{"id":595,"date":"2013-03-17T06:54:41","date_gmt":"2013-03-17T09:54:41","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=595"},"modified":"2013-03-17T06:54:41","modified_gmt":"2013-03-17T09:54:41","slug":"elaboracoes-psicanaliticas-sobre-a-melancolia-e-a-mania","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2013\/03\/17\/elaboracoes-psicanaliticas-sobre-a-melancolia-e-a-mania\/","title":{"rendered":"Elabora\u00e7\u00f5es Psicanal\u00edticas Sobre A Melancolia E A Mania"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<h6 class=\"uk-margin-medium-top\"><strong>ADAUTO CLEMENTE<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 class=\"uk-margin-medium-top\"><\/h6>\n<h2><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/number-14-gray-Jackson-Pollock.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"656\" data-large_image_height=\"900\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-592\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/number-14-gray-Jackson-Pollock.jpg\" alt=\"\" width=\"656\" height=\"900\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/number-14-gray-Jackson-Pollock.jpg 656w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/number-14-gray-Jackson-Pollock-219x300.jpg 219w\" sizes=\"auto, (max-width: 656px) 100vw, 656px\" \/><\/a><\/h2>\n<p>Em seus primeiros trabalhos, Freud (1895\/1975) comparou a melancolia a uma \u201canestesia ps\u00edquica\u201d, decorrente de diminui\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o ou de evas\u00e3o da energia som\u00e1tica sexual, como uma \u201chemorragia interna\u201d, diminuindo a reserva dispon\u00edvel de libido. Ou seja, a melancolia estaria ligada \u00e0 perda de libido.<\/p>\n<p>O avan\u00e7o posterior da teoria freudiana passou a ter como foco as \u201cpsiconeuroses\u201d, e o estudo do afeto depressivo s\u00f3 foi retomado por Freud em \u201cLuto e melancolia\u201d (1917\/1975), com uma elabora\u00e7\u00e3o t\u00f3pica sobre tais estados. Ambos constituiriam respostas \u00e0 perda do objeto, mas, na melancolia, observava-se uma perturba\u00e7\u00e3o da estima de si, habitualmente ausente no luto. A perda desencadeante parecia ter valor apenas ocasional e poderia ter natureza diversa: um objeto amado, perdas de natureza mais ideal e, por fim, situa\u00e7\u00f5es em que n\u00e3o se consegue distinguir claramente o que foi perdido, o que estaria na base do mecanismo da melancolia. Encontram-se, nesse texto, tr\u00eas aspectos que Freud considerou essenciais na melancolia: a perda do objeto, o retorno da libido ao eu e a ambival\u00eancia.<\/p>\n<p>O trabalho do luto sup\u00f5e o desligamento gradual da libido investida no objeto perdido, permitindo que ela seja deslocada para outros objetos. Na melancolia, tal a\u00e7\u00e3o ps\u00edquica n\u00e3o se efetiva. A libido n\u00e3o \u00e9 transferida a outros objetos, mas se volta para o eu, identificado com o objeto perdido. A perda do objeto se converte em perda do eu e a hostilidade contra o objeto perdido passa a ser dirigida contra o pr\u00f3prio eu, sob a forma de recrimina\u00e7\u00f5es e autoagressividade. O suic\u00eddio do melanc\u00f3lico seria uma tentativa de atingir nele mesmo esse objeto perdido com o qual estava narcisicamente identificado.