{"id":677,"date":"2014-03-17T06:53:30","date_gmt":"2014-03-17T09:53:30","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=677"},"modified":"2014-03-17T06:53:30","modified_gmt":"2014-03-17T09:53:30","slug":"da-agressividade-a-pulsao-de-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2014\/03\/17\/da-agressividade-a-pulsao-de-morte\/","title":{"rendered":"Da Agressividade \u00c0 Puls\u00e3o De Morte"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>\u00c9RIC GUILLOT<\/strong><\/h6>\n<p>Agressividade e puls\u00e3o de morte est\u00e3o no cora\u00e7\u00e3o da cl\u00ednica das passagens ao ato violentas ou assassinas que s\u00e3o frequentes em nossa atualidade. Viol\u00eancia verbal, intimida\u00e7\u00e3o, extors\u00e3o, viola\u00e7\u00e3o, explora\u00e7\u00e3o sexual, assassinatos, atentados suicidas, as manifesta\u00e7\u00f5es agressivas n\u00e3o t\u00eam todas a mesma significa\u00e7\u00e3o. Umas se abrem no registro da \u201cinten\u00e7\u00e3o agressiva\u201d[2] e ficam presas na comunica\u00e7\u00e3o. Outras testemunham uma \u201ctend\u00eancia agressiva\u201d mais fundamental que se desdobra em outro registro totalmente diferente, aquele da passagem ao ato, eventualmente destruidor e assassino, colocando em jogo o que Freud designou com o termo puls\u00e3o de morte.<\/p>\n<p>Como nos orientar nessa cl\u00ednica da agressividade e da puls\u00e3o de morte? Para dar conta dela, n\u00f3s teremos de evocar a dimens\u00e3o sociol\u00f3gica e pol\u00edtica desses fen\u00f4menos. Existe sempre, com efeito, uma dimens\u00e3o de conting\u00eancia na agressividade. Lacan o indica desde 1948, sublinhando que nosso mundo contempor\u00e2neo, marcado pela globaliza\u00e7\u00e3o, contribui para seu desencadeamento (LACAN, 1950\/1998).<\/p>\n<p>Quais s\u00e3o os fundamentos e os mecanismos da agressividade e da puls\u00e3o de morte? Sobre esse ponto, as opini\u00f5es de Freud e Lacan divergem. Freud considera que a agressividade \u00e9 uma \u201cdisposi\u00e7\u00e3o instintiva primitiva\u201d. Ele faz dela um fen\u00f4meno vital devido \u00e0 biologia, tal como a puls\u00e3o de morte, que ele liga \u00e0 agressividade. \u00c0 diferen\u00e7a de Freud, Lacan considera que a agressividade e a puls\u00e3o de morte n\u00e3o se devem ao instinto como animal. Para ele, agressividade e puls\u00e3o de morte devem ser pensadas em sua articula\u00e7\u00e3o \u00e0 linguagem. \u00c9 a linguagem que faz do homem um animal desnaturado capaz de crueldade.<\/p>\n<p>A extra\u00e7\u00e3o da agressividade e da puls\u00e3o de morte do campo da biologia e sua inscri\u00e7\u00e3o no campo da linguagem permitir\u00e3o a Lacan dissociar progressivamente a agressividade da puls\u00e3o de morte.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 agressividade, Lacan mostra, de in\u00edcio, que se trata de um fen\u00f4meno que se desenvolve estritamente no registro imagin\u00e1rio. A agressividade \u00e9 correlativa de um modo de identifica\u00e7\u00e3o pr\u00f3prio \u00e0 estrutura do humano. Trata-se de um fen\u00f4meno decorrente da teoria do narcisismo. Quanto \u00e0 puls\u00e3o de morte, que Lacan tinha ligado \u00e0 agressividade, nos primeiros momentos de seu ensino, ele sublinha, em seguida, a articula\u00e7\u00e3o estrita com o simb\u00f3lico; depois, a partir dos anos 60, ele mostra que ela deve ser pensada em seu la\u00e7o com o gozo, quer dizer, em sua rela\u00e7\u00e3o com o real. O termo gozo torna-se, ent\u00e3o, o nome lacaniano da puls\u00e3o de morte freudiana.<\/p>\n<p><strong>I \u2013 Freud, Da Agressividade \u00c0 Puls\u00e3o De Morte<\/strong><\/p>\n<p><strong>Uma Tend\u00eancia \u00c0 Agress\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Lacan considera que Freud fica parcialmente prisioneiro da ideologia darwiniana que dominava sua \u00e9poca.[3] Nessa ideologia \u2014 mas n\u00e3o \u00e9 ainda a nossa? \u2014 existe uma preemin\u00eancia acordada \u00e0 agressividade que se refere ao fato de que seja concebida como um princ\u00edpio de conserva\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie[4] (LACAN, 1948\/1998). A abordagem freudiana da agressividade, em termos de instinto e de fun\u00e7\u00e3o vital, testemunha a influ\u00eancia de uma tal ideologia. A primeira teoria freudiana das puls\u00f5es[5] (opondo puls\u00f5es sexuais e puls\u00f5es de autoconserva\u00e7\u00e3o) tamb\u00e9m carrega essa marca (FREUD, 1915a\/1974).<\/p>\n<p>Depois de 1920, com a descoberta do mais al\u00e9m do princ\u00edpio de prazer e os remanejamentos de sua teoria pulsional (em oposi\u00e7\u00e3o entre puls\u00e3o de vida e puls\u00e3o de morte), Freud introduz uma nova perspectiva concernente \u00e0 agressividade. Certamente, Freud v\u00ea sempre naquela \u201cuma disposi\u00e7\u00e3o instintiva original e autossubsistente\u201d, e ele \u00e9 sempre tentado a situar a\u00ed os fundamentos de uma refer\u00eancia \u00e0 biologia, mas, nesse momento, a agressividade lhe aparece, sobretudo, em sua dimens\u00e3o delet\u00e9ria, e ele a relaciona \u00e0 puls\u00e3o de morte (FREUD, 1930\/1974). \u00c9 em \u201cO mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o\u201d que ele o testemunha mais claramente. Tomando o que chama de \u201ctend\u00eancia \u00e0 agress\u00e3o\u201d, ele nos d\u00e1 uma defini\u00e7\u00e3o e uma descri\u00e7\u00e3o do homem que integra a puls\u00e3o de morte. Poderia ser Sade, assinala Lacan (1959-1960\/1991). Todo o pessimismo de Freud eclode nesse texto:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>[\u2026] os homens n\u00e3o s\u00e3o criaturas gentis que desejam ser amadas e que, no m\u00e1ximo, podem defender-se quando atacadas; pelo contr\u00e1rio, s\u00e3o criaturas entre cujos dotes instintivos deve-se levar em conta uma poderosa quota de agressividade. Em resultado disso, o seu pr\u00f3ximo \u00e9, para eles, n\u00e3o apenas um ajudante potencial ou um objeto sexual, mas tamb\u00e9m algu\u00e9m que os tenta a satisfazer sobre ele a sua agressividade, a explorar sua capacidade de trabalho sem compensa\u00e7\u00e3o, utiliz\u00e1-lo sexualmente sem o seu consentimento, apoderar-se de suas posses, humilh\u00e1-lo, causar-lhe sofrimento, tortur\u00e1-lo e mat\u00e1-lo (FREUD, 1930\/1974, p.133).<\/em><\/p>\n<p>Homo homini lupus, ele acrescenta, para concluir: o homem \u00e9 um lobo para o homem.<\/p>\n<p>A forma desse ad\u00e1gio que Freud toma emprestado de Plauto[6] \u00e9, para Lacan (1950\/1998), enganadora sobre seu sentido.[7] Ele, com efeito, considera que a agressividade n\u00e3o corresponde a um instinto, que n\u00e3o \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o vital, como no animal. Em 1929, n\u00e3o se trata mais, para Freud, de situar a agressividade em sua articula\u00e7\u00e3o \u00e0s puls\u00f5es de conserva\u00e7\u00e3o do eu, mas antes de mostrar que existe uma \u201cinata inclina\u00e7\u00e3o humana para a \u2018ruindade\u2019, a agressividade e a destrui\u00e7\u00e3o, e tamb\u00e9m para a crueldade\u201d (FREUD, 1930\/1974, p.142). Essa tend\u00eancia \u00e0 agress\u00e3o na qual ele reconhece a marca da puls\u00e3o de morte constitui, a seus olhos, uma amea\u00e7a para a sociedade civilizada (FREUD, 1930\/1974). Desse julgamento muito pessimista de Freud n\u00f3s podemos extrair todo o peso do desastre que foi a primeira guerra mundial e as premissas daquela que se anunciava.<\/p>\n<p><strong>Da Puls\u00e3o De Morte \u00c0 \u201cPuls\u00e3o Do Supereu\u201d<\/strong><\/p>\n<p>A prova dessa influ\u00eancia obscura da puls\u00e3o de morte, Freud a refere igualmente a certas manifesta\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas nas quais o sujeito se emprega a repetir situa\u00e7\u00f5es que s\u00e3o para ele um desprazer e que v\u00e3o contra o seu bem e mesmo contra os interesses do vivo. Trata-se, por exemplo, da repeti\u00e7\u00e3o dos sonhos traum\u00e1ticos ou ainda das neuroses de destino, das rea\u00e7\u00f5es terap\u00eauticas negativas, mas tamb\u00e9m dos sintomas ou da cl\u00ednica do masoquismo. A repeti\u00e7\u00e3o dessas manifesta\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas que se apresentam como uma forma de autoagress\u00e3o, das quais, no entanto, o sujeito parece tirar uma satisfa\u00e7\u00e3o paradoxal, testemunha, para ele, a opera\u00e7\u00e3o de um movimento que se dirige \u00e0 morte e que afetaria o vivo como tal. Ele v\u00ea nessa repeti\u00e7\u00e3o a express\u00e3o de um fen\u00f4meno vital enraizado na biologia,[8] caracterizado pela tend\u00eancia a restabelecer um estado anterior, como um retorno do animado ao inanimado (FREUD, 1930\/1974, p.141).