{"id":591,"date":"2013-03-17T06:54:41","date_gmt":"2013-03-17T09:54:41","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=591"},"modified":"2025-12-01T17:18:56","modified_gmt":"2025-12-01T20:18:56","slug":"que-lugar-para-o-analista-na-experiencia-com-a-psicose","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2013\/03\/17\/que-lugar-para-o-analista-na-experiencia-com-a-psicose\/","title":{"rendered":"Que Lugar Para O Analista Na Experi\u00eancia Com A Psicose?"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<h6 class=\"uk-margin-medium-top\"><strong>FERNANDO FERREIRA LINHARES<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 class=\"uk-margin-medium-top\"><\/h6>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/number-14-gray-Jackson-Pollock.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"656\" data-large_image_height=\"900\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-592\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/number-14-gray-Jackson-Pollock.jpg\" alt=\"\" width=\"656\" height=\"900\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/number-14-gray-Jackson-Pollock.jpg 656w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/number-14-gray-Jackson-Pollock-219x300.jpg 219w\" sizes=\"auto, (max-width: 656px) 100vw, 656px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Na contemporaneidade, assiste-se \u00e0 infinita pluralidade de apresenta\u00e7\u00f5es da psicose, e a psican\u00e1lise \u00e9 convocada para essa experi\u00eancia nos consult\u00f3rios, nas institui\u00e7\u00f5es ou nas discuss\u00f5es interdisciplinares. Ent\u00e3o, qual \u00e9 o lugar do analista na experi\u00eancia com a psicose?<\/p>\n<p>Em Freud, a aplica\u00e7\u00e3o da teoria da libido ao Caso Schreber origina a categoria \u201cneuroses narc\u00edsicas\u201d, que corresponde ao diagn\u00f3stico estrutural de psicose. Freud explica que o psic\u00f3tico \u201cretira das pessoas e coisas do mundo externo a sua libido, sem substitu\u00ed-las por outras na fantasia\u201d, e \u201ca libido retirada do mundo externo \u00e9 (foi) dirigida ao Eu\u201d (FREUD, 1914\/2010, p. 15-16), sendo incapaz de se ligar ao \u201cm\u00e9dico\u201d, impossibilitando a transfer\u00eancia. Freud comenta que, na \u201ct\u00e9cnica anal\u00edtica\u201d, \u201ca transfer\u00eancia \u00e9 uma necessidade inevit\u00e1vel\u201d (FREUD, 1905\/1980, p. 113), logo:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">[\u2026] aqueles que sofrem de neuroses narc\u00edsicas n\u00e3o t\u00eam capacidade para a transfer\u00eancia [\u2026] sua libido objetal deve ter-se transformado em libido do ego [\u2026] por essa raz\u00e3o, s\u00e3o inacess\u00edveis aos nossos esfor\u00e7os e n\u00e3o podem ser curados por n\u00f3s (FREUD, 1917\/1980, p. 520).<\/p>\n<p>J\u00e1 Lacan afirma: \u201c[\u2026] se a quest\u00e3o do louco pode se esclarecer pela psican\u00e1lise, bem, isso seria, obviamente, a partir de outro centramento [\u2026]\u201d (LACAN, 1967\/2012, p. 6), e \u201ca psicose \u00e9 isto diante do que um analista n\u00e3o deve recuar em nenhum caso\u201d (LACAN, 1977\/2012, p. 19, tradu\u00e7\u00e3o do autor), abrindo a possibilidade de um estatuto de transfer\u00eancia diferente da neur\u00f3tica e desviando a quest\u00e3o da aplicabilidade da psican\u00e1lise para sua utilidade na \u201cexperi\u00eancia\u201d com a psicose.