{"id":610,"date":"2013-03-17T06:54:41","date_gmt":"2013-03-17T09:54:41","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=610"},"modified":"2025-12-01T17:21:50","modified_gmt":"2025-12-01T20:21:50","slug":"o-corpo-da-crianca-e-os-discursos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2013\/03\/17\/o-corpo-da-crianca-e-os-discursos\/","title":{"rendered":"O Corpo Da Crian\u00e7a E Os Discursos"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>ANDREA EUL\u00c1LIO DE PAULA FERREIRA, MARGARET PIRES DO COUTO E TEREZA CRISTINA C\u00d4RTES FACURY<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/number-14-gray-Jackson-Pollock.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"656\" data-large_image_height=\"900\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-592\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/number-14-gray-Jackson-Pollock.jpg\" alt=\"\" width=\"656\" height=\"900\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/number-14-gray-Jackson-Pollock.jpg 656w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/number-14-gray-Jackson-Pollock-219x300.jpg 219w\" sizes=\"auto, (max-width: 656px) 100vw, 656px\" \/><\/a><\/h2>\n<p><strong>1 Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Na contemporaneidade, a crian\u00e7a e seu corpo tornaram-se objetos privilegiados nos mais diversos saberes. V\u00e1rios s\u00e3o os discursos que buscam regular, orientar e disciplinar o corpo da crian\u00e7a, esquecendo-se, frequentemente, de que ela \u00e9 um sujeito capaz de interpretar e expressar seu pr\u00f3prio saber.<\/p>\n<p>Hiperativos, deprimidos, f\u00f3bicos, autistas, agressivos, etc., s\u00e3o alguns dos nomes distribu\u00eddos a partir das avalia\u00e7\u00f5es escolares e cient\u00edficas, configurando o momento atual em que grande parte das crian\u00e7as encontra-se categorizada, apagando o tra\u00e7o da singularidade que concerne a cada sujeito.<\/p>\n<p>Ao abordar esse tema, pretendemos investigar como, na atualidade, os discursos \u2014 enquanto modos de aparelhar e\/ou produzir o gozo \u2014 buscam regular as rela\u00e7\u00f5es dos sujeitos crian\u00e7as e seus corpos. Para isso, trabalharemos com a hip\u00f3tese, formulada pelo ensino de Lacan, de que o discurso da ci\u00eancia, e n\u00e3o a ci\u00eancia, pode funcionar segundo a l\u00f3gica do discurso universit\u00e1rio e do discurso do capitalista. A obra cient\u00edfica genu\u00edna n\u00e3o exclui a causa, e, por isso, afirma Lacan (1973\/1993, p. 40), \u201co discurso cient\u00edfico e o discurso hist\u00e9rico t\u00eam quase a mesma estrutura\u201d. Assim, nessa estrutura discursiva, a verdade, como encontro com o real, n\u00e3o \u00e9 eliminada, mas confrontada.<\/p>\n<p>Por outro lado, a psican\u00e1lise, destinada sempre a ser uma ci\u00eancia do particular, permite demonstrar que o discurso anal\u00edtico, ao acolher a crian\u00e7a e seu saber, produz efeitos de histericiza\u00e7\u00e3o sobre seu corpo, demonstrando que esse corpo pode recusar a ditadura dos significantes-mestres produzidos pelo discurso da ci\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>2 O Corpo Da Crian\u00e7a No Discurso Cient\u00edfico<\/strong><\/p>\n<p>Em \u201cAlocu\u00e7\u00e3o sobre as psicoses da crian\u00e7a\u201d, Lacan (1967\/2003) afirma que o corpo \u00e9 mantido na ignor\u00e2ncia pelo sujeito da ci\u00eancia e indaga se chegar\u00edamos a ter direito de desmembr\u00e1-lo em nome dessa ignor\u00e2ncia. Qual \u00e9 a verdade sobre o corpo que a ci\u00eancia tende a ignorar?