{"id":58847,"date":"2026-08-02T10:36:46","date_gmt":"2026-08-02T13:36:46","guid":{"rendered":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/?p=58847"},"modified":"2026-08-19T16:12:52","modified_gmt":"2026-08-19T19:12:52","slug":"freud-a-coisa-e-a-letra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2026\/08\/02\/freud-a-coisa-e-a-letra\/","title":{"rendered":"Freud, a Coisa e a letra"},"content":{"rendered":"<h5><em>Claudia Gonz\u00e1lez<\/em><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><em><sup><strong>[1]<\/strong><\/sup><\/em><\/a><br \/>\nPsicanalista<br \/>\nMembro da Escuela Lacaniana de Psicoanalisis &#8211; ELP<br \/>\nMembro da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise \u2013 AMP<br \/>\n<em>Email :<\/em> <a href=\"mailto:gonzalez.claudia@icloud.com\">gonzalez.claudia@icloud.com<\/a><\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A\u00a0correspond\u00eancia por meio de carta postal foi, at\u00e9 algumas d\u00e9cadas atr\u00e1s, o meio pelo qual muitos trocavam ideias ou contavam sua vida cotidiana onde quer que estivessem. Foi um meio de declara\u00e7\u00f5es de amor, assim como tamb\u00e9m de declara\u00e7\u00f5es de guerra.<\/p>\n<p>As cartas, de pr\u00f3prio punho \u2013 como se costumava dizer \u2013, escritas em papel, enviadas em um envelope e que esperavam uma resposta, muitas vezes prolongada no tempo, foram o meio pelo qual se constru\u00edram parte dos pensamentos e teorias que agora nos interessam. Em forma de di\u00e1logo ou debate, mas tamb\u00e9m como um desejo de compartilhar o que acontecia com um outro em particular, existe uma enormidade de correspond\u00eancias que j\u00e1 fazem parte da obra de personagens, marcos do pensamento ocidental, e que sempre valem a pena ler.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso da correspond\u00eancia de Sigmund Freud. Nela, encontramos trocas com colegas psicanalistas, m\u00e9dicos, cientistas (como Albert Einstein) e com sua esposa. Nessas cartas, pode-se acompanhar o in\u00edcio da psican\u00e1lise. Ali podemos ler, por exemplo, as d\u00favidas que, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 teoria, assaltavam Freud depois de uma longa jornada de trabalho escutando seus analisandos: a pr\u00e1tica e a experi\u00eancia modificavam a teoria, ou elas mesmas faziam teoria? Freud repensava e reformulava o que j\u00e1 havia pensado, aquilo que dava por certo, mas que, em alguns momentos, vacilava ao se ver incompleto. Debatia consigo mesmo e com sua pr\u00f3pria teoria, com suas cren\u00e7as. Freud se formava e fazia seu um efeito de forma\u00e7\u00e3o gra\u00e7as \u00e0s suas pr\u00f3prias d\u00favidas e ao seu desejo decidido.<\/p>\n<p>Mas essas d\u00favidas, esse fazer, desfazer e refazer a teoria, embora acontecessem nele e para ele, eram dirigidos a um outro, que n\u00e3o era qualquer um. Essas cartas foram, durante muito tempo, dirigidas a seu colega e amigo Wilhelm Fliess. Freud se estendia contando-lhe e comentando detalhes de seu pensamento em torno da t\u00e9cnica e da teoria psicanal\u00edtica.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, em alguma carta, lemos as maneiras pelas quais Freud desmonta sua cren\u00e7a pr\u00e9via e d\u00e1 conta de uma nova, em raz\u00e3o de sua cl\u00ednica. \u00c9 o caso da carta de 6 de dezembro de 1896 dirigida a Fliess (FREUD, 1896\/1996), na qual quero me deter para destacar como, desde ent\u00e3o, o tema da escrita j\u00e1 era importante na cl\u00ednica psicanal\u00edtica e a maneira pela qual vai tomando diferentes vias em Freud e depois em Lacan.