{"id":702,"date":"2014-07-17T06:55:36","date_gmt":"2014-07-17T09:55:36","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=702"},"modified":"2025-12-01T17:10:19","modified_gmt":"2025-12-01T20:10:19","slug":"invencao-na-esquizofrenia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2014\/07\/17\/invencao-na-esquizofrenia\/","title":{"rendered":"Inven\u00e7\u00e3o na esquizofrenia &#8211; Patr\u00edcia Ribeiro e Alessandra Rocha"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>PATR\u00cdCIA RIBEIRO E ALESSANDRA ROCHA<\/strong><\/h6>\n<\/div>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/patricia1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"1600\" data-large_image_height=\"900\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-703\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/patricia1-1024x576.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"576\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/patricia1-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/patricia1-300x169.jpg 300w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/patricia1-768x432.jpg 768w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/patricia1-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/patricia1.jpg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p>A partir do tema que orientou os trabalhos do N\u00facleo de Pesquisa e Psican\u00e1lise com Crian\u00e7as em 2014, \u201cO Trauma e o real na cl\u00ednica: o que as crian\u00e7as inventam\u201d, trouxemos \u00e0 discuss\u00e3o o caso de uma crian\u00e7a psic\u00f3tica para destacar a import\u00e2ncia do que um sujeito pode inventar frente ao encontro com o Outro.<\/p>\n<p>Dado o inexor\u00e1vel efeito traum\u00e1tico que marca a irrup\u00e7\u00e3o do significante sobre o corpo de todo falasseri, resta-lhe como sa\u00edda, aponta Miller, tornar-se inventor. Em seu texto \u201cA inven\u00e7\u00e3o psic\u00f3tica\u201d, ele esclarece que esse termo inven\u00e7\u00e3o, embora se aproxime da ideia de cria\u00e7\u00e3o, comporta uma sutileza a mais, pois o ato de inventar, \u00e0 diferen\u00e7a do criar, n\u00e3o se faz ex-nihilo, mas a partir do que cada sujeito pode \u2013 ou n\u00e3o \u2013 dispor.<\/p>\n<p>Se, na neurose, esses impasses advindos da desnaturaliza\u00e7\u00e3o do corpo pela a\u00e7\u00e3o do significante s\u00e3o tratados com o apoio dos discursos, na esquizofrenia essa solu\u00e7\u00e3o esbarra em uma impossibilidade. Por n\u00e3o encontrar amparo no simb\u00f3lico, ter um corpo, para o sujeito esquizofr\u00eanico, \u00e9 especialmente complexo, o que o obriga a \u201cinventar um discurso, (\u2026) para poder usar seu corpo e seus \u00f3rg\u00e3os\u201d (MILLER, 2003, p. 11).<\/p>\n<p>No entanto, de que discurso se trataria se, na esquizofrenia, encontramos \u201co \u00fanico sujeito que n\u00e3o se defende do real pelo simb\u00f3lico?