{"id":682,"date":"2014-07-17T06:55:36","date_gmt":"2014-07-17T09:55:36","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=682"},"modified":"2025-12-01T17:07:38","modified_gmt":"2025-12-01T20:07:38","slug":"sobre-alucinacoes-e-falas-impostas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2014\/07\/17\/sobre-alucinacoes-e-falas-impostas\/","title":{"rendered":"Sobre Alucina\u00e7\u00f5es E Falas Impostas"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>VICTOR THIAGO AGUIAR<\/strong><\/h6>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Vitor-T.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"527\" data-large_image_height=\"600\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-683\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Vitor-T.jpg\" alt=\"\" width=\"527\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Vitor-T.jpg 527w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Vitor-T-264x300.jpg 264w\" sizes=\"auto, (max-width: 527px) 100vw, 527px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Historicamente, tanto a psiquiatria quanto a psican\u00e1lise interessaram-se pela psicose. Cada uma dessas disciplinas, a seu modo, sistematizou um conjunto de saberes visando a compreender o fen\u00f4meno da alucina\u00e7\u00e3o. Este trabalho pretende fazer uma breve apresenta\u00e7\u00e3o das principais concep\u00e7\u00f5es acerca desse fen\u00f4meno no intuito de articul\u00e1-lo com a no\u00e7\u00e3o de falas impostas, evocada por Lacan no Semin\u00e1rio, livro XXIII, no contexto de sua investiga\u00e7\u00e3o acerca da obra do escritor irland\u00eas James Joyce.<\/p>\n<p>No campo da psiquiatria, uma das mais c\u00e9lebres defini\u00e7\u00f5es para o conceito de alucina\u00e7\u00e3o indica que se trata de uma percep\u00e7\u00e3o sem objeto. Cunhada pelo psiquiatra Esquirol, disc\u00edpulo de Pinel, essa defini\u00e7\u00e3o aprofundou o campo da cl\u00ednica psiqui\u00e1trica ao fixar um campo sem\u00e2ntico, at\u00e9 ent\u00e3o amplo e difuso. Esquirol afirmou o car\u00e1ter central ou ps\u00edquico desse transtorno, produzindo um corte em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s teorias pr\u00e9vias que associavam os fen\u00f4menos alucinat\u00f3rios a transtornos dos \u00f3rg\u00e3os sensoriais. Para tal, recorreu a exemplos de surdos e cegos que alucinavam. A consequ\u00eancia dessa compreens\u00e3o implicou a necessidade te\u00f3rica de supor uma inst\u00e2ncia capaz de constituir-se como locus do transtorno. Foi assim que surgiu a ideia de um centro integrador das sensa\u00e7\u00f5es, cuja altera\u00e7\u00e3o explicaria a emerg\u00eancia do fen\u00f4meno alucinat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Algum tempo depois, Baillarger, disc\u00edpulo de Esquirol, foi respons\u00e1vel por isolar aquilo que chamou de alucina\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas, ou seja, fen\u00f4menos alucinat\u00f3rios desprovidos de sensibilidade e que, como ele mesmo destacou, \u201cparecem relacionar-se quase exclusivamente com a audi\u00e7\u00e3o\u201d (GOROSTIZA, 1995, p. 128), distinguindo-as das alucina\u00e7\u00f5es psicossensoriais, que indicavam uma domin\u00e2ncia do sensorium visual. Recolheu dos pr\u00f3prios alienados e de testemunhos dos m\u00edsticos algumas descri\u00e7\u00f5es minuciosas, tais como \u201cvozes interiores\u201d, \u201cvozes sem som que conversam de alma a alma por inspira\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cvozes interiores, secretas, que n\u00e3o fazem ru\u00eddo\u201d e \u201cvozes que a carne