{"id":626,"date":"2013-07-17T06:55:07","date_gmt":"2013-07-17T09:55:07","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=626"},"modified":"2013-07-17T06:55:07","modified_gmt":"2013-07-17T09:55:07","slug":"funcao-toxica-na-clinica-da-psicose-remedio-e-ou-ruina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2013\/07\/17\/funcao-toxica-na-clinica-da-psicose-remedio-e-ou-ruina\/","title":{"rendered":"Fun\u00e7\u00e3o T\u00f3xica Na Cl\u00ednica Da Psicose: Rem\u00e9dio E\/Ou Ru\u00edna?"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>FABI\u00c1N NAPARSTEK<\/strong><\/h6>\n<p>S\u00e9rgio de Mattos: Estamos aqui, hoje, no Freud Cidad\u00e3o, institui\u00e7\u00e3o de sa\u00fade mental de Belo Horizonte, dando continuidade \u00e0s atividades do Ateli\u00ea de Pesquisa Psicanal\u00edtica desenvolvidas neste semestre. O Ateli\u00ea vem pesquisando o tema psicose e toxicomanias, e, hoje, contaremos com a presen\u00e7a de Fabi\u00e1n Naparstek, que vem trabalhando muito cuidadosamente essa quest\u00e3o nos \u00faltimos anos. Passo a palavra a Fabi\u00e1n, e, a seguir, abriremos espa\u00e7o para perguntas.<\/p>\n<p>Fabi\u00e1n Naparstek: Voc\u00eas est\u00e3o fazendo uma investiga\u00e7\u00e3o em torno das toxicomanias e das psicoses. Vou falar a respeito de alguns pontos que venho trabalhando, especialmente sobre as elabora\u00e7\u00f5es que fiz em meu livro. O primeiro ponto, importante para as discuss\u00f5es atuais no campo freudiano, \u00e9 que a tese da ruptura com o falo n\u00e3o serve para pensarmos as psicoses, pois, nesse caso, a ruptura \u00e9 anterior e estrutural. A esse respeito, podemos nos remeter aos casos inclassific\u00e1veis e \u00e0 no\u00e7\u00e3o de psicose ordin\u00e1ria, pois ela nos traz novas perspectivas para a cl\u00ednica e abre caminhos para pensarmos as psicoses, n\u00e3o como uma ruptura, mas como modos de enlaces e desenlaces com o Outro. Essa maneira de pensar \u00e9 um bom modo de entendermos as toxicomanias: como enlaces e desenlaces com o Outro, mesmo que, em alguns casos, a partir mesmo da droga. Em alguns casos, a pr\u00f3pria droga pode ser uma maneira de enla\u00e7ar-se ao Outro. A partir da teoria dos \u201cinclassific\u00e1veis\u201d, n\u00f3s devemos repensar as psicoses e as toxicomanias, principalmente a partir do \u00faltimo Lacan.<\/p>\n<p>Outro ponto que trabalhei em minha tese de doutorado, em Paris, \u00e9 a diferen\u00e7a entre a paranoia e a esquizofrenia. Pude perceber, atrav\u00e9s dessa investiga\u00e7\u00e3o, duas maneiras diferentes, dentro das psicoses, de uso da droga. A partir da ideia de Miller, que ele pr\u00f3prio retira de Lacan, sabemos que o paranoico localiza o gozo no Outro, que o gozo vem do Outro. No caso da esquizofrenia, o gozo localiza-se ou retorna no corpo. Isso permite diferenciar duas maneiras de retorno do gozo e, portanto, duas maneiras de responder a esse retorno. Se o retorno do gozo vem do Outro, encontramos, em alguns pacientes paranoicos, o uso da droga como uma resposta que est\u00e1 atrelada ao significante. Por outro lado, muitas vezes, a droga \u00e9 usada como uma maneira de pacificar, de acalmar o corpo, como um rem\u00e9dio corporal. \u00c9ric Laurent tamb\u00e9m faz refer\u00eancia a esses casos e n\u00e3o s\u00f3 se refere ao uso da droga, mas \u00e0s toxicomanias de um modo geral.