{"id":612,"date":"2013-03-17T06:54:41","date_gmt":"2013-03-17T09:54:41","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=612"},"modified":"2025-12-01T17:23:42","modified_gmt":"2025-12-01T20:23:42","slug":"almanaque-on-line-entrevista-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2013\/03\/17\/almanaque-on-line-entrevista-4\/","title":{"rendered":"Almanaque On-Line Entrevista"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>\u00a0S\u00c9RGIO LAIA &#8211; DIRETOR EXECUTIVO DO VI ENAPOL PELA EBP<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Lygia-Pape-TTeia-2002.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"1000\" data-large_image_height=\"761\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-613\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Lygia-Pape-TTeia-2002.jpg\" alt=\"\" width=\"1000\" height=\"761\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Lygia-Pape-TTeia-2002.jpg 1000w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Lygia-Pape-TTeia-2002-300x228.jpg 300w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Lygia-Pape-TTeia-2002-768x584.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/a><\/h2>\n<p><strong>1) O Corpo Est\u00e1 Em Discuss\u00e3o. O IPSM-MG Tem-Se Ocupado Da Explora\u00e7\u00e3o Do Tema Do VI ENAPOL E Prop\u00f5e, Para Esta Entrevista, A Articula\u00e7\u00e3o \u201cO Corpo Sob Transfer\u00eancia\u201d, O Corpo Tomado Pela Incid\u00eancia Do Discurso Anal\u00edtico No S\u00e9culo XXI. O T\u00edtulo Do VI ENAPOL, Falar Com O Corpo, E Seu Subt\u00edtulo, \u201cA Crise Das Normas E A Agita\u00e7\u00e3o Do Real\u201d, Apresentam, Segundo Seu Texto Publicado No Site Do Encontro (LAIA, 2013), Um Programa Da Psican\u00e1lise De Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana, Frente Ao Desencanto Contempor\u00e2neo Com Os \u201cPoderes Da Palavra\u201d, Em Sua Decis\u00e3o De \u201cFalar Com O Corpo\u201d E Persistir Na \u201cTrama Corpo-Linguagem\u201d Para Ler Os Sintomas E Abordar A Generaliza\u00e7\u00e3o Das Normas Como Uma Crise Das Normas, Uma Resposta Ao Seu Fracasso Atrav\u00e9s De Um Recrudescimento.<\/strong><\/p>\n<p>Que Tratamento A Psican\u00e1lise Pode Oferecer Ao Corpo, Considerando Os Novos Usos Que Se Apresentam Na Cl\u00ednica De Hoje?<br \/>\nMesmo com todas as cr\u00edticas e at\u00e9 persegui\u00e7\u00f5es que a psican\u00e1lise vem sofrendo nestes tempos, estimo que estamos em um momento oportuno, ainda que isso n\u00e3o implique qualquer conforto. Primeiro, porque essas cr\u00edticas e essas persegui\u00e7\u00f5es podem e devem ser enfrentadas por n\u00f3s, analistas (e aqui j\u00e1 introduzo o tema que voc\u00eas elegeram para esta entrevista), como uma transfer\u00eancia apresentada na faceta que Freud j\u00e1 chamava de \u201ctransfer\u00eancia negativa\u201d. Al\u00e9m disso, vivemos em um mundo onde \u00e9 intenso o apelo que se faz ao corpo:<\/p>\n<p>No que concerne mais especificamente \u00e0s terap\u00eauticas, uma boa parte das propostas atuais reduz os sintomas a \u201ctranstornos\u201d que, embora qualificados de \u201cmentais\u201d, encontram nos corpos um lugar em que eles ganham consist\u00eancia e no qual devem ser feitas as interven\u00e7\u00f5es terap\u00eauticas. Afinal, \u201clocaliza\u00e7\u00f5es cerebrais\u201d e \u201cmarcadores biol\u00f3gicos\u201d s\u00e3o buscados como formas de se conferir maior objetividade ao diagn\u00f3stico e ao tratamento, que, muitas vezes, \u00e9 necessariamente associado ou mesmo restrito a medicamentos.