{"id":699,"date":"2014-07-17T06:55:36","date_gmt":"2014-07-17T09:55:36","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=699"},"modified":"2025-12-01T17:09:37","modified_gmt":"2025-12-01T20:09:37","slug":"imaginario-e-psicose","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2014\/07\/17\/imaginario-e-psicose\/","title":{"rendered":"Imagin\u00e1rio e psicose &#8211; Frederico Feu de Carvalho"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>FREDERICO FEU DE CARVALHO<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/frederico4.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"640\" data-large_image_height=\"428\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-700\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/frederico4.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"428\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/frederico4.jpg 640w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/frederico4-300x201.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p>O programa de trabalho anunciado para o VII Enapoli aponta um redirecionamento da investiga\u00e7\u00e3o no Campo Freudiano, enfocando, desta vez, o registro do imagin\u00e1rio e sua infla\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo XXI. \u00c9 o que podemos depreender das proposi\u00e7\u00f5es que J-A Miller (2014) desenvolveu em sua confer\u00eancia de apresenta\u00e7\u00e3o do tema do X Congresso da AMP, \u201cO inconsciente e o corpo falante\u201d, pronunciada em Paris, em abril de 2014. Al\u00e9m da \u00eanfase dada ao registro do imagin\u00e1rio, esse redirecionamento tamb\u00e9m privilegia o corpo falante (parl\u00eatre), o corpo enquanto goza-de-si, estabelecendo diferen\u00e7as importantes tanto em rela\u00e7\u00e3o ao corpo metaf\u00f3rico da histeria quanto em rela\u00e7\u00e3o ao corpo tomado na vertente especular e narc\u00edsica do gozo da imagem.<\/p>\n<p>Para apresentar a tem\u00e1tica do VII Enapol \u2013 O imp\u00e9rio das imagens, que vai orientar nossa pesquisa no N\u00facleo de Psicose do IPSM-MG este ano, pretendo comentar, de forma abreviada, dois textos de refer\u00eancia: \u201cA imagem rainha\u201d, de J-A. Miller (1997), e \u201cO est\u00e1dio do espelho como formador da fun\u00e7\u00e3o do eu\u201d, de J. Lacan (1949\/1998). Abordar o imagin\u00e1rio no s\u00e9culo XXI pressup\u00f5e fazer o percurso que pode ser sintetizado pela introdu\u00e7\u00e3o feita por Miller em sua confer\u00eancia de 2014:<\/p>\n<p>Freud inventou a psican\u00e1lise, se assim podemos dizer, sob a \u00e9gide da rainha Vit\u00f3ria, paradigma da repress\u00e3o da sexualidade, ao passo que o s\u00e9culo XXI conhece a difus\u00e3o maci\u00e7a do que \u00e9 chamado de porn\u00f4, ou seja, o coito exibido, tornado espet\u00e1culo, show acess\u00edvel a cada um pela internet por meio de um simples clique com o mouse. De Vit\u00f3ria ao porn\u00f4, n\u00e3o apenas passamos da interdi\u00e7\u00e3o \u00e0 permiss\u00e3o, mas \u00e0 incita\u00e7\u00e3o, \u00e0 intrus\u00e3o, \u00e0 provoca\u00e7\u00e3o, ao for\u00e7amento. O que \u00e9 o porn\u00f4 sen\u00e3o uma fantasia filmada com uma variedade pr\u00f3pria para satisfazer os apetites perversos em sua diversidade?<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>(\u2026) A escopia corporal funciona na pornografia como uma provoca\u00e7\u00e3o a um gozo destinado a se fartar sob o modo do mais-gozar, modo transgressivo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 regula\u00e7\u00e3o homeost\u00e1tica e prec\u00e1ria em sua realiza\u00e7\u00e3o silenciosa e solit\u00e1ria. (\u2026) O que diz, o que representa a onipresen\u00e7a do porn\u00f4 no come\u00e7o deste s\u00e9culo? Nada se n\u00e3o: a rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o existe. (MILLER, 2014)<\/em><\/p>\n<p>No curso destes \u00faltimos 20 anos, passamos, portanto, do gozo privativo da fantasia para a ostenta\u00e7\u00e3o e exibi\u00e7\u00e3o de imagens de incita\u00e7\u00e3o do gozo, com repercuss\u00f5es evidentes sobre a sua regula\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, podemos levantar a hip\u00f3tese de que, entre a imagem rainha[2] e o imp\u00e9rio das imagens, passamos de uma serventia das imagens para a economia ps\u00edquica para uma maior servid\u00e3o, caracterizada pela infla\u00e7\u00e3o das imagens porn\u00f4 e por sua intrus\u00e3o, tornando mais dif\u00edcil a regula\u00e7\u00e3o pulsional.