{"id":662,"date":"2014-03-17T06:53:30","date_gmt":"2014-03-17T09:53:30","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=662"},"modified":"2025-12-01T17:14:38","modified_gmt":"2025-12-01T20:14:38","slug":"trauma-e-devastacao-a-relacao-mae-filha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2014\/03\/17\/trauma-e-devastacao-a-relacao-mae-filha\/","title":{"rendered":"Trauma E Devasta\u00e7\u00e3o: A Rela\u00e7\u00e3o M\u00e3e-Filha"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>ANDREA, MARGARET, MARIA DAS GRA\u00c7AS SENA<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/devastacao-1024x683-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"1024\" data-large_image_height=\"683\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-663\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/devastacao-1024x683-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/devastacao-1024x683-1.jpg 1024w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/devastacao-1024x683-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/devastacao-1024x683-1-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Partimos da pergunta se a devasta\u00e7\u00e3o poderia ser considerada traum\u00e1tica e, por meio, tanto da investiga\u00e7\u00e3o cl\u00ednica, como dos textos de Freud e Lacan, formulamos uma hip\u00f3tese de trabalho para ser aqui discutida em nosso N\u00facleo de Pesquisa, qual seja: \u00e9 o encontro com a falta de significante que definiria A Mulher ou, em outros termos, a descoberta de que A Mulher n\u00e3o existe, cujo matema \u00e9 tamb\u00e9m o S(A\/), que seria traum\u00e1tico para todo sujeito, especialmente para o sujeito feminino? A devasta\u00e7\u00e3o decorre da inexist\u00eancia desse significante d\u2019A mulher e pode tomar a forma de um gozo sem limites.<\/p>\n<p>O termo devasta\u00e7\u00e3o, em franc\u00eas, ravage, conserva duas dire\u00e7\u00f5es de sentido. Ou est\u00e1 associado \u00e0 ideia de ru\u00edna, destrui\u00e7\u00e3o, ou a de um corpo arrebatado na vertente de um \u00eaxtase, de uma felicidade suprema, que \u00e9 lan\u00e7ado fora do tempo e do espa\u00e7o. No dicion\u00e1rio, seu sentido remete a uma destrui\u00e7\u00e3o sem limites, a algo avassalador. Devastar \u00e9 arruinar, tornar deserto; mas tamb\u00e9m pode indicar arrebatamento, deslumbramento, encantamento, para os quais o termo franc\u00eas mais usado \u00e9 ravissement.<\/p>\n<p><strong>O Que \u00c9 Devasta\u00e7\u00e3o No Sentido Da Psican\u00e1lise?<\/strong><\/p>\n<p>Graciela Bessa, em seu livro Feminino: um conjunto aberto ao infinito (2012), afirma que encontramos, na teoria lacaniana, tr\u00eas momentos em que a devasta\u00e7\u00e3o aparece ligada \u00e0 sexualidade feminina. Em O Semin\u00e1rio, livro 17: o avesso da psican\u00e1lise (LACAN, 1969-1970\/1992) ela surge ligada ao desejo da m\u00e3e e, independentemente de ser menino ou menina, o desejo da m\u00e3e sempre causa estragos (podendo a crian\u00e7a estar submetida ao pior desse desejo). Em \u201cO aturdito\u201d (1972\/2003), publicado em Outros escritos (2003), Lacan retorna ao tema da devasta\u00e7\u00e3o, como veremos a seguir, e em O Semin\u00e1rio, livro 23: o sinthoma (1975-1976\/2007), ao fazer refer\u00eancia \u00e0 devasta\u00e7\u00e3o, no campo amoroso, Lacan afirma que um homem pode ser pior que uma afli\u00e7\u00e3o, pode ser uma devasta\u00e7\u00e3o para uma mulher.i<\/p>\n<p>Num sentido an\u00e1logo \u00e0 devasta\u00e7\u00e3o m\u00e3e-filha, Freud (1931-1933\/1976) j\u00e1 havia identificado essa mesma quest\u00e3o, mais no final de sua obra, nomeando-a sob outros termos: cat\u00e1strofe, estrago.