<\/p>\n<p>Quanto ao que caracteriza, de modo geral, nossa civiliza\u00e7\u00e3o, sen\u00e3o tudo, certamente, uma grande parte do que se prop\u00f5e e se experimenta, hoje, como \u201cmodos\u201d ou \u201cestilos\u201d de vida implica o corpo em sua exig\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o constante.<\/p>\n<p>Ora, a psican\u00e1lise \u00e9 uma experi\u00eancia que se faz com o corpo e no corpo. Portanto, ela tem toda condi\u00e7\u00e3o para responder \u00e0s incita\u00e7\u00f5es que nossa civiliza\u00e7\u00e3o faz aos corpos como campo privilegiado de satisfa\u00e7\u00e3o, bem como \u00e0s redu\u00e7\u00f5es pelas quais muitas terap\u00eauticas atuais tomam os sintomas, identificando-os apenas como o que \u00e9 som\u00e1tico. Nossa diferen\u00e7a (e tamb\u00e9m nosso desafio em termos de implanta\u00e7\u00e3o e reitera\u00e7\u00e3o neste mundo) \u00e9 que, para n\u00f3s, os corpos s\u00e3o o que eu chamaria de caixas de resson\u00e2ncia e tamb\u00e9m de disson\u00e2ncia, ressaltando que esses \u201csons\u201d corporais n\u00e3o s\u00e3o capt\u00e1veis nem pelos tradicionais e tamb\u00e9m cada vez mais sofisticados aparelhos de \u201cultrassonografia\u201d, nem pela tecnologia de ponta instrumentalizada como \u201cresson\u00e2ncia magn\u00e9tica\u201d. Afinal, esses sons manifestam-se, segundo nos ensina Lacan, como \u201cno corpo, o eco do fato de que h\u00e1 um dizer\u201d (LACAN, 1975-1976\/2007, p. 18), ou seja, eles s\u00e3o pulsionais. Embora sejam \u00e0s puls\u00f5es que a civiliza\u00e7\u00e3o procura responder (silenciando-as, nos tempos mais repressivos, ou, como acontece mais em nossa atualidade, mais permissiva, incitando-as), embora seja tamb\u00e9m algo das puls\u00f5es que muitas terap\u00eauticas contempor\u00e2neas \u2014 mesmo sem usarem tal nome \u2014 prop\u00f5em controlar (como no caso dos \u201chiperativos\u201d), ou incitar (como no caso dos \u201cdeprimidos\u201d), \u00e9 a psican\u00e1lise que consolidou modos efetivos para que possamos abord\u00e1-las e viv\u00ea-las. \u00c9 na experi\u00eancia anal\u00edtica que se pode constatar o quanto as palavras afetam os corpos e o quanto ansiamos para falar com os corpos e tamb\u00e9m para faz\u00ea-los falar. Por conseguinte, embora se tente muito isso hoje em dia, n\u00e3o h\u00e1 como livrar os corpos vivos desse tipo de afec\u00e7\u00e3o. Por isso, conforme eu lhes dizia inicialmente, temos de nos haver hoje com uma enorme transfer\u00eancia negativa quanto \u00e0 psican\u00e1lise e nos encontramos, concomitantemente, em um momento oportuno.<\/p>\n<p><strong>2) Segundo \u00c9ric Laurent (2013), \u201cA Crise Das Normas E A Agita\u00e7\u00e3o Do Real\u201d Remetem-Nos A Uma Dupla S\u00e9rie Causal: De Um Lado, \u201cOs Corpos S\u00e3o Muito Mais Deixados Por Sua Pr\u00f3pria Conta, Marcando-Se Febrilmente Com Signos Que N\u00e3o Chegam A Lhes Dar Consist\u00eancia E, Por Outro Lado, A Agita\u00e7\u00e3o Do Real Pode Ser Lida Como Uma Das Consequ\u00eancias Da \u2018Ascens\u00e3o Ao Z\u00eanite Do Objeto A\u2019.\u201d<\/strong><br \/>\n<strong>Quais As Consequ\u00eancias Dessa Constata\u00e7\u00e3o Na Dire\u00e7\u00e3o De Um Tratamento Em Nossos Dias, Que Pretende Fundamentar-Se Na Teoria E \u00c9tica Lacanianas?