{"id":643,"date":"2013-07-17T06:55:07","date_gmt":"2013-07-17T09:55:07","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=643"},"modified":"2025-12-01T17:17:45","modified_gmt":"2025-12-01T20:17:45","slug":"almanaque-on-line-entrevista-5","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2013\/07\/17\/almanaque-on-line-entrevista-5\/","title":{"rendered":"Almanaque On-Line Entrevista"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>CARTEL CL\u00cdNICA DO TESTEMUNHO<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/passeata-dos-cem-mil-Evandro-Teixeira.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"1000\" data-large_image_height=\"624\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-644\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/passeata-dos-cem-mil-Evandro-Teixeira.jpg\" alt=\"\" width=\"1000\" height=\"624\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/passeata-dos-cem-mil-Evandro-Teixeira.jpg 1000w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/passeata-dos-cem-mil-Evandro-Teixeira-300x187.jpg 300w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/passeata-dos-cem-mil-Evandro-Teixeira-768x479.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Almanaque on-line entrevista os integrantes do Cartel \u201cCl\u00ednica do Testemunho\u201d: Jorge Pimenta, Luc\u00edola Mac\u00eado, Maria Clara P\u00eago, Simone Pinho Ribeiro e Guillermo Belaga(1) (mais-um).<\/p>\n<p>Guillermo Belaga, em seu texto \u201cIncid\u00eancias da psican\u00e1lise nos dispositivos p\u00fablicos\u201d, publicado nesta edi\u00e7\u00e3o do Almanaque on-line, afirma que, al\u00e9m do trauma inicial, metaforizado na hist\u00f3ria da psican\u00e1lise como trauma de nascimento (que configuraria a entrada no tempo, no mundo do Outro, no mundo da linguagem), se faz presente tamb\u00e9m o trauma como acontecimento, nas conting\u00eancias de uma vida, irrompendo nas representa\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas que sustentaram o sujeito at\u00e9 aquele momento, provocando-lhe a ang\u00fastia generalizada.<\/p>\n<p>Em seguida, ao comentar a apresenta\u00e7\u00e3o, por Daniel Riquelme, do atendimento de um caso relacionado \u00e0s viola\u00e7\u00f5es de direitos vivenciadas durante a trag\u00e9dia da ditadura militar na Argentina, Belaga reflete sobre o modo como a psican\u00e1lise se situa para operar frente a um vazio subjetivo, consequ\u00eancia de um trauma individual e social. Ao comentar a assist\u00eancia que algumas institui\u00e7\u00f5es oferecem ao sujeito que foi afetado pela repress\u00e3o e terrorismo pol\u00edtico na Argentina, Belaga nos alerta para o risco da l\u00f3gica do asilo e da prote\u00e7\u00e3o, o que n\u00e3o possibilitaria uma mudan\u00e7a em sua posi\u00e7\u00e3o subjetiva.<\/p>\n<p>No Brasil, o golpe militar, trauma hist\u00f3rico, completa 50 anos em abril. Entre outras a\u00e7\u00f5es de repara\u00e7\u00e3o das persegui\u00e7\u00f5es e torturas perpetradas pelos aparelhos repressivos da ditadura, h\u00e1 uma proposta do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, que s\u00e3o as chamadas \u201cCl\u00ednicas do testemunho\u201d. Entrevistamos os integrantes do cartel assim nomeado, inscrito na EBP, que est\u00e1 trabalhando a articula\u00e7\u00e3o te\u00f3rica entre os conceitos de acontecimento, trauma, mem\u00f3ria e repara\u00e7\u00e3o e a possibilidade de oferta de atendimento psicanal\u00edtico a v\u00edtimas e familiares.