{"id":615,"date":"2013-03-17T06:54:41","date_gmt":"2013-03-17T09:54:41","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=615"},"modified":"2025-12-01T17:24:19","modified_gmt":"2025-12-01T20:24:19","slug":"a-educacao-e-os-corpos-de-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2013\/03\/17\/a-educacao-e-os-corpos-de-hoje\/","title":{"rendered":"A Educa\u00e7\u00e3o E Os Corpos De Hoje"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>HEBE TIZIO<\/strong><\/h6>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Cane-Dojcilovic-Two-Head-Snake-466x600-1-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"466\" data-large_image_height=\"600\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-617\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Cane-Dojcilovic-Two-Head-Snake-466x600-1-1.jpg\" alt=\"\" width=\"466\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Cane-Dojcilovic-Two-Head-Snake-466x600-1-1.jpg 466w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Cane-Dojcilovic-Two-Head-Snake-466x600-1-1-233x300.jpg 233w\" sizes=\"auto, (max-width: 466px) 100vw, 466px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O presente trabalho toma como ponto de partida a desregula\u00e7\u00e3o dos corpos na escola e em outros espa\u00e7os educativos como decorr\u00eancia da mudan\u00e7a das coordenadas que organizavam esse espa\u00e7o e a consequente perda da fun\u00e7\u00e3o educativa. Nesse sentido, tomam-se esses problemas como sintomas sociais na medida em que assinalam uma disfun\u00e7\u00e3o no mencionado aparato educativo.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o implica esquecer a determina\u00e7\u00e3o individual que se encarna em cada sujeito, e, nesse sentido, deve-se estabelecer uma diferen\u00e7a entre sintoma social e sintoma subjetivo. O sintoma social d\u00e1 a apar\u00eancia de homogeneidade e \u00e9 a\u00ed nesse ponto que devemos isolar o singular de cada caso para desagreg\u00e1-lo do conjunto.<\/p>\n<p>Para desenvolver o tema proposto, buscou-se lan\u00e7ar sobre o assunto um olhar retrospectivo, a fim de verificar o que se conhecia sobre ele no passado e constatar o que se concebe a seu respeito no presente, com vistas a apresentar algumas propostas para sua abordagem.<\/p>\n<p><strong>Retrospectiva<\/strong><\/p>\n<p>Tradicionalmente, a escola necessitou de corpos regulados para poder levar adiante seus objetivos curriculares. Por\u00e9m n\u00e3o s\u00f3 se tratava de que a crian\u00e7a tivesse alguns h\u00e1bitos adquiridos que lhe permitissem ficar tranquilamente sentada em sua carteira. A escola sabia que, para manter essa regula\u00e7\u00e3o, era preciso desenvolver um trabalho permanente, e isso se atingia, por um lado, por meio das mesmas aprendizagens e, por outro, por interm\u00e9dio do controle disciplinar.<\/p>\n<p>Tome-se como exemplo a leitura. Nela, a pontua\u00e7\u00e3o determina que, se h\u00e1 uma v\u00edrgula, deve-se fazer uma pausa, ou, se se depara com um ponto e par\u00e1grafo, isso implica que se deve dar uma parada mais demorada e lan\u00e7ar um olhar para o mundo. Com base nessas determina\u00e7\u00f5es se observa que a respira\u00e7\u00e3o, a voz e o olhar s\u00e3o afetados pela leitura em um esfor\u00e7o civilizat\u00f3rio sobre o pulsional. A partir dessa perspectiva, pode-se entender a leitura como uma regula\u00e7\u00e3o desses objetos pulsionais, a fim de poder entender o texto. Se isso n\u00e3o se realiza, n\u00e3o se entende o que se l\u00ea, e muito menos os ouvintes compreendem o que se deseja comunicar.<\/p>\n<p>Na escola do passado, a disciplina se encarregava de reduzir o que resistia e se sustentava em uma autoridade reconhecida como tal porque se assentava no valor do saber que prometia um futuro. A regula\u00e7\u00e3o se dava, ent\u00e3o, pelas vias do interesse e do castigo.