<\/p>\n<p>Vejamos como essa teoriza\u00e7\u00e3o sobre a devasta\u00e7\u00e3o elucida o tema do trauma.<\/p>\n<p>A cita\u00e7\u00e3o extra\u00edda do Semin\u00e1rio 17 \u00e9 a que, inicialmente, nos colocou a trabalho:<\/p>\n<p><em>O papel da m\u00e3e \u00e9 o desejo da m\u00e3e. \u00c9 capital. O desejo da m\u00e3e n\u00e3o \u00e9 algo que se possa suportar assim, que lhes seja indiferente. Carreia sempre estragos. Um grande crocodilo em cuja boca voc\u00eas est\u00e3o \u2014 a m\u00e3e \u00e9 isso. N\u00e3o se sabe o que lhe pode dar na telha, de estalo fechar a bocarra. O desejo da m\u00e3e \u00e9 isso (LACAN, 1969-1970\/1992, p.118).<\/em><\/p>\n<p>E Lacan prossegue afirmando que, no entanto, h\u00e1 algo de tranquilizador nessa hist\u00f3ria. \u201cH\u00e1 um rolo, de pedra, \u00e9 claro, que l\u00e1 est\u00e1 em pot\u00eancia, no n\u00edvel da bocarra, e isso ret\u00e9m, isso emperra. \u00c9 o que se chama falo. \u00c9 o rolo que os p\u00f5e a salvo se, de repente, aquilo se fecha\u201d (LACAN, 1969-1970\/1992, p.118).<\/p>\n<p>Esta cita\u00e7\u00e3o torna-se mais clara se recorrermos a Lacan quando ele aborda o complexo de \u00c9dipo, a partir da f\u00f3rmula da met\u00e1fora paterna, em que fica evidente a presen\u00e7a da m\u00e3e na quest\u00e3o da feminilidade da mulher.<\/p>\n<p>A partir da combinat\u00f3ria presen\u00e7a\/aus\u00eancia da m\u00e3e \u00e9 que se instala um x no campo da crian\u00e7a, independentemente de ser menino ou menina, surgindo uma pergunta sobre o que satisfaz essa m\u00e3e para al\u00e9m dela. Lacan afirma sobre o que mais importa aos destinos da crian\u00e7a, que \u201cn\u00e3o \u00e9 um mais ou um menos de real que tenha ou n\u00e3o tenha sido dado ao sujeito, mas \u00e9 aquilo pelo qual o sujeito almejou e identificou o desejo do Outro que \u00e9 o desejo da m\u00e3e\u201d (LACAN, 1958\/1998, p.283).<\/p>\n<p>Se pensarmos que essa f\u00f3rmula refere-se \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o de um sujeito como desejante, algo deve suceder para que esse desejo, obsceno e voraz, imposs\u00edvel de se suportar como tal, se articule ao significante. Essa opera\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se operar a\u00ed o significante do Nome-do-Pai.<\/p>\n<p>Assim, teremos duas vertentes do desejo da m\u00e3e: aquele que \u00e9 articulado \u00e0 castra\u00e7\u00e3o materna e que gera ang\u00fastia (che vuoi?) e aquele que, gra\u00e7as \u00e0 met\u00e1fora, substitui esse enigma opaco pelo Nome-do-Pai, gerando um efeito de significa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 assim, ent\u00e3o, que podemos falar do falo como significante do gozo (f\u00e1lico), j\u00e1 que ambos (falo e gozo) se encontram coordenados pelo Nome-do-Pai. Miller (1994), em \u201cClinica del superyo\u201d, localiza o Nome-do-Pai com uma fun\u00e7\u00e3o coordenada ao desejo, e ao supereu como fun\u00e7\u00e3o coordenada ao gozo. N\u00e3o se trata aqui do supereu freudiano, herdeiro do complexo de \u00c9dipo, mas do supereu lacaniano, aquele que ordena gozar. Supereu materno, cuja lei insensata est\u00e1 muito mais ligada ao desejo da m\u00e3e que ao pai, ou seja, \u201cantes que o desejo seja metaforizado e apreendido pelo Nome-do-Pai\u201d.<\/p>\n<p>Acreditamos que \u00e9 aqui, precisamente, o ponto em que podemos localizar a devasta\u00e7\u00e3o: n\u00e3o como um conceito, e sim como efeito da incid\u00eancia traumatizante desse gozo puro, sem medida, n\u00e3o limitado pelo falo. Gozo que est\u00e1 sempre presente e que o sintoma n\u00e3o consegue metaforizar.