\u201d (MILLER, 1996, p. 190). Se para ele o simb\u00f3lico \u00e9 real, qual seria o estatuto dessas inven\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p><strong>O Nascimento Do Corpo Para A Psican\u00e1lise<\/strong><\/p>\n<p>Em Freud, o conceito de narcisismo foi forjado para destacar a import\u00e2ncia da libidiniza\u00e7\u00e3o da imagem do corpo na constitui\u00e7\u00e3o do eu. Lacan vai destacar, em sua tese sobre o corpo, que, para o falasser, n\u00e3o basta o investimento libidinal da imagem. Para que ele passe da condi\u00e7\u00e3o de portador de um corpo fragmentado, tomado por um emaranhado de puls\u00f5es, \u00e0 posse de um corpo unificado e libidinalmente organizado em suas zonas er\u00f3genas, h\u00e1 que ocorrer um enla\u00e7amento entre os registros simb\u00f3lico e imagin\u00e1rio. Tal \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o para que se possa haver um revestimento ao real da carne. Essa opera\u00e7\u00e3o depende, fundamentalmente, da a\u00e7\u00e3o do Outro que autentifica essa imagem libidinizada permitindo que o sujeito nela se reconhe\u00e7a: trata-se a\u00ed do processo de identifica\u00e7\u00e3o no qual ocorre \u201cuma transforma\u00e7\u00e3o no sujeito quando ele assume uma imagem e a reconhece\u201d (BARROSO, 2014, p. 153). A crian\u00e7a se fixa a essa imagem que ela \u00e9 sob o olhar do Outro, ponto no qual se v\u00ea am\u00e1vel.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a aliena\u00e7\u00e3o \u00e0 imagem \u00e9 tribut\u00e1ria \u00e0 aliena\u00e7\u00e3o \u00e0 cadeia simb\u00f3lica, ou seja, o falasser s\u00f3 pode se reconhecer no espelho se contar com o apoio de um ponto simb\u00f3lico situado fora da imagem. O que est\u00e1 em jogo \u00e9 esse lastro simb\u00f3lico, o qual Freud designou como Ideal do Eu \u2013 I(A) \u2013 e que opera a partir da identifica\u00e7\u00e3o do sujeito a um significante ou ao tra\u00e7o un\u00e1rio, S1, amparo simb\u00f3lico do corpo como consist\u00eancia imagin\u00e1ria. Nos casos de autismo e de esquizofrenia, entretanto, esse S1 n\u00e3o se articula a um segundo significante (S2) para consolidar essa imagem corporal. Esses sujeitos nos ensinam sobre o fracasso dessa opera\u00e7\u00e3o de velar o real do corpo a partir da subjetiva\u00e7\u00e3o da imagem. Para eles, n\u00e3o houve o encontro no Outro de um olhar em que pudessem se ver e se reconhecer. Particularmente na esquizofrenia, esse Outro, tal como ele se apresenta, n\u00e3o barrado, isto \u00e9, n\u00e3o separado do gozo; \u00e9 o Outro da linguagem ou o Outro do corpo.<\/p>\n<p><strong>O Menino M\u00e1quina<\/strong><\/p>\n<p>Apresentaremos sucintamente os elementos do caso que orientou a discuss\u00e3o te\u00f3rica que se segue. Trata-se de uma crian\u00e7a \u00e0s voltas com um corpo cuja desinser\u00e7\u00e3o no discurso a coloca a merc\u00ea de um gozo desregulado em um corpo fragmentado, obrigando-a a se valer de uma curiosa inven\u00e7\u00e3o como forma de unific\u00e1-lo. A hip\u00f3tese diagn\u00f3stica inicial apontava para um caso de autismo devido \u00e0 presen\u00e7a de manifesta\u00e7\u00f5es ligadas diretamente ao corpo \u2013 o autobalanceio, as estereotipias \u2013 mas, especialmente, por uma rela\u00e7\u00e3o peculiar a alguns tipos de m\u00e1quina, que poderiam ter, para esse sujeito, o valor de objetos aut\u00edsticos. Ele tem um interesse acentuado por m\u00e1quinas de lavar roupas e por seu modo de funcionar.<\/p>\n<p>\u00c9ric Laurent (2014) esclarece que n\u00e3o existem, no corpo do sujeito autista, os furos que permitem a constru\u00e7\u00e3o dos trajetos pulsionais para descarga do gozo. Por essa raz\u00e3o, um dos modos pelo qual ele tenta dar conta desse excesso de gozo no corpo se faz por meio da inven\u00e7\u00e3o de objetos muito particulares, a partir dos quais ele se acopla como se criasse, assim, um \u00f3rg\u00e3o suplementar a seu corpo para localizar o gozo. Esse autor confere a esses objetos aut\u00edsticos a fun\u00e7\u00e3o de produzir bordas de gozo.