<\/p>\n<p>Na carta mencionada, Freud diz a seu amigo e colega, quanto \u00e0 sua hip\u00f3tese da estratifica\u00e7\u00e3o sucessiva pela qual se estabelece o aparelho ps\u00edquico, que prop\u00f5e algo novo para sua teoria:<\/p>\n<blockquote><p>a tese de que a mem\u00f3ria n\u00e3o se faz presente de uma s\u00f3 vez, mas se desdobra em v\u00e1rios tempos, que ela \u00e9 registrada em diferentes esp\u00e9cies de indica\u00e7\u00f5es. (<em>Zeichen<\/em>) [\u2026]. N\u00e3o sei dizer quantos desses registros [transcri\u00e7\u00f5es] h\u00e1: tr\u00eas, pelo menos, provavelmente mais. (FREUD, 1896\/1996, p. 281)<\/p><\/blockquote>\n<p>Em seguida, faz um esquema para relacionar essas escritas com os estratos do aparelho ps\u00edquico.<\/p>\n<p>Uma dessas escritas, a que aqui nos interessa, \u00e9 a que Freud chama <em>Niederschriften<\/em>, primeira escrita, e que \u00e9 \u201cpraticamente incapaz de assomar \u00e0 consci\u00eancia e se disp\u00f5e conforme as associa\u00e7\u00f5es [rela\u00e7\u00f5es] por simultaneidade\u201d (FREUD, 1896\/1996, p. 282). Essa \u00e9 a semente do que Freud continuar\u00e1 elaborando como aquilo que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel acessar porque permanece para sempre reprimido, perdido eternamente. Enquanto perdido, o sujeito o buscar\u00e1, dir\u00e1 Freud, fora, no Outro. Esta \u00faltima \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o posterior de Freud, mas queremos mostrar que se relaciona com essa semente mencionada anteriormente, que por sua vez ser\u00e1 semente da constru\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o topol\u00f3gica da Coisa, e na qual agora nos deteremos a fim de relacionar a escrita e o inacess\u00edvel \u00e0 representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A primeira escrita, <em>Niederschrift<\/em>, n\u00e3o corresponde ao mundo represent\u00e1vel nem \u00e0 percep\u00e7\u00e3o, mas sim a algo \u00edntimo do sujeito que fica isolado, recalcado e \u00e9 o que para Freud diz respeito ao recalque\u00a0 prim\u00e1rio, \u00e0quilo ao qual o sujeito jamais poder\u00e1 voltar a ter acesso. Da\u00ed a maneira freudiana de tratar a Coisa na rela\u00e7\u00e3o com o inconsciente, como algo que est\u00e1 fora de todo alcance poss\u00edvel \u00e0 rememora\u00e7\u00e3o e \u00e0 representa\u00e7\u00e3o e que o sujeito passar\u00e1 a vida inteira tentando reencontrar. A Coisa ser\u00e1 para Freud o objeto m\u00edtico, se assim podemos dizer, para sempre perdido.<\/p>\n<p>Ao trabalhar esse tema, Lacan mostra e desenvolve, no Semin\u00e1rio 7, <em>A \u00e9tica da psican\u00e1lise<\/em>, essa surpreendente e precoce elabora\u00e7\u00e3o de Freud que, nos parece, \u00e9 a linha que ele retomar\u00e1 na formula\u00e7\u00e3o feita nos anos de \u201cRadiofonia\u201d, quando questiona o lugar do objeto <em>a<\/em> e seu car\u00e1ter principal, o incorp\u00f3reo, dos estoicos. (LACAN, 1970\/2003, p.406) Principalmente no cap\u00edtulo IV desse Semin\u00e1rio, Lacan situa as coordenadas de <em>das Ding<\/em> para Freud. Com uma precis\u00e3o requintada na tradu\u00e7\u00e3o das palavras de que Freud se serve, e at\u00e9 mesmo corrigindo a tradu\u00e7\u00e3o francesa, Lacan se interessa em elucidar a situa\u00e7\u00e3o, a rela\u00e7\u00e3o do incorp\u00f3reo (o objeto <em>a<\/em>) com o corpo. Quer determinar, seguindo Freud, como o corpo, o simb\u00f3lico e o objeto incorp\u00f3reo se sustentam, assim como a maneira pela qual esse objeto \u00e9 situado, pelo pr\u00f3prio Freud, em uma exterioridade em rela\u00e7\u00e3o ao sujeito do inconsciente:<\/p>\n<blockquote><p>Sobre essa base, entra em jogo o que vamos agora ver funcionar como a primeira apreens\u00e3o da realidade pelo sujeito. \u00c9 aqui que interv\u00e9m essa realidade que tem rela\u00e7\u00e3o com o sujeito da maneira mais \u00edntima \u2013 o <em>Nebenmensch<\/em>. F\u00f3rmula totalmente surpreendente, na medida em que articula energicamente o \u00e0 parte e a similitude, a separa\u00e7\u00e3o e a identidade.