<\/p>\n<p>Submetida ao imperativo da harmonia, a ci\u00eancia desconhece aquilo que Lacan demonstrou ser a diferen\u00e7a entre ter um corpo e ser um corpo. \u201c\u00c9 totalmente estranho estar localizado num corpo, e n\u00e3o se pode minimizar esta estranheza\u201d (Lacan, 1954-1955\/1985, p. 97). De acordo com Miller (2004), por mais corporal que seja, o ser falante, ao ser feito pelo significante, divide seu ser e seu corpo, produzindo uma falha de identifica\u00e7\u00e3o. \u00c9 por isso que, nesse corpo, se passam coisas imprevistas, coisas que escapam, acontecimentos que deixam tra\u00e7os desnaturais e disfuncionais.<\/p>\n<p>Ao longo da hist\u00f3ria, o corpo se constituiu, gradativamente, como objeto da ci\u00eancia, sendo concebido ora como natureza, ora como m\u00e1quina, at\u00e9 tornar-se objeto de interven\u00e7\u00f5es que v\u00e3o al\u00e9m da finalidade terap\u00eautica. Na tentativa de aprision\u00e1-lo no discurso da ci\u00eancia, o corpo padece, atualmente, cada vez mais, de transtornos inespec\u00edficos, que fazem proliferar os diagn\u00f3sticos m\u00e9dicos. Ele faz sintoma, \u00e9 assolado pela ang\u00fastia, escapando \u00e0 estrat\u00e9gia de dom\u00e1-lo. O grande n\u00famero de sintomas no corpo que chega \u00e0s nossas cl\u00ednicas constitui-se em evid\u00eancias daquilo que fora exclu\u00eddo, ignorado pelo discurso da ci\u00eancia, e que retorna na cena do mundo.<\/p>\n<p>No campo da hist\u00f3ria, Foucault j\u00e1 demonstrou que, desde a \u00e9poca cl\u00e1ssica, o corpo foi descoberto como objeto de poder, de manipula\u00e7\u00e3o e treinamento, na tentativa de torn\u00e1-lo obediente e d\u00f3cil. Para o autor, o s\u00e9culo XVII inaugurou novos m\u00e9todos de controle minuciosos do corpo, que ele nomeou como \u201cm\u00e9todos disciplinares\u201d. Esses m\u00e9todos foram-se tornando f\u00f3rmulas de domina\u00e7\u00e3o cada vez mais aprimoradas. Em Vigiar e punir, publicado originalmente em 1975, Foucault define a disciplina como o \u201cpoder da norma\u201d (Foucault, 1975\/1993, p. 164), que, ao conduzir \u00e0 homogeneidade, permite medir os desvios, tendo como fun\u00e7\u00e3o maior o adestramento. Demonstrou a difus\u00e3o da sociedade disciplinar e de seus mecanismos por meio da vigil\u00e2ncia permanente, exaustiva e onipresente. Para ele, o sucesso do poder disciplinar se deve ao uso de instrumentos simples: o olhar hier\u00e1rquico, a san\u00e7\u00e3o normalizadora e sua combina\u00e7\u00e3o em um procedimento que lhe \u00e9 espec\u00edfico, o exame.<\/p>\n<p>De acordo com Foucault (1975\/1993), a t\u00e9cnica do exame permite que cada indiv\u00edduo seja descrito, mensurado, medido e comparado a outros. Essa t\u00e9cnica faz com que a individualidade de cada corpo entre para uma documenta\u00e7\u00e3o administrativa em que tudo \u00e9 anotado, as atitudes e comportamentos s\u00e3o registrados em detalhes. Os corpos tornam-se leg\u00edveis, d\u00f3ceis e objetivados. N\u00e3o seria esse esquadrinhamento do corpo o que encontramos nas t\u00e9cnicas de avalia\u00e7\u00e3o e de seus protocolos, que visam a descrever e mensurar o comportamento dos sujeitos?