{"id":638,"date":"2013-07-17T06:55:07","date_gmt":"2013-07-17T09:55:07","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=638"},"modified":"2013-07-17T06:55:07","modified_gmt":"2013-07-17T09:55:07","slug":"pais-e-maes-atuais-a-ciencia-como-partenaire","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2013\/07\/17\/pais-e-maes-atuais-a-ciencia-como-partenaire\/","title":{"rendered":"Pais E M\u00e3es Atuais: A Ci\u00eancia Como Partenaire"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>MARIA RITA GUIMAR\u00c3ES<\/strong><\/h6>\n<p>Seria poss\u00edvel pensar no \u201catual\u201d dos pais e da maternidade \u2014 entendida no sentido mais amplo \u2014 sem a presen\u00e7a massiva da ci\u00eancia? Tentaremos destacar alguns pontos pass\u00edveis de nos encaminhar na quest\u00e3o.<\/p>\n<p>O pai que n\u00e3o sabe o que fazer e que recorre ao especialista \u00e9 o paradigma da paternidade de nossa \u00e9poca, mas, mesmo hoje em dia, tem-se a resposta \u00e0 pergunta: \u201co que \u00e9 um pai?\u201d.<\/p>\n<p>Lacan interroga. \u201cQu\u2019est-ce qu\u2019un p\u00e8re?\u201d (LACAN, 1957\/1994 p.205), e os elementos de resposta que auxiliam sua elabora\u00e7\u00e3o s\u00e3o absolutamente atuais. \u00c9 com uma ilustra\u00e7\u00e3o \u201cla plus saisissante\u201d que Lacan fala do \u201cX da paternidade\u201d. Trata-se de uma novidade que vem da Am\u00e9rica do Norte, e seu relato \u00e9 surpreendente: uma mulher, desde a morte de seu marido, com quem ela tinha um pacto de amor eterno, a cada dez meses, dava \u00e0 luz um filho do falecido. O congelamento do s\u00eamen, naquela \u00e9poca, era algo absolutamente novo e produzia indaga\u00e7\u00f5es. Lacan se serve do exemplo para retomar a no\u00e7\u00e3o do pai simb\u00f3lico como sendo o pai morto, mas acrescenta: nesse caso, o pai real \u00e9 tamb\u00e9m o pai morto. Naquela data, todavia, o \u201cpai real\u201d se confunde com o pai da realidade, disjun\u00e7\u00e3o que Lacan promover\u00e1 em seu ensino anos mais tarde. Em 1957, a ilustra\u00e7\u00e3o permitiu a Lacan real\u00e7ar a dist\u00e2ncia entre o que seja a fun\u00e7\u00e3o da procria\u00e7\u00e3o e a no\u00e7\u00e3o do que \u00e9, afinal, um pai.O que Lacan est\u00e1 formulando e que dir\u00e1, em 1967, \u00e9 que o \u201cX da paternidade\u201d \u00e9 o lugar do pai como vazio, necess\u00e1rio ao cumprimento de sua finalidade; para que opere como fun\u00e7\u00e3o, que \u00e9, afinal, a nomea\u00e7\u00e3o do desejo. \u201cQue o desejo n\u00e3o seja an\u00f4nimo\u201d, como disse, em 1969.( LACAN,1969-2003,p.369) Sem d\u00favida, a quest\u00e3o do desejo e da media\u00e7\u00e3o do nome do pai inquieta Lacan, pois, como disse, \u201cno futuro, se fabricar\u00e3o filhos diretos de homens de g\u00eanio\u201d, e, em consequ\u00eancia de tais fatos, o pai sofreria um golpe em sua palavra de maneira ainda mais radical.<\/p>\n<p><em>A quest\u00e3o \u00e9 ent\u00e3o saber como, por que via, sob que modo, se inscrever\u00e1 no psiquismo da crian\u00e7a a palavra do ancestral, da qual a m\u00e3e ser\u00e1 o \u00fanico representante e o \u00fanico ve\u00edculo. Como \u00e9 que ela vai fazer falar o ancestral enlatado (LACAN, 1956-1957\/1994, p.386).<\/em><\/p>\n<p>Hoje em dia, a quest\u00e3o \u00e9 de ordem enlouquecedora, tal como se pode ler no semin\u00e1rio alem\u00e3o Der Spiegel em setembro de 2013.(1) Segundo a publica\u00e7\u00e3o, o departamento para as crian\u00e7as e sa\u00fade p\u00fablica recebeu um informe de que \u201co homem deu \u00e0 luz em casa.