<\/p>\n<p>Freud atribuiu a origem da tend\u00eancia melanc\u00f3lica a perturba\u00e7\u00f5es na rela\u00e7\u00e3o com os objetos que remontam prim\u00f3rdios do processo de constitui\u00e7\u00e3o do eu, da\u00ed sua localiza\u00e7\u00e3o como uma \u201cneurose narc\u00edsica\u201d. O momento constitutivo da configura\u00e7\u00e3o do objeto ocorre conjunta e concomitantemente \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o do eu. Esse \u00e9 o momento crucial que tamb\u00e9m \u00e9 destacado na posi\u00e7\u00e3o depressiva concebida por Melanie Klein e no est\u00e1dio do espelho explorado por Lacan.<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o depressiva representa o momento em que o beb\u00ea deixa de se relacionar somente com o seio, as m\u00e3os, a face, os olhos da m\u00e3e, como objetos separados (parciais), e reconhece a m\u00e3e como um objeto total, com seus aspectos bons e maus. Concomitantemente \u00e0 introje\u00e7\u00e3o de objetos cada vez mais totais, o ego tamb\u00e9m se torna mais integrado, menos dividido nos seus componentes bons e maus, e o beb\u00ea se defronta com a pr\u00f3pria ambival\u00eancia. A experi\u00eancia da depress\u00e3o se manifesta no temor de que os pr\u00f3prios impulsos tenham destru\u00eddo o objeto amado, mobilizando, no beb\u00ea, a viv\u00eancia da culpa, ou seja, a necessidade de reparar o objeto de suas puls\u00f5es e fantasias destruidoras (SEGAL, 1975).<\/p>\n<p>Em circunst\u00e2ncias favor\u00e1veis, as repetidas experi\u00eancias de luto e repara\u00e7\u00e3o, de perda e recupera\u00e7\u00e3o, gradualmente, modificam a cren\u00e7a do beb\u00ea na onipot\u00eancia de seus impulsos destrutivos. Nisso consistiria a elabora\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o depressiva. Viv\u00eancias posteriores de perda podem reativar essa experi\u00eancia depressiva infantil. Se a posi\u00e7\u00e3o depressiva foi alcan\u00e7ada, ou ao menos parcialmente elaborada, as dificuldades encontradas no desenvolvimento posterior do indiv\u00edduo n\u00e3o ser\u00e3o de natureza psic\u00f3tica, mas neur\u00f3ticas. Portanto, para Melanie Klein, o desenvolvimento do sentido de realidade ps\u00edquica \u00e9 insepar\u00e1vel do sentido de realidade externa. Concep\u00e7\u00e3o semelhante pode ser encontrada na formula\u00e7\u00e3o de Lacan sobre o est\u00e1dio do espelho.<\/p>\n<p>Segundo Lacan (1949\/1998a), a crian\u00e7a organiza e unifica as sensa\u00e7\u00f5es do corpo fragmentado em uma totalidade por meio de uma imagem especular, em um processo de ancoragem que torna poss\u00edvel a constitui\u00e7\u00e3o do \u201csentimento de si\u201d. A crian\u00e7a busca sinais de confirma\u00e7\u00e3o de sua imagem unificada que lhe chegam pelo olhar, pela voz e pelos gestos maternos. Ao integrar-se nessa imagem unificada, por\u00e9m, a crian\u00e7a tamb\u00e9m sofre uma aliena\u00e7\u00e3o, pois essa imagem especular que a constitui lhe \u00e9 exterior. Nesse processo, permanece um \u201cresto\u201d, que resiste a essa especularidade, uma falta que clama pelo preenchimento e que sustenta a condi\u00e7\u00e3o de desejante do ser humano. O sujeito deseja o que lhe falta; n\u00e3o havendo falta, n\u00e3o h\u00e1 desejo (PERES, 2006).