{"id":718,"date":"2014-07-17T06:55:36","date_gmt":"2014-07-17T09:55:36","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=718"},"modified":"2025-12-01T17:12:15","modified_gmt":"2025-12-01T20:12:15","slug":"imperio-das-imagens-um-ponto-de-vista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2014\/07\/17\/imperio-das-imagens-um-ponto-de-vista\/","title":{"rendered":"Imp\u00e9rio Das Imagens: Um Ponto De Vista"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>S\u00c9RGIO CAMPOS<\/strong><\/h6>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Sergio-1024x406-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"1024\" data-large_image_height=\"406\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-719\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Sergio-1024x406-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"406\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Sergio-1024x406-1.jpg 1024w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Sergio-1024x406-1-300x119.jpg 300w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Sergio-1024x406-1-768x305.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p>O mundo das imagens, grosso modo, se divide em dois dom\u00ednios. O primeiro dom\u00ednio \u00e9 o da esfera do aparelho ps\u00edquico do parl\u00eatre, das imagens produzidas pelo nosso inconsciente como as representa\u00e7\u00f5es mentais: sonhos, devaneios e fantasias. O segundo dom\u00ednio pode ser descrito como sendo o das representa\u00e7\u00f5es visuais, os objetos materiais e os signos que representam o Outro, ou seja, o mundo exterior. \u00c9 digno de nota que as imagens do Outro influenciam as imagens do parl\u00eatre, e as imagens deste recriam as imagens do Outro, de sorte que um dom\u00ednio incide e se infiltra sobre o outro, produzindo todo um interc\u00e2mbio e uma superposi\u00e7\u00e3o de imagens que produzem efeitos subjetivos de todas as ordens.<\/p>\n<p>Ao analisarmos a exist\u00eancia das imagens do Outro, podemos concluir que existem, de uma forma geral, tr\u00eas modelos de imagem e, por consequ\u00eancia, tr\u00eas maneiras de ver o Outro. O primeiro modelo, considerado artesanal, nomeia todas as imagem feitas \u00e0 m\u00e3o, dependendo, portanto, de um savoir-faire \u2013 da habilidade e do talento \u2013 de cada um, plasmar o vis\u00edvel, a imagina\u00e7\u00e3o visual e at\u00e9 mesmo o invis\u00edvel. Nesse conjunto distinguimos dois tipos de imagem, segundo Freud: aquelas cujas t\u00e9cnicas art\u00edsticas agregam \u2013 per via di porre \u2013, como os desenhos e as pinturas, e aquelas cujas t\u00e9cnicas retiram \u2013 per via di levare \u2013, como esculturas em m\u00e1rmore e madeira. Freud sinalizou o funcionamento de uma an\u00e1lise per via di levare (FREUD, 1904\/1990).<\/p>\n<p>O segundo modelo se refere \u00e0s imagens que dependem da luz \u2013 elemento f\u00edsico de visibilidade \u2013 e de uma m\u00e1quina de registro, implicando a presen\u00e7a de objetos no campo da realidade. Esse modelo pode ser denominado luminoso, visto que, para que ele ocorra, deve haver luminosidade. O modelo luminoso permite que as imagens \u00f3ticas se projetem atrav\u00e9s de um raio de luz a partir de um objeto natural captado na realidade, de tal sorte que esse objeto \u00e9 fixado por um elemento fotossens\u00edvel qu\u00edmico, como