{"id":58849,"date":"2026-08-02T10:38:41","date_gmt":"2026-08-02T13:38:41","guid":{"rendered":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/?p=58849"},"modified":"2026-08-03T16:34:14","modified_gmt":"2026-08-03T19:34:14","slug":"psicanalista-suporte-do-objeto-a","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2026\/08\/02\/psicanalista-suporte-do-objeto-a\/","title":{"rendered":"Psicanalista, suporte do objeto a"},"content":{"rendered":"<h5><em>J\u00e9sus Santiago<br \/>\n<\/em>Psicanalista<br \/>\nAnalista Membro da Escola (AME)<br \/>\npela Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP) e Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP)<br \/>\n<em>E-mail<\/em>: jesussan.bhe@terra.com.br<\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 como abordar a quest\u00e3o da transfer\u00eancia sem considerar o uso dessa verdadeira ferramenta que Freud (1914\/2022, p. 160) retira de sua bagagem cl\u00ednica e que, surpreendentemente, nomeia como o \u201cnovo significado transferencial\u201d (<em>Neue \u00dcbertragungsbedeutung<\/em>). Se essa ferramenta \u00e9 fundamental para a posta em marcha da opera\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, se esse novo significado \u00e9 postulado como uma condi\u00e7\u00e3o<em> sine qua non <\/em>para o in\u00edcio do trabalho anal\u00edtico, n\u00e3o se deve, no entanto, tom\u00e1-la como um simples produto da experi\u00eancia anal\u00edtica. \u00c9 preciso admitir, portanto, que algo dessa significa\u00e7\u00e3o transferencial j\u00e1 se faz presente antes da chegada do paciente no tratamento. Pode-se adiantar que o embri\u00e3o do que mais tarde se tornar\u00e1 o cerne da rela\u00e7\u00e3o transferencial \u00e9 a <em>suposi\u00e7\u00e3o de saber<\/em> que Lacan inventa, conferindo-lhe o <em>status<\/em> de um sujeito. A suposi\u00e7\u00e3o de saber torna-se sujeito porque, al\u00e9m de ser um fen\u00f4meno nodal da experi\u00eancia humana, mant\u00e9m uma conex\u00e3o \u00edntima com o desejo inconsciente. \u00c9 por acontecer fora do dispositivo anal\u00edtico, constituindo-se, assim, numa rela\u00e7\u00e3o estreita com o inconsciente, que Lacan (1967\/2003, p. 252) postula que \u201cno come\u00e7o da psican\u00e1lise est\u00e1 a transfer\u00eancia\u201d, evidentemente privilegiando o que se apreende nela como o sujeito suposto saber.<\/p>\n<p><strong>Car\u00e1ter prim\u00e1rio da transfer\u00eancia e seu mais al\u00e9m<\/strong><\/p>\n<p>Faz-se necess\u00e1rio considerar o sujeito suposto saber como uma fun\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se apresenta de modo fixo e est\u00e1tico, pois \u00e9 objeto de transforma\u00e7\u00f5es ao longo da experi\u00eancia da an\u00e1lise. Sob esse ponto de vista, a transfer\u00eancia aparece como um processo din\u00e2mico, \u201cessencialmente ligada ao tempo e a seu manejo\u201d (LACAN, 1964\/1998, p. 858), dinamismo que, inclusive, impulsionou Lacan (1958\/1998, p. 624) a qualificar a sua presen\u00e7a, no in\u00edcio do tratamento, como \u201cprim\u00e1ria\u201d. A meu ver, o que h\u00e1 de prim\u00e1rio na transfer\u00eancia n\u00e3o se explica apenas por estar no in\u00edcio, pois o fato de o sujeito suposto saber permanecer em um \u201cestado de sombra\u201d (LACAN, 1958\/1998, p. 624) n\u00e3o implica que ele esteja imune a transforma\u00e7\u00f5es. Enfatiza-se, ainda, que mesmo nesse estado prim\u00e1rio nada impede que o sujeito suposto saber possa sonhar e, inclusive, exercer aquilo que \u00e9 seu atributo principal, que \u00e9 \u201creproduzir sua demanda, quando n\u00e3o h\u00e1 mais nada para demandar\u201d (LACAN, 1958\/1998, p. 624). \u00c9 somente para al\u00e9m desse estado de sombra que surge o \u201cnovo sentido transferencial\u201d, permitindo assim ao sujeito confrontar-se com seu pr\u00f3prio saber inconsciente.