\u201d O homem, um transexual que manteve seus \u00f3rg\u00e3os sexuais femininos, deu \u00e0 luz \u201cum menino, depois da insemina\u00e7\u00e3o artificial\u201d. Por\u00e9m, requer ser registrado como \u201cpai\u201d no registro civil e n\u00e3o como m\u00e3e, \u201cuma demanda que a administra\u00e7\u00e3o respondeu favoravelmente.\u201d A surpresa do caso n\u00e3o fica por a\u00ed: mais que isso, o \u201cpai\u201d da crian\u00e7a \u201c[\u2026] solicita que o sexo do beb\u00ea n\u00e3o seja declarado\u201d, demanda que foi recusada. Esse caso recente extrapolou a administra\u00e7\u00e3o de Berlim, mas n\u00e3o se trata de acontecimento \u00fanico. Tamb\u00e9m sob outras modalidades de for\u00e7amento executadas atrav\u00e9s das t\u00e9cnicas da procria\u00e7\u00e3o, podem-se encontrar in\u00fameras ilustra\u00e7\u00f5es do sem limite instaurado no campo das rela\u00e7\u00f5es e identifica\u00e7\u00f5es dos lugares familiares: o real foi tocado. O preocupante \u00e9 que, agora, n\u00e3o somente o real do corpo da mulher \u00e9 tocado, por\u00e9m, igualmente, o corpo do \u201cnovo homem\u201d, efeito da ci\u00eancia. Podem-se acompanhar as dificuldades colocadas para a justi\u00e7a e a necessidade de inscri\u00e7\u00f5es de novas considerac\u00f5es jur\u00eddicas sobre a figura do pai, e, quase sempre, na urg\u00eancia. Como foi dito por \u00c9ric Laurent, \u201cos comportamentos performativos singulares n\u00e3o cessam de criar perturba\u00e7\u00f5es nas categorias do Direito\u201d (LAURENT, 2008, p.15)<\/p>\n<p>Ao coment\u00e1rio da autoridade alem\u00e3 respons\u00e1vel pelo citado caso: \u201cEm um ou outro momento, esta crian\u00e7a vai descobrir que seu pai \u00e9, na realidade, sua m\u00e3e\u201d acrescentaremos o imprevis\u00edvel dos efeitos subjetivos para essa crian\u00e7a, ainda mais sobrecarregada pelo fantasma manifestado por seu pai\/m\u00e3e de que n\u00e3o lhe fora concedida uma inscri\u00e7\u00e3o sexual: g\u00eanero neutro, o limbo da indiferencia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9ric Laurent nos tem mostrado, em diversos trabalhos, como v\u00e3o as fic\u00e7\u00f5es: sejam as jur\u00eddicas, sejam as cient\u00edficas, n\u00e3o est\u00e3o feitas para dar conta do ponto real que \u00e9 a origem subjetiva para cada um. Para utilizar suas palavras, trata-se \u201cda malforma\u00e7\u00e3o do que foi o encontro falido entre os desejos que, a cada um de n\u00f3s, nos empurrou ao mundo\u201d (LAURENT, 2008, s\/p) A ci\u00eancia se interessar\u00e1 pelo ponto obscuro da origem humana? N\u00e3o \u00e9 certo, j\u00e1 que se baseia pelo princ\u00edpio da transpar\u00eancia: o pai por ela reconhecido \u00e9 o pai do DNA, o que \u00e9 validado pela fic\u00e7\u00e3o jur\u00eddica. Por\u00e9m, cada vez mais, nesse campo da filia\u00e7\u00e3o, as exig\u00eancias por novas fic\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas n\u00e3o param. Existe, inclusive, a L\u2019Association Procr\u00e9ation M\u00e9dicalement Anonyme, que re\u00fane os filhos nascidos de dom de gameta an\u00f4nimo, mas, igualmente, os doadores. A pol\u00eamica discuss\u00e3o a respeito da interdi\u00e7\u00e3o do conhecimento das origens gen\u00e9ticas divide a justi\u00e7a, conforme as leis dos pa\u00edses em quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s da Associa\u00e7\u00e3o, passam, agora, a serem escutadas as primeiras vozes dos filhos do anonimato promovido pela pr\u00e1tica de doa\u00e7\u00e3o de esperma, tal como foi publicado no jornal franc\u00eas Le Figaro em 09\/02\/13.