nos casos da fotografia e do cinema. O modelo luminoso foi paradigma no s\u00e9culo XX nas grandes descobertas e nas formid\u00e1veis inven\u00e7\u00f5es da ci\u00eancia como meios de investiga\u00e7\u00e3o do mundo natural, como o microsc\u00f3pio e o telesc\u00f3pio. Freud analisou que, a cada inven\u00e7\u00e3o, o homem recria seus pr\u00f3prios \u00f3rg\u00e3os, ampliando os limites de seu funcionamento. No que concerne \u00e0 puls\u00e3o esc\u00f3pica e \u00e0s imagens do Outro, a c\u00e2mara fotogr\u00e1fica ret\u00e9m as impress\u00f5es visuais fugidias; por meio de \u00f3culos, corrige os defeitos das lentes dos pr\u00f3prios olhos; atrav\u00e9s do telesc\u00f3pio, v\u00ea \u00e0 longa dist\u00e2ncia; e, por meio do microsc\u00f3pio, supera os limites de visibilidade da pr\u00f3pria retina (FREUD, 1929\/1990).<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, o terceiro modelo das imagens do Outro, que denominamos digital, apan\u00e1gio do s\u00e9culo XXI, se relaciona com as imagens sint\u00e9ticas, infogr\u00e1ficas, virtuais, inteiramente calculadas pela computa\u00e7\u00e3o. O terceiro modelo da imagem do Outro se constitui a partir da transforma\u00e7\u00e3o de uma matriz de n\u00fameros inteiramente calculada em pontos digitais elementares \u2013 pixel \u2013 que visualizamos em um \u00e9cran que nos olha (SANTAELLA, 2001). Ali\u00e1s, \u00e9 no terceiro modelo que se configura o imp\u00e9rio das imagens como unidade pol\u00edtica de dom\u00ednio soberano e de autoridade do Outro, forma de governo com influ\u00eancia dominadora no mercado sob o ponto de vista econ\u00f4mico em um vasto territ\u00f3rio e uma ordem de ferro com poder irrestrito de informa\u00e7\u00e3o com fins ao controle.<\/p>\n<p>Miller, inspirado em Antonio Negri, soci\u00f3logo italiano, assinala que vivemos na era do \u201cOutro que n\u00e3o existe\u201d, em um regime que n\u00e3o age mais pela censura, tornando improv\u00e1vel a ideia de transgress\u00e3o e de revolu\u00e7\u00e3o. Deslocamos da sociedade disciplinar, que sup\u00f5e uma clara distin\u00e7\u00e3o entre o in e o out, para a sociedade de controle, interiorizada, flex\u00edvel, em rede, flutuante e \u00eaxtima. O imperialismo, hoje, n\u00e3o \u00e9 mais de ningu\u00e9m, est\u00e1 em todas as partes e em nenhuma, pois n\u00e3o h\u00e1 mais fronteiras entre o in e o out (MILLER, 2011). O imp\u00e9rio das imagens do Outro se propaga e se difunde em volume e profus\u00e3o, corrompe nosso modo de vida e nosso aparato ps\u00edquico, se infiltra em nossos lares sem pedir permiss\u00e3o, nos induz ao consumo de objetos sup\u00e9rfluos, nos torna ref\u00e9ns e se alastra mediante as novas tecnologias, contaminando todos os gadgets, constituindo, assim, o que Lacan nomeou de alethosphera.<\/p>\n<p>Se levarmos em considera\u00e7\u00e3o o tempo em articula\u00e7\u00e3o com as imagens do Outro, pode-se deduzir que o modelo artesanal tem, por natureza, o perene; o segundo, o luminoso, circunscreve o mundo do instant\u00e2neo, do lapso e da interrup\u00e7\u00e3o do fluxo do tempo e, por \u00faltimo, o modelo digital se configura como o universo do evanescente, do devir, do tempo puro, manipul\u00e1vel, revers\u00edvel e reinici\u00e1vel em qualquer momento (SANTAELLA, 2001).