<\/p>\n<p>Em 1936, O est\u00e1dio do espelho como formador da fun\u00e7\u00e3o do eu, releitura do narcisismo de Freud, reconhece \u201cnas formas mentais que constituem as psicoses, a reconstru\u00e7\u00e3o de est\u00e1dios anteriores do eu\u201d e localiza a paranoia no \u201cest\u00e1dio do objeto que lhe \u00e9 correlativo\u201d (LACAN, 1938\/2008, p. 66). Sob influ\u00eancia hegeliana, o conceito do est\u00e1dio do espelho \u00e9 desdobrado para aquele em que o desejo surge a partir do desejo do outro. A experi\u00eancia anal\u00edtica \u00e9 considerada ent\u00e3o um processo dial\u00e9tico, e o psic\u00f3tico, um sujeito que renunciou \u00e0 dial\u00e9tica da palavra, o que impede seu tratamento anal\u00edtico:<\/p>\n<p>Na loucura [\u2026] conv\u00e9m reconhecermos [\u2026] a liberdade negativa de uma fala que renunciou a se fazer reconhecer, ou seja, aquilo que chamamos obst\u00e1culo \u00e0 transfer\u00eancia, e [\u2026] a forma\u00e7\u00e3o singular de um del\u00edrio que [\u2026] objetiva o sujeito em uma linguagem sem dial\u00e9tica (LACAN, 1953\/1998, p. 281).<br \/>\nA lingu\u00edstica estrutural de Saussure e Jakobson \u00e9 utilizada por Lacan no Semin\u00e1rio III para fazer sua leitura do Caso Schreber, estabelecendo o conceito de Nome-do-Pai (NP). Nesse semin\u00e1rio, a foraclus\u00e3o \u00e9 descrita como um recha\u00e7o fora do simb\u00f3lico que implica o surgimento de algo no real, e a foraclus\u00e3o do NP, como determinante da psicose. O fora do \u00c9dipo freudiano se torna a foraclus\u00e3o do NP, respons\u00e1vel pela n\u00e3o constitui\u00e7\u00e3o da significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica. Aqui a psicose \u00e9 estrutural, n\u00e3o implica um desencadeamento. A estabilidade, ent\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel, determinada, segundo Lacan, por mecanismos imagin\u00e1rios; e tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel a reestabiliza\u00e7\u00e3o em que a met\u00e1fora delirante supre a met\u00e1fora paterna ausente.<\/p>\n<p>O desencadeamento psic\u00f3tico \u00e9 explicado pela exposi\u00e7\u00e3o do sujeito a um acontecimento que requeira uma resposta dependente da significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica; o encontro com \u201cUm-pai\u201d n\u00e3o simboliz\u00e1vel, quando \u201co NP \u00e9 (ser) chamado pelo sujeito no \u00fanico lugar onde poderia ter-lhe advindo e onde nunca esteve\u201d (LACAN, 1955-1956\/1988, p. 584) Esse \u201cUm-pai\u201d deve-se situar \u201cna posi\u00e7\u00e3o terceira em alguma rela\u00e7\u00e3o que tenha por base o par imagin\u00e1rio a-a\u2018\u201d (LACAN, 1955-1956\/1988, p. 584), abalando o mecanismo imagin\u00e1rio que estabilizava a estrutura por fornecer ao sujeito uma identifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse semin\u00e1rio, Lacan subverte o termo \u201csecret\u00e1rio do alienado\u201d para descrever a posi\u00e7\u00e3o do analista que dirige o tratamento sem ocupar lugar de mestria, acolhendo os significantes que o sujeito traz sem remet\u00ea-lo, pela interpreta\u00e7\u00e3o, a uma nova significa\u00e7\u00e3o. O analista busca identificar os mecanismos capazes de sustentar a identifica\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria estabilizadora da estrutura. Na psicose desencadeada, essa posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o se invalida, pois pode trazer \u00e0 tona significantes pertinentes para a reestabiliza\u00e7\u00e3o, capazes de dar contorno ao que n\u00e3o foi simbolizado, e retorna no real. Com produ\u00e7\u00e3o delirante em curso, o analista objetiva a ressignifica\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia delirante na transfer\u00eancia. N\u00e3o se preconiza a remo\u00e7\u00e3o do del\u00edrio, modo singular de o sujeito lidar com o real n\u00e3o simbolizado.