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Freud se d\u00e1 conta dessa manifesta\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria da transfer\u00eancia j\u00e1 no in\u00edcio de sua pr\u00e1tica cl\u00ednica com as hist\u00e9ricas. No final de seus \u201cEstudos sobre a histeria\u201d, ele fornece um testemunho do quanto a experi\u00eancia da an\u00e1lise est\u00e1 fadada a ter que lidar com a transfer\u00eancia a partir do momento em que o sujeito se aproxima do complexo causal de seu sintoma. Nesse caso espec\u00edfico, o surgimento do sintoma hist\u00e9rico tem sua fonte no desejo experimentado algum tempo antes e que, via recalque, se aloja no inconsciente. O recalcado gravita em torno do homem com quem a paciente havia trocado algumas palavras e pelo qual, ao mesmo tempo, se v\u00ea atra\u00edda, colocando-se afetuosamente nos seus bra\u00e7os e recebendo um efusivo beijo.<\/p>\n<p>Quando, durante o tratamento, se aproxima da lembran\u00e7a patog\u00eanica concebida como signo do desejo recalcado, Freud constata que as associa\u00e7\u00f5es, em torno de suas lembran\u00e7as, estancam. Na sess\u00e3o seguinte, logo ap\u00f3s conseguir suplantar sua retic\u00eancia, a paciente fala que passou uma noite em branco e que n\u00e3o ousava retornar ao tratamento, pois, no momento em que se aproximou do sentido represado do desejo, subitamente experimentou o desejo de abra\u00e7ar o analista. Assinala Freud que, nesses instantes, o analista aparece \u00e0 paciente como uma pura presen\u00e7a, sendo que o procedimento da an\u00e1lise se interrompe e o paciente deixa de respeitar a regra da associa\u00e7\u00e3o livre e, assim, a dimens\u00e3o do amor prevalece em detrimento da perlabora\u00e7\u00e3o anal\u00edtica.<\/p>\n<p><strong>Um amor que se dirige ao saber<\/strong><\/p>\n<p>Como \u00e9 o caso do inconsciente e do trauma, a transfer\u00eancia aparece, desde muito cedo, como disse antes, enquanto uma ferramenta essencial na trajet\u00f3ria cl\u00ednica de Freud. Emerge por meio da suposi\u00e7\u00e3o de saber dirigida ao analista, podendo transformar-se nos afetos do amor ou do \u00f3dio. Ao contr\u00e1rio do inconsciente e do trauma, a transfer\u00eancia foi a \u00faltima a tornar-se objeto de uma conceitua\u00e7\u00e3o mais acabada, expressa na famosa colet\u00e2nea usualmente designada como \u201cEscritos t\u00e9cnicos\u201d. Apenas com Lacan a transfer\u00eancia deixa de ser concebida, como fazem os p\u00f3s-freudianos, como mero ve\u00edculo da dimens\u00e3o afetiva, pois, como se viu antes, mesmo sua manifesta\u00e7\u00e3o mais prim\u00e1ria traz consigo uma rela\u00e7\u00e3o do sujeito ao saber. Assim, ao se debru\u00e7ar sobre a sua estrutura simb\u00f3lica, Lacan p\u00f4de formalizar o que veio a ser a sua conceitua\u00e7\u00e3o do sujeito suposto saber. Seu foco principal \u00e9 a cr\u00edtica da forte aten\u00e7\u00e3o dos psicanalistas ao aspecto afetivo e sentimental da transfer\u00eancia, ou seja, as rela\u00e7\u00f5es de amor e de \u00f3dio dirigidas ao analista. Sob essa \u00f3tica, a transfer\u00eancia se v\u00ea relegada ao circuito da intersubjetividade, isto \u00e9, coloca em jogo uma rela\u00e7\u00e3o de sujeito a sujeito, na qual o analista responde \u00e0 transfer\u00eancia do analisante com sua pr\u00f3pria contratransfer\u00eancia.