<\/p>\n<p>Assinalemos que, se Lacan admite tamb\u00e9m o fato da repeti\u00e7\u00e3o como sendo o princ\u00edpio da puls\u00e3o de morte, ele n\u00e3o faz dela um fen\u00f4meno vital enraizado na biologia. Ele situa, ao contr\u00e1rio, a repeti\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 linguagem e ao inconsciente. Est\u00e1 a\u00ed um ponto importante que J.-A. Miller (2004) sublinha em seu curso Biologia lacaniana.<\/p>\n<p>Mas vejamos o que leva o sujeito a repetir a situa\u00e7\u00e3o que vai contra o seu bem. Certamente, Freud considera que essa tend\u00eancia m\u00f3rbida se enra\u00edza em um movimento vital, mas que n\u00e3o \u00e9 suficiente diz\u00ea-lo assim. \u00c9 preciso poder explicar por que todo o mundo n\u00e3o tem a mesma rela\u00e7\u00e3o com a puls\u00e3o de morte. O que leva certos sujeitos a se oporem \u00e0 sua cura e mesmo a se autodestru\u00edrem, a se autoagredirem?<\/p>\n<p>A primeira ideia de Freud tinha sido interpretar como uma forma de autopuni\u00e7\u00e3o ligada a uma culpabilidade edipiana. Mas, a partir de 1923, em \u201cO Eu e o Isso\u201d, ele come\u00e7a a duvidar da efic\u00e1cia dessa interpreta\u00e7\u00e3o. O que o levou a levantar outra hip\u00f3tese: aquela do supereu. Essa inst\u00e2ncia, no interior do sujeito, que o leva a se autodestruir \u00e9 o supereu. N\u00e3o o supereu \u201cherdeiro do complexo de \u00c9dipo\u201d, resultado da interioriza\u00e7\u00e3o dos interditos parentais e ligado \u00e0 figura pacificadora do pai do \u00c9dipo; mas um supereu muito mais feroz, de uma severidade extrema, que manifestar\u00e1 contra o Eu \u201ca mesma agressividade rude\u201d que o Eu \u201cteria gostado de satisfazer sobre outros indiv\u00edduos, a ele estranhos\u201d (FREUD, 1930\/1974, p.146). Freud o formula em 1929, em \u201cO mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Para explicar as manifesta\u00e7\u00f5es de autoagress\u00e3o, Freud faz valer um retorno da agressividade sobre a pr\u00f3pria pessoa por um supereu s\u00e1dico, que maltrata, atormenta e angustia o eu. O supereu que tiraniza o sujeito, por suas exig\u00eancias desmesuradas, aparece, assim, como um dos nomes dessa puls\u00e3o de morte, cuja hip\u00f3tese se imp\u00f4s ent\u00e3o a Freud a partir dos anos 20. Freud constata, al\u00e9m disso, que nada apazigua o supereu. Longe de ser acalmado, como se poderia imaginar, pela ren\u00fancia pulsional, ele se encontra tanto mais excitado, crescendo sempre mais sua superioridade. Freud (1930\/1974, p.149) sublinha que \u201cquanto mais virtuoso um homem \u00e9, mais severo e desconfiado \u00e9 o seu comportamento\u201d.<\/p>\n<p>Por qu\u00ea? Freud explica assim:<\/p>\n<p><em>Aqui, a ren\u00fancia instintiva [pulsional] n\u00e3o basta, pois o desejo [quer dizer, a \u201ctend\u00eancia \u00e0 agress\u00e3o\u201d] persiste e n\u00e3o pode ser escondido do superego [supereu]. Assim, a despeito da ren\u00fancia efetuada, ocorre um sentimento de culpa. [\u2026] Aqui, a ren\u00fancia instintiva [pulsional] n\u00e3o possui mais um efeito completamente liberador; a contin\u00eancia virtuosa n\u00e3o \u00e9 mais recompensada com a certeza do amor (FREUD,1930\/1974, p.151).<\/em><\/p>\n<p>A culpabilidade que resulta da tens\u00e3o entre o eu e o supereu \u00e9 \u00e0s vezes tal, assinala Freud, que acontece de alguns sujeitos cometerem crimes com o \u00fanico objetivo de serem punidos, fazendo, assim, aliviar sua culpabilidade inconsciente. \u00c9 um paradoxo que Freud (1915c\/1974) sublinha em um artigo intitulado \u201cCriminosos pelo sentimento de culpa\u201d, que Lacan retomar\u00e1, por sua vez, em 1950, em Introdu\u00e7\u00e3o te\u00f3rica \u00e0s fun\u00e7\u00f5es da psican\u00e1lise em criminologia. Ele destaca uma categoria de crimes nos quais, paradoxalmente, \u00e9 o sentimento de culpabilidade que preexiste \u00e0 falta. Nessa cl\u00ednica do supereu destacada por Freud, \u00e9 a inst\u00e2ncia do supereu que leva ao crime e \u00e0 transgress\u00e3o para satisfazer o que aparece finalmente como uma forma de gozo do supereu (COTTET, 2009).<\/p>\n<p>Com efeito, o que aparece nesse texto de Freud \u2014 e que Lacan destacar\u00e1 \u2014 \u00e9 a dimens\u00e3o pulsional do supereu.[9] Ele tem uma avidez que nada satisfaz. Mais se lhe d\u00e1, mais ele reclama. Mais o supereu se imp\u00f5e, exige, interdita, e mais ele se mostra \u00e1vido de ren\u00fancia, como se ele se nutrisse dessa ren\u00fancia mesma (FREUD, [1929]1930\/1974). Ele empurra ao sacrif\u00edcio e se nutre desse gozo obscuro, masoquista, que o sujeito pode experimentar no sacrif\u00edcio. Assim, assistimos a uma forma de sexualiza\u00e7\u00e3o do imperativo moral que o supereu promove. E, sem d\u00favida, \u00e9 nessa dimens\u00e3o pulsional do supereu que n\u00f3s encontramos, como sublinha J.-A. Miller, a \u201cdefini\u00e7\u00e3o mais brilhante\u201d da puls\u00e3o de morte (MILLER, 2004, p.22)<\/p>\n<p><strong>II \u2013 Lacan: Da Agressividade Ao Gozo<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u201cA Aporia Freudiana\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Lacan considera que Freud ficou prisioneiro da ideologia de seu tempo, quando se esfor\u00e7ou em definir a experi\u00eancia do homem no registro da biologia (MILLER, 1991). No entanto, sublinha Lacan, toda sua obra demonstra que n\u00e3o se pode dar uma f\u00f3rmula biol\u00f3gica para isso. \u00c9 uma contradi\u00e7\u00e3o em sua obra, \u00e9 uma \u201caporia\u201d (LACAN, 1948\/1998, p.104). A maneira que Freud teve de teorizar a puls\u00e3o de morte, a partir do postulado de uma \u201cagressividade constitucional do ser humano contra outrem\u201d, testemunha essa dificuldade, e Lacan considera que isso deixou a porta aberta a numerosas confus\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Agressividade E Puls\u00e3o De Morte: A Teoria Do Narcisismo<\/strong><\/p>\n<p><strong>a)<\/strong>\u00a0Um modo de identifica\u00e7\u00e3o pr\u00f3prio da estrutura do humano<\/p>\n<p>Rompendo com essa perspectiva biologizante, Lacan vai se esfor\u00e7ar para repensar a quest\u00e3o dos fundamentos da agressividade a partir da teoria da identifica\u00e7\u00e3o. Ele desenvolve essa quest\u00e3o em 1948, no artigo \u201cA agressividade em psican\u00e1lise\u201d.<\/p>\n<p>Sua tese \u00e9 a seguinte: \u201ca agressividade \u00e9 a tend\u00eancia correlativa a um modo de identifica\u00e7\u00e3o a que chamamos narc\u00edsico\u201d (LACAN, 1948\/1998, p.112). Ele acrescenta: o modo de identifica\u00e7\u00e3o narc\u00edsica \u201cdetermina a estrutura formal do eu do homem e do registro de entidades caracter\u00edstico de seu mundo\u201d.<\/p>\n<p>Para Lacan, agressividade e identifica\u00e7\u00e3o narc\u00edsica s\u00e3o intimamente ligadas. N\u00e3o se pode dar conta da agressividade sem uma teoria da identifica\u00e7\u00e3o em psican\u00e1lise. Tal \u00e9 o seu ponto de partida. N\u00f3s estamos ent\u00e3o longe da ideia de uma agressividade instintual. Ele situa, ao contr\u00e1rio, a origem da agressividade na g\u00eanese do eu. A agressividade est\u00e1 intrinsecamente ligada \u00e0 estrutura narc\u00edsica do eu (LACAN, 1948\/1998). Ela \u00e9 sua \u201ctend\u00eancia correlativa\u201d. Certas manifesta\u00e7\u00f5es patol\u00f3gicas, como aquelas que encontramos nas psicoses paranoicas, em que dominam as rea\u00e7\u00f5es agressivas ou as imputa\u00e7\u00f5es de nocividade feitas ao outro (LACAN, 1948\/1998), somente se tornam lesivas se as relacionarmos \u00e0 \u201corganiza\u00e7\u00e3o original das formas do eu e do objeto\u201d (LACAN, 1948\/1998, p.113).