<\/p>\n<p>Um jovem de 23 anos, Roussial Clemente, nascido por insemina\u00e7\u00e3o artificial com doador an\u00f4nimo, disse:<\/p>\n<p><em>Tive problemas para encontrar as semelhan\u00e7as com meu pai. Durante um passeio \u00e0 beira d\u2019\u00e1gua, finalmente me disse que ele n\u00e3o era a pessoa que me havia feito. Pulei em seus bra\u00e7os. Foi um choque, mas tamb\u00e9m um al\u00edvio. Antes, eu tinha imaginado uma viola\u00e7\u00e3o, uma ado\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p>Lemos, ent\u00e3o, os testemunhos como parte do romance familiar de cada um, tal como Freud nos ensinou e, se falar de pais na atualidade \u00e9 assunto multifacetado, \u201cem todas estas varia\u00e7\u00f5es ou cria\u00e7\u00f5es diversas, distintos discursos v\u00e3o entrar em conflito sobre o que s\u00e3o o pai ou a m\u00e3e nesta ocasi\u00e3o. Mas o que vemos \u00e9 que ningu\u00e9m quer ter filhos sem pais\u201d (LAURENT, 2008, p.2)<\/p>\n<p>No entanto, n\u00e3o se est\u00e1 promovendo um retorno da figura do pai, talvez menos na pele do pai ed\u00edpico do que na pele do pai gozador, na tessitura do saber da medicina da procria\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>L\u2019effet-M\u00e9re:[2] Sintoma Moderno<br \/>\nNo caso do avan\u00e7o da ci\u00eancia no dom\u00ednio da fertilidade humanam \u2014 seja quando nela se oferecem as possibilidades contraceptivas \u2014 para que a crian\u00e7a n\u00e3o venha quando ainda n\u00e3o \u00e9 desejada \u2014 seja na oferta de t\u00e9cnicas para que a crian\u00e7a venha quando tudo indica que n\u00e3o vir\u00e1 \u2014 fica muito evidente a paix\u00e3o do saber da ci\u00eancia. O imposs\u00edvel, segundo se pode ler na literatura das novas tecnologias da reprodu\u00e7\u00e3o (NTR), pode ser transgredido. Trata-se de um discurso que se op\u00f5e \u00e0 castra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa evid\u00eancia est\u00e1 nos efeitos que o discurso da ci\u00eancia promove no sujeito, fazendo surgir, na realidade, na cena mesma da realidade, o que pertence ao \u00e2mbito do inconsciente. A respeito da maternidade, Laurent formula a pergunta se \u00e9 suficiente engravidar-se e dar \u00e0 luz para se converter em m\u00e3e: ainda ser\u00e1 necess\u00e1rio desejar o filho. \u00c9 muito diferente a demanda que se faz a um m\u00e9dico e o desejo de ser m\u00e3e, o desejo de m\u00e3e. A mulher, na atualidade, encontra uma inscri\u00e7\u00e3o como sujeito desejante na resposta \u201cpr\u00eat-\u00e0-porter\u201d oferecida pela medicina da reprodu\u00e7\u00e3o. Pode-se dizer que a solu\u00e7\u00e3o j\u00e1 pronta e oferecida pelas novas tecnologias reprodutivas \u00e0 problem\u00e1tica da feminilidade cria uma amb\u00edgua situa\u00e7\u00e3o para a mulher contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>A partir da gest\u00e3o cient\u00edfica da sexualidade humana, mais claramente, com a possibilidade de uma contracep\u00e7\u00e3o segura obtida pelo uso de p\u00edlulas e DIU, por exemplo, surge como efeito o desenlace entre a sexualidade e reprodu\u00e7\u00e3o humana e, entre uma e outra, um tempo infecundo. Como disse Nicole Ath\u00e9a, se antes a sexualidade era o objeto de interdi\u00e7\u00e3o, esta se deslocou para a procria\u00e7\u00e3o. Trata-se