<\/p>\n<p>A resposta a essa falta ser\u00e1 distinta em fun\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a ou n\u00e3o do significante f\u00e1lico. Se ele \u00e9 operante, frente ao vazio da falta, \u00e9 feito um apelo \u00e0 ordem significante. Assim, no luto neur\u00f3tico, o trabalho significante repara a perda, e o objeto ser\u00e1 inscrito na fantasia. Na melancolia, entretanto, devido ao elemento forclusivo, a resposta n\u00e3o se faz por um trabalho significante, e ocorre identifica\u00e7\u00e3o com o objeto perdido. Freud considerava que a libido circula do eu aos objetos, podendo ser investida ou retirada dos mesmos. No entanto, existe uma resist\u00eancia natural da libido em desligar-se, e algo da libido sempre resta no eu, sem representa\u00e7\u00e3o (MATTOS, 2009). Assim \u00e9 que Lacan descreve o \u201cobjeto a\u201d como \u201ca reserva derradeira e irredut\u00edvel da libido\u201d (LACAN, 2005, p. 121), ou como aquilo \u201cque resta de irredut\u00edvel na opera\u00e7\u00e3o do advento do sujeito\u201d (LACAN, 2005, p. 179). A identifica\u00e7\u00e3o do melanc\u00f3lico a esse objeto \u201cresto\u201d da opera\u00e7\u00e3o de constitui\u00e7\u00e3o do sujeito aponta sua posi\u00e7\u00e3o de objeto a, na sua vertente de resto in\u00fatil do simb\u00f3lico (QUINET, 1999). Assim, Lacan deslocou as teorias sobre a rela\u00e7\u00e3o de objeto para uma teoria sobre a falta de objeto.<\/p>\n<p>A ambival\u00eancia foi outro aspecto da melancolia destacado por Freud, como resultado da emerg\u00eancia dos conflitos inconscientes de amor e \u00f3dio ao objeto. Para Abraham (1911\/1970), a ambival\u00eancia do melanc\u00f3lico \u00e9 determinada pelo desapontamento sofrido junto ao objeto na fase oral, que exp\u00f5e o sujeito a efeitos destrutivos nas fases subsequentes: severidade, culpa e incans\u00e1vel necessidade \u2014 e seu irrepar\u00e1vel fracasso \u2014 em reintegrar o objeto. Isso o levaria a um sadismo exacerbado e afastado da consci\u00eancia, que retornaria nos sonhos, em atos sintom\u00e1ticos, nas ideias de culpa ou em tend\u00eancias masoquistas, o que explicaria a atitude passiva e o prazer que os melanc\u00f3licos parecem obter no pr\u00f3prio sofrimento.<\/p>\n<p>Em \u201cO Eu e o Isso\u201d (FREUD, 1923\/1975), Freud apresenta novas concep\u00e7\u00f5es sobre a melancolia, \u00e0 luz da teoria estrutural do funcionamento ps\u00edquico: ela estaria relacionada \u00e0s exig\u00eancias de um supereu extremamente en\u00e9rgico, que ataca implacavelmente o eu. O supereu se converte, ent\u00e3o, em ponto de conflu\u00eancia das tend\u00eancias mort\u00edferas, da\u00ed a m\u00e1xima que \u201co supereu do melanc\u00f3lico \u00e9 pura cultura de puls\u00e3o de morte\u201d. O componente de culpabilidade decorreria das rela\u00e7\u00f5es do eu com o ideal do eu: o eu assume culpas e aceita submeter-se a castigos, por ter introjetado e por estar identificado com o objeto sobre o qual recai a ira do supereu. O sentimento de culpabilidade n\u00e3o alcan\u00e7a tamanha dimens\u00e3o nos neur\u00f3ticos, porque eles apelariam a outros mecanismos para defender-se do sadismo do supereu, por exemplo, recorrendo ao Outro para regular o gozo ou \u00e0 absor\u00e7\u00e3o do gozo pelo simb\u00f3lico (PERES, 2003).