<\/p>\n<p><strong>b)<\/strong>\u00a0A estrutura paranoica do eu<\/p>\n<p>Qual \u00e9 a origem do eu? Lembremos brevemente que o eu resulta de um processo de identifica\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria. Lacan elabora essa teoria no artigo sobre o est\u00e1dio do espelho (LACAN, 1949\/1998). A crian\u00e7a acede a uma representa\u00e7\u00e3o unit\u00e1ria de si mesma ao se identificar, seja \u00e0 sua imagem no espelho que ela assume como sendo a sua, seja \u00e0 de uma outra crian\u00e7a, com a condi\u00e7\u00e3o de que a diferen\u00e7a de idade n\u00e3o exceda dois meses e meio (LACAN, 1948\/1998). O que chamamos de eu n\u00e3o \u00e9 nada mais que o resultado desse processo de identifica\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria a um outro. Assim, em seu fundamento, o eu \u00e9 um outro.<\/p>\n<p>Que o sujeito deva passar pelo outro para ter acesso a uma imagem de si mesmo n\u00e3o \u00e9 sem consequ\u00eancias. Vai resultar disso, sublinha Lacan, uma \u201cambival\u00eancia estrutural\u201d, \u201cuma tens\u00e3o conflitiva interna ao sujeito\u201d (LACAN, 1948\/1998, p.116), e, desde ent\u00e3o, a rela\u00e7\u00e3o do sujeito a seu semelhante vai se desdobrar em um duplo registro, aquele do erotismo e aquele da agressividade. Existe um componente er\u00f3tico, porque o sujeito v\u00ea no outro uma imagem ideal, narc\u00edsica, de si mesmo, que ele investe libidinalmente como sua pr\u00f3pria imagem. Existe um componente agressivo porque, se \u201ceu \u00e9 o outro\u201d, ent\u00e3o esse outro pode tomar meu lugar. E \u00e9 em termos de \u201cvoc\u00ea ou eu\u201d que se desdobra ent\u00e3o a rela\u00e7\u00e3o. A \u00fanica sa\u00edda vem a ser a destrui\u00e7\u00e3o do outro. Lacan o formula assim:<\/p>\n<p><em>H\u00e1 nisso uma esp\u00e9cie de encruzilhada estrutural onde devemos acomodar nosso pensamento, para compreender a natureza da agressividade no homem e sua rela\u00e7\u00e3o com o formalismo de seu eu e de seus objetos. Essa rela\u00e7\u00e3o er\u00f3tica, em que o indiv\u00edduo humano se fixa numa imagem que o aliena em si mesmo, eis a\u00ed a energia e a forma donde se origina a organiza\u00e7\u00e3o passional que ele ir\u00e1 chamar de seu eu (LACAN, 1948\/1998, p.116).<\/em><\/p>\n<p>Os fen\u00f4menos de transitivismo observ\u00e1veis nas crian\u00e7as pequenas, mas a respeito dos quais Lacan diz que n\u00e3o se eliminam jamais do mundo do homem (LACAN, 1946\/1998), testemunham esses fen\u00f4menos de capta\u00e7\u00e3o pela imago da forma humana.<\/p>\n<p>Lacan se refere aqui \u00e0s observa\u00e7\u00f5es de Charlotte B\u00fchler.<\/p>\n<p><em>\u00c9 nessa capta\u00e7\u00e3o pela imago da forma humana, [\u2026] que domina, entre os seis meses e os dois anos e meio, toda a dial\u00e9tica do comportamento da crian\u00e7a na presen\u00e7a de seu semelhante. Durante todo esse per\u00edodo, registram-se as rea\u00e7\u00f5es emocionais e os testemunhos articulados de um transitivismo normal. A crian\u00e7a que bate diz que bateram nela, a que v\u00ea cair, chora (LACAN, 1948\/1998, p.116).<\/em><\/p>\n<p>E precisa em \u201cFormula\u00e7\u00f5es sobre a causalidade ps\u00edquica\u201d: \u201cAssim, a crian\u00e7a pode participar, num transe completo, do tombo do seu colega, ou igualmente lhe imputar, sem que se trate de uma mentira, ter recebido dele o golpe que lhe aplicou\u201d (LACAN, 1946\/1998, p.182). Assim, o que destacam extraordinariamente os fen\u00f4menos de transitivismo \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o de desconhecimento do eu. Lacan tirar\u00e1 as consequ\u00eancias disso, tanto para a concep\u00e7\u00e3o que faz da dire\u00e7\u00e3o do tratamento, como para o que nos ensinam sobre a cl\u00ednica da paranoia. Com efeito, como ele sublinha, a crian\u00e7a que imputa a seu colega receber o golpe que ele recebe n\u00e3o mente. No momento de capta\u00e7\u00e3o em que se identifica ao outro, ela desconhece o que vem dela e o que vem do outro. Ela desconhece radicalmente a sua participa\u00e7\u00e3o naquilo de que se queixa. \u00c9 o que leva Lacan a introduzir o termo \u201cconhecimento paranoico\u201d (LACAN, 1946\/1998, p.181; 1948\/1998, p.114; 1949\/1998, p.99), para designar essa forma de desconhecimento que est\u00e1 no fundamento da estrutura do eu.<\/p>\n<p>Para Lacan, o eu tem uma estrutura paranoica. O est\u00e1dio do espelho de Lacan \u00e9 a \u201cparanoia original do homem\u201d, assinala J.-A.Miller (1991, p.13). \u00c9 para ilustrar essa \u201cparanoia original\u201d ligada \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o mesma do eu que, nesse mesmo texto, Lacan (1946\/1998) vai buscar, em seguida, um exemplo, o de Alceste, no Misantropo, de Moli\u00e8re. \u00c9 impressionante ver a esse respeito como Lacan coloca em s\u00e9rie as rea\u00e7\u00f5es transitivistas da crian\u00e7a pequena com Alceste, que ilustra, para ele, a figura do paranoico. Diz Lacan: \u201cAlceste \u00e9 louco [\u2026] justamente pelo fato de que, em sua bela alma, ele n\u00e3o reconhece que ele mesmo concorre para a desordem contra a qual se insurge\u201d (LACAN, 1946\/1998, p.174). Ele \u201cn\u00e3o reconhece nessa desordem do mundo a pr\u00f3pria manifesta\u00e7\u00e3o de seu ser atual\u201d (LACAN, 1946\/1998, p.172). Em outros termos, ele atribui ao outro uma desordem interior que \u00e9 a sua, diz Lacan, e a \u00fanica maneira para sair disso ser\u00e1 desferir seu golpe contra o que lhe aparece como a desordem. Mas, ao faz\u00ea-lo, \u00e9 a si mesmo que ele atinge. Lacan o formula:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>Assim, seu ser est\u00e1 encerrado num c\u00edrculo, a menos que ele o rompa por alguma viol\u00eancia, na qual, desferindo seu golpe contra o que lhe parece ser a desordem, atinge a si mesmo atrav\u00e9s do contragolpe social.Tal \u00e9 a forma geral da loucura\u2026 (LACAN, 1946\/1998, p.173).<\/em><\/p>\n<p>Alceste somente encontra, com efeito, sua sa\u00edda em um verdadeiro suic\u00eddio social: verdadeira \u201cagress\u00e3o suicida do narcisismo\u201d, diz Lacan (1946\/1998, p.176), para sublinhar isto: que, ao tentar atingir o outro, \u00e9 finalmente a si mesmo que ele atinge\/bate.<\/p>\n<p>Quanto a esta f\u00f3rmula: ao atingir o outro, \u201c\u00e9 a ti mesmo que atinges\u201d (LACAN, 1950\/1998, p.149), que resume o conceito de \u201cagress\u00e3o suicida do narcisismo\u201d,[10] que Lacan introduz a prop\u00f3sito do Misantropo, se pode dizer \u2014 como sublinha S. Cottet (2009, p.9) \u2014 que domina todos os primeiros escritos de Lacan sobre o imagin\u00e1rio e a criminalidade.<\/p>\n<p>Vamos encontr\u00e1-la novamente na observa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica que ele d\u00e1 em seguida. Trata-se de um estudo publicado por Guiraud (1928), em um volume intitulado Os assassinatos imotivados. Guiraud descreve as etapas que precederam a sobrevinda da passagem ao ato homicida de um paciente. Depois de todo um per\u00edodo caracterizado por um \u201csentimento penoso de estranheza interior\u201d, nota Guiraud, o paciente, desgostoso da vida e dos homens, se volta para Deus, depois para o comunismo, projetando sobre a sociedade seu pessimismo interior, at\u00e9 que, em uma passagem ao ato violenta, ele tenta, matando o tirano, matar a doen\u00e7a que o invadia.[11] Assim, sublinha Lacan, seguindo Guiraud, \u201cn\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o o kakon [o mal] de seu pr\u00f3prio ser que o alienado procura atingir no objeto que ele fere\u201d (LACAN, 1946\/1998, p.176).<\/p>\n<p><strong>c)<\/strong>\u00a0A \u201clibido negativa\u201d e a puls\u00e3o de morte<\/p>\n<p>O que demonstra o conceito de agress\u00e3o suicida do narcisismo, atrav\u00e9s dos exemplos que Lacan d\u00e1, \u00e9 o la\u00e7o estreito que ele estabelece entre a agressividade e a puls\u00e3o de morte. Pode-se mesmo dizer que, nessa \u00e9poca de seu ensino, a puls\u00e3o de morte se encontra reduzida \u00e0 agressividade. E se Lacan pode reduzir uma \u00e0 outra \u00e9 porque ele considera, sublinha J.-A. Miller (2004), que elas prov\u00eam de uma mesma libido narc\u00edsica que inclui, ao mesmo tempo, os valores de vida e de morte. Por que atribuir \u00e0 libido narc\u00edsica esse duplo valor de vida e morte? Isso se deve \u00e0 origem mesma dessa libido. Para Lacan, o que est\u00e1 na origem \u00e9 o fato de que o pequeno homem, no seu nascimento, em raz\u00e3o de sua prematuridade, est\u00e1 confrontado a uma insufici\u00eancia vital. Essa insufici\u00eancia nativa constitui o motor da libido narc\u00edsica (LACAN, 1948\/1998). Ela \u00e9 a fonte de energia do eu.