{"id":696,"date":"2014-07-17T06:55:36","date_gmt":"2014-07-17T09:55:36","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=696"},"modified":"2025-12-01T17:09:11","modified_gmt":"2025-12-01T20:09:11","slug":"a-imagem-e-o-imaginario-quando-o-sujeito-e-excluido-do-imaginario-materno-e-permanece-sem-a-ajuda-de-nenhuma-imagem-estabelecida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2014\/07\/17\/a-imagem-e-o-imaginario-quando-o-sujeito-e-excluido-do-imaginario-materno-e-permanece-sem-a-ajuda-de-nenhuma-imagem-estabelecida\/","title":{"rendered":"A Imagem E O Imagin\u00e1rio: Quando O Sujeito \u00c9 Exclu\u00eddo Do Imagin\u00e1rio Materno E Permanece Sem A Ajuda De Nenhuma Imagem Estabelecida"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>SUZANA FALEIRO BARROSO<\/strong><\/h6>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Bourgeois-imagem-2-1-suzana.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"450\" data-large_image_height=\"582\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-697\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Bourgeois-imagem-2-1-suzana.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"582\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Bourgeois-imagem-2-1-suzana.jpg 450w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Bourgeois-imagem-2-1-suzana-232x300.jpg 232w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Para trabalhar o tema da imagem e do imagin\u00e1rio, escolhi um fragmento cl\u00ednico do caso de Bruno, um menino autista que demonstra n\u00e3o ter podido se servir de nenhuma imagem estabelecida para construir seu corpo, tampouco obter sua inscri\u00e7\u00e3o no desejo do Outro. A constru\u00e7\u00e3o do caso permitiu correlacionar esse problema ao encontro traum\u00e1tico da m\u00e3e com uma imagem do ultrassom do beb\u00ea, que contrariava todas as suas expectativas. A m\u00e3e de Bruno relata dois momentos impactantes nos quais seu filho foi falado e nomeado pelo discurso m\u00e9dico. O primeiro, por ocasi\u00e3o do exame de ultrassom do beb\u00ea, quando o m\u00e9dico lhe disse que era um menino, pois \u201csempre soube que era uma menina\u201d e se preparou para ter uma menina. A imagem do ultrassom n\u00e3o correspondia, definitivamente, \u00e0 imagem tecida pela fantasia materna. O segundo momento impactante foi quando recebeu o diagn\u00f3stico de autismo do filho. \u201cQuando o m\u00e9dico me disse que era s\u00edndrome de Asperger n\u00e3o fiquei t\u00e3o atordoada como quando o m\u00e9dico falou que era menino\u201d.<\/p>\n<p>O que foi para essa m\u00e3e o encontro com a imagem do ultrassom do beb\u00ea? Decepcionada com o exame, ela n\u00e3o aceitou o resultado, demandou novo exame e n\u00e3o queria abrir m\u00e3o de sua inexplic\u00e1vel certeza. Vemos aqui uma discord\u00e2ncia total entre a imagem apresentada \u00e0 m\u00e3e e o seu imagin\u00e1rio, isto \u00e9, sua fantasia sobre o beb\u00ea, precisamente sobre o sexo do beb\u00ea. Segundo o psicanalista Roberto Assis, durante nossa conversa no N\u00facleo de Investiga\u00e7\u00e3o e Pesquisa em Psican\u00e1lise e Medicina, \u00e9 importante pensar o estatuto dessa imagem pelos efeitos que ela produziu junto ao sujeito. Ele nos envia ao texto de Marie-H\u00e9l\u00e8ne Brousse (2014), \u201cCorpos lacanianos: novidades contempor\u00e2neas sobre o Est\u00e1dio do Espelho\u201d, publicado na Op\u00e7\u00e3o lacaniana on-line, o qual discute o \u201cpoder real de uma imagem real\u201d. Apesar de ser apenas uma imagem, ela n\u00e3o deixa de ter consequ\u00eancias reais, como no caso relatado, em que a imagem do ultrassom exerce um poder real traum\u00e1tico sobre a subjetividade materna.