{"id":636,"date":"2013-07-17T06:55:07","date_gmt":"2013-07-17T09:55:07","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=636"},"modified":"2013-07-17T06:55:07","modified_gmt":"2013-07-17T09:55:07","slug":"os-alicerco-da-terra-notas-sobre-o-fim-do-cem-fim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2013\/07\/17\/os-alicerco-da-terra-notas-sobre-o-fim-do-cem-fim\/","title":{"rendered":"\u201cOs Alicer\u00e7o Da Terra\u201d: Notas Sobre \u00d4 Fim Do Cem, Fim\u2026"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>LUC\u00cdOLA FREITAS DE MAC\u00caDO<\/strong><\/p>\n<p>I.<\/h6>\n<p>O del\u00edrio e a escrita de Paulo Marques de Oliveira conjugam ci\u00eancia e religi\u00e3o: um del\u00edrio de fundo religioso e cosmol\u00f3gico \u00e9 aparelhado pelo discurso da ci\u00eancia, ao modo de um manual explicativo, com vide bula e modo de usar. Ele \u00e9, sobretudo, um orador, que n\u00e3o apenas escreve, mas desenha seu discurso. Procede a uma escrita da fala, em uma l\u00edngua pr\u00f3pria, a sua l\u00edngua fundamental, permeada de neologismos. Em \u00d4 fim do cem, fim\u2026 (2011), testemunha sobre seu inconsciente \u2014 a c\u00e9u aberto \u2014 e sobre o modo como \u00e9 habitado pela linguagem. Escrevendo sua fala, vai encontrando, tamb\u00e9m, como seus escritos atestam, seu modo singular de habit\u00e1-la.<\/p>\n<p>Para Deleuze (1997), a psicose e sua linguagem s\u00e3o insepar\u00e1veis de um procedimento lingu\u00edstico. Se, na neurose, navega-se nos mares da significa\u00e7\u00e3o, nas psicoses, perguntaremos sobre o procedimento lingu\u00edstico que lhe \u00e9 espec\u00edfico: o procedimento come\u00e7a a funcionar quando a rela\u00e7\u00e3o entre as palavras e as coisas n\u00e3o \u00e9 mais de designa\u00e7\u00e3o; quando a rela\u00e7\u00e3o entre uma proposi\u00e7\u00e3o e outra n\u00e3o \u00e9 mais de significa\u00e7\u00e3o; e quando, por fim, a rela\u00e7\u00e3o entre uma l\u00edngua e outra j\u00e1 n\u00e3o ser\u00e1 de tradu\u00e7\u00e3o. \u00c9 aquilo que manipula as coisas imbricadas nas palavras, e tamb\u00e9m aquilo que, de uma proposi\u00e7\u00e3o a outra, constr\u00f3i toda uma extens\u00e3o de discursos, de aventuras, de cenas, de personagens e de mec\u00e2nicas, e tamb\u00e9m isso que decomp\u00f5e um estado de l\u00edngua em outro e com essas ru\u00ednas, com esses fragmentos, com esses ti\u00e7\u00f5es ainda incandescentes, inventa um novo cen\u00e1rio, outra l\u00edngua. Quando a designa\u00e7\u00e3o desaparece, quando a comunica\u00e7\u00e3o das frases pelo sentido se interrompe, quando o c\u00f3digo \u00e9 abolido, diante do apagamento de alguma dessas dimens\u00f5es da linguagem: um \u00f3rg\u00e3o se erige, um orif\u00edcio entra em excita\u00e7\u00e3o, se erotiza, e um aparelho de linguagem, um procedimento, poder\u00e1 emergir (FOUCAULT, 2001, p.309-311).<\/p>\n<p>Lan\u00e7o a voc\u00eas a quest\u00e3o: qual \u00e9 o procedimento de linguagem inventado pelo cientista Paulo Marques de Oliveira?<\/p>\n<p><strong>II.<\/strong><\/p>\n<p>\u201cEstranhos poemas\u201d \u00e9 como Michel Foucault designa n\u00e3o o texto, mas a pr\u00f3pria vida que o escreveu. Estranhos poemas s\u00e3o os escritores an\u00f4nimos dos s\u00e9culos XVII e XVIII visitados por ele nos arquivos de interna\u00e7\u00e3o do Hospital Geral da Bastilha e nos arquivos da Biblioteca Nacional, aos quais dedica o seu artigo: \u201cA vida dos homens infames\u201d (1999b, p.389-407). O sonho de Foucault era o de, atrav\u00e9s da beleza e da poesia, do estilo cl\u00e1ssico daqueles breves registros, datados de uma \u00e9poca ainda n\u00e3o impregnada pelo tecnicismo dos manuais diagn\u00f3sticos, restituir a intensidade daquelas vidas, mas, \u201ccarente do talento necess\u00e1rio\u201d para faz\u00ea-lo, contentou-se em dar voltas em torno delas.