<\/p>\n<p>\u00c9 ent\u00e3o porque existe esse dilaceramento original, essa \u201cdeisc\u00eancia vital\u201d, que a crian\u00e7a \u00e9 levada a se identificar \u00e0 imagem no espelho, para tentar mascarar, recobrir, essa hi\u00e2ncia original. Essa hi\u00e2ncia \u00e9 ent\u00e3o o que a conduz a buscar em torno de si, de in\u00edcio, uma imagem, em um parceiro que vai complet\u00e1-la. Nisso, essa deisc\u00eancia vital \u00e9 \u201cconstitutiva do homem\u201d (LACAN, 1948\/1998, p.118). A libido narc\u00edsica, que tem sua fonte numa falta, traz em si sua marca, ela \u00e9 positiva, uma vez que ela lan\u00e7a o desenvolvimento para frente. Lacan v\u00ea nela uma libido situada do lado da vida, uma libido vital. Mas, ao mesmo tempo, ela \u00e9 negativa, porque a agressividade que a acompanha encontra sua fonte na \u201cafli\u00e7\u00e3o org\u00e2nica original\u201d da qual ela prov\u00e9m. Lacan introduz essa curiosa express\u00e3o \u201clibido negativa\u201d, para designar essa outra face da libido (LACAN, 1948\/1998, p.118). A\u00ed, \u00e9 uma libido que est\u00e1 do lado da morte. Ela opera na agress\u00e3o suicida do narcisismo. Ela \u00e9 a express\u00e3o do que ele chamar\u00e1 mais tarde de a \u201cl\u00e2mina mortal\u201d do narcisismo (LACAN, 1958\/1998, p.577).<\/p>\n<p>Assinalemos aqui, como sublinha J.-A. Miller (2004), que essa teoriza\u00e7\u00e3o de Lacan torna finalmente caduca a oposi\u00e7\u00e3o freudiana entre puls\u00e3o de vida e puls\u00e3o de morte. Assiste-se \u00e0 sua reunifica\u00e7\u00e3o a partir do narcisismo, ao qual ele atribui agora os valores de vida e de morte.<\/p>\n<p><strong>O Significante E A Morte<\/strong><\/p>\n<p>Em 1953, em seu \u201cDiscurso de Roma\u201d, \u201cFun\u00e7\u00e3o e campo da palavra e da linguagem\u201d, Lacan opera um profundo remanejamento de sua concep\u00e7\u00e3o. Apoiando-se sobre o estruturalismo, que deve a L\u00e9vi-Strauss, ele \u00e9 levado a fazer do significante e da categoria do simb\u00f3lico a nova polaridade de seu ensino. Uma das primeiras incid\u00eancias dessa contribui\u00e7\u00e3o vai consistir em desfazer a jun\u00e7\u00e3o que ele havia feito antes entre agressividade e puls\u00e3o de morte, para ligar a puls\u00e3o de morte ao simb\u00f3lico (MILLER, 2004) \u2014 a agressividade ficando intimamente ligada ao registro imagin\u00e1rio da rela\u00e7\u00e3o narc\u00edsica.<\/p>\n<p>Por que reatar desde ent\u00e3o a dimens\u00e3o da morte ao simb\u00f3lico? \u00c9 que Lacan tomou a medida de que a tend\u00eancia \u00e0 morte n\u00e3o est\u00e1 ligada somente a uma falha vital, ela est\u00e1 tamb\u00e9m ligada \u00e0 l\u00f3gica do significante. \u00c9 porque existe a linguagem que, diferentemente do animal, a dimens\u00e3o da morte est\u00e1 presente em nossa vida. \u00c9 pela opera\u00e7\u00e3o do significante que a morte entra na vida.[12] Certamente, a morte n\u00e3o \u00e9 represent\u00e1vel, mas como sublinha Freud (1915b\/1974, p.332), n\u00f3s podemos antecip\u00e1-la. E \u00e9 mesmo essa possibilidade que n\u00f3s temos de antecip\u00e1-la, que levou \u00e0 concep\u00e7\u00e3o da divis\u00e3o do corpo e da alma (MILLER, 2004).<\/p>\n<p>Qual \u00e9 ent\u00e3o a natureza do la\u00e7o que existe entre a morte e o significante? Lacan exp\u00f5e suas raz\u00f5es em 1953, em seu \u201cDiscurso de Roma\u201d. A primeira consiste em dizer que o que caracteriza \u201co s\u00edmbolo [\u00e9 que ele] se manifesta inicialmente como assassinato da coisa\u201d (LACAN, 1953\/1998, p.320). O significante, o s\u00edmbolo, anula a coisa. Ele est\u00e1 no lugar da coisa. No memento mesmo em que a designa, ele a apaga naquilo que faria sua autenticidade. A segunda raz\u00e3o, invocada por Lacan para dar conta do la\u00e7o com a morte, consiste em dizer que o significante nos localiza al\u00e9m da morte. O significante assegura uma sobrevida al\u00e9m da vida biol\u00f3gica. Se o homem aspira a se destruir, \u00e9 porque, na morte, ele consegue se eternizar (LACAN, 1953\/1998). \u00c9 a partir do momento em que o sujeito est\u00e1 morto, que ele se torna um signo eterno para os outros (LACAN, 1957-1958\/1999). A esse respeito, o que caracteriza o humano \u00e9 o direito \u00e0 sepultura. \u00c9 a possibilidade de persistir como significante al\u00e9m da morte biol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Enfim, a terceira raz\u00e3o \u00e9 que a morte est\u00e1 no fundamento da constitui\u00e7\u00e3o da subjetividade. \u201cA intermedia\u00e7\u00e3o da morte se reconhece em qualquer rela\u00e7\u00e3o em que o homem entra na vida de sua hist\u00f3ria\u201d (LACAN, 1953\/1998, p.320). \u00c9 porque se sabe destinado \u00e0 morte, que o sujeito humano se distingue do animal e que sua exist\u00eancia pode tomar sentido (FREUD, 1915b\/1974, p.339). Isso \u00e9 testemunhado pelo horror no qual se pode mergulhar o sujeito quando preso \u00e0 certeza delirante de que \u00e9 imortal.<\/p>\n<p>Essa nova perspectiva desenvolvida por Lacan, salientando a dimens\u00e3o significante da morte e fazendo dela uma caracter\u00edstica do simb\u00f3lico, apresenta, no entanto, uma contrapartida. Ele n\u00e3o leva em conta a dimens\u00e3o de \u201csatisfa\u00e7\u00e3o paradoxal\u201d, al\u00e9m do princ\u00edpio de prazer, que est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o de morte freudiana. O que est\u00e1 exclu\u00eddo nessa concep\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o de morte pelo simb\u00f3lico \u00e9 o gozo, sublinha J.-A. Miller (2004). Desde ent\u00e3o, onde Lacan ir\u00e1 situar essa satisfa\u00e7\u00e3o paradoxal?<\/p>\n<p><strong>O Gozo: Um Dos Nomes Da Puls\u00e3o De Morte Freudiana<\/strong><\/p>\n<p><strong>a)<\/strong>\u00a0\u201cA puls\u00e3o, a puls\u00e3o parcial, \u00e9, por natureza, puls\u00e3o de morte\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 em 1964, no Semin\u00e1rio \u201cOs quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise\u201d e no escrito \u201cPosi\u00e7\u00e3o do inconsciente\u201d, que Lacan dar\u00e1 uma resposta a essa quest\u00e3o. Nos dois textos, ele introduz uma tese que, transformando radicalmente a teoria freudiana das puls\u00f5es, vai permitir-lhe levar em conta a dimens\u00e3o real da puls\u00e3o de morte freudiana.<\/p>\n<p>At\u00e9 ent\u00e3o, sublinha J.-A. Miller (2005), Lacan tinha tentado pensar a quest\u00e3o da libido freudiana a partir do imagin\u00e1rio, mas era ao pre\u00e7o de fazer da puls\u00e3o de morte um fen\u00f4meno imagin\u00e1rio assim como a agressividade. Em seguida, quando tinha recorrido ao registro do simb\u00f3lico, \u00e9 a dimens\u00e3o significante da puls\u00e3o de morte que tinha sido real\u00e7ada. Agora, como o Semin\u00e1rio 11, ele opera um novo giro. Recorrendo ao registro do real para dar conta da libido freudiana, \u00e9 a dimens\u00e3o de gozo que comporta a puls\u00e3o de morte freudiana \u2014 a que Freud se refere como uma \u201csatisfa\u00e7\u00e3o paradoxal\u201d \u2014 que vai ser enfatizada.<\/p>\n<p>Em que essa nova perspectiva transforma radicalmente a teoria freudiana das puls\u00f5es? \u00c9 que ela torna caduca (mais uma vez[13]) a oposi\u00e7\u00e3o freudiana entre puls\u00e3o de vida e puls\u00e3o de morte. Desde ent\u00e3o, como sublinha J.-A. Miller (2004), as puls\u00f5es de vida e as puls\u00f5es de morte aparecem como dois aspectos de uma s\u00f3 e mesma puls\u00e3o.<\/p>\n<p>Lacan o formula explicitamente: \u201cExplico assim a afinidade essencial de toda puls\u00e3o com a zona da morte, e concilio as duas faces da puls\u00e3o \u2014 que, ao mesmo tempo, presentifica a sexualidade no inconsciente e representa, em sua ess\u00eancia, a morte\u201d (LACAN, 1946\/1998, p.188). E acrescenta: \u201ca puls\u00e3o, a puls\u00e3o parcial, \u00e9 fundamentalmente puls\u00e3o de morte e representa em si mesma a parte da morte no vivo sexuado\u201d (LACAN, 1946\/1998, p.195).