de um discurso vigente cuja difus\u00e3o ainda se processa. Os programas governamentais de sa\u00fade continuam valorizando os procedimentos pedag\u00f3gicos, educativos, junto aos jovens, como preven\u00e7\u00e3o \u00e0 gravidez entre adolescentes. Nos tempos atuais, se acontece gravidez na adolesc\u00eancia, ela j\u00e1 \u00e9 considerada como sintoma: \u201c\u00e9 num clima de esteriliza\u00e7\u00e3o que come\u00e7a a vida sexual, com a consequ\u00eancia do medo frequente de ser est\u00e9ril\u201d (ATH\u00c9A, 1990, p.38).[3]<\/p>\n<p>Se a vida sexual se inicia pela esteriliza\u00e7\u00e3o, como se sabe da possibilidade da fecundidade? Trata-se da \u201cprograma\u00e7\u00e3o\u201d da concep\u00e7\u00e3o sustentada pelo voluntarismo e, nesse enquadramento, \u201cser est\u00e9ril\u201d para a mulher, para o casal, \u00e9 n\u00e3o ter o filho no momento em que decidiram t\u00ea-lo. Somente nesse momento, portanto, \u00e9 que se percebe como insustent\u00e1vel a ideia de que a fecunda\u00e7\u00e3o esteja completamente dominada pelo saber da ci\u00eancia em colus\u00e3o com a Vontade. \u00c9 que, at\u00e9 tal momento, o dom\u00ednio cient\u00edfico experimentado pelo casal, no ato da contracep\u00e7\u00e3o garantida, confere e legitima a cren\u00e7a de que apenas a realidade da ci\u00eancia se torna causa na procria\u00e7\u00e3o humana. Na verdade, a onipot\u00eancia cient\u00edfica se encarna na palavra do m\u00e9dico, sujeito suposto saber do desejo do paciente. O saber oracular resulta, muitas vezes, em efeitos profundamente nefastos, mas pode ser que o m\u00e9dico nunca se d\u00ea conta disso, j\u00e1 que, em geral, n\u00e3o \u00e9 sua preocupa\u00e7\u00e3o interessar-se pelo sujeito. Marie-Magdeleine Chatel relata um caso que serve bem como exemplo de como os fatos acontecem.<\/p>\n<p><em>Uma mo\u00e7a de vinte e tr\u00eas anos chega para uma consulta de rotina: o ginecologista \u00e9 informado de que ela n\u00e3o utiliza anticoncepcionais seguros; ela sabe \u2018tomar cuidado\u2019, nunca engravidou e diz n\u00e3o querer filhos por ora. O m\u00e9dico, ainda assim, parece se surpreender com o fato de que, com uma contracep\u00e7\u00e3o t\u00e3o incerta, ela nunca tenha engravidado: prop\u00f5e-se a verificar isso. Ele preocupa a mo\u00e7a que, ao mesmo tempo em que n\u00e3o quer filhos, fica angustiada, quer saber se poder\u00e1 t\u00ea-los algum dia, e come\u00e7a a recear ser est\u00e9ril. Ela se engaja numa s\u00e9rie de exames explorat\u00f3rios, bem como seu namorado, a quem a coisa repugna. Emitem-se hip\u00f3teses pouco significativas, como o muco e as varia\u00e7\u00f5es do espermograma. Ela se apega a isso, pois teme jamais poder ter filhos. Hoje, est\u00e1 com trinta anos e engajada numa s\u00e9rie de FIV. Diversos embri\u00f5es se formaram gra\u00e7as ao encontro do esperma de seu namorado com um \u00f3vulo dela, mas n\u00e3o se implantam. Evidentemente ela se interroga, pois reconhece que nem ela nem o namorado sabem ainda, realmente, se desejam ter um filho. Para ela, \u00e9 a ideia de impossibilidade de ter filhos que deve ser eliminada. Ela quer fazer a prova da sua fecundidade. E ele, por sua vez, faz tudo isso por ela. Ela se surpreende desejando, caso esteja gr\u00e1vida, ter um aborto espont\u00e2neo ou at\u00e9 mesmo fazer uma interrup\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria de gravidez (IVG). \u2018Mas continua torturada pela ang\u00fastia\u2019 (CHATEL, 1995, p.90-91).