<\/p>\n<p>Desde o momento em que o sujeito suposto saber assume a centralidade no seu enfoque da transfer\u00eancia, assiste-se ao deslocamento das quest\u00f5es concernentes \u00e0 intersubjetividade e aos afetos para interrogar sobre o seu lugar na esfera do desejo e do saber inconsciente. Se a transfer\u00eancia n\u00e3o \u00e9 mais vista como uma rela\u00e7\u00e3o intersubjetiva, ou seja, se ela \u00e9 sujeito, infere-se que se trata de uma manifesta\u00e7\u00e3o da suposi\u00e7\u00e3o de saber cujo comando est\u00e1 a cargo do inconsciente. Na parte final do Semin\u00e1rio 11, <em>Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise<\/em>, encontra-se uma defini\u00e7\u00e3o relativamente simples: em sua inst\u00e2ncia mais prim\u00e1ria, a transfer\u00eancia \u00e9 um sujeito a quem se sup\u00f5e um saber. A tese de Lacan (1964\/1988, p. 220) consiste em dizer que \u201cdesde que haja em alguma parte o sujeito suposto saber [&#8230;] h\u00e1 transfer\u00eancia\u201d. Em outros termos, ama-se aquele a quem se sup\u00f5e um saber. Mais tarde, em 1973, ele dar\u00e1 uma f\u00f3rmula da transfer\u00eancia ainda mais circunscrita: \u201c\u00e9 o amor que se dirige ao saber\u201d (LACAN, 1973\/2003, p. 555).<\/p>\n<p><strong>Quando o sintoma fala&#8230;\u00a0\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p>Define-se, portanto, a chamada transfer\u00eancia prim\u00e1ria como o acontecimento do amor que se dirige a algu\u00e9m que supostamente sabe. Com isso se pode reafirmar que o sujeito suposto saber est\u00e1 potencialmente presente em todo ser falante. Essa presen\u00e7a latente leva-nos a concluir que o manejo da transfer\u00eancia, no contexto da an\u00e1lise, se faz notadamente pelo ato ou efeito de uma modula\u00e7\u00e3o temporal. Durante o curso do tratamento, o tempo prim\u00e1rio da transfer\u00eancia e, mais precisamente, seu estado de sombra, tendem a se atenuar, manifestando-se nesse tempo posterior por meio de uma suposi\u00e7\u00e3o de saber, j\u00e1 que se endere\u00e7a ao inconsciente. Isso quer dizer que uma coisa \u00e9 o amor dirigido ao saber encarnado na pessoa do psicanalista, outra coisa \u00e9 o saber dirigido ao inconsciente e \u00e0 cadeia associativa de significantes.<\/p>\n<p>Quando Freud diz que os sintomas podem receber uma nova significa\u00e7\u00e3o e que esta adv\u00e9m da rela\u00e7\u00e3o transferencial, ele sugere que, a partir desse momento, os sintomas da neurose ordin\u00e1ria passar\u00e3o por uma muta\u00e7\u00e3o, pois se tornam sintomas pr\u00f3prios do que ele designa como neurose de transfer\u00eancia. Por conseguinte, a passagem da neurose ordin\u00e1ria para a neurose de transfer\u00eancia introduz uma mudan\u00e7a capital para a opera\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, na medida em que os sintomas sob o regime da transfer\u00eancia tornam-se pass\u00edveis de interpreta\u00e7\u00e3o, e logo mais receptivos \u00e0 pr\u00e1tica anal\u00edtica.<\/p>\n<p>Cabe ainda observar que, segundo Lacan, a designa\u00e7\u00e3o de neurose de transfer\u00eancia padece de um equ\u00edvoco, pois seu funcionamento n\u00e3o \u00e9 substancialmente diferente daquele da neurose ordin\u00e1ria. Vale dizer que se prefere privilegiar e enfatizar o aspecto da nova significa\u00e7\u00e3o que o sintoma adquire ao ser transpassado pela a\u00e7\u00e3o da transfer\u00eancia<em>.