e o sangue n\u00e3o compreendem\u201d, dentre outras. Percebe-se, assim, uma progressiva inclus\u00e3o da linguagem no campo das alucina\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Jules S\u00e9glas, considerado o cl\u00ednico mais fino que a escola francesa produziu, desenvolveu seus estudos no contexto hist\u00f3rico que ficou conhecido como \u201ca idade de ouro do localizacionismo cerebral\u201d. A chave de compreens\u00e3o das alucina\u00e7\u00f5es aqui podia ser explicada por meio do racioc\u00ednio de que, se uma les\u00e3o em uma regi\u00e3o do c\u00f3rtex produzia um d\u00e9ficit funcional (afasia), ent\u00e3o, uma excita\u00e7\u00e3o patol\u00f3gica e desordenada dos centros sensoriais produziria as alucina\u00e7\u00f5es. As formula\u00e7\u00f5es mais tardias de S\u00e9glas, contudo, representaram um progressivo abandono desse vi\u00e9s localizacionista, com a consequente incorpora\u00e7\u00e3o de hip\u00f3teses psicol\u00f3gicas e o reconhecimento do lugar preponderante em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 linguagem. Ilustra isso o que chamou de alucina\u00e7\u00e3o motriz verbal, definido como um fen\u00f4meno autom\u00e1tico, carente de atributos sensoriais e que n\u00e3o tem outro car\u00e1ter sen\u00e3o o de parecer ao doente como estranho ao eu. Asseverou ainda que o que caracterizaria esses fen\u00f4menos n\u00e3o \u00e9 o fato de manifestar-se como mais ou menos parecidos com uma percep\u00e7\u00e3o exterior, e sim o de constituir-se como fen\u00f4menos de automatismo verbal, como um pensamento verbal separado do eu, um fato de aliena\u00e7\u00e3o de linguagem (GOROSTIZA, 1995, p. 137).<\/p>\n<p>Por sua vez, para Gatian de Cl\u00e9rambault, a alucina\u00e7\u00e3o, em sua forma cl\u00e1ssica de alucina\u00e7\u00e3o verbal, se distinguia radicalmente dos fen\u00f4menos que foram isolados na sua renomada s\u00edndrome de automatismo mental. A essa s\u00edndrome est\u00e3o associadas ocorr\u00eancias tais como antecipa\u00e7\u00e3o de pensamentos, enuncia\u00e7\u00e3o de atos, impuls\u00f5es verbais e tend\u00eancias a fen\u00f4menos psicomotores, ao passo que \u00e0s alucina\u00e7\u00f5es auditivas est\u00e3o associadas vozes objetivadas, individualizadas e tem\u00e1ticas. A despeito da dificuldade de se definir o conceito de automatismo mental, pode-se afirmar que se trata de uma s\u00edndrome cl\u00ednica caracterizada por tr\u00eas tra\u00e7os. O primeiro deles, car\u00e1ter n\u00e3o sensorial, \u00e9 evidenciado pela presen\u00e7a de pensamentos com forma indiferenciada e abstrata, sem forma sensorial definida. O segundo, teor essencialmente neutro, alude ao fato de que n\u00e3o h\u00e1 uma tonalidade afetiva, assim como n\u00e3o h\u00e1 hostilidade. O que se pode perceber, \u00e0s vezes, \u00e9 um estado levemente euf\u00f3rico, sendo esse o \u00fanico estado afetivo congruente com o automatismo mental. E, por fim, o terceiro tra\u00e7o refere-se ao car\u00e1ter atem\u00e1tico ou anideico, isto \u00e9, n\u00e3o conforme a uma sequ\u00eancia de ideias presente, por exemplo, nos jogos sil\u00e1bicos. Esses tr\u00eas tra\u00e7os definem o que se pode considerar a qualidade espec\u00edfica desses fen\u00f4menos: sua origem mec\u00e2nica e sua etiologia org\u00e2nica (GOROSTIZA, 1995, p. 68). Em um determinado momento de suas elabora\u00e7\u00f5es, Cl\u00e9rambault estabeleceu que os fen\u00f4menos de automatismo mental seriam prim\u00e1rios ou iniciais, comparativamente \u00e0s alucina\u00e7\u00f5es objetivadas e verbais e aos del\u00edrios que seriam fen\u00f4menos