<\/strong><\/p>\n<p>Parece-me que minha resposta \u00e0 quest\u00e3o anterior j\u00e1 antecipa elementos que respondem a esta segunda. Quais s\u00e3o os \u201csignos\u201d (para tomar aqui a passagem de \u00c9ric Laurent citada por voc\u00eas) que n\u00e3o chegam a \u201cdar consist\u00eancia\u201d aos corpos, mas que os marcam \u201cfebrilmente\u201d? H\u00e1 uma multiplicidade deles: \u201ctatuagens\u201d, \u201cdrogas\u201d, \u201cbaladas\u201d, \u201csilicones\u201d, \u201cenerg\u00e9ticos\u201d, \u201ccelulares\u201d, \u201croupas\u201d, \u201cTPM\u201d, \u201cponto G\u201d, \u201cViagra\u201d, \u201csexo\u201d\u2026 etc\u2026. Essa variedade, que cada vez se multiplica mais, mostra, concomitantemente, como o \u201cobjeto a\u201d, por ser efetivamente um \u201ccondensador\u201d de gozo, ou seja, de satisfa\u00e7\u00e3o, encontra-se em ascens\u00e3o no mundo contempor\u00e2neo, mas ela tamb\u00e9m evidencia, especialmente para quem \u00e9 sens\u00edvel \u00e0 escuta anal\u00edtica, o fracasso desses signos em dar aos corpos alguma consist\u00eancia. Em outros termos, h\u00e1 uma produ\u00e7\u00e3o de m\u00faltiplos objetos e uma busca incessante por eles porque n\u00e3o h\u00e1 efetivamente objeto capaz de suturar o vazio que faz os dizeres ecoarem nos corpos. Por sua vez, a experi\u00eancia anal\u00edtica tem como cingir e responder a tal vazio sem ser pela prolifera\u00e7\u00e3o dos objetos. Nossos consult\u00f3rios de psican\u00e1lise, bem como os atendimentos e interven\u00e7\u00f5es que muitos de n\u00f3s fazem nas institui\u00e7\u00f5es de sa\u00fade, de defesa social e de ensino comportam muitos exemplos de como os corpos s\u00e3o objetos de intensos investimentos, de incisivas interven\u00e7\u00f5es, mas sem que isso resulte em alguma consist\u00eancia para aqueles que se apresentam com eles, visando a um tratamento, um acolhimento, uma resposta. Entre esses exemplos, eu citaria: a busca incessante pelo \u201cover\u201d nas toxicomanias, que ganha, com o crack, um vi\u00e9s ainda mais tenebroso, o \u201cmenor abandonado\u201d, cuja trajet\u00f3ria de infra\u00e7\u00f5es o faz sempre ser abandonado, o entediado, que vaga pelas noites ou pelos shoppings, sem encontrar o que ele n\u00e3o sabe que est\u00e1 procurando, a anor\u00e9xica, que recusa o alimento para, insistentemente, comer nada, aquele que n\u00e3o encontra mais lugar no corpo para mais uma tatuagem\u2026<\/p>\n<p>Sobre como a psican\u00e1lise pode tratar essas inconsist\u00eancias, essas experi\u00eancias de esvaimento dos corpos manifestada na pr\u00f3pria apresenta\u00e7\u00e3o dos corpos como objetos, eu j\u00e1 destaquei, na primeira resposta, e tamb\u00e9m no meu texto (LAIA, 2013), que se encontra no site do VI ENAPOL (evocado tamb\u00e9m, a princ\u00edpio, por voc\u00eas): nossas interven\u00e7\u00f5es se valem da \u201ctrama corpo-linguagem\u201d, da escuta do que ecoa, inclusive nessas inconsist\u00eancias corporais, como dizer. A transfer\u00eancia, nesse contexto, \u00e9 decisiva, pois os corpos inconsistentes de hoje n\u00e3o param de buscar os corpos, e, nessa trajet\u00f3ria, o corpo do analista pode fazer diferen\u00e7a entre os m\u00faltiplos corpos que servem como anteparo, \u00e2ncora, b\u00fassola, mas tamb\u00e9m como dilui\u00e7\u00e3o, err\u00e2ncia, perdi\u00e7\u00e3o aos corpos agitados de hoje. Por fim, se a \u00e9tica da psican\u00e1lise se vale da