<\/p>\n<p><strong>A Devasta\u00e7\u00e3o Na Menina<\/strong><\/p>\n<p>No texto \u201cO aturdito\u201d (1972\/2003), publicado em Outros escritos (2003), Lacan retoma o termo devasta\u00e7\u00e3o para afirmar que a menina parece esperar algo da m\u00e3e que n\u00e3o se situa inteiramente sob o signo da castra\u00e7\u00e3o, ou seja, que n\u00e3o se situa sob o significante do falo. Segundo Lacan:<\/p>\n<p><em>Por essa raz\u00e3o, a elucubra\u00e7\u00e3o freudiana do complexo de \u00c9dipo, que faz da mulher peixe na \u00e1gua, pela castra\u00e7\u00e3o ser nela ponto de partida (Freud dixit), contrasta dolorosamente com a realidade de devasta\u00e7\u00e3o que constitui, na mulher, em sua maioria, a rela\u00e7\u00e3o com sua m\u00e3e, de quem, como mulher, ela realmente parece esperar mais subst\u00e2ncia que do pai \u2014 o que n\u00e3o combina com ele ser segundo, nessa devasta\u00e7\u00e3o (LACAN, 1972\/2003, p.465).<\/em><\/p>\n<p>O texto \u201cO aturdito\u201d (1972\/2003) \u00e9 contempor\u00e2neo \u00e0s elabora\u00e7\u00f5es de Lacan sobre as f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o e sobre o gozo feminino. Ali, onde se poderia encontrar a refer\u00eancia de um homem devastador para uma mulher, o que se descobre \u00e9 a refer\u00eancia ao \u00c9dipo freudiano. Ao mesmo tempo em que Freud considera que \u201ca mulher, no \u00c9dipo, se move como peixe n\u2019\u00e1gua\u201d, isto \u00e9, em seu ambiente natural, Lacan afirma que isso \u201ccontrasta dolorosamente\u201d com a refer\u00eancia de que, para \u201ca maioria das mulheres, a rela\u00e7\u00e3o com a m\u00e3e \u00e9 devastadora\u201d. \u00c9 da rela\u00e7\u00e3o com a m\u00e3e como mulher que a filha espera encontrar algo com mais \u201csubst\u00e2ncia\u201d, que vai para al\u00e9m do falo, ou seja, a sexualidade feminina implica necessariamente diferenciar uma m\u00e3e da mulher.<\/p>\n<p>Vimos, anteriormente, que ter de enfrentar o enigma do desejo e o mist\u00e9rio do gozo da m\u00e3e gera muita ang\u00fastia na crian\u00e7a, sobretudo ao se confrontar com a especificidade da anatomia feminina. Embora n\u00e3o haja propriamente falta no corpo da mulher, a particularidade de sua anatomia faz com que, no inconsciente da menina e do menino, a anatomia feminina inscreva-se no registro de uma falta. N\u00e3o \u00e9 tanto a quest\u00e3o anat\u00f4mica, mas como ela est\u00e1 subjetivada como falta da m\u00e3e, no tocante ao desejo e ao gozo.<\/p>\n<p>Aprendemos com a psican\u00e1lise que, quando falamos menino-menina, n\u00e3o queremos dizer, necessariamente, que estamos nos referindo \u00e0s posi\u00e7\u00f5es masculina e feminina, pois, na realidade, essas posi\u00e7\u00f5es est\u00e3o ligadas ao significante, n\u00e3o tendo nada a ver com a identidade sexual anat\u00f4mica.<\/p>\n<p>Se, para Freud, a anatomia \u00e9 o destino, para Lacan a anatomia \u00e9 um efeito do discurso. Mesmo tendo claro que a anatomia n\u00e3o \u00e9 o destino, isso n\u00e3o deixa de ter consequ\u00eancias sobre o sujeito. Vejamos como um e outro responderam a essas quest\u00f5es.<\/p>\n<p>Freud considerou que, nos meninos, embora o p\u00eanis seja apenas um suporte imagin\u00e1rio para o falo, ele \u00e9 bastante consistente para o homem ter esse representante de seu sexo no inconsciente, e, desse modo, poder subjetivar seu sexo com \u201ceu tenho\u201d. Isso \u00e9 o que possibilita ao menino desligar-se, mesmo que n\u00e3o completamente, desse gozo materno.<\/p>\n<p>E como pensar ent\u00e3o na modalidade dessa rela\u00e7\u00e3o ao desejo da m\u00e3e quando o sujeito em quest\u00e3o \u00e9 uma menina?