<\/p>\n<p>Seria preciso que eu lesse para voc\u00eas todo o trecho, por\u00e9m contentar-me-ei do \u00e1pice. \u2013 Deste modo, o complexo de <em>Nebenmensch <\/em>se divide em duas partes, das quais uma se imp\u00f5e por um aparelho constante, que permanece coesa como Coisa \u2013 <em>als Ding<\/em>.<\/p>\n<p>Eis o que a tradu\u00e7\u00e3o detest\u00e1vel, com a qual voc\u00eas se deparam em franc\u00eas, deixa perder dizendo <em>quelque chose reste comme tout coh\u00e9rent<\/em>. N\u00e3o se trata de modo algum de uma alus\u00e3o a um todo coerente que se daria pela transfer\u00eancia do verbo ao substantivo, muito pelo contr\u00e1rio. O<em> Ding<\/em> \u00e9 o elemento que \u00e9 originalmente, isolado pelo sujeito em sua experi\u00eancia do <em>Nebenmensch<\/em>, como sendo por natureza estrangeiro, <em>Fremde<\/em>. (LACAN, 1959-1960\/1997, p. 68)<\/p><\/blockquote>\n<p>Isola-se algo que \u00e9 \u00edntimo ao sujeito, da ordem do pr\u00f3ximo, e que \u201cpermanecer\u00e1 coeso como coisa \u2013 <em>als Ding<\/em>\u201d (LACAN, 1959-1960\/1997, p. 68), mas Lacan acrescenta algumas linhas mais adiante, quanto a essa exterioridade e divis\u00e3o da experi\u00eancia da realidade de que fala Freud, que tem o mesmo alcance e fun\u00e7\u00e3o na nega\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<blockquote><p>na <em>Verneinung <\/em>[&#8230;] a mesma fun\u00e7\u00e3o daquilo que, do interior do sujeito, encontra-se levado para um primeiro exterior \u2013 um exterior, diz-nos Freud, que nada tem a ver com essa realidade na qual o sujeito ter\u00e1, em seguida, de discernir as <em>Qualit\u00e4tszeichen<\/em>, que lhe indicam que ele est\u00e1 no rumo certo para a busca de sua satisfa\u00e7\u00e3o. (LACAN, 1959-1960\/1997, p. 68)<\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 essa exterioridade do mais pr\u00f3ximo que os recortes da \u201crealidade\u201d fantasiada de cada sujeito, em rela\u00e7\u00e3o com seu objeto perdido, seu <em>das Ding<\/em>, lhe permitir\u00e3o situar, n\u00e3o o objeto, mas as coordenadas da satisfa\u00e7\u00e3o que busca. Evidentemente, e \u00e9 isso que Freud aponta quando fala do objeto para sempre perdido e jamais reencontrado, nunca se encontrar\u00e1 esse objeto que corresponderia \u00e0 Coisa, a <em>das Ding<\/em>, mas apenas uma aproxima\u00e7\u00e3o ao estado de satisfa\u00e7\u00e3o que se persegue e que, em consequ\u00eancia do fato de o sujeito acreditar que poder\u00e1 encontrar esse objeto que perdeu, buscar\u00e1 cada vez mais, sempre um pouco mais de satisfa\u00e7\u00e3o, um pouco mais de prazer, aquele que, se fosse encontrado, seria o que falta. Isso n\u00e3o sem passar pela hostilidade que a exterioridade do objeto (estranho, <em>Fremde<\/em>) suscita em todo sujeito e que, no entanto, a faz funcionar como b\u00fassola para encontrar sua satisfa\u00e7\u00e3o \u201c[o] <em>Ding <\/em>como <em>Fremde<\/em>, estranho e podendo mesmo ser hostil num dado momento, em todo caso como o primeiro exterior, \u00e9 em torno do que se orienta todo o encaminhamento do sujeito\u201d (LACAN, 1959-1960\/1997, p. 69). Essa \u201cestranheza\u201d do objeto, de <em>das Ding<\/em> \u2013 se nos \u00e9 permitido \u2013, serve a Lacan para a formula\u00e7\u00e3o posterior do objeto <em>a<\/em> objeto que n\u00e3o preenche, mas convoca mais gozo.