<\/p>\n<p>Progressivamente, esse exerc\u00edcio foi abandonado em fun\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as sociais que se produziram. A regula\u00e7\u00e3o do corpo pelos m\u00e9todos tradicionais passou a n\u00e3o mais funcionar. A disciplina, no sentido kantiano, como regula\u00e7\u00e3o do capricho, n\u00e3o se exerce em um mundo que promove o consumo e, portanto, o apetite desmesurado. E tamb\u00e9m porque a oferta educativa n\u00e3o se utiliza mais para esse fim, e o ideal do esfor\u00e7o foi substitu\u00eddo pela busca da felicidade.<\/p>\n<p>Insistindo nessa perspectiva cl\u00e1ssica, cabe lembrar, ainda, a fun\u00e7\u00e3o do exerc\u00edcio f\u00edsico como forma de cansar o corpo a fim de deix\u00e1-lo d\u00f3cil para a aprendizagem. Sabia-se que as crian\u00e7as deviam cansar-se para depois poderem aprender e ent\u00e3o descansar, dormindo as horas necess\u00e1rias. A escola era considerada o lugar de trabalho da crian\u00e7a, e o jogo, um dos entretenimentos no tempo livre. Sobre esse ponto, Hannah Arendt escrevia, referindo-se \u00e0 crise da educa\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos, que a distin\u00e7\u00e3o entre jogo e trabalho foi apagada a favor do primeiro como uma forma insidiosa de promover a infantiliza\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que isso n\u00e3o prepararia para o mundo adulto.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que um mundo que n\u00e3o pode oferecer muitas oportunidades laborais se volta cada vez mais para o entretenimento como forma de controle social. O not\u00e1vel, nesse ponto, \u00e9 que se conta com o consentimento dos controlados, pois o entretenimento engata bem com o ideal de felicidade. Observa-se, assim, uma promo\u00e7\u00e3o do apetite em oposi\u00e7\u00e3o ao trabalho, e a pergunta \u00e9 como se produz a abertura ao desejo, pois, na perspectiva freudiana, a proibi\u00e7\u00e3o era estruturante, nesse ponto.<\/p>\n<p>Se aqui se faz refer\u00eancia a essa escola \u00e9 porque, hoje, as formas de regula\u00e7\u00e3o que a sustentavam e as que lhe davam autoridade se modificaram. N\u00e3o se remete, com isso, \u00e0 escola da brutalidade, do castigo, mas \u00e0 dos \u00faltimos 30 anos, que quis retomar suas ra\u00edzes de renova\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica e introduziu o consenso como forma de trabalhar a disciplina. N\u00e3o se trata de nostalgia, mas de verificar como uma institui\u00e7\u00e3o criada sob determinadas coordenadas de funcionamento, hoje, tem dificuldades de cumprir seu encargo frente \u00e0s mudan\u00e7as operadas. Essa escola renovada necessitava de um corpo que respondesse ao que se entendia por solidariedade, um corpo que se tentava regular com os \u201cbons modos\u201d e a palavra, a realiza\u00e7\u00e3o de atividades conjuntas e o interesse.<\/p>\n<p>Aquilo que a escola n\u00e3o p\u00f4de regular foi expulso para as redes de exclus\u00e3o social, e foi a\u00ed que a educa\u00e7\u00e3o social encontrou seu campo e onde se colocam interessantes quest\u00f5es para a psican\u00e1lise aplicada.