<\/p>\n<p>O avan\u00e7o do tratamento, entretanto, indicou algo distinto disso. O modo como a crian\u00e7a se valia desses objetos parecia apontar para a forma de funcionamento de seu corpo, de seus circuitos pulsionais dispersos, fragmentados, perturbado por uma desregula\u00e7\u00e3o libidinal por n\u00e3o poder contar com o significante produtor de uma perda de gozo, o falo, que viria domestic\u00e1-lo e localiz\u00e1-lo no corpo.<\/p>\n<p>Um exemplo cl\u00e1ssico dessa perturba\u00e7\u00e3o foi dado por Freud (1911) em sua an\u00e1lise do relato do presidente Schreber, na qual ele destaca que, quando sua libido invade a imagem do corpo pr\u00f3prio, irrompe seu gozo narc\u00edsico. \u00c9, portanto, essa imagem invadida por uma carga de libido n\u00e3o castrada que o faz perceber sua imagem como feminina, isto \u00e9, como um corpo dotado de um gozo que n\u00e3o se reduz ao gozo f\u00e1lico.<\/p>\n<p>Outro elemento crucial refere-se ao fato de que a m\u00e3e da crian\u00e7a vivia perambulando nas ruas e bebia muito na \u00e9poca em que ele nasceu. Ela recorda que s\u00f3 se deu conta de que estava gr\u00e1vida quando o filho estava prestes a nascer. Retomo aqui o que Lacan observou a respeito da crian\u00e7a objetificada pelo Outro materno e seus efeitos no malogro da constitui\u00e7\u00e3o do corpo:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>\u201cAqui se inscreve a possibilidade da fantasia do corpo despeda\u00e7ado com que alguns de voc\u00eas se depararam entre os esquizofr\u00eanicos. [\u2026] o que a m\u00e3e do esquizofr\u00eanico articula sobre o que seu filho era para ela no momento em que estava no seu ventre \u2013 nada al\u00e9m de um corpo, inversamente c\u00f4modo ou incomodo, ou seja, a subjetiva\u00e7\u00e3o do a como puro real.\u201d (LACAN [1962-63], 2005, p. 113)<\/em><\/p>\n<p>O uso abusivo da bebida e a err\u00e2ncia pelas ruas, deixando a crian\u00e7a sozinha em casa, s\u00f3 ir\u00e1 cessar, relata ainda a m\u00e3e do menino, frente \u00e0 amea\u00e7a de perder a sua casa, recebida em um programa social de moradias.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio, considerou-se que esse sujeito se apoiava nas m\u00e1quinas aos moldes de uma pr\u00f3tese, como um recurso frente \u00e0 total aus\u00eancia de um corpo, o que pode ser uma solu\u00e7\u00e3o no autismo. Entretanto, o surgimento, no decorrer do tratamento, de m\u00e1quinas distintas, ligadas \u00e0s diferentes fun\u00e7\u00f5es corporais \u2013 nas quais circulam l\u00edquidos, oxig\u00eanio ou mesmo o calor que aquece corpos mortos \u2013, conduziu a pensar em uma constru\u00e7\u00e3o delirante destinada a se fazer um corpo, ainda que disperso, n\u00e3o unificado, tal como ocorre na esquizofrenia.<\/p>\n<p>Essa hip\u00f3tese se confirma quando, certa vez, ao se deparar com uma cena de m\u00e3es com suas crian\u00e7as, o menino diz: \u201cN\u00e3o existem m\u00e1quinas de lavar pequena, m\u00e9dia e grande? Ent\u00e3o, tamb\u00e9m existem crian\u00e7as pequenas, m\u00e9dias e grandes. As pequenas n\u00e3o andam ainda e dormem no colo da m\u00e3e\u201d. E acrescenta: \u201ceu durmo no colo da minha m\u00e3e\u201d.