<\/p>\n<p><strong>A Crian\u00e7a e o Imagin\u00e1rio Materno<\/strong><\/p>\n<p>No texto de 1914, \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o ao narcisismo\u201d, Freud comentava as rela\u00e7\u00f5es entre pais e filhos, explicando o amor e o investimento libidinal dos pais nas crian\u00e7as, segundo a pol\u00edtica dos ideais, o que se repercute na rela\u00e7\u00e3o do eu com sua imagem. \u201cO amor dos pais, t\u00e3o comovedor e no fundo t\u00e3o infantil, nada mais \u00e9 sen\u00e3o o narcisismo dos pais renascido, o qual, transformado em amor objetal, inequivocamente revela sua natureza anterior\u201d (FREUD, 1014\/1976, p. 108). A transforma\u00e7\u00e3o em jogo do lado dos pais implica a substitui\u00e7\u00e3o de uma satisfa\u00e7\u00e3o autoer\u00f3tica pelos ideais civilizat\u00f3rios, que visa a amalgamar os ideais com as puls\u00f5es. A atitude dos pais afetuosos para com os filhos \u00e9 uma revivesc\u00eancia e reprodu\u00e7\u00e3o de seu pr\u00f3prio narcisismo, que de h\u00e1 muito abandonaram. Assim, eles se acham sob a compuls\u00e3o de atribuir todas as perfei\u00e7\u00f5es ao filho e de ocultar e esquecer todas as defici\u00eancias dele, o que pode explicar a nega\u00e7\u00e3o da sexualidade nas crian\u00e7as. Em nome da crian\u00e7a, os pais renovam as reivindica\u00e7\u00f5es por privil\u00e9gios aos quais foram for\u00e7ados a renunciar.<\/p>\n<p><em>A crian\u00e7a ter\u00e1 mais divertimento que seus pais; ela n\u00e3o ficar\u00e1 sujeita \u00e0s necessidades que eles reconheceram como supremas na vida. A doen\u00e7a, a morte a ren\u00fancia ao prazer, restri\u00e7\u00f5es \u00e0 sua vontade pr\u00f3pria n\u00e3o a atingir\u00e3o; as leis da natureza e da sociedade ser\u00e3o ab-rogadas em seu favor; ela ser\u00e1 mais uma vez realmente o centro e o \u00e2mago da cria\u00e7\u00e3o \u2014 \u2018Sua majestade o beb\u00ea\u2019, como outrora n\u00f3s mesmos nos imagin\u00e1vamos (FREUD, 1914\/1976, p. 108).<\/em><\/p>\n<p>Desse modo, sup\u00f5e-se que a crian\u00e7a concretizar\u00e1 os sonhos dourados aos quais os pais jamais tiveram acesso. Ao menino caber\u00e1 o destino de her\u00f3i, e \u00e0 menina, o de princesa. Podemos perguntar: qual a l\u00f3gica dessa situa\u00e7\u00e3o na qual a crian\u00e7a reinaria como ideal do eu do casal parental? Trata-se do regime de gozo paterno, segundo o qual \u00e9 a pol\u00edtica do ideal do eu que governa os la\u00e7os de fam\u00edlia com base na estrutura edipiana enquanto matriz organizadora do destino das puls\u00f5es tanto para o sujeito masculino quanto para o sujeito feminino.<\/p>\n<p>Para Freud, \u201cal\u00e9m do seu aspecto individual, esse ideal tem seu aspecto social, constitui tamb\u00e9m o ideal comum de uma fam\u00edlia, uma classe ou uma na\u00e7\u00e3o\u201d (FREUD, 1914\/1976, p. 119). Em contraponto com a formula\u00e7\u00e3o freudiana descrita antes, pode-se pensar outra, mais lacaniana, a saber, \u201csua majestade o mais-de-gozar\u201d, isto \u00e9, a crian\u00e7a capturada no gozo pr\u00f3prio e no de seus pais, por\u00e9m como objeto e n\u00e3o como ideal, a exemplo de Bruno.