{"id":604,"date":"2013-03-17T06:54:41","date_gmt":"2013-03-17T09:54:41","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=604"},"modified":"2025-12-01T17:20:49","modified_gmt":"2025-12-01T20:20:49","slug":"apresentacao-de-pacientes-dispositivo-e-discursos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2013\/03\/17\/apresentacao-de-pacientes-dispositivo-e-discursos\/","title":{"rendered":"Apresenta\u00e7\u00e3o De Pacientes: Dispositivo E Discursos"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>CRISTIANA MIRANDA RAMOS FERREIRA<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/number-14-gray-Jackson-Pollock.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"656\" data-large_image_height=\"900\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-592\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/number-14-gray-Jackson-Pollock.jpg\" alt=\"\" width=\"656\" height=\"900\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/number-14-gray-Jackson-Pollock.jpg 656w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/number-14-gray-Jackson-Pollock-219x300.jpg 219w\" sizes=\"auto, (max-width: 656px) 100vw, 656px\" \/><\/a><\/h2>\n<p>Na tese Apresenta\u00e7\u00e3o de pacientes: dispositivo e discursos, investiga-se a pr\u00e1tica de eminentes mestres da apresenta\u00e7\u00e3o: Charcot, Cl\u00e9rambault e Lacan. A partir da an\u00e1lise das diferen\u00e7as e particularidades de cada perspectiva, a autora encontra elementos para responder \u00e0 quest\u00e3o que se lhe apresentava como um paradoxo: \u201cComo um dispositivo que \u00e9 considerado pela psican\u00e1lise um importante instrumento de interven\u00e7\u00e3o cl\u00ednica, capaz de produzir importantes efeitos terap\u00eauticos em um sujeito psic\u00f3tico, pode ser, ao mesmo tempo, concebido como um instrumento de poder, no qual o paciente \u00e9 publicamente exposto, sem dele retirar qualquer benef\u00edcio?\u201d<\/p>\n<p>Sob a influ\u00eancia das concep\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas de Foucault, localiza-se a origem de uma posi\u00e7\u00e3o fortemente contr\u00e1ria \u00e0 pr\u00e1tica da apresenta\u00e7\u00e3o, considerada por ele como instrumento m\u00e1ximo de abuso do poder m\u00e9dico. Para sustentar esse ponto de vista, Foucault edificou um mito: elegeu Charcot, um neurologista, como a figura mais emblem\u00e1tica da pr\u00e1tica psiqui\u00e1trica.<\/p>\n<p>Por meio da an\u00e1lise das apresenta\u00e7\u00f5es de Charcot, pode-se destacar a diferen\u00e7a entre a apresenta\u00e7\u00e3o de pacientes realizada sob a perspectiva da tradi\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, centrada no corpo, e a desenvolvida conforme a tradi\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica, com foco na fala do paciente. Essa diferencia\u00e7\u00e3o permitiu destacar dois aspectos fundamentais para se construir uma posi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica sobre o tema: 1. entender as consequ\u00eancias que essa distor\u00e7\u00e3o no status quo de Charcot acarretou sobre o imagin\u00e1rio negativo constru\u00eddo em torno da apresenta\u00e7\u00e3o; 2. discernir que o termo \u201capresenta\u00e7\u00e3o de pacientes\u201d designa, de forma gen\u00e9rica, uma multiplicidade de pr\u00e1ticas que se distinguem tanto em seu objeto quanto em seu objetivo, o que faz variarem tanto suas estrat\u00e9gias de interven\u00e7\u00e3o, como os seus efeitos e resultados.