<\/p>\n<p>Ao ouvi-lo fazer essa s\u00e9rie meton\u00edmica envolvendo crian\u00e7as e m\u00e1quinas de lavar, me pergunto se n\u00e3o \u00e9 dessa natureza a parceria que foi poss\u00edvel para essa m\u00e3e fazer com seu filho. Trata-se, certamente, n\u00e3o de uma crian\u00e7a-falo, que se inscreve no desejo de uma mulher, mas podemos pensar em uma \u201ccrian\u00e7a-m\u00e1quina\u201d, no sentido de uma m\u00e3e que dispensa cuidados a seu filho, digamos, maquinalmente: cuidar do filho lhe permite preservar a sua casa.<\/p>\n<p><strong>\u201cAs Crian\u00e7as Do Um Sozinho\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Em seu recente livro, Suzana Barroso recupera a express\u00e3o \u201cas crian\u00e7as do Um sozinho\u201d, cunhada pela psicanalista Estela Solano para se referir \u00e0s crian\u00e7as autistas e esquizofr\u00eanicas cujos corpos n\u00e3o se constitu\u00edram devido \u00e0 aus\u00eancia da articula\u00e7\u00e3o do par S1 e S2 ou \u00e0 falta de poder contar com o apoio de um discurso estabelecido em consequ\u00eancia da foraclus\u00e3o do Nome do Pai. Nessa cl\u00ednica, estamos diante de sujeitos cujos sintomas demonstram essa desconex\u00e3o do Outro.<\/p>\n<p>A esquizofrenia, ensina Lacan, se inscreve como paradigm\u00e1tica do \u201cfora do discurso da psicose\u201d (LACAN, 1972- 2003, p. 492) no que concerne a impossibilidade de saber fazer com o mais fundamental \u00f3rg\u00e3o do corpo, a linguagem. Na aus\u00eancia desse saber, cabe ao sujeito invent\u00e1-lo a partir dos elementos de sua lalangue, conceito lacaniano para se referir a \u201ca massa sonora que antecede a captura do falasser pela estrutura da linguagem\u201d (BARROSO, 2014, p. 257).<\/p>\n<p>As crian\u00e7as psic\u00f3ticas \u2013 tanto quanto as neur\u00f3ticas \u2013 podem produzir sozinhas suas inven\u00e7\u00f5es ou, podemos tamb\u00e9m dizer, suas constru\u00e7\u00f5es sintom\u00e1ticas para introduzir uma subtra\u00e7\u00e3o no lugar do Outro, fazendo-o inexistir, como \u00e9 peculiar, sobretudo, na esquizofrenia. O analista, contudo, pode ajud\u00e1-las nessas constru\u00e7\u00f5es, acolhendo esses modos singulares de tratamento do gozo no corpo daqueles que dispensam a estrutura do Outro para tal fim.<\/p>\n<p>Operar clinicamente a partir de lalangue pode abrir espa\u00e7o para o surgimento de um modo de transfer\u00eancia que possibilite \u201calgum aparelhamento do gozo pela linguagem\u201d (BARROSO, 2014, p. 329), propiciando a constru\u00e7\u00e3o de um corpo e de um la\u00e7o social.<\/p>\n<p><strong>O Outro Como M\u00e1quina<\/strong><\/p>\n<p>Se o enigma precocemente encontrado pela crian\u00e7a, cuja resolu\u00e7\u00e3o determina sua estrutura, pode ser nomeado enigma do desejo da m\u00e3e, conforme o regime edipiano, no s\u00e9culo XXI, com Lacan ele adquire seu verdadeiro nome: enigma do gozo. A resposta tradicional e resolutiva dada a esse enigma pelo Nome do Pai d\u00e1 lugar, hoje, a uma pluralidade de discursos que revelam a facticidade e a inconsist\u00eancia fundamental do Outro. Assim, todo discurso se apresenta como uma resposta a essa inconsist\u00eancia, uma resposta sempre no fundo e em si mesma, delirante. Todo discurso toma o valor de um semblante compensat\u00f3rio. Mais al\u00e9m da dimens\u00e3o de discurso \u00e9 a l\u00edngua em si mesma, que leva em conta a opera\u00e7\u00e3o de marca\u00e7\u00e3o do gozo no corpo. Passamos ent\u00e3o, da dimens\u00e3o universalizante da linguagem, \u00e0 dimens\u00e3o de uma lalangue singular para cada um, n\u00e3o mais como discurso, mas como escrita, como sintoma a ser lido, conforme Miller evidenciou no ultim\u00edssimo ensino de Lacan (HOLVOET, 2013, p. 11).