<\/p>\n<p>Isso se esclarece, por exemplo, quando observamos a cria\u00e7\u00e3o do protocolo de \u201cIndicadores Cl\u00ednicos de Risco para o Desenvolvimento Infantil\u201d (IRDI), utilizado tanto em creches como nos consult\u00f3rios pedi\u00e1tricos, que tem o objetivo de diagnosticar e tratar o autismo.i Fundamentado em pressupostos te\u00f3ricos psicanal\u00edticos sobre a constitui\u00e7\u00e3o ps\u00edquica de crian\u00e7as de 0 a 36 meses, ele foi elaborado e validado com 31 indicadores cl\u00ednicos de risco para a detec\u00e7\u00e3o precoce de transtornos ps\u00edquicos do desenvolvimento infantil, observ\u00e1veis nos primeiros 18 meses de vida da crian\u00e7a. O IRDI aparece como um instrumento de promo\u00e7\u00e3o de sa\u00fade mental nos primeiros est\u00e1gios do desenvolvimento da crian\u00e7a, pois se entende que os cuidados ps\u00edquicos na inf\u00e2ncia reduzem a incid\u00eancia de dist\u00farbios mentais tanto nessa fase quanto na vida adulta (BERNARDINO; MARIOTTO, 2009).<\/p>\n<p>Ser\u00e1 poss\u00edvel observar e registrar o inconsciente? N\u00e3o ser\u00e1 essa proposta mais uma a alimentar a s\u00e9rie: avalia\u00e7\u00e3o, classifica\u00e7\u00e3o e medicaliza\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Quanto ao fen\u00f4meno contempor\u00e2neo da medicaliza\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as, pensamos que essa seria uma nova t\u00e9cnica disciplinar com o objetivo de controle dos corpos. Por\u00e9m, como operaria essa nova forma de \u201cdisciplinariza\u00e7\u00e3o\u201d?<\/p>\n<p>A teoria dos discursos, desenvolvida por Lacan (1969-1970\/1992), em O Semin\u00e1rio, livro 17: o avesso da psican\u00e1lise, pode ajudar a responder a essa quest\u00e3o. Lacan apresenta os discursos como la\u00e7o social, uma estrutura que ultrapassa a palavra, antecede a fala dos sujeitos, organiza-as, permitindo dar um tratamento ao que escapa \u00e0 articula\u00e7\u00e3o significante, quer dizer, um tratamento ao gozo que se encontra presente em todo la\u00e7o social.<\/p>\n<p>Os quatro discursos que Lacan matemiza \u2014 o discurso do mestre, o discurso hist\u00e9rico, o discurso universit\u00e1rio e o discurso anal\u00edtico \u2014 correspondem a quatro tramas discursivas, quatro lugares de enuncia\u00e7\u00e3o e quatro configura\u00e7\u00f5es significantes diferentes. Eles se diferenciam pela sua posi\u00e7\u00e3o espacial e pela rota\u00e7\u00e3o que os quatro significantes (sujeito, significante-mestre, saber e o objeto a) fazem nos quatro lugares do discurso que, por sua vez, s\u00e3o fixos.<\/p>\n<p>Os quatro lugares, lugar do agente, lugar do outro, lugar da verdade e lugar da produ\u00e7\u00e3o, est\u00e3o assim dispostos:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 160px;\">\u00a0<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/images\/almanaque-anteriores\/almanaque-12\/download.png\" alt=\"\" width=\"375\" height=\"85\" \/><\/p>\n<p>Nossa hip\u00f3tese, como dito anteriormente, \u00e9 que a ci\u00eancia possa desenvolver-se a partir da l\u00f3gica do discurso universit\u00e1rio e tamb\u00e9m do capitalista, como veremos adiante. A estrutura do discurso universit\u00e1rio ajuda a pensar como o saber cient\u00edfico, sustentado na l\u00f3gica do poder disciplinar descrita por Foucault, ocupa-se dos corpos das crian\u00e7as:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 160px;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/images\/almanaque-anteriores\/almanaque-12\/download_1.png\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"91\" \/><\/p>\n<p>Trata-se, ent\u00e3o, da l\u00f3gica do discurso universit\u00e1rio, matemizado por Lacan da seguinte forma:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 240px;\">\u00a0<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/images\/almanaque-anteriores\/almanaque-12\/discurso-univers.png\" width=\"200\" height=\"109\" \/><\/p>\n<p>Nesse mesmo semin\u00e1rio, Lacan analisa as consequ\u00eancias ou