secund\u00e1rios ou tardios. Os mecanismos mais delicados do intelecto seriam afetados em primeiro lugar e, s\u00f3 depois, isso se daria com as faculdades sensoriais espec\u00edficas. Todavia, \u00e9 importante destacar que as rela\u00e7\u00f5es entre automatismo, alucina\u00e7\u00f5es e del\u00edrios n\u00e3o se modulam da mesma maneira nos diferentes momentos da obra de Cl\u00e9rambault. O pr\u00f3prio psiquiatra admite certa dificuldade para encontrar uma designa\u00e7\u00e3o adequada para a s\u00edndrome. A multiplicidade de nomea\u00e7\u00f5es que foram forjadas ao longo do tempo, tais como pequeno automatismo, s\u00edndrome de passividade, s\u00edndrome de interfer\u00eancia e s\u00edndrome de parasitismo, dentre outros, ilustra esse aspecto.<\/p>\n<p>Em seu texto intitulado \u201cDe uma quest\u00e3o preliminar a todo tratamento poss\u00edvel da psicose\u201d, Lacan questiona todas as posi\u00e7\u00f5es existentes at\u00e9 aquele momento acerca do fen\u00f4meno alucinat\u00f3rio. Considerando-as todas tribut\u00e1rias do sintagma de que se trata de uma percep\u00e7\u00e3o sem objeto, o psicanalista denuncia o ponto crucial de sustenta\u00e7\u00e3o dessas concep\u00e7\u00f5es, a saber, a exist\u00eancia de um sujeito da percep\u00e7\u00e3o primariamente unificante. Nesse sentido, \u00e9 \u00fatil relembrar a defini\u00e7\u00e3o de dois termos de origem latina: percipiens e perceptum. O percipiens refere-se ao sujeito do ato da percep\u00e7\u00e3o, ao passo que o perceptum alude \u00e0 consequ\u00eancia desse ato, isto \u00e9, a uma percep\u00e7\u00e3o plena de realidade. De acordo com a perspectiva psicopatol\u00f3gica cl\u00e1ssica, em uma percep\u00e7\u00e3o normal, um determinado objeto da realidade \u00e9 apresentado aos sentidos, e o sujeito da percep\u00e7\u00e3o \u2013 o percipiens \u2013 d\u00e1 ativamente unidade ao que foi percebido \u2013 o perceptum. O que ocorre em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 percep\u00e7\u00e3o alucinat\u00f3ria \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 objeto na realidade para ser percebido, mas, n\u00e3o obstante, um perceptum \u2013 nesse caso, alucinat\u00f3rio \u2013 \u00e9 produzido. Assim, se o perceptum depende da atividade do percipiens, deve-se pedir raz\u00f5es sobre essa anomalia a esse sujeito da percep\u00e7\u00e3o. Lacan subverte essa concep\u00e7\u00e3o e reconhece uma causalidade no dito perceptum, concebido agora em termos de fato de linguagem. J\u00e1 n\u00e3o se trata de um sujeito ativo da percep\u00e7\u00e3o, mas sim de um sujeito que padece os efeitos de divis\u00e3o do significante e que, mais ainda, \u00e9 um efeito do mesmo. Opera-se a\u00ed uma invers\u00e3o da atividade atribu\u00edda ao percipiens unificante para a passividade de um sujeito que padece os efeitos do significante, o que implica em uma primazia do perceptum alucinat\u00f3rio sobre o sujeito (GOROSTIZA, 1995, p. 121). Lacan argumenta que o sujeito \u00e9 dividido pela alucina\u00e7\u00e3o verbal e que o fen\u00f4meno alucinat\u00f3rio revela a c\u00e9u aberto a estrutura mesma do significante que causa a divis\u00e3o do sujeito (GOROSTIZA, 1995, p. 131).