<\/p>\n<p>O que encantou Foucault, naqueles escritos, foi sua luminosidade fulgurante, pois que revelam, ao fio da linguagem, um esplendor, uma viol\u00eancia que desmente, aos nossos olhos, a pequenez do caso e a mesquinharia das inten\u00e7\u00f5es: as mais lament\u00e1veis vidas s\u00e3o ali descritas, e sua \u00eanfase, que parece convir \u00e0s vidas mais tr\u00e1gicas. Mas o que se extrai desses escritos \u00e9 um efeito c\u00f4mico, uma vez que se apela a todo poder das palavras, \u00e0 soberania dos c\u00e9us e da terra, em nome das desgra\u00e7as as mais corriqueiras. Sua exist\u00eancia se inscreve no abrigo prec\u00e1rio dessas palavras, encontradas ao acaso, por algu\u00e9m inserido na ordem dos discursos e que faz desses estranhos poemas seres de quase fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi assim que me senti diante da intensidade cravada na ponta da caneta e da profus\u00e3o po\u00e9tica do \u201clivro luz\u201d, \u201co primeiro e derradeiro\u201d, do cientista Paulo Marques de Oliveira. Em sua caprichada caligrafia, na delicadeza das suas ilustra\u00e7\u00f5es, experimentei a beleza e o espanto, a emo\u00e7\u00e3o, o riso, a surpresa e o calafrio causados pela leitura de seu \u201clivro did\u00e1tico\u201d, \u201ca ensinar o sistema da bateria onde moram as na\u00e7\u00f5es, o Senado Federal como guverna, como faz o forno autom\u00e1tico produtivo e os an\u00e9is de plantio, como trata do gorgulho nos siriais, a germina\u00e7\u00e3o dos viventes vertebrados e invertebrados, o modo de fazer a irrega\u00e7\u00e3o, a medi\u00e7\u00e3o c\u00fabica de uma lagoa, com faz o plantio da bananeira, como trata do gado, do pasto e o carrapato, os alicer\u00e7o da terra, a primeira carro\u00e7a feita por Caim, o mapa da \u00f4ca universal, como faz a \u00e1gua transformar em vinho, como faz a caxa\u00e7a da vida, o pudinho de bom xixi, como faz um pr\u00e9dio de duzentos andares, como Ad\u00e3o e Eva foi germinado, a semente do homem, o que \u00e9 imjustissa, como faz o parto cem osar cesariano das cl\u00ednicas, como faz\u00ea uma opera\u00e7\u00e3o de h\u00e9rnia, cadeira para quem trabalha em escrit\u00f3rio, como gera o pinto no ovo, norma de carta para comdol\u00eancia em falecimento, como faz xuveiro de \u00e1gua morna com lampi\u00e3o\u201d (2011)\u2026<\/p>\n<p>O cientista Paulo Marques de Oliveira, \u201castrof\u00edsico, te\u00f3logo, sismografista e profulgenciado\u201d, escreve seu comp\u00eandio, esse livro que \u201c\u00e9 luz do mundo: primeiro e derradeiro\u201d, um \u201clivro did\u00e1tico para todas as gera\u00e7\u00f5es\u201d, que ir\u00e1 \u201cbrilhar semilhante a estrela da \u00c1lva\u201d. \u00c0 medida que o escreve e o ilustra com esmero, inventa seu procedimento e, com ele, uma ordem para o mundo, com \u201cseus alicer\u00e7o\u201d e suas leis de funcionamento.<\/p>\n<p><strong>III.<\/strong><\/p>\n<p>Em 1933, em \u201cO problema do estilo e a concep\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica das formas paranoicas da experi\u00eancia\u201d, Lacan chama a aten\u00e7\u00e3o, pela primeira vez, para a riqueza das produ\u00e7\u00f5es pl\u00e1sticas e po\u00e9ticas de sujeitos psic\u00f3ticos, numa \u00e9poca em que a psicose ainda era amplamente concebida em termos de d\u00e9ficit, pela psiquiatria.<\/p>\n<p>J\u00e1 em 1955-1956, no Semin\u00e1rio 3, as psicoses, a prop\u00f3sito de Mem\u00f3rias de um doente dos nervos, de D. P. Schreber (1985), \u00e9 enf\u00e1tico ao afirmar:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>[\u2026] se ele \u00e9 com toda certeza um escritor, n\u00e3o \u00e9 um poeta\u2026 h\u00e1 poesia toda vez que um escrito nos introduz num mundo diferente do nosso, e, ao nos dar a presen\u00e7a de um ser, de uma certa rela\u00e7\u00e3o fundamental, faz com que ela se torne tamb\u00e9m nossa (LACAN, 1955-1956\/1985, p.94).