os efeitos produzidos quando o saber (S2) est\u00e1 no lugar de agente ou na posi\u00e7\u00e3o dominante do discurso. Para Lacan, no discurso universit\u00e1rio, o S2, o saber, ocupa o lugar da ordem, do mandamento, de forma an\u00f4nima, pois se encontra separado de seu autor. No lugar da verdade (S1), est\u00e1 o significante-mestre operando para portar a ordem do mestre. O mestre n\u00e3o est\u00e1 mais a\u00ed na posi\u00e7\u00e3o de dom\u00ednio, o que permanece \u00e9 seu mandamento, seu imperativo categ\u00f3rico, por meio do saber cient\u00edfico universal e generalizante. O efeito dessa configura\u00e7\u00e3o \u00e9 o desconhecimento da verdade inconsciente e a tirania do saber que se apresenta como \u201cverdade cient\u00edfica\u201d. A verdade do sujeito, verdade, essa, sempre particularizada, \u00e9 rejeitada em prol de uma verdade universal, aquela produzida pela ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Assim, quando o agente do discurso \u00e9 o saber, ele sempre se dirige ao Outro como objeto, \u201cobjetalizando-o\u201d. \u00c9 o mestre que ocupa o lugar da verdade, e o que se produz, nesse discurso, e, ao mesmo tempo, se perde, se exclui, \u00e9 o pr\u00f3prio sujeito do inconsciente, com sua divis\u00e3o.<\/p>\n<p>Na contemporaneidade, verificamos uma perigosa alian\u00e7a entre o saber cient\u00edfico e o capital, potencializando aquilo que Foucault descreveu como objetiva\u00e7\u00e3o dos corpos e que, com o ensino de Lacan, extra\u00edmos como \u201cobjetaliza\u00e7\u00e3o\u201d do sujeito.<\/p>\n<p>Lacan matemizou um quinto discurso, o do capitalista, como uma nova modalidade do discurso do mestre, definindo-o como o la\u00e7o social dominante em nossa sociedade:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 240px;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/images\/almanaque-anteriores\/almanaque-12\/disccapitalista.jpg\" alt=\"\" width=\"195\" height=\"80\" \/><\/p>\n<p>Diferentemente da l\u00f3gica dos outros discursos, o discurso do capitalista tenta eliminar a dimens\u00e3o do imposs\u00edvel ao prometer o acesso direto do sujeito aos objetos e do mestre ao saber. Efetivamente, ele n\u00e3o promove o la\u00e7o entre os sujeitos, mas a rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o objeto, supostamente capaz de recuperar o gozo perdido, que a entrada do ser falante na linguagem instaura.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o saber cient\u00edfico tem como objetivo produzir os objetos de consumo e coloc\u00e1-los \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do sujeito. A divis\u00e3o \u00e9 transformada em d\u00e9ficit, fazendo com que o sujeito transforme seu mal-estar estrutural, a falta da estrutura, em um menos, na ilus\u00e3o de que poder\u00e1 ser preenchido com um objeto produzido e elevado pelo mercado \u00e0 categoria do objeto a. Esse circuito faz funcionar a m\u00e1quina da produ\u00e7\u00e3o incessante de novos objetos a serem consumidos, transformando o pr\u00f3prio sujeito em um desses objetos. O efeito de toda essa maquinaria \u00e9 o recha\u00e7o da divis\u00e3o e sua consequente anula\u00e7\u00e3o do desejo, ao fazer crer que seria poss\u00edvel, e n\u00e3o mais imposs\u00edvel, o encontro com o objeto de satisfa\u00e7\u00e3o. Os medicamentos entrariam na s\u00e9rie desses produtos a serem produzidos, ofertados e consumidos. Ent\u00e3o, como pensar a rela\u00e7\u00e3o entre o corpo da crian\u00e7a e o saber cient\u00edfico, partindo da l\u00f3gica do discurso capitalista?