{"id":58845,"date":"2026-08-02T10:34:08","date_gmt":"2026-08-02T13:34:08","guid":{"rendered":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/?p=58845"},"modified":"2026-08-02T10:49:22","modified_gmt":"2026-08-02T13:49:22","slug":"falar-em-guerra-a-atualidade-de-freud","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2026\/08\/02\/falar-em-guerra-a-atualidade-de-freud\/","title":{"rendered":"Falar em guerra: A atualidade de Freud"},"content":{"rendered":"<h5><em>Adriana Vitta<br \/>\n<\/em>Psicanalista<br \/>\nMembro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP) e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP)<br \/>\n<em>E-mail:<\/em> <a href=\"mailto:adrianarvitta@gmail.com\">adrianarvitta@gmail.com<\/a><\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O\u00a0texto \u201cConsidera\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas sobre a guerra e a morte\u201d inscreve-se no contexto traum\u00e1tico da Primeira Guerra Mundial e constitui um dos primeiros esfor\u00e7os de Freud (1915\/2020) para pensar o colapso das ilus\u00f5es civilizat\u00f3rias modernas. Nele, observamos uma cr\u00edtica contundente \u00e0 confian\u00e7a iluminista no progresso moral e racional da humanidade, evidenciando como a guerra exp\u00f5e a fragilidade das forma\u00e7\u00f5es culturais e a persist\u00eancia de tend\u00eancias destrutivas no psiquismo. Ao desmontar a cren\u00e7a na superioridade moral das sociedades ditas civilizadas, Freud observa que, diante da guerra, Estados e indiv\u00edduos abandonam rapidamente normas \u00e9ticas antes sustentadas, legitimando, com isso, a viol\u00eancia, a mentira e a crueldade, tornando poss\u00edvel a express\u00e3o da barb\u00e1rie, latente sob a superf\u00edcie da civiliza\u00e7\u00e3o. Ao criticar a ingenuidade de uma \u00e9tica fundada exclusivamente na raz\u00e3o e no progresso, Freud esclarece que qualquer projeto civilizat\u00f3rio que ignore a dimens\u00e3o inconsciente e pulsional est\u00e1 condenado a ser surpreendido por irrup\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Vemos tamb\u00e9m, nesse texto, o argumento de que a guerra nos obriga a todos e a cada um a enfrentar a nega\u00e7\u00e3o da morte: \u201cno fundo, ningu\u00e9m acredita em sua pr\u00f3pria morte, ou o que vem a ser o mesmo: no inconsciente cada um de n\u00f3s est\u00e1 convencido de sua imortalidade\u201d (FREUD, 1915\/2020, p. 117). H\u00e1, para Freud (1915\/2020, p. 120), uma tend\u00eancia a excluir a morte dos c\u00e1lculos da vida. S\u00f3 no dom\u00ednio da fic\u00e7\u00e3o (arte, teatro e literatura) encontra-se realizada a condi\u00e7\u00e3o sob a qual poder\u00edamos nos conciliar com a morte, ou seja: \u201cque ainda nos restasse conservada, por detr\u00e1s de todas as vicissitudes da vida, uma vida intacta\u201d. A indica\u00e7\u00e3o de Freud \u00e9 a de que a guerra nos colocaria diante do fato de que n\u00e3o podemos eliminar a morte simplesmente ignorando-a ou silenciando-a. A morte n\u00e3o se deixa mais renegar, pois a sua presen\u00e7a massiva, tanto do outro como de si mesmo, se imp\u00f5e. Freud observa, no entanto, que, ao mesmo tempo em que a morte se torna onipresente, ela tamb\u00e9m \u00e9 banalizada. H\u00e1 uma duplicidade do sujeito frente \u00e0 morte: se, por um lado, ele recusa sua pr\u00f3pria finitude, por outro, mant\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o amb\u00edgua com a morte do outro, frequentemente atravessada por desejos hostis inconscientes. Como nos lembra Freud, n\u00e3o \u00e0 toa a mais importante proibi\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia moral foi: \u201c<em>N\u00e3o matar\u00e1s<\/em>\u201d<em>. <\/em>Ela havia sido adquirida como rea\u00e7\u00e3o contra a satisfa\u00e7\u00e3o do \u00f3dio escondido atr\u00e1s do luto, quando se tratava do morto que era amado, e pouco a pouco se estendeu ao estrangeiro n\u00e3o amado e finalmente tamb\u00e9m ao inimigo\u201d (FREUD, 1915\/2020, p. 125). As guerras exp\u00f5em, assim, a fragilidade e os limites das normas morais que sustentam a vida coletiva, expondo o mecanismo pulsional subjacente a nossas a\u00e7\u00f5es. E Freud nos lembra ainda que a guerra n\u00e3o se deixa eliminar, \u201cenquanto as condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia dos povos forem t\u00e3o diversas e as avers\u00f5es entre eles forem t\u00e3o acirradas\u201d (FREUD, 1915\/2020, p. 132).