<\/em><\/p>\n<p>Nicole Ath\u00e9a assinala que a sociedade moderna est\u00e1 instalada sob o mito do dom\u00ednio perfeito da reprodu\u00e7\u00e3o e que parece imposs\u00edvel voltar e a ele renunciar, renunciar a essa suposta seguran\u00e7a. A autora questiona se n\u00e3o existiria o risco para a sociedade, que, \u00e0 for\u00e7a de prevenir os riscos da sexualidade, ficaria sujeita \u00e0 pr\u00f3pria desapari\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entretanto, a \u201ccontracep\u00e7\u00e3o segura\u201d e seus efeitos, a maneira como tais efeitos se manifestam (a interpreta\u00e7\u00e3o da infecundidade produzida via contracep\u00e7\u00e3o e, se, finalmente, resulta em uma infertilidade), se bem t\u00eam suportes no discurso social, s\u00e3o resultantes de sua incid\u00eancia na singularidade de cada sujeito. Para a psican\u00e1lise, o sintoma tem determina\u00e7\u00f5es opacas que se devem \u00e0 rela\u00e7\u00e3o do saber com a puls\u00e3o. S\u00e3o rela\u00e7\u00f5es particulares, peculiares ao modo como o sujeito as estabeleceu. Por singularidade de um sujeito compreende-se uma determina\u00e7\u00e3o de satisfa\u00e7\u00e3o pulsional pelo inconsciente. Ao mesmo tempo, essa determina\u00e7\u00e3o depende da cultura, dos discursos em vig\u00eancia na \u00e9poca como v\u00ednculos sociais. Se, para a Yerma de Lorca,[4] seu ser desejante pairava em suspenso, no tempo da espera do filho como dom de amor por parte do homem, e, para al\u00e9m disso, se seu desejo e a possibilidade de se identificar como mulher estavam totalmente recobertos pela \u201ccorrente maternal\u201d, atualmente, podem-se catalogar os casos nos quais a mulher j\u00e1 n\u00e3o espera o dom do homem na forma de um filho: ao contr\u00e1rio, substitui o homem pela busca do s\u00eamen armazenado pela ci\u00eancia. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, em alguns casos, \u00e9 a ci\u00eancia o mais novo partenaire da mulher.<\/p>\n<p>Se existem muitas mudan\u00e7as nas rela\u00e7\u00f5es das mulheres com os homens a partir das multiplica\u00e7\u00f5es das rela\u00e7\u00f5es sexuais fora da institui\u00e7\u00e3o de um la\u00e7o exclusivo e definitivo, tamb\u00e9m se fala de feminiza\u00e7\u00e3o mundo. Em tal express\u00e3o, n\u00e3o se trata de um problema num\u00e9rico, de que haja mais mulheres que homens, por\u00e9m se trata do que, em psican\u00e1lise, conhecemos como S de A barrado. Vemos um movimento que vai do universal do nome do pai \u00e0 inconsist\u00eancia do S de A barrado, ou seja, vai da consist\u00eancia do Outro \u00e0 inconsist\u00eancia, ao n\u00e3o-todo.<\/p>\n<p>Jacques Alain-Miller refere-se \u00e0 feminiza\u00e7\u00e3o do mundo como sendo o fato de que as mulheres est\u00e3o muito \u00e0 vontade na atualidade porque essa \u00e9poca se caracteriza como \u201co novo reino do n\u00e3o-todo\u201d, que \u00e9 o modo de gozo pr\u00f3prio ao feminino, sem limites. O n\u00e3o-todo, situado nas f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o elaboradas por Lacan, est\u00e1 \u00e0 direita do universal masculino, em que se localiza a maternidade. \u00c9 o acontecimento da maternidade que torna dispon\u00edvel para a mulher um significante poss\u00edvel. N\u00e3o obstante, a maternidade, no enla\u00e7amento da subjetividade contempor\u00e2nea com o objeto, pode-se apresentar como o novo sintoma para a mulher. Ou, talvez, mais forte, tal como disse Miller, referindo-se \u00e0 s\u00e9rie em que um filho se inscreve para a mulher: \u201cem certo sentido, a maternidade mesma pode ser considerada como formando parte da patologia feminina\u201d (MILLER, 1997, p.9).