<\/p>\n<p>Do ponto de vista do parl\u00eatre, a imagem artesanal \u00e9 feita para a contempla\u00e7\u00e3o do Outro, a imagem luminosa se presta \u00e0 observa\u00e7\u00e3o do Outro e, a digital, \u00e0 intera\u00e7\u00e3o com o Outro. Na imagem artesanal, havendo nela algo de sagrado, evoca uma nostalgia do divino. Portanto, a imagem artesanal convoca o parl\u00eatre a um imposs\u00edvel contato imediato, sem media\u00e7\u00f5es com o transcendente, ao mesmo tempo em que produz um afastamento que \u00e9 pr\u00f3prio dos objetos \u00fanicos, envolvidos num c\u00edrculo m\u00e1gico da aura de autenticidade, como foi teorizado por Walter Benjamin. J\u00e1 a imagem luminosa \u00e9 profana, pois surge como um fragmento arrancado do corpo do Outro, oferecendo-se ao parl\u00eatre como objeto de observa\u00e7\u00e3o, um recorte do Outro em sua realidade e em sua natureza. Nesse segundo modelo, o objeto extra\u00eddo do campo do Outro solicita ao parl\u00eatre aquiesc\u00eancia e reconhecimento do Outro, produzindo mem\u00f3ria e identifica\u00e7\u00e3o. Por \u00faltimo, as imagens digitais do terceiro modelo produz a interatividade entre o Outro e o parl\u00eatre, suprimindo as dist\u00e2ncias, engendrando uma imers\u00e3o e uma navega\u00e7\u00e3o nas circunvolu\u00e7\u00f5es no interior da imagem (SANTAELLA, 2001,).<\/p>\n<p>O terceiro modelo se propaga de maneira inquietante pelas novas paisagens da internet e se expressa de maneira imperativa como apan\u00e1gio do progresso, no qual a informa\u00e7\u00e3o \u00e9 signo de poder. Se, por um lado, o primeiro modelo est\u00e1 situado na condi\u00e7\u00e3o de \u201cver e n\u00e3o ser visto\u201d, como no pan\u00f3ptico de Jeremy Benthan, no terceiro modelo o axioma do pan\u00f3ptico se desloca para o imperativo \u201cver, tudo ver, ver tudo de tudo\u201d, que se expressa como uma vontade de gozo que se imp\u00f5e como uma lei (FOUCAULT, 2007). J\u00e1 nos anos 30, Walter Benjamin assinalava que \u201coutrora, com Homero, a humanidade tinha sido objeto de contempla\u00e7\u00e3o dos deuses do Olympo, agora se ela torna objeto de contempla\u00e7\u00e3o de si mesma\u201d (BENJAMIN, 1996, p. 33). O terceiro modelo, apan\u00e1gio do imp\u00e9rio das imagens, criou o Outro evanescente, mas tamb\u00e9m onividente, fruto da bricolagem da ci\u00eancia e da tecnologia, cujo olhar n\u00e3o mais transcende, tampouco contempla o mundo; contudo, supervisiona, controla, se infiltra e se imiscui na sociedade e em todos os dom\u00ednios da vida. Entretanto, n\u00e3o mais vigia de fora, como o pan\u00f3ptico de Benthan, mas controla de dentro, abolindo a fronteira entre o in e o out.<\/p>\n<p>Se no primeiro e no segundo modelo, por detr\u00e1s da imagem, h\u00e1 uma sombra, a Coisa a ser representada que guarda dist\u00e2ncia com a pr\u00f3pria imagem, visto que a imagem, como um v\u00e9u, vela o real do gozo, pode-se dizer que, no terceiro modelo, a imagem digital est\u00e1 chapada sobre a Coisa (WAJCMAN, 2010). A tela plana do computador n\u00e3o nos deixa mais imaginar o que se encontra por detr\u00e1s da imagem, de modo que n\u00e3o mais existe uma dist\u00e2ncia entre a imagem e a Coisa. Portanto, a imagem do Outro e a Coisa se superp\u00f5em, se tornam \u00edntimas e se confundem, de tal sorte que a imagem fabrica uma ilus\u00e3o do real. Nos tempos de hoje, as imagens s\u00e3o f\u00e1bricas do real (WACJMAN, 2010). Portanto, no contempor\u00e2neo, segue-se a orienta\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o se deve mascarar o mundo, mas mostr\u00e1-lo como ele \u00e9 de fato. Outrora, sob o dom\u00ednio do modelo luminoso, o neorrealismo italiano, o fotojornalismo e os fot\u00f3grafos de guerra tentaram captar o real em suas lentes e mostrar o mundo como ele \u00e9.