orienta\u00e7\u00e3o de n\u00e3o ceder quanto ao desejo, de agir em conformidade com o desejo (segundo os termos de Lacan, no Semin\u00e1rio 7, 1959-1960\/1988, p. 373-390), encontro, em uma passagem do primeiro testemunho de Marcus Andr\u00e9 Vieira como A.E. (Analista da Escola), uma indica\u00e7\u00e3o preciosa para articularmos tal orienta\u00e7\u00e3o com a defini\u00e7\u00e3o lacaniana da puls\u00e3o, no Semin\u00e1rio 23, como \u201cno corpo, o eco do fato de que h\u00e1 um dizer\u201d (LACAN, 1975-1976\/2007, p. 18). Tematizando exatamente como a transfer\u00eancia permitiu-lhe abrir \u201cum espa\u00e7o corporal sem lugar e forma claros\u201d e tamb\u00e9m marcado por \u201cnada do Outro\u201d, ou seja, alheio a qualquer refer\u00eancia, no qual \u201cecoavam as interven\u00e7\u00f5es sonoras do analista e que sentia sua presen\u00e7a, reagindo \u00e0 sua voz de outra forma\u201d, Marcus Andr\u00e9 Vieira nos mostra como a experi\u00eancia anal\u00edtica deu-lhe alguma consist\u00eancia para o \u201ctanto de gozo fora do corpo, de vida que n\u00e3o cabe na vida e se manifestava como vontade\u201d de ele, Marcus, se \u201clan\u00e7ar para dentro e n\u00e3o para fora, para o encontro com um desejo a descobrir e n\u00e3o a antecipar\u201d (VIEIRA, 2013, p. 31, grifos do entrevistado). Considero preciosa tal passagem, no que concerne \u00e0 \u00e9tica da psican\u00e1lise e \u00e0 experi\u00eancia anal\u00edtica hoje, porque, em nosso mundo, tomado pelo imperativo da satisfa\u00e7\u00e3o, os corpos est\u00e3o sempre \u00e0s voltas com o desejo a antecipar, e \u00e0 experi\u00eancia anal\u00edtica cabe suscitar o que poder\u00e1 apresentar-se como um desejo a descobrir. \u00c9 desse desejo a descobrir que n\u00e3o se deve ceder, e \u00e9 esse desafio que sustentamos na experi\u00eancia anal\u00edtica, particularmente hoje em dia, quando o mundo \u00e9 assolado pela urg\u00eancia de se antecipar o desejo para que se possa garantir a onipresen\u00e7a da satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>3) Ainda Hoje, Poder\u00edamos Constatar, Como Freud, Que \u201cSempre Resta O Sintoma, Na Medida Em Que Ele Interroga Cada Um Sobre O Que Vem Incomodar-Lhe O Corpo\u201d. Entretanto, \u00c9ric Laurent (2013) Nos Alerta De Que \u201cPrecisamos Conceber O Sintoma N\u00e3o Com Base Na Cren\u00e7a No Nome-Do-Pai, Mas Baseados Na Efetividade Da Pr\u00e1tica Psicanal\u00edtica\u201d.<\/strong><br \/>\n<strong>O Que Significa, Para A Apresenta\u00e7\u00e3o E O Manejo Da Transfer\u00eancia, Ir Para \u201cAl\u00e9m Do Sintoma Hist\u00e9rico, Que Sup\u00f5e, No Horizonte, O Amor Ao Pai\u201d?<\/strong><\/p>\n<p>O amor ao analista, isto \u00e9, o investimento que liga o analisando ao analista, pode ter o amor ao pai como uma das formas pelas quais a transfer\u00eancia se processa. Freud mesmo fala do analista como um \u201csubstituto\u201d dos primeiros objetos de investimento libidinal, e o pai se encontra entre esses objetos. Mas a transfer\u00eancia e seu manejo n\u00e3o se reduzem a isso. Mesmo quando tomamos a transfer\u00eancia, tal qual Freud, como uma forma de \u201cneurose\u201d forjada na pr\u00f3pria experi\u00eancia anal\u00edtica, ela n\u00e3o \u00e9 mera repeti\u00e7\u00e3o do que se passou e n\u00e3o foi elaborado. A parte em que o sintoma se trama com o amor ao pai \u00e9, a meu ver, mesmo sob a forma de \u201cneurose de