<\/p>\n<p>Com a express\u00e3o \u201csua majestade o beb\u00ea\u201d, Freud (1914) prop\u00f5e uma f\u00f3rmula para situar a crian\u00e7a, seu lugar e seu valor na estrutura familiar quando ela \u00e9 a\u00ed inserida. A imagem da \u201ccrian\u00e7a-majestade\u201d, como toda imagem, mostra e esconde muitas coisas. Como toda imagem, ela tamb\u00e9m presentifica uma perda do ponto de vista do mundo real, pois a imagem jamais traduz completamente o que ela representa. O que escapa \u00e0 captura da imagem \u00e9 o resto que causa sua busca, que constitui seu valor libidinal e seu estatuto de recurso precioso para o sujeito para a constru\u00e7\u00e3o do corpo e do la\u00e7o social.<\/p>\n<p>H\u00e1 duas possibilidades de inscri\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a no desejo materno conforme a particularidade da rela\u00e7\u00e3o da m\u00e3e com uma das imagens estruturantes do campo da fantasia, a saber, a imagem f\u00e1lica. A crian\u00e7a pode ter fun\u00e7\u00e3o de met\u00e1fora do amor da m\u00e3e pelo pai da crian\u00e7a. Enquanto esse objeto metaf\u00f3rico, ela \u00e9 correlacionada ao dom f\u00e1lico prometido pelo pai, sendo, portanto, apreendida na equa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica beb\u00ea = falo. Por outro lado, a crian\u00e7a pode ter a fun\u00e7\u00e3o de meton\u00edmia da demanda de falo que a m\u00e3e n\u00e3o tem e, enquanto objeto meton\u00edmico, ela \u00e9 correlacionada \u00e0s decep\u00e7\u00f5es vividas na rela\u00e7\u00e3o da menina \u00e0 sua pr\u00f3pria m\u00e3e na etapa pr\u00e9-edipiana propriamente dita.<\/p>\n<p>A opera\u00e7\u00e3o de faliciza\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a, isto \u00e9, a conex\u00e3o da crian\u00e7a real ao valor f\u00e1lico que ela pode ter para a m\u00e3e, n\u00e3o \u00e9 completa e deixa sempre um resto. De uma parte, a crian\u00e7a \u00e9 semblant de um ideal e, de outra parte, ela permanece como objeto real. A faliciza\u00e7\u00e3o inscreve a crian\u00e7a num tri\u00e2ngulo imagin\u00e1rio \u2014 m\u00e3e-crian\u00e7a-falo \u2014, cujas rela\u00e7\u00f5es t\u00eam sua coer\u00eancia dada pela amarra\u00e7\u00e3o proveniente do quarto elemento, o pai.<\/p>\n<p>Trata-se de uma rela\u00e7\u00e3o que se organiza em torno de uma falta, a falta f\u00e1lica materna. Na tr\u00edade imagin\u00e1ria m\u00e3e-crian\u00e7a-falo encontramos, no m\u00ednimo, duas quest\u00f5es: a rela\u00e7\u00e3o da m\u00e3e com o falo e a da crian\u00e7a com o falo. A rela\u00e7\u00e3o da mulher com o falo est\u00e1 na base da fun\u00e7\u00e3o da maternidade, isto \u00e9, do Desejo da M\u00e3e, e nos permite compreender as raz\u00f5es que levam uma mulher a acolher uma crian\u00e7a. Para uma mulher, de Freud a Lacan, o desejo de uma crian\u00e7a se apoia na reivindica\u00e7\u00e3o f\u00e1lica feminina. Disso decorre que o ponto de partida da fun\u00e7\u00e3o do falo para o sujeito \u00e9 o Desejo da M\u00e3e. \u00c9 pela via do desejo de falo da m\u00e3e que ela estabelece uma rela\u00e7\u00e3o com a crian\u00e7a, e que esta, por sua vez, \u00e9 confrontada com o significante falo na sua polaridade imagin\u00e1ria e simb\u00f3lica. No in\u00edcio temos a rela\u00e7\u00e3o da tr\u00edade m\u00e3e-crian\u00e7a-falo articulada pelo falo imagin\u00e1rio. A entrada do quarto elemento, o pai, introduz o estatuto simb\u00f3lico do falo, condi\u00e7\u00e3o de possibilidade do acesso do sujeito \u00e0 posi\u00e7\u00e3o sexuada.