<\/p>\n<p>No mundo de hoje, temos o homem-imagem, impregnado pelas imagens do Outro, agora n\u00e3o mais especular como o fotojornalismo, tampouco intersubjetivo, fruto de uma \u201cimagem-rainha\u201d espessa, que encobria a sombra do objeto, como cogitou Lacan no est\u00e1gio do espelho. Entretanto, temos a imagem do homem constru\u00eddo pela tecnologia que tenta traduzir o pr\u00f3prio real, como as imagens m\u00e9dicas das resson\u00e2ncias magn\u00e9ticas. Com efeito, a alta modernidade tamb\u00e9m \u00e9 id\u00f3latra, particularmente, das imagens cient\u00edficas e das imagens tecnol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>O terceiro modelo, no qual a imagem fabrica uma ilus\u00e3o do real, se infiltrou n\u00e3o apenas na ci\u00eancia, mas em diversos terrenos da cultura e da arte. Em 1977, o alem\u00e3o Gunther von Hagens, conhecido como plastificador de corpos, criou uma t\u00e9cnica inovadora de preserva\u00e7\u00e3o de cad\u00e1veres e a elevou ao estatuto de arte. Sua t\u00e9cnica mescla congelamento, acetona e pol\u00edmeros. O resultado \u00e9 uma verdadeira aula de anatomia que faz parte da exposi\u00e7\u00e3o \u201cBody Worlds\u201d (mundo de corpos), que fica na Atlantis Gallery, em Londres. Ao expor cerca de 200 cad\u00e1veres sem pele, como o de uma mulher gr\u00e1vida dissecada com o feto exposto, Hagens despertou rea\u00e7\u00f5es mistas de repulsa, indigna\u00e7\u00e3o, surpresa e fascina\u00e7\u00e3o. A exposi\u00e7\u00e3o esteve no Brasil com o nome \u201cCiclo da vida\u201d, inclusive em Belo Horizonte, em 2009. O que se observa nas imagens digitais, em que a imagem e o real est\u00e3o em continuidade, \u00e9 o desaparecimento dos semblantes. Essas imagens mostram apenas o que o objeto \u00e9, elas n\u00e3o aludem, tampouco querem dizer algo. Portanto, existe mais semblante numa medalhinha da Virgem Maria do que nos corpos de Gunther von Hagens.<\/p>\n<p>Com efeito, um modelo nunca se desloca em dire\u00e7\u00e3o ao outro de maneira abrupta, mas v\u00e3o se mesclando, se justapondo, se infiltrando, se transformando gradativamente um no outro, de sorte que, hoje, a imagem do Outro nunca se encontra com exclusividade dentro de um \u00fanico modelo. Com efeito, mesmo que tenha um vi\u00e9s, ela se apresenta amarrada como num n\u00f3 RSI. Assim, grosso modo, o modelo artesanal pode ser considerado como apan\u00e1gio do imagin\u00e1rio, na medida em que ele reproduz o corpo pr\u00f3prio, o corpo do Outro e o falo; o modelo luminoso, em raz\u00e3o da extra\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea do objeto, em virtude do recorte da realidade, pode ser aludido ao objeto a e ao registro do simb\u00f3lico; j\u00e1 na esfera do real, poder\u00edamos supor o modelo digital como uma esp\u00e9cie de f\u00e1brica do real.