<\/p>\n<p>Os objetos e as palavras tentam, sem sucesso, preencher esse vazio da Coisa. Dito de outra maneira, a satisfa\u00e7\u00e3o, o gozo, que se acredita poder alcan\u00e7ar no objeto, abrange tamb\u00e9m o significante, a busca infinita de uma palavra que pudesse escrever o que n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever. \u00c9 algo que Freud j\u00e1 intu\u00eda e Lacan (1959-1960\/1997, p. 67) capta perfeitamente em 1959:<\/p>\n<blockquote><p>a elabora\u00e7\u00e3o que nos faz progredir de uma significa\u00e7\u00e3o do mundo a uma fala que pode formular-se, a cadeia que vai do mais arcaico inconsciente \u00e0 forma articulada da fala no sujeito, tudo isso ocorre entre <em>Wahrnehmung<\/em> e <em>Bewusstsein, <\/em>como se diz entre dentes.<\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00e3o deixa de chamar a aten\u00e7\u00e3o a rela\u00e7\u00e3o direta do que acontece com o significante e o corpo. Freud o situa no inconsciente, deixa de busc\u00e1-lo na neurologia. \u00c9 Lacan quem, aos efeitos do significante como marca no corpo, atribui outro lugar que n\u00e3o \u00e9 mais o do inconsciente e da linguagem. Ele fica com o efeito, considera o significante sem sentido, mas com import\u00e2ncia suficiente para marcar um corpo e deixar nele um tra\u00e7o de gozo que est\u00e1 relacionado, mais do que com a linguagem, com <em>lal\u00edngua.<\/em><\/p>\n<blockquote><p>Da Coisa, <em>das Ding<\/em>, ao objeto <em>a<\/em> fora do corpo e \u00e0 irrelev\u00e2ncia do significante, elabora\u00e7\u00f5es que Lacan desenha em momentos cruciais de seu ensino e que apenas com o tempo encontrar\u00e3o seu ponto de ancoragem, de virada, como mostra essa antecipa\u00e7\u00e3o no Semin\u00e1rio 7 que adianta o que Lacan (1959-1960\/1997, p. 71-73) trata em \u201cRadiofonia\u201d em rela\u00e7\u00e3o com o corpo e os efeitos do significante nele:<\/p><\/blockquote>\n<p><em>Das Ding<\/em> \u00e9 originalmente o que chamaremos fora-de-significado. \u00c9 em fun\u00e7\u00e3o desse fora-de-significado e de uma rela\u00e7\u00e3o pat\u00e9tica a ele que o sujeito conserva sua dist\u00e2ncia e constitui-se num modo de rela\u00e7\u00e3o, de afeto prim\u00e1rio, anterior a todo recalque [&#8230;] a Coisa s\u00f3 se apresenta a n\u00f3s na medida em que ela acerta na palavra, como se diz acertar na mosca. [&#8230;] Em franc\u00eas a palavra <em>mot<\/em> tem um peso e um sentido particular. <em>Mot<\/em> \u00e9 essencialmente nenhuma resposta. <em>Mot<\/em>, diz La Fontaine a certa altura, \u00e9 o que se cala, \u00e9 justamente aquilo para o qual nenhuma palavra [<em>mot<\/em>] \u00e9 pronunciada. As coisas que est\u00e3o em quest\u00e3o \u2013 e que alguns poderiam contestar-me como sendo por Freud colocadas num n\u00edvel superior ao desse mundo de significantes sobre o qual lhes digo o que ele \u00e9, a saber, o verdadeiro m\u00f3vel do funcionamento do homem do processo qualificado de prim\u00e1rio \u2013 s\u00e3o as coisas enquanto mudas. E as coisas mudas n\u00e3o s\u00e3o exatamente a mesma coisa que as coisas que n\u00e3o t\u00eam rela\u00e7\u00e3o alguma com as palavras [&#8230;]. Falei-lhes hoje do Outro enquanto <em>Ding<\/em>.