<\/p>\n<p>Do fato que a m\u00e3e tenha certa rela\u00e7\u00e3o com o falo, decorre que \u00e9 nessa rela\u00e7\u00e3o que a crian\u00e7a tem que se fazer valer. Trata-se ent\u00e3o de como a crian\u00e7a experimenta o falo como o centro do Desejo da M\u00e3e e de como vem a descobrir que o que \u00e9 amado pela m\u00e3e \u00e9 uma imagem f\u00e1lica para al\u00e9m dela, crian\u00e7a. Encontramos aqui uma correla\u00e7\u00e3o entre a crian\u00e7a e o falo, em termos de conjun\u00e7\u00e3o e disjun\u00e7\u00e3o: crian\u00e7a \uffff falo. No caso de Bruno, verificamos um fracasso dessa correla\u00e7\u00e3o, com grande impasse na opera\u00e7\u00e3o de faliciza\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a.<\/p>\n<p>No plano imagin\u00e1rio da dial\u00e9tica f\u00e1lica, as rela\u00e7\u00f5es entre m\u00e3e e crian\u00e7a s\u00e3o marcadas pela sedu\u00e7\u00e3o como tamb\u00e9m pela agressividade, rivalidade e at\u00e9 ang\u00fastia. O falo enquanto imagin\u00e1rio \u00e9 tomado no jogo de presen\u00e7a e aus\u00eancia. \u00c9 um elemento m\u00f3vel que circula entre m\u00e3e e crian\u00e7a, que pode ser tanto o falo da m\u00e3e quanto o da crian\u00e7a. Trata-se do jogo de engano quanto \u00e0 falta do falo na m\u00e3e. H\u00e1, no entanto, uma consequ\u00eancia estruturante dessas rela\u00e7\u00f5es, qual seja, o falo imagin\u00e1rio orienta a identifica\u00e7\u00e3o formadora do eu, aquela que se monta no est\u00e1gio do espelho e que ser\u00e1 abordada a seguir.<\/p>\n<p><strong>A Constitui\u00e7\u00e3o do Corpo no Espelho do Outro<\/strong><\/p>\n<p>O artigo de Freud \u201cSobre o narcisismo: uma introdu\u00e7\u00e3o\u201d (1914\/1976) descreve os fundamentos da subjetividade infantil por meio do acesso a uma identifica\u00e7\u00e3o com uma imagem organizadora do eu e da vida libidinal. Trata-se da imagem do corpo que confere ao eu a sua primeira forma e lhe permite situar-se do ponto de vista da alteridade, distinguindo o que \u00e9 do eu e o que n\u00e3o \u00e9. Essa imagem promove a unifica\u00e7\u00e3o da dispers\u00e3o pulsional do autoerotismo obtida pelo eu, com consequente dom\u00ednio do corpo e do outro, por meio de uma identifica\u00e7\u00e3o estruturante.<\/p>\n<p>A teoria do narcisismo levou Lacan a propor o dispositivo do espelho como operador dessa primeira identifica\u00e7\u00e3o alcan\u00e7ada pelo acesso a uma imagem. O conjunto do dispositivo especular descrito por Lacan cont\u00e9m, primeiramente, o espelho c\u00f4ncavo e, em seguida, o espelho plano, que correspondem respectivamente \u00e0s imagens reais e \u00e0s imagens virtuais e implicam uma topologia da subjetividade designada como topologia de superf\u00edcie. A forma\u00e7\u00e3o da imagem real e da imagem virtual opera, respectivamente, na base da forma\u00e7\u00e3o da imagem do pr\u00f3prio corpo e da imagem do corpo do Outro. A imagem do pr\u00f3prio corpo \u00e9 a imagem especular, a matriz do eu, que implica a ideia de si mesmo como corpo. A imagem do corpo do Outro \u00e9 aquela cuja especificidade \u00e9 apresentar ao sujeito uma falta, a castra\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s do encontro do sujeito com o que n\u00e3o \u00e9 especulariz\u00e1vel, um buraco na imagem; encontro que se refere, essencialmente, \u00e0 diferen\u00e7a de sexos.