<\/p>\n<p>Em novembro \u00faltimo, visitei uma bela exposi\u00e7\u00e3o em Paris, de nome \u201cIc\u00f4nes du Petit Palais\u201d, sobre a arte crist\u00e3 bizantina. N\u00e3o resta d\u00favida de que a exposi\u00e7\u00e3o de \u00edcones sagrados, atrav\u00e9s de pinturas e esculturas, estava alojada no RSI, por\u00e9m com preval\u00eancia no modelo artesanal, j\u00e1 que sua fun\u00e7\u00e3o era, a partir dos semblantes, despertar a contempla\u00e7\u00e3o e a reflex\u00e3o no parl\u00eatre.<\/p>\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o suscitava uma medita\u00e7\u00e3o sobre as religi\u00f5es que eram a favor ou contra as imagens religiosas. \u00c9 conhecido o interdito b\u00edblico \u00e0 teologia dos \u00edcones, de tal sorte que a figura\u00e7\u00e3o e o sagrado n\u00e3o s\u00e3o no\u00e7\u00f5es sempre compat\u00edveis. Se, por um lado, existem religi\u00f5es que possuem uma afinidade com as imagens, como o cristianismo e o hindu\u00edsmo, por outro, as religi\u00f5es isl\u00e2micas e judaicas pro\u00edbem qualquer tipo de imagem de Deus. \u00c9 digno de nota o fato de encontrarmos duas posi\u00e7\u00f5es antag\u00f4nicas no seio das tr\u00eas religi\u00f5es fundadas a partir do legado de Abraham.<\/p>\n<p>O juda\u00edsmo interdita toda sorte de representa\u00e7\u00e3o de Yahv\u00e9, como exprime um dos mandamentos no Tor\u00e1: \u201cN\u00e3o far\u00e1s para ti imagem de \u00eddolos, nem alguma semelhan\u00e7a do que h\u00e1 em cima nos c\u00e9us, nem embaixo na terra, tampouco nas \u00e1guas debaixo da terra\u201d (Exodus: 20, 4-5). O monote\u00edsmo e a interdi\u00e7\u00e3o das imagens funda uma teologia em que a cren\u00e7a deve acontecer sem a presen\u00e7a das imagens. O Deus de Israel \u00e9 aud\u00edvel e n\u00e3o vis\u00edvel, na medida em que \u00e9 na lei e na palavra que ele se inscreve para o seu povo. Em contrapartida, o isl\u00e3 pro\u00edbe, igualmente, todos os tipos de imagem de Deus. O Cor\u00e3o declara: \u201cAl\u00e1! O impenetr\u00e1vel! Al\u00e1 n\u00e3o se cria, nada se parece com ele\u201d. Ademais, \u201cDeus, o impens\u00e1vel, nada pode nem de longe refleti\u2013lo\u201d (Cor\u00e3o: 122). O profeta Maom\u00e9, venerado pelos mul\u00e7umanos, raramente aparece na arte isl\u00e2mica. Grafias sobre o profeta Maom\u00e9 figuram raramente, apenas nos manuscritos religiosos iranianos e otomanos, e ainda que surja sua imagem, ela nunca est\u00e1 \u00e0 mostra, \u00e9 frequentemente velada. O islamismo evita qualquer tipo de imagem de Deus ou de Maom\u00e9 para que a caligrafia se torne a \u00fanica encarna\u00e7\u00e3o da palavra divina. Portanto, a letra est\u00e1 para o isl\u00e3 assim como a voz est\u00e1 para a religi\u00e3o judaica.<\/p>\n<p>Diferente do juda\u00edsmo e do islamismo, o cristianismo desenvolve progressivamente uma tradi\u00e7\u00e3o na qual Deus \u00e9 esbo\u00e7ado em imagens e surge, frequentemente, ilustrado no mundo das artes. Ademais, na religi\u00e3o crist\u00e3, todo \u00edcone reenvia a um prot\u00f3tipo divino, n\u00e3o somente aut\u00eantico, mas revelado, no qual a imagem \u00e9 a c\u00f3pia fiel em semelhan\u00e7a com Deus e com as demais divindades. Possivelmente, as retic\u00eancias das duas religi\u00f5es em usar as imagens provavelmente adv\u00eam do paganismo, que utilizava imagens de totens para adora\u00e7\u00e3o. No s\u00e9culo VI e VII os imperadores romanos passaram a representar Cristo, santos e eles pr\u00f3prios em imagens, quer sejam esculturas, quer sejam cunhadas em moedas.