<\/p>\n<p>Acompanhei um caso de um menino que vem ao hospital apresentando um quadro de mania que persistia h\u00e1 10 dias. Ele n\u00e3o parava de caminhar pela rua, sem comer, sem tomar banho, e foi encaminhado ao servi\u00e7o de toxicomania, porque dizia ser um toxic\u00f4mano, mas, quando o psic\u00f3logo pergunta o que ele consumia, ele responde que n\u00e3o consumia nada: \u201cN\u00e3o uso nada\u201d. O menino n\u00e3o consumia nenhuma subst\u00e2ncia. Ent\u00e3o, ele explica que andava pela rua sem parar, n\u00e3o sabia h\u00e1 quanto tempo. Ele avistou um cartaz que dizia \u201ctoxicomania\u201d, e, para ele, foi o mesmo que concluir \u201ceu sou toxic\u00f4mano\u201c. Nesse momento, ele se identificou com o significante toxicomania, e isso serviu para que o menino sa\u00edsse do quadro de mania. Recomendei, em supervis\u00e3o, que o psic\u00f3logo o aceitasse como um toxic\u00f4mano, pois ele havia tomado um significante da \u00e9poca atual que poderia frear a mania. Anos depois, disseram-me que ele se havia transformado em um ex-toxic\u00f4mano e que ajudava os novos toxic\u00f4manos, apesar de nunca ter consumido nada.<\/p>\n<p>Essa foi uma maneira que ele encontrou de \u201cfrear o Outro\u201d ao se identificar ao significante toxicomania. Em Buenos Aires, durante uma \u00e9poca, havia uma discuss\u00e3o em que se pensava que dever\u00edamos \u201cdesindentificar\u201d o toxic\u00f4mano de \u201cser um toxic\u00f4mano\u201d. Essa \u00e9 uma discuss\u00e3o que merece prud\u00eancia, pois, em muitos casos, uma identifica\u00e7\u00e3o ao \u201cser toxic\u00f4mano\u201d pode ser uma resposta subjetiva que o sujeito encontra para responder a uma invas\u00e3o de gozo que vem do campo do Outro.<\/p>\n<p>Em outros casos, pode ser diferente. Um esquizofr\u00eanico pode consumir a droga para diminuir os pensamentos. J\u00e1 relatei, em outro momento, o caso de um menino que usava coca\u00edna para que o seu \u00f3rg\u00e3o sexual n\u00e3o se excitasse. Ele tentava driblar esse efeito de excita\u00e7\u00e3o de seu corpo e usava a droga para isso e somente isso, sem liga\u00e7\u00e3o significante. Isso abre um campo de investiga\u00e7\u00e3o importante para entendermos os diferentes usos que o psic\u00f3tico, principalmente o esquizofr\u00eanico e o paranoico, pode fazer da droga, diferentes modos de resposta \u00e0 invas\u00e3o de gozo.<\/p>\n<p>Outro ponto importante para investigarmos \u00e9 o di\u00e1logo que temos empreendido atualmente com a psiquiatria. Comumente se diz que a toxicomania esconde, \u201ctampa\u201d, a estrutura subjetiva. \u00c9 muito comum que, em muitas cl\u00ednicas, psicanalistas e psiquiatras falem de \u201climpar\u201d a toxicomania, atrav\u00e9s da abstin\u00eancia, para encontrar a estrutura subjetiva, com a ideia de que, se cessar a droga, vai aparecer a estrutura.Tenho uma posi\u00e7\u00e3o muito diferente. No grupo TYA, do qual fa\u00e7o parte, e em minha tese de doutorado, n\u00e3o trabalhamos a partir dessa perspectiva. Penso que \u00e9 preciso fazer um diagn\u00f3stico da fun\u00e7\u00e3o que a droga tem para cada sujeito, que \u00e9 o que possibilita localizar um diagn\u00f3stico estrutural. Isso certamente n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, nem r\u00e1pido, mas a fun\u00e7\u00e3o que a droga tem para um sujeito permite localizar a estrutura e o diagn\u00f3stico de estrutura tamb\u00e9m. Ainda mais, penso que, para cessar a droga e levar o sujeito \u00e0 abstin\u00eancia, \u00e9 preciso muito cuidado e prud\u00eancia, pois, se fazemos cessar a droga, podemos nos deparar com o desencadeamento de uma psicose. Quando um sujeito busca a droga, ele procura uma solu\u00e7\u00e3o. Uma solu\u00e7\u00e3o que pode ser equivocada, mas \u00e9 a que ele encontra. O que o analista precisa entender \u00e9 que \u00e9 preciso prud\u00eancia para diagnosticar a fun\u00e7\u00e3o da droga para aquele sujeito e pensar o que seria melhor para ele. Se vamos fazer cessar essa solu\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso encontrar outra que possa tomar o lugar da droga, e que o sujeito mesmo vai ter que inventar.