<\/p>\n<p>Em \u201cKant com Sade\u201d (LACAN, 1962\/1998b), Lacan descreve a \u201cdor de existir em estado puro\u201d do melanc\u00f3lico. A dor de existir \u00e9 aquilo que retira do sujeito toda a ilus\u00e3o, todo o sentido e todo o apego ao objeto. Contra seus golpes, a fun\u00e7\u00e3o do desejo se exerce e confere subst\u00e2ncia \u00e0 exist\u00eancia. A dor de existir \u00e9 uma realidade em todas as estruturas cl\u00ednicas, mas se revela com tal extens\u00e3o e intensidade no melanc\u00f3lico que a pr\u00f3pria \u201crealiza\u00e7\u00e3o da vida pode confundir-se com o anseio de p\u00f4r fim a ela\u201d. Privado da fun\u00e7\u00e3o protetora do desejo, o sujeito melanc\u00f3lico \u00e9 confrontado com a dor de existir em estado puro e pode escolher a morte como solu\u00e7\u00e3o (SANTIAGO, 2009).<\/p>\n<p>Em \u201cTelevis\u00e3o\u201d, Lacan (1974\/2003) alinha a tristeza em uma perspectiva \u00e9tica, definindo-a como uma covardia moral. Ao contr\u00e1rio do que faz supor o termo m\u00e9dico depress\u00e3o, tal estado n\u00e3o pode ser reduzido \u00e0 sua base no corpo e nem uniformizado quanto \u00e0 simples grada\u00e7\u00e3o da causa e de seus efeitos. O termo depress\u00e3o tem car\u00e1ter pouco discriminativo em termos de diagn\u00f3stico. Diante de um estado depressivo, seria preciso delimitar uma covardia repressora, na qual o \u201cn\u00e3o quero saber nada sobre isso\u201d n\u00e3o seria incompat\u00edvel com a admiss\u00e3o do inconsciente; de outra, a covardia forclusiva pr\u00f3pria das psicoses.<\/p>\n<p>V\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es melanc\u00f3licas tornam-se intelig\u00edveis quando entendidas sob a perspectiva dos efeitos da foraclus\u00e3o. Colette Soler (2010) prop\u00f5e sua ordena\u00e7\u00e3o em dois grupos: os fen\u00f4menos de mortifica\u00e7\u00e3o e o del\u00edrio de indignidade.<\/p>\n<p>A entrada da linguagem implica uma subtra\u00e7\u00e3o de vida, revelada na neurose pela castra\u00e7\u00e3o, mutila\u00e7\u00e3o parcial do gozo que ser\u00e1 compensada com o apelo aos objetos. Em outras palavras, o menos-de-gozo da castra\u00e7\u00e3o condiciona a busca neur\u00f3tica por objetos mais-de-gozo. Nas psicoses, a inst\u00e2ncia da perda se absolutiza, e a subjetiva\u00e7\u00e3o posterior dessa perda prim\u00e1ria define a diferen\u00e7a entre elas. Na melancolia, essa falta constitutiva \u00e9 subjetivada como dor moral e adquire o sentido de culpa, assumida pelo sujeito como uma certeza n\u00e3o dialetiz\u00e1vel, da\u00ed o del\u00edrio de indignidade. O melanc\u00f3lico cr\u00ea n\u00e3o possuir nada daquilo que poderia dar valor \u00e0 vida (amor, fortuna, for\u00e7a, coragem, etc.). Ao contr\u00e1rio do paranoico, que \u00e9 fundamentalmente inocente e identifica o gozo no lugar do Outro ao qual dirige suas recrimina\u00e7\u00f5es, o melanc\u00f3lico dirige acusa\u00e7\u00f5es a si mesmo. A autodifama\u00e7\u00e3o seria uma vers\u00e3o pr\u00f3pria do empuxo-\u00e0-mulher nos melanc\u00f3licos, vers\u00e3o assoladora porque desvela um gozo masoquista que n\u00e3o encontra Outro com quem fazer um par. De modo que, quando o sujeito ainda espera um castigo externo, isso n\u00e3o \u00e9 de todo desfavor\u00e1vel, pois essa expectativa ainda o enla\u00e7a a um Outro que seja capaz de expiar sua culpa (SOLER, 2010).