transfer\u00eancia\u201d, aquela que \u00e9 decifr\u00e1vel, inclusive porque o Nome-do-Pai tem, segundo podemos ler na \u201cmet\u00e1fora paterna\u201d, a fun\u00e7\u00e3o de traduzir, decifrar o enigma do \u201cDesejo da M\u00e3e\u201d (LACAN, 1957-1958\/1998, p. 563). Entretanto, como nos vai ensinar um Lacan mais tardio em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quele dessa opera\u00e7\u00e3o de metaforiza\u00e7\u00e3o, \u201cuma mensagem decifrada pode continuar a ser um enigma\u201d (LACAN, 1973\/2003, p. 550). Assim, quanto ao sintoma, ele comporta, como tem insistido Jacques-Alain Miller, uma opacidade ao sentido e \u00e0 decifra\u00e7\u00e3o, e, nesse vi\u00e9s, o analista como parceiro-sintoma, na transfer\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 pura e simplesmente um substituto do pai.<\/p>\n<p><strong>4) Em TEXTOaCORPO #18, Lemos: \u201cO Novo Status Do Sintoma Significa Muito Mais Que Constatar Que N\u00e3o H\u00e1 Sintoma Sem Corpo. Ao Ser Acontecimento De Corpo, O Sintoma \u00c9 Um Real Contingente E Singular, Pois Nenhum Acontecimento \u00c9 Necess\u00e1rio E Universal. O Corpo, Como Sede Deste Acontecimento, Ademais De Ser Goz\u00e1vel, Deve Poder Receber, Como Letra, A Marca Escrita Pelo Sintoma, E Por Isso \u00c9 Liter\u00e1vel\u201d (ARENAS, 2013). Miller (2012) Refere-Se Ao Ultim\u00edssimo Lacan Apontando Que: \u201cNo Lugar De Fun\u00e7\u00e3o Da Fala, Campo Da Linguagem E Inst\u00e2ncia Da Letra, Temos Lal\u00edngua, Apalavra E Lituraterra, Que Esbo\u00e7am Certamente Um Outro Lacan\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 Que O Sintoma Se Inscreve No Corpo, Como Escut\u00e1-Lo E Interpret\u00e1-Lo, Se H\u00e1, Nos Tempos De Hoje, Uma Dificuldade No Relato Pelo Falasser? Como Articular Escuta E Leitura (Do Sintoma Que Se Escreve), Uma Vez Que O Corpo \u00c9 Tomado Como Aquilo Do Qual Goza O Sujeito? Como Fica A Transfer\u00eancia?<br \/>\nO que voc\u00eas est\u00e3o chamando de \u201cdificuldade no relato\u201d se manifesta, muitas vezes, como uma dificuldade de dizer, de contar o que se passou, de falar do que est\u00e1 acontecendo, de decifrar o sintoma, ou, pelo menos, de ser sens\u00edvel \u00e0 sua decifra\u00e7\u00e3o. Entretanto, se a psican\u00e1lise faz diferen\u00e7a, em um mundo onde, o tempo inteiro, se insiste que \u201cfalar faz bem\u201d, \u00e9 porque, para n\u00f3s, a dificuldade para relatar n\u00e3o \u00e9 menos um dizer. Por isso, a experi\u00eancia anal\u00edtica n\u00e3o se reduz a uma trama biogr\u00e1fica: os analisantes se surpreendem com o que escapa \u00e0 suas biografias e que, ainda assim, os determinam, mobilizam seus sintomas, constituem seus desejos. Nesse vi\u00e9s, quando pretendemos discutir, no VI ENAPOL, as diferentes nuances de \u201cFalar com o corpo\u201d, essa fala se processa mesmo quando n\u00e3o h\u00e1 muita disposi\u00e7\u00e3o do falante ao relato, porque o corpo \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u201cestranho\u201d com o qual, contrariando o que dizem, primordialmente, nossos pais, insistimos em falar, porque ele, com sua presen\u00e7a inusitada, enigm\u00e1tica, nos faz falar. A transfer\u00eancia \u00e9 decisiva nesse contexto porque, como constatamos na orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, um analista \u00e9 talhado, por sua an\u00e1lise pessoal e pelas supervis\u00f5es, a tomar a forma desse \u201cestranho\u201d que \u00e9 o corpo com que falamos, muitas vezes, sem escutar qualquer palavra, e, como esse \u201ccorpo estranho\u201d, na transfer\u00eancia, um analista poder\u00e1 fazer ecoar (ou mesmo amplificar) o inaud\u00edvel n\u00e3o para que este seja propriamente escutado ou relatado, mas para que possamos cingir e nos virar com tal opacidade.