<\/em> Enfim, ao deslocar-se da pessoa do analista e dirigir-se ao inconsciente, o sintoma passa a querer falar, e por isso Freud (1914\/2022, p. 160) p\u00f4de dizer que a neurose de transfer\u00eancia consiste numa esp\u00e9cie de \u201czona intermedi\u00e1ria entre a doen\u00e7a e a vida\u201d. Com a introdu\u00e7\u00e3o desse \u201cnovo significado transferencial\u201d, o que agora se designa por neurose sob transfer\u00eancia deve ser concebido como um artefato, um produto que passou pela modula\u00e7\u00e3o temporal, em que os sintomas ser\u00e3o marcados por uma vontade de dizer que fazem do inconsciente, al\u00e9m de int\u00e9rprete, um inconsciente transferencial.<\/p>\n<p><strong>O amor e o nada<\/strong><\/p>\n<p>Se o procedimento da transfer\u00eancia n\u00e3o se define pela via da intersubjetividade, se a transfer\u00eancia do lado do analisante \u00e9 o amor que se endere\u00e7a ao saber, cabe formular a pergunta:\u00a0 de que modo o analista responde \u00e0 situa\u00e7\u00e3o do amor de transfer\u00eancia? Como se sabe, no \u00e2mbito da transfer\u00eancia concebida como rela\u00e7\u00e3o intersubjetiva, o analista responde pela via da contratransfer\u00eancia. Por\u00e9m, qual \u00e9 a resposta do analista na transfer\u00eancia ressituada e recentrada pelo sujeito suposto saber? Para responder a essa quest\u00e3o, \u00e9 preciso retornar ao problema do que vem a ser o amor. Se Lacan (1958\/1998, p. 624) o define como \u201cdar o que n\u00e3o se tem\u201d, \u00e9 evidente que ele n\u00e3o diferencia o amor de transfer\u00eancia daquele que acontece na vida de todo dia. \u00c9 de se esperar que o analista responda ao amor que se dirige ao saber, por parte do analisante,<strong><em> com o<\/em><\/strong><strong><em> nada<\/em><\/strong>, j\u00e1 que, ao contr\u00e1rio de outras modalidades cl\u00ednicas, ele n\u00e3o tem nada de objetivo e palp\u00e1vel para lhe dar.<\/p>\n<p>Assim \u00e9 que do lado do analisante situa-se o amor dirigido ao saber e, no melhor dos casos, esse amor, mesmo que mediado pelo inconsciente, aparece sob o modo da demanda de amor. Leva-se em considera\u00e7\u00e3o a esse respeito que, para Lacan, toda demanda \u00e9 no fundo demanda de amor. Em resumo, se do lado do analisante prevalece a demanda de amor, do lado do analista, o que se imp\u00f5e, como posi\u00e7\u00e3o na rela\u00e7\u00e3o transferencial, \u00e9 o <em>nada<\/em>. Acrescenta-se ainda a observa\u00e7\u00e3o de que a dire\u00e7\u00e3o do tratamento exige do analista saber valorizar esse <em>nada<\/em>, inclusive fazendo o sujeito pagar o mais caro poss\u00edvel por ele, pois de outro modo n\u00e3o valeria grande coisa (LACAN, 1958\/1998, p. 624). A maneira pela qual Lacan reinterpreta a chamada <em>regra de abstin\u00eancia<\/em> \u00e9 propor que o analista responde \u00e0 demanda de amor do analisante com o objeto <em>nada<\/em>. Seguindo essa mesma perspectiva, J.-A. Miller (1994, s.p.) confere materialidade a essa vis\u00e3o da abstin\u00eancia, ao introduzir sua contrapartida sobre o analisante: \u201cna an\u00e1lise, o analisante come o <em>nada<\/em>\u201d. \u00c9 o que o leva a propor que h\u00e1 uma anorexia implicada na pr\u00f3pria estrutura transferencial, cuja consequ\u00eancia \u00e9 admitir que seu n\u00facleo real \u00e9 \u201ca atualiza\u00e7\u00e3o da realidade [sexual] do inconsciente\u201d (LACAN, 1964\/1988, p. 139). Se o objeto <em>nada <\/em>se imp\u00f5e do lado do analista, \u00e9 porque seu horizonte diante da cena da realidade sexual do inconsciente \u00e9 o princ\u00edpio de que <em>o ato sexual n\u00e3o existe<\/em>. \u00c9 certamente diante da fun\u00e7\u00e3o do <em>nada <\/em>que aquilo de mais precioso que o ato anal\u00edtico fornece no desenrolar do tratamento \u00e9 a presen\u00e7a do analista.