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo VIII houve a crise iconoclasta, fruto de uma reviravolta pol\u00edtica dos imperadores do imp\u00e9rio bizantino e durou cerca de um s\u00e9culo, vitimando milhares de id\u00f3latras. Depois da crise iconoclasta, as imagens como representa\u00e7\u00f5es do sagrado e do divino ressurgiram nos textos can\u00f4nicos e se tornaram \u00edcones de culto, de venera\u00e7\u00e3o e de respeito. Portanto, no cristianismo, com as exce\u00e7\u00f5es dos cismas de Lutero e de Calvino e nas religi\u00f5es que foram marcadas pelas suas influ\u00eancias, a imagem tida como representa\u00e7\u00e3o aut\u00eantica, leg\u00edtima e revelada como \u00edcone, seguiu forte no catolicismo. Com efeito, na religi\u00e3o cat\u00f3lica, a imagem se apresenta como ferramenta essencial e indispens\u00e1vel ao culto, \u00e0 adora\u00e7\u00e3o e \u00e0 media\u00e7\u00e3o com o transcendente.<\/p>\n<p>O modelo artesanal, n\u00e3o obstante ter sido o primeiro que derivou em mais dois modelos, ainda continua a propagar efeitos subjetivos, dada a sua profundidade e a sua complexidade. Assim, \u00e9 curioso ressaltar que o culto ao sagrado e ao divino \u00e9 expresso apenas mediante o primeiro modelo, que \u00e9 o paradigma artesanal. Ali\u00e1s, n\u00e3o nos consta que o sagrado seja cultuado pela fotografia e pela internet. Portanto, pode-se concluir que, por detr\u00e1s do modelo artesanal das imagens, existe um gozo. Assim, se a imagem sacra \u00e9 atacada, surge o gozo da profana\u00e7\u00e3o e do sacril\u00e9gio e, em contrapartida, como rea\u00e7\u00e3o, surge o gozo da revolta e do \u00f3dio, a exemplo de um ataque televisionado \u00e0 imagem de Nossa Senhora Aparecida perpetrada por um pastor evang\u00e9lico, ocorrido h\u00e1 alguns anos.<\/p>\n<p>Miller assinala que, no final do s\u00e9culo XX, consider\u00e1vamos que os conceitos tais como blasf\u00eamia, sacril\u00e9gio e profana\u00e7\u00e3o n\u00e3o eram mais que vest\u00edgios de um tempo passado. Ele constata que a era da ci\u00eancia n\u00e3o fez desvanecer o sagrado, e mais, que o sagrado n\u00e3o \u00e9 arcaico, mas contempor\u00e2neo. O sagrado n\u00e3o \u00e9 o real, mas um efeito de discurso, uma fic\u00e7\u00e3o que mant\u00e9m uma comunidade unida. Ali\u00e1s, o sagrado \u00e9 a pedra angular de sua ordem simb\u00f3lica, ressalta Miller. O sagrado exige rever\u00eancia e respeito, e a falta deles acarreta o caos e o gozo da profana\u00e7\u00e3o e do sacril\u00e9gio e, em contrapartida, desperta o gozo da ira e do \u00f3dio.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, no epis\u00f3dio do atentado \u00e0 sede do peri\u00f3dico Charlie Hebdo, na cidade de Paris, em janeiro \u00faltimo, constatamos que estamos diante de um choque de ideologias no qual est\u00e3o em jogo dois modelos da imagem. Se por um lado h\u00e1 uma cultura situada no terceiro modelo, que defende um modo de gozo no qual \u00e9 proibido proibir e que \u00e9 permitido tudo dizer, em nome de uma liberdade de express\u00e3o, de outro temos uma cultura que se situa no primeiro modelo, na qual dentro de seu n\u00facleo religioso existe o interdito da representa\u00e7\u00e3o de imagens tanto de Al\u00e1 quanto do profeta Maom\u00e9.