<\/p>\n<p><strong>5) Acompanhamos, No Momento Atual, A Agita\u00e7\u00e3o Dos Corpos Dos Jovens, Em Uma S\u00e9rie De Manifesta\u00e7\u00f5es, Nas Quais Os Analistas Pol\u00edticos Identificam Uma \u201cCrise Da Representa\u00e7\u00e3o\u201d.<\/strong><br \/>\n<strong>Que Articula\u00e7\u00e3o Se Pode Fazer Entre O Lugar Ocupado Pelo Corpo Na Atualidade E As Novas Formas De Identidade?<\/strong><\/p>\n<p>As manifesta\u00e7\u00f5es recentes parecem evidenciar que a crise das normas atinge inclusive o campo mesmo dos protestos. Afinal, no in\u00edcio, o que surpreendeu a todos foi o fato de n\u00e3o se saber de onde surgiu tanta gente que, at\u00e9 ent\u00e3o, supunha-se que estava mais conectada \u00e0 internet do que \u00e0 suposta \u201crealidade do pa\u00eds\u201d. Uma faixa dos manifestantes proclamava: \u201cSomos a rede social\u201d, e encontro nela um excelente exemplo do que Lacan chamava de interpreta\u00e7\u00e3o pelo equ\u00edvoco. Afinal, nesses tempos de Facebook, Instagram, WhatsApp e Twitter, o sintagma \u201crede social\u201d refere-se a corpos imersos no chamado \u201cmundo virtual\u201d, mas, nas manifesta\u00e7\u00f5es, eis que esses corpos, que ningu\u00e9m sabia muito bem onde estavam, aparecem nas ruas sob a forma das \u201cmanifesta\u00e7\u00f5es\u201d. Em outros termos, os corpos dos manifestantes \u201cpularam\u201d do \u201cmundo virtual\u201d para as \u201cmanifesta\u00e7\u00f5es\u201d em v\u00e1rias cidades brasileiras, da mesma forma como a anamorfose pintada por Holbein, no quadro Os embaixadores (comentado por Lacan, no Semin\u00e1rio 11), \u201cpula\u201d, enigm\u00e1tica, do que esse quadro representava em termos dos objetos da ci\u00eancia, das artes e dos representantes da diplomacia, ou seja, da \u201crealidade\u201d do ent\u00e3o s\u00e9culo XVI (LACAN, 1964\/1988, p. 84-115).<\/p>\n<p>\u00c0 medida que os protestos foram-se multiplicando, tudo parecia ter-se tornado motivo de protesto, e, nesse sentido, a pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o do que seria \u201cprotestar\u201d se mostrou, sen\u00e3o dilu\u00edda, certamente ainda mais opaca. Dessa surpresa frente a essa dilui\u00e7\u00e3o e \u00e0 opacidade, algo me pareceu manter-se e que tem a ver com o que, na pergunta, voc\u00eas chamaram de \u201cagita\u00e7\u00e3o dos corpos\u201d. Fazendo aproxima\u00e7\u00e3o entre o subt\u00edtulo do VI ENAPOL e essas manifesta\u00e7\u00f5es recentes no Brasil, parece poss\u00edvel sustentar que a \u201cagita\u00e7\u00e3o do real\u201d \u00e9 uma \u201cagita\u00e7\u00e3o dos corpos\u201d, e que, quando h\u00e1 \u201ccrise das normas\u201d, os corpos se agitam. Pergunto-me, nesse aspecto, se o sintoma \u201csocial\u201d corporificado por essas manifesta\u00e7\u00f5es n\u00e3o pode ser lido na vertente do que, gra\u00e7as a Jacques-Alain Miller, temos podido encontrar em Lacan como \u201cacontecimento de corpo\u201d. Assim, se uma das faixas ostentadas nessas ocasi\u00f5es dizia: \u201cN\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 20 