<\/p>\n<p><strong>Em face da atualiza\u00e7\u00e3o da realidade sexual inconsciente <\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 exatamente em fun\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a do analista que o ensino de Lacan estende e amplia sua concep\u00e7\u00e3o da transfer\u00eancia, distinta da que se baseia no sujeito suposto saber. Refere-se, nesse caso, \u00e0 vertente libidinal da transfer\u00eancia, na qual o que est\u00e1 em quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas o saber, mas a presen\u00e7a do analista enquanto objeto, pois este lhe empresta sua pessoa e seu corpo <strong><em>aos<\/em><\/strong> sentimentos, cren\u00e7as e esperan\u00e7as que o paciente lhe endere\u00e7a. Essa presen\u00e7a do analista enquanto <em>objeto<\/em> \u00e9, de alguma maneira, antecipada pelos escritos t\u00e9cnicos de Freud (1915\/1996, p. 165), quando neles se examina a fundo o problema do <em>amor de transfer\u00eancia <\/em>como fator inevit\u00e1vel do tratamento: motor para o seu avan\u00e7o, ainda que possa tornar-se empecilho e resist\u00eancia. \u00c9 bem verdade que se deve tomar o amor de transfer\u00eancia em suas duas faces distintas: de um lado, o amor propriamente dito, e, de outro, uma dimens\u00e3o que coloca em jogo uma corrente sensual da vida amorosa, isto \u00e9, a satisfa\u00e7\u00e3o pulsional e o seu correlato: o objeto <em>a<\/em>. De in\u00edcio, o terreno sobre o qual o amor prospera \u00e9 o narcisismo. Aquele que ama induz o outro a uma rela\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria, em que o convence de ser am\u00e1vel. Lacan (1964\/1988, p. 239) resume e esclarece a vertente narc\u00edsica do amor com uma simples frase: \u201camar \u00e9 essencialmente querer ser amado\u201d.<\/p>\n<p>O segundo aspecto a ser salientado diz respeito \u00e0 corrente pulsional, que se caracteriza por estar para al\u00e9m da demanda de amor e, nesse sentido, a demanda se faz n\u00e3o mais via narcisismo, mas por meio da puls\u00e3o. Essa demanda, considerada como mais radical, age silenciosamente, ao estar \u201cencarregada de ir buscar algo [objeto <em>a<\/em>] que, a cada vez, responde e se manifesta no Outro\u201d (LACAN, 1964\/1988, p. 185). Esse movimento da puls\u00e3o se explicita, por exemplo, na sua tentativa de obter do Outro um olhar ou uma voz. A ideia \u00e9 a de que a puls\u00e3o vem, sub-repticiamente, roubar, arrancar do Outro um objeto para efetivar sua satisfa\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, seu gozo.<\/p>\n<p>Essa busca silenciosa de gozo, ao mesmo tempo em que se veicula por meio de uma palavra de amor, se apresenta inteiramente velada, na medida em que prov\u00e9m do inconsciente em sua conex\u00e3o com a puls\u00e3o. Por tr\u00e1s da palavra de amor \u201ceu te amo\u201d encontra-se encoberto, nessa busca de gozo, um \u201ceu te mutilo\u201d. Lacan (1964\/1988, p. 254) o formula assim no Semin\u00e1rio 11: \u201cEu te amo, mas, porque inexplicavelmente amo em ti algo que \u00e9 mais do que tu \u2013 objeto pequeno <em>a <\/em>min\u00fasculo, eu te mutilo\u201d. Se Lacan (1964\/1988, p. 139) introduz a no\u00e7\u00e3o de objeto <em>a <\/em>para designar esse objeto em jogo na puls\u00e3o, a tese acerca da transfer\u00eancia \u00e9 que o la\u00e7o entre o analisante e o analista se tece como uma \u201catualiza\u00e7\u00e3o da realidade [sexual] do inconsciente\u201d. O emprego cl\u00ednico dessa vertente libidinal da transfer\u00eancia exige levar em conta que o modo como a