<\/p>\n<p><strong>A Imagem Rainha<\/strong><\/p>\n<p>Podemos tomar como ponto de partida para o coment\u00e1rio do texto de Miller a quest\u00e3o por ele proposta: haveria, no registro do imagin\u00e1rio, \u201cimagens rainhas\u201d, algo equivalente aos significantes mestres no registro do simb\u00f3lico?<\/p>\n<p>Na perspectiva freudiana, h\u00e1 um claro privil\u00e9gio do simb\u00f3lico. Na interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos, por exemplo, Freud parte do relato do sonho e n\u00e3o das imagens do sonho, embora o sonho seja uma experi\u00eancia predominantemente sensitiva e visual. Essa perspectiva est\u00e1 em contraste com a abordagem junguiana, que propunha um valor pr\u00f3prio da imagem inscrita no inconsciente.<\/p>\n<p>Como Lacan esclarece em sua releitura estruturalista de Freud, as imagens do sonho funcionam como significantes. Elas n\u00e3o valem por si mesmas, mas pelo seu valor metaf\u00f3rico ou meton\u00edmico, sendo preciso percorrer a cadeia significante da livre associa\u00e7\u00e3o para que se proceda \u00e0 sua interpreta\u00e7\u00e3o. Sendo predominantemente uma \u201crealiza\u00e7\u00e3o do desejo\u201d, o sonho depende de uma encena\u00e7\u00e3o, tal como uma fantasia. Mas o essencial, o ponto de partida do trabalho do sonho, assim como das fantasias, \u00e9 um pensamento de desejo. \u00c9 esse pensamento que \u00e9 visado no curso do trabalho interpretativo a partir do duplo procedimento que vai da amplia\u00e7\u00e3o do sentido do sonho manifesto, sua expans\u00e3o imagin\u00e1ria, \u00e0 redu\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica referida ao pensamento latente do sonho.<\/p>\n<p>O campo do imagin\u00e1rio \u00e9 caracterizado por sua vastid\u00e3o. Podemos dizer que a prolifera\u00e7\u00e3o est\u00e1 para o imagin\u00e1rio assim como a redu\u00e7\u00e3o est\u00e1 para o simb\u00f3lico, de forma que o simb\u00f3lico seria uma esp\u00e9cie de deten\u00e7\u00e3o, de ponto de basta, em rela\u00e7\u00e3o a essa prolifera\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Retornando ent\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o, podemos falar de imagens rainhas na perspectiva psicanal\u00edtica, de uma redu\u00e7\u00e3o do mundo das imagens em que estamos mergulhados a algumas imagens cruciais? Tomando como refer\u00eancia o texto de Miller, podemos distinguir tr\u00eas imagens rainhas:<\/p>\n<p>1- a primeira imagem rainha se refere ao corpo pr\u00f3prio, ou seja, \u201ca ideia de si mesmo como corpo\u201d, segundo a defini\u00e7\u00e3o de Lacan. Trata-se, portanto, da imagem do corpo como matriz do Eu, \u00e0 qual Lacan d\u00e1 a nota\u00e7\u00e3o i(a). Seu operador paradigm\u00e1tico \u00e9 o espelho, e seu efeito imagin\u00e1rio \u00e9 o duplo. Sua caracter\u00edstica \u00e9 dar ao sujeito uma vis\u00e3o de seu corpo como uma totalidade, no sentido de uma Gestalt (uma forma que se completa), e seu efeito no sujeito \u00e9 de j\u00fabilo.<\/p>\n<p>2- a segunda imagem rainha \u00e9 a imagem da falta, a castra\u00e7\u00e3o, cujo suporte \u00e9 dado pela vis\u00e3o do corpo da m\u00e3e e pela ideia de que falta ali alguma coisa. Sua nota\u00e7\u00e3o lacaniana \u00e9 o (-fi). Temos, nesse sentido, altern\u00e2ncia entre aus\u00eancia-presen\u00e7a, o que, de certa forma, j\u00e1 nos remete ao simb\u00f3lico. Aqui n\u00e3o h\u00e1 j\u00fabilo, mas horror. Por isso, o seu operador essencial \u00e9 o v\u00e9u, aquilo que recobre essa falta, em sua fun\u00e7\u00e3o de velar o nada, por assim dizer, a mesma fun\u00e7\u00e3o que podemos atribuir, por exemplo, ao vestu\u00e1rio. O campo perceptivo \u00e9 orientado pelo que n\u00e3o se quer ver tanto quanto por aquilo que se deseja ver. Seu efeito no campo imagin\u00e1rio, portanto, \u00e9 uma escamotea\u00e7\u00e3o e a supress\u00e3o de uma imagem real, se pudermos nos referir assim a essa imagem, que \u00e9, na realidade, a falta de uma imagem, o furo da castra\u00e7\u00e3o materna, e que surpreende o sujeito no lugar onde ele esperava encontrar a imagem do falo.