[14] A puls\u00e3o sexual que era situada, at\u00e9 ent\u00e3o, do lado da vida, inclui tamb\u00e9m a dimens\u00e3o da morte.<\/p>\n<p>Como dar conta do fato de que a morte est\u00e1 tamb\u00e9m presente nas puls\u00f5es sexuais? Lacan faz valer o conceito de repeti\u00e7\u00e3o e o de puls\u00e3o tal como os reformula no Semin\u00e1rio 11. A repeti\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 somente no cora\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o de morte, ela est\u00e1 tamb\u00e9m no cora\u00e7\u00e3o de todo funcionamento pulsional. No princ\u00edpio da puls\u00e3o, existe, com efeito, uma tentativa repetida para reencontrar o objeto que deu satisfa\u00e7\u00e3o uma primeira vez. Mas esse objeto, que Lacan chama de objeto a, permanece inating\u00edvel (LACAN, 1946\/1998, p.169). A puls\u00e3o o contorna sem jamais atingi-lo, da\u00ed a repeti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tomemos o exemplo[15] da puls\u00e3o oral. Aqui, o objeto a na puls\u00e3o oral \u00e9 o que resta da demanda uma vez que se demandou tudo. Existem os alimentos que se podem obter e, uma vez que tenham sido experimentados, fica um resto que n\u00e3o se satisfaz jamais. Da\u00ed o fato de que isso n\u00e3o se aquiete nunca, isso impulsiona, insiste, se repete. O mesmo acontece com a analidade, d\u00e1-se de in\u00edcio tudo o que se tem e depois se continua, e resta sempre uma presen\u00e7a dessa exig\u00eancia de dar, mesmo quando n\u00e3o se tem mais nada para dar. O resto \u00e9 o objeto a.<\/p>\n<p>E, no fundo, essa exig\u00eancia repetitiva de satisfa\u00e7\u00e3o que est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o do funcionamento pulsional testemunha, segundo Freud e Lacan, uma ultrapassagem do princ\u00edpio de prazer. Essa repeti\u00e7\u00e3o \u2014 da qual vemos que n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno vital articulado ao biol\u00f3gico, mas antes um fen\u00f4meno linguageiro articulado ao inconsciente \u2014 longe de visar \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o de uma necessidade como outras, \u201caparece ao contr\u00e1rio como uma exig\u00eancia desarm\u00f4nica\u201d (MILLER, 2004, p.21),[16] inadaptada em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s exig\u00eancias da vida, em rela\u00e7\u00e3o ao bem-estar do corpo. Ela \u00e9 \u201cum fator de desadapta\u00e7\u00e3o\u201d; ela \u00e9 contr\u00e1ria \u00e0 vida. E \u00e9 ent\u00e3o nesse sentido que Lacan pode dizer que \u201ca puls\u00e3o, a puls\u00e3o parcial, \u00e9, por natureza, puls\u00e3o de morte.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 o que Freud demonstra, assinala J.-A. Miller (2004), quando sublinha como um \u00f3rg\u00e3o pode deixar de obedecer ao saber do corpo. Por exemplo? \u201cO olho pode e deveria servir ao corpo para se orientar no mundo, para ver\u201d, mas eis que ele se coloca \u201ca servir ao que Freud chama a Schaulust, o prazer de ver\u201d. V\u00ea-se como se introduz aqui \u201cum prazer que ultrapassa a finalidade vital e mesmo que conduz a anul\u00e1-la\u201d. O olho que deveria estar a servi\u00e7o da vida individual, torna-se o suporte de um \u201cgozar\u201d, que pode se impor como uma exig\u00eancia repetitiva, inadaptada \u00e0s necessidades da vida (MILLER, 2004, p.46). Em suma, essa repeti\u00e7\u00e3o a que Freud se referiu como sendo a marca da puls\u00e3o de morte. Ela concerne a todas as puls\u00f5es. Ela n\u00e3o \u00e9 o apan\u00e1gio de uma puls\u00e3o espec\u00edfica que seria a puls\u00e3o de morte. Ela concerne a todas as puls\u00f5es parciais. Toda puls\u00e3o \u00e9 uma ultrapassagem repetitiva do princ\u00edpio do prazer para tentar atingir \u2014 em v\u00e3o \u2014 um gozo perdido para sempre, ao pre\u00e7o, por vezes, de deixar sua vida, como se manifesta, por exemplo, na toxicomania.<\/p>\n<p>Desse ponto de vista, pode-se dizer que o abandono, por Lacan, da dicotomia freudiana entre puls\u00e3o de vida e puls\u00e3o de morte em proveito do conceito de \u201cgozo\u201d, nome lacaniano da puls\u00e3o de morte freudiana, \u00e9 o que lhe permitiu conceber a parte m\u00f3rbida de toda puls\u00e3o.<\/p>\n<p>V\u00ea-se, por a\u00ed, igualmente, que Lacan n\u00e3o abandonou nunca a puls\u00e3o de morte freudiana. Ao contr\u00e1rio, fez dela a pedra de sustenta\u00e7\u00e3o do circuito pulsional. E quando fez do gozo o problema maior com o qual cada um, seja neur\u00f3tico ou psic\u00f3tico, tem que se confrontar, pode-se dizer que inscreve a quest\u00e3o da puls\u00e3o de morte no cora\u00e7\u00e3o mesmo de sua teoria e de sua concep\u00e7\u00e3o do tratamento. Porque, a partir de ent\u00e3o, a puls\u00e3o de morte dever\u00e1 ser tomada na rela\u00e7\u00e3o particular, sempre singular, que o sujeito mant\u00e9m com o gozo, com o objeto a que causa seu desejo.<\/p>\n<p><strong>b)<\/strong>\u00a0Da imagem i(a) ao objeto a: os crimes de gozo<\/p>\n<p>Dizer que toda \u201cpuls\u00e3o parcial \u00e9 por natureza puls\u00e3o de morte\u201d n\u00e3o quer dizer, certamente, que toda puls\u00e3o vai at\u00e9 a morte. Lacan o precisa bem em \u201cPosi\u00e7\u00e3o do inconsciente\u201d. \u201cToda puls\u00e3o \u00e9 virtualmente puls\u00e3o de morte\u201d (LACAN, 1964\/1998, p.863), dito de outro modo, em toda puls\u00e3o existe essa possibilidade de uma transforma\u00e7\u00e3o do prazer em gozo, a partir do que Lacan chama uma ultrapassagem do princ\u00edpio do prazer.<\/p>\n<p>Prazer \u2014\u2014\u2014-&gt; Gozo\/Objeto a<\/p>\n<p>O que caracteriza o prazer \u00e9 seu car\u00e1ter razo\u00e1vel, apaziguador, sem tens\u00e3o. O que faz com que ele possa encontrar seus pr\u00f3prios limites e parar diante da barreira do mal, da dor, do feio. O princ\u00edpio do prazer \u00e9 \u201cum princ\u00edpio de sobreviv\u00eancia\u201d, assinala J.-A. Miller (2005).<\/p>\n<p>O gozo, ao contr\u00e1rio, se op\u00f5e ao princ\u00edpio do prazer. Ele det\u00e9m uma pot\u00eancia em si que atravessa essa barreira, ele se apresenta como \u201cuma exig\u00eancia absoluta\u201d que a torna irresist\u00edvel. Ele vai no sentido da morte, da destrui\u00e7\u00e3o. Ele implica em si mesmo \u201ca aceita\u00e7\u00e3o da morte\u201d, diz Lacan (1959-1960\/1991, p.231).<\/p>\n<p>Habitualmente, o sujeito para antes que a puls\u00e3o chegue at\u00e9 a morte. Ele recua, horrorizado, quando o objeto real da puls\u00e3o \u2014 objeto de gozo, come\u00e7a a aparecer-lhe em sua crueza. Habitualmente, n\u00f3s n\u00e3o temos nunca, com efeito, acesso ao objeto real da puls\u00e3o. Esse objeto \u2014 o objeto a \u2014 \u00e9 inating\u00edvel. A puls\u00e3o o contorna sem atingi-lo jamais. Esse objeto permanece mascarado, recoberto pelo brilho f\u00e1lico que lhe d\u00e3o a fantasia e o desejo.xvii<\/p>\n<p>Um poema de Baudelaire, que J.-C. Maleval (2008, p.150) cita, nos permite apreender o que pode ser esse objeto real da puls\u00e3o, quando n\u00e3o \u00e9 mais recoberto pela imagem aureolada por seu brilho f\u00e1lico, por i(a).<\/p>\n<p><em>Quando ela me sorveu dos ossos a medula,E t\u00e3o languidamente a buscou minha gula,Viu o beijo de amor que nela final pus,Flanco viscoso de odre a transbordar de pus!(BAUDELAIRE, 2001, p.138).[18]<\/em><\/p>\n<p>Aqui, o objeto real da puls\u00e3o se desvela como uma coisa imunda. Bruscamente, a fantasia, que aureolava o objeto amado, falta. Em um outro poema de Flores do mal, intitulado \u201cUma carni\u00e7a\u201d, Baudelaire (2001, p.41) nos d\u00e1 uma descri\u00e7\u00e3o compar\u00e1vel desse momento de b\u00e1scula.<\/p>\n<p>Barreira, Interdito, Castra\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d<\/p>\n<p>Prazer \u2014\u2014\u2014&gt; \/ \/ \u2014\u2013&gt; Gozo<\/p>\n<p>Sujeito dividido \u2014\u2013&gt; \/ \/ \u2014\u2013&gt; Objeto a (objeto real da puls\u00e3o)<\/p>\n<p>Inacess\u00edvel<\/p>\n<p>Imagem falicizada i(a)<\/p>\n<p>Fantasia \u2013 Desejo<\/p>\n<p>Na neurose, normalmente, a barreira da fantasia e do desejo funciona para manter o sujeito \u00e0 dist\u00e2ncia do objeto real da puls\u00e3o. E quando acontece a falha da fantasia \u2014 quando uma \u201cdesfaliciza\u00e7\u00e3o\u201d do objeto se produz \u2014 o sujeito se desvia do objeto. O nojo se instala. Mesmo na pervers\u00e3o, a barreira da fantasia, em sua articula\u00e7\u00e3o com a castra\u00e7\u00e3o, funciona.