<\/p>\n<p><strong>1. O Que S\u00e3o As Cl\u00ednicas Do Testemunho? Como E Por Que Se Constituiu O Cartel? Quais Os Temas E Como Se Articulam?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jorge Pimenta<\/strong>: Cl\u00ednica do Testemunho \u00e9 um dispositivo de aten\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica \u00e0s v\u00edtimas da ditadura civil-militar que teve lugar no Brasil entre 1964 e 1985. Trata-se de proposta da Comiss\u00e3o de Anistia do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a (MJ), constante do programa de repara\u00e7\u00e3o que o Estado Brasileiro definiu a partir de exig\u00eancias da sociedade civil organizada. O programa est\u00e1 voltado a todos aqueles que foram perseguidos pelo regime ditatorial. O MJ, atrav\u00e9s da Comiss\u00e3o de Anistia, j\u00e1 mant\u00e9m um programa de repara\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica a perseguidos que perderam seus empregos em institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas ou privadas, quando tiveram que sair exilados do Brasil ou se encontravam presos, j\u00e1 que muitos foram demitidos e mesmo expulsos do trabalho. A proposta da Cl\u00ednica do Testemunho traz uma inova\u00e7\u00e3o, pois, al\u00e9m de ser um programa de aten\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica aos perseguidos, tamb\u00e9m a\u00ed inclui o atendimento de seus familiares. Em edital p\u00fablico, o MJ escolheu, primeiramente, quatro projetos (dois em S\u00e3o Paulo, um no Rio de Janeiro, um em Porto Alegre e outro em Recife) que est\u00e3o atendendo v\u00edtimas e ainda preparando e capacitando profissionais para atuar nessa atividade. Investe-se em constru\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias de resposta e repara\u00e7\u00e3o de danos. Essa \u00e9 uma iniciativa j\u00e1 conhecida em outros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, como Argentina e Chile, na\u00e7\u00f5es que, como Brasil, Uruguai e Paraguai, passaram por terr\u00edveis experi\u00eancias de ditaduras civis-militares que cometeram atos de lesa-humanidade, como exterm\u00ednios, torturas, pris\u00f5es, ex\u00edlios e viol\u00eancias diversas a cidad\u00e3os que ousavam dispor de sua liberdade de opini\u00e3o e express\u00e3o.<\/p>\n<p>O cartel Cl\u00ednica do Testemunho se constituiu ao pensarmos e propormos que o tema trauma e seu tratamento \u00e9 um assunto presente desde a cria\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise por Freud. Para n\u00f3s, o Cartel trata de um tema que tem contornos pol\u00edticos importantes, toca a cl\u00ednica psicanal\u00edtica em seu \u00e2mago e dialoga com o tempo presente. A quest\u00e3o \u00e9tica que nos mobiliza \u00e9 a mesma que Lacan nos prop\u00f4s: a de que o analista tem de se haver com seu lugar e sua \u00e9poca. Queremos trabalhar a quest\u00e3o do testemunho e seu tratamento cl\u00ednico a partir de experi\u00eancias de determinados sujeitos com o trauma que lhes adveio com pris\u00f5es, torturas, assassinatos e desaparecimento de familiares, ex\u00edlios pol\u00edticos, perda de empregos e viol\u00eancias diversas.<\/p>\n<p>A investiga\u00e7\u00e3o no Cartel centra-se nas seguintes quest\u00f5es:<\/p>\n<p>\u2013 \u00e9 poss\u00edvel uma narrativa do inenarr\u00e1vel do real traum\u00e1tico?<\/p>\n<p>\u2013 o que fazer com um resto que ainda insiste e insistir\u00e1 sempre?