<\/p>\n<p>Esses primeiros esfor\u00e7os de Freud de pensar a guerra s\u00e3o rearticulados e adensados por via de uma troca posterior de correspond\u00eancias com Albert Einstein, publicada sob o t\u00edtulo \u201cPor que a guerra?\u201d, que revela um di\u00e1logo entre dois importantes pensadores do s\u00e9culo XX sobre a viol\u00eancia humana. Surgido dos esfor\u00e7os da Liga das Na\u00e7\u00f5es (Institui\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 atual Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas \u2013 ONU, cuja cria\u00e7\u00e3o se deu apenas em 1945), por seu Instituto Internacional para a Coopera\u00e7\u00e3o Intelectual, situado em Paris, para pensar alternativas para a guerra, esse di\u00e1logo traz conjecturas dos interlocutores acerca das imbrica\u00e7\u00f5es entre solu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, jur\u00eddicas e ps\u00edquicas para o problema da amea\u00e7a \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o e se desenvolve em torno da (im)possibilidade da obten\u00e7\u00e3o de uma paz duradoura. As missivas foram publicadas originalmente em Paris, em mar\u00e7o de 1933, em tr\u00eas l\u00ednguas: alem\u00e3o, franc\u00eas e ingl\u00eas, havendo sua circula\u00e7\u00e3o sido logo proibida na Alemanha, que experimentava r\u00e1pida ascens\u00e3o do nazismo.<\/p>\n<p>A carta que d\u00e1 in\u00edcio aos debates \u00e9 de autoria de Einstein. Ele dirige a Freud suas inquieta\u00e7\u00f5es sobre o futuro da \u201chumanidade civilizada\u201d (EINSTEIN, 1932\/2006, p. 421), que \u00e9 permanentemente amea\u00e7ado pela propens\u00e3o \u00e0 guerra e \u00e0 autodestrui\u00e7\u00e3o. Essas inquieta\u00e7\u00f5es sintetizam-se em uma pergunta: \u201ch\u00e1 um caminho para libertar os seres humanos da fatalidade da guerra?\u201d (EINSTEIN, 1932\/2006, p. 421). A esperan\u00e7a de Einstein era a de que Freud pudesse auxili\u00e1-lo na compreens\u00e3o dos aspectos psicol\u00f3gicos subjacentes aos obst\u00e1culos \u00e0 ado\u00e7\u00e3o de uma solu\u00e7\u00e3o institucional para o problema.<\/p>\n<p>Einstein, logo nos primeiros par\u00e1grafos da correspond\u00eancia, exp\u00f5e a Freud aquela que seria a sa\u00edda organizacional: a cria\u00e7\u00e3o de uma organiza\u00e7\u00e3o supraestatal que tivesse o poder de legislar e de decidir sobre conflitos entre os Estados, a quem se assegurassem os meios necess\u00e1rios a que suas decis\u00f5es legislativas ou jurisdicionais fossem obedecidas. Baseando-se no exame da rela\u00e7\u00e3o entre direito e poder, o f\u00edsico reconhece, no entanto, que as inst\u00e2ncias que poderiam decidir sobre conflitos entre os Estados, submetendo-os todos a uma mesma jurisdi\u00e7\u00e3o, s\u00e3o \u201cInstitui\u00e7\u00f5es humanas, que quanto menos poder tiverem \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o para impor suas decis\u00f5es, mais estar\u00e3o inclinadas a tornar suas decis\u00f5es acess\u00edveis a influ\u00eancias extrajur\u00eddicas\u201d (EINSTEIN, 1932\/2006, p. 422). Seria imprescind\u00edvel, portanto, para Einstein (1932\/2006, p. 423), que essa organiza\u00e7\u00e3o supranacional fosse dotada de poderes suficientes para evitar que influ\u00eancias extrajur\u00eddicas fossem decisivas na produ\u00e7\u00e3o e na aplica\u00e7\u00e3o das normas institu\u00eddas e para que, portanto, prevalecesse o \u201cideal de justi\u00e7a\u201d da comunidade em lugar de eventuais interesses particulares. Conclui, ent\u00e3o, que isso s\u00f3 seria poss\u00edvel se cada qual dos Estados participantes renunciasse a uma por\u00e7\u00e3o de sua soberania. Essa ren\u00fancia, no entanto, seria inviabilizada, segundo o f\u00edsico, por \u201cfor\u00e7as psicol\u00f3gicas poderosas\u201d (EINSTEIN, 1932\/2006, p. 423) que se colocam como obst\u00e1culo a que a meta da paz seja atingida, conforme se colheria dos eventos hist\u00f3ricos que aponta. Embora liste algumas dessas for\u00e7as, como as dos interesses econ\u00f4micos de classes dominantes de cada Estado, pede o aux\u00edlio de Freud, um \u201cgrande conhecedor das puls\u00f5es humanas\u201d, para tentar se esclarecer melhor sobre a possibilidade de \u201cconduzir o desenvolvimento ps\u00edquico dos seres humanos de modo a que se tornem capazes de resistir \u00e0s psicoses de \u00f3dio e \u00e0 aniquila\u00e7\u00e3o\u201d (EINSTEIN, 1932\/2006, p. 424).