<\/p>\n<p>3- a terceira imagem rainha pode ser diretamente deduzida do v\u00e9u, se acrescentarmos a este sua caracter\u00edstica de poder ser tamb\u00e9m um ornamento (uma roupa serve tanto para cobrir e esconder quanto para embelezar). Trata-se do falo simb\u00f3lico, enquanto \u201cforma erigida e transformada em significante, conservando todas as suas articula\u00e7\u00f5es imagin\u00e1rias\u201d (MILLER, 1997, p. 579). Miller esclarece que \u201cfoi inclusive a prop\u00f3sito do falo que Lacan arriscou a express\u00e3o significante imagin\u00e1rio\u201d (MILLER, 1997, p. 579). Sua imagem paradigm\u00e1tica \u00e9 o fetiche. Refere-se, portanto, a uma imagem colocada em lugar da falta para obtur\u00e1-la e que assume um valor f\u00e1lico, ou seja, um valor de substitui\u00e7\u00e3o e de tamponamento do furo. O recobrimento da falta aponta, nesse sentido, para a fun\u00e7\u00e3o de denega\u00e7\u00e3o que caracteriza o inconsciente. Algo \u00e9 substitu\u00eddo. Mais precisamente: algo \u00e9 recuperado. Se o encontro do sujeito com a primeira imagem produz um j\u00fabilo, se o encontro com a segunda imagem produz o horror, em rela\u00e7\u00e3o ao fetiche podemos falar de uma recupera\u00e7\u00e3o de uma parcela do gozo perdido. \u00c9 o que Lacan chamou do gozo f\u00e1lico. \u00c9 como passar por debaixo do v\u00e9u para ir depositar alguma coisa no lugar da falta. Assim, o que provoca horror aparece sob a vestimenta do fetiche, do belo ou da fantasia, ou seja, como uma imagem \u00e0 qual podemos agregar um mais-de-gozar. Seu operador l\u00f3gico n\u00e3o \u00e9 o espelho nem o v\u00e9u, mas o quadro, ou melhor, o enquadre, a janela na qual se projeta a cena da fantasia que serve de cen\u00e1rio \u00e0 imagem fetiche. Contrariamente ao espelho, que reflete uma imagem, uma janela pressup\u00f5e o furo onde se projeta a tela da fantasia. A variedade do que pode vir a assumir valor f\u00e1lico para um sujeito \u00e9 enorme: um carro para um homem ou um vestido para uma mulher, por exemplo, se nos referimos ao campo dos objetos de consumo que v\u00eam agregar esse valor f\u00e1lico \u00e0 imagem de si; mas, tamb\u00e9m, um tra\u00e7o, uma forma ou mesmo um gesto que desperte o desejo em rela\u00e7\u00e3o a um parceiro sexual, se nos referimos aos signos do objeto perdido que julgamos reencontrar no campo do Outro.<\/p>\n<p>As imagens rainhas s\u00e3o, portanto, imagens que t\u00eam valor de significantes, na medida em que podem ser metaforizadas e metonimizadas. Mas elas \u201cn\u00e3o representam o sujeito\u201d, como faz o significante \u2013 que representa o sujeito para outro significante \u2013 e, sim, \u201cse coordenam ao seu gozo\u201d (MILLER,1997, p. 580). A imagem rainha \u00e9 aquela que \u201crealiza uma captura significante do gozo\u201d, diz Miller (1997, p.580). \u00c9 quando imagin\u00e1rio e gozo se enla\u00e7am.<\/p>\n<p><strong>O Est\u00e1dio Do Espelho<\/strong><\/p>\n<p>Proponho trabalhar a assun\u00e7\u00e3o para o ser falante da sua primeira imagem rainha, a imagem de si como um corpo, tomando como refer\u00eancia o texto de Lacan \u201cO est\u00e1dio do espelho como formador da fun\u00e7\u00e3o Eu\u201d. Para tanto, vou me referir a outra cita\u00e7\u00e3o da confer\u00eancia de J-A Miller, \u201cO inconsciente e o corpo falante\u201d:<\/p>\n<p><em>O imagin\u00e1rio \u00e9 o corpo. E [essa equival\u00eancia] n\u00e3o \u00e9 isolada; seu ensino, em seu conjunto, testemunha a favor dessa equival\u00eancia. Em primeiro lugar, o corpo nele se introduz, inicialmente, como imagem, imagem no espelho. Disso decorre o fato de Lacan dar ao eu [moi] um estatuto que se distingue singularmente daquele que Freud lhe reconhecia em sua segunda t\u00f3pica. Em segundo lugar, \u00e9 ainda com um jogo de imagem que Lacan ilustra a articula\u00e7\u00e3o prevalecente entre o Ideal do eu e o eu ideal, cujos termos ele toma emprestado de Freud, mas para formaliz\u00e1-los de maneira in\u00e9dita. Em terceiro, essa afinidade entre o corpo e o imagin\u00e1rio \u00e9 tamb\u00e9m reafirmada em seu ensino dos n\u00f3s. A constru\u00e7\u00e3o borromeana enfatiza que \u00e9 pelo vi\u00e9s de sua imagem que o corpo participa, primeiro, da economia do gozo. Em quarto lugar, mais al\u00e9m, o corpo condiciona tudo o que o registro imagin\u00e1rio aloja de representa\u00e7\u00f5es: significado, sentido e significa\u00e7\u00e3o, a pr\u00f3pria imagem do mundo. \u00c9 no corpo imagin\u00e1rio que as palavras da l\u00edngua fazem entrar as representa\u00e7\u00f5es, que nos constituem um mundo ilus\u00f3rio sob