<\/p>\n<p>\u2013 o que \u00e9 poss\u00edvel e o que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel esquecer?<\/p>\n<p>\u2013 esquecer, elaborar, sintomatizar?<\/p>\n<p>\u2013 como tratar o tema da transmiss\u00e3o intergeracional do trauma?<\/p>\n<p>\u2013 o que fazer com a quest\u00e3o da heran\u00e7a pelo esquecimento?<\/p>\n<p>O meu tema espec\u00edfico \u00e9 \u201cO indiz\u00edvel do trauma\u201d.<\/p>\n<p><strong>Luc\u00edola Mac\u00eado<\/strong>: Meu tema \u00e9 \u201cTestemunho e escrita do trauma\u201d. A escolha desse tema se articula a uma pesquisa em curso, a partir da qual tenho investigado de que modo, no contexto da Segunda Guerra Mundial e do p\u00f3s-guerra, o escritor Primo Levi encontrou-se com os limites da representa\u00e7\u00e3o e com o car\u00e1ter lacunar do testemunho. De quais recursos de linguagem se serviu para enfrentar a ilegibilidade e a opacidade da experi\u00eancia traum\u00e1tica.<\/p>\n<p><strong>Simone Pinho Ribeiro<\/strong>: O cartel se constituiu a partir de nosso interesse em comum sobre o tema. Cada um de n\u00f3s possui pesquisas anteriores ou em andamento que tocam de perto a quest\u00e3o do testemunho. No meu caso, trabalhei alguns anos com o tema \u201cPsican\u00e1lise e campo de concentra\u00e7\u00e3o\u201d, que veio a resultar em uma Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado. Meu tema inicial no cartel era \u201cO testemunho e o feminino\u201d, mas ele anda um tanto claudicante. Venho rondando um novo tema, que se articula ao tema de Jorge e Clara e que concerne ao sil\u00eancio.<\/p>\n<p><strong>Maria Clara P\u00eago<\/strong>: As Cl\u00ednicas do Testemunho s\u00e3o voltadas para o atendimento de pessoas que foram torturadas durante a ditadura militar.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m o testemunho p\u00fablico dado por estas pessoas, fora do consult\u00f3rio, faz parte das a\u00e7\u00f5es estimuladas pelo projeto das Cl\u00ednicas do Testemunho.<\/p>\n<p>O cartel se faz necess\u00e1rio para que cada um dos participantes possa trabalhar individualmente o tema da tortura e suas consequ\u00eancias traum\u00e1ticas para o psiquismo humano.<\/p>\n<p>Meu tema \u00e9 \u201cO trauma e o Sil\u00eancio\u201d. O de Guillermo \u00e9 \u201co analista \u2018trauma\u2019 e o traum\u00e1tico: t\u00e1tica, estrat\u00e9gia, pol\u00edtica\u201d.<\/p>\n<p>O enfoque o trauma e do testemunho ser\u00e3o relevantes e articular\u00e3o os temas individuais.<\/p>\n<p><strong>2. O Tema De Trabalho Lan\u00e7ado Para A Sess\u00e3o Cl\u00ednica Do IPSM-MG Para Este Ano Conjuga Os Conceitos De Trauma E Real, Destacando Que O Acontecimento Traum\u00e1tico Introduz Um Antes E Um Depois, Uma Ruptura. A Pergunta Dirigida Aos N\u00facleos De Pesquisa Interroga Os Praticantes Da Psican\u00e1lise Sobre As Incid\u00eancias Do Trauma, \u201cPeda\u00e7os De Real\u201d Que Irrompem Em Sua Pr\u00e1tica. O Que Voc\u00eas Consideram Que Seja O Trauma Na Experi\u00eancia Pessoal E Profissional De Voc\u00eas? Com Que Refer\u00eancias Conceituais Voc\u00eas Est\u00e3o Trabalhando?