<\/p>\n<p>A minha tese central \u00e9 a de que a droga tem uma fun\u00e7\u00e3o singular para cada sujeito. \u00c9 uma tese a partir do \u00faltimo Lacan, que considera esses usos particulares de cada sujeito como um uso sintom\u00e1tico da droga. Pensando, portanto, o conceito de sintoma a partir do \u00faltimo ensino de Lacan \u00e9 que o primeiro diagn\u00f3stico que temos que fazer quando escutamos um sujeito toxic\u00f4mano \u00e9 precisamente a partir da determina\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o da droga para esse sujeito.<\/p>\n<p>\u00c9 um trabalho a mais, principalmente, nos hospitais e nas cl\u00ednicas, porque isso nos permite pensar que n\u00e3o h\u00e1 nada mais diferente de um toxic\u00f4mano do que outro toxic\u00f4mano, o que vai contra toda uma cultura da sa\u00fade mental que considera que um toxic\u00f4mano \u00e9 igual a outro. Muitas cl\u00ednicas e hospitais est\u00e3o ancorados na ideia do consumo. \u00c9 muito comum encontrar, em algumas comunidades terap\u00eauticas, a separa\u00e7\u00e3o do toxic\u00f4mano que consome coca\u00edna daquele que consome maconha ou \u00e1lcool. O consumo de hero\u00edna n\u00e3o \u00e9 habitual no Brasil e na Argentina, mas, na Europa, s\u00e3o separados, tamb\u00e9m, aqueles que consomem hero\u00edna. N\u00f3s pensamos que uma pessoa que consome coca\u00edna pode consumi-la de uma maneira totalmente diferente de outra pessoa que consome a mesma droga.<\/p>\n<p>Uma cl\u00ednica tem que trabalhar a partir da diferen\u00e7a de cada sujeito. \u00c9 muito comum, nas comunidades terap\u00eauticas, que todos os pacientes sejam convocados a fazer as atividades propostas: eles tem que fazer esporte, literatura, grupo de leitura, de reflex\u00e3o, etc. Em uma ocasi\u00e3o, perguntei \u00e0 coordenadora de um grupo por que motivo ela esperava que o paciente viesse at\u00e9 o seu grupo, o que ela queria alcan\u00e7ar com esse paciente singular. Ela se queixava de que havia um paciente que ia ao grupo de reflex\u00e3o e n\u00e3o queria refletir. Ent\u00e3o, se n\u00e3o queria refletir, era preciso dizer ao paciente que ele teria que ir embora. Eu disse que, para esse paciente, podia ser muito bom se ele ficasse no grupo escutando a reflex\u00e3o dos outros, e que n\u00e3o havia nenhuma contraindica\u00e7\u00e3o para deix\u00e1-lo participar.<\/p>\n<p>E o \u00faltimo ponto \u00e9 uma discuss\u00e3o que diz respeito \u00e0 \u00e9poca atual. Em minha tese de doutorado, afirmei que h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o muito estreita entre a \u00e9poca atual e as psicoses, mas n\u00e3o podemos dizer simplesmente que a \u00e9poca atual est\u00e1 maluca. N\u00e3o se trata disso. O que quero dizer \u00e9 que h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o estrutural entre a \u00e9poca atual e as psicoses e, ao mesmo tempo, h\u00e1 um empuxo ao consumo como um \u00fanico modo de se fazer frente ao mal-estar da cultura, ao mal-estar da civiliza\u00e7\u00e3o. Seria interessante fazer uma investiga\u00e7\u00e3o dessa rela\u00e7\u00e3o entre a \u00e9poca atual e a toxicomania, principalmente quando pensamos na ideia j\u00e1 difundida por Ernesto Sinatra de que somos todos toxic\u00f4manos, somos todos consumidores. Assim, teremos que fazer uma diferencia\u00e7\u00e3o entre a \u00e9poca dos consumidores e o que pensamos que \u00e9 a toxicomania enquanto tal.