<\/p>\n<p>Acrescentarei, seguindo o caminho de <em>das Ding<\/em> aqui tra\u00e7ado, que faltou a Lacan h\u00e1 pouco menos de uma d\u00e9cada ao tornar manifesto que o que estava em jogo era, na realidade, uma satisfa\u00e7\u00e3o que reside no corpo, isto \u00e9, o gozo como tal. O gozo produzido no corpo por um significante que n\u00e3o quer dizer nada come\u00e7a a ser elaborado por Lacan, pouco a pouco, a partir do que se chama de seu \u00faltimo ensino, em que passa do per\u00edodo das estruturas l\u00f3gicas (com suas f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o) para uma \u00e9poca orientada pela topologia. Essa transi\u00e7\u00e3o come\u00e7a com o Semin\u00e1rio 20 \u2013 no ano de 1972 \u2013, dois anos depois de \u201cRadiofonia\u201d, texto que mencionamos aqui e sobre o qual \u00c9ric Laurent se pergunta se, nele, a tens\u00e3o que Lacan evidencia entre o objeto <em>a<\/em> e o inconsciente tem ou n\u00e3o a ver com uma t\u00f3pica diferente daquela que o pr\u00f3prio Freud prop\u00f5e entre o Isso e o inconsciente. A esse respeito, diz: \u201cO que Lacan sublinha aqui e martelar\u00e1 em seguida \u00e9 que o encontro do corpo do simb\u00f3lico com a carne resgata o objeto <em>a<\/em> como incorporal,<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> como efeito fora do corpo, como \u2018goza-sentido\u2019\u201d (LAURENT, 2016, p. 34). Esse efeito fora-do-corpo, prossegue Laurent (2016, p. 35), \u00e9 o da superf\u00edcie do corpo, que se inscreve n\u00e3o sobre ou no, e sim fora do corpo, e \u00e9 assim que o fora-do-corpo pode se articular com o corpo. Esse lugar fora e articulado \u00e0s bordas er\u00f3genas do corpo permite evitar os erros naturalistas sobre a inscri\u00e7\u00e3o de tra\u00e7os de gozo.<\/p>\n<p>O objeto<em> a <\/em>como fora-do-corpo fica articulado ao corpo do sujeito como superf\u00edcie, isso permite que o objeto em quest\u00e3o seja vivido como exterior e que seja buscado a\u00ed fora sob formas diversas. A finalidade aparente dessa busca \u00e9 que se sup\u00f5e que, se h\u00e1 algo do corpo que est\u00e1 fora dele, \u00e9 porque algo falta ao corpo (gozo). \u00c9 o que muitos sujeitos vivem como \u201cvazio\u201d, ou como a experi\u00eancia insistente de que algo lhes falta.<\/p>\n<p>Esse objeto que est\u00e1 fora e que falta ao corpo promete, miticamente, o gozo que lhe falta. Sob a forma de objetos esc\u00f3picos, invocantes, orais, anais, o sujeito busca sentir-se completo, busca no exterior o que lhe falta, inclusive sua \u201coutra metade\u201d. Mas, na realidade, o destino dessa busca e desse encontro sempre falho \u00e9 o gozo do corpo. Se seguirmos Freud (1915\/2016) nisso, em seu texto \u201cAs puls\u00f5es e seus destinos\u201d, ele diz que h\u00e1 um \u00fanico destino da puls\u00e3o: a satisfa\u00e7\u00e3o. O objeto pelo qual ela passa para alcan\u00e7\u00e1-la \u00e9 verdadeiramente irrelevante. Pode ser uma coisa ou outra, para a puls\u00e3o tanto faz, pois o que pretende \u00e9 satisfazer-se e isso ela o faz por meio do circuito pulsional, que se serve dos objetos para que o pr\u00f3prio corpo obtenha gozo. \u00c9 o corpo, afinal, que depois da busca por mais satisfa\u00e7\u00e3o se satisfaz consigo mesmo, sentindo-se, gozando-se. H\u00e1 um querer fazer reingressar o objeto, ou tamb\u00e9m o gozo no corpo.<\/p>\n<p>Pode-se deduzir, ent\u00e3o, que para al\u00e9m dos significantes e dos objetos (que sempre v\u00eam acompanhados por um significante), \u00e9 antes algo do gozo que faz o corpo, no qual dizer e fazer andam juntos. Os objetos, segundo Lacan em \u201cRadiofonia\u201d, s\u00e3o mais do que aquilo que o sujeito usa para fazer entrar o gozo no corpo: s\u00e3o usados para contabilizar, enumerar ou localizar algo do gozo de cada um. Uma amostra disso \u00e9 a sepultura, sobretudo as sepulturas antigas, nas quais se enterrava o corpo do morto junto com seus objetos. A sepultura \u00e9, al\u00e9m disso, um exemplo do conjunto vazio com o qual Lacan (1970\/2003, p. 407) comparava o sujeito: \u201cO conjunto vazio