<\/p>\n<p>Em sua tese de doutoramento, Lacan havia declarado o parentesco da interpreta\u00e7\u00e3o com as alucina\u00e7\u00f5es. No Semin\u00e1rio, livro III, atribui o aspecto de significa\u00e7\u00e3o pessoal tanto para as alucina\u00e7\u00f5es quanto para as interpreta\u00e7\u00f5es. Ou seja, tanto em um quanto em outro desses fen\u00f4menos o sujeito tem a certeza de que o que est\u00e1 em jogo ali lhe concerne. Isso constitui o que ele chama de fen\u00f4menos elementares. Retomando o texto \u201cDe uma quest\u00e3o preliminar\u2026\u201d, pode-se dizer que ali a alucina\u00e7\u00e3o verbal constitui o paradigma do sintoma psic\u00f3tico (GOROSTIZA, 1995, p.115). Quando Lacan examina e classifica as diferentes formas das alucina\u00e7\u00f5es verbais relatadas por Schreber, distingue nelas os fen\u00f4menos de c\u00f3digo e os fen\u00f4menos de mensagem, constatando que as diferen\u00e7as em jogo a\u00ed se prendem \u00e0 estrutura da fala (LACAN, 1957-1958, p. 543). Aos fen\u00f4menos de c\u00f3digo pertencem as vozes que se servem da l\u00edngua fundamental do sujeito, que Schreber descreve como \u201cum alem\u00e3o um tanto arcaico, mas ainda rigoroso, que se caracteriza principalmente por uma grande riqueza de eufemismos\u201d (LACAN, 1957-1958, p. 544). Situam-se ali as locu\u00e7\u00f5es neol\u00f3gicas, cria\u00e7\u00f5es que submetem a linguagem a varia\u00e7\u00f5es de formas (novas palavras compostas, mas numa composi\u00e7\u00e3o conforme as regras da l\u00edngua do paciente) e de emprego. As alucina\u00e7\u00f5es instruem o sujeito sobre as formas e empregos que constituem o neoc\u00f3digo. Trata-se de algo bastante pr\u00f3ximo das mensagens que os linguistas chamam de aut\u00f4nimas, na medida em que \u00e9 o pr\u00f3prio significante (e n\u00e3o o que ele significa) o objeto da comunica\u00e7\u00e3o. Lacan declara:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>\u201cestamos na presen\u00e7a desses fen\u00f4menos erroneamente chamados de intuitivos, pelo fato de o efeito de significa\u00e7\u00e3o antecipar-se, neles, ao desenvolvimento desta. Trata-se, na verdade, de um efeito do significante, na medida em que seu grau de certeza (segundo grau: significa\u00e7\u00e3o de significa\u00e7\u00e3o) adquire um peso proporcional ao vazio enigm\u00e1tico que se apresenta inicialmente no lugar da pr\u00f3pria significa\u00e7\u00e3o\u201d (LACAN, 1957-1958, p. 544).<\/em><\/p>\n<p>Por sua vez, os fen\u00f4menos de mensagem referem-se \u00e0s mensagens interrompidas. A voz alucinada limita sua mensagem a um come\u00e7o de frase do tipo \u201cAgora eu vou me\u2026\u201d ou \u201cVoc\u00ea deve de fato\u2026\u201d ao qual o sujeito, nesse caso, Schreber, retruca com o suplemento \u201crender-me ao fato de que sou um idiota\u201d, por exemplo. O complemento de sentido a que Schreber n\u00e3o se furta a produzir d\u00e1 testemunho de sua valentia quando se considera o aspecto ofensivo e provocativo da emiss\u00e3o alucinada. Lacan observa que a frase se interrompe no ponto preciso que indica a posi\u00e7\u00e3o do sujeito a partir da pr\u00f3pria mensagem. Pode-se concluir, ent\u00e3o, que tanto os fen\u00f4menos de c\u00f3digo como os de mensagem impressionam pela predomin\u00e2ncia da fun\u00e7\u00e3o do significante.<\/p>\n<p>Em seu curso Piezas sueltas, Miller nos aponta que Lacan, em uma apresenta\u00e7\u00e3o de pacientes, encontra um sujeito que \u201csofre de falas impostas, de ecos de palavra, esses ecos dos quais Joyce soube fazer uma arte\u201d (MILLER, 2013, p. 74). O sujeito em quest\u00e3o, tratado como G\u00e9rard Primeau, define assim o que ele mesmo chamou de fala imposta:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>\u201cfala imposta \u00e9 uma emerg\u00eancia, que se imp\u00f5e ao meu intelecto e que n\u00e3o tem significado, se considerado o senso comum. S\u00e3o senten\u00e7as que emergem, que n\u00e3o s\u00e3o refletidas, que ainda n\u00e3o foram pensadas, mas