<\/p>\n<p><strong>Miscel\u00e2neas<\/strong><\/p>\n<p><strong>a)<\/strong>\u00a0Hoje, aparecem, na escola, os corpos chamados hiperativos, o corpo amea\u00e7ado ou maltratado no que se conhece como bullying, os corpos anor\u00e9xicos, as bulimias, os sobrepesos, as drogas\u2026 Sintomas que produzem sujeitos pouco dispostos \u00e0 aprendizagem porque a dificultam. Al\u00e9m disso, o encargo social que se atribui \u00e0 escola aumenta dia a dia, e, agora, ela deve-se haver tamb\u00e9m com outras tarefas, como educar para a sa\u00fade, a sexualidade, as drogas\u2026 Em outras palavras, ela deve regular os corpos \u2014 por\u00e9m, como, se n\u00e3o h\u00e1, hoje, espa\u00e7os para o saber que \u00e9 sua \u00fanica possibilidade de operar? A escola vai-se inclinando perigosamente para o controle social direto dos corpos e para um futuro de administradora de f\u00e1rmacos, como j\u00e1 acontece nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Se se passeia pelas cantinas escolares, pode-se verificar as dificuldades existentes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o. O que as crian\u00e7as de hoje querem comer? Batatas, pizzas, macarr\u00e3o\u2026 e a famosa dieta mediterr\u00e2nea se transforma em medica\u00e7\u00e3o\u2026 Fala-se muito sobre educa\u00e7\u00e3o para a sa\u00fade, mas, em geral, nas cantinas, vigora a economia, que se esconde, \u00e0s vezes, por tr\u00e1s do capricho da crian\u00e7a, pautando-se por ele as propostas de card\u00e1pios.<\/p>\n<p>A alimenta\u00e7\u00e3o carrega as marcas da \u00e9poca, mais precisamente, as formas de comer. A gera\u00e7\u00e3o dos pais dessas crian\u00e7as da atualidade devia comer de tudo que se punha no prato, porque nada se podia descartar, sobretudo se se pensasse nos que n\u00e3o tinham nada para comer, as crian\u00e7as famintas do mundo, as crian\u00e7as das guerras. E se for\u00e7ava a comer, n\u00e3o importava o tempo que demorasse a crian\u00e7a em amassar o bolo que fazia com a comida em sua boca, acabaria engolindo. Hoje, basta observar os pratos para perceber que a desconstru\u00e7\u00e3o da comida \u00e9 uma nova vertente que se apresenta, e, \u00e0 diferen\u00e7a dos cozinheiros famosos, os sujeitos de hoje produzem restos. A decomposi\u00e7\u00e3o da comida nos elementos que a comp\u00f5em deixa uma coroa de restos, ao redor do prato, e um vazio central.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de apressar-se em tapar esse vazio com o significante anorexia, mas de interrogar-se sobre sua fun\u00e7\u00e3o. Por que n\u00e3o pensar em formas de recusa difusas frente a um \u201cdemasiado cheio de porcaria\u201d, como dizia uma menina. Pois isso \u00e9, muitas vezes, a comida das cantinas escolares.<\/p>\n<p>Poder-se-ia fazer um novo estudo sobre as particularidades do gosto em um momento em que tudo \u201csabe\u201d igual, e isso as crian\u00e7as o sabem, pois saber e sabor se homogene\u00edzam cada vez mais e por isso se recusam. A atrofia do paladar gera recusas ou ingest\u00e3o indiscriminadas porque se perdeu a b\u00fassola do prazer que leva ao objeto oral. \u00c9 curioso que hoje seja o mercado o que trata de \u201ceducar\u201d o gosto, ou deveria dizer: coloniz\u00e1-lo para o consumo? Observa-se que, cada vez mais, s\u00e3o abertos cursos de \u201cdegustadores\u201d de vinho, azeite, chocolate, \u00e1guas!<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, o n\u00e3o comer se modaliza de diferentes formas. Pode-se tratar de um \u201ccomer nada\u201d que funciona em rela\u00e7\u00e3o ao Outro. Esse objeto \u201cnada\u201d \u00e9 produzido como anula\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica do objeto real. Nada como resposta ao excesso. E esse nada \u00e9 muito ativo, hiperativo, \u00e0s vezes, e tem, especialmente quando se trata de comportamentos transit\u00f3rios, a fun\u00e7\u00e3o de uma recusa facilmente situ\u00e1vel.