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Luc\u00edola Mac\u00eado<\/strong>: Farei um recorte levando em considera\u00e7\u00e3o o tema geral que nos coloca a trabalho no cartel: o trauma de 64. Parece-me que o que se atualiza do trauma de 64, e da\u00ed toda a pertin\u00eancia das pol\u00edticas de repara\u00e7\u00e3o \u2014 e, na esteira dessas pol\u00edticas, as Cl\u00ednicas dos Testemunhos \u2014 tenha-se dado principalmente em fun\u00e7\u00e3o do sil\u00eancio que se criou em torno do desaparecimento de pessoas e das pr\u00e1ticas de tortura perpetradas no Brasil nessa ocasi\u00e3o. Nada foi dito e\/ou investigado p\u00f3s-golpe. Uma grande sombra de sil\u00eancio instalou-se n\u00e3o apenas durante a ditadura militar, como tamb\u00e9m ap\u00f3s o restabelecimento da democracia em nosso pa\u00eds. Estamos no horizonte de uma das formas de negacionismo: a nega\u00e7\u00e3o do trauma. O traum\u00e1tico, nesse caso espec\u00edfico, n\u00e3o se encontra apenas no encontro com o horror e suas marcas indel\u00e9veis, mas, sobretudo, na constru\u00e7\u00e3o de tra\u00e7os fact\u00edcios e falsas pistas (veja-se o caso do deputado Rubens Paiva, recentemente investigado e esclarecido pela Comiss\u00e3o Nacional da Verdade) a fim de dissimular os verdadeiros tra\u00e7os e de negar o horror, afirmando, desse modo, que o horror n\u00e3o existe nem nunca existiu.<\/p>\n<p><strong>Jorge Pimenta<\/strong>: Trabalharemos teoricamente a quest\u00e3o a partir de uma bibliografia que retoma a discuss\u00e3o da ang\u00fastia no Semin\u00e1rio 10 de Lacan, a quest\u00e3o do trauma generalizado e a orienta\u00e7\u00e3o lacaniana para sua abordagem cl\u00ednica, discutindo o que chamamos de a\u00e7\u00e3o lacaniana a partir da orienta\u00e7\u00e3o lacaniana proposta por Jacques-Alain Miller, com destaque para a quest\u00e3o da urg\u00eancia subjetiva, seu manejo, a efic\u00e1cia e a presen\u00e7a da psican\u00e1lise nos dispositivos da cidade, inclusive aqueles fora do \u201csetting cl\u00ednico\u201d tradicional, que s\u00e3o nossos consult\u00f3rios e o div\u00e3. Ci\u00eancia e pol\u00edtica do trauma, quando se sabe que h\u00e1 uma insist\u00eancia no trauma que os standards cl\u00ednicos n\u00e3o atendem: acontecimentos traum\u00e1ticos, sua mem\u00f3ria \u2014 qual repara\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel e o que fazer com o que insiste e a viol\u00eancia sobre os corpos, cora\u00e7\u00f5es e mentes? \u00c9 poss\u00edvel haver atravessamentos? O que fazer com a singularidade de algo que \u00e9 \u201cinomin\u00e1vel\u201d, o que restou para esses indiv\u00edduos que passaram por essas experi\u00eancias e o que fazem hoje com isso?<\/p>\n<p>Entendo que esse tema do testemunho \u00e9 fundamental para a forma\u00e7\u00e3o do analista, e sua investiga\u00e7\u00e3o enseja o que alguns colegas j\u00e1 puderam elaborar com seus finais de an\u00e1lises e o passe na Escola de Lacan. Com destaque para o que se poder fazer com os furos, lacunas, que deixam marcas e cicatrizes imposs\u00edveis de serem apagadas ou zeradas. Como inventar algo que possa funcionar como um enla\u00e7amento poss\u00edvel, logrando que o sujeito possa obter um sopro vital necess\u00e1rio para continuar vivendo, trabalhando?<\/p>\n<p><strong>Maria Clara P\u00eago<\/strong>: Sou ex-presa pol\u00edtica e fui muito torturada. Considero que o trauma que sofri est\u00e1 assim entrela\u00e7ado:<\/p>\n<p>\u2013 a tortura sofrida;<\/p>\n<p>\u2013 o falecimento do meu pai, quando estava sob tortura;<\/p>\n<p>\u2013 o cumprimento de parte da pena em isolamento de 1 ano, em quartel militar;<\/p>\n<p>\u2013 a sa\u00edda e o retorno ao Brasil, ap\u00f3s viver 9 anos na antiga Alemanha Ocidental.<\/p>\n<p>Tanto na minha experi\u00eancia pessoal como profissional trabalho com os conceitos freudianos de trauma.