<\/p>\n<p>Considerar a diversidade de pr\u00e1ticas conduziu a uma disjun\u00e7\u00e3o entre o que seria o \u201cdispositivo\u201d da apresenta\u00e7\u00e3o e o \u201cdiscurso\u201d que o anima. Tomar os quatro discursos como instrumento para essa an\u00e1lise permitiu definir como dispositivo o seu aspecto estruturante, est\u00e1tico, que congrega tr\u00eas elementos distintos: paciente, p\u00fablico e entrevistador; e o discurso, seu aspecto din\u00e2mico, que orienta a articula\u00e7\u00e3o entre os tr\u00eas elementos. Investigar a apresenta\u00e7\u00e3o de pacientes, sob essa perspectiva, permitiu diferenciar o que \u00e9 efeito do dispositivo propriamente dito, ponto comum em todas as apresenta\u00e7\u00f5es, e o que \u00e9 pr\u00f3prio a cada discurso, cujo efeito ir\u00e1 variar em fun\u00e7\u00e3o daquilo que, em cada um deles, opera como verdade.<\/p>\n<p>Dessa forma, a pesquisa sobre a pr\u00e1tica da apresenta\u00e7\u00e3o de pacientes na psiquiatria, desde seu surgimento at\u00e9 a atualidade, possibilitou perceber como esse dispositivo foi sendo animado pelos diferentes discursos ao longo da hist\u00f3ria, tendo como pano de fundo a varia\u00e7\u00e3o na articula\u00e7\u00e3o entre suas dimens\u00f5es cl\u00ednica e de ensino, assim como sua apropria\u00e7\u00e3o e uso pela psican\u00e1lise. Para proceder a essa an\u00e1lise, a pr\u00e1tica da apresenta\u00e7\u00e3o foi agrupada sob tr\u00eas dimens\u00f5es diferentes, estabelecidas em fun\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia dada \u00e0 fala do paciente: 1) psiquiatria cl\u00e1ssica, cujo car\u00e1ter investigativo encontrava na fala do paciente o seu principal meio de investiga\u00e7\u00e3o diagn\u00f3stica, assim como de constitui\u00e7\u00e3o do saber psiqui\u00e1trico; 2) psiquiatria que se convencionou chamar de \u201cbiologicista\u201d, caracterizada pelo abandono do m\u00e9todo cl\u00ednico de observa\u00e7\u00e3o, em favor do pragmatismo terap\u00eautico, cujo interesse, focalizado nos efeitos das interven\u00e7\u00f5es no corpo, levou a um crescente desinteresse pela fala do paciente e pela precis\u00e3o diagn\u00f3stica; 3) psican\u00e1lise, mais precisamente a abordagem lacaniana, caracterizada pela aposta radical na palavra como via para aceder ao sujeito do inconsciente.<\/p>\n<p>Cada uma dessas perspectivas seria orientada prioritariamente por um dos discursos, o que, consequentemente, incide sobre sua pr\u00e1tica de apresenta\u00e7\u00e3o. Embora, em uma apresenta\u00e7\u00e3o, o apresentador possa recorrer a mais de um dos discursos, toma-se como prevalente aquele sob a luz do qual os impasses se decidem.<\/p>\n<p>Assim, na psiquiatria cl\u00e1ssica, orientada pelo Discurso do Mestre, a apresenta\u00e7\u00e3o de pacientes alcan\u00e7ou lugar de destaque enquanto dispositivo cl\u00ednico, considerando tanto seus efeitos terap\u00eauticos, quanto de esclarecimento diagn\u00f3stico, assim como uma fun\u00e7\u00e3o de ensino e pesquisa da psiquiatria. J\u00e1 a psiquiatria biologicista, sustentada no Discurso Universit\u00e1rio, opera a partir de um saber pr\u00e9vio, o qual se aplica ao paciente. Nessa perspectiva, h\u00e1 um empobrecimento da cl\u00ednica, que vai resultar em um empobrecimento da pr\u00e1tica de apresenta\u00e7\u00e3o, pois o desinteresse pela investiga\u00e7\u00e3o e pela particularidade do caso implica fazer calar o paciente, uma vez que tudo que \u00e9 subjetivo \u00e9 visto como perturbador ao modelo da universaliza\u00e7\u00e3o. Essa \u00e9 a forma de apresenta\u00e7\u00e3o que faz jus \u00e0s cr\u00edticas de Foucault, na medida em que ela perde seu car\u00e1ter cl\u00ednico investigativo, para reduzir-se a um aparelho de exibi\u00e7\u00e3o de fen\u00f4menos e sintomas. Quanto \u00e0 psican\u00e1lise, orientada pelo Discurso do Analista, ao tomar o sujeito no lugar do Outro, possibilita-lhe bordejar, circunscrever o que lhe sucede, de forma a afastar o imposs\u00edvel de suportar a partir de um tratamento pela palavra (LEGUIL, 2004). Consideraram-se, ainda, os movimentos da reforma psiqui\u00e1trica, que, orientados pelo Discurso Hist\u00e9rico, condenaram a apresenta\u00e7\u00e3o de pacientes, classificando-a como um desrespeito aos direitos do cidad\u00e3o\/paciente.