<\/p>\n<p>De in\u00edcio, Lacan destacou como o recurso \u00e0 imagem se contrap\u00f5e a um fator de ordem biol\u00f3gica, isto \u00e9, a condi\u00e7\u00e3o de prematura\u00e7\u00e3o na qual nasce o ser falante. O funcionamento neurofisiol\u00f3gico ainda n\u00e3o permite ao eu integrar as fun\u00e7\u00f5es motoras, aceder a um dom\u00ednio real do corpo e promover a satisfa\u00e7\u00e3o de suas necessidades no infans. \u00c9 essa prematura\u00e7\u00e3o que explica a prefer\u00eancia pela imagem, uma vez que somente ela, com seus efeitos de ilus\u00e3o, atenua o desamparo primordial do ser falante. Na verdade, a imagem do quadro \u201cSua majestade o beb\u00ea\u201d esconde todo o desamparo infantil decorrente da prematura\u00e7\u00e3o real.<\/p>\n<p>A aliena\u00e7\u00e3o \u00e0 imagem \u00e9 solid\u00e1ria da aliena\u00e7\u00e3o \u00e0 cadeia significante. A imagem da crian\u00e7a \u00e9 assujeitada ao ponto de vista do Outro, o que se encontra representado no esquema \u00f3tico pelo espelho plano. A mensagem do Outro constitui uma esp\u00e9cie de molde da imagem do eu. A crian\u00e7a tenta igualar seu eu a essa imagem para se sentir am\u00e1vel. A crian\u00e7a s\u00f3 se v\u00ea no espelho atrav\u00e9s desse ponto simb\u00f3lico situado fora da imagem, suporte de uma identifica\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica ao ideal do eu. O poder da imagem reside em sua efic\u00e1cia simb\u00f3lica, na rela\u00e7\u00e3o com os significantes que conformam, no corpo, a unidade imagin\u00e1ria que chamamos eu.<\/p>\n<p>A crian\u00e7a se fixa na imagem que ela \u00e9 sob o olhar do Outro, ponto de onde ela pode se ver am\u00e1vel. Isso quer dizer que a imagem do eu ideal somente se legitima e se estabelece mediante o reconhecimento de um terceiro, o Outro, lugar de onde a crian\u00e7a espera que seu ser seja colocado sob uma perspectiva norteadora do ideal do eu. \u00c9 pela interven\u00e7\u00e3o do espelho do Outro, ao n\u00edvel do espelho plano, que a imagem real ganha o estatuto de imagem virtual, i\u2019(a), correspondente ao narcisismo secund\u00e1rio. Um n\u00f3 ent\u00e3o se faz entre o real do corpo do qual o sujeito n\u00e3o pode ter ideia, o imagin\u00e1rio da forma que aparece no espelho e o sentido simb\u00f3lico que o Outro lhe d\u00e1. Ter um corpo sup\u00f5e que esse n\u00f3 se fa\u00e7a (NOMIN\u00c9, 1999).<\/p>\n<p>Do est\u00e1dio do espelho decorre uma no\u00e7\u00e3o de corpo equivalente ao imagin\u00e1rio. A primeira dentre as teses lacanianas sobre o corpo demonstra a solidariedade entre o corpo e o imagin\u00e1rio, a saber, n\u00e3o se tem um corpo sem a imagem do corpo. O acesso \u00e0 imagem na inf\u00e2ncia \u00e9 fundante da forma do corpo, de uma identifica\u00e7\u00e3o, do la\u00e7o ao outro e de um modo de gozo. A imagem \u00e9 um elemento n\u00e3o anat\u00f4mico, n\u00e3o inclu\u00eddo entre os \u00f3rg\u00e3os do corpo, um elemento extracorpo, mas que, no entanto, \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o para a constitui\u00e7\u00e3o desse corpo. O est\u00e1dio do espelho tem um duplo valor, a saber, hist\u00f3rico e libidinal. Do ponto de vista hist\u00f3rico, marca uma virada decisiva no desenvolvimento mental da crian\u00e7a, al\u00e9m de representar uma rela\u00e7\u00e3o libidinal essencial com a imagem do corpo. E \u00e9 por isso que podemos dizer que a imagem do corpo \u00e9 uma das imagens rainhas no tanto que ela viabiliza a localiza\u00e7\u00e3o da libido numa imagem, portanto, fora do corpo real.