{"id":674,"date":"2014-03-17T06:53:30","date_gmt":"2014-03-17T09:53:30","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=674"},"modified":"2025-12-01T17:15:17","modified_gmt":"2025-12-01T20:15:17","slug":"criancas-autistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2014\/03\/17\/criancas-autistas\/","title":{"rendered":"Crian\u00e7as Autistas"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>SILVIA TENDLARZ<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Paula-Pimenta.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"800\" data-large_image_height=\"590\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-675\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Paula-Pimenta.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"590\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Paula-Pimenta.jpg 800w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Paula-Pimenta-300x221.jpg 300w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Paula-Pimenta-768x566.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O s\u00e9culo XXI \u00e9 testemunha de um aumento crescente do diagn\u00f3stico de autismo na inf\u00e2ncia. Chegou-se a falar de uma verdadeira epidemia. Esse diagn\u00f3stico em expans\u00e3o corresponde sempre \u00e0s pessoas envolvidas nele? Uma pergunta torna-se urgente: n\u00e3o se trata s\u00f3 de diagn\u00f3sticos, mas qual \u00e9 a proposta de tratamento vi\u00e1vel para crian\u00e7as autistas.<\/p>\n<p>O autismo tem a particularidade de surgir em crian\u00e7as pequenas. Tamb\u00e9m existem adolescentes e adultos autistas que \u2014 embora, na maior parte das vezes, varie a forma de apresenta\u00e7\u00e3o que tinham na inf\u00e2ncia, sobretudo pela amplia\u00e7\u00e3o do uso da linguagem \u2014 mant\u00eam certas caracter\u00edsticas que n\u00e3o se modificam, sem pressagiar com isso um destino tr\u00e1gico, que devemos aceitar com resigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Antes de tudo, \u00e9 necess\u00e1rio distinguir o autismo do conceito de \u201cgozo autista\u201d. O autismo n\u00e3o \u00e9 uma enfermidade da ruptura do la\u00e7o como express\u00e3o de nosso mundo moderno, ainda que prevale\u00e7a o \u201ctodos autistas\u201d em nossa linguagem corrente. O gozo \u00e9 sempre autoer\u00f3tico, autista, nesse sentido, mais al\u00e9m do tipo de la\u00e7o que prevalece em nossa contemporaneidade. A express\u00e3o \u201cautismo generalizado\u201d nomeia o gozo, sup\u00f5e o la\u00e7o com o outro, mas sem que essa generaliza\u00e7\u00e3o implique um diagn\u00f3stico. Jacques-Alain Miller indica que o autismo, no sentido amplo, \u00e9 uma categoria transcl\u00ednica: \u00e9 o estado nativo do sujeito a quem se acrescenta o la\u00e7o social.<\/p>\n<p>A partir de um breve percurso sobre a hist\u00f3ria desse quadro, poderemos examinar a abordagem psicanal\u00edtica tanto conceitual como cl\u00ednica.<\/p>\n<p><strong>Diagn\u00f3sticos<\/strong><\/p>\n<p>O autismo infantil tem sua hist\u00f3ria. Leo Kanner introduziu, em 1943, o conceito de \u201cautismo infantil precoce\u201d. Poucos meses depois, em 1944, e em outro contexto, Hans Asperger introduziu as premissas do que ser\u00e1 chamado \u201cs\u00edndrome de Asperger\u201d. O primeiro ficar\u00e1 como uma interface entre a psiquiatria e a psican\u00e1lise. O segundo segue um caminho educativo, j\u00e1 que Asperger prop\u00f5e desde o in\u00edcio uma \u201cpedagogia curativa\u201d.