<\/em><\/p>\n<p>A poesia, continua Lacan, faz com que n\u00e3o possamos duvidar da autenticidade da experi\u00eancia de San Juan de la Cruz, de Proust, ou de G\u00e9rard Nerval. Ela consiste na cria\u00e7\u00e3o de um sujeito assumindo uma nova ordem de rela\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica com o mundo, mas n\u00e3o h\u00e1 absolutamente nada disso nas Mem\u00f3rias de Schreber. Ele \u00e9 habitado certamente por todas as esp\u00e9cies de exist\u00eancias improv\u00e1veis,<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>[\u2026] mas cujo car\u00e1ter significativo \u00e9 certo, \u00e9 um dado primeiro, e cuja articula\u00e7\u00e3o se torna cada vez mais elaborada \u00e0 medida que avan\u00e7a seu del\u00edrio. Ele \u00e9 violado, manipulado, transformado, falado de todas as maneiras, \u00e9, eu diria, tagarelado (LACAN, 1955-1956\/1985, p.94).<\/em><\/p>\n<p>Tudo o que ele faz existir \u00e9 de alguma maneira vazio dele pr\u00f3prio. E adverte:<\/p>\n<p><em>As produ\u00e7\u00f5es discursivas que caracterizam o registro das paranoias desenvolvem-se com toda for\u00e7a, ali\u00e1s, a maior parte do tempo, em produ\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias, no sentido em que liter\u00e1rias quer dizer simplesmente folhas de papel cobertas com escrita\u2026 voc\u00eas percebam o que falta aqui ao louco, por mais escritor que ele seja, mesmo a esse presidente Schreber que nos fornece uma obra t\u00e3o surpreendente por seu car\u00e1ter completo, fechado, pleno, acabado (LACAN, 1955-1956\/1985, p.93).<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o haveria, portanto, na obra do escritor louco, o sentimento de uma experi\u00eancia original na qual ele estaria inclu\u00eddo como sujeito. Seu mundo aparece esvaziado da presen\u00e7a daquele que testemunha. Com as folhas de papel cobertas com escrita, o louco buscaria integrar seu del\u00edrio em uma rede de sentidos e significa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Outro aspecto distintivo entre o escritor louco e o poeta \u00e9 assinalado por Lacan no Semin\u00e1rio 5, as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente (LACAN, 1957-1958\/1999) e diz respeito \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o das figuras de linguagem, met\u00e1fora e meton\u00edmia: n\u00e3o encontramos no texto do escritor louco o uso da met\u00e1fora, que \u00e9, por sua vez, um elemento constante, e mesmo paradigm\u00e1tico do fazer po\u00e9tico. H\u00e1 uma preponder\u00e2ncia da meton\u00edmia, das rela\u00e7\u00f5es de contiguidade em detrimento daquelas de similaridade (LACAN, 1957-1958\/1999). Com a aboli\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o metaf\u00f3rica, n\u00e3o h\u00e1 intervalo ou substitui\u00e7\u00e3o de um significante por outro (S1-S2). Sem esse intervalo, n\u00e3o haveria enuncia\u00e7\u00e3o. Apenas uma chuva de enunciados. Ao inv\u00e9s de o S2 assinalar o sentido produzido no campo do Outro, ele retorna no real, produzindo o efeito e a certeza delirantes, ou ent\u00e3o se cola ao S1, produzindo o efeito de hol\u00f3frase. Tem-se uma s\u00e9rie de S1s sem S2. Uma enxurrada de significantes em bloco, n\u00e3o desmembr\u00e1vel, em sequ\u00eancia monol\u00edtica e sem intervalos.<\/p>\n<p><strong>IV.<\/strong><\/p>\n<p>Lacan se interessou pela obra de Joyce porque este lan\u00e7ou m\u00e3o de um procedimento de escrita que desconsidera completamente a distin\u00e7\u00e3o entre o significante e o significado, subvertendo o que se entendia at\u00e9 ent\u00e3o por literatura, pois n\u00e3o necessita do recurso \u00e0 met\u00e1fora como paradigma do fazer po\u00e9tico. De acordo com Miller, nesse momento de seu ensino, Lacan se arriscar\u00e1 a tratar a obra de arte, sobretudo a obra escrita, a partir da puls\u00e3o, \u201ca partir\u2026 da puls\u00e3o escritural. Ela deve ser entendida no autoerotismo do falasser\u201d (MILLER, 2011-2012). A \u00eanfase ser\u00e1 posta, desde ent\u00e3o, em sua vertente econ\u00f4mica e na extra\u00e7\u00e3o da libido do corpo. A linguagem, nessa vertente, n\u00e3o visa ao sentido. Concerne ao real do corpo de gozo. Miller (2013) explicita, ainda, a prop\u00f3sito das elabora\u00e7\u00f5es de Lacan sobre a escrita, o que chama de \u201cteoria da dupla escritura\u201d (MILLER, 2013, p.16): h\u00e1 uma escrita que est\u00e1 ligada \u00e0 palavra, se constituindo como uma precipita\u00e7\u00e3o do significante (em alus\u00e3o a \u201cLituraterra\u201d). O que est\u00e1 em jogo, nessa vertente da escrita, \u00e9 a precipita\u00e7\u00e3o do significante f\u00f4nico, na medida em que o significante pertence \u00e0 fala; na medida em que o significante \u00e9 tido como um fen\u00f4meno da fona\u00e7\u00e3o. A fala \u00e9 capaz de depositar-se sob a forma de escritura e ser recomposta a partir dessa marca deixada pelo significante. O que se deposita, sob a forma dessa escrita, \u00e9 isso de que a voz, com suas modula\u00e7\u00f5es, \u00e9 o suporte.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 outra escrita que nada tem a ver com a fala e com a voz. \u00c9 um puro tra\u00e7o escrito \u2014 o desenho. O n\u00f3 borromeano representado, desenhado, \u00e9 dessa ordem. No n\u00f3, h\u00e1 escritura, mas esta se apresenta desarticulada da voz e da fala portadora de sentido. Essa escritura n\u00e3o vem do significante, n\u00e3o \u00e9 da ordem da palpita\u00e7\u00e3o do significante, e preserva uma autonomia em rela\u00e7\u00e3o ao simb\u00f3lico, n\u00e3o se articulando ao sentido. Interroga-se se essa dimens\u00e3o da escrita n\u00e3o se prestaria ao horizonte do uso, de um uso da escrita que n\u00e3o se prestaria, por sua vez, \u00e0 representa\u00e7\u00e3o, mas ao erotismo do sujeito, \u00e0 sua satisfa\u00e7\u00e3o pulsional, ao n\u00edvel do que Miller chamou de puls\u00e3o escritural, quando deu o exemplo de Joyce, que escrevia, sobretudo, para si mesmo, e cujo motor da escrita n\u00e3o era um ideal.<\/p>\n<p>Parece-me que a escrita do cientista Paulo Marques de Oliveira, de modo particular, e a escrita cujo motor seja o del\u00edrio, de um modo mais amplo, se deem a ler nessa dupla vertente: por um lado, a da precipita\u00e7\u00e3o do significante, quando se trata do esfor\u00e7o de constituir, atrav\u00e9s do del\u00edrio, uma rede de sentido; mas, tamb\u00e9m, aquela de uma pura satisfa\u00e7\u00e3o pulsional, movida pelo autoerotismo do falasser. De modo que caberia interrogar, acompanhando Lacan em suas elabora\u00e7\u00f5es sobre a escrita ao longo de seu ensino, se n\u00e3o se poderia afirmar que, para cada procedimento de escrita, haveria uma po\u00e9tica que lhe \u00e9 pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Ricardo Aquino, diretor e curador do Museu Bispo do Ros\u00e1rio, observara que, ao criar suas obras, Bispo criava a si mesmo, trabalhando sem descanso, movido por uma for\u00e7a pulsional constante, tecendo com os restos e as sobras que encontrava: utilizava moedas, bot\u00f5es, talheres, canecas, potes e produtos utilit\u00e1rios, deslocados de suas fun\u00e7\u00f5es originais, e, em seguida, catalogava seus produtos, numerando, listando, colocando placas identificadoras. Aquino nomeou o procedimento de Bispo do Ros\u00e1rio de \u201cpo\u00e9tica do invent\u00e1rio\u201d (NAHAS, 2011, p.189). A po\u00e9tica do invent\u00e1rio se inscreve, por sua vez, nas po\u00e9ticas da modernidade, que s\u00e3o po\u00e9ticas da ruptura.<\/p>\n<p>Mallarm\u00e9 (1842-1898) inaugura, com o poema \u201cUm lance de dados\u201d (1897), publicado, pela primeira vez, em 1897, na revista Cosmopolis, um novo g\u00eanero de poesia: liberado de sua estrutura linear, desprovido de significa\u00e7\u00e3o final, marcado por invers\u00f5es sint\u00e1ticas, pela suspens\u00e3o do tempo e desprovido de sujeito. Ele abre as portas para uma nova concep\u00e7\u00e3o do poema e da poesia (CAMPOS et al., 1974).