<\/p>\n<p>A atual crise mundial decorrente das instabilidades vividas provenientes de guerras que eclodiram em v\u00e1rias regi\u00f5es do planeta explicita o movimento agressivo desregrado de alguns pa\u00edses em rela\u00e7\u00e3o a outros e tem impulsionado, paralelamente, iniciativas importantes de fortalecimento da democracia. Podemos observar muito claramente quanto a isso a atualidade da an\u00e1lise de Freud em sua resposta a Einstein em 1932: as inst\u00e2ncias internacionais que serviriam para fomentar a coopera\u00e7\u00e3o e a preven\u00e7\u00e3o dos conflitos s\u00e3o formadas pelos pa\u00edses que hoje fazem a guerra. Nessa resposta, Freud (1932\/2006, p. 427) parte de suas pesquisas sobre a g\u00eanese do Direito e sua articula\u00e7\u00e3o com o poder e, em especial, com a viol\u00eancia, propondo uma substitui\u00e7\u00e3o que talvez deixasse mais expl\u00edcitos os pressupostos de sua reflex\u00e3o: \u201cPosso substituir a palavra poder por viol\u00eancia, uma palavra mais intensa e mais dura?\u201d.<\/p>\n<p>Segundo Freud, desde a horda primeva, os conflitos entre os seres humanos foram decididos, a princ\u00edpio, com o emprego da viol\u00eancia, que estaria na base da vida social. O Direito n\u00e3o elimina a viol\u00eancia, apenas a reorganiza, pois o Estado monopoliza a viol\u00eancia para evitar que cada indiv\u00edduo a exer\u00e7a livremente. Assim, Direito e viol\u00eancia est\u00e3o interligados e o Direito nasce da viol\u00eancia coletiva, ou seja, a lei n\u00e3o \u00e9 o oposto da for\u00e7a, mas uma forma de administr\u00e1-la.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> A pergunta de Einstein dirigida a Freud permanece ent\u00e3o extremamente atual: como uma minoria pode dominar e colocar a servi\u00e7o de si uma grande massa do povo, que n\u00e3o tem muito a ganhar com o sucesso dos dominantes?<\/p>\n<p>Em \u201cPsicologia das massas e an\u00e1lise do Eu\u201d, Freud (1921\/2020) discorre sobre o fen\u00f4meno da massifica\u00e7\u00e3o e seus processos de fus\u00e3o identificat\u00f3ria, em busca de uma explica\u00e7\u00e3o libidinal para a organiza\u00e7\u00e3o das massas. Nessa an\u00e1lise, Freud encontra mecanismos de identifica\u00e7\u00e3o e idealiza\u00e7\u00e3o causados por um objeto exterior \u00e0 massa: o l\u00edder. O coletivo seria ent\u00e3o uma rede de indiv\u00edduos articulados verticalmente com o l\u00edder, articula\u00e7\u00e3o que promove o la\u00e7o social, por estabelecer entre os membros de um grupo uma identifica\u00e7\u00e3o. Essa exterioridade do objeto l\u00edder \u00e9 que, para Freud, determinaria a coes\u00e3o de uma massa, caracterizada por uma dimens\u00e3o imagin\u00e1ria, j\u00e1 que em sua origem estaria a ilus\u00e3o de uma completude perdida que determina a busca de um ideal. A igreja e o ex\u00e9rcito s\u00e3o, para Freud, exemplos de uma liga\u00e7\u00e3o particular do sujeito com um signo universal, um signo que promove a organiza\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos em massa, colocados diante de um chefe. A massa seria, assim, um produto espec\u00edfico de uma identifica\u00e7\u00e3o a \u201cum \u00fanico e mesmo objeto\u201d. O chefe, colocado como ideal, faz prevalecer uma liga\u00e7\u00e3o hipn\u00f3tica entre os indiv\u00edduos, na qual n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para o particular, para o singular. Esse tipo de la\u00e7o n\u00e3o comporta a diferen\u00e7a subjetiva que se v\u00ea abolida em uma identifica\u00e7\u00e3o comum.