<\/p>\n<p>Pelas mesmas raz\u00f5es anat\u00f4micas, por\u00e9m, inversamente, isto \u00e9, de \u201cn\u00e3o ter\u201d o p\u00eanis, possibilitando que a sa\u00edda hist\u00e9rica seja a mais frequente na mulher. \u201cTer ou n\u00e3o ter\u201d foi o modo como Freud tentou responder ao enigma da sexualidade feminina. Por\u00e9m, Lacan, ao inventar as f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o, avan\u00e7a sobre o ponto deixado em aberto por Freud, esclarecendo sobre as ra\u00edzes l\u00f3gicas do desmedido que uma mulher espera da sua m\u00e3e.<\/p>\n<p>Em seu O Semin\u00e1rio, livro 20: mais, ainda (1972-1973\/1985), Lacan apresenta suas f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o e explicita a diferen\u00e7a sexual a partir da l\u00f3gica, fazendo do falo uma fun\u00e7\u00e3o e mostrando como homens e mulheres cumprem ou n\u00e3o a fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica. \u201cQuem quer que seja ser falante se inscreve de um lado ou de outro\u201d (LACAN, 1972-1973\/1985, p.85). Os sujeitos que se posicionam do lado dos homens est\u00e3o confrontados com uma exce\u00e7\u00e3o, que, por sua vez, possibilita um conjunto fechado. Isso quer dizer que todos aqueles que ali se encontram est\u00e3o inscritos na l\u00f3gica f\u00e1lica.<\/p>\n<p>Do lado das mulheres, isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Elas n\u00e3o est\u00e3o confrontadas a uma exce\u00e7\u00e3o e sim a uma inexist\u00eancia, e, consequentemente, do lado feminino, n\u00e3o se pode construir o conjunto de todas as mulheres. A aus\u00eancia de exce\u00e7\u00e3o constitui a mulher fora do universal, em que cada uma \u00e9 uma. Portanto, o feminino \u00e9 elucidado pelo vi\u00e9s de um gozo que tem rela\u00e7\u00e3o com o ilimitado, isto \u00e9, o gozo do corpo n\u00e3o se encontra limitado pelo falo. A devasta\u00e7\u00e3o pode, a partir dessa leitura de Lacan com respeito ao gozo feminino, ser lida como uma dificuldade estrutural pr\u00f3pria \u00e0 inexist\u00eancia do todo-feminino, ligado ao S(A\/).<\/p>\n<p>Segundo Recalde (2012), partimos da histeria para entendermos o caminho que a menina percorre ao \u201ctornar-se mulher\u201d. Segundo a autora, a hist\u00e9rica conta com dois caminhos: ou bem aparece como a que \u201ctem\u201d, ou bem ostenta o que lhe falta e, por isso, \u201c\u00e9\u201d. J\u00e1 a pergunta sobre a feminilidade encontra, com Lacan, uma sa\u00edda pela via significante que lhe permite abordar o n\u00e3o-todo.<\/p>\n<p>Quando se tem a refer\u00eancia ao falo, podemos localizar a\u00ed a sa\u00edda hist\u00e9rica que, como qualquer homem, est\u00e1 submetida sob a \u00e9gide do falo (lado esquerdo das f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o). Mas tamb\u00e9m poder\u00e1 se desdobrar, j\u00e1 que tem por um lado rela\u00e7\u00e3o com o falo, mas por outro lado, est\u00e1 ligada a esse gozo que escapa ao Nome-do-Pai.<\/p>\n<p>Desdobramento que lhe permite, assim: articular-se, por um lado, ao falo, mas tamb\u00e9m se conectar a essa dimens\u00e3o mais al\u00e9m do falo, onde poder\u00edamos localizar o lado feminino.<\/p>\n<p>Na cl\u00ednica, deparamo-nos com os diferentes modos de o sujeito feminino se posicionar em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 falta: algumas se sacrificam ostentado a falta, outras se localizam como excepcionais, outras se comportam como se tivessem o falo, enfim, diferentes modalidades de situar-se frente a esse gozo mais al\u00e9m do falo, cujo efeito pode ser devastador<\/p>\n<p>Portanto, o termo devasta\u00e7\u00e3o, empregado por Lacan para designar a rela\u00e7\u00e3o entre m\u00e3e e filha, refere-se tamb\u00e9m ao que est\u00e1 para al\u00e9m da reivindica\u00e7\u00e3o f\u00e1lica dirigida \u00e0 m\u00e3e, ou