<\/p>\n<p>Analisar a apresenta\u00e7\u00e3o de pacientes sob esse ponto de vista levou a um redimensionamento da quest\u00e3o em torno dessa pr\u00e1tica. Afinal, n\u00e3o se trata de discutir se este \u00e9 um dispositivo cl\u00ednico ou did\u00e1tico, pois essas duas dimens\u00f5es podem-se conjugar de diferentes maneiras. O que essa pesquisa permitiu ressaltar \u00e9 que se trata essencialmente de um dispositivo de transmiss\u00e3o, na medida em que, para al\u00e9m de qualquer inten\u00e7\u00e3o, seja ela cl\u00ednica, seja de ensino, o que o p\u00fablico pode testemunhar \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o discursiva que implica um certo fazer do entrevistador com o real colocado em cena pelo psic\u00f3tico. E, ainda mais, como o dispositivo da apresenta\u00e7\u00e3o favorece a presentifica\u00e7\u00e3o do real de gozo, gozo que receber\u00e1 de cada discurso um tratamento diferente, visto que cada discurso implica precisamente uma forma pr\u00f3pria de operar com o real, a apresenta\u00e7\u00e3o de pacientes, em \u00faltima inst\u00e2ncia, revela os recursos e limites de cada discurso para lidar com o real em jogo na loucura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>LEGUIL, F. \u201cLa experiencia enigm\u00e1tica de la psicosis en las presentaciones cl\u00ednicas\u201d, L-ment@l \u2013 Principios para una formaci\u00f3n posible en la presentaci\u00f3n de enfermos, Bogot\u00e1: Edici\u00f3n, 2004, p. 44-47.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Cristiana Miranda Ramos Ferreira<\/strong><\/h6>\n<h6>Psicanalista, doutora em Estudos Psicanal\u00edticos (UFMG), correspondente da EBP &#8211; Se\u00e7\u00e3o Minas, professora na Faculdade de Psicologia \u2013 FEAD. E-mail:\u00a0<span id=\"cloak484fa214243b4baee633006e889e4e41\"><a href=\"mailto:cris.ramos.bhz@gmail.com\">cris.ramos.bhz@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CRISTIANA MIRANDA RAMOS FERREIRA &nbsp; Na tese Apresenta\u00e7\u00e3o de pacientes: dispositivo e discursos, investiga-se a pr\u00e1tica de eminentes mestres da apresenta\u00e7\u00e3o: Charcot, Cl\u00e9rambault e Lacan. A partir da an\u00e1lise das diferen\u00e7as e particularidades de cada perspectiva, a autora encontra elementos para responder \u00e0 quest\u00e3o que se lhe apresentava como um paradoxo: \u201cComo um dispositivo que&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58207,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-604","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-12","category-8","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/604","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=604"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/604\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58210,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/604\/revisions\/58210"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58207"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=604"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=604"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=604"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}