<\/p>\n<p>Assim, verificamos que, de acordo com a \u00e9poca, o Outro adquire figuras diferentes. A linguagem, que Lacan nomeou grande Outro, \u00e9 uma grande m\u00e1quina \u00e0 qual estamos todos presos. Em seu texto \u201cQuest\u00f5es sobre os autismos\u201d (LAURENT,2013, p. 175), \u00c9ric Laurent retoma essa formula\u00e7\u00e3o particularizando o uso dessa m\u00e1quina significante na neurose e na psicose:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>\u201cO sujeito s\u00f3 se prende \u00e0 m\u00e1quina da linguagem com a condi\u00e7\u00e3o de se prender a uma m\u00e1quina, a um objeto. E cada um de n\u00f3s est\u00e1 preso a esta grande, e complexa, m\u00e1quina da linguagem \u2013 o grande Outro. Os neur\u00f3ticos se esquecem que est\u00e3o presos \u00e0 ela. A dram\u00e1tica edipiana lhes serve de maquin\u00e1rio para esquecer a pris\u00e3o \u00e0 esta m\u00e1quina, pura repeti\u00e7\u00e3o. Na psicose, os del\u00edrios, as localiza\u00e7\u00f5es da linguagem, o centro da linguagem s\u00e3o as v\u00e1rias formas de deslocar a quest\u00e3o desta pris\u00e3o\u201d (LAURENT, 2013, p. 178).<\/em><\/p>\n<p>Laurent assinala, ainda nesse mesmo texto, que o corpo robotizado ou maquinizado do autista n\u00e3o seria da mesma ordem do corpo fragmentado do sujeito esquizofr\u00eanico. O caso discutido permite colocar essa diferen\u00e7a em destaque, oferecendo uma precis\u00e3o importante que esclarece esta d\u00favida: as m\u00e1quinas n\u00e3o lhe servem como objetos aut\u00edsticos produtores de bordas de gozo. Elas indicam, antes, o modo fragmentado de funcionamento do corpo, localizando-o no campo da esquizofrenia. O que desregula o circuito libidinal em seu corpo \u00e9 a foraclus\u00e3o do Nome do Pai.<\/p>\n<p><strong>A Constru\u00e7\u00e3o De Um Corpo A Partir Da Lalangue<\/strong><\/p>\n<p>Sabemos que, para aqueles que consentiram com a lei da castra\u00e7\u00e3o, o gozo se encontra localizado em um objeto perdido, o objeto a, resultado da inscri\u00e7\u00e3o do significante f\u00e1lico. Mas, para o sujeito esquizofr\u00eanico, esse objeto se encontra disperso em seu corpo. O esquizofr\u00eanico, segundo Miller (2003), enigmatiza a presen\u00e7a no corpo, torna enigm\u00e1tico o ser no corpo. Esse autor parte da premissa de que existe uma antinomia entre \u00f3rg\u00e3o e fun\u00e7\u00e3o: \u201cTemos \u00f3rg\u00e3os e cabe-nos, aos poucos, descobrirmos para qu\u00ea eles servem\u201d (MILLER, 2003, p. 7). O \u201cpara que serve\u201d do \u00f3rg\u00e3o est\u00e1 presente desde o in\u00edcio, por excel\u00eancia, quando se trata dos \u00f3rg\u00e3os sexuais. Esta \u00e9 a quest\u00e3o do menino: como se servir de seu \u201cpipi\u201d j\u00e1 que, cedo, descobre que a fun\u00e7\u00e3o de mic\u00e7\u00e3o n\u00e3o esgota tudo o que se pode fazer com ele. Assim, a crian\u00e7a descobre a fun\u00e7\u00e3o prazer, mais al\u00e9m daquela ditada pela fisiologia. Essa outra fun\u00e7\u00e3o do \u00f3rg\u00e3o sexual masculino, suas manifesta\u00e7\u00f5es de gozo que ocorrem \u00e0 revelia daquele que o porta, fez Lacan afirmar que o falo se apresenta como um \u00f3rg\u00e3o fora do corpo justamente por escapar ao seu controle.