<\/p>\n<p>O conceito mesmo de autismo \u00e9 particular. Ele \u00e9 o grande sobrevivente do colapso diagn\u00f3stico que prop\u00f5e o DSM-IV. Tanto o \u201cAutismo infantil precoce\u201d de Kanner como a \u201cS\u00edndrome de Asperger\u201d fazem parte dos \u201ctranstornos generalizados do desenvolvimento\u201d (TGD), que acentuam a perturba\u00e7\u00e3o evolutiva.<\/p>\n<p>Segundo a descri\u00e7\u00e3o de Kanner, as crian\u00e7as autistas apresentam transtornos em sua rela\u00e7\u00e3o com o outro (recha\u00e7o do olhar, aus\u00eancia de condutas espont\u00e2neas como apontar objetos de interesse, falta de reciprocidade social ou emocional), na comunica\u00e7\u00e3o (atraso ou aus\u00eancia na linguagem oral, uso estereotipado ou incapacidade de estabelecer conversa\u00e7\u00f5es) e no comportamento (falta de flexibilidade, rituais, aus\u00eancia do jogo simb\u00f3lico). Aloneness e sameness, solid\u00e3o e fixidez, s\u00e3o caracter\u00edsticas essenciais do quadro cl\u00ednico. O adjetivo \u201cprecoce\u201d indica que pode se manifestar desde o nascimento, nos primeiros meses ou antes dos tr\u00eas anos. Esse in\u00edcio precoce determina sua modalidade de apresenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que distingue o autismo infantil de Kanner da s\u00edndrome de Asperger \u00e9 o fato de que falta a esse \u00faltimo o atraso da linguagem, e, ainda, de que seja diagnosticado ou se inicie ap\u00f3s os tr\u00eas anos. Asperger situa entre os elementos de seu diagn\u00f3stico tra\u00e7os que perduram durante toda a vida, sem evolu\u00e7\u00e3o not\u00e1vel.<\/p>\n<p>Nos Manuais Diagn\u00f3sticos, os dois quadros s\u00e3o diferenciados da esquizofrenia infantil pela aus\u00eancia de alucina\u00e7\u00f5es, ainda que, na realidade, como assinala Lacan, as crian\u00e7as autistas tamb\u00e9m tenham alucina\u00e7\u00f5es, que devem ser examinadas em suas particularidades.<\/p>\n<p>O DSM V elimina essa distin\u00e7\u00e3o e introduz uma nova categoria cl\u00ednica com a qual ser\u00e1 examinada toda a inf\u00e2ncia: \u201ctranstornos do espectro autista\u201d (TEA), com sua gradua\u00e7\u00e3o: leve, moderado e severo (LAURENT, 2011). Os crit\u00e9rios utilizados para esse diagn\u00f3stico s\u00e3o: d\u00e9ficits sociais e de comunica\u00e7\u00e3o, assim como interesses fixos e comportamentos repetitivos. Dessa maneira, o autismo torna-se, hoje, um diagn\u00f3stico ampliado, que inclui uma tipologia variada.<\/p>\n<p>Nesse contexto, a pergunta sobre se as crian\u00e7as com diagn\u00f3sticos de autismo infantil precoce podem evoluir para a s\u00edndrome de Asperger, na idade adulta, eventualmente, desaparecer\u00e1 nesse contexto, j\u00e1 que ambos formam parte do TEA. N\u00e3o obstante, a sutileza cl\u00ednica dessa quest\u00e3o permanece, na medida em que se pode observar uma mudan\u00e7a da inf\u00e2ncia para a idade adulta, que demonstra que nem todas as crian\u00e7as autistas permanecem necessariamente toda sua vida com sua apresenta\u00e7\u00e3o inicial, nem persistem os chamados \u201ctranstornos cognitivos\u201d com os quais foram avaliados na inf\u00e2ncia. Como disse Ian Hacking (2001), se os nomes das classes interagem com as pessoas que eles afetam, entretanto, tornam-se insuficientes para alojar os sujeitos com suas diferen\u00e7as. Assim, para al\u00e9m do destino dos diagn\u00f3sticos, permanece aquilo que torna a cada um \u00fanico e refrat\u00e1rio a diluir-se na \u201cnorma\u201d.