<\/p>\n<p><strong>3. Na Experi\u00eancia De Voc\u00eas, Em Que Sentido A Psican\u00e1lise Contribui Em Rela\u00e7\u00e3o A Um Trauma Hist\u00f3rico, Inscrito No Coletivo? Ou, Como A Constru\u00e7\u00e3o De Uma Narra\u00e7\u00e3o Pr\u00f3pria E A Considera\u00e7\u00e3o De Uma Singularidade, De Uma Subjetividade, Se Localiza No Campo Das Pol\u00edticas P\u00fablicas, Que Visam Ao Universal E \u00c0 Recomposi\u00e7\u00e3o Do Tecido Social?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Simone Pinho Ribeiro<\/strong>: Tentarei enfrentar, de maneira breve, essa pergunta t\u00e3o abrangente. A no\u00e7\u00e3o de trauma encontra-se na origem da psican\u00e1lise e \u00e9 um de seus alicerces. Lidamos com os efeitos de mais de 20 anos de ditadura militar, n\u00e3o apenas em nossa vida cotidiana, mas tamb\u00e9m em nossa pr\u00e1tica di\u00e1ria. Vale lembrar aqui um fato curioso, a psican\u00e1lise, no Brasil, come\u00e7ou a ser praticada nos anos 1960, sendo assim, os psicanalistas brasileiros se viram diante dessa quest\u00e3o desde sempre. Seria interessante explorar as poss\u00edveis implica\u00e7\u00f5es desse fato. Quanto \u00e0 quest\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas, no ponto em que elas se ligam \u00e0 sa\u00fade, penso que o universal se refere ao acesso, pois elas visam ao acesso universal aos servi\u00e7os de sa\u00fade. \u00c9 claro que esse objetivo nunca se concretizou de fato, at\u00e9 hoje. Evidentemente, a ci\u00eancia, o capital e as normas institucionais e administrativas direcionam as coisas no sentido de uma homogeneiza\u00e7\u00e3o que vai de encontro \u00e0 psican\u00e1lise. Mas \u00e9 preciso observar que a psican\u00e1lise encontra um espa\u00e7o dentro de algumas institui\u00e7\u00f5es muito mais amplo e ferramentas de assist\u00eancia p\u00fablica muito mais abrangentes no Brasil de hoje, me parece, do que em alguns pa\u00edses da Europa. A despeito do imensur\u00e1vel inerente \u00e0 psican\u00e1lise e seus resultados, de sua aposta em solu\u00e7\u00f5es singulares e, principalmente, de sua \u00e9tica, a psican\u00e1lise acaba por encontrar um lugar dentro de algumas pol\u00edticas p\u00fablicas. Lugar esse que, por mais improv\u00e1vel, \u00e9 esse mesmo que a pergunta coloca, o de possibilitar a constru\u00e7\u00e3o de uma narra\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria e a considera\u00e7\u00e3o da singularidade.<\/p>\n<p><strong>Maria Clara P\u00eago<\/strong>: Atrav\u00e9s da liga\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise com a sociologia e a pol\u00edtica podemos inscrever o trauma individual no hist\u00f3rico do coletivo e no contexto universal, permitindo a abertura de pol\u00edticas p\u00fablicas de atendimento psicossocial e psicanal\u00edtico, como \u00e9 o caso das Cl\u00ednicas do Testemunho.<\/p>\n<p><strong>4. O Que Justifica A Presen\u00e7a Da Psican\u00e1lise No Campo Da Assist\u00eancia Aos Traumatizados? Como Transformar O Ato De Retorno \u00c0 Experi\u00eancia \u201cTraum\u00e1tica\u201d Em Atravessamento? Este Poderia Ser Um Indicador Do Que Se Pode Esperar Dessa Assist\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Luc\u00edola Mac\u00eado<\/strong>: Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Cl\u00ednica do Testemunho, o trabalho anal\u00edtico \u00e9 sens\u00edvel \u00e0s lacunas, mas tamb\u00e9m aos poss\u00edveis enlaces e quanto \u00e0 inven\u00e7\u00e3o de cada um naquilo que concerne o trauma, a hist\u00f3ria e a mem\u00f3ria. As