<\/p>\n<h6>(1) Acess\u00edvel no link: http:\/\/www.genethique.org\/?q=content\/allemagne-les-d%C3%A9rives-de-la-transsexualit%C3%A9.<\/h6>\n<h6>\n[2] Conforme t\u00edtulo do texto \u201cUm nouveau sympt\u00f4me de la femme\u201d, de \u00c9ric Laurent, publicado na revista L\u2019\u00c2ne, s.d.<\/h6>\n<h6>\n[3] No original: \u201cc\u2019est dans un climat de st\u00e9rilisation que commence la vie sexuelle, avec comme cons\u00e9quence la peur fr\u00e9quente d\u2019\u00eatre st\u00e9rile\u201d.<\/h6>\n<h6>\n[4] Yerma \u00e9 a trag\u00e9dia da mulher est\u00e9ril, criada por Federico Garcia Lorca, em 1934, na obra de mesmo nome.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>ATEA, N. \u201cLe magaz\u00edn des enfants\u201d, In: La st\u00e9rilit\u00e9: une entit\u00e9 mal definie. Collectif dirig\u00e9 par J. Testart. Paris: \u00c9ditions Fran\u00e7ois Bourin, 1990, p.38.<\/h6>\n<h6>CHATEL, M. M. Mal-estar na procria\u00e7\u00e3o. Rio de Janeiro: Campo Mat\u00eamico, 1995.<\/h6>\n<h6>DELAISI, G.; VERDIER, P. Enfant de personne. Paris: \u00c9ditions Odile Jacob, 1994.<\/h6>\n<h6>LACAN J., Le Seminaire, livre IV, La relation d\u2019objet, Paris,\u00c9ditions du Seuil,1994.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1972-1973). O Semin\u00e1rio XX: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.<\/h6>\n<h6>LACAN, J.( 1969-2003). Nota sobre a crian\u00e7a. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p.369.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. El ni\u00f1o como real del delirio familiar. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.blogelp.com\/index.php\/el_nino_como_real_del_delirio_familiar_e. Acesso em 15\/03\/2014.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. \u201cS\u00e9culo XXI: n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o globalizada e igualdade dos termos\u201d, Cien Digital, Boletim on-line do Cien Brasil, n.4, Belo Horizonte, jul. 2008, p.13.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. \u201cComo criar as crian\u00e7as.\u201d Dispon\u00edvel em<\/h6>\n<h6>http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/psicanalise\/almanaque\/textos\/numero3\/.pdf, p.2. Acessado em 15\/03\/2014<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cDes semblants dans la relation entre les sexes\u201d, Revista de la Cause Freudienne, Paris: Diffusi\u00f3n Navarin, 1997, p.09.<\/h6>\n<h6>PONTALIS, J. B. \u201cEntretien avec Philippe Ari\u00e8s\u201d, Nouvelle Revue de Psychanalyse, n.19, Paris: Gallimard, 1979, p.12-25.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Maria Rita Guimar\u00e3es<\/strong><\/h6>\n<h6>Maria Rita Guimar\u00e3es &#8211; Psicanalista, membro da EBP\/AMP. E-mail:\u00a0<span id=\"cloakb9454d798dd1059a4220dff625fb56e7\"><a href=\"mailto:mariarita.guimaraes@gmail.com\">mariarita.guimaraes@gmail.com<\/a><\/span>.<\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MARIA RITA GUIMAR\u00c3ES Seria poss\u00edvel pensar no \u201catual\u201d dos pais e da maternidade \u2014 entendida no sentido mais amplo \u2014 sem a presen\u00e7a massiva da ci\u00eancia? Tentaremos destacar alguns pontos pass\u00edveis de nos encaminhar na quest\u00e3o. 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