seja, ao encontro da menina com o Outro materno, enquanto Outro do gozo. A impossibilidade de dar um contorno ao excesso \u00e9 a devasta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Devasta\u00e7\u00e3o, Trauma E Lal\u00edngua<\/strong><\/p>\n<p>Marie-H\u00e9l\u00e8ne Brousse (2004) afirma que, nos casos cl\u00ednicos de devasta\u00e7\u00e3o que lhe servem como refer\u00eancia, a fun\u00e7\u00e3o paterna demonstra n\u00e3o operar nenhum apaziguamento, portanto, o pai se manifesta a servi\u00e7o do capricho materno e n\u00e3o como agente de sua priva\u00e7\u00e3o. O tra\u00e7o que caracteriza o pai \u00e9 sempre a impot\u00eancia.<\/p>\n<p>A hip\u00f3tese de Marie-H\u00e9l\u00e8ne Brousse (2004) \u00e9 a de especificar o tipo de emerg\u00eancia singular da linguagem no sujeito, ou seja, o modo como a m\u00e3e inscreveu a crian\u00e7a num universo simb\u00f3lico e discursivo, em que cada hist\u00f3ria de vida \u00e9 um desdobramento. Para Brousse, a devasta\u00e7\u00e3o se situa no campo da rela\u00e7\u00e3o entre o sujeito e a m\u00e3e, o Outro da linguagem e a rela\u00e7\u00e3o com a fala.<\/p>\n<p>Uma das marcas dessa \u201caventura primordial do que se passou em torno do desejo infantil\u201d \u00e9 a marca deixada pelo fato de a m\u00e3e ser a detentora dos poderes da palavra. O primeiro dito da vida da crian\u00e7a \u00e9 o da m\u00e3e, e n\u00e3o o da crian\u00e7a.<\/p>\n<p><em>A m\u00e3e que decreta, legifera e sentencia sobre tudo o que tem a ver com a exist\u00eancia da crian\u00e7a e \u00e9 assim que as palavras da m\u00e3e adquirem um sentido de profundas consequ\u00eancias para o seu destino, [\u2026]. Na mem\u00f3ria reencontramos a voz, \u00e0s vezes devastadora e persecut\u00f3ria das palavras, dos imperativos e dos coment\u00e1rios inesquec\u00edveis desse Outro materno primordial que se apresentara investido de uma obscura autoridade (ZALCBERG, 2007, p.33).<\/em><\/p>\n<p>Essa emerg\u00eancia da linguagem pode se dar, segundo Marie-H\u00e9l\u00e8ne Brousse, sob a forma do insulto, sob a forma de recusa e, ainda, sob a forma do imperativo do sil\u00eancio. O ponto comum dessas emerg\u00eancias \u00e9 a conex\u00e3o dessas experi\u00eancias de fala com o sexual como traum\u00e1tico, isto \u00e9, a experi\u00eancia pulsional do sujeito, ainda que tenham destinos estruturais diferentes e constitu\u00edrem sintomas bem distintos.<\/p>\n<p>Segundo Brousse:<\/p>\n<p><em>Em todas essas ocorr\u00eancias, a fala do Outro materno est\u00e1 associada \u00e0 descoberta de uma experi\u00eancia de gozo. Mas \u2014 segunda caracter\u00edstica \u2014 essa emerg\u00eancia que tem como pano de fundo um gozo sexual traum\u00e1tico, ou seja, de inscri\u00e7\u00e3o do corpo por um significante se realiza no momento em que surge a diferen\u00e7a dos sexos, no seio da fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, sob a forma de um enigma. Enfim, essa emerg\u00eancia consagra a cren\u00e7a inabal\u00e1vel na onipot\u00eancia de um Outro n\u00e3o castrado, de uma m\u00e3e escapando \u00e0 falta da castra\u00e7\u00e3o e que apresenta ao sujeito uma alternativa mortal: ou o dejeto ou a reintegra\u00e7\u00e3o pela genitora do seu produto (BROUSSE, 2004, p.211).<\/em><\/p>\n<p>Foi dito anteriormente que o desejo da m\u00e3e n\u00e3o \u00e9 totalmente recoberto pela significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, atrav\u00e9s do Nome-do-Pai. Existe sempre um resto que escapa ao falo. A devasta\u00e7\u00e3o pode ent\u00e3o aparecer no ponto do gozo enigm\u00e1tico percebido na m\u00e3e pela menina, gozo esse desconhecido, feminino e n\u00e3o limitado pelo falo.