{"id":666,"date":"2014-03-17T06:53:30","date_gmt":"2014-03-17T09:53:30","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=666"},"modified":"2014-03-17T06:53:30","modified_gmt":"2014-03-17T09:53:30","slug":"incidencias-do-trauma-o-que-de-real-encontramos-em-nossa-clinica-com-criancas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2014\/03\/17\/incidencias-do-trauma-o-que-de-real-encontramos-em-nossa-clinica-com-criancas\/","title":{"rendered":"Incid\u00eancias Do Trauma: O Que De Real Encontramos Em Nossa Cl\u00ednica Com Crian\u00e7as?"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>CRISTIANA PITTELA DE MATOS<\/strong><\/h6>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o: Um Real<\/strong><\/p>\n<p>Nosso s\u00e9culo XXI, marcado pela dissolu\u00e7\u00e3o dos semblantes, consequ\u00eancia do binarismo ci\u00eancia-capitalismo, levou Jacques Alain-Miller, em Un r\u00e9el pour le XXIe si\u00e8cle, a afirmar o quanto o real insiste em se manifestar de um modo ca\u00f3tico e aleat\u00f3rio, sem que se possa recuperar uma ideia de harmonia. Em seu curso O ultim\u00edssimo Lacan, Miller definir\u00e1 o real enfaticamente como \u201cum novo tremor!\u201d (MILLER, 2013 p.208).<\/p>\n<p>Somos surpreendidos e vivemos, uns mais, outros menos, inquietos e sobressaltados: a dimens\u00e3o de conting\u00eancia e a desordem do real prevalecem.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cO verdadeiro real\u201d, nos disse Lacan, \u201cimplica uma aus\u00eancia de lei. O real n\u00e3o tem ordem: \u2026 \u00e9 desprovido de sentido\u201d (LACAN, 1975. p.131, 133).<\/p>\n<p>V\u00e1rios s\u00e3o os discursos que tentam apagar, domesticar, calcular, controlar, educar e at\u00e9 mesmo prevenir o real, com protocolos, medidas de vigil\u00e2ncia e seguran\u00e7a; mas o real insiste, retorna, escapa \u00e0s tentativas de enquadramento. A psican\u00e1lise, por sua vez, possibilita um outro modo de apreens\u00e3o do real e a chance de operarmos com ele.<\/p>\n<p>Miller convida-nos, enquanto psicanalistas, a investigarmos, no sujeito do s\u00e9culo XXI, \u201ca dimens\u00e3o da defesa contra o real sem lei e o fora do sentido\u201d concernindo um real tal como o inconsciente de cada um permite apreender. Prop\u00f5e-nos, assim, que a defesa possa ser perturbada (MILLER, 1998), e mesmo desmontada (MILLER, 2013), para que se atinja a singularidade e a diferen\u00e7a de cada sujeito \u2014 peda\u00e7o de real que n\u00e3o muda, incur\u00e1vel \u2014 e que um novo enla\u00e7amento a partir desse ponto possa se produzir.<\/p>\n<p>Podemos nos perguntar: como perturbar (deranger) a defesa?, quest\u00e3o que Miller (2013) tamb\u00e9m nos apresenta, no \u201cPref\u00e1cio\u201d do livro de H\u00e9l\u00e8ne Bonaud: L\u2019inconscient de l\u2019enfant. Verificamos, em muitos casos, em nossa cl\u00ednica com crian\u00e7as, que intervimos antes mesmo que a defesa tenha se cristalizado; assim, o encontro com um analista possibilita ao sujeito a constru\u00e7\u00e3o de um sintoma como resposta ao trauma, \u00e0 perturba\u00e7\u00e3o do real.<\/p>\n<p>Nossa pesquisa, neste ano de 2014, se inicia a partir do trauma, conceito proposto tanto pela Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica do IPSM-MG \u2014 Incid\u00eancias do trauma: o que de real voc\u00ea encontra em sua pr\u00e1tica? \u2014 quanto pela Nova Rede CEREDA \u2014 O traumatismo e o Real na Cl\u00ednica: o que as crian\u00e7as inventam?.