<\/p>\n<p><strong>Adriana de Vitta<\/strong>: Temos nos ocupado do seu texto e das suas elabora\u00e7\u00f5es, no Freud Cidad\u00e3o, para pensarmos a dire\u00e7\u00e3o do tratamento dos pacientes que frequentam a institui\u00e7\u00e3o. Temos nos apoiado no diagn\u00f3stico da fun\u00e7\u00e3o da droga para cada sujeito, como premissa b\u00e1sica no tratamento, o que tamb\u00e9m permite localizar o diagn\u00f3stico estrutural, como voc\u00ea nos esclarece. Temos trabalhado com sujeitos esquizofr\u00eanicos, que fazem uso excessivo de alguma subst\u00e2ncia, e nos chama a aten\u00e7\u00e3o a precariedade das solu\u00e7\u00f5es que encontram. Como um paciente cujas solu\u00e7\u00f5es s\u00e3o t\u00e3o fugazes que j\u00e1 chegamos a denomin\u00e1-las de \u201ccastelos de areia\u201d. Isso causa muita ang\u00fastia na equipe, que, com seus ideais de resposta ao tratamento, acaba por se cansar e, muitas vezes, at\u00e9 contribui para esse desenlace. O que temos pensado, basicamente, \u00e9 que a rela\u00e7\u00e3o da droga com o sexual deve ser algo priorizado em nossa escuta. O sexual, interrogando o corpo, provocando esse corpo, leva esse sujeito ao consumo. Como dar lugar para que esse sujeito fale desse inc\u00f4modo, tirando o olho da regula\u00e7\u00e3o e focando naquilo que \u00e9 t\u00f3xico para ele pr\u00f3prio? S\u00e9rgio de Mattos nos trouxe uma quest\u00e3o importante, que \u00e9 a possibilidade de concentrarmos nossas interven\u00e7\u00f5es a partir da escuta do del\u00edrio e daquilo que o sujeito traz como solu\u00e7\u00e3o para a vida, o que fica um pouco de lado quando a equipe entra com seus ideais normalizadores. Queria saber sua opini\u00e3o sobre isso.<\/p>\n<p><strong>Fabi\u00e1n Naparstek<\/strong>: Efetivamente, na esquizofrenia, a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre muito fugaz e, comumente, dura muito pouco tempo. \u00c9 uma coisa muito dif\u00edcil de encontrar, na esquizofrenia, uma solu\u00e7\u00e3o que servir\u00e1 para toda a vida. \u00c9 preciso fazer um trabalho cont\u00ednuo e, em muitos casos, n\u00f3s utilizamos, na esquizofrenia, especialmente, uma terapia de substitui\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 uma pol\u00edtica de substitui\u00e7\u00e3o, mas devemos observar que, em certos casos de esquizofrenia, h\u00e1 certas drogas que s\u00e3o usadas com um objetivo espec\u00edfico, por exemplo, \u00e9 muito habitual que alguns esquizofr\u00eanicos consumam maconha para frear o pensamento. Em alguns casos, n\u00f3s, psiquiatras, damos ao esquizofr\u00eanico uma medica\u00e7\u00e3o que pode ser melhor que a maconha. Se o sujeito encontrou essa solu\u00e7\u00e3o, que seja ela. Na esquizofrenia, a solu\u00e7\u00e3o ser\u00e1 sempre uma solu\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria, e eu sempre digo que \u201cdura o quanto dura\u201d. Enquanto dura, dura, e quando acabou, acabou.<\/p>\n<p>Camila Nuic: Quando voc\u00ea diz que \u00e9 preciso distinguir \u201cTodos somos toxic\u00f4manos\u201d, que \u00e9 quase um axioma da nossa \u00e9poca atual, da toxicomania enquanto tal, fiquei pensando se esta \u00faltima efetivamente existiria. Essa seria minha primeira quest\u00e3o, e a segunda diz respeito ao uso man\u00edaco de uma droga. Nesse caso citado por Adriana, esse sujeito, um esquizofr\u00eanico, faz uso man\u00edaco do crack. Em outros casos, o uso \u00e9 mais localizado, n\u00e3o \u00e9 compulsivo, como observamos em alguns casos de neuroses.<\/p>\n<p><strong>Fabi\u00e1n Naparstek<\/strong>: Eu falei, em outro momento, de uma ideia que \u00e9 tamb\u00e9m trabalhada por \u00c9ric Laurent, ao fazer refer\u00eancia a um termo da psiquiatria: monomanias. \u00c9ric Laurent fala de monotoxicomanias, termo que busca marcar formas localizadas de consumo. Este n\u00e3o seria um consumo de qualquer coisa, de qualquer subst\u00e2ncia, em qualquer momento. \u00c9 um consumo localizado que, efetivamente, em algumas psicoses, n\u00e3o se liga ao del\u00edrio ou a um uso em particular, como anest\u00e9sico para o corpo, e isso funciona somente com uma s\u00f3 droga. Por exemplo, um rapaz que consumia uma medica\u00e7\u00e3o que era um derivado de morfina. Esse rapaz sofreu um acidente de carro, teve um trauma muito grande e teve que passar por uma longa cirurgia. No momento posterior \u00e0 