<\/p>\n<p>Em \u201cDe uma quest\u00e3o preliminar a todo tratamento poss\u00edvel da psicose\u201d, Lacan localiza o objeto a: \u201co campo da realidade, (e) este s\u00f3 se sustenta pela extra\u00e7\u00e3o do objeto a\u201d (LACAN, 1955-1956\/1998, p. 559-560). Os Semin\u00e1rios X e XI elucidam que, na constitui\u00e7\u00e3o do sujeito, h\u00e1 a aliena\u00e7\u00e3o no universo significante seguida da separa\u00e7\u00e3o do objeto a, ordenada pelo NP. \u201cO psic\u00f3tico leva o objeto a no bolso\u201d traduz a n\u00e3o extra\u00e7\u00e3o do objeto a quando o NP est\u00e1 foraclu\u00eddo. Se essa extra\u00e7\u00e3o sustenta o campo da realidade, apresentam-se, na psicose, perturba\u00e7\u00f5es na constitui\u00e7\u00e3o da realidade.<\/p>\n<p>O conceito de gozo \u00e9 origin\u00e1rio do \u201cpara-al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer\u201d, a puls\u00e3o de morte. O campo do gozo \u00e9 aparelhado pela linguagem: os discursos \u201ctratam\u201d o gozo e engendram o la\u00e7o social. Esse aparelhamento \u00e9 condicionado \u00e0 extra\u00e7\u00e3o do objeto a, que representa, em um retorno ao Mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o, os objetos das puls\u00f5es aos quais a civiliza\u00e7\u00e3o exige que o homem renuncie para integr\u00e1-la. Se a extra\u00e7\u00e3o do objeto a trata o gozo, o n\u00e3o aparelhamento do campo do gozo leva \u00e0 descri\u00e7\u00e3o da viv\u00eancia psic\u00f3tica como uma invas\u00e3o do gozo (n\u00e3o tratado).<\/p>\n<p>Em Apresenta\u00e7\u00e3o da tradu\u00e7\u00e3o francesa das Mem\u00f3rias do Presidente Schreber, Lacan cita \u201c[\u2026] (n)a polaridade mais recente a ser promovida aqui, do sujeito do gozo ao sujeito que representa o significante para um significante sempre outro [\u2026]\u201d (LACAN, 1966\/2012, p. 2, tradu\u00e7\u00e3o do autor). Esse trecho diferencia sujeito do significante, representado por um significante a outro significante, em que o significante opera como barreira ao gozo; e sujeito do gozo, um significante apenas, S1, subjugado pelo gozo, na posi\u00e7\u00e3o de objeto do Outro.<\/p>\n<p>Aqui, o tratamento pretende obter um influxo do simb\u00f3lico sobre o real, a constru\u00e7\u00e3o de uma barreira ao gozo e sua reintrodu\u00e7\u00e3o no discurso. Para tal, o analista abst\u00e9m-se de ocupar o lugar de Outro do gozo, que tem todas as respostas, e \u00e9, empresta ou localiza significantes capazes de funcionar como elemento simb\u00f3lico na constru\u00e7\u00e3o daquela barreira, possibilitando a passagem de sujeito do gozo a um sujeito limitado pelo significante. O la\u00e7o anal\u00edtico \u00e9 estabilizador se o analista n\u00e3o colocar o sujeito na posi\u00e7\u00e3o de objeto a ser cuidado e apontar que o pr\u00f3prio sujeito deve tomar para si a regula\u00e7\u00e3o do gozo.<\/p>\n<p>O Semin\u00e1rio XX traz a evolu\u00e7\u00e3o dos conceitos de real, simb\u00f3lico e imagin\u00e1rio como registros, na escrita do n\u00f3 borromeu. A escritura borromeana decorre do acento dado ao real no final da obra de Lacan, pois suporta um real de estrutura. No Semin\u00e1rio XXII, Lacan apresenta o n\u00f3 borromeu de quatro elementos, acrescentando o quarto elo indispens\u00e1vel para sua estabiliza\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>Se voc\u00eas se lembram do modo sob o qual eu introduzi este quarto elemento em vista dos tr\u00eas elementos que s\u00e3o supostos, cada um, constituir qualquer coisa de pessoal, o quarto ser\u00e1 isto que eu anuncio este ano como o sinthoma (LACAN, 1975-1976\/2005, p. 51-52, tradu\u00e7\u00e3o do autor).