<\/p>\n<p>No caso dessa crian\u00e7a, parece que seu interesse pelos circuitos funcionais das m\u00e1quinas se inscreve como algo da ordem do \u201cpara que serve\u201d dos \u00f3rg\u00e3os. Dito de outro modo, ela parece localizar, no funcionamento das m\u00e1quinas de lavar, o que n\u00e3o consegue localizar no corpo. \u00d3rg\u00e3o e fun\u00e7\u00e3o, para esse menino, permanecem disjuntos.<\/p>\n<p>Assim busca construir, com sua lalangue, um corpo. Esse corpo, que n\u00e3o para de se movimentar, de se agitar, \u00e9 um corpo que goza nele. Seus bra\u00e7os e tronco balan\u00e7am sem parar, repentinamente as palavras lhe escapam. No entanto, ao ouvir o significante \u201cm\u00e1quinas de lavar\u201d, seu corpo se acalma, o faz falar, dessa vez endere\u00e7ando-se ao outro. Esse parece ser o primeiro significante S1 que o representa, assim como parece representar a m\u00e3e que, segundo a analista, cuida de seu filho maquinalmente. M\u00e3e e filho parecem ser, portanto, duas m\u00e1quinas, dois corpos-m\u00e1quina que se conectam um ao outro.<\/p>\n<p>Podemos dizer que essa \u00e9 uma primeira identifica\u00e7\u00e3o que lhe permitiu \u201cinventar um discurso\u201d e, assim, se ligar a esse Outro: tanto \u00e0 m\u00e3e-m\u00e1quina como a seu corpo-m\u00e1quina. Ele se interessa pelos circuitos funcionais das m\u00e1quinas de lavar pois parece que, tal como ele, em certos momentos, elas se agitam, se movimentam sem parar, al\u00e9m de fazerem barulho. Seu corpo \u00e9 uma m\u00e1quina que funciona atrav\u00e9s de circuitos fragmentados.<\/p>\n<p><strong>Palavras Que Fazem Corpo<\/strong><\/p>\n<p>Parece-nos \u00f3bvio o fato de que todo ser humano tenha um corpo. Mas Lacan faz uma distin\u00e7\u00e3o importante entre o organismo humano e o corpo do ser falante ou falasser. Ele nos diz que o corpo \u00e9 um efeito da linguagem que vem do Outro chamado materno. Em outras palavras, \u00e9 esse Outro materno que d\u00e1 corpo ao organismo da crian\u00e7a, porque o corpo \u00e9 o lugar do Outro. Um Outro que nos inscreve na humanidade atrav\u00e9s de seu desejo n\u00e3o an\u00f4nimo, como Lacan tamb\u00e9m o indica em \u201cNota sobre a crian\u00e7a\u201d (LACAN, 2003). Em seu semin\u00e1rio Mais, ainda (LACAN, 1985), sustenta que o corpo \u00e9 a sede do gozo e prop\u00f5e tomar o falasser como aquele que, falando, goza. Podemos express\u00e1-lo com a f\u00f3rmula: \u201cAs palavras fazem corpo\u201d (SALMAN, 2013, p. 8). De fato, as palavras enla\u00e7am o corpo e constituem o inconsciente de um modo distinto do inconsciente pensado por Freud, pois, para Lacan, elas carregam o peso do real. Ter um corpo \u00e9 precisamente onde o esquizofr\u00eanico fracassa. Em seu lugar, restam os \u00f3rg\u00e3os disjuntos. Freud, em sua abordagem da esquizofrenia, nomeou \u201clinguagem de \u00f3rg\u00e3o\u201d a linguagem singular que remete ao gozo autoer\u00f3tico dos \u00f3rg\u00e3os disjuntos. Lacan, por sua vez, a designar\u00e1, mais tarde, como lalangue: l\u00edngua da qual goza o ser falante.