s\u00e3o uma emerg\u00eancia, expressando o inconsciente. (\u2026) Emergem como se eu fosse talvez manipulado [\u2026]. Eu n\u00e3o sou manipulado, mas n\u00e3o posso me explicar. Tenho muito problema ao explanar coisas. Tenho problemas para dominar a quest\u00e3o, esta emerg\u00eancia. N\u00e3o sei como surge, como se imp\u00f5e no meu c\u00e9rebro. Tudo surge de uma s\u00f3 vez: \u201cVoc\u00ea matou o passarinho azul\u201d. \u00c9 um sistema an\u00e1rquico. Senten\u00e7as que n\u00e3o tem sentido racional na linguagem comum e que se imp\u00f5em no meu c\u00e9rebro, no meu intelecto. H\u00e1 tamb\u00e9m uma esp\u00e9cie de contrapeso. Com o m\u00e9dico chamado Dr. D., tenho uma senten\u00e7a imposta, que diz: o Dr. D. \u00e9 simp\u00e1tico, e, ent\u00e3o, tenho uma senten\u00e7a que contrabalan\u00e7a, que \u00e9 fruto da minha reflex\u00e3o; h\u00e1 uma disjun\u00e7\u00e3o entre a senten\u00e7a imposta e a minha senten\u00e7a, que \u00e9 um pensamento reflexivo. Eu digo: mas eu sou insano. Digo: o Dr. D. \u00e9 simp\u00e1tico (senten\u00e7a imposta), mas eu sou insano (senten\u00e7a reflexiva)\u201d (LACAN, 2000, p. 5).<\/em><\/p>\n<p>Em outro momento da mesma apresenta\u00e7\u00e3o, o paciente fornece mais um exemplo: \u201c\u2019Eles querem governar meu intelecto\u2019 \u00e9 uma emerg\u00eancia. \u2019Mas a realeza est\u00e1 derrotada\u2019 \u00e9 uma reflex\u00e3o\u2019\u201d (LACAN, 2000, p. 12). Imediatamente depois disso, Lacan lhe pergunta: \u201cO que quer dizer que \u00e9 sua, que voc\u00ea a elaborou?\u201d Ao que Primeau responde: \u201cSim, enquanto a emerg\u00eancia se imp\u00f4s sobre mim. Acontece em mim assim: s\u00e3o como direcionadores intelectuais que v\u00eam a mim, que nascem brutalmente e se imp\u00f5em ao meu intelecto\u201d (LACAN, 2000, p. 12).<\/p>\n<p>Considerando o que foi abordado at\u00e9 este momento, algumas quest\u00f5es j\u00e1 podem ser colocadas, tais como: as falas impostas do mencionado paciente poderiam ser consideradas alucina\u00e7\u00f5es? \u00c9 leg\u00edtimo supor que se trata de vozes? O pr\u00f3prio paciente entrevistado por Lacan afirma que \u201ch\u00e1 muitas esp\u00e9cies de vozes\u201d e acrescenta que as chama de vozes porque as ouve internamente.<\/p>\n<p>Numa primeira abordagem dessa problem\u00e1tica, parece n\u00e3o haver d\u00favida de que tanto alucina\u00e7\u00f5es quanto falas impostas referem-se a fen\u00f4menos de linguagem. Al\u00e9m disso, parece claro que em ambas o sujeito sofre a incid\u00eancia de algo que lhe \u00e9 imposto do exterior, algo do qual ele sabe que participa, embora n\u00e3o possa reconhecer como pr\u00f3pria a sua produ\u00e7\u00e3o. Retomando o caso do paciente mencionado anteriormente, o pr\u00f3prio Lacan, no Semin\u00e1rio XXIII, explicita: \u201c\u00c9 dif\u00edcil n\u00e3o evocar, a prop\u00f3sito do caso de Joyce, meu pr\u00f3prio paciente, considerando como isso tinha come\u00e7ado nele. No que concerne \u00e0 fala, n\u00e3o se pode dizer que alguma coisa n\u00e3o era, para Joyce, imposta\u201d (LACAN, 1975-1976, p. 93).