<\/p>\n<p>As teorias cognitivas introduziram a no\u00e7\u00e3o de \u201cespectro autista\u201d que engloba tanto a crian\u00e7a como os adultos; um estudo de Lorna Wing e Judy Gould, do ano de 1979, est\u00e1 na base desse conceito. Esse estudo postula que toda crian\u00e7a que apresenta uma defici\u00eancia social severa tamb\u00e9m tem os sintomas principais do autismo. Ou seja, as crian\u00e7as que est\u00e3o afetadas por dificuldades na reciprocidade social, na comunica\u00e7\u00e3o e apresentam restri\u00e7\u00f5es em suas condutas necessitam dos mesmos tratamentos cognitivos que os autistas. Dessa forma, todas elas ficam inclu\u00eddas no espectro autista, aumentando, assim, enormemente, a incid\u00eancia do autismo (LAURENT, 2011).<\/p>\n<p>Esse aumento est\u00e1 vinculado ao diagn\u00f3stico de \u201cTranstorno generalizado do desenvolvimento inespec\u00edfico\u201d \u2013 TGD, que, ao carecer de crit\u00e9rios definidos, inclu\u00eda mais casos de espectro autista que de autismo propriamente dito. Esse \u00e9 um dos pontos de discuss\u00e3o dentro do projeto do DSM V. Por outro lado, na medida em que n\u00e3o existe uma medica\u00e7\u00e3o espec\u00edfica para o autismo, prescrevem-se, para as crian\u00e7as ditas autistas, medicamentos para ansiedade, depress\u00e3o ou hiperatividade. O postulado de organicidade e a perturba\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o executiva da teoria cognitivista, na qual se baseiam o TDAH e o TGD, junto ao crit\u00e9rio puramente descritivo, fazem com que se confundam ambos os quadros.<\/p>\n<p>Dessa forma, n\u00e3o nos parece ileg\u00edtimo perguntar sobre o aumento da incid\u00eancia do autismo na inf\u00e2ncia. \u00c9 necess\u00e1rio, para faz\u00ea-lo, construir uma outra perspectiva. Na realidade, o d\u00e9ficit nunca foi um bom crit\u00e9rio diagn\u00f3stico, j\u00e1 que ele conduz quase inevitavelmente \u00e0 prescri\u00e7\u00e3o medicamentosa e \u00e0s terapias comportamentais. De forma que as crian\u00e7as tornam-se \u201ctodas educ\u00e1veis e medic\u00e1veis\u201d em nome da cura do sintoma, sem levar em conta a causa e o tratamento singular que ele convoca. Em nome de uma suposta \u201cnormalidade\u201d, busca-se incluir as crian\u00e7as em programas que as tornem iguais \u00e0s outras. Desconhece-se, assim, que n\u00e3o h\u00e1 uma norma que valha para todos por igual, j\u00e1 que n\u00e3o existe um crit\u00e9rio de sa\u00fade universal. Todos diferentes, todos \u201cnormalmente\u201d fora da norma no ponto em que se encontra a singularidade. Cada crian\u00e7a autista tem seu modo pr\u00f3prio de \u201cfuncionar\u201d dentro de sua estrutura. Numa perspectiva exterior \u00e0 psican\u00e1lise, o neurologista Oliver Sacks, em seu texto Um antrop\u00f3logo em Marte, afirma que n\u00e3o h\u00e1 dois indiv\u00edduos autistas iguais: \u201cseu estilo individual ou express\u00e3o s\u00e3o diferentes em cada caso\u201d (SACKS, 2003). O que nos leva a reafirmar que n\u00e3o h\u00e1 dois sujeitos iguais, autistas ou n\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Epidemia De Autismo<\/strong><\/p>\n<p>O diagn\u00f3stico de autismo na inf\u00e2ncia multiplicou-se nos \u00faltimos tempos. Esse incremento tem repercuss\u00f5es tanto nos tratamentos como nas pol\u00edticas de sa\u00fade p\u00fablica. Mas, realmente, h\u00e1 um aumento de crian\u00e7as autistas, ou esse fen\u00f4meno \u00e9 induzido pelas leituras classificat\u00f3rias em uso no nosso mundo atual?