sexualidade se faz presente no inconsciente \u00e9 via objeto <em>a<\/em>; em suma, \u00e9 essa dimens\u00e3o do objeto causa de gozo que \u00e9 atualizada por meio da transfer\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>O analista como suposto deter o objeto <em>a<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Quando o amor de transfer\u00eancia se instala devido a seu componente narc\u00edsico, tende a gerar a dimens\u00e3o do engano que, no fundo, surge para mascarar a realidade sexual que se depreende da rela\u00e7\u00e3o transferencial. Importa ao analista, portanto, n\u00e3o se deixar levar pelo \u201cefeito de tapea\u00e7\u00e3o\u201d do amor, pois a dimens\u00e3o pulsional que surge no tratamento se articula com os sintomas dos quais o paciente se queixa. Por isso, o analista deve estar atento para discernir essa dimens\u00e3o pulsional que, segundo Miller, constitui-se como o fundamento mais secreto da transfer\u00eancia, a saber, o objeto <em>a. <\/em>Para ele, \u201ca popularidade da tese lacaniana do sujeito suposto saber como piv\u00f4 da transfer\u00eancia fez esquecer que o que governa secretamente a an\u00e1lise \u00e9 o objeto <em>a<\/em>\u201d (MILLER, 2000, p. 83, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p>A presen\u00e7a do analista \u00e9, portanto, um elemento necess\u00e1rio para que a experi\u00eancia da an\u00e1lise possa se estabelecer e, nesse sentido, lev\u00e1-la adiante por telefone ou via internet \u00e9 exp\u00f4-la aos seus pr\u00f3prios limites, sobretudo no tocante a essa vertente libidinal da transfer\u00eancia. Diante do que se disse antes a respeito dessa vertente libidinal, consentir com a aus\u00eancia desse correlato da realidade sexual \u2013 o objeto <em>a \u2013<\/em> \u00e9 transigir com esse fator essencial, acarretando consequ\u00eancias para os rumos do tratamento. No fundo, \u00e9 a pr\u00f3pria conclus\u00e3o do tratamento que se mostra comprometida quando n\u00e3o se considera que o fundamento do la\u00e7o transferencial \u00e9 \u201cesse resto corporal que apenas se manifesta atrav\u00e9s da presen\u00e7a\u201d (MILLER, 2000, p. 83, tradu\u00e7\u00e3o nossa) do analista. Por isso, tanto Freud quanto Lacan s\u00e3o taxativos em dizer que nada do que concerne ao real de que se trata na transfer\u00eancia pode ser apreendido <em>in effigie <\/em>ou<em> in absentia. <\/em>Se, para Freud (1912\/2017, p. 118), a presen\u00e7a do analista se faz necess\u00e1ria \u201cpara tornar manifestas e atuais as mo\u00e7\u00f5es amorosas ocultas e esquecidas do paciente\u201d, para Lacan (1964\/1988, p. 56), somente essa presen\u00e7a pode \u201cdesembrulhar a realidade em ef\u00edgie da transfer\u00eancia a partir da fun\u00e7\u00e3o do real na repeti\u00e7\u00e3o [de gozo]\u201d, sempre presente no amor dirigido ao saber do analista. <em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Com efeito, n\u00e3o basta ao analista ser o suporte da fun\u00e7\u00e3o Tir\u00e9sias, ou seja, encarnar o or\u00e1culo ou o adivinho que decifra os enigmas da exist\u00eancia humana. \u00c9 preciso, ainda, \u201ccomo diz Apollinaire, que ele tenha mamas\u201d (LACAN, 1964\/1988, p. 255), o que, por sua vez, n\u00e3o quer dizer que o analista deva dar o seio. Dar o seio \u00e9 o contr\u00e1rio da <em>regra de abstin\u00eancia<\/em>, exposta nos escritos t\u00e9cnicos de Freud, para fornecer os ind\u00edcios do que vem a ser a posi\u00e7\u00e3o do analista. Mais do que uma regra t\u00e9cnica, a abstin\u00eancia apenas se justifica pelas formula\u00e7\u00f5es da \u00e9tica anal\u00edtica que embasam a posi\u00e7\u00e3o do analista. Em outras palavras, por ser suposto deter o objeto de satisfa\u00e7\u00e3o que busca a puls\u00e3o, a abstin\u00eancia se deduz do princ\u00edpio de que o \u00fanico objeto em jogo entre o analisante e o analista \u00e9 o <em>nada <\/em>(MILLER, 1994, s.p.). Nesse particular, insiste-se no que Miller formula acerca do componente anor\u00e9xico inerente \u00e0 estrutura transferencial, pois, no essencial da experi\u00eancia, o analisante come o <em>nada<\/em>.