<\/p>\n<p>Freud, a partir dessa an\u00e1lise, p\u00f5e em evid\u00eancia o fato de que \u00e9 uma certa forma de exist\u00eancia em grupo que induz \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o coletiva. Sua forma\u00e7\u00e3o \u00e9, antes de tudo, imagin\u00e1ria, pois a massa funda-se, em sua origem, sob uma ilus\u00e3o de completude marcada pela busca de um ideal. Sob essa ilus\u00e3o ancoram-se os fen\u00f4menos da massifica\u00e7\u00e3o respons\u00e1veis pelas guerras que movimentam uma massa ancorada nas puls\u00f5es de autodestrui\u00e7\u00e3o. Freud indica ent\u00e3o que nas situa\u00e7\u00f5es de guerra, haveria uma esp\u00e9cie de regress\u00e3o em nossa possibilidade de pensar e de investir libidinalmente uns aos outros, provocando uma desintegra\u00e7\u00e3o do tecido social que pode adquirir a for\u00e7a de um movimento de massa, onde proliferam as respostas absolutas e irracionais.<\/p>\n<p>Travamos atualmente, al\u00e9m das guerras concretas em que se lan\u00e7am m\u00edsseis e bombas, uma outra guerra t\u00e3o poderosa quanto, contra as <em>fake news<\/em>, que pretende minar a coes\u00e3o social atacando todo e qualquer conhecimento que possa promover a constru\u00e7\u00e3o de um pensamento cr\u00edtico acerca de nossa exist\u00eancia em sociedade e dos mecanismos que visam a diminuir os n\u00edveis de sofrimento humano, explicitando o que Freud j\u00e1 havia nos advertido em 1932.<\/p>\n<p>Em \u201cO mal-estar na cultura\u201d, Freud (1930\/2020, p. 318) nos diz que \u201ca vida, tal como nos \u00e9 imposta, \u00e9 muito dif\u00edcil para n\u00f3s, traz-nos muitas dores, desilus\u00f5es e tarefas insol\u00faveis. Para suport\u00e1-la n\u00e3o podemos prescindir de medidas paliativas\u201d. Ele indica que o sofrimento humano \u00e9 estrutural e inevit\u00e1vel e ainda identifica tr\u00eas fontes principais desse sofrimento: a vulnerabilidade do corpo, a for\u00e7a da natureza e, sobretudo, a dificuldade e inadequa\u00e7\u00e3o dos dispositivos que regulam as rela\u00e7\u00f5es na fam\u00edlia, no estado e na sociedade, com outros seres humanos. No entanto, Freud (1930\/2020, p. 327) contraindica a atitude do eremita que se isola em uma recusa extrema ao outro, pois \u201cele n\u00e3o alcan\u00e7ar\u00e1 nada, e pode se tornar um delirante\u201d. Ao mesmo tempo, lembra-nos de que nossa atitude diante da religi\u00e3o, que responde ao desamparo com f\u00f3rmulas absolutas, pode se tornar um del\u00edrio de massa em busca da felicidade. Mas Freud ainda indica outros caminhos em busca da \u201carte de viver\u201d: o trabalho, a arte, os entorpecentes, o estudo e o amor, apesar de frisar que este \u00faltimo \u00e9 uma grande cilada e que, em ess\u00eancia, mais revela o mal-estar que o apazigua.<\/p>\n<p>Por fim, Freud (1930\/2020, p. 345) anuncia que grande parte da culpa por \u201cnossa mis\u00e9ria \u00e9 daquilo que chamamos nossa cultura\u201d. Indica que a substitui\u00e7\u00e3o do poder do indiv\u00edduo pelo da comunidade \u00e9 o passo cultural decisivo, que promoveria a justi\u00e7a para todos em detrimento do querer de apenas um. A civiliza\u00e7\u00e3o s\u00f3 se sustenta ent\u00e3o \u00e0 custa da ren\u00fancia pulsional. Para tornar poss\u00edvel a vida coletiva, os indiv\u00edduos devem reprimir seus impulsos agressivos e sexuais, internalizando a lei sob a forma do superego. Esse processo, embora necess\u00e1rio, gera um aumento da culpa e da insatisfa\u00e7\u00e3o e um \u201cresto da personalidade origin\u00e1ria n\u00e3o domada pela cultura pode tornar-se a base da hostilidade cultural\u201d (FREUD, 1930\/2020, p. 345).<\/p>\n<p>Freud evidencia, desde muito tempo, nesse ponto: o mal-estar insiste e \u00e9 constitutivo da cultura, portanto, estrutural, decorrente da tens\u00e3o entre puls\u00e3o e lei. Mesmo que a civiliza\u00e7\u00e3o imponha limites que tornam a felicidade problem\u00e1tica, pois o caminho at\u00e9 ela \u00e9 marcado pela falta e pelo imposs\u00edvel, Freud (1915\/2020, p. 132) termina por apontar uma dire\u00e7\u00e3o: \u201cSe quiser suportar a vida, prepare-se para a morte\u201d.<\/p>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias <\/strong><\/h6>\n<h6>BENJAMIN, W. <em>Escritos sobre mito e linguagem (1915-1921)<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Suzana Kampf Lages e Ernani Chaves. 2. ed. S\u00e3o Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2013.