<\/p>\n<p>Desde Freud, \u00e9 poss\u00edvel situar a mulher segundo duas vertentes: a primeira, que aponta a mulher como um ser portador da falta f\u00e1lica, de um menos de gozar, derivado do complexo de castra\u00e7\u00e3o, e a segunda vertente, que aponta para um excesso traduzido pelo desejo insaci\u00e1vel da mulher de possuir um p\u00eanis. Lacan, ao dizer que a media\u00e7\u00e3o f\u00e1lica n\u00e3o drena todo gozo de uma mulher, coloca-o na via do suplemento, do n\u00e3o-todo subordinado \u00e0 logica do todo, do completo. O suplemento aponta para \u201cum a mais\u201d, sem que o todo esteja a\u00ed implicado.<\/p>\n<p>Desse modo, a teoria sobre a devasta\u00e7\u00e3o e a sexualidade feminina da qual ela decorre nos ensina que a sexualidade \u00e9 traum\u00e1tica porque o discurso sempre falta para falar sobre o gozo. \u00c9 a entrada na linguagem que \u00e9 traum\u00e1tica porque o sujeito se depara com a falta de significante no Outro para dizer seu ser de gozo. O S(A\/) \u00e9 o pr\u00f3prio matema do trauma.<\/p>\n<p>De acordo com Lacad\u00e9e (2010), Lacan criou o neologismo \u201ctroumatisme\u201d que serve para designar o verdadeiro valor do trauma ps\u00edquico, seja o encontro de um buraco na linguagem, de uma falta de saber no Outro sobre o gozo sexual do sujeito. O \u201ctroumatisme\u201d \u00e9 um outro nome do axioma lacaniano: \u201cn\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d. O real faz uma ruptura no tecido simb\u00f3lico da significa\u00e7\u00e3o e uma ruptura imagin\u00e1ria, um lugar vazio de sentido. O traumatismo produz a desarticula\u00e7\u00e3o da cadeia significante, dos significantes S1 e S2.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed se podem conceber a for\u00e7a e a imensid\u00e3o do que uma mulher espera da sua m\u00e3e. Trata-se de algo que a m\u00e3e n\u00e3o lhe pode dar, nem a exist\u00eancia enquanto mulher, nem o ser de mulher, tampouco a \u201csubst\u00e2ncia feminina\u201d. A m\u00e3e n\u00e3o lhe pode dar n\u00e3o porque ela n\u00e3o queira, mas porque se trata de algo da ordem do imposs\u00edvel, no sentido daquilo que n\u00e3o cessa de n\u00e3o se inscrever para a mulher. Considerando-se que a rela\u00e7\u00e3o de devasta\u00e7\u00e3o \u00e9 uma supl\u00eancia \u00e0 rela\u00e7\u00e3o sexual que n\u00e3o existe, sendo, assim, o sujeito \u00e9 desapossado do seu lugar,<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>[\u2026] esse lugar que n\u00e3o existe mas pode ser declinado como fala, e o sujeito \u00e9 ent\u00e3o reduzido ao \u201csil\u00eancio\u201d; com corpo, e o sujeito n\u00e3o passa de um \u201ccorpo em excesso\u201d, ou de uma carne desfalicizada que \u00e9 um \u201cburaco negro\u201d; como err\u00e2ncia, fen\u00f4meno de despersonaliza\u00e7\u00e3o, de autodesapari\u00e7\u00e3o (BROUSSE, 2004, p.215).<\/em><\/p>\n<p>A devasta\u00e7\u00e3o se faz presente em sua articula\u00e7\u00e3o com o desejo da m\u00e3e enquanto mulher e ao modo como o sujeito crian\u00e7a pode encarnar o objeto do gozo materno.<\/p>\n<h6>(1) Essa vertente da devasta\u00e7\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 explorada neste trabalho.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>BESSA, G. Feminino: um conjunto aberto ao infinito. Belo Horizonte: Scriptum, 2012.<\/h6>\n<h6>BROUSSE, M.-H. \u201cUma dificuldade da an\u00e1lise das mulheres: a devasta\u00e7\u00e3o com a m\u00e3e\u201d, Latusa, Rio de Janeiro, n.9, p. 203-218, 2004.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1931). \u201cSexualidade feminina\u201d. In: O futuro de uma ilus\u00e3o. Rio de Janeiro: Imago, 1976. p.257-279. (Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud, v.XIX).