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o ao objeto real da puls\u00e3o \u2014 a rela\u00e7\u00e3o ao gozo \u2014 n\u00e3o inclui a dimens\u00e3o da castra\u00e7\u00e3o. N\u00e3o est\u00e1 coordenado ao falo articulado ao vazio central da castra\u00e7\u00e3o, de modo que nenhuma impot\u00eancia[19] coordena o sujeito ao objeto do qual goza.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, na rela\u00e7\u00e3o do sujeito ao objeto, a dimens\u00e3o do gozo pode se apresentar de maneira a mais crua, em um \u201csem limite\u201d. Pode ent\u00e3o acontecer, como sublinha J.-C. Maleval (2008), que se assista a uma apreens\u00e3o direta do objeto pulsional. O sujeito busca, ent\u00e3o, tirar diretamente os objetos parciais do corpo do parceiro (MALEVAL, 2008).[20] Categoria de crimes que podemos qualificar de \u201ccrimes de gozo\u201d ou de \u201ccrimes puramente pulsionais\u201d, como o formula Lacan (1932\/1987 p.306), nos quais a puls\u00e3o de morte se abre\/desdobra em todo seu horror.<\/p>\n<p>Em suma, ao fim desse percurso, a puls\u00e3o de morte freudiana aparece cindida em duas, entre significante e gozo. Quando Lacan recorre ao simb\u00f3lico, \u00e9 a dimens\u00e3o significante da puls\u00e3o de morte que se adianta, e quando recorre ao registro do real para dar conta da libido freudiana, \u00e9 o gozo que \u00e9 considerado como indo no sentido da morte.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio, a agressividade n\u00e3o aparece mais como um conceito central para dar conta da puls\u00e3o de morte; ela aparece como uma consequ\u00eancia l\u00f3gica da g\u00eanese do eu.<\/p>\n<p>Enfim, a oposi\u00e7\u00e3o freudiana entre puls\u00e3o de vida e puls\u00e3o de morte tende a desaparecer em proveito de uma concep\u00e7\u00e3o monista da puls\u00e3o que permita a Lacan sair das dificuldades ligadas ao dualismo freudiano.<\/p>\n<p><strong>III \u2013 Do Mal-Estar Na Civiliza\u00e7\u00e3o Ao Tratamento Do Gozo<\/strong><\/p>\n<p>Para concluir, evocaremos brevemente a quest\u00e3o do tratamento da agressividade e da puls\u00e3o de morte. \u00c9 um problema que atravessa todo o ensino de Freud e Lacan.<\/p>\n<p>Desde 1950, Lacan tinha sublinhado como a promo\u00e7\u00e3o do eu e o retorno sobre o narcisismo, que se observam no nosso mundo moderno, levavam \u00e0 viol\u00eancia (LACAN, 1950\/1998).[21] \u00c9, com efeito, que o prest\u00edgio dado ao narcisismo, colocando os seres em um isolamento de alma, fecha os sujeitos sempre mais em um modo de liga\u00e7\u00e3o social que passa pela identifica\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria ao semelhante. A consequ\u00eancia desse modo de identifica\u00e7\u00e3o alienante \u00e9 a agressividade.<\/p>\n<p>Observemos que, em 1929, em \u201cMal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o\u201d, Freud j\u00e1 assinalava o perigo que representava o modo de \u201cla\u00e7o social [quando] \u00e9 criado principalmente pela identifica\u00e7\u00e3o de membros de uma sociedade uns aos outros\u201d. Ele via nos Estados Unidos o modelo desse tipo de la\u00e7o social do qual o efeito s\u00f3 poderia ser \u201ca pobreza psicol\u00f3gica dos grupos\u201d (FREUD, [1929]1930\/1974, p.138).<\/p>\n<p>Existe ent\u00e3o uma face contingente na agressividade. A sua express\u00e3o ir\u00e1 variar segundo a maneira pela qual as estruturas simb\u00f3licas do grupo ser\u00e3o capazes de pacific\u00e1-la, integr\u00e1-la, mascar\u00e1-la, recobri-la. Da\u00ed as varia\u00e7\u00f5es que se observam segundo as \u00e9pocas e as culturas.[22]<\/p>\n<p><strong>A Fun\u00e7\u00e3o Pacificadora Do Ideal Do Eu<\/strong><\/p>\n<p>Para Freud, a fun\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9, com efeito, permitir que a dimens\u00e3o do amor domine a do \u00f3dio. Freud desenvolve esse ponto de vista em \u201cMal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o\u201d. Ele se interessa pelas barreiras, pelas interdi\u00e7\u00f5es que a sociedade ergue para lutar contra essa \u201cinclina\u00e7\u00e3o para a agress\u00e3o, que podemos detectar em n\u00f3s mesmos e supor com justi\u00e7a que ela est\u00e1 presente nos outros\u201d (FREUD, [1929]1930\/1974, p.134).<\/p>\n<p>Lacan retoma, por sua vez, essa mesma quest\u00e3o. A tese que ele desenvolve em seu artigo de 1948 consiste em dizer que o que permite ao sujeito transcender \u201ca agressividade constitutiva da primeira individua\u00e7\u00e3o subjetiva\u201d \u00e9 a identifica\u00e7\u00e3o edipiana (LACAN, 1948\/1998, p.117). Ele considera que no \u00c9dipo se realiza uma identifica\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 mais a identifica\u00e7\u00e3o ao semelhante com sua consequ\u00eancia agressiva, mas uma identifica\u00e7\u00e3o ao grande Outro em posi\u00e7\u00e3o de ideal do eu para o sujeito. Lacan reconhece nessa identifica\u00e7\u00e3o dita \u201csimb\u00f3lica\u201d uma fun\u00e7\u00e3o pacificadora e normatizante[23] \u00e0 qual atribui efic\u00e1cia ao pai, cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 unir o desejo \u00e0 lei. Essa identifica\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica ao Outro em posi\u00e7\u00e3o de ideal do eu \u00e9 o que permite estruturar o imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>A Face Mort\u00edfera Da Cultura<\/strong><\/p>\n<p>A fun\u00e7\u00e3o do ideal do eu tem, no entanto, seus limites para tratar o problema da agressividade e da puls\u00e3o de morte. N\u00e3o somente porque existe em nosso mundo contempor\u00e2neo um decl\u00ednio dos ideais e uma fragiliza\u00e7\u00e3o das refer\u00eancias simb\u00f3licas, mas tamb\u00e9m porque a fun\u00e7\u00e3o do ideal tem uma parte ligada com o gozo do supereu.<\/p>\n<p>Existem, com efeito, duas faces na cultura. Uma que tem uma fun\u00e7\u00e3o pacificadora \u2014 aquela que Freud acentuou com o pai do \u00c9dipo que une o desejo \u00e0 lei. A\u00ed, \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o pacificadora do ideal do eu. E outra que \u00e9 aquela da puls\u00e3o de morte, que Freud descobre com o supereu. Um supereu que certamente toma a seu cargo os interditos enunciados pela cultura, mas que, mais secretamente, impulsiona a gozar. O interdito ele mesmo alimenta o gozo. De sorte que o que se chama de cultura pode tamb\u00e9m ter uma face delet\u00e9ria. A cultura da avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 um exemplo disso.<\/p>\n<p>Bem-Dizer Nossa Rela\u00e7\u00e3o Ao Gozo<br \/>\nDesde ent\u00e3o, como tratar o gozo? O que \u00e9 que pode vir a limitar o gozo, se parece, com efeito, que existe uma queda dos ideais e que o ideal, a moral retomada a seu cargo pelo supereu, corre o risco, sempre, de se degradar em gozo.<\/p>\n<p>A resposta de Lacan a uma quest\u00e3o atravessa todo o seu ensino.[24] Isolarei, no entanto, um ponto que me parece crucial, aquele que consiste em dizer que o tratamento da puls\u00e3o de morte, o tratamento do gozo, passa pela \u00e9tica. A \u00e9tica da psican\u00e1lise para Lacan \u00e9 \u201cuma \u00e9tica do bem-dizer\u201d. Ele a formula assim em 1974: \u201cisto \u00e9, do dever de bem-dizer, ou de se referenciar no inconsciente, na estrutura\u201d (LACAN, 1974\/2001, p.524).<\/p>\n<p>\u201cBem-dizer ou se referenciar ao inconsciente\u201d quer dizer \u201caprender a ler nosso inconsciente\u201d, quer dizer aprender a \u201cbem-dizer nossa rela\u00e7\u00e3o ao gozo inconsciente\u201d ou \u00e0 puls\u00e3o de morte. Como? Tentando chegar o mais pr\u00f3ximo de nossa rela\u00e7\u00e3o ao objeto, esse objeto a causa do desejo e que reencontramos no cora\u00e7\u00e3o da fantasia.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 ent\u00e3o um \u201ctratamento de massa\u201d da puls\u00e3o de morte o que a psican\u00e1lise prop\u00f5e, como aquele que prescreve a religi\u00e3o sob a forma do preceito: \u201camar\u00e1s ao pr\u00f3ximo como a ti mesmo\u201d e que Freud ([1929]1930\/1974, p.168) e tamb\u00e9m Lacan (1959-1960\/1991) julgam inoperante e \u201cchocante\u201d.[25] N\u00e3o, o que a psican\u00e1lise prop\u00f5e \u00e9 um tratamento \u201cum-a-um\u201d.