<\/p>\n<p>Ante a emerg\u00eancia do aumento de crian\u00e7as autistas, um rumor inquietou a opini\u00e3o p\u00fablica. Em 1998, The Lancet publicou um estudo do Dr. Wakefield do Royal Free Hospital, do norte de Londres, no qual colocava a hip\u00f3tese da rela\u00e7\u00e3o entre a vacina contra rub\u00e9ola e o autismo. Os meios de comunica\u00e7\u00e3o contribu\u00edram para retransmitir a not\u00edcia e, assim, criar um grande esc\u00e2ndalo, e o rumor expandiu-se pela internet.<\/p>\n<p>Como resposta a esse rumor, Fran\u00e7ois Ansermet (2008) expressou, tamb\u00e9m por internet, que uma investiga\u00e7\u00e3o, realizada em 2004, revela que uma equipe de advogados pagou ao Dr. Wakefield para publicar essa nota, e, imediatamente depois, surgiram processos contra os produtores da vacina. The Lancet publicou, em mar\u00e7o de 2004, uma pequena nota editorial em que se retratava, mas o rumor continuou circulando.[2] O que esse rumor demonstra \u00e9 que pensar o autismo como um d\u00e9ficit ligado \u00e0 carga gen\u00e9tica, que \u00e9 constitucional, ou, inclusive, como efeito secund\u00e1rio de uma vacina, geralmente, alivia os pais, j\u00e1 que lhes retira dos penosos sentimentos que experimentam.<\/p>\n<p>A busca de uma gen\u00e9tica defeituosa chegou a tal ponto, que, ante a dificuldade de encontrar um \u201cgene autista\u201d, os cientistas come\u00e7aram a falar de \u201cmuta\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas espont\u00e2neas\u201d ligadas ao meio ambiente. A decodifica\u00e7\u00e3o do genoma humano introduziu a cren\u00e7a de que, finalmente, ser\u00e1 poss\u00edvel estabelecer uma sequ\u00eancia gen\u00e9tica que permita isolar o autismo. Em junho de 2010, o Cons\u00f3rcio do Projeto Genoma publicou um artigo na revista Nature sobre a descoberta de repeti\u00e7\u00f5es e perdas de fragmentos de DNA em 20% dos casos de autismo examinados. Trata-se de \u201cvariantes raras\u201d, muta\u00e7\u00f5es \u00fanicas, com um gene diferente em cada crian\u00e7a. O que se destaca \u00e9 que se trata de muta\u00e7\u00f5es cong\u00eanitas, que nada t\u00eam a ver com a heran\u00e7a e que s\u00e3o todas diferentes. N\u00e3o sendo poss\u00edvel estabelecer a causa dessas mudan\u00e7as gen\u00e9ticas, o \u201cmeio ambiente\u201d permanece como uma hip\u00f3tese. A abordagem gen\u00e9tica, assim colocada, aponta a reeduca\u00e7\u00e3o como \u00fanica solu\u00e7\u00e3o vi\u00e1vel. Ainda veremos se esse \u201cmeio ambiente\u201d incluir\u00e1 ou n\u00e3o a rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o significante.