<\/p>\n<p>Podemos, ent\u00e3o, nos perguntar: o que de real encontramos em nossa cl\u00ednica com crian\u00e7as? Como o real se apresenta para cada crian\u00e7a?; ou, ainda, como cada crian\u00e7a \u2014 cada sujeito \u2014 concerne um real? \u00c9 afetado por um real? Responde a um real?<\/p>\n<p>Nossa investiga\u00e7\u00e3o e work in progress contam com o argumento \u00e0s 43a Jornadas da \u00c9cole de La Cause Freudienne \u2014 Les traumatismes dans la cure analytique: bonnes et mauvaises rencontres avec le r\u00e9el \u2014 em que Christiane Alberti e Marie Helene Brousse relembram o conhecido exemplo da Interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos:<\/p>\n<p><em>Um pai perdera um filho. Perda cruel, traumatismo no sentido corrente. Cansado, ele confiou a um senhor a tarefa de velar o corpo do filho amado e foi dormir em um quarto cont\u00edguo, deixando a porta entreaberta. Um barulho o desperta: o fogo come\u00e7a a queimar o corpo amado. \u00c9 a realidade. Como responde o inconsciente? \u2013 elas perguntam. Com um pesadelo, o filho aproxima-se e murmura: \u201cPai, n\u00e3o v\u00eas que estou queimando?\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>Onde est\u00e1 o trauma? \u2013 elas respondem: a imposs\u00edvel voz do morto; a\u00ed est\u00e1 o que verdadeiramente acorda o pai [\u2026]. Feridas que n\u00e3o se apagam de \u201cperdas imajadas no ponto o mais cruel do objeto\u201d [\u2026] o la\u00e7o do trauma aos objetos deixa o sujeito sem b\u00fassola, em um mundo que perdeu o sentido. (ALBERTI; BROUSSE, 2013)<\/em><\/p>\n<p>Nossa cl\u00ednica toma, portanto, sua orienta\u00e7\u00e3o desse real como imposs\u00edvel, ponto que faz traumatismo; vamos trabalh\u00e1-lo, neste primeiro semestre, tentando definir como ele se faz presente na puberdade; como o sintoma \u00e9 uma resposta ao trauma; como o trauma se faz presente na devasta\u00e7\u00e3o materna; como a ang\u00fastia \u00e9 um sinal do real do trauma; investigaremos tamb\u00e9m o real do trauma no autismo e nos pesadelos.<\/p>\n<p>Nossa pesquisa visa tamb\u00e9m ao tratamento, \u00e0s sa\u00eddas e \u00e0s inven\u00e7\u00f5es de cada crian\u00e7a frente a esse ponto opaco, e como o analista pode, com suas interven\u00e7\u00f5es, toc\u00e1-lo para que propicie um novo arranjo, novas respostas e inven\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em suma, vamos tentar apreender o que de real encontramos em nossa cl\u00ednica com crian\u00e7as, a partir do inconsciente, passando pela barreira do recalque e da defesa que cada um constr\u00f3i contra a ferida que o real constituiu quando se chega ao mundo, ou quando se est\u00e1 diante de acontecimentos traum\u00e1ticos (GU\u00c9GUEN, 2014).<\/p>\n<p><strong>O Trauma E O Troumatismo<\/strong><\/p>\n<p>O trauma \u00e9, desde sua origem grega \u2014 tr\u00f4ma \u2014 a experi\u00eancia de uma ferida (LAURENT, 2013) que causa efra\u00e7\u00e3o. Um choque s\u00fabito e violento que n\u00e3o permite a antecipa\u00e7\u00e3o e produz um dano: a irrup\u00e7\u00e3o de um horror, o excesso de sensa\u00e7\u00e3o e emo\u00e7\u00e3o, o sil\u00eancio de uma palavra jamais articul\u00e1vel. Algo imposs\u00edvel e insuport\u00e1vel acontece e desarranja o bom funcionamento do mundo, acarretando uma paralisa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O trauma \u00e9 assim um modelo paradigm\u00e1tico de um encontro que excede as palavras, as possibilidades