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o principal que as psicoses, particularmente a esquizofrenia e o autismo, colocam \u00e0 tese do corpo imagin\u00e1rio \u00e9 a de como se ter um corpo sem o recurso do espelho plano do Outro. Sem a imagem, portanto, sem o semblant, o corpo tende \u00e0 dispers\u00e3o caracter\u00edstica do real. O psic\u00f3tico sofre a constante amea\u00e7a de que seu corpo n\u00e3o se mantinha junto enquanto uma unidade. Ele se depara com a imin\u00eancia permanente do corpo restar como pe\u00e7a solta, disjunta do todo. Isso foi descrito por Lacan, na d\u00e9cada de 50, como uma vicissitude particular do est\u00e1dio do espelho e, duas d\u00e9cadas depois, como sendo a pr\u00f3pria desamarra\u00e7\u00e3o borromeana.<\/p>\n<p><strong>O Espelho Real Do Autista E O Regime Do Um Sozinho: O Sujeito Sem O Recurso De Uma Imagem Estabelecida<\/strong><\/p>\n<p>Se a imagem do corpo \u00e9 o que constitui o modelo do mundo para o sujeito, como fica o mundo do autista? Como o sujeito poder\u00e1 se orientar e se deslocar no espa\u00e7o sem a imagem? No autismo, diz \u00c9ric Laurent, o sujeito permanece \u201csem a ajuda de nenhuma imagem estabelecida\u201d (2014, p. 97). A n\u00e3o forma\u00e7\u00e3o dessa imagem, i(a), que implica as fronteiras do corpo, pode ser explicada tamb\u00e9m \u201ccomo um problema de fronteiras: essas crian\u00e7as teriam uma falha no balizamento das fronteiras entre seu corpo e o corpo do Outro\u201d (SOLER, 1999, p. 227). O problema na constitui\u00e7\u00e3o da imagem para o autista \u00e9 que o resto que sobra da tradu\u00e7\u00e3o do corpo em imagem e que d\u00e1 \u00e0 imagem seu valor libidinal n\u00e3o opera no autismo. O n\u00e3o investimento libidinal na imagem causa o desinteresse do sujeito por sua imagem no espelho.<\/p>\n<p>As condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias \u00e0 forma\u00e7\u00e3o da imagem especular implicam uma superf\u00edcie que possa refletir a imagem, ou seja, uma superf\u00edcie que suporte a proje\u00e7\u00e3o e a representa\u00e7\u00e3o. A fun\u00e7\u00e3o do conjunto dos dispositivos do espelho introduz a dimens\u00e3o de um lugar outro, espa\u00e7o virtual em oposi\u00e7\u00e3o ao espa\u00e7o real, espelho plano em oposi\u00e7\u00e3o ao espelho c\u00f4ncavo, ou antinomia entre i(a) e i\u2019(a). A estrutura do espelho requer a duplicidade abolida pelo autista devido a sua submiss\u00e3o ao imp\u00e9rio do Um sozinho, cuja l\u00f3gica \u00e9, portanto, avessa \u00e0 estrutura especular. Uma superf\u00edcie unilateral, sem duplicidade, n\u00e3o se especulariza. A superf\u00edcie de uma s\u00f3 face \u00e9 correlata ao funcionamento do signo fora da l\u00f3gica oposicional do significante, isto \u00e9, apenas enquanto significa\u00e7\u00e3o absoluta, mec\u00e2nica ou imperativa.