<\/p>\n<p>Consiste em levar em conta o fato de que esse gozo mau est\u00e1 em cada um, \u201cele faz parte de seu pr\u00f3prio ser\u201d, diz Freud (1925\/1976, p.165),[26] ou como formula Lacan (1946\/1998, p.195), que \u201ctoda puls\u00e3o \u00e9 virtualmente puls\u00e3o de morte\u201d.<\/p>\n<p>\u201cNosso ser inclui [\u2026] a parte de que somos orgulhosos, [\u2026] que constitui a honra da humanidade\u201d, assinala J.-A. Miller, \u201cmas tamb\u00e9m a parte horr\u00edvel\u201d (MILLER, 2009, p.2-3). Essa parte horr\u00edvel n\u00e3o \u00e9 somente aquela que Freud descreveu quando nos diz que \u201co homem \u00e9 um lobo para o homem\u201d, \u00e9 tamb\u00e9m aquela que se abre no gozo obscuro do sacrif\u00edcio.[27] Importa aproximar-se disso em um tratamento para tentar saber alguma coisa sobre isso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>(1) \u201cDe l\u2019agressivit\u00e9 \u00e0 la pulsion de mort\u201d, publicado em Mental, Paris, n.24, p.143-163, abr. 2010.<\/strong><br \/>\n<strong>(2) Lacan (1948\/1998, p.106,112) introduziu no texto \u201cA agressividade em psican\u00e1lise\u201d essa distin\u00e7\u00e3o entre \u201cinten\u00e7\u00e3o agressiva\u201d e \u201ctend\u00eancia agressiva\u201d.<\/strong><br \/>\n<strong>(3) A obra de Darwin, A origem das esp\u00e9cies, data de 1859, e A filia\u00e7\u00e3o do homem, de 1871.<\/strong><br \/>\n<strong>(4) O prest\u00edgio da ideia da luta pela vida \u00e9 atestado pelo sucesso da teoria darwiniana ou, pelo menos, pelo sucesso das deriva\u00e7\u00f5es que essa teoria conheceu, desde o fim do s\u00e9culo XIX, com o que chamamos o \u201cdarwinismo social\u201d \u2014 termo inventado, em 1880, para designar a doutrina sociol\u00f3gica de Herbert Spencer, segundo a qual a elimina\u00e7\u00e3o dos menos aptos \u00e9 a consequ\u00eancia necess\u00e1ria, nas comunidades humanas, da grande lei da sele\u00e7\u00e3o natural. Sabe-se que Darwin se op\u00f4s a essas concep\u00e7\u00f5es. Ver sobre esse ponto: TORT, P. \u201cLe darwinisme, entre innovation et d\u00e9rives\u201d, Dossier pour la Science, n.63, p.21, avr.\/juin 2009.<\/strong><br \/>\n<strong>(5) Freud considera que os \u201cverdadeiros prot\u00f3tipos da rela\u00e7\u00e3o de \u00f3dio n\u00e3o prov\u00eam da vida sexual, mas da luta do eu para sua conserva\u00e7\u00e3o e sua afirma\u00e7\u00e3o\u201d (FREUD, 1915a\/1974).<\/strong><br \/>\n<strong>(6) Plaute, Asinaria (La com\u00e9die des \u00e2nes), II, 4, 88.<\/strong><br \/>\n<strong>(7) \u201cA ferocidade do homem em rela\u00e7\u00e3o a seu semelhante ultrapassa tudo o que podem fazer os animais\u201d, sublinha Lacan. \u201cMas essa pr\u00f3pria crueldade implica a humanidade.\u201d Ela \u00e9 espec\u00edfica do homem. \u00c9 porque, mais que nos referir a esse ad\u00e1gio de Plauto, Lacan nos convida a ler a f\u00e1bula forjada por Balthazar Gracian, em seu Criticon. Este \u00faltimo sublinha a que ponto, \u201cante a amea\u00e7a que ela representa para a natureza inteira [a ferocidade do homem], os pr\u00f3prios carniceiros recuam horrorizados\u201d (\u201cLe pr\u00e9cipice de la vie\u201d, Le Criticon, Tomo 1, \u00c9ditions Allia).<\/strong><br \/>\n<strong>(8) \u201cPartindo de especula\u00e7\u00f5es sobre o come\u00e7o da vida e de paralelos biol\u00f3gicos, conclu\u00ed que, ao lado do instinto de preservar a subst\u00e2ncia viva [&#8230;]\u201d (FREUD, 1930\/1974, p.141).<\/strong><br \/>\n<strong>(9) \u00c9 o que traz Miller em Biologia lacaniana, ao falar de \u201cpuls\u00e3o do supereu\u201d. \u201cMesmo se a f\u00f3rmula n\u00e3o aparece assim em Freud, a puls\u00e3o de morte, tal qual emerge de seu texto, \u00e9 a puls\u00e3o do supereu\u201d (MILLER, 2004).<\/strong><br \/>\n<strong>(10) O conceito de \u201cagress\u00e3o suicida do narcisismo\u201d vem substituir a ideia de uma causalidade do crime em termos de autopuni\u00e7\u00e3o que Lacan tenha desenvolvido alguns anos antes no caso Aim\u00e9e. Lacan sublinha, na p.176: \u201cQuanto \u00e0 mola do desfecho, ele \u00e9 dado pelo mecanismo que, bem mais do que \u00e0 autopuni\u00e7\u00e3o, eu referiria \u00e0 agress\u00e3o suicida do narcisismo\u201d (LACAN, 1950\/1998, p.176).<\/strong><br \/>\n<strong>(11) Ver p.88: \u201cCondensou a no\u00e7\u00e3o de sua doen\u00e7a com a do mal social, ou melhor, simbolizou a primeira pela segunda. [&#8230;] Por um ato de viol\u00eancia, Paul tentou suprimir o kakon para usar a express\u00e3o de V. Monakow e de Morgue. Matar o tirano consistia para ele em matar a doen\u00e7a\u201d (GUIRAUD, 1928\/1994, p.88).<\/strong><br \/>\n<strong>(12) \u201cIsso porque o significante como tal, barrando por inten\u00e7\u00e3o primeira o sujeito, nele faz penetrar o sentido da morte. (A letra mata, mas s\u00f3 ficamos sabendo disso pela pr\u00f3pria letra)\u201d (LACAN, 1964\/1998, p.862-863).<\/strong><br \/>\n<strong>(13) Porque \u00e9 j\u00e1 o que Lacan tinha tentado fazer com a libido narc\u00edsica, \u00e0 qual ele atribu\u00eda um duplo valor de vida e morte.<\/strong><br \/>\n<strong>(14) Lacan se refere aqui \u00e0 rela\u00e7\u00e3o essencial que une o sexo \u00e0 morte. Somente essa quest\u00e3o essencial mereceria todo um desenvolvimento. Notemos unicamente que, desde que Lacan acentua a rela\u00e7\u00e3o que une esses dois termos, no Semin\u00e1rio 11 (p.188, 194, 195) e em \u201cPosi\u00e7\u00e3o do inconsciente\u201d (p.861-863), \u00e9 em refer\u00eancia \u00e0 biologia que ele se situa. Para os biologistas, a rela\u00e7\u00e3o entre o sexo e a morte se explica pelo fato de que \u00e9 a partir da reprodu\u00e7\u00e3o sexuada que a morte aparece. Freud (1920\/1976, p.65) retoma por sua conta essa teoria de Weismann em Al\u00e9m do princ\u00edpio de prazer. Lacan tamb\u00e9m se refere a isso e, na sequ\u00eancia do Semin\u00e1rio 11, mostra como essa articula\u00e7\u00e3o do sexo e da morte est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o das opera\u00e7\u00f5es de aliena\u00e7\u00e3o e separa\u00e7\u00e3o que presidem o advento do sujeito.<\/strong><br \/>\n<strong>(15) A formula\u00e7\u00e3o seguinte \u00e9 de \u00c9ric Laurent em seu curso intitulado \u201cA transfer\u00eancia\u201d, Universidade Paris VIII, Departamento de Psican\u00e1lise, Se\u00e7\u00e3o cl\u00ednica, 22\/04\/1992, in\u00e9dito.<\/strong><br \/>\n<strong>(16) Lacan (1969-1970\/1992, p.43) o formula explicitamente. A repeti\u00e7\u00e3o \u201c\u00e9 propriamente aquilo que se dirige contra a vida\u201d. J.-A. Miller (2005, p.172) desenvolve igualmente essa quest\u00e3o: \u201cAssim, a repeti\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 somente falhar o real, como Lacan articulou no Semin\u00e1rio 11, mas tamb\u00e9m \u2018busca de gozo\u2019. A repeti\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a express\u00e3o do princ\u00edpio do prazer, mas, por si mesma, \u2018vai contra a vida\u2019. Esse \u00e9 o deslocamento que, da repeti\u00e7\u00e3o como express\u00e3o do princ\u00edpio do prazer, faz da repeti\u00e7\u00e3o a pr\u00f3pria articula\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o de morte.\u201d<\/strong><br \/>\n<strong>(17) Lacan (1972-1973\/1985) sublinha que, na rela\u00e7\u00e3o sexual, n\u00f3s n\u00e3o temos jamais um acesso direto ao corpo do outro. O sujeito neur\u00f3tico ou perverso somente copula com o falo que lhe barra o gozo do corpo do Outro. N\u00e3o existe rela\u00e7\u00e3o sexual, somente o amor permite nutrir a esperan\u00e7a de reencontrar o Outro.<\/strong><br \/>\n<strong>(18) Esse poema, \u201cAs metamorfoses do vampiro\u201d, faz parte dos \u00c9paves, pe\u00e7as condenadas que foram censuradas durante o processo de As flores do mal, em 1857.<\/strong><br \/>\n<strong>(19) A impot\u00eancia, como sintoma neur\u00f3tico, testemunha, com efeito, a implica\u00e7\u00e3o do complexo de castra\u00e7\u00e3o.<\/strong><br \/>\n<strong>(20) Maleval d\u00e1 o exemplo de um paciente necr\u00f3filo que tinha suscitado numerosos estudos psiqui\u00e1tricos no s\u00e9culo XIX. O sujeito tinha desenterrado os cad\u00e1veres nos cemit\u00e9rios e, presa de uma f\u00faria destrutiva incontrol\u00e1vel, ocupava-se de pic\u00e1-los, cort\u00e1-los em peda\u00e7os. \u201cSeu extremo gozo era obtido, n\u00e3o pelo coito com o cad\u00e1ver, mas pela sua parti\u00e7\u00e3o&#8230;\u201d, em uma tentativa para atingir, mais al\u00e9m da imagem corporal, nas v\u00edsceras da v\u00edtima, o objeto de gozo suposto encontrar-se ali (MALEVAL, 2008, p.159).