centavos\u201d, eu n\u00e3o a leio apenas como ressaltando que h\u00e1 mais motivo para protestos do que o aumento das passagens de \u00f4nibus ou o direito \u00e0 gratuidade do transporte p\u00fablico para estudantes. Prefiro l\u00ea-la assim: os \u201c20 centavos\u201d de aumento nas tarifas de \u00f4nibus n\u00e3o foram apenas o \u201csignificante\u201d que causou a agita\u00e7\u00e3o dos corpos sob a forma de protestos, eles s\u00e3o o significante que acionou o gosto, ou, se quisermos usar um termo mais lacaniano, o gozo dos corpos de se manifestarem, especialmente porque as manifesta\u00e7\u00f5es se tornaram mais frequentes depois que alguns corpos que se batiam por transporte p\u00fablico mais barato ou gratuito foram alvos de inusitada viol\u00eancia policial na cidade de S\u00e3o Paulo. Com base no que alguns analisantes me contaram sobre suas participa\u00e7\u00f5es nas manifesta\u00e7\u00f5es e acompanhando-as direta ou indiretamente, eu diria que n\u00e3o eram apenas os \u201c20 centavos\u201d, porque o que se descobria ali, a cada manifesta\u00e7\u00e3o, era a satisfa\u00e7\u00e3o dos corpos que, como tamb\u00e9m se p\u00f4de logo notar, n\u00e3o era apenas a dos corpos se encontrarem, mas tamb\u00e9m de se deixarem tomar por colis\u00f5es e \u00edmpetos mort\u00edferos. Assim, retomando minha refer\u00eancia ao quadro de Holbein, \u00e9 importante lembrar que a anamorfose que \u201cpula\u201d da representa\u00e7\u00e3o \u00e9 um cr\u00e2nio de caveira, e, se ela me permitiu fazer essa rela\u00e7\u00e3o com os corpos cuja agita\u00e7\u00e3o surpreendeu a todos nessas recentes manifesta\u00e7\u00f5es, parece-me igualmente importante que, como analistas, n\u00f3s certamente n\u00e3o temos que desprez\u00e1-las (afinal, o que agita os corpos nos concerne desde os sintomas hist\u00e9ricos os mais cl\u00e1ssicos), tampouco temos que tom\u00e1-las como uma crise da representa\u00e7\u00e3o manifestando, como pretenderia um Badiou, o irrepresent\u00e1vel na pol\u00edtica como uma solu\u00e7\u00e3o inequ\u00edvoca.<\/p>\n<p>Duas frases de Lacan, que faz do equ\u00edvoco um bem-dizer, surgem-me, aqui, como uma posi\u00e7\u00e3o interessante frente \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es: \u201cEu aguardo, mas n\u00e3o espero nada\u201d (LACAN, 1975-1976\/2007, p. 133). Essa passagem \u00e9 instigante porque, comportando um enigma ao lidar com os verbos \u201caguardar\u201d e \u201cesperar\u201d, atribui-lhes uma diferen\u00e7a que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o clara ao senso comum, nem para os dicion\u00e1rios, mas que \u00e9 real para a psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana. Afinal, \u201cesperar\u201d ressoa em \u201cesperan\u00e7a\u201d e, portanto, em uma expectativa de que h\u00e1 um sentido, um ideal, mesmo que (mortiferamente ou n\u00e3o) inalcan\u00e7\u00e1veis e que comportem uma convoca\u00e7\u00e3o do Outro, de um lugar ao qual se pode chegar, aspirar, fazer consistir. Bem diferente, \u201caguardar\u201d implica a presen\u00e7a viva de um corpo, sem lugar para uma expectativa ou uma convoca\u00e7\u00e3o quanto ao sentido, ao ideal ou ao Outro. Assim, um analista \u00e9 aquele que, frente \u00e0 agita\u00e7\u00e3o dos corpos, aguarda sem esperar, transmitindo-lhes, assim, inclusive, alguma serenidade. Novamente, posso verificar aqui com voc\u00eas o quanto vivemos um momento oportuno para a psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, mesmo que essa oportunidade n\u00e3o nos reserve qualquer conforto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>ARENAS, G. O corpo, goz\u00e1vel e liter\u00e1vel. TEXTOaCORPO #18. 