<\/p>\n<p>Para oferecer \u00e0 crian\u00e7a as condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis \u00e0 duplicidade especular, torna-se preciso constituir uma espacialidade que indique outro lugar, ou seja, alojamento da alteridade. Introduzir a dimens\u00e3o da outra coisa no regime do Um sozinho. A introdu\u00e7\u00e3o da duplicidade leva \u00e0 demarca\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o especular. \u201cNo ser vivente, o enla\u00e7amento do simb\u00f3lico a outro plano, redobramento do espa\u00e7o na imagem \u2014 sob o modo de uma invers\u00e3o \u2014 \u00e9 o que gera o n\u00f3 do especular\u201d (VITA, 2008, p. 24, tradu\u00e7\u00e3o nossa). Esse n\u00f3 n\u00e3o se amarrou no caso do menino Bruno. Por estar tomado no registro do Um sozinho, sem o recurso de uma imagem estabelecida, Bruno vai recorrer \u00e0 tela e ao mundo virtual. Ele demonstra grande interesse pela pesquisa de imagens na internet, fazendo do computador seu objeto aut\u00edstico privilegiado. De modo bastante singular, ele visita repetidas vezes cemit\u00e9rios, cen\u00e1rios de enterro e de nascimento e passa a falar de seus parentes que j\u00e1 morreram, indicando com suas pesquisas sobre os mortos e os vivos numa tentativa de amarrar os elementos dispersos do corpo e conect\u00e1-lo ao campo do Outro.<\/p>\n<p>No decorrer das sess\u00f5es de Bruno, para quem disponibilizamos o computador desde que descobrimos o valor desse objeto para o menino, ele escolhe ser um doubl\u00e9, particularmente das cenas do filme \u201cMeninas super-poderosas\u201d, que passam a funcionar como seu duplo real. O objeto aut\u00edstico, o duplo real e o engajamento da voz como doubl\u00e9 fazem parte da constru\u00e7\u00e3o do corpo para esse autista. Sem um operador simb\u00f3lico da falta capaz de permitir a interroga\u00e7\u00e3o e a significantiza\u00e7\u00e3o do desejo do Outro, sem a marca do tra\u00e7o un\u00e1rio que faz consistir a imagem do corpo, sem um discurso estabelecido, Bruno se faz doubl\u00e9 e rompe seu mutismo, podendo come\u00e7ar a falar de si para o Outro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1914\/1976) \u201cSobre o narcisismo: uma introdu\u00e7\u00e3o\u201d vol. XIV, p. 85-119; In: Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud. 3a ed. Rio de Janeiro, Imago.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1956-57\/1985) O Semin\u00e1rio. Livro IV: a rela\u00e7\u00e3o de objeto (1956-57). Vers\u00e3o Betty Milan. Texto estabelecido por Jacques Alain Miller. Rio de Janeiro, Jorge Zahar.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. A batalha do autismo. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.<\/h6>\n<h6>NOMIN\u00c9, B. (1999) \u201cA quest\u00e3o do sintoma e a problem\u00e1tica do corpo no autismo\u201d In: Autismo e esquizofrenia na cl\u00ednica da esquize, Rio de Janeiro, Rios Ambiciosos, p. 233-243.<\/h6>\n<h6>VITA, D. L. (2008) Interrogar el autismo, hacer espacio del lenguaje. Buenos Aires, Ediciones del Cifrado.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Suzana Faleiro Barroso<\/strong><\/h6>\n<h6>Psic\u00f3loga, psicanalista praticante em Belo Horizonte, membro da EBP (Escola Brasileira de Psican\u00e1lise) e da AMP (Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise. Doutora em Teoria Psicanal\u00edtica (UFRJ). Prof. da Faculdade de Psicologia da PUC-Minas.<\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SUZANA FALEIRO BARROSO Introdu\u00e7\u00e3o Para trabalhar o tema da imagem e do imagin\u00e1rio, escolhi um fragmento cl\u00ednico do caso de Bruno, um menino autista que demonstra n\u00e3o ter podido se servir de nenhuma imagem estabelecida para construir seu corpo, tampouco obter sua inscri\u00e7\u00e3o no desejo do Outro. 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