<\/p>\n<p style=\"padding-left: 160px;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/images\/almanaque-anteriores\/almanaque-12\/discursos-600x113.png\" width=\"400\" height=\"76\" \/><\/p>\n<p>Temos, no lugar da verdade, o significante-mestre representado pelos interesses do capital e a l\u00f3gica do mercado. Esse significante-mestre comanda o saber cient\u00edfico e imp\u00f5e a produ\u00e7\u00e3o cada vez maior de novos objetos a serem consumidos: por exemplo, o medicamento. No lugar do agente, temos o sujeito crian\u00e7a com seu corpo n\u00e3o mais tomado como um corpo marcado pela falta, pela dimens\u00e3o traum\u00e1tica que todo corpo apresenta para o ser falante. Ao contr\u00e1rio, temos um corpo marcado pelo signo do d\u00e9ficit, mesmo que pela vertente do excesso, ao escapar ao padr\u00e3o considerado normal. Por isso mesmo, \u00e9 um corpo a ser docilizado, domado, domesticado, silenciado, ao se endere\u00e7ar, sem intermedi\u00e1rios, ao saber cient\u00edfico e ao seu produto: o medicamento. Eliminada a dimens\u00e3o do imposs\u00edvel (sem barras), nesse discurso demonstrado pelas setas que indicam a conex\u00e3o direta, o corpo da crian\u00e7a se torna o objeto da a\u00e7\u00e3o do saber cient\u00edfico, sem as media\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias que poderiam manter a disjun\u00e7\u00e3o entre a verdade e a produ\u00e7\u00e3o presente nos outros discursos.<\/p>\n<p><strong>3 O Corpo Da Crian\u00e7a No Discurso Anal\u00edtico<\/strong><\/p>\n<p>Qual o lugar que o corpo da crian\u00e7a assume no discurso anal\u00edtico?<\/p>\n<p>Para Cristina Drummond (2012), o conceito de objeto a constru\u00eddo por Lacan fornece importantes elementos para tratar a rela\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a com o corpo.<\/p>\n<p>No texto \u201cNota sobre a crian\u00e7a\u201d, de Lacan (1969\/2003), podemos isolar as duas posi\u00e7\u00f5es da crian\u00e7a na estrutura familiar: como sintoma do par parental e como objeto do fantasma da m\u00e3e. Nessa segunda vertente, o autor afirma que a crian\u00e7a se torna o objeto da m\u00e3e e n\u00e3o mais tem outra fun\u00e7\u00e3o sen\u00e3o a de revelar a verdade desse objeto (Lacan, 1969\/2003, p. 369). Trata-se, afirma Lacad\u00e9e (1996), de uma situa\u00e7\u00e3o em que a crian\u00e7a \u00e9 tomada no fantasma da m\u00e3e de tal maneira que vem realizar a presen\u00e7a desse objeto a em seu fantasma. A crian\u00e7a satura esse modo de falta, dando-lhe corpo ou oferecendo seu corpo como objeto condensador de gozo da m\u00e3e. Ela vem saturar a falta da m\u00e3e, condensando sobre seu ser a verdade desse objeto.<\/p>\n<p>Ao comentar o texto \u201cAlocu\u00e7\u00e3o sobre as psicoses da crian\u00e7a\u201d, de Lacan (1967\/2003), Drummond (2012) isola duas consequ\u00eancias dessa teoriza\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a como objeto a para sua m\u00e3e. A primeira delas diz respeito ao questionamento do mito de completude presente na teoriza\u00e7\u00e3o dos p\u00f3s-freudianos sobre a rela\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a com a m\u00e3e. Extrai, da\u00ed, uma orienta\u00e7\u00e3o \u00e9tica ao tratamento anal\u00edtico de crian\u00e7as: \u201copor a que seja o corpo da crian\u00e7a que corresponda ao objeto a\u201d (Lacan, 1967\/2003, p. 366). Trata-se, portanto, de impedir que a crian\u00e7a seja fixada na fantasia materna. A segunda consequ\u00eancia situa o achado cl\u00ednico de Winnicott, afirmando que o ponto central dessa formula\u00e7\u00e3o \u201cn\u00e3o \u00e9 que o objeto transicional preserve a autonomia da crian\u00e7a, mas que a crian\u00e7a sirva ou n\u00e3o de objeto transicional para sua m\u00e3e\u201d (Lacan, 1967\/2003, p. 366).