<br \/>\nO \u201cn\u00f3 de quatro parte de uma disjun\u00e7\u00e3o concebida como origin\u00e1ria do simb\u00f3lico, do imagin\u00e1rio e do real\u201d (LACAN, 1974-1975\/2012, p. 30, tradu\u00e7\u00e3o do autor); assume a foraclus\u00e3o como estrutural e a estabilidade do n\u00f3 borromeu a tr\u00eas como uma impossibilidade, explicitada, na neurose, com as forma\u00e7\u00f5es sintom\u00e1ticas, e, na psicose, com sua irrup\u00e7\u00e3o. Inicialmente, \u201c[\u2026] o quarto (elo) \u00e9 o que [\u2026] suporta o simb\u00f3lico daquilo por que ele \u00e9 efetivamente feito, a saber, o NP\u201d (LACAN, 1974-1975\/2012, p. 68-69, tradu\u00e7\u00e3o do autor); \u00e9 o que atravessa o sujeito com a marca da castra\u00e7\u00e3o. Depois, o NP se pluraliza, pois, se a foraclus\u00e3o \u00e9 estrutural, o elemento que estabiliza o n\u00f3 varia conforme a estrutura cl\u00ednica. Essa tentativa de manter unidos os registros R, S e I \u00e9 definida como \u201csupl\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Na teoria dos n\u00f3s, a psicose \u00e9 explicada por formas de enodamento n\u00e3o borromeanas e por falhas no enodamento borromeano, com maneiras diversas de supl\u00eancia, como a met\u00e1fora delirante, a formula\u00e7\u00e3o paranoica e o sinthoma. O Semin\u00e1rio XXIII apresenta James Joyce e seu uso da linguagem como paradigma da psicose, um exemplo de falha de enodamento borromeano em que o elo I fica solto. Esse evento topol\u00f3gico \u00e9 traduzido pelo epis\u00f3dio autobiogr\u00e1fico de Retrato do artista quando jovem, em que Stephen Dedalus, alterego de Joyce, ap\u00f3s levar uma surra, pergunta-se por que o evento n\u00e3o lhe causava mais raiva: \u201c[\u2026] tinha sentido que certa for\u00e7a o houvera despojado dessa s\u00fabita onda de raiva t\u00e3o facilmente como um fruto \u00e9 despojado de sua mole casca madura\u201d (JOYCE, 1998, p. 87-88)<\/p>\n<p>O est\u00e1dio do espelho descreve a passagem do corpo fragmentado para a imagem do corpo unificado, com aquisi\u00e7\u00e3o de consist\u00eancia imagin\u00e1ria. O epis\u00f3dio descrito evoca uma dissolu\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria, o deslizar do elo I solto do n\u00f3, deslizamento para fora da cena quando o sujeito \u00e9 convocado a responder com o corpo em sua consist\u00eancia imagin\u00e1ria. No Semin\u00e1rio XXIII:<\/p>\n<p>Mas a forma, em Joyce, de \u2018deixar cair\u2019 a rela\u00e7\u00e3o com o corpo pr\u00f3prio \u00e9 completamente suspeita para um analista, porque a ideia de si como corpo tem um peso. Isso \u00e9 o que precisamente se chama ego. Se o ego \u00e9 dito narcisista, \u00e9 bem porque, em certo n\u00edvel, h\u00e1 algo que suporta o corpo como imagem. No caso de Joyce, o fato de que esta imagem n\u00e3o interessa na ocasi\u00e3o, n\u00e3o assinala que o ego em Joyce tem uma fun\u00e7\u00e3o toda particular? (LACAN, 1975-1976\/2005, p. 150, tradu\u00e7\u00e3o do autor).<br \/>\nSe Joyce apresenta uma falha no enodamento borromeano, por que n\u00e3o houve o desencadeamento de sua psicose? Lacan prop\u00f5e que em Joyce h\u00e1 uma supl\u00eancia: sua escrita, sua condi\u00e7\u00e3o de artista, lhe restitui uma dimens\u00e3o corporal, demonstrada na descri\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o do artista com sua imagem, em Ulisses: \u201cAssim como n\u00f3s, ou m\u00e3e Dana, tecemos e destecemos nossos corpos \u2014 disse Stephen \u2014 dia ap\u00f3s dia, suas mol\u00e9culas se movendo de um lado para o outro, assim tamb\u00e9m o artista tece e destece sua imagem\u201d (JOYCE, 2010, p. 434).