o modelo da unidade do corpo. Aqui est\u00e3o muitas raz\u00f5es para escolher que o pr\u00f3ximo Congresso fa\u00e7a variar o tema do corpo na dimens\u00e3o do imagin\u00e1rio. (MILLER, 2014)<\/em><\/p>\n<p>Sabemos que o imagin\u00e1rio \u00e9 uma das categorias lacanianas, ao lado do simb\u00f3lico e do real, com os quais ele se enla\u00e7a, mas podendo tamb\u00e9m deles se desprender. Podemos dizer que a teoria lacaniana est\u00e1 sustentada por esta tr\u00edade, que ela perdura no ensino de Lacan, apesar de continuamente modificada, apesar de Lacan ter dado \u00eanfase diferente a uma ou outra dessas categorias no decorrer de seu ensino. Como categoria lacaniana, o imagin\u00e1rio deve ser distinguido da faculdade de imagina\u00e7\u00e3o. Basta, para isso, lembrar que, de modo geral, a imagina\u00e7\u00e3o est\u00e1 referida \u00e0 realidade por sua contraposi\u00e7\u00e3o a ela, enquanto o imagin\u00e1rio lacaniano \u00e9 o que sustenta o pr\u00f3prio campo da realidade para um sujeito. Por outro lado, o imagin\u00e1rio lacaniano se caracteriza por ser um modo de tratar, de se defender, de tornar suport\u00e1vel o real, se definimos o real como o imposs\u00edvel, aquilo que n\u00e3o tem imagem ou representa\u00e7\u00e3o. Essa caracter\u00edstica do imagin\u00e1rio \u00e9 importante para nos orientarmos na cl\u00ednica da psicose, na qual temos uma maior dificuldade com rela\u00e7\u00e3o ao simb\u00f3lico e \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para abordarmos o registro do imagin\u00e1rio em Lacan, conv\u00e9m, portanto, levar em considera\u00e7\u00e3o a articula\u00e7\u00e3o entre o Eu e a imagem do corpo, como vimos na cita\u00e7\u00e3o de Miller. Essa articula\u00e7\u00e3o necessita de um terceiro termo, um termo medium: o espelho.<\/p>\n<p>Podemos partir de uma distin\u00e7\u00e3o que \u00e9 imediatamente percept\u00edvel: a distin\u00e7\u00e3o entre o corpo tomado como uma imagem e o corpo org\u00e2nico, o corpo concebido no funcionamento dos \u00f3rg\u00e3os e perturbado em sua homeostase, seja pela urg\u00eancia das necessidades que torna o sujeito dependente do Outro, seja pela incid\u00eancia das puls\u00f5es que buscam se satisfazer aleatoriamente, sem uma rela\u00e7\u00e3o direta com a homeostase ou a necessidade, e muitas vezes \u00e0 revelia do sujeito. Tomado como uma imagem, o paradigma do corpo \u00e9 a sua superf\u00edcie, a sua forma projetada no espelho. Nessa proje\u00e7\u00e3o, o corpo perde a densidade que o caracteriza. Ele se esvazia, pode-se dizer assim, ao se destacar do organismo. A imagem especular do corpo est\u00e1, portanto, destacada tanto da carne que preenche o corpo quanto das puls\u00f5es em sua busca de satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que primeiro interessou a Lacan em sua teoriza\u00e7\u00e3o sobre o \u201cest\u00e1dio do espelho\u201d (antes mesmo que ele se tornasse um psicanalista) foi a fun\u00e7\u00e3o da imagem, a sua opera\u00e7\u00e3o real. Lacan se interessou particularmente pela etologia, que estuda o comportamento animal, e a teoria da forma, a Gestalt theory (que tem K\u00f6hler como um de seus expoentes), para mostrar como a imagem do corpo assume uma fun\u00e7\u00e3o no desenvolvimento org\u00e2nico, particularmente no campo da reprodu\u00e7\u00e3o sexual. \u00c9 o que mostra o exemplo da pomba, explorado por Lacan: a matura\u00e7\u00e3o da g\u00f4nada sexual de uma pomba depende do fato de ela perceber, em seu campo visual, a imagem de outra pomba. Da mesma forma, h\u00e1 in\u00fameros exemplos nos estudos da etologia que mostram como no reino animal o comportamento sexual depende da exibi\u00e7\u00e3o de uma imagem a partir de determinadas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Soa paradoxal pensar que aquilo que interessa a Lacan \u00e9 o estatuto real da imagem ou os seus efeitos no real, quando, de um modo geral, associamos a imagem especular a seus efeitos ilus\u00f3rios sobre o sujeito (BROUSSE, 2014). Nesse sentido, interessa a Lacan o elo entre a vis\u00e3o do corpo como um perceptum, um dado exterior, na medida em que a imagem do corpo se torna objeto do olhar, e os seus efeitos no corpo, seja em rela\u00e7\u00e3o ao comportamento ou \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o sexual, seja no campo da subjetividade humana, como uma esp\u00e9cie de organizador da experi\u00eancia subjetiva.