discursivas, desvelando um real perturbador. Por mais que se fale dele, algo resta, uma marca indel\u00e9vel, sobre a qual se retorna colocando em jogo um imposs\u00edvel de simboliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa intensidade e a paradoxal exterioridade do trauma foram abordadas por Freud, segundo Laurent em \u201cO trauma ao avesso\u201d (2002), desde o \u201cProjeto\u201d, por suas met\u00e1foras energ\u00e9ticas, como o afluxo de excita\u00e7\u00e3o externa e, sobretudo, as excita\u00e7\u00f5es de origem interna, pulsional. Freud, em um primeiro momento, o concebe a partir de um acontecimento factual \u2014 uma sedu\u00e7\u00e3o sexual \u2014 mas, em seguida, instaura a no\u00e7\u00e3o de fantasia inconsciente e realidade ps\u00edquica, pois ele encontra, no cerne de sua cl\u00ednica, o trauma como um fato estrutural. Jacques-Alain Miller (2011) tamb\u00e9m aborda essa intensidade em seu curso \u201cO Ser e o Um\u201d, como a energeia, um buraco que bordeia a itera\u00e7\u00e3o do Um, tendo o efeito estranho de atra\u00e7\u00e3o, de fascina\u00e7\u00e3o delet\u00e9ria: um buraco negro.<\/p>\n<p>Diante da generaliza\u00e7\u00e3o do termo trauma no campo da inf\u00e2ncia \u2014 agress\u00e3o, estupro, sedu\u00e7\u00e3o, viol\u00eancia, atos perversos, separa\u00e7\u00e3o, morte, doen\u00e7a, acidentes, abuso, maus-tratos, explora\u00e7\u00e3o, crueldade, neglig\u00eancia, abandono, insulto, pesadelos \u2014 faz-se necess\u00e1rio situarmos esse conceito em nosso campo, pois, onde acreditamos ver o traumatismo \u2014 nos acontecimentos \u2014 ele sempre esconde um traumatismo real, aquele que \u00e9 singular ao sujeito.<\/p>\n<p>Frente a essa experi\u00eancia que excede e esmaga o sujeito, como se perguntar sobre isso que o ultrapassa, sobre o que n\u00e3o chega a se representar? Sobretudo, ensina-nos Lacan, \u00e9 nessa topologia que se encontra o sujeito: \u201co sujeito est\u00e1 a\u00ed, no lugar desta coisa obscura que chamamos como trauma, como prazer esquisito\u201d (LACAN, 1966, p.4).<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o ponto que nos interessa enquanto psicanalistas.<\/p>\n<p>Um acontecimento s\u00f3 tem valor traum\u00e1tico para o sujeito por ser para ele um encontro contingente, singular. Ao possibilitarmos a implica\u00e7\u00e3o do sujeito em seu sofrimento, isso lhe restitui sua parte de responsabilidade, podendo abrir-lhe a via do desejo e a possibilidade de ele se reconciliar com seu gozo mais \u00edntimo, alojando o trauma em um bom lugar. Nesse sentido, ali onde o sujeito foi solapado, ele pode advir e fazer algo com isso, \u00e0 vitimiza\u00e7\u00e3o damos lugar ao sujeito e a um modo de satisfa\u00e7\u00e3o. Como nos diz Sonia Chiriaco (2012), em Le d\u00e9sir foudroy\u00e9, sortir du traumatisme par la psychanalyse, a psican\u00e1lise se distingue imediatamente da vitimiologia, que faz do acontecimento o principal, e o sujeito, secund\u00e1rio, ou at\u00e9 mesmo ausente.<\/p>\n<p>Lacan (1975) nomeou esse encontro como troumatisme, que implica a irrup\u00e7\u00e3o de um trop \u2014 um excesso, um gozo \u2014 e um furo, o fora do sentido. O que \u00e9 traum\u00e1tico \u00e9 esse choque material do significante com o corpo, que instaura, no parl\u00eatre, a marca de um gozo inassimil\u00e1vel e uma perda irremedi\u00e1vel.