cirurgia, os m\u00e9dicos prescreviam morfina para al\u00edvio da dor ou uma medica\u00e7\u00e3o que continha morfina. Depois de toda essa experi\u00eancia, vimos que esse rapaz se transformou em um monotoxic\u00f4mano desse mesmo medicamento. Somente desse medicamento, pois ele n\u00e3o consumia coca\u00edna, nem crack, nem maconha. Era como se o rapaz estivesse, a todo o tempo, com o trauma presente, como se n\u00e3o houvesse uma maneira de elaborar o trauma, ent\u00e3o, seguia consumindo o mesmo medicamento contra a dor do trauma. Esse rapaz havia desenvolvido uma monomania, uma mania de consumir muito esse medicamento, mas somente esse. Um consumo localizado.<\/p>\n<p>A segunda pergunta, sobre a \u201ctoxicomania enquanto tal\u201d, a verdadeira toxicomania, acho que isso n\u00e3o existe. A toxicomania come\u00e7a na cultura, no momento em que a ci\u00eancia descobre a s\u00edndrome da abstin\u00eancia. \u00c9 um momento pontual da hist\u00f3ria do consumo das drogas. O homem consome drogas h\u00e1 milhares de anos e n\u00e3o havia a toxicomania. Quando a ci\u00eancia descobre a s\u00edndrome de abstin\u00eancia, a ci\u00eancia chama isso de toxicomania. Em nome da ci\u00eancia, no momento em que se fala da toxicomania, come\u00e7am a existir muitos toxic\u00f4manos. Como na \u00e9poca atual, em que muitos t\u00eam ataques de p\u00e2nico, que \u00e9 uma enfermidade nomeada por Freud como neurose de ang\u00fastia, e, agora, todo mundo fala de ataque de p\u00e2nico. E, assim, para todos que v\u00e3o aos hospitais com sintomas de acelera\u00e7\u00e3o e excita\u00e7\u00e3o, o m\u00e9dico fala de ataque de p\u00e2nico. \u00c9 a ci\u00eancia que inventa um nome, mas, em nome da ci\u00eancia, o sujeito mesmo se identifica ao nome de toxic\u00f4mano, e, assim, ele se diferencia. \u00c9 o mesmo que eu afirmei sobre a fun\u00e7\u00e3o da droga para cada sujeito. Uma coisa \u00e9 o nome que a ci\u00eancia confere a uma determinada pr\u00e1tica, e outra coisa \u00e9 a maneira que cada sujeito tem de ligar-se a essa droga. Nas psicoses, \u00e9 muito comum encontrar, nas monomanias, uma forma de resolver um trauma, uma maneira de se ligar ao Outro.<\/p>\n<p><strong>Helena Greco<\/strong>: Se considerarmos o \u00faltimo Lacan e a ideia de engates e desengates com o Outro, at\u00e9 que ponto essa tese da ruptura com o falo ainda \u00e9 v\u00e1lida para pensarmos tanto a toxicomania na neurose quanto na psicose, e como poder\u00edamos pensar esse uso man\u00edaco em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s psicoses ordin\u00e1rias?<\/p>\n<p><strong>Fabi\u00e1n Naparstek<\/strong>: As psicoses ordin\u00e1rias t\u00eam, como diz Miller, duas caras, dois aspectos. As psicoses ordin\u00e1rias s\u00e3o muito mais delicadas que as psicoses extraordin\u00e1rias, muito mais fr\u00e1geis, mas, ao mesmo tempo, s\u00e3o muito mais el\u00e1sticas, mais flex\u00edveis. H\u00e1 um prov\u00e9rbio franc\u00eas que escutamos tamb\u00e9m na Argentina que pode ser \u00fatil aqui. Existem aquelas \u00e1rvores que s\u00e3o muito grandes, muito fortes, que precisam ser golpeadas com um instrumento para parti-las ao meio. O que \u00e9 diferente da cana-de-a\u00e7\u00facar, por exemplo, que \u00e9 muito fr\u00e1gil, de forma que, quando bate um vento, ela cai, mas, no outro dia, ela se levanta normalmente, pois ela \u00e9 muito mais flex\u00edvel.