<\/p>\n<p>Em Joyce, a constru\u00e7\u00e3o da imagem corporal n\u00e3o remete \u00e0 do est\u00e1dio do espelho, mas a uma tessitura: Joyce tece a obra liter\u00e1ria que impede a dissolu\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria do corpo. E se o ego \u00e9 a ideia que se tem de si como um corpo, a escrita funciona como um ego, \u00e9 seu sinthoma.<\/p>\n<p>Na etimologia da palavra \u201csympt\u00f4me\u201d (sintoma), \u201cpt\u00f4me\u201d significa queda. Para Lacan, sintoma \u00e9 aquilo que se espera que caia durante a an\u00e1lise, j\u00e1 \u201csinthome\u201d (sinthoma) \u00e9 o que n\u00e3o cai, est\u00e1 fixo em torno da falta primeira. Ambos s\u00e3o supl\u00eancias, por\u00e9m estabilizam o n\u00f3 borromeu de formas distintas. O sintoma \u00e9 uma met\u00e1fora, produz sentido, \u00e9 uma resposta particular \u00e0 \u201cn\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d. O sinthoma \u00e9 supl\u00eancia da falta estrutural da rela\u00e7\u00e3o sexual, tem fun\u00e7\u00e3o de gozo, define-se \u201catrav\u00e9s de uma rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o mais aos efeitos de significa\u00e7\u00e3o, [\u2026] mas no registro de uma escritura, que \u00e9 o modo pelo qual cada um goza do inconsciente \u00e0 medida que o inconsciente o determina\u201d (LAURENT, 1992, p. 49). O sinthoma funciona como S1, exerce fun\u00e7\u00e3o de nomea\u00e7\u00e3o do sujeito, que, como Joyce, n\u00e3o \u00e9 sujeito do significante, mas sujeito do gozo. Nessa acep\u00e7\u00e3o, em Joyce, a linguagem serve a algo mais que \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de sentido, h\u00e1 gozo no significante.<\/p>\n<p>O sinthoma de Joyce mant\u00e9m o n\u00f3 est\u00e1vel. Aqui, a dire\u00e7\u00e3o do trabalho anal\u00edtico seria favorecer a estabiliza\u00e7\u00e3o da estrutura pelo enla\u00e7amento fixo dos registros a partir do quarto elemento; favorecer a identifica\u00e7\u00e3o ao sinthoma, que permite ao sujeito a cria\u00e7\u00e3o de um la\u00e7o social in\u00e9dito. O analista deve evitar produzir S1s, que engendrariam o discurso do mestre. O S1 deve surgir do sujeito, pois apenas esse S1 articulado ao gozo possibilita a emerg\u00eancia do sinthoma.<\/p>\n<p>O psic\u00f3tico pode ocupar duas posi\u00e7\u00f5es: na posi\u00e7\u00e3o de objeto de gozo do Outro, pode tomar o analista como Outro gozador, lugar que o analista deve-se recusar a ocupar; na posi\u00e7\u00e3o de saber delirante, tende a essa produ\u00e7\u00e3o, o deslizar do elo I, e o analista deve intervir apelando ao mecanismo imagin\u00e1rio que impede esse deslizamento. Esse \u201csecretariado sinthom\u00e1tico\u201d (BENETI, 1995) permite o deslocamento do psic\u00f3tico dessas posi\u00e7\u00f5es, para que o saber psic\u00f3tico seja colocado a trabalho a fim de produzir seu sinthoma e possibilitar a extra\u00e7\u00e3o do gozo.<\/p>\n<p>A grande amplitude dessa teoria n\u00e3o pode alcan\u00e7ar toda a diversidade da experi\u00eancia com a psicose, pois esta comporta o sujeito. O estudo dessa teoria permite ao cl\u00ednico servir-se de cada etapa da evolu\u00e7\u00e3o desses conceitos, consciente de que a experi\u00eancia com a psicose exige n\u00e3o apenas conhecimento te\u00f3rico, mas faz um chamado \u00e0 inven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>1 Sob a orienta\u00e7\u00e3o de Graciela Bessa.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>BENETI, A. \u201cDo discurso do analista ao n\u00f3 borromeano: contra a met\u00e1fora delirante\u201d. Op\u00e7\u00e3o lacaniana online, n. 3, 2005. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/antigos\/n3\/textod.asp. Acesso em: 26\/07\/2012.