<\/p>\n<p>Se o Outro da linguagem preexiste ao nascimento do sujeito, a crian\u00e7a nasce no mar da linguagem, ela, no entanto, \u00e9, primeiramente, objeto \u2014 causa de desejo ou dejeto do gozo dos pais \u2014 n\u00e3o tendo ao seu alcance o instrumento significante: a linguagem \u00e9, para ela, real, um real sem lei. Para essa incid\u00eancia contingente do real da l\u00edngua, de sua mat\u00e9ria sonora (moterialisme), Lacan inventar\u00e1 a express\u00e3o: lal\u00edngua (LACAN, 1975, p.10). \u00c9 com esse real de lal\u00edngua que a crian\u00e7a se depara, encontro com o imposs\u00edvel, e que Lacan nomeou de inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual. Um real, imposs\u00edvel de suportar, est\u00e1, portanto, na raiz do trauma e concerne \u00e0 singularidade de cada um: \u201c\u2026le Kern do ser, \u00e9 este instante, \u00e9 o instante da encarna\u00e7\u00e3o\u201d (MILLER, 2009, p.76).<\/p>\n<p>Esse acontecimento fixa o gozo do Um e funda uma exist\u00eancia, anterior \u00e0 sua entrada na linguagem \u2014 Outro \u2014 e em suas leis que d\u00e3o ao sujeito condi\u00e7\u00f5es para interpretar algo desse gozo. O inconsciente se estrutura para cifrar esse gozo insensato que escapa \u00e0 significantiza\u00e7\u00e3o, experimentado nessa satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse real inassimil\u00e1vel, fora do sentido, \u00e9 o gozo do corpo que se relaciona com o autoerotismo fundamental e tem rela\u00e7\u00e3o com o ponto de inser\u00e7\u00e3o do significante no corpo, do significante trabalhando para a satisfa\u00e7\u00e3o: \u201cas puls\u00f5es s\u00e3o, no corpo, o eco do fato de que h\u00e1 um dizer\u201d, nos diz Lacan (1975\/76, p.18). Nesse sentido, o traumatismo, para a psican\u00e1lise, tal como Lacan leu em Freud e nos ensina a trat\u00e1-lo, \u00e9 uma marca irrepar\u00e1vel no humano que escapa a toda programa\u00e7\u00e3o e preven\u00e7\u00e3o, revelando uma fixa\u00e7\u00e3o pulsional. O encontro da l\u00edngua com o corpo, nos dir\u00e1 Miller, \u201cmant\u00e9m um desequil\u00edbrio permanente, mant\u00e9m no corpo e na psique um excesso de excita\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se deixa reabsorver\u201d (MILLER, 2003, p.378), retornando, re-iterando, nos sintomas, nos atos, na inibi\u00e7\u00e3o, na ang\u00fastia, nas ideias obsessivas, nos pesadelos.<\/p>\n<p>E o que \u00e9 complicado \u00e9 que o real do encontro do significante no corpo torna o sujeito c\u00famplice da puls\u00e3o, \u00e9 a\u00ed onde se situa nossa responsabilidade quanto ao gozo (ROCH, 2013).<\/p>\n<p>O troumatismo inaugura o campo da fantasia que serve de tela ao real do trauma \u2014 uma defesa contra o real \u2014 e tamb\u00e9m do sinthoma como uma resposta ao trauma, enla\u00e7ando o n\u00e3o h\u00e1 da rela\u00e7\u00e3o sexual \u2014 o real do furo no saber \u2014 com o h\u00e1, isso que vai se repetir ao longo de nossa vida, a marca de um gozo, uma satisfa\u00e7\u00e3o n\u00e3o toda e imposs\u00edvel de negativizar. Ou seja, a partir da conting\u00eancia e do fora de sentido, h\u00e1, no sinthoma, a tessitura de um n\u00f3 singular do gozo do corpo com o significante determinando nossa vida, um savoir y faire com o real sem lei. A psican\u00e1lise, nos diz Miller (2014), existe para tentar que um trumain (l\u2019\u00eatre humain e trou) possa saber como comportar-se com o sinthome.