2013. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.enapol.com\/Boletines\/018.pdf. Acesso em: 21\/07\/2013.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1957-1958). \u201cDe uma quest\u00e3o preliminar a todo tratamento poss\u00edvel da psicose\u201d, In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p. 537-590.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1959-1960). O Semin\u00e1rio, livro 7: a \u00e9tica da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1964). O Semin\u00e1rio, livro 11: os quarto conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1973). \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o \u00e0 edi\u00e7\u00e3o alem\u00e3 de um primeiro volume dos Escritos\u201d, In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p. 550-556.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1975-1976). O Semin\u00e1rio, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.<\/h6>\n<h6>LAIA, S. Falar com o corpo, um solil\u00f3quio e a experi\u00eancia anal\u00edtica. 2013. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.enapol.com\/pt\/template.php?file=Textos\/Hablar-con-el-cuerpo-un-soliloquio-y-la-experiencia-analitica_Sergio-Laia.html. Acesso em: 21\/07\/2013.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. \u201cFalar com seu sintoma, falar com seu corpo\u201d. 2013. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.enapol.com\/pt\/template.php?file=Argumento.html. Acesso em: 21\/07\/2013.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cO escrito na fala\u201d. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online, nova s\u00e9rie, ano 3, n. 8, jul. 2012. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_8\/O_escrito_na_fala.pdf. Acesso em: 21\/07\/2013.<\/h6>\n<h6>VIEIRA, M. A. \u201cMordidavida\u201d, Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, n. 65, abr. 2013, p. 31.<\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0S\u00c9RGIO LAIA &#8211; DIRETOR EXECUTIVO DO VI ENAPOL PELA EBP &nbsp; 1) O Corpo Est\u00e1 Em Discuss\u00e3o. O IPSM-MG Tem-Se Ocupado Da Explora\u00e7\u00e3o Do Tema Do VI ENAPOL E Prop\u00f5e, Para Esta Entrevista, A Articula\u00e7\u00e3o \u201cO Corpo Sob Transfer\u00eancia\u201d, O Corpo Tomado Pela Incid\u00eancia Do Discurso Anal\u00edtico No S\u00e9culo XXI. O T\u00edtulo Do VI ENAPOL,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58213,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-612","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-12","category-8","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/612","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=612"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/612\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58214,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/612\/revisions\/58214"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58213"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=612"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=612"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=612"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}