<\/p>\n<p>O descr\u00e9dito quanto \u00e0 psican\u00e1lise \u00e9 correlativo ao recurso crescente a tratamentos cognitivo-comportamentais para a abordagem de crian\u00e7as autistas, que tendem a difundir a cren\u00e7a de que os psicanalistas culpabilizam os pais pela enfermidade de seus filhos. O pr\u00f3prio Ian Hacking, em A constru\u00e7\u00e3o social de qu\u00ea?, retoma essa perspectiva e considera que, na verdade, a ci\u00eancia cognitiva \u00e9 a \u00fanica que, na atualidade, pode explicar o autismo atrav\u00e9s da \u201cteoria da mente\u201d, dados os d\u00e9ficits lingu\u00edsticos e outros. Mas o que \u00e9 uma \u201cteoria\u201d \u2014 baseada na suposta capacidade de atribuir estados mentais a si mesmo e ao outro \u2014 sen\u00e3o uma vers\u00e3o imagin\u00e1ria do Outro?<\/p>\n<p>Portanto, o autismo n\u00e3o \u00e9 uma fatalidade, diz Jaqueline Berger, jornalista, autora do livro Sortir de l\u2019autisme, e m\u00e3e de crian\u00e7as autistas. A m\u00e1 reputa\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise corresponde ao fato de que os resultados obtidos n\u00e3o s\u00e3o avali\u00e1veis de acordo com os crit\u00e9rios quantitativos e estat\u00edsticos cognitivo-comportamentalistas utilizados nas publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas.<\/p>\n<p>Do Lado Da Psican\u00e1lise<br \/>\nJean-Claude Maleval (2011) destaca a diversidade de casos envolvidos no diagn\u00f3stico de autismo, que v\u00e3o desde os casos que necessitam de uma aten\u00e7\u00e3o institucional por toda vida aos de autistas de alto n\u00edvel. Algumas crian\u00e7as apresentam \u201cilhas de compet\u00eancia\u201d que, \u00e0s vezes, as tornam eruditas em dom\u00ednios muito especializados, inclusive com habilidades excepcionais. O. Sacks (2003) examina as caracter\u00edsticas que as tornam \u201cprod\u00edgios\u201d, tamb\u00e9m chamados \u201cautistas s\u00e1bios\u201d, cujas proezas t\u00e9cnicas, diz Laurent (2011), t\u00eam deslocado o interesse que antes reca\u00eda sobre o del\u00edrio.<\/p>\n<p>No entanto, n\u00e3o se pode apreender o autismo pela soma dos sintomas, j\u00e1 que n\u00e3o se trata de uma enfermidade, mas de um \u201cfuncionamento subjetivo singular\u201d. Enquanto um tipo cl\u00ednico particular, por detr\u00e1s de sua \u201ccarapa\u00e7a\u201d, n\u00e3o se esconde nenhuma crian\u00e7a \u201cnormal\u201d. A concep\u00e7\u00e3o deficit\u00e1ria do autismo inclui essas crian\u00e7as inevitavelmente em tratamentos exclusivamente educativos e ignora a possibilidade de participa\u00e7\u00e3o do sujeito num funcionamento que n\u00e3o fixa um destino.<\/p>\n<p>Maleval (2011) concebe o autismo como uma estrutura que se caracteriza por um recha\u00e7o da aliena\u00e7\u00e3o significante e de um retorno do gozo sobre uma borda. Essa express\u00e3o, tomada de \u00c9ric Laurent, d\u00e1 conta de como o objeto se encontra pregado ao corpo, de tal modo que constr\u00f3i uma \u201ccarapa\u00e7a autista\u201d em sua particular din\u00e2mica libidinal. O transtorno simb\u00f3lico gera uma enuncia\u00e7\u00e3o morta, defasada, apagada ou t\u00e9cnica. N\u00e3o se trata de um d\u00e9ficit cognitivo, mas de uma rela\u00e7\u00e3o particular com o significante. Esse recha\u00e7o impede que o gozo se conecte com a palavra, e, em vez disso, ele retorna sobre uma borda, com um objeto ao qual o autista encontra-se ligado: constr\u00f3i-se, assim, uma carapa\u00e7a, dentro da din\u00e2mica libidinal. A borda autista \u00e9 uma forma\u00e7\u00e3o protetora frente a um Outro amea\u00e7ador e disp\u00f5e de tr\u00eas componentes essenciais: a imagem do duplo, as ilhotas de compet\u00eancia e o objeto autista.