<\/p>\n<p>Portanto, a oposi\u00e7\u00e3o inicial entre o corpo org\u00e2nico e a imagem do corpo projetada em um espelho revela-se, ao final, como um modo de interse\u00e7\u00e3o. Mais exatamente: a proje\u00e7\u00e3o da imagem do corpo nada mais \u00e9 do que o envolt\u00f3rio libidinal e narc\u00edsico a partir do qual eu posso nomear aquele corpo como o \u201cmeu corpo\u201d, esse acontecimento primordial da nomea\u00e7\u00e3o a partir do qual o meu corpo poder\u00e1 ser abarcado pelo simb\u00f3lico e, assim, tornar-se objeto de uma regula\u00e7\u00e3o que afeta o seu funcionamento org\u00e2nico e pulsional. Por outro lado, essa imagem captura o interesse libidinal do sujeito de forma que ele possa gozar narcisicamente de ser essa imagem refletida no olhar do Outro. Essa simetria e o gozo a\u00ed depositado formam a matriz que condiciona a vis\u00e3o do mundo como um reflexo do Eu, \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a.<\/p>\n<p>Como se transp\u00f5em essas descobertas da etologia para o sujeito humano? Quais as consequ\u00eancias, para o sujeito humano, dessa proje\u00e7\u00e3o e do reconhecimento, em um momento datado do seu desenvolvimento, entre 6 e 18 meses, da imagem especular? \u00c9 o que mostra esse texto lacaniano de 1949, \u201cO est\u00e1dio do espelho como formador da fun\u00e7\u00e3o do eu\u201d.<\/p>\n<p>1- Esse reconhecimento implica uma identifica\u00e7\u00e3o com a pr\u00f3pria imagem, aspecto que vai al\u00e9m do que \u00e9 poss\u00edvel no caso do animal (\u00e0 exce\u00e7\u00e3o talvez dos chimpanz\u00e9s), que apenas reconhece o semelhante; \u00e9 o que justifica o uso do termo \u201cimago\u201d por Lacan.<\/p>\n<p>2- Esse reconhecimento tamb\u00e9m implica a \u201cmatriz simb\u00f3lica em que o [eu] se precipita em uma forma primordial antes de se objetivar na dial\u00e9tica da identifica\u00e7\u00e3o com o outro e antes que a linguagem lhe restitua, no universal, sua fun\u00e7\u00e3o de sujeito\u201d (LACAN, 1949\/1998, p. 97). Ela assume, portanto, um valor significante a partir do qual o sujeito se apreende (\u2018aquele sou eu\u2019) como um eu-ideal, antes mesmo de assumir as suas determina\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>3- Tal identifica\u00e7\u00e3o, por sua vez, implica uma duplica\u00e7\u00e3o (a-a\u00b4, de acordo com a nota\u00e7\u00e3o de Lacan) a partir da qual essa imagem se reflete no espelho. Podemos ent\u00e3o falar de uma rela\u00e7\u00e3o amb\u00edgua e problem\u00e1tica entre o sujeito e sua imagem, na medida em que ele ao mesmo tempo se reconhece e se aliena nessa imagem refletida, exterior a ele mesmo; sendo assim, pode-se dizer que o sujeito \u00e9 e, ao mesmo tempo, n\u00e3o \u00e9 essa imagem.<\/p>\n<p>4- Essa forma totalizada (Gestalt) na qual o sujeito se apreende \u00e9 uma antecipa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao estado atual da experi\u00eancia de seu corpo org\u00e2nico (a imaturidade anat\u00f4mica do sistema piramidal; a prematura\u00e7\u00e3o espec\u00edfica do nascimento no homem), ou seja, de sua experi\u00eancia motora de fragmenta\u00e7\u00e3o corporal, uma vez que esse corpo \u00e9 comandado pelos circuitos parciais da puls\u00e3o que emanam de suas zonas er\u00f3genas. Tal antecipa\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixa de ter correspond\u00eancia com o que Freud chamou de \u201cnova a\u00e7\u00e3o ps\u00edquica\u201d, necess\u00e1ria para a passagem do autoerotismo ao narcisismo, cujo desdobramento ser\u00e1 central em sua teoriza\u00e7\u00e3o sobre as psicoses. A imagem especular se sobrep\u00f5e ao corpo fragmentado; o narcisismo seria, assim, o efeito no sujeito do contorno libidinal de seu corpo no espelho na medida em que ele se aliena nessa imagem.<\/p>\n<p>5- \u00c9 o que em parte explicaria o j\u00fabilo, a express\u00e3o de satisfa\u00e7\u00e3o que acompanha esse reconhecimento da imagem especular e que permanece depositada em nossa experi\u00eancia cotidiana, na medida em que \u201camamos\u201d essa imagem. Mas, para al\u00e9m desse j\u00fabilo da imagem pelo fato de que a apreens\u00e3o da totalidade do corpo permite ao sujeito ultrapassar a sua experi\u00eancia de fragmenta\u00e7\u00e3o, pode-se ligar esse j\u00fabilo \u00e0 fascina\u00e7\u00e3o e aos efeitos de captura que essa imagem tem para o sujeito. Refiro-me \u00e0 distin\u00e7\u00e3o entre o gozo do corpo e o gozo da imagem. De certa maneira, o gozo \u00e9 sempre gozo do corpo, exige sempre um corpo, mesmo na sublima\u00e7\u00e3o. Mas, no est\u00e1dio do espelho, trata-se de captura do gozo pela imagem, ou seja, de um efeito no corpo da captura da imagem especular.