<\/p>\n<p>A ideia de Miller \u00e9 que as psicoses ordin\u00e1rias t\u00eam muito mais flexibilidade. Tem a possibilidade de desenganchar e, ao mesmo tempo, no outro dia, se reenganchar. As psicoses ordin\u00e1rias apresentam caracter\u00edsticas que, por sua estrutura, n\u00e3o podemos falar de ruptura, como diz Lacan, n\u00e3o h\u00e1 um antes e um depois do desencadeamento. O Lacan, da primeira \u00e9poca, pensava que o momento do desencadeamento marcava a vida do sujeito com um antes e um depois. No caso das psicoses ordin\u00e1rias, h\u00e1 momentos diferentes que podem se envolver. \u00c9 muito mais flex\u00edvel, nesse sentido, e mostra que algumas toxicomanias t\u00eam essa flexibilidade, que o terapeuta deve saber utilizar, para orientar o tratamento. \u00c9 importante considerar o termo mania, pois a Rede do Campo Freudiano o conserva. Primeiramente, \u00e9 um termo que vem da psiquiatria cl\u00e1ssica, mas a ideia de Freud, assim como a de Lacan, \u00e9 que a mania \u00e9 uma ruptura com o Outro. Seja uma mania porque o sujeito consumiu uma droga, seja uma mania por um epis\u00f3dio man\u00edaco. O que foi nomeado como epis\u00f3dio man\u00edaco \u00e9 o momento em que se pode romper com o Outro.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, quando falamos de algum epis\u00f3dio ou de uma monomania, pensamos que n\u00e3o se trata de uma ruptura total com o Outro. H\u00e1 uma pr\u00e1tica, um consumo excessivo da droga, mas dentro de certos limites que marcam esse consumo. Isso n\u00e3o \u00e9 mesmo que falarmos da mania como uma ruptura total com o Outro. A monomania tem essa caracter\u00edstica, h\u00e1 um excesso, mas ela tem uma forma limitada.<\/p>\n<p>Falei, em Belo Horizonte, na XVII Jornada da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise \u2013 Se\u00e7\u00e3o MG, da festa tot\u00eamica como um exerc\u00edcio limitado. \u00c9 uma mania, mas que dura um tempo preciso. Acontece no momento em que h\u00e1 um excesso que vem do outro e, ao mesmo tempo, \u00e9 o outro mesmo que organiza esse excesso. Penso que, em certos sujeitos, h\u00e1 um excesso, mas que est\u00e1 dentro de certo limite, que se permite regular. Portanto, acho que, em algumas psicoses ordin\u00e1rias, h\u00e1 um excesso, mas, ao mesmo tempo, ele \u00e9 limitado. N\u00e3o \u00e9 um consumo de tudo, \u00e9 uma limita\u00e7\u00e3o de um excesso, que \u00e9 diferente da toxicomania, que quer tomar qualquer coisa a qualquer momento.<\/p>\n<p>S\u00e9rgio de Mattos: Fiquei pensando em um caso acompanhado por voc\u00ea de um homem que se travestia diante do espelho e que, ao fazer isso, usava coca\u00edna. Voc\u00ea comenta que, nesse caso, a fun\u00e7\u00e3o da droga era fazer desaparecer o p\u00eanis, minimizar o tamanho do p\u00eanis, de tal modo que ele se sentia menos incomodado em possu\u00ed-lo. Trata-se de uma fun\u00e7\u00e3o muito precisa da droga, mas voc\u00ea levanta outra quest\u00e3o: esse sujeito, que j\u00e1 consegue regular seu mal-estar com o \u00f3rg\u00e3o atrav\u00e9s da coca\u00edna e dessa pr\u00e1tica que voc\u00ea denomina \u201cempuxo-\u00e0-mulher\u201d, comenta que sentia que estava traindo sua pr\u00f3pria mulher ao se travestir diante do espelho e quer contar a ela sobre sua pr\u00e1tica.Voc\u00ea desencoraja-o e diz para ele que isso \u00e9 da ordem de sua privacidade, de sua intimidade. Minha quest\u00e3o: parece que, nesse momento, voc\u00ea opera a partir de alguns \u00edndices do del\u00edrio dele em torno do \u201cempuxo-\u00e0-mulher\u201d. Voc\u00ea localiza que esse \u201cempuxo-\u00e0-mulher\u201d e a droga formam o arranjo que ele faz para apaziguar o mal-estar, o gozo invasivo. Parece que a interven\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel porque voc\u00ea sabe que, se ele publica, se ele revela para a esposa essa solu\u00e7\u00e3o, isso vai provavelmente se desarranjar. \u00c9 um c\u00e1lculo, voc\u00ea evita isso. Temos discutido, aqui no Ateli\u00ea, sobre o valor de localizarmos esses ind\u00edces no del\u00edrio de um sujeito que, se, por um lado, permitiriam entender a fun\u00e7\u00e3o da droga, por outro lado, nos dariam a possibilidade de n\u00e3o operar somente regulando o consumo, mas tamb\u00e9m moderando um certo modo de o sujeito lidar com aquilo que \u00e9 da ordem do del\u00edrio, e que isso seria uma interven\u00e7\u00e3o poss\u00edvel e desej\u00e1vel na maioria dos casos.