<\/p>\n<p>Em O avesso do trauma, Laurent (2002) prop\u00f5e que abordemos o trauma em dois sentidos:<\/p>\n<p>1\u00ba \u2013 Em um primeiro sentido, o traumatismo \u00e9 um buraco real no interior do simb\u00f3lico, ou seja, a partir do sistema simb\u00f3lico, o sujeito encontra a presen\u00e7a de um real. A l\u00edngua mortifica o gozo, mas h\u00e1 um resto imposs\u00edvel de ser simbolizado. \u00c9 um ponto de real exterior no interior do simb\u00f3lico.<\/p>\n<p>2\u00ba \u2013 O segundo sentido que Laurent enfatiza do traumatismo \u00e9 o simb\u00f3lico no real, ou seja, um buraco do simb\u00f3lico no real; trata-se, como vimos, da l\u00edngua como real, o mal-entendido fundamental, o fora do sentido do vivente: lal\u00edngua. Nesse sentido, a l\u00edngua \u00e9 causa. Segundo Laurent, depois de um trauma, \u00e9 preciso causar um sujeito para que ele re-invente um Outro, em face da experi\u00eancia no traumatismo da inexist\u00eancia do Outro. Uma inven\u00e7\u00e3o causada pelo traumatismo.<\/p>\n<p>Essas duas orienta\u00e7\u00f5es s\u00e3o importantes em uma an\u00e1lise, pois uma an\u00e1lise se desenrola atrav\u00e9s do sentido que permite a subjetiva\u00e7\u00e3o do trauma e consequente responsabiliza\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio sofrimento, assim como tamb\u00e9m toca o fora do sentido do gozo mais singular e opaco, levando Laurent a situar o trauma como um processo.<\/p>\n<p>Vamos investigar esses dois sentidos, pois eles implicam lugares diferentes do analista, assim como sua escuta:<\/p>\n<p>\u2013 No primeiro sentido, o analista, com sua escuta e interpreta\u00e7\u00e3o, possibilita a restaura\u00e7\u00e3o da trama de sentido, fazendo passar o real do gozo ao significante, uma escuta tomada na \u201contologia do discurso do paciente\u201d (MILLER, 2011), ou seja, refere-se \u00e0 falta-a-ser e ao desejo.<\/p>\n<p>Laurent (2002) ressalta ser uma vertente curativa, pois inscreve o trauma na particularidade inconsciente de um sujeito.<\/p>\n<p>\u2013 No segundo sentido do trauma, o analista ocupa o lugar insensato \u2014 do objeto \u2014 e \u00e9 traum\u00e1tico como a linguagem. A escuta visa \u00e0 itera\u00e7\u00e3o, aos tra\u00e7os que marcam um modo de gozo e orienta em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 exist\u00eancia, ao buraco, ao fora do sentido (BRIOLE, 2014). O analista, pelo equ\u00edvoco e pelo corte, combate n\u00e3o s\u00f3 a demanda de sentido, mas pode tocar esse ponto real de causa e, assim, ajudar um sujeito a reencontrar a palavra, pois, diante da inexist\u00eancia do Outro, \u00e9 preciso inventar um modo de se arranjar com o pr\u00f3prio gozo.<\/p>\n<p>Essas duas vertentes, podemos dizer, n\u00e3o s\u00e3o cronol\u00f3gicas, mas l\u00f3gicas, e, em momentos espec\u00edficos, podem estar presentes em uma an\u00e1lise: ser\u00e1 preciso, ent\u00e3o, que o analista me\u00e7a, para cada sujeito, at\u00e9 onde ele pode apresentar os dois polos de sua a\u00e7\u00e3o (LAURENT, 2002).<\/p>\n<p>Da\u00ed a import\u00e2ncia \u2014 para a a\u00e7\u00e3o de um analista \u2014 de sua forma\u00e7\u00e3o: do que ele faz com seu troumatismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>ALBERTI, C.; BROUSSE, M.-H. \u201cArgumento\u201d. Dispon\u00edvel em: Blog 43e Journ\u00e9e de ECF (www.journeesecf.fr), 2013. Consultado em: mar\u00e7o\/2014.<\/h6>\n<h6>BRIOLE, G. \u201cAmarra\u00e7\u00f5es\u201d. In: MACHADO, O.; RIBEIRO, V.L.A. (orgs.) Um real para o s\u00e9culo XXI. Belo Horizonte: EBP\/Scriptum, 2014.<\/h6>\n<h6>CHIRIACO, Sonia. Le d\u00e9sir foudroy\u00e9, sortir du traumatisme par la psychanalyse. Paris: Navarin\/Le Champ Freudien, 2012.