<\/p>\n<p>Em termos freudianos, essa assun\u00e7\u00e3o da imagem equivale, portanto, ao narcisismo, na medida em que designa um investimento libidinal no Eu. Dito de outro modo, \u00e9 importante levar em conta a mudan\u00e7a de estatuto do gozo implicada na passagem do gozo autoer\u00f3tico, mais referido \u00e0s zonas er\u00f3genas, para o gozo da imagem, mais referido ao Eu. Em rela\u00e7\u00e3o ao gozo do corpo, podemos pensar no corpo enquanto goza-de-si, independentemente, mesmo que o sujeito seja sempre respons\u00e1vel por esse gozo. Mas \u00e9 importante ressaltar que esse corpo que goza de si, conforme a imagem do circuito pulsional de uma boca que beija a si mesma, foi primeiramente objeto de gozo do Outro, uma esp\u00e9cie de brinquedo sexual dos pais que manipulam e libidinizam o corpo da crian\u00e7a. De forma que, na captura fascinada da imagem, \u00e9 como se a crian\u00e7a pudesse enfim dizer: \u201cent\u00e3o, \u00e9 disso que eles gozam\u201d.<\/p>\n<p>A vertente transicional da forma\u00e7\u00e3o do eu (quando a crian\u00e7a se toma por um \u201cele\u201d), tanto quanto a vertente paranoica do narcisismo, est\u00e1 subjugada a essa captura na medida em que o objeto e o Eu s\u00e3o formas revers\u00edveis, ou seja, o Eu (como matriz-corporal) pode ser tomado como um objeto e vice-versa. Para concluir sobre esse ponto: o objeto olhar, que designa uma zona er\u00f3gena, \u00e9 o que faz media\u00e7\u00e3o entre o corpo org\u00e2nico (er\u00f3geno) e a imagem do corpo (especular). Na sequ\u00eancia, se esse olhar n\u00e3o for extra\u00eddo do campo da realidade (no sentido do Eu n\u00e3o ser sempre o objeto de um olhar), o sujeito fica aprisionado a essa captura e temos os efeitos no real disso, como vemos na paranoia, na qual o sujeito se sente sempre visto. Diferentemente da paranoia, a extra\u00e7\u00e3o do olhar funciona na histeria como uma forma de compensar a falha de representa\u00e7\u00e3o no Outro, levando ao extremo a significantiza\u00e7\u00e3o da imagem.<\/p>\n<p>6- Tudo isso revela o \u201cdrama\u201d dessa ambiguidade da apreens\u00e3o especular da imagem de si, na medida em que, por meio dela, o sujeito se v\u00ea tamb\u00e9m amea\u00e7ado por sua degrada\u00e7\u00e3o, seu desinvestimento ou seu despeda\u00e7amento. \u00c9 o que observamos em v\u00e1rias formas cl\u00ednicas e nos fen\u00f4menos de estranhamento, quando o sujeito n\u00e3o reconhece o seu duplo. Lacan se refere a essa amea\u00e7a como uma \u201cregress\u00e3o mort\u00edfera ao est\u00e1gio do espelho\u201d.<\/p>\n<p>7- Podemos ainda associar a esse \u201cdrama\u201d \u00e0 tens\u00e3o agressiva que resulta primordialmente da rela\u00e7\u00e3o do sujeito ao semelhante (como observa Freud, o outro \u00e9, antes de tudo, objeto de meu \u00f3dio, justamente por ser meu semelhante), uma vez que essa \u201cmatriz imagin\u00e1ria\u201d determina a percep\u00e7\u00e3o do outro como uma extens\u00e3o e um reflexo de si, logo, como um rival.<\/p>\n<p>8- Da mesma forma, essa matriz imagin\u00e1ria \u00e9 o que comanda, grosso modo, a apreens\u00e3o da realidade e o conhecimento do mundo (que s\u00f3 o advento da ci\u00eancia permite ultrapassar, na medida em que esta sobrep\u00f5e, ao imagin\u00e1rio, rela\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas). Sendo assim, a forma\u00e7\u00e3o do eu seria coextensiva \u00e0 \u201cfun\u00e7\u00e3o de desconhecimento\u201d implicada em nossa percep\u00e7\u00e3o da realidade; \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o da nega\u00e7\u00e3o (Verneinung) que caracteriza nossa rela\u00e7\u00e3o com o campo da realidade. Em outros termos, o campo da realidade s\u00f3 se mant\u00e9m para um sujeito devido \u00e0 estabilidade do eixo imagin\u00e1rio, estabilidade esta que depende tanto da extra\u00e7\u00e3o do objeto (no caso que estamos examinando, do olhar) quanto de sua inser\u00e7\u00e3o no discurso estabelecido.