<\/p>\n<p><strong>Fabi\u00e1n Naparstek<\/strong>: A neurose \u00e9 uma maneira de localiza\u00e7\u00e3o do gozo. Uma maneira neur\u00f3tica, mas uma maneira. O recalque indica que o gozo tem que estar escondido em algum lugar e que a lei funciona em outro lugar. A neurose separa a lei do gozo, ent\u00e3o, s\u00f3 se pode gozar de uma maneira localizada, mas, ao mesmo tempo, de uma maneira escondida. O que Freud descobriu \u00e9 que todo mundo goza, mas o neur\u00f3tico goza na obscuridade, em lugares escondidos.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s psicoses \u00e9 que, nesse caso, o gozo invade por todos os lados, n\u00e3o h\u00e1 um lugar para o gozo e h\u00e1 uma invas\u00e3o. Se o psic\u00f3tico pode fazer uma pequena localiza\u00e7\u00e3o de gozo na intimidade, acho que \u00e9 preciso preservar. Temos que encontrar um lugar no qual preservar o gozo, uma intimidade do gozo. Efetivamente, minha interven\u00e7\u00e3o foi na dire\u00e7\u00e3o de preservar a intimidade do gozo. Al\u00e9m do que, esse paciente estava em um momento em que n\u00e3o podia parar de consumir coca\u00edna e que estava encontrando uma maneira de frear o consumo e, ao mesmo tempo, uma maneira de localizar o gozo. Bem, ele passou de uma situa\u00e7\u00e3o em que consumia todos os dias sem parar, desaparecia de sua casa, de sua mulher, de sua fam\u00edlia, para poder come\u00e7ar a fazer uma pr\u00e1tica muito espec\u00edfica que \u00e9 a de travestir-se para se transformar em uma mulher. Uma maneira muito localizada. Travestia-se sozinho, em frente ao espelho, e poderia manter isso dentro de uma intimidade.<\/p>\n<p>A intimidade \u00e9 uma maneira de preservar a localiza\u00e7\u00e3o do gozo. A defini\u00e7\u00e3o de intimidade \u00e9 essa: um gozo localizado. Quando n\u00e3o existe mais a intimidade, o gozo come\u00e7a a aparecer por todos os lados, e isso \u00e9 pr\u00f3prio da \u00e9poca atual. O reality show \u00e9 uma maneira de ir de encontro \u00e0 intimidade. A import\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 tanto o pudor, sen\u00e3o uma esp\u00e9cie de localiza\u00e7\u00e3o. O sujeito pode localizar o gozo em um momento, em um lugar espec\u00edfico. Por isso, muitos fen\u00f4menos das psicoses n\u00e3o t\u00eam a ver com a intimidade. Pelo contr\u00e1rio, o que h\u00e1 \u00e9 uma perda de intimidade, e os problemas com vizinhos s\u00e3o muito comuns, por exemplo, nos paranoicos, que os transformam em perseguidores, como se n\u00e3o houvesse uma intimidade, assim como o fen\u00f4meno de telepatia, como se n\u00e3o pudesse ter uma intimidade com o pr\u00f3prio pensamento. Todos esses s\u00e3o fen\u00f4menos pr\u00f3prios da psicose. Se o sujeito n\u00e3o encontra uma solu\u00e7\u00e3o para localizar o gozo, isso \u00e9 problem\u00e1tico, porque \u00e9 ao mesmo tempo em que se localiza o gozo, que se torna poss\u00edvel ao sujeito se ligar ao Outro. Quando o sujeito consegue localizar o gozo em algum lugar, \u00e9 que pode, em outro lugar, falar com o outro.<\/p>\n<p>Se o gozo aparece por todos os lados, \u00e9 imposs\u00edvel falar com o outro. Esse homem mostra muito bem como, por um lado, \u00e9 poss\u00edvel ter um gozo localizado e, em outro lugar, poder ter uma rela\u00e7\u00e3o com essa esposa. Isso \u00e9 muito importante, porque a intimidade \u00e9 uma maneira de dizer n\u00e3o a essa esposa. H\u00e1 algo que n\u00e3o, h\u00e1 algo que sim. \u00c9 uma maneira de manter esse la\u00e7o com o Outro e ao mesmo tempo de manter uma localiza\u00e7\u00e3o de gozo. Acho que isso \u00e9 como uma regra: se h\u00e1 uma maneira de localizar a intimidade, h\u00e1, ao mesmo tempo, uma maneira de se relacionar com o outro, que n\u00e3o \u00e9 Outro, que sabe tudo, do qual \u00e9 preciso desligar-se.