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1905 [1904]). \u201cSobre a psicoterapia\u201d, In: ______. Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980, vol. VII, p. 263-278.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1914). \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o ao narcisismo\u201d, In: ______. Sigmund Freud Obras Completas. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2010, vol. 12, p. 13-50.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1917 [1916-1917]). \u201cConfer\u00eancia XXVII \u2013 Transfer\u00eancia\u201d, In: ______. Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980, vol. XVI, p. 503-521.<\/h6>\n<h6>JOYCE, J. Retrato do artista quando jovem. S\u00e3o Paulo: Publifolha, 1998.<\/h6>\n<h6>JOYCE, J. Ulisses. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1938). Complexos familiares. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1953). \u201cFun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem\u201d, In: ______. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 238-324.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1955-1956). \u201cDe uma quest\u00e3o preliminar a todo tratamento poss\u00edvel da psicose\u201d, In: ______. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 537-590.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1966). \u201cPr\u00e9sentation de la traduction de Paul Duquenne des M\u00e9moires d\u2019un n\u00e9vropathe de D. P. Schreber\u201d. Cahiers pour l\u2019analyse, n. 5, p. 69-72. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.ecole-lacanienne.net\/pastoutlacan60.php. Acesso em: 12\/07\/2012.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1967). Petit discours aux psychiatres. Confer\u00eancia in\u00e9dita de 10\/11\/1967. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.ecole-lacanienne.net\/pastoutlacan60.php. Acesso em: 16\/06\/2012.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1974-1975). El Semin\u00e1rio, livro XXII: RSI. In\u00e9dito. Dispon\u00edvel em: http:\/\/lacan.orgfree.com\/lacan\/livros.htm. Acesso em: 10\/07\/2012.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1975-1976). Le S\u00e9minaire, livre XXIII: le sinthome. Paris: \u00c9ditions du Seuil, 2005.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1977). Ouverture de la section clinique. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.ecole-lacanienne.net\/documents\/1977-01-05.doc. Acesso em: 16\/06\/2012.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. Lacan y los discursos. Buenos Aires: Manantial, 1992.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Fernando Ferreira Linhares<\/strong><\/h6>\n<h6>Psiquiatra, aluno do curso de psican\u00e1lise do Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental de Minas Gerais, psiquiatra do CAPS-ad de Nova Lima, do CAPS III de Santa Luzia e do servi\u00e7o de sa\u00fade mental de Carm\u00f3polis de Minas. E-mail:\u00a0<span id=\"cloak9341c1f9c4c038a461d756176691d4ee\"><a href=\"mailto:fernando-linhares@ig.com.br\">fernando-linhares@ig.com.br<\/a><\/span>.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>FERNANDO FERREIRA LINHARES &nbsp; Na contemporaneidade, assiste-se \u00e0 infinita pluralidade de apresenta\u00e7\u00f5es da psicose, e a psican\u00e1lise \u00e9 convocada para essa experi\u00eancia nos consult\u00f3rios, nas institui\u00e7\u00f5es ou nas discuss\u00f5es interdisciplinares. Ent\u00e3o, qual \u00e9 o lugar do analista na experi\u00eancia com a psicose? 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