<\/p>\n<p>Assim, a presen\u00e7a do analista ao longo do tratamento se faz sob o fundo de uma posi\u00e7\u00e3o em que o objeto em jogo permanece enquanto <em>nada<\/em>. Dizer isso n\u00e3o impede que a instaura\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o transferencial exija a presen\u00e7a corporal, na medida em que seu piv\u00f4 \u00e9 o \u201ccorrelato essencial da realidade sexual\u201d, ou seja, o objeto <em>a<\/em>. Pode mesmo acontecer que, em certos momentos do tratamento, o analista seja conduzido a \u201cemprestar seu corpo\u201d \u00e0s diferentes pantomimas do olhar e da voz, isto \u00e9, comprometer sua pr\u00f3pria voz ou seu olhar para permitir ao sujeito discernir e se posicionar com rela\u00e7\u00e3o ao gozo que o concerne. Assim, o analista vem no lugar do objeto para sempre perdido, desse vazio, e, por essa via, ele completa o sujeito. N\u00e3o \u00e9 por meio do amor dirigido ao saber que o sujeito se inscreve no Outro, mas pelo objeto, \u00e0 medida que o analista, com o tempo, torna-se seu parceiro-sintoma.<\/p>\n<p>O sujeito analisante tentar\u00e1, na an\u00e1lise, pela manobra da transfer\u00eancia, recuperar o objeto perdido, endere\u00e7ando-se ao analista. Como prop\u00f5e \u00c9ric Laurent (2006, p. 1, tradu\u00e7\u00e3o nossa), em <em>Principes directeurs de l\u2019acte psychanalytique<\/em>: \u201ca decifra\u00e7\u00e3o de sentido nas trocas entre o analista e o analisante n\u00e3o \u00e9 apenas o que est\u00e1 em jogo\u201d. H\u00e1 tamb\u00e9m a visada daquele que dirige seu <em>dizer<\/em> ao analista enquanto objeto. E ele acrescenta ainda: \u201ctrata-se [na transfer\u00eancia] de recuperar algo de perdido junto de seu interlocutor\u201d (LAURENT, 2006, p. 1, tradu\u00e7\u00e3o nossa). \u00c9 a materialidade da satisfa\u00e7\u00e3o pulsional enquanto <em>vazio <\/em>que d\u00e1 a chave do que vem a ser essa recupera\u00e7\u00e3o do objeto que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, \u00e9 o que embasa tal concep\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o transferencial. Enquanto montagem ou deriva, a puls\u00e3o s\u00f3 obt\u00e9m \u00eaxito ao contornar seu objeto <em>a, <\/em>gerando, nesse retorno em circuito do que se estrutura em vaiv\u00e9m, um <em>vazio <\/em>na satisfa\u00e7\u00e3o (LACAN, 1964\/1988, p. 169). Essa satisfa\u00e7\u00e3o que segue sua rota em dire\u00e7\u00e3o ao objeto, sem jamais esgot\u00e1-lo ou elimin\u00e1-lo, funda a transfer\u00eancia como recupera\u00e7\u00e3o do objeto <em>a <\/em>junto do analista suposto deter o objeto causa de desejo do analisante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Refer\u00eancias<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Observa\u00e7\u00f5es sobre o amor transferencial. In:\u00a0<em>Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, Vol. XII, 1996, p. 207-221. (Trabalho original publicado em 1915).<\/h6>\n<h6>FREUD, S. A din\u00e2mica da transfer\u00eancia. In: <em>Obras incompletas de Sigmund Freud<\/em>: Fundamentos da cl\u00ednica psicanal\u00edtica. