual se torna descart\u00e1vel, o sujeito resta como dejeto da cultura. Com isso, o humor melanc\u00f3lico torna-se um paradigma do mal-estar atual. O decl\u00ednio dos ideais e do falocentrismo disponibiliza, como um sintoma contempor\u00e2neo, a via da identifica\u00e7\u00e3o ao objeto dejeto.<\/p>\n<p>A gula do supereu, fundamento do mal-estar da civiliza\u00e7\u00e3o, sustenta-se hoje em dia em sua alian\u00e7a com o discurso da ci\u00eancia e o discurso capitalista, visando a produ\u00e7\u00e3o de objetos de consumo que obturem o objeto perdido da puls\u00e3o. A destitui\u00e7\u00e3o da norma f\u00e1lica promoveu um novo mercado, no qual a identifica\u00e7\u00e3o e a escolha de objeto s\u00e3o recobertas por discursos identit\u00e1rios, o que deixa de fora a pergunta sobre o desejo inconsciente.<\/p>\n<p>No caso da orienta\u00e7\u00e3o sexual, isso frequentemente se expressa na substitui\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de escolha de objeto pela ideia de uma origem inata e involunt\u00e1ria da sexualidade, como um destino que marca fatalmente a exist\u00eancia do sujeito. O passo seguinte \u00e9 o argumento neurocient\u00edfico sobre a determina\u00e7\u00e3o do g\u00eanero e da orienta\u00e7\u00e3o sexual a partir da intera\u00e7\u00e3o entre fatores hormonais e gen\u00e9ticos para a forma\u00e7\u00e3o das redes neurais e da morfologia cerebral no per\u00edodo da vida intrauterina.<\/p>\n<p>Podemos verificar a incid\u00eancia dessa l\u00f3gica discursiva quando algu\u00e9m se refere \u00e0 sua posi\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria afirmando que, se pudesse escolher, n\u00e3o escolheria ser assim. Essa cren\u00e7a exp\u00f5e uma consci\u00eancia de si como um objeto depreciado frente a um destino implac\u00e1vel e cruel. Uma condi\u00e7\u00e3o que exclui a rela\u00e7\u00e3o com o inconsciente e o gozo implicado na identifica\u00e7\u00e3o ao objeto do desejo da m\u00e3e.<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o melanc\u00f3lica encontra no discurso da ci\u00eancia um importante aliado. Essa coaliz\u00e3o \u00e9 contempor\u00e2nea do debate sobre um aumento nas pr\u00e1ticas de autoles\u00e3o e suic\u00eddio, a ascens\u00e3o de um culto ao corpo e um preju\u00edzo da vida sexual, a ado\u00e7\u00e3o de transtornos psiqui\u00e1tricos como identidades irrevers\u00edveis e o consequente consumo perp\u00e9tuo de medica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sem o recurso \u00e0 castra\u00e7\u00e3o, resta um impasse no \u00e2mbito do amor. O ato sexual, sem o anteparo do fantasma, coloca em jogo a condi\u00e7\u00e3o do objeto descart\u00e1vel frente ao parceiro devorador. Nessa configura\u00e7\u00e3o, a viol\u00eancia contra mulheres tem ganhado destaque no debate p\u00fablico, o que evidencia que a moral sexual de nosso mundo est\u00e1 em disputa.<\/p>\n<p>De um lado, h\u00e1 quem creia no modelo de fam\u00edlia patriarcal, no qual a esposa deveria dedicar sua vida ao sucesso do marido e da fam\u00edlia. De outro lado, considera-se que a masculinidade \u00e9 nociva e, portanto, \u00e9 preciso intervir sobre os homens para educ\u00e1-los sobre como tratar uma mulher. Entre esses dois extremos, encontramos varia\u00e7\u00f5es mais moderadas. Mas, nas diversas posi\u00e7\u00f5es do debate, parece prevalecer um ponto em comum: a cren\u00e7a em um modelo universal de rela\u00e7\u00e3o entre os sexos. Essa cren\u00e7a sustenta-se no imperativo supereg\u00f3ico da moral sexual contempor\u00e2nea. Por\u00e9m, ao mesmo tempo em que se insiste em almejar esse modelo, a situa\u00e7\u00e3o de mulheres devastadas pela viol\u00eancia dos parceiros segue como uma quest\u00e3o social alarmante.<\/p>\n<p>Freud, que criou a psican\u00e1lise a partir da escuta das hist\u00e9ricas, sempre deixou claro que havia algo na cl\u00ednica com mulheres que ele n\u00e3o conseguia abordar. Lacan respondeu a esse impasse com seu aforisma \u201cA mulher n\u00e3o existe\u201d. Isso implica que, para a psican\u00e1lise, n\u00e3o h\u00e1 um modelo de como abordar uma mulher, j\u00e1 que elas s\u00f3 podem ser abordadas uma a uma.<\/p>\n<p>Contudo, o momento civilizat\u00f3rio atual exige algumas distin\u00e7\u00f5es no modo de conceber o masculino. Considerar o homem a partir do modelo ed\u00edpico implica que a identifica\u00e7\u00e3o ao pai \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o para que o menino se reconhe\u00e7a entre os pares como aquele que tem o falo. Ou seja, o homem seria o filho que encontra a sa\u00edda do complexo de \u00c9dipo pelo primado do falo como via identificat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, h\u00e1 uma outra vers\u00e3o do masculino que adv\u00e9m na puberdade. No momento em que o menino abandona o predom\u00ednio do autoerotismo para se dedicar \u00e0 escolha do objeto sexual, a barreira do incesto imp\u00f5e a perda da m\u00e3e como objeto privilegiado. O luto desse objeto \u00e9 \u201cuma das realiza\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas mais significativas, por\u00e9m tamb\u00e9m mais dolorosas, do per\u00edodo da puberdade\u201d (FREUD, 1905\/1996, p. 214). Mas Freud adverte que h\u00e1 quem fique retido e nunca supere essa perda, o que traz consequ\u00eancias para a vida amorosa futura.