<\/p>\n<p>Sendo assim, \u00e9 na trilha de Joyce que Lacan desenvolve sua investiga\u00e7\u00e3o acerca do fen\u00f4meno das falas impostas. N\u00e3o deixa de ser interessante constatar que nela Lacan n\u00e3o faz uso do termo alucina\u00e7\u00e3o. A despeito disso e admitindo a ideia de que o que est\u00e1 em jogo ali alude \u00e0 rela\u00e7\u00e3o de um sujeito com a linguagem, \u00e9 poss\u00edvel localizarmos alguns pontos de converg\u00eancia entre esses dois fen\u00f4menos. Dentro desse contexto, talvez seja razo\u00e1vel compreender a nomea\u00e7\u00e3o evocada pelo pr\u00f3prio paciente entrevistado por Lacan, a saber, \u201cO G\u00e9rard Primeau \u00e9 o do mundo comumente chamado de real, enquanto que, no mundo imagin\u00e1rio, sou Geai Rare Prime Au\u201d (LACAN, 2000, p. 7), como sugestiva daquelas produ\u00e7\u00f5es encontradas nos fen\u00f4menos de c\u00f3digo mencionados por Lacan. Outros neologismos, tais como \u00e9craset\u00e9, que \u00e9, ao mesmo tempo, \u00e9cras\u00e9 (esmagado) e \u00e9clat\u00e9 (esplendoroso), e choixre, para expressar a no\u00e7\u00e3o de \u201ccair\u201d e de choix (escolha), tamb\u00e9m poderiam estar circunscritos a\u00ed.<\/p>\n<p>O que se pretende articular neste trabalho, a partir de agora, \u00e9 quais seriam os pontos de diverg\u00eancia entre alucina\u00e7\u00f5es e falas impostas. Em sua tese de doutorado intitulada Os escritos fora de si, S\u00e9rgio Laia nos ajuda a identificar algumas especificidades existentes na posi\u00e7\u00e3o do sujeito diante desses dois fen\u00f4menos de linguagem. Cabe fazer a ressalva de que a referida tese estabelece uma compara\u00e7\u00e3o entre a obra de Joyce e as produ\u00e7\u00f5es delirantes dos sujeitos psic\u00f3ticos. Tomarei a liberdade de transpor tamb\u00e9m para as alucina\u00e7\u00f5es nessa investiga\u00e7\u00e3o aquilo que fora articulado como del\u00edrio na citada tese. Nesse sentido, nas alucina\u00e7\u00f5es, o sujeito revela-se numa posi\u00e7\u00e3o de passividade diante da linguagem, vivenciando a incid\u00eancia do gozo sobre o seu pr\u00f3prio ser de uma maneira intrusiva. O inconsciente a c\u00e9u aberto da psicose evidencia que a linguagem joga com o sujeito. Seria ainda mais preciso afirmar que o sujeito \u00e9 quem \u00e9 jogado pela linguagem, isto \u00e9, \u201ctragado pelas pr\u00f3prias palavras, engolido pelo uso por demais restrito\u201d (LAIA, 2000, p. 214) que faz da l\u00edngua. Por outro lado, no tocante \u00e0s falas impostas, o sujeito encontra-se numa posi\u00e7\u00e3o mais ativa diante da linguagem. Vale lembrar que Joyce chega a produzir uma obra a partir da incid\u00eancia do gozo sobre o seu ser. Tamb\u00e9m G\u00e9rard Primeau nos sugere algo dessa ordem quando enuncia frases como \u201cTentei pela a\u00e7\u00e3o po\u00e9tica encontrar um ritmo balanceado, uma m\u00fasica\u201d (LACAN, 2000, p. 9) ou \u201cEstava tamb\u00e9m interessado na contra\u00e7\u00e3o de palavras\u201d (LACAN, 2000, p. 10). O que se tem nesses casos, portanto, n\u00e3o \u00e9 tanto o car\u00e1ter intrusivo da linguagem, mas sim a possibilidade de que o sujeito seja capaz de jogar com ela, de manipul\u00e1-la. \u00c9 a obra de Joyce que joga com as palavras, ou seja, h\u00e1 um uso complexo da l\u00edngua por parte do sujeito (LAIA, 2000, p. 215). Essa complexidade fica evidente quando se considera que Joyce vai fazendo um progressivo uso de lal\u00edngua. Nas palavras de Laia:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>\u201cJoyce encarna, com sua obra, o sintoma desabonado do inconsciente, o sintoma que se apresenta mais na dimens\u00e3o de um gozo inanalis\u00e1vel do que como mensagem a ser decifrada, o sintoma onde um hospedeiro da palavra pode concernir o seu ser para al\u00e9m da falta-a-ser que caracteriza sua posi\u00e7\u00e3o subjetiva\u201d (LAIA, 2000, p. 226).