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2017. (Trabalho original publicado em 1912).<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Lembrar, repetir, perlaborar. In: <em>Obras Incompletas de Sigmund Freud<\/em>. Vol. 6. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2022. (Trabalho original publicado em 1914).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. A dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios de seu poder. In: <em>Escritos.<\/em> Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 591-652. (Trabalho original publicado em 1958).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 11<\/em>: Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradu\u00e7\u00e3o de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1988. (Trabalho original proferido em 1964).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Posi\u00e7\u00e3o do inconsciente no Congresso de Bonneval. In: <em>Escritos<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p. 843-864. (Trabalho original publicado em 1964).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Proposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. In: <em>Outros escritos<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 248-264. (Trabalho original publicado em 1967).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 edi\u00e7\u00e3o alem\u00e3 de um primeiro volume dos Escritos. In: <em>Outros escritos<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 553-556. (Trabalho original publicado em 1973).<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. <em>Principes directeurs de l\u2019acte psychanalytique<\/em>. 2006. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.psychaanalyse.com\/pdf\/CURE_PRINCIPES_DIRECTEURS_DE_L_ACTE_PSYCHANALYTIQUE.pdf. Acesso em: 30 jul. 2025<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. Como iniziano le analisi. In: XI ENAPOL \u2013 Texto de Orienta\u00e7\u00e3o. 1994. Dispon\u00edvel em: https:\/\/enapol.com\/xi\/pt\/come-iniziano-le-analisi\/. Acesso em: 30 jul. 2025.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. <em>Transferencia negativa<\/em>. Buenos Aires: Tres Haches, 2000.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e9sus Santiago Psicanalista Analista Membro da Escola (AME) pela Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP) e Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP) E-mail: jesussan.bhe@terra.com.br &nbsp; N\u00e3o h\u00e1 como abordar a quest\u00e3o da transfer\u00eancia sem considerar o uso dessa verdadeira ferramenta que Freud (1914\/2022, p. 160) retira de sua bagagem cl\u00ednica e que, surpreendentemente, nomeia como o \u201cnovo&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58853,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[521,39],"tags":[],"class_list":["post-58849","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque_37","category-trilhamentos","category-521","category-39","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58849","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=58849"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58849\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58873,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58849\/revisions\/58873"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58853"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=58849"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=58849"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=58849"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}