<\/p>\n<p>Lacan caracterizou a alucina\u00e7\u00e3o como fen\u00f4meno paradigm\u00e1tico de retorno do significante no real, t\u00edpico das psicoses. Outros fen\u00f4menos podem ser entendidos pelo mesmo mecanismo, ou seja, o retorno no real tamb\u00e9m pode apresentar-se como perplexidade, anarquia da intencionalidade, desregula\u00e7\u00e3o dos ritmos vitais, altera\u00e7\u00f5es na viv\u00eancia do tempo, fen\u00f4menos que s\u00e3o observados em todas as psicoses. Diferentemente de outras psicoses, tipicamente desencadeadas pelo encontro com Um-Pai (LACAN, 1958\/1998, p. 584), a melancolia \u00e9 frequentemente desencadeada por uma perda, que suscita tais experi\u00eancias de mortifica\u00e7\u00e3o, como a inibi\u00e7\u00e3o psicomotora, a ins\u00f4nia e a anorexia. No melanc\u00f3lico, tais manifesta\u00e7\u00f5es s\u00e3o diferentes de seus hom\u00f3logos neur\u00f3ticos, pois desvelam a perturba\u00e7\u00e3o vital produzida pela modifica\u00e7\u00e3o libidinal, com retorno do vetor do desejo sobre o pr\u00f3prio sujeito (SOLER, 2010).<\/p>\n<p>Freud reconheceu a tend\u00eancia da melancolia em transformar-se em seu estado sintom\u00e1tico oposto, a mania. Os textos psicanal\u00edticos n\u00e3o apresentam, sobre a mania, teorias t\u00e3o elaboradas como para a melancolia. Comumente, as explica\u00e7\u00f5es anal\u00edticas da melancolia foram estendidas \u00e0 mania, como uma ant\u00edtese. A mania representaria um triunfo do eu sobre a perda do objeto, deixando libido livre para investir vorazmente em novos objetos.<\/p>\n<p>Do ponto de vista estrutural, a altern\u00e2ncia entre melancolia e mania foi entendida como uma libera\u00e7\u00e3o do eu subsequente \u00e0 cruel supress\u00e3o do eu pelo supereu (FREUD, 1927\/1975). A ela\u00e7\u00e3o man\u00edaca ser\u00e1 comparada \u00e0 festa, \u00e0 alegria da transgress\u00e3o, \u00e0 liberdade libidinal; resultado da interrup\u00e7\u00e3o moment\u00e2nea da a\u00e7\u00e3o censora do ideal do eu. Ela corresponderia ao triunfo da coincid\u00eancia tempor\u00e1ria do eu com o ideal do eu, interrompendo a repress\u00e3o e o gasto ps\u00edquico que ela exigia, com libera\u00e7\u00e3o de energia, convertida em afetos (FREUD, 1921\/1975).<\/p>\n<p>Para Abraham, o man\u00edaco estaria arrebatado por suas puls\u00f5es orais, entregue a uma embriaguez de liberdade e grandeza, decorrentes do enfraquecimento da repress\u00e3o. Melanie Klein trouxe a no\u00e7\u00e3o de \u201cdefesa man\u00edaca\u201d como uma nega\u00e7\u00e3o da realidade ps\u00edquica, sem distinguir a nega\u00e7\u00e3o repressiva e a nega\u00e7\u00e3o forclusiva (SOLER, 2010).<\/p>\n<p>Lacan (1974\/2003) definiu a excita\u00e7\u00e3o man\u00edaca como \u201co retorno no real daquilo que foi recha\u00e7ado de linguagem\u201d. Portanto, o mesmo triunfo da inst\u00e2ncia negativa da linguagem pode tomar a forma do abatimento mort\u00edfero da melancolia ou da excita\u00e7\u00e3o man\u00edaca. Por\u00e9m, o pr\u00f3prio Lacan prop\u00f4s uma distin\u00e7\u00e3o entre ambas no que se refere \u00e0 fun\u00e7\u00e3o do objeto a (LACAN, 2005, p.364-365). Na mania, o que est\u00e1 em causa \u00e9 a n\u00e3o-fun\u00e7\u00e3o do objeto a, ou seja, o sujeito n\u00e3o se apoia nesse objeto, ficando entregue \u00e0 meton\u00edmia l\u00fadica e sem limites da cadeia significante, bem exemplificada pelos fen\u00f4menos de fuga de ideias (FERRARI, 2006).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>ABRAHAM, K. (1911). \u201cNotas sobre as investiga\u00e7\u00f5es e o tratamento psicoanal\u00edtico da psicose man\u00edaco-depressiva e estados afins\u201d, In: ______. Teoria psicanal\u00edtica da libido: sobre o car\u00e1ter e o desenvolvimento da libido. Rio de Janeiro: Imago, 1970, p.32-50.