<\/p>\n<p>Pode-se ler tamb\u00e9m como uma luta para n\u00e3o desaparecer como desejante. O esmagamento na satisfa\u00e7\u00e3o mata o desejo, e, por isso, h\u00e1 discord\u00e2ncias. Os imperativos sociais atuais t\u00eam a for\u00e7a de uma demanda insaci\u00e1vel: consuma! E o excesso de objetos extermina o desejo, produzindo um tipo de \u201canorexia generalizada\u201d. N\u00e3o \u00e9 casual que a metade do mundo morra de fome e a outra metade de excesso, e que isso se sintomatize nos transtornos da moda. Sem d\u00favida, existem diferentes formas de relacionar-se com a comida, por\u00e9m todas encarnam modos de tratamento do objeto e do vazio.<\/p>\n<p><strong>b)<\/strong>\u00a0A escola se apoiava na fam\u00edlia, que lhe dava crian\u00e7as disciplinadas, com h\u00e1bitos adquiridos e necessidades atendidas, e, al\u00e9m disso, dava suporte nas tarefas para casa, sustentando e fixando as aprendizagens\u2026 Hoje, essa rela\u00e7\u00e3o se inverteu, e \u00e0 escola se solicita, em muitos casos, que seja o suporte da fam\u00edlia. A fam\u00edlia mudou, e isso repercute na forma de alimentar-se, nos h\u00e1bitos e costumes, nas horas de sono, produzindo efeitos sobre os corpos.<br \/>\nIsso mostra que, na realidade, muitos desses sintomas em adolescentes \u2014 que costumam aparecer de maneira muito espetacular \u2014 constituem apelos \u00e0 regula\u00e7\u00e3o, no momento em que se d\u00e1 o encontro com o gozo sexual.<\/p>\n<p>Os \u201cmeninos do garraf\u00e3o\u201dii ocupam a rua para mostrar a conforma\u00e7\u00e3o de um particular objeto oral que coloniza um espa\u00e7o que n\u00e3o \u00e9 seu e no qual deixam, por essa via, suas marcas. N\u00e3o se trata de judicializ\u00e1-los nem de dar tanto espa\u00e7o a tertulianos que pregam o pior sobre eles. Deve-se oferecer a eles lugares habit\u00e1veis que sejam capazes de regular ao seu modo. Os jovens de hoje se queixam de que n\u00e3o podem aceder a certos lugares por falta de recursos. Por acaso, o incipiente movimento pela moradia n\u00e3o diz algo sobre isso? Esses jovens sabem que correm o risco de transformar-se em resto social e contra isso lutam, ainda que, \u00e0s vezes, de maneiras confusas. N\u00e3o querem ser o resto no prato dos pol\u00edticos neoliberais.<\/p>\n<p><strong>c)<\/strong>\u00a0Hoje, pode-se ver que, por detr\u00e1s da promo\u00e7\u00e3o da imagem do corpo, h\u00e1 uma profunda recusa do mesmo. O individualismo crescente e a solid\u00e3o que dele deriva n\u00e3o exp\u00f5em as palavras que s\u00e3o o caminho necess\u00e1rio para o encontro com o outro. O celular, que \u00e9 o parceiro da moda, cada vez menos \u00e9 usado para falar. Mais al\u00e9m da economia nas contas telef\u00f4nicas, \u201cfazer uma perdida\u201d \u00e9 quase um modelo de comunica\u00e7\u00e3o: a comunica\u00e7\u00e3o com chamadas perdidas. Deve-se assinalar que o amor se nutre de palavras e que sempre operou como v\u00e9u sobre o gozo para assegurar o encontro com o parceiro. A dimens\u00e3o do amor aparece, hoje, modificada, o que torna, \u00e0s vezes, mais dif\u00edcil o contato corpo a corpo.<\/p>\n<p>Miller retoma o termo de Lacan \u201crecha\u00e7o do corpo\u201d, por\u00e9m o modaliza em diferentes aspectos. O recha\u00e7o do corpo do outro como parceiro sexual e o recha\u00e7o do pr\u00f3prio corpo com todos os matizes que isso apresenta, inclusive, o filho\u2026 Creio que se pode falar tamb\u00e9m sobre o recha\u00e7o pelas crian\u00e7as e adolescentes e por tudo o que encarna modalidades de gozo que questionam a ordem estabelecida.