<\/p>\n<p>9- Na esteira do mesmo drama, pode-se evocar ainda a \u201cin\u00e9rcia pr\u00f3pria das forma\u00e7\u00f5es do [eu]\u201d que caracteriza as neuroses de um modo geral. Foi o que levou Lacan a opor o eixo imagin\u00e1rio ao eixo simb\u00f3lico (ver, por exemplo, o esquema \u201cL\u201d tal como trabalhado por Lacan no Semin\u00e1rio, livro III: as psicoses). Essa in\u00e9rcia seria um efeito do gozo que preenche a rela\u00e7\u00e3o especular a-a`. No eixo simb\u00f3lico A-$, Lacan localiza as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente, recobertas pelo recalque, e as determina\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas do sujeito. Mais adiante, essa oposi\u00e7\u00e3o ser\u00e1 pensada como um enodamento, mas, em 1957-8, o campo da realidade ainda \u00e9 abordado na interface do simb\u00f3lico com o imagin\u00e1rio. Por isso, a estabilidade do imagin\u00e1rio depende tanto de coordenadas simb\u00f3licas quanto da extra\u00e7\u00e3o do objeto olhar.<\/p>\n<p>10- Tamb\u00e9m \u00e9 importante destacar os fen\u00f4menos de estranheza que caracterizam a vacila\u00e7\u00e3o da imagem especular para um sujeito. A ang\u00fastia n\u00e3o deixa de ter rela\u00e7\u00e3o com a incid\u00eancia da castra\u00e7\u00e3o sobre o eixo a-a\u00b4. Mas, paradoxalmente, \u00e9 a castra\u00e7\u00e3o o que de fato mant\u00e9m o campo da realidade estabilizado para um sujeito. Em outros termos, a estrutura neur\u00f3tica implica que o sujeito n\u00e3o esteja completamente identificado com sua imagem especular, que ele se divida quanto a essa identifica\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, a ang\u00fastia na neurose se caracteriza pelo fato de que o objeto a vem no lugar de uma falta. Lacan dizia que a experi\u00eancia da ang\u00fastia ocorre quando a falta vem a faltar, e o objeto do desejo aparece no campo da realidade. Em muitos casos graves de histeria, como vimos, o superinvestimento na imagem se relaciona diretamente \u00e0 falta de um significante que represente o sujeito ($) no campo do Outro (A). \u00c9 como se a imagem especular assumisse ent\u00e3o um valor significante e r\u00edgido para o sujeito, de forma que o sujeito se faz representar no campo do Outro pela imagem de seu corpo pr\u00f3prio para fazer frente a essa falta de representa\u00e7\u00e3o do sujeito dividido. O sujeito \u00e9, assim, amea\u00e7ado o tempo todo pela ang\u00fastia de sua af\u00e2nise. De toda forma, isso pressup\u00f5e uma divis\u00e3o subjetiva.<\/p>\n<p>11- A psicose, por sua vez, se caracteriza pela instabilidade do imagin\u00e1rio devido a uma falta de sustenta\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. Essa sustenta\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica implica um passo a mais em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 captura da imagem do corpo no espelho. Na verdade, implica em sua destitui\u00e7\u00e3o. \u00c9 isso que est\u00e1 em jogo na trama edipiana, que \u00e9 outro drama do sujeito, mas cujo desenlace pressup\u00f5e uma terceira localiza\u00e7\u00e3o do gozo, o gozo f\u00e1lico, que \u00e9 um gozo que se desprende do corpo. Por estar condensado em um \u00f3rg\u00e3o-fora-do-corpo, o falo pode ser tanto objeto de uma perda, por t\u00ea-lo, como objeto de uma reivindica\u00e7\u00e3o, por n\u00e3o t\u00ea-lo. Por se tratar de um significante, o falo \u00e9 tanto o resultado de uma met\u00e1fora, a met\u00e1fora paterna, como \u00e9 suscept\u00edvel de deslocamentos ao infinito. \u00c9 a esse gozo que se articula o desejo. A significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica \u00e9 o que responde \u00e0 falta materna e, portanto, ao enigma do desejo da m\u00e3e, possibilitando \u00e0 crian\u00e7a se deslocar da posi\u00e7\u00e3o de objeto que responde a esse desejo \u2013 como vimos na posi\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a que antecede a sua identifica\u00e7\u00e3o especular \u2013 para se identificar \u00e0s ins\u00edgnias do ideal do eu que, como uma matriz simb\u00f3lica, possibilitam a inser\u00e7\u00e3o do sujeito no campo do Outro.<\/p>\n<p>Portanto, o que caracteriza a trama edipiana \u00e9 a \u201cvis\u00e3o da castra\u00e7\u00e3o\u201d, que vem de encontro \u00e0 totalidade da imagem do corpo, na medida em que essa imagem se sustenta por sua carga libidinal. Em outros termos, a partir da trama edipiana, haver\u00e1 tanto investimento libidinal no eu quanto nos objetos.