<\/em><\/p>\n<p>Se, na loucura, o psic\u00f3tico tem de se haver com um confronto com o n\u00e3o simboliz\u00e1vel, valendo-se de uma prolifera\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio e de um trabalho delirantemente interpretativo, Joyce, com seu trabalho de escritura, se endere\u00e7a ao ileg\u00edvel, \u00e0quilo que se furta at\u00e9 das interpreta\u00e7\u00f5es delirantes. Ele \u201cse interessa muito mais pelas palavras do que pela narratividade, muito mais pelo ritmo do que pelo sentido, muito mais pela ordena\u00e7\u00e3o das palavras em uma senten\u00e7a do que pela adequa\u00e7\u00e3o gramatical dessa ordena\u00e7\u00e3o\u201d (LAIA, 2000, p. 200). \u00c9 o que Lacan evidencia ao afirmar: Joyce tem uma rela\u00e7\u00e3o com joy, o gozo\u2026 esse gozo \u00e9 a \u00fanica coisa que, de seu texto, n\u00f3s podemos pegar (LAIA, 2000, p. 201).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/h6>\n<h6>GOROSTIZA, L. \u201cSobre la alucinaci\u00f3n\u201d, In: TENDLARZ, S. E. An\u00e1lisis de las alucinaciones. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 1995.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1957-1958) \u201cDe uma quest\u00e3o preliminar a todo tratamento poss\u00edvel da psicose\u201d, In: ______. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.<\/h6>\n<h6>______. \u201cUma psicose lacaniana: entrevista conduzida por Jacques Lacan\u201d, In: Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, S\u00e3o Paulo: E\u00f3lia, n. 26\/27, 2000, p. 5.<\/h6>\n<h6>______. (1955-1956) O Semin\u00e1rio. Livro III : as psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.<\/h6>\n<h6>______. (1975-1976) O Semin\u00e1rio. Livro XXIII: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007.<\/h6>\n<h6>LAIA, S. (2000) Os escritos fora de si: Joyce, Lacan e a loucura. Belo Horizonte: UFMG.<\/h6>\n<h6>MILLER, J. A. (2013) Piezas sueltas. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2013.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Victor Thiago Aguiar<\/strong><\/h6>\n<h6>Graduado em Psicologia pela UFMG. Psic\u00f3logo da Escola Judicial Desembargador Ed\u00e9sio Fernandes do Tribunal de Justi\u00e7a do Estado de Minas Gerais. Concluiu o Curso de Psican\u00e1lise no Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental de Minas Gerais em 2014. E-mail:\u00a0<span id=\"cloak1b54ea1c9a8ca128dd53f490a2df1632\"><a href=\"mailto:victorthiagoaguiar@yahoo.com.br\">victorthiagoaguiar@yahoo.com.br<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VICTOR THIAGO AGUIAR &nbsp; Historicamente, tanto a psiquiatria quanto a psican\u00e1lise interessaram-se pela psicose. Cada uma dessas disciplinas, a seu modo, sistematizou um conjunto de saberes visando a compreender o fen\u00f4meno da alucina\u00e7\u00e3o. Este trabalho pretende fazer uma breve apresenta\u00e7\u00e3o das principais concep\u00e7\u00f5es acerca desse fen\u00f4meno no intuito de articul\u00e1-lo com a no\u00e7\u00e3o de falas&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58179,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[],"class_list":["post-682","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-15","category-11","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/682","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=682"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/682\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58180,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/682\/revisions\/58180"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58179"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=682"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=682"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=682"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}