das ossadas \u00e9 o elemento irredut\u00edvel pelo qual se ordenam, como elementos outros, os instrumentos do gozo \u2013 colares, copos, armas: mais subelementos para enumerar o gozo do que para faz\u00ea-lo reingressar no corpo\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1, pois, o objeto <em>a<\/em> e suas m\u00faltiplas formas, situado fora-do-corpo como aquilo que permite a inscri\u00e7\u00e3o de uma superf\u00edcie exterior e que se incorporar\u00e1 e se articular\u00e1 ao corpo para delimitar certas zonas er\u00f3genas, de gozo, em cada sujeito. H\u00e1, tamb\u00e9m, o corpo como portador de uma marca que, n\u00e3o se deve esquecer, est\u00e1 \u2013 nessa \u00e9poca do ensino de Lacan \u2013 sempre vinculada a um objeto de gozo. Essa marca \u00e9 a que circunscreve o que \u00e9 para sempre recalcado, essa primeira escrita, <em>Niederschrift<\/em>, que Freud (1896\/1996) vislumbra naquela carta de 6 de dezembro de 1896 e que dar\u00e1 voltas e voltas em seu pensamento, pelas p\u00e1ginas que escreve e que chegar\u00e1 a Lacan para continuar tra\u00e7ando seu caminho e chegar finalmente ao corpo e ao gozo, para deslizar de \u201c<em>a letter<\/em> para <em>a litter<\/em>\u201d (LACAN, 1971\/2003, p. 15).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><em>Tradu\u00e7\u00e3o: Rodrigo Almeida<br \/>\nRevis\u00e3o: Ana Helena de Souza<\/em><\/h6>\n<h6><strong>\u00a0<\/strong><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias <\/strong><\/h6>\n<h6>FREUD, S. Carta 52. In: <em>Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, Vol. I, 1996. (Trabalho original publicado em 1896).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Lituraterra. In: <em>Outros escritos. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 11-25. (Trabalho original publicado em 1971).<\/h6>\n<h6>FREUD, S. As puls\u00f5es e seus destinos. In: <em>Obras Incompletas de Sigmund Freud: <\/em>As puls\u00f5es e seus destinos. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2016. (Trabalho original publicado em 1915).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 7<\/em>: A \u00e9tica da psican\u00e1lise. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradu\u00e7\u00e3o de Ant\u00f4nio Quinet. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997. (Trabalho original proferido em 1959-60).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Radiofonia. In: <em>Outros escritos. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 400-447. (Trabalho original publicado em 1970).<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. <em>O avesso da biopol\u00edtica<\/em>: uma escrita para o gozo. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2016.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>\u00a0 Nossos mais sinceros agradecimentos a Claudia Gonz\u00e1lez pela generosa permiss\u00e3o para a publica\u00e7\u00e3o de seu texto.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>\u00a0 \u00a0N. T.: No corpo do texto, optou-se por utilizar o termo \u201cincorp\u00f3reo\u201d, embora a cita\u00e7\u00e3o neste trecho utilize \u201cincorporal\u201d.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Claudia Gonz\u00e1lez[1] Psicanalista Membro da Escuela Lacaniana de Psicoanalisis &#8211; ELP Membro da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise \u2013 AMP Email : gonzalez.claudia@icloud.com &nbsp; A\u00a0correspond\u00eancia por meio de carta postal foi, at\u00e9 algumas d\u00e9cadas atr\u00e1s, o meio pelo qual muitos trocavam ideias ou contavam sua vida cotidiana onde quer que estivessem. 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