<\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o fazia, pela via da cultura, esse caminho de palavras que n\u00e3o s\u00f3 agita os corpos no abra\u00e7o, mas tamb\u00e9m os pacifica. Hoje, fala-se, at\u00e9 a saciedade, sobre a viol\u00eancia na escola, sem se perceber que esse problema \u00e9 efeito do desanodamento da educa\u00e7\u00e3o e da subjetividade. Quando se perde o efeito regulador da educa\u00e7\u00e3o sobre o corpo \u2014 n\u00e3o pela via disciplinar, mas pelo interesse, pela curiosidade, que promove o patrim\u00f4nio cultural \u2014 s\u00f3 resta acionar o mero controle social. A disciplina sobre o corpo n\u00e3o golpeia mais com palmat\u00f3ria. Por tr\u00e1s da m\u00e1scara do body building e da realidade dos corpos empilhados e desnutridos nos campos de refugiados e nos cayucosiii, atinge com as distintas estrat\u00e9gias da biopol\u00edtica, com as quais a educa\u00e7\u00e3o frequentemente colabora sem sab\u00ea-lo. O cool \u00e9, hoje, farmacopeia, a Supernanny prop\u00f5e castigos p\u00fablicos, e, h\u00e1 pouco, foi denunciada uma resid\u00eancia para menores em Girona subvencionada pelo governo su\u00ed\u00e7o. Os rebeldes, encerrados em jaulas como castigo, eram tratados fora das pr\u00f3prias fronteiras. O modelo guant\u00e2namo se estende e pede \u201ctime out\u201d.<\/p>\n<p><strong>Propostas<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 verdade que parece haver certa tend\u00eancia catastrofista quando se reflete sobre as mudan\u00e7as. Tudo o que n\u00e3o se entende seria um an\u00fancio potencial de \u201cfim do mundo\u201d e, na realidade, o \u00e9\u2026 Trata-se de um \u201cmundo\u201d que acaba para dar passagem a um novo, que, embora n\u00e3o seja conhecido, se anuncia de muitas maneiras.<\/p>\n<p>A autoridade modificou-se, j\u00e1 se disse, por\u00e9m isso n\u00e3o pode ser visto como uma cat\u00e1strofe; trata-se, apenas, de se verificar que modelo de autoridade conv\u00e9m para esse novo tempo. Sabe-se que v\u00e1rios modelos j\u00e1 caducaram, mas n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que limites s\u00e3o sempre necess\u00e1rios. A ideia de limite tem a ver com a possibilidade de se dizer n\u00e3o a isto, mas sim \u00e0 outra coisa. Deve-se saber que tanto o autoritarismo, como o \u201cdeixar fazer sem limite\u201d s\u00e3o as duas faces do pior, ou seja, de um funcionamento superegoico. Trata-se de conceber, ent\u00e3o, a autoridade como um instrumento que s\u00f3 poder\u00e1 ser reconhecido se ajuda o sujeito a construir algo a que possa agarrar-se e que lhe permita, dessa maneira, encontrar o caminho do desejo.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que o saber foi depreciado, entretanto, \u00e9 bastante compreens\u00edvel que isso tenha acontecido porque os atuais suportes de armazenamento o mant\u00eam a nosso alcance, sem necessidade de fix\u00e1-lo. \u00c9 o que faz uma adolescente que come\u00e7a a escrever em seu celular durante uma das primeiras entrevistas. Quando lhe pergunto o que ela est\u00e1 fazendo, diz-me que guarda algumas das coisas que foram ditas durante a sess\u00e3o em um arquivo, assim, poder\u00e1 consult\u00e1-lo quando quiser, sem necessidade de usar a sua pr\u00f3pria mem\u00f3ria. Diante disso, que tipo de saber deve-se p\u00f4r em jogo? Pode-se pensar em um saber minimalista que permita construir redes, n\u00e3o somente conectar-se, mas ler de link em link, gerar produtos e saber aloc\u00e1-los.<\/p>\n<p>Fala-se muito sobre a fun\u00e7\u00e3o do educador que \u201ccausa\u201d o interesse do sujeito para provocar seu consentimento \u00e0 oferta educativa. Hoje, isso se obt\u00e9m quando se consegue descompletar, quer dizer, produzir um vazio no campo do saber, nunca se colocando em situa\u00e7\u00e3o de demanda, perguntando \u00e0 crian\u00e7a o que ela quer. A anorexia de saber produzida pelo excesso s\u00f3 pode ser tratada com um \u201cmenu degusta\u00e7\u00e3o\u201d, pequenos pratos variados que o sujeito pode reconstruir com seus tempos t\u00e3o diferentes da pressa do sistema. \u00c9 interessante apreciar a resist\u00eancia pela via do ritmo lento que muitos adolescentes e crian\u00e7as apresentam, n\u00e3o querendo ser for\u00e7ados pela voracidade do tempo que a eles se imp\u00f5e.