concep\u00e7\u00f5es de trauma e mem\u00f3ria em jogo, numa cl\u00ednica como essa, fazem uma enorme diferen\u00e7a, assim como permitem uma orienta\u00e7\u00e3o. Os \u201catravessamentos\u201d n\u00e3o se fazem com a pura e simples rememora\u00e7\u00e3o ou lembran\u00e7a do vivido; eles ter\u00e3o que \u201cse fabricar\u201d por meio de outra modalidade da mem\u00f3ria; de uma mem\u00f3ria inscrita no corpo \u2014 por meio da repeti\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m no jogo fundamental da letra em sua itera\u00e7\u00e3o, que, fabricando-se, poder\u00e1 constituir um novo acesso ao real que n\u00e3o estava l\u00e1, dentro das caixinhas das lembran\u00e7as. Em psican\u00e1lise, a mem\u00f3ria \u00e9 insepar\u00e1vel do esquecimento, o que significa que seria preciso deslocar o esquecimento no texto, mas sem apagar suas conex\u00f5es com o real. Assim sendo, o sintoma n\u00e3o seria apenas o arquivo rasurado que conteria a parte esquecida, denegada, foraclu\u00edda ou censurada da experi\u00eancia traum\u00e1tica, mas um modo de escrever uma rela\u00e7\u00e3o in\u00e9dita com a pr\u00f3pria hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>Maria Clara P\u00eago<\/strong>: O estudo do trauma, tal qual Freud o fez, justifica a presen\u00e7a da psican\u00e1lise no campo da assist\u00eancia aos traumatizados e penso que o desejo de supera\u00e7\u00e3o desse trauma (atravessamento) faz-me participar desse cartel, no intuito de colaborar com a assist\u00eancia a outros traumatizados.<\/p>\n<h6>[1] Almanaque on-line agradece a Guillermo Belaga que contribuiu para essa entrevista com texto publicado na rubrica Encontros dessa edi\u00e7\u00e3o. Texto que provocou a elabora\u00e7\u00e3o das quest\u00f5es propostas aos membros do cartel, a quem agradecemos igualmente a contribui\u00e7\u00e3o para o tema de trabalhado pelo IPSM-MG, bem como para o registro do evento hist\u00f3rico 50 anos do Golpe Militar, o qual consideramos n\u00e3o ser sem consequ\u00eancias para a pr\u00e1tica da psican\u00e1lise no Brasil e para os contornos do trauma nos corpos e da viol\u00eancia em nossas cidades.<\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CARTEL CL\u00cdNICA DO TESTEMUNHO &nbsp; Almanaque on-line entrevista os integrantes do Cartel \u201cCl\u00ednica do Testemunho\u201d: Jorge Pimenta, Luc\u00edola Mac\u00eado, Maria Clara P\u00eago, Simone Pinho Ribeiro e Guillermo Belaga(1) (mais-um). Guillermo Belaga, em seu texto \u201cIncid\u00eancias da psican\u00e1lise nos dispositivos p\u00fablicos\u201d, publicado nesta edi\u00e7\u00e3o do Almanaque on-line, afirma que, al\u00e9m do trauma inicial, metaforizado na hist\u00f3ria&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58203,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-643","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-13","category-9","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/643","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=643"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/643\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58204,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/643\/revisions\/58204"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58203"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=643"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=643"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=643"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}