<\/p>\n<p>A psicose pode ser assim compreendida como uma dificuldade em rela\u00e7\u00e3o a essa disposi\u00e7\u00e3o, a essa distribui\u00e7\u00e3o libidinal. A loucura pode ser definida como uma forma de ades\u00e3o ao imagin\u00e1rio que faz obst\u00e1culo \u00e0 castra\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. Nesse sentido, a perda da realidade na psicose, da qual fala Freud, corresponderia ao desastre do imagin\u00e1rio que caracteriza o desencadeamento psic\u00f3tico. O fato de \u201ctermos um corpo\u201d, de termos que nos conectar com o corpo em vez de \u201csermos um corpo\u201d, \u00e9 velado pela consist\u00eancia do imagin\u00e1rio que caracteriza as neuroses, mas \u00e9 desvelado na experi\u00eancia psic\u00f3tica, em especial na esquizofrenia. Por isso, no tratamento psicanal\u00edtico das psicoses devemos estar atentos \u00e0 maneira como o sujeito reconstr\u00f3i imaginariamente o campo da realidade, seja fazendo uso do del\u00edrio, seja por meio de objetos ou artefatos de arte, seja por meio de outras inven\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s das quais ele poder\u00e1 se reconectar com seu corpo, com o Outro ou com a linguagem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>(1) VII Enapol. O imp\u00e9rio das imagens. Programado para ocorrer em S\u00e3o Paulo, nos dias 4, 5 e 6 de setembro de 2015.<\/h6>\n<h6>(2)\u0002 A imagem rainha foi o t\u00edtulo do V Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, que celebrou a funda\u00e7\u00e3o da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, em abril de 1995.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/h6>\n<h6>BROUSSE, M-H. \u201cCorpos lacanianos: novidades contempor\u00e2neas sobre o est\u00e1dio do espelho\u201d. In: Op\u00e7\u00e3o lacaniana online, ano 5, n\u00ba 15, novembro de 2014. Dispon\u00edvel em http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/nranterior\/numero15\/index.html \u2013 Acesso em 21 de julho de 2015.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1949) \u201cO est\u00e1dio do espelho como formador da fun\u00e7\u00e3o do eu\u201d, In: Escritos. Rio de Janeiro: J. Zahar ed., 1998, p. 96-103.<br \/>\n______. O Semin\u00e1rio. Livro III: as psicoses. 2\u00aa ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 1988.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. \u201cA imagem rainha\u201d, In: Lacan Elucidado. Rio de Janeiro: J. Zahar ed., 1997, p. 575 \u2013 595.<\/h6>\n<h6>______. \u201cO inconsciente e o corpo falante\u201d, confer\u00eancia de apresenta\u00e7\u00e3o do tema do X Congresso da AMP, 2014. Dispon\u00edvel em: www.wapol.org. Acesso em 21 de julho de 2015.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Frederico Feu De Carvalho<\/strong><\/h6>\n<h6>Psicanalista praticante; membro da EBP\/AMP; psic\u00f3logo da PBH; Mestre em Filosofia e Doutor em Estudos Lingu\u00edsticos pela UFMG. E-mail:\u00a0<span id=\"cloakd13aeec928a88a13177ffad0922b1510\"><a href=\"mailto:fredericofeu@uol.com.br\">fredericofeu@uol.com.br<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>FREDERICO FEU DE CARVALHO &nbsp; &nbsp; O programa de trabalho anunciado para o VII Enapoli aponta um redirecionamento da investiga\u00e7\u00e3o no Campo Freudiano, enfocando, desta vez, o registro do imagin\u00e1rio e sua infla\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo XXI. \u00c9 o que podemos depreender das proposi\u00e7\u00f5es que J-A Miller (2014) desenvolveu em sua confer\u00eancia de apresenta\u00e7\u00e3o do tema&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58187,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[],"class_list":["post-699","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-15","category-11","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/699","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=699"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/699\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58188,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/699\/revisions\/58188"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58187"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=699"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=699"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=699"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}