<\/p>\n<p>Para a constru\u00e7\u00e3o da subjetividade, \u00e9 preciso haver um desejo que n\u00e3o seja an\u00f4nimo, e se pode dizer que essa \u00e9 uma quest\u00e3o crucial tamb\u00e9m para a educa\u00e7\u00e3o. Isso tem como resultado a necessidade de contar com educadores que vivifiquem a transmiss\u00e3o e com sujeitos que possam saborear os saberes. Assim, abre-se para cada um a particularidade de seu regime de satisfa\u00e7\u00f5es, e isso \u00e9 o que se aproxima da felicidade. Afinal, como n\u00e3o perceber que a t\u00e3o atual busca pela felicidade aponta para o fato de que, hoje, se vive com um menos de satisfa\u00e7\u00e3o? Os corpos sofrem, assim, pela emerg\u00eancia de um gozo n\u00e3o regulado. Por isso, as pol\u00edticas repressivas s\u00e3o caracterizadas pelo \u00f3dio ao gozo, e a psican\u00e1lise sabe que, se o gozo \u00e9 atacado diretamente, produz-se a transfer\u00eancia negativa, em termos atuais, instaura-se a viol\u00eancia. O gozo deve envolver-se com palavras, interpelar-se com semblantes, distender-se com jogos e esportes, ressoar na m\u00fasica, e, ali, o sujeito eleger\u00e1, a partir da tem\u00e1tica fantasm\u00e1tica, a que porto se atar, com que meios, sintomaticamente, se sustentar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>ARENDT, H. \u201cA crise na educa\u00e7\u00e3o\u201d, In: Entre o passado e o futuro. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2005, p. 221-147.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1930). \u201cO mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o\u201d, In: ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1990, vol. XXI, p.81-171.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. El Otro que no existe y sus comit\u00e9s de \u00e9tica. Paid\u00f3s: Buenos Aires, 2005.<\/h6>\n<h6>N\u00da\u00d1EZ, V. \u201cHacia una reelaboraci\u00f3n del sentido de la educaci\u00f3n. Una perspectiva desde la Pedagog\u00eda Social\u201d, In: Educaci\u00f3n no formal. Fundamentos para una praxis. Ministerio de Educaci\u00f3n y Cultura de Uruguay, 2006.<\/h6>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: K\u00e1tia Mari\u00e1s Pinto<\/h6>\n<h6>Revis\u00e3o da tradu\u00e7\u00e3o: M\u00e1rcia Mez\u00eancio<\/h6>\n<h6>1 \u201cLa educaci\u00f3n y los cuerpos de hoy\u201d. Confer\u00eancia realizada na Universidade de Deusto em 7 de abril de 2006. Publicada originalmente em Freudiana, Revista de psicoan\u00e1lisis de la ELP \u2013 Catalunya, n. 47, Barcelona, 2006. p.31-37.<\/h6>\n<h6>2 N.T.: \u201cChicos del botell\u00f3n\u201d. Refere-se ao costume, principalmente entre os jovens, de consumir grandes quantidades de bebidas alco\u00f3licas em vias p\u00fablicas, comum na Espanha desde finais do s\u00e9culo XX.<\/h6>\n<h6>3 N.T.: Embarca\u00e7\u00e3o indiana muito pequena, menor que a canoa, na qual n\u00e3o cabe mais do que uma pessoa.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Hebe Tizio<\/strong><\/h6>\n<h6>Hebe Tizio &#8211; Psicanalista em Barcelona, Membro da AMP. E-mail:\u00a0<span id=\"cloakf09c4973721cd5e95a8a9569a813045a\"><a href=\"mailto:hebe@tizio.e.telefonica.net\">hebe@tizio.e.telefonica.net<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>HEBE TIZIO &nbsp; O presente trabalho toma como ponto de partida a desregula\u00e7\u00e3o dos corpos na escola e em outros espa\u00e7os educativos como decorr\u00eancia da mudan\u00e7a das coordenadas que organizavam esse espa\u00e7o e a consequente perda da fun\u00e7\u00e3o educativa. 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