<\/p>\n<p>Em sua an\u00e1lise da rela\u00e7\u00e3o entre as palavras e as coisas, Foucault (1999) afirma que, a partir do s\u00e9culo XIX, \u201c[\u2026] a linguagem vai crescer sem come\u00e7o, sem termo e sem promessa\u201d (FOUCAULT, 1999, p.61). Surge, a partir de ent\u00e3o, uma nova legibilidade. O que era ileg\u00edvel nas folhas de papel cobertas com escrita ganhar\u00e1 um lugar entre os discursos: as folhas de papel cobertas de escrita do cientista Paulo Marques de Oliveira fizeram-se obra, um livro muito bem editado, al\u00e9m de mat\u00e9ria viva do filme dirigido por Cao Guimar\u00e3es, do qual acabamos de assistir um fragmento, e objeto de cria\u00e7\u00e3o da \u00faltima cole\u00e7\u00e3o do estilista mineiro Ronaldo Fraga. Seria poss\u00edvel, depois de tudo, afirmar que o procedimento do cientista Paulo Marques de Oliveira n\u00e3o \u00e9 poesia?<\/p>\n<h6>(1) Texto apresentado por ocasi\u00e3o do Semin\u00e1rio Te\u00f3rico \u201cA ci\u00eancia e a escrita do del\u00edrio\u201d, no \u00e2mbito do N\u00facleo de Pesquisa em Psicose.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h6>\n<h6>CAMPOS; PIGNATARI; CAMPOS, D. Mallarm\u00e9. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 1980.<\/h6>\n<h6>DELEUZE, G. Louis Wolfson, ou o procedimento, In: ______. Cr\u00edtica e cl\u00ednica. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 1997, p.17-30.<\/h6>\n<h6>FOUCAULT, M. As palavras e as coisas. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1999a.<\/h6>\n<h6>FOUCAULT, M. \u201cLa vida de los hombres infames\u201d, In: ______. Obras essenciales volumen II. Barcelona: Paid\u00f3s, 1999b, p.389-407.<\/h6>\n<h6>FOUCAULT, M. \u201cSete proposi\u00e7\u00f5es sobre o s\u00e9timo anjo\u201d, In: ______. Ditos e escritos III. Rio de Janeiro: Forense Universit\u00e1ria, 2001, p.299-315.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1955-56). Semin\u00e1rio 3, as psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1957-58). Semin\u00e1rio 5, as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,1999.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1933). \u201cO problema do estilo e a concep\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica das formas paranoicas da experi\u00eancia\u201d, In: ______. Da psicose paranoica em suas rela\u00e7\u00f5es com a personalidade. Rio de Janeiro: Forense Universit\u00e1ria, 1987, p.375-380.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. Semin\u00e1rio de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana \u201cO ser e o Um\u201d, Li\u00e7\u00e3o XIV, 2011 (in\u00e9dito).<\/h6>\n<h6>NAHAS, V. \u201cRetrato do artista como louco\u201d, Arteira, Florian\u00f3polis, Escola Brasileira de Psican\u00e1lise \u2013 Se\u00e7\u00e3o Santa Catarina, n.4, 2011, p.187-190.<\/h6>\n<h6>OLIVEIRA, P. M. \u00d4 fim do cem, fim\u2026 Belo Horizonte: Vereda, 2011.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Luc\u00edola Freitas De Mac\u00eado<\/strong><\/h6>\n<h6>Analista praticante, Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise, Presidente do Conselho e Diretora de Ensino do IPSM-MG, Doutoranda em Psican\u00e1lise e Estudos da Cultura (FAFICH\/UFMG). E-mail:\u00a0<span id=\"cloakb796015b559b998144ec225cd70b9324\"><a href=\"mailto:luciola.bhe@terra.com.br\">luciola.bhe@terra.com.br<\/a><\/span>.<\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LUC\u00cdOLA FREITAS DE MAC\u00caDO I. O del\u00edrio e a escrita de Paulo Marques de Oliveira conjugam ci\u00eancia e religi\u00e3o: um del\u00edrio de fundo religioso e cosmol\u00f3gico \u00e9 aparelhado pelo discurso da ci\u00eancia, ao modo de um manual explicativo, com vide bula e modo de usar. 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