<\/strong><br \/>\n<strong>(21) \u201c[&#8230;] numa civiliza\u00e7\u00e3o em que o ideal individualista foi al\u00e7ado a um grau de afirma\u00e7\u00e3o at\u00e9 ent\u00e3o desconhecido, os indiv\u00edduos descobrem-se tendendo para um estado em que pensam, sentem, fazem e amam exatamente as mesmas coisas nas mesmas horas, em por\u00e7\u00f5es do espa\u00e7o estritamente equivalentes\u201d (LACAN, 1950\/1998, p.146).<\/strong><br \/>\n<strong>(22) Essa dimens\u00e3o contingente da agressividade j\u00e1 havia sido sublinhada por Lacan, desde 1948, em um texto que levava ainda uma forte marca sociol\u00f3gica. Lacan (1948\/1998, p.122-123) sublinhava a \u201cpreemin\u00eancia da agressividade em nossa civiliza\u00e7\u00e3o\u201d, em que \u00e9 considerada como \u201cde um uso social indispens\u00e1vel\u201d, como um ingrediente necess\u00e1rio a todo esp\u00edrito empreendedor.<\/strong><br \/>\n<strong>(23) \u201cMas o que nos interessa aqui \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o, que chamaremos apaziguadora, do ideal do eu, a conex\u00e3o de sua normatividade libidinal com uma normatividade cultural, ligada desde o alvorecer da hist\u00f3ria \u00e0 imago do pai\u201d (LACAN, 1948\/1998, p.119).<\/strong><br \/>\n<strong>(24) Lacan o aborda notadamente em 1960, em \u201cSubvers\u00e3o do sujeito e dial\u00e9tica do inconsciente\u201d (1960\/1998, p.836).<\/strong><br \/>\n<strong>(25) Ver tamb\u00e9m o coment\u00e1rio de Miller, \u201cL\u2019apologue de Saint Martin et de son manteau\u2019\u201d, Mental, Paris, n.7, p.7.<\/strong><br \/>\n<strong>(26) \u201c[&#8230;] a maioria dos sonhos \u2014 sonhos inocentes, sonhos sem afeto e sonhos de ansiedade \u2014 s\u00e3o revelados, quando as deforma\u00e7\u00f5es da censura foram desfeitas como a satisfa\u00e7\u00e3o de impulsos imorais \u2014 ego\u00edstas, s\u00e1dicos, pervertidos ou perversos\u201d (p.164).<\/strong><br \/>\n<strong>(27) Do qual o ponto extremo nos \u00e9 dado pelos atentados suicidas. Lacan (1959-1960\/1991, p.324) o sublinha: \u201cS\u00f3 os m\u00e1rtires s\u00e3o sem piedade e sem temor. Creiam-me, no dia do triunfo dos m\u00e1rtires, haver\u00e1 o inc\u00eandio universal.\u201d<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: M\u00e1rcia Mez\u00eancio<\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6><strong>BAUDELAIRE, C. As flores do mal. S\u00e3o Paulo: Martin Claret, 2001.<\/strong><\/h6>\n<h6><strong>COTTET, S. \u201cCriminologia lacaniana\u201d, Almanaque on-line, Belo Horizonte n.4, p.1-16, jan.\/jun. 2009. Dispon\u00edvel em: http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/psicanalise\/almanaque\/almanaque4.htm. Acesso em: jul. 2014.<\/strong><\/h6>\n<h6><strong>FREUD, S. (1915a). \u201cOs instintos e suas vicissitudes\u201d. Rio de Janeiro: Imago, 1974, p.137-162. (Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud, v.14).<\/strong><\/h6>\n<h6><strong>FREUD, S. (1915b). \u201cReflex\u00f5es para os tempos de guerra e morte\u201d. Rio de Janeiro: Imago, 1974, p.311-339. (Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud, v.14).<\/strong><\/h6>\n<h6><strong>FREUD, S. (1915c). \u201cCriminosos em consequ\u00eancia de um sentimento de culpa\u201d. Rio de Janeiro: Imago, 1974, p.375-377 (Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud, v.14).<\/strong><\/h6>\n<h6><strong>FREUD, S. (1920). \u201cAl\u00e9m do princ\u00edpio de prazer\u201d. Rio de Janeiro: Imago, 1976, p.17-85. (Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud, v.18).<\/strong><\/h6>\n<h6><strong>FREUD, S. (1925). \u201cAlgumas notas adicionais sobre a interpreta\u00e7\u00e3o de sonhos como um todo\u201d. Rio de Janeiro: Imago, 1976, p.159-173. (Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud, v.19).<\/strong><\/h6>\n<h6><strong>FREUD, S. ([1929]1930). \u201cO mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o\u201d. Rio de Janeiro: Imago, 1974, p.81-171. (Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud, v.21).<\/strong><\/h6>\n<h6><strong>GUIRAUD, P. (1928). \u201cOs assassinatos imotivados\u201d, Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, S\u00e3o Paulo, n.9, p.87-91, jan.\/mar. 1994.<\/strong><\/h6>\n<h6><strong>LACAN, J. (1932). Da psicose paranoica em suas rela\u00e7\u00f5es com a personalidade. Rio de Janeiro: Forense-Universit\u00e1ria, 1987.<\/strong><\/h6>\n<h6><strong>LACAN, J. (1946). \u201cFormula\u00e7\u00f5es sobre a causalidade ps\u00edquica\u201d. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p.152-194.<\/strong><\/h6>\n<h6><strong>LACAN, J. (1948). \u201cA agressividade em psican\u00e1lise\u201d. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p.104-126.<\/strong><\/h6>\n<h6><strong>LACAN, J. (1949). \u201cO est\u00e1dio do espelho como formador da fun\u00e7\u00e3o do eu\u201d. In: Escritos. 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Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p.843-864.<\/strong><\/h6>\n<h6><strong>LACAN, J. \u201cTelevis\u00e3o\u201d. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p.508-543.<\/strong><\/h6>\n<h6><strong>LACAN, J. (1959-1960). O Semin\u00e1rio, livro 7: a \u00e9tica da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Zahar, 1991.<\/strong><\/h6>\n<h6><strong>LACAN, J. (1969-1970). O Semin\u00e1rio, livro 17: o avesso da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.<\/strong><\/h6>\n<h6><strong>LACAN, J. (1972-1973). O Semin\u00e1rio, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.<\/strong><\/h6>\n<h6><strong>MALEVAL, J.-C. \u201cFantasme n\u00e9crophile et structure psychotique\u201d, Mental, Paris, n.21, p.150-164, set.2008.<\/strong><\/h6>\n<h6><strong>MILLER, J.-A. \u201cLa agresividad en psicoan\u00e1lisis\u201d de Jacques Lacan. In: Agresividad y pulsion de muerte. Colombia: Fundacion Freudiana de Medelin, 1991.<\/strong><\/h6>\n<h6><strong>MILLER, J.-A. \u201cBiologia lacaniana e acontecimentos de corpo\u201d, Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, S\u00e3o Paulo, n.41, p.7-67, dez. 2004.<\/strong><\/h6>\n<h6><strong>MILLER, J.-A. SILET, Os paradoxos da puls\u00e3o, de Freud a Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 2005, p.161-172.<\/strong><\/h6>\n<h6><strong>MILLER, J.-A. \u201cNada mais humano que o crime\u201d, Almanaque on-line, Belo Horizonte, n.4, p.1-6, jan.\/jun. 2009. Dispon\u00edvel em: http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/psicanalise\/almanaque\/almanaque4.htm. Acesso em: jul. 2014.<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>\u00c9ric Guillot<\/strong><\/h6>\n<h6><strong>\u00c9ric Guillot &#8211; Psicanalista em Rouen, Fran\u00e7a. E-mail:\u00a0<span id=\"cloakf35fd9320c74aab9a6a40da62ee452fd\"><a href=\"mailto:erguillot@numericable.fr\">erguillot@numericable.fr<\/a><\/span><\/strong><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9RIC GUILLOT Agressividade e puls\u00e3o de morte est\u00e3o no cora\u00e7\u00e3o da cl\u00ednica das passagens ao ato violentas ou assassinas que s\u00e3o frequentes em nossa atualidade. Viol\u00eancia verbal, intimida\u00e7\u00e3o, extors\u00e3o, viola\u00e7\u00e3o, explora\u00e7\u00e3o sexual, assassinatos, atentados suicidas, as manifesta\u00e7\u00f5es agressivas n\u00e3o t\u00eam todas a mesma significa\u00e7\u00e3o. Umas se abrem no registro da \u201cinten\u00e7\u00e3o agressiva\u201d[2] e ficam presas&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-677","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-almanaque-14","category-10","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/677","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=677"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/677\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=677"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=677"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=677"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}