<\/p>\n<p>Ainda de acordo com Drummond (2012), h\u00e1, em muitos dos sintomas das crian\u00e7as, na atualidade, a impossibilidade de fazer a opera\u00e7\u00e3o de separa\u00e7\u00e3o desse lugar de objeto que ela \u00e9 para o outro, e essa impossibilidade retorna sobre o corpo da crian\u00e7a. H\u00e1, nelas, uma enorme dificuldade de interrogar sobre o desejo materno e fazer dessa interroga\u00e7\u00e3o um enigma. Al\u00e9m disso, encontramos nesses sintomas a dificuldade da crian\u00e7a para se separar do lugar de resto de um discurso do mestre ou de um gozo que a produziu.<\/p>\n<p>A problem\u00e1tica que se coloca quando o sintoma se aloja no corpo \u00e9 se o analista poder\u00e1 constituir-se como um destinat\u00e1rio da fala do sujeito, dividindo-o, fazendo surgir sua demanda de saber, enfim, pondo em funcionamento o discurso do inconsciente.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a estrutura do discurso anal\u00edtico ajuda a pensar a opera\u00e7\u00e3o poss\u00edvel e esperada pelo analista:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/images\/almanaque-anteriores\/almanaque-12\/imagem1.jpg\" alt=\"\" width=\"431\" height=\"73\" \/><\/p>\n<p>Trata-se do lugar do analista que, ao se fazer de objeto, endere\u00e7a-se \u00e0 crian\u00e7a como um sujeito dividido e, ao manter seu saber abaixo da barra, permite a ela produzir seu pr\u00f3prio saber e se separar dos significantes-mestres que a capturavam. Nesse sentido, o efeito dessa opera\u00e7\u00e3o seria a histericiza\u00e7\u00e3o do sujeito \u2014 demonstrada por Lacan por meio da l\u00f3gica do discurso hist\u00e9rico \u2014 que pode encontrar nesse dispositivo um lugar de endere\u00e7amento para seu sofrimento. Ao poder endere\u00e7ar-se ao campo do Outro, a partir de sua divis\u00e3o, o sujeito pode supor o inconsciente e produzir um saber sobre esse real que toma seu corpo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/images\/almanaque-anteriores\/almanaque-12\/imagem2.jpg\" alt=\"\" width=\"436\" height=\"93\" \/><\/p>\n<p>Em outro texto, \u201cA crian\u00e7a objetalizada\u201d (2007), Cristina Drummond ressalta que o discurso cient\u00edfico fez do corpo da crian\u00e7a uma mercadoria que pode ser usada e descartada pela ci\u00eancia. Desaloj\u00e1-la desse lugar e se opor que a ci\u00eancia fa\u00e7a do corpo da crian\u00e7a um objeto comercializado, disciplinarizado e medicalizado \u00e9, portanto, uma orienta\u00e7\u00e3o \u00e9tica da psican\u00e1lise.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>BERNARDINO, L. M. F.; MARIOTTO, R. M. M. \u201cDetec\u00e7\u00e3o de riscos ps\u00edquicos em beb\u00eas de ber\u00e7\u00e1rios de Centros Municipais de Educa\u00e7\u00e3o Infantil de Curitiba\u201d, In: CONGRESSO NACIONAL DE EDUCA\u00c7\u00c3O, 9. E ENCONTRO SUL BRASILEIRO DE PSICOPEDAGOGIA, 3., Curitiba, PUCPR, 26 a 29 de outubro de 2009.<\/h6>\n<h6>DRUMMOND, C. \u201cA crian\u00e7a objetalizada\u201d, Almanaque on-line, Revista Eletr\u00f4nica do IPSM-MG, n. 1, jul.\/dez., 2007.<\/h6>\n<h6>DRUMMOND, C. Como se opor a que se seja o corpo da crian\u00e7a que corresponda ao objeto a. Belo Horizonte: N\u00facleo de Pesquisa e Psican\u00e1lise com Crian\u00e7as, Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental de Minas de Gerais, 2012.<\/h6>\n<h6>FOUCAULT, M. (1975). Vigiar e punir: hist\u00f3ria da viol\u00eancia nas pris\u00f5es. Petr\u00f3polis: Vozes, 1993.