<\/p>\n<p>O luto da m\u00e3e como objeto localiza a castra\u00e7\u00e3o como condi\u00e7\u00e3o para que o menino se posicione no amor e se disponha a enfrentar a causa de seu desejo. E Freud (1905\/1996, p. 213) conclui: \u201ca vida sexual do jovem em processo de amadurecimento n\u00e3o disp\u00f5e de outro espa\u00e7o que n\u00e3o o das fantasias\u201d. Se a fun\u00e7\u00e3o do pai viabiliza a identifica\u00e7\u00e3o f\u00e1lica entre os homens, entretanto, diante de uma mulher, \u00e9 preciso ir al\u00e9m. \u00c9 preciso se separar da via ed\u00edpica para abordar a mulher como objeto <em>a<\/em> pela via fantasm\u00e1tica. \u00c9 o fantasma que faculta ao homem colocar em jogo suas condi\u00e7\u00f5es para a escolha do objeto. S\u00f3 h\u00e1 modelo particular da rela\u00e7\u00e3o entre os sexos no modo como cada um enquadra seu objeto <em>a<\/em>.<\/p>\n<p>Por fim, frente ao imperativo supereg\u00f3ico que faz do sujeito um dejeto da cultura, a psican\u00e1lise responde mantendo sua orienta\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o inconsciente de identifica\u00e7\u00f5es que parecem obsoletas, mas que est\u00e3o sempre l\u00e1. Trata-se de reencontrar o enigma sobre o desejo da m\u00e3e e as velhas escolhas de objeto para extrair disso o modo como cada um enfrentou a satisfa\u00e7\u00e3o pulsional. Com isso, Freud se mant\u00e9m, como sempre esteve, como o avesso do discurso civilizat\u00f3rio que, hoje em dia, oferece uma diversidade de novidades descart\u00e1veis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>FREUD, S. Tr\u00eas ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: <em>Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, Vol. VII, 1996, p. 119-229. (Trabalho original publicado em 1905).<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Sobre o narcisismo: uma introdu\u00e7\u00e3o. In: <em>Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, Vol. XIV, 1996, p. 77-108. (Trabalho original publicado em 1914).<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Luto e melancolia. In: <em>Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, Vol. XIV, 1996, p. 245-263. (Trabalho original publicado em 1915).<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Psicologia de grupo e an\u00e1lise do ego. In: <em>Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, Vol. XVIII, 1996, p. 79-154. (Trabalho original publicado em 1921).<\/h6>\n<h6>FREUD, S. O problema econ\u00f4mico do masoquismo. In: <em>Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, Vol. XIX, 1996, p. 177-188. (Trabalho original publicado em 1924).<\/h6>\n<h6>FREUD, S. O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o. In: <em>Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, Vol. XXI, 1996, p. 65-148. (Trabalho original publicado em 1930).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 1<\/em>: Os escritos t\u00e9cnicos de Freud. Tradu\u00e7\u00e3o de Betty Milan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1986. (Trabalho original proferido em 1953-54).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 8<\/em>: A transfer\u00eancia. Tradu\u00e7\u00e3o de Dulce Duque Estrada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992. (Trabalho original proferido em 1960-61).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 17<\/em>: O avesso da psican\u00e1lise. Tradu\u00e7\u00e3o de Ari Roitman. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992. (Trabalho original proferido em 1969-70).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 10<\/em>: A ang\u00fastia. Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005. (Trabalho original proferido em 1962-63).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 6<\/em>: O desejo e sua interpreta\u00e7\u00e3o. Tradu\u00e7\u00e3o de Cl\u00e1udia Berliner. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2016. (Trabalho original proferido em 1958-59).<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. Normas novas da homossexualidade. In: <em>A sociedade do sintoma<\/em>: a psican\u00e1lise, hoje. Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Avellar Ribeiro. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2007, p. 159-170.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. G\u00eanero e gozo. <em>Curinga<\/em>, Belo Horizonte, n. 45, p. 17-32, dez. 2015.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. O sintoma e o cometa. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, n. 19, p. 5-13, ago. 1997.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. Gays em an\u00e1lise. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, n. 47, p. 15-22, dez. 2006.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bernardo Micherif Carneiro Psicanalista Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP) e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP) Doutor em Educa\u00e7\u00e3o e Mestre em Psicologia pela UFMG. E-mail: bernardomcarneiro@yahoo.com.br \u00a0 Freud (1930\/1996) nos apresentou o supereu como a inst\u00e2ncia decisiva do mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o. 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