<\/h6>\n<h6>FERRARI, I. F. \u201cMelancolia: de Freud a Lacan, a dor de existir\u201d, Latin-American Journal of Fundamental Psychopathology on Line, vol.1, n.6, 2006, p. 105-115.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1895). \u201cLos or\u00edgenes del psicoanalisis. Manuscrito G: Melancolia\u201d, In: ______. Obras completas. Madrid: Biblioteca Nueva, 1975, tomo IX, p. 3.503-3.508.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1917). \u201cDuelo y melancolia\u201d, In: ______. Obras completas. Madrid: Biblioteca Nueva, 1975, tomo VI, p. 2.090-2.100.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1921). \u201cPsicologia de las masas y analisis del yo\u201d, In: ______. Obras completas. Madrid: Biblioteca Nueva, 1975, tomo VII, p. 2.563-2.610.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1923). \u201cEl yo y el ello\u201d, In: ______. Obras completas. Madrid: Biblioteca Nueva, 1975, tomo VII, p. 2.701-2.728.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1927). El Humor, In: ______. Obras completas. Madrid: Biblioteca Nueva, 1975, tomo VIII, p. 2.997-3.000.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1949). \u201cO est\u00e1dio do espelho como formador da fun\u00e7\u00e3o do eu\u201d, In: ______. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998a, p. 96-103.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1962). \u201cKant com Sade\u201d, In: ______. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998b, p.776-803.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Semin\u00e1rio, livro X: a ang\u00fastia. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1974). \u201cTelevis\u00e3o\u201d, In: ______. Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 508-543.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1957-1958). \u201cDe uma quest\u00e3o preliminar a todo tratamento poss\u00edvel da psicose\u201d, In: ______. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 537-590.<\/h6>\n<h6>MATTOS, C. P. \u201cUm tempo para a perda: articula\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o do objeto a\u201d, Curinga, Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise \u2013 Se\u00e7\u00e3o Minas, n.29, 2009, p. 59-62.<\/h6>\n<h6>PERES, U. T. \u201cDepress\u00e3o e melancolia\u201d, In: Psican\u00e1lise passo a passo 22. 2.ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.<\/h6>\n<h6>QUINET, A. \u201cFen\u00f4menos elementares e del\u00edrio na melancolia para Jules S\u00e9glas\u201d, In: ______. Extravios do desejo: depress\u00e3o e melancolia. 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E-mail:\u00a0<span id=\"cloak4d8c9f785657730a90e8cfcd7b9f1b43\"><a href=\"mailto:adautoclemente@yahoo.com.br\">adautoclemente@yahoo.com.br<\/a><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ADAUTO CLEMENTE &nbsp; Em seus primeiros trabalhos, Freud (1895\/1975) comparou a melancolia a uma \u201canestesia ps\u00edquica\u201d, decorrente de diminui\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o ou de evas\u00e3o da energia som\u00e1tica sexual, como uma \u201chemorragia interna\u201d, diminuindo a reserva dispon\u00edvel de libido. Ou seja, a melancolia estaria ligada \u00e0 perda de libido. 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