<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1933). \u201cFeminilidade\u201d. In: Novas confer\u00eancias introdut\u00f3rias sobre psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Imago, 1976. p.139-165. (Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud, v.XXII).<\/h6>\n<h6>LACAD\u00c9E, P. \u201cL\u2019enfant est le p\u00e8re de l\u2019homme ou Le malentendu du traumatisme\u201d. In: Le malentendu de l\u2019enfant. Paris: Ed. Mich\u00e8le, 2010. p.63-77.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1972). \u201cO aturdito\u201d. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. p.448-497.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1957-1958). O Semin\u00e1rio 5: as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1969-1970). O Semin\u00e1rio 17: o avesso da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1972-1973). O Semin\u00e1rio 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.<\/h6>\n<h6>Miller, J-A. \u201cClinica del superyo\u201d. In: Reocorrido de Lacan. Buenos Aires: Manantial, 1994. p.143.<\/h6>\n<h6>NAJLES, A. R. \u201cVoz: com que objeto se fala?\u201d In: Scilicet. Rio de Janeiro: Contracapa, 2008. p.349-351.<\/h6>\n<h6>RECALDE, M. \u201cMadre, ni\u00f1a, estrago, uma salida possible\u201d. In: GLAZE, A.; ACEVEDO, L. (Orgs.). No locas del-todo. Buenos Aires: Grama, 2012. p.83-89.<\/h6>\n<h6>ZALCBERG, M. Amor paix\u00e3o feminina. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Andrea, Margaret, Maria Das Gra\u00e7as Sena<\/strong><\/h6>\n<h6>Andrea Eul\u00e1lio de Paula Ferreira &#8211; Psicanalista, mestranda em Estudos Psicanal\u00edticos (UFMG). E-mail:\u00a0<span id=\"cloak88644dd3d2d6b38194dd9e10888de963\"><a href=\"mailto:andrea.eulalio@hotmail.com\">andrea.eulalio@hotmail.com<\/a><\/span>\u00a0Margaret Pires do Couto &#8211; Psicanalista, doutora em Educa\u00e7\u00e3o pela Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da UFMG, professora do curso de Psicologia do Centro Universit\u00e1rio Newton Paiva. E-mail:\u00a0<span id=\"cloak08733ad6c57d780874758da22b70f8e4\"><a href=\"mailto:mpcouto@uol.com.br\">mpcouto@uol.com.br<\/a><\/span>\u00a0Maria das Gra\u00e7as Sena \u2013 Correspondente da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise. e-mail:\u00a0<span id=\"cloak569eca9d4ff7995f45f9a5d53a9bf29a\"><a href=\"mailto:dadesena@yahoo.com\">dadesena@yahoo.com<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ANDREA, MARGARET, MARIA DAS GRA\u00c7AS SENA &nbsp; Partimos da pergunta se a devasta\u00e7\u00e3o poderia ser considerada traum\u00e1tica e, por meio, tanto da investiga\u00e7\u00e3o cl\u00ednica, como dos textos de Freud e Lacan, formulamos uma hip\u00f3tese de trabalho para ser aqui discutida em nosso N\u00facleo de Pesquisa, qual seja: \u00e9 o encontro com a falta de significante&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58199,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-662","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-14","category-10","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/662","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=662"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/662\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58200,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/662\/revisions\/58200"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58199"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=662"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=662"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=662"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}