<\/h6>\n<h6>DERRIDA, J. <em>For\u00e7a de lei<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Leyla Perrone-Mois\u00e9s. 2. ed. S\u00e3o Paulo: WMF Martins Fontes, 2010.<\/h6>\n<h6>EINSTEIN, A. Por que a guerra? In: <em>Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Jayme Salom\u00e3o. Rio de Janeiro: Imago, Vol. XXII, 2006. (Trabalho original publicado em 1932).<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Considera\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas sobre a guerra e a morte. In: <em>Obras incompletas de Sigmund Freud<\/em>: Cultura, sociedade, religi\u00e3o \u2013 O mal-estar na cultura e outros escritos. Tradu\u00e7\u00e3o de Maria Rita Salzano Moraes. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2020. (Trabalho original publicado em 1915).<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Por que a guerra? In: <em>Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Jayme Salom\u00e3o. Rio de Janeiro: Imago, Vol. XXII, 2006. (Trabalho original publicado em 1932).<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Psicologia das massas e a an\u00e1lise do Eu. In: <em>Obras incompletas de Sigmund Freud<\/em>: Cultura, sociedade, religi\u00e3o \u2013 O mal-estar na cultura e outros escritos. Tradu\u00e7\u00e3o de Maria Rita Salzano Moraes. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2020. (Trabalho original publicado em 1921).<\/h6>\n<h6>FREUD, S. O mal-estar na cultura. In: <em>Obras Incompletas de Sigmund Freud<\/em>: Cultura, sociedade, religi\u00e3o \u2013 O mal-estar na cultura e outros escritos. Tradu\u00e7\u00e3o de Maria Rita Salzano Moraes. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2020. (Trabalho original publicado em 1930).<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Essa tese alinha-se, de certo modo, \u00e0quelas que importantes pensadores vinham desenvolvendo no contexto dos debates jur\u00eddico-pol\u00edticos surgidos a partir da Constitui\u00e7\u00e3o alem\u00e3 de 1919 (Weimar) e de seus desdobramentos na Europa, como se v\u00ea, por exemplo, em\u00a0 Walter Benjamin (2013), que publica, em 1921, sob o t\u00edtulo de Zur Kritik der Gewalt \u2013 Para uma cr\u00edtica da viol\u00eancia, segundo uma das vers\u00f5es em l\u00edngua portuguesa \u2013 um escrito em que tenta explicitar como direito, viol\u00eancia e democracia parlamentar se articulam. Sobre esse texto \u201cinquieto, enigm\u00e1tico, terrivelmente equ\u00edvoco\u201d de Benjamin, ali\u00e1s, Jacques Derrida (2010), em For\u00e7a de lei, afirma que se trata de um ensaio revolucion\u00e1rio pertencente ao grande movimento \u201cantiparlamentar e anti-Aufkl\u00e4rung\u201d alem\u00e3o a partir do qual o nazismo veio \u00e0 superf\u00edcie.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Adriana Vitta Psicanalista Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP) e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP) E-mail: adrianarvitta@gmail.com &nbsp; O\u00a0texto \u201cConsidera\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas sobre a guerra e a morte\u201d inscreve-se no contexto traum\u00e1tico da Primeira Guerra Mundial e constitui um dos primeiros esfor\u00e7os de Freud (1915\/2020) para pensar o colapso das ilus\u00f5es civilizat\u00f3rias modernas. Nele,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58857,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[521,39],"tags":[],"class_list":["post-58845","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque_37","category-trilhamentos","category-521","category-39","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58845","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=58845"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58845\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58846,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58845\/revisions\/58846"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58857"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=58845"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=58845"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=58845"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}