<\/p>\n<p><strong>Let\u00edcia Soares<\/strong>: Quando come\u00e7amos a pensar na proposta de pesquisa deste Ateli\u00ea, nos lembramos muito de uma demanda frequente da comunidade, principalmente dos planos de sa\u00fade, que \u00e9 a procura por grupos espec\u00edficos de tratamento para toxic\u00f4manos. A quest\u00e3o era saber, principalmente, em quais dispositivos a institui\u00e7\u00e3o se apoiaria para tratar a toxicomania. N\u00f3s recuamos, a princ\u00edpio, frente a essa proposta de grupos de conversa para toxic\u00f4manos, apoiando-nos um pouco na ideia de deslocarmos o significante toxic\u00f4mano. Gostaria de ouvir sua opini\u00e3o sobre isso e como uma institui\u00e7\u00e3o, orientada pela psican\u00e1lise, poderia fazer uso desse dispositivo.<\/p>\n<p><strong>Fabi\u00e1n Naparstek<\/strong>: Podem-se fazer todos os grupos poss\u00edveis, o grupo n\u00e3o \u00e9 o problema. O problema \u00e9 como se usa o grupo na institui\u00e7\u00e3o. Pode-se atender um grupo que fala da toxicomania, atender a fam\u00edlia ou o que seja. O problema \u00e9 como cada sujeito vai fazer uso desse grupo. Para que prop\u00f3sito vai um sujeito a um grupo? Se h\u00e1 um diagn\u00f3stico da posi\u00e7\u00e3o subjetiva, pode-se pensar a partir da\u00ed por que o sujeito se liga a um grupo ou n\u00e3o. Se for ao grupo, com que prop\u00f3sito ele vai? Isso \u00e9 o mais importante. O grupo pode ser um dispositivo que pode funcionar para alguns sim, mas para outros n\u00e3o, e, no momento em que o sujeito entra no grupo, \u00e9 muito importante saber o que se quer desse sujeito nesse grupo, seja qual grupo for.<\/p>\n<p>Dei um exemplo anteriormente de um menino que se mantinha num grupo em sil\u00eancio, e eu falava com o coordenador que, para esse sujeito, era muito importante que ele fosse ao grupo somente para escutar, que isso era muito bom para ele e que, a partir da\u00ed, ele poderia fazer uma elabora\u00e7\u00e3o de seu problema e de sua posi\u00e7\u00e3o entre outros toxic\u00f4manos. Era uma solu\u00e7\u00e3o para ele ir a esse grupo, e quando o coordenador \u201cpuxava\u201d para que ele falasse, o problema surgia. Falei para o coordenador que aquele paciente n\u00e3o estava no grupo para falar. O problema n\u00e3o \u00e9 tanto que tipo de grupo \u00e9, sen\u00e3o como cada sujeito vai participar do grupo que existe.<\/p>\n<p>(1) Este texto \u00e9 uma transcri\u00e7\u00e3o do semin\u00e1rio proferido por Fabi\u00e1n Naparstek em maio de 2013, com algumas modifica\u00e7\u00f5es que n\u00e3o alteram o sentido do que foi dito, para conferir ao leitor uma melhor compreens\u00e3o. Trata-se de uma publica\u00e7\u00e3o autorizada pelo autor, sem a sua revis\u00e3o. Respons\u00e1veis pelo Ateli\u00ea: Adriana de Vitta, Camila Nuic, Let\u00edcia Soares, Marisa de Vitta, S\u00e9rgio de Mattos (coordenador). E-mail:\u00a0<span id=\"cloak6bb11142445d5dcb03ce33d0459eaa67\"><a href=\"mailto:freudcidadao@gmail.com\">freudcidadao@gmail.com<\/a><\/span>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Fabi\u00e1n Naparstek<\/strong><\/h6>\n<h6>Psicanalista, membro da EOL e AMP. E-mail:\u00a0<span id=\"cloak8543ddd61b00bf474c136ff944c3d581\"><a href=\"mailto:fabiannaparstek@hotmail.com\">fabiannaparstek@hotmail.com<\/a><\/span>.<\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>FABI\u00c1N NAPARSTEK S\u00e9rgio de Mattos: Estamos aqui, hoje, no Freud Cidad\u00e3o, institui\u00e7\u00e3o de sa\u00fade mental de Belo Horizonte, dando continuidade \u00e0s atividades do Ateli\u00ea de Pesquisa Psicanal\u00edtica desenvolvidas neste semestre. 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