<\/h6>\n<h6>GU\u00c9GUEN, G. \u201c5 minutes \u00e0 la radio\u201d. Dispon\u00edvel em: www.congresamp2014.com. Consultado em: mar\u00e7o\/2014.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1975\/1976) O semin\u00e1rio, livro 23, o sinthoma. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1975) Confer\u00eancia em Genebra sobre o sintoma In Op\u00e7\u00e3o Lacaniana \u2013 Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise (23), 1998. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Eolia.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1966) \u201cCommunication et discussions au symposium international du Johns Hopkings Center a Baltimore\u201d. Dispon\u00edvel em: www.psicanaliseefilosofia.com.br. Consultado em: mar\u00e7o\/2014.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. \u201cTrauma Blitz, Moment de concluire\u201d. Dispon\u00edvel em: Blog 43e Journ\u00e9e de ECF (www.journeesecf.fr), 2013. Consultado em: mar\u00e7o\/2014.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. \u201cO avesso do trauma\u201d. In: Pap\u00e9is de Psican\u00e1lise n .1, Belo Horizonte: IPSM-MG, abril\/2004. p.21-28.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cO real no s\u00e9culo XXI\u201d. In: MACHADO, O.; RIBEIRO, V.L.A. (orgs.) Um real para o s\u00e9culo XXI. Belo Horizonte: EBP\/Scriptum, 2014.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. O ultim\u00edssimo Lacan. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2013.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. La experiencia de lo real en la cura psicoanalitica. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2003.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. O Ser e o Um. Semin\u00e1rio de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, in\u00e9dito.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cL\u2019inconscient et le sinthome\u201d. In: La Cause Freudienne n. 71, 2009.<\/h6>\n<h6>ROCH, M.-H. \u201cLa Psychanalyse est traumatique\u201d. Dispon\u00edvel em: Blog 43e Journ\u00e9e de ECF (www.journeesecf.fr), 2013. Consultado em: mar\u00e7o\/2014.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Cristiana Pittela De Matos<\/strong><\/h6>\n<h6>Cristiana Pittella de Mattos, psicanalista, membro da EBP\/AMP. E-mail:\u00a0<span id=\"cloak92a018fd99e1e478b7d541521294c8c4\"><a href=\"mailto:cristianapittella@yahoo.com.br\">cristianapittella@yahoo.com.br<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CRISTIANA PITTELA DE MATOS Introdu\u00e7\u00e3o: Um Real Nosso s\u00e9culo XXI, marcado pela dissolu\u00e7\u00e3o dos semblantes, consequ\u00eancia do binarismo ci\u00eancia-capitalismo, levou Jacques Alain-Miller, em Un r\u00e9el pour le XXIe si\u00e8cle, a afirmar o quanto o real insiste em se manifestar de um modo ca\u00f3tico e aleat\u00f3rio, sem que se possa recuperar uma ideia de harmonia. Em&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-666","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-almanaque-14","category-10","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/666","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=666"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/666\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=666"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=666"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=666"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}