<\/p>\n<p>Esse menino-m\u00e1quina, agitado, agressivo, cujo corpo n\u00e3o cessa de se movimentar, inventa seus pequenos pontos de basta, suas pequenas identifica\u00e7\u00f5es, suas palavras, com as quais vai construir um corpo. Nos mostra como consegue, a partir delas \u2013 e do encontro com um analista \u2013 avan\u00e7ar em suas constru\u00e7\u00f5es na tentativa de lidar com esse real que habita seu corpo, que o invade e o agita. \u00c9 atrav\u00e9s de sua lalangue, ligada ao circuito funcional das m\u00e1quinas, que ele se liga a seu corpo e inventa um semblante poss\u00edvel para amarrar algo de seu gozo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>(1) O termo falasser foi introduzido por Lacan para designar a indissociabilidade entre o sujeito e seu corpo ou entre o sujeito e o gozo.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/h6>\n<h6>BARROSO, S. As psicoses na inf\u00e2ncia: o corpo sem a ajuda de um discurso estabelecido. Belo Horizonte: Scriptum, 2014.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Notas psicanal\u00edticas sobre um relato autobiogr\u00e1fico de um caso de paran\u00f3ia. (1911-1925). Rio de Janeiro: Imago, 1969. (Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas, vol. 12).<\/h6>\n<h6>HOLVOET, D. \u201cEn introduction\u201d, In: Mental n\u00ba30, p. 11-13.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cO Aturdito\u201d, In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 448-497.<\/h6>\n<h6>______. \u201cNota sobre a crian\u00e7a\u201d, In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 369-370.<\/h6>\n<h6>______. O Semin\u00e1rio. Livro X: a ang\u00fastia [1962-63]. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.<\/h6>\n<h6>______. O Semin\u00e1rio. Livro XX: mais, ainda [1972-1973]. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. A batalha do autismo: da cl\u00ednica \u00e0 pol\u00edtica. Rio de Janeiro: Zahar, 2014, ps. 49-59.<\/h6>\n<h6>______. \u201cQuestions sur les autismes\u201d, In: Mental n\u00ba30, 2013, ps. 175-206.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cA inven\u00e7\u00e3o psic\u00f3tica\u201d, In: Op\u00e7\u00e3o lacaniana. Revista Brasileira e Internacional de Psican\u00e1lise, n\u00ba. 36, maio \u2013 2003, ps. 6-16.<\/h6>\n<h6>SALMAN, S. \u201cEl cuerpo en la experi\u00eancia de la an\u00e1lisis\u201d. In: COLOFON 33, Cuerpos que hablan. FIBOL, maio, 2013, p. 8.<\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PATR\u00cdCIA RIBEIRO E ALESSANDRA ROCHA &nbsp; A partir do tema que orientou os trabalhos do N\u00facleo de Pesquisa e Psican\u00e1lise com Crian\u00e7as em 2014, \u201cO Trauma e o real na cl\u00ednica: o que as crian\u00e7as inventam\u201d, trouxemos \u00e0 discuss\u00e3o o caso de uma crian\u00e7a psic\u00f3tica para destacar a import\u00e2ncia do que um sujeito pode inventar&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58189,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[],"class_list":["post-702","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-15","category-11","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/702","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=702"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/702\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58190,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/702\/revisions\/58190"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58189"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=702"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=702"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=702"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}