<\/p>\n<p>A hip\u00f3tese central de Maleval \u00e9 a do recha\u00e7o do autista ao gozo associado ao objeto voz, que determina as perturba\u00e7\u00f5es da linguagem: n\u00e3o se trata aqui tanto da sonoridade, mas da enuncia\u00e7\u00e3o de seu dizer. \u201cNada angustia mais ao autista\u201d, diz Maleval (2011) \u201cque ceder seu gozo vocal alienando-se ao significante\u201d. Protege-se, ent\u00e3o, da presen\u00e7a angustiante da voz atrav\u00e9s da fala\u00e7\u00e3o ou do mutismo, evitando a interlocu\u00e7\u00e3o com o Outro. E, mesmo quando falam com fluidez, como no caso dos autistas de alto n\u00edvel, protegem-se do gozo vocal atrav\u00e9s da falta de enuncia\u00e7\u00e3o. Da\u00ed deriva a solid\u00e3o do autista em rela\u00e7\u00e3o a tomar uma posi\u00e7\u00e3o de enuncia\u00e7\u00e3o; assim como tamb\u00e9m sua fixidez no esfor\u00e7o de manter uma ordem est\u00e1tica frente ao seu mundo ca\u00f3tico.<\/p>\n<p>Maleval (2011) destaca dois tipos de sa\u00edda poss\u00edveis, que v\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o de um duplo na inf\u00e2ncia, \u00e0 de um Outro de s\u00edntese na idade adulta, atrav\u00e9s da memoriza\u00e7\u00e3o de signos e, finalmente, do uso de objetos autistas muito complexos. Assim, da solid\u00e3o e do mutismo do autismo precoce, em um segundo tempo, \u00e9 poss\u00edvel encontrar o trabalho sobre o retorno do gozo sobre a borda na s\u00edndrome de Asperger da idade adulta.<\/p>\n<p>Esses desenvolvimentos s\u00e3o linhas de investiga\u00e7\u00e3o para refletir sobre seu funcionamento dentro do dispositivo anal\u00edtico.<\/p>\n<p>\u00c9ric Laurent (2011) indica que a inclus\u00e3o do sujeito no autismo implica o funcionamento de um significante sozinho no real, sem deslocamento, \u201cpe\u00e7a solta\u201d, que busca encontrar uma ordem fixa e realizar um simb\u00f3lico sem equ\u00edvocos poss\u00edveis, verdadeira \u201ccifra do autismo\u201d. O n\u00e3o sentir empatia, na realidade, n\u00e3o \u00e9 necessariamente um d\u00e9ficit, mas o que os leva a funcionar sem os obst\u00e1culos imagin\u00e1rios pr\u00f3prios da vida cotidiana. Por outro lado, acrescenta que \u201ch\u00e1 que se renunciar a pensar a crian\u00e7a-m\u00e1quina\u201d \u2014 alus\u00e3o ao caso Joey de Bettelheim \u2014 e falar da \u201ccrian\u00e7a-\u00f3rg\u00e3o\u201d, pois se trata de uma montagem do corpo com um objeto de fora do corpo que inclui, \u00e0s vezes, um \u201cobjeto autista\u201d colado a seu corpo.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0s particularidades do tratamento, \u00c9ric Laurent (2011) assinala que o encapsulamento autista \u00e9 uma bolha de prote\u00e7\u00e3o fechada de um sujeito sem corpo. O problema que se coloca, ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 tanto como se constitui uma borda, como na esquizofrenia, mas como se desloca essa neoborda, que, em si mesma, est\u00e1 muito bem constitu\u00edda.