<\/h6>\n<h6>LACAD\u00c9E, P. \u201cDuas refer\u00eancias essenciais de J. Lacan sobre o sintoma da crian\u00e7a\u201d, Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, S\u00e3o Paulo, n. 17, p. 74-82, nov. 1996.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1954-1955). O Semin\u00e1rio, livro 2: o eu na teoria de Freud e na t\u00e9cnica da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1967). \u201cAlocu\u00e7\u00e3o sobre as psicoses da crian\u00e7a\u201d, In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p.359-368.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1969). \u201cNota sobre a crian\u00e7a\u201d, In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1969-1970). O Semin\u00e1rio, livro 17: o avesso da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1973). Televis\u00e3o. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cBiologia lacaniana e acontecimentos de corpo\u201d, Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise, S\u00e3o Paulo, n. 41, p.7-67, dez. 2004.<\/h6>\n<h6>1 O protocolo IRDI foi desenvolvido pelo Grupo Nacional de Pesquisa sob a Chancela do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e da Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo (FAPESP), no per\u00edodo entre 2001 e 2008.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Andrea Eul\u00e1lio De Paula Ferreira, Margaret Pires Do Couto E Tereza Cristina C\u00f4rtes Facury<\/strong><\/h6>\n<h6>Andrea Eul\u00e1lio de Paula Ferreira &#8211; Psicanalista, mestranda em Estudos Psicanal\u00edticos (UFMG). E-mail:\u00a0<span id=\"cloak4c49b372c1cccbb3803ac86c743892e2\"><a href=\"mailto:andrea.eulalio@hotmail.com\">andrea.eulalio@hotmail.com<\/a><\/span>. Margaret Pires do Couto &#8211; Psicanalista, doutora em Educa\u00e7\u00e3o pela Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da UFMG, professora do curso de Psicologia do Centro Universit\u00e1rio Newton Paiva. E-mail:\u00a0<span id=\"cloak7f5d6aca3532a6557254cf07c52947a3\"><a href=\"mailto:mpcouto@uol.com.br\">mpcouto@uol.com.br<\/a><\/span>. Tereza Cristina C\u00f4rtes Facury &#8211; Psicanalista, mestra em Estudos Psicanal\u00edticos pela UFMG. E-mail:\u00a0<span id=\"cloak99f9bcf6443ff93972a8ffdd4db62313\"><a href=\"mailto:terezafacury@gmail.com\">terezafacury@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ANDREA EUL\u00c1LIO DE PAULA FERREIRA, MARGARET PIRES DO COUTO E TEREZA CRISTINA C\u00d4RTES FACURY &nbsp; 1 Introdu\u00e7\u00e3o Na contemporaneidade, a crian\u00e7a e seu corpo tornaram-se objetos privilegiados nos mais diversos saberes. V\u00e1rios s\u00e3o os discursos que buscam regular, orientar e disciplinar o corpo da crian\u00e7a, esquecendo-se, frequentemente, de que ela \u00e9 um sujeito capaz de&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58207,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-610","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-12","category-8","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/610","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=610"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/610\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58212,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/610\/revisions\/58212"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58207"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=610"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=610"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=610"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}