<\/p>\n<p>Ao chegar \u00e0 consulta, a crian\u00e7a autista tende a rejeitar todo contato com o outro, na medida em que este \u00e9 experimentado como intrusivo frente a essa borda encapsulada, quase colada na superf\u00edcie de seu corpo. O deslocamento dessa carapa\u00e7a se produz atrav\u00e9s de interc\u00e2mbios articulados com um outro percebido como menos amea\u00e7ador. Busca-se construir um espa\u00e7o que n\u00e3o seja nem do sujeito nem do outro, um espa\u00e7o que permita uma aproxima\u00e7\u00e3o, que remova a crian\u00e7a de sua indiferen\u00e7a e da repeti\u00e7\u00e3o exata de sua rela\u00e7\u00e3o com o outro, articulando, assim, um \u201cespa\u00e7o de jogo\u201d \u2014 ainda que reste precisar qual \u00e9 o estatuto desse jogo. Essas trocas no real, n\u00e3o puramente imagin\u00e1rias, nas quais interv\u00e9m a meton\u00edmia de objetos, permitem a constru\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o de deslocamento da borda e a emerg\u00eancia de significantes que passam a tomar parte de sua l\u00edngua privada.<\/p>\n<p>Em algumas ocasi\u00f5es, inclui-se o \u201cobjeto autista\u201d, com o qual a crian\u00e7a se desloca e entra tamb\u00e9m no circuito dos objetos. Esse objeto \u00e9 parte da inven\u00e7\u00e3o pessoal, por isso a orienta\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica que aponta para a opera\u00e7\u00e3o de \u201csepara\u00e7\u00e3o\u201d, sem inscrev\u00ea-la, n\u00e3o indicando, de modo algum, que se retire esse objeto da crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Na medida em que os tratamentos apontam para as singularidades, \u00e9 poss\u00edvel prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es do significante sozinho no real, escutar o sujeito sem objetiv\u00e1-lo e aprender sua l\u00edngua, de acordo com a express\u00e3o de Jean Rabanel (2011). O fora do la\u00e7o do autista, seu recha\u00e7o ao outro, que \u00e9 percebido como intrusivo, torna ainda mais importante possibilitar as inven\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s das quais o analista se torna o partenaire da crian\u00e7a autista, de modo tal que sua palavra possa ser escutada.<\/p>\n<p>\u00c9ric Laurent (2011) indica que, para aplicar a psican\u00e1lise ao autismo, \u00e9 necess\u00e1rio permitir ao sujeito separar-se de seu estado de ref\u00fagio homeost\u00e1tico no corpo encapsulado e passar a um modo de subjetividade da ordem de um \u201cautismo a dois\u201d. H\u00e1 que se tornar o novo partenaire do sujeito, fora de toda reciprocidade imagin\u00e1ria e sem a fun\u00e7\u00e3o de interlocu\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica.<\/p>\n<p>A inven\u00e7\u00e3o \u00e9 convocada n\u00e3o s\u00f3 do lado da crian\u00e7a, mas tamb\u00e9m do analista. Dessa forma, pode-se afirmar que h\u00e1 transfer\u00eancia na dire\u00e7\u00e3o da cura da crian\u00e7a autista, todavia, devem-se determinar, em cada caso, suas particularidades e suas consequ\u00eancias na cura.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0s entrevistas com os pais, n\u00e3o se trata de desampar\u00e1-los, culpabilizando-os, mas de contribuir para encaminh\u00e1-los a tratamentos poss\u00edveis. A simples entrevista, ao lado das quest\u00f5es ali colocadas, pode produzir um sentimento de estar em falta, mesmo sem uma teoria que aponte os pais como causa do autismo. Esse \u00e9 um elemento essencial para levar em conta na consulta da crian\u00e7a, de tal modo a n\u00e3o deixar os pais sem recursos, o que pode lev\u00e1-los a uma suposta solu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida via reeduca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para Concluir<br \/>\nA psican\u00e1lise \u00e9 uma alternativa leg\u00edtima de tratamento para o autista, tanto no seu trabalho individual junto a um dispositivo de trabalho criado em seu entorno, como na pr\u00e1tica institucional \u201centre muitos\u201d. E seus tratamentos nos deixam como ensinamento que o sujeito nunca pode reduzir-se a ser um objeto de diagn\u00f3stico e que, ao nos aproximarmos da crian\u00e7a, como um analista pode fazer, as portas abrem-se para um universo singular que nenhum manual diagn\u00f3stico poderia antecipar.<\/p>\n<p>Para uma crian\u00e7a autista, como para qualquer outra crian\u00e7a com um diagn\u00f3stico diferente, n\u00e3o h\u00e1 outra \u201cnormalidade\u201d que o modo de funcionamento que lhe seja pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Dirigir-se \u00e0 crian\u00e7a autista como sujeito, n\u00e3o como objeto educ\u00e1vel, introduz possibilidades de encontros inesperados, com solu\u00e7\u00f5es que lhe permite reinserir-se no Outro de um modo original, sem ser encerrada na incapacidade ou em protocolos preestabelecidos. \u00c9 um tratamento de um a um, mas com outros.<\/p>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: Ludmilla F\u00e9res Faria<\/h6>\n<h6>(1) Uma vers\u00e3o reduzida deste trabalho foi publicada em La Cause Freudienne, Paris, n.78, p.103-108, 2011.<br \/>\n(2) The Lancet, London, v.363, n.9411, p.823-824, mars 2004.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>ANSERMET, F.; SIEGRIST, C.-A. \u201cVaccin rougeole et autisme, aucune evidence scientifique\u201d, Tribune de Gen\u00e8ve, Gen\u00e8ve, n.6, p.33, mai 2008.<\/h6>\n<h6>ASSOCIA\u00c7\u00c3O AMERICANA DE PSIQUIATRIA. Manual diagn\u00f3stico e estat\u00edstico de transtornos mentais \u2013 DSM-IV.<\/h6>\n<h6>BERGER, J. Sortir de l\u2019autisme. Paris: \u00c9ditions Buchet\/Chastel, 2007. (Coll. Essais et documents).<\/h6>\n<h6>HACKING, I. Entre science et realit\u00e9: la construction sociale de quoi? Paris: La Decouverte, 2001.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. \u201cSpectres de l\u2019autisme\u201d, La Cause Freudienne, Paris, n.78, p.53-63, 2011.<\/h6>\n<h6>MALEVAL, J.-C. \u201cLangue verbeuse, langue factuelle et phrases spontan\u00e9es chez l\u2019autisme\u201d, La Cause Freudienne, Paris, n.78, p.77-92, 2011.<\/h6>\n<h6>RABANEL, J.-R. \u201cUne Clinique de l\u2019objet a em institution\u201d, La Cause Freudienne, Paris, n.78, p.64-76, 2011.<\/h6>\n<h6>SACKS, O. Un anthropologue sur mars. Paris: Seuil, 2003.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Silvia Tendlarz<\/strong><\/h6>\n<h6>Psicanalista, membro da EOL \u2013 Escuela de la Orientaci\u00f3n Lacaniana e da AMP \u2013 Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise. E-mail:\u00a0<span id=\"cloak7701b19e248141692fa613ef5dca048c\"><a href=\"mailto:stendlarz@fibertel.com.ar\">stendlarz@fibertel.com.ar<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SILVIA TENDLARZ &nbsp; &nbsp; O s\u00e9culo XXI \u00e9 testemunha de um aumento crescente do diagn\u00f3stico de autismo na inf\u00e2ncia. Chegou-se a falar de uma verdadeira epidemia. Esse diagn\u00f3stico em expans\u00e3o corresponde sempre \u00e0s pessoas envolvidas nele? 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