<\/p>\n<p>Portanto, s\u00e3o dois tipos de gozo em oposi\u00e7\u00e3o: o primeiro, resultado de um tudo dizer, tudo expressar em nome da liberdade, e um segundo, o gozo da c\u00f3lera revelado em virtude da blasf\u00eamia, da profana\u00e7\u00e3o e do sacril\u00e9gio em consequ\u00eancia do uso abusivo de um \u00edcone que deveria permanecer velado por respeito. Em s\u00edntese, no contempor\u00e2neo encontramos dois modos de gozo justapostos, por\u00e9m em oposi\u00e7\u00e3o, como descreveu J\u00e9sus Santiago (2014) de maneira bastante esclarecedora em seu artigo: um modo de gozo feminino, n\u00e3o-todo, situado a partir da pluraliza\u00e7\u00e3o do nomes do pai, e outro universal, masculino, assentado sobre as ins\u00edgnias do nome do pai.<\/p>\n<p>O olhar no terceiro modelo da imagem, no imp\u00e9rio das imagens, se constitui como alvo da puls\u00e3o, que se expressa pela puls\u00e3o esc\u00f3pica, condicionando o gozo mediante a posi\u00e7\u00e3o de \u201cver, tudo ver, ver tudo de tudo e ser visto por todos\u201d, o que n\u00e3o implica qualquer tipo de resto. \u00c9, portanto, relevante afirmar que apenas na medida em que a puls\u00e3o esc\u00f3pica seja modulada, que ela seja parcial, que deixe sombras, restos, dobras, buracos, enigmas e espa\u00e7os vazios, \u00e9 que o olhar, como puls\u00e3o, pode despertar e instigar um desejo de saber. Assim, nos resta interrogar como a psican\u00e1lise poder\u00e1 operar sobre o parl\u00eatre no contempor\u00e2neo, como ela poder\u00e1 sobreviver no futuro, em que a dimens\u00e3o do Outro como imperativo do \u201cfazer-se ver\u201d, sem resto, \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o prevalente de possibilidade para o terceiro modelo.<\/p>\n<p>\u00c0 guisa de conclus\u00e3o, se o primeiro modelo de imagens se presta \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o, o segundo proporciona a extra\u00e7\u00e3o da realidade do objeto olhar, no qual a fotografia \u00e9 o melhor molde; por \u00faltimo, o terceiro padr\u00e3o, o qual denominamos digital, acrisolai um novo paradigma, no qual n\u00e3o h\u00e1 prerrogativas de um registro sobre o outro, de tal sorte que o real, o simb\u00f3lico e o imagin\u00e1rio est\u00e3o dispostos em equival\u00eancia. Agora, o imagin\u00e1rio \u00e9 pleno de direito, como os demais. Portanto, esse novo paradigma das imagens, apan\u00e1gio da cl\u00ednica contempor\u00e2nea, ocasionou um novo imagin\u00e1rio e novas maneiras de amarrar o RSI. Eis o nosso desafio!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>(1) \u0002O verbo acrisolar diz respeito ao uso do crisol, o cadinho evocado por Miquel Bassols em sua confer\u00eancia de posse da presid\u00eancia da AMP, objeto de macerar elementos cuja finalidade \u00e9 a de criar um novo composto.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/h6>\n<h6>BENJAMIN, W. Obras escolhidas I. Magia e t\u00e9cnica, arte e pol\u00edtica. S\u00e3o Paulo, Brasiliense, 1996, p. 33.<\/h6>\n<h6>FOUCAULT, M. Microf\u00edsica do poder, S\u00e3o Paulo: Graal, 2007.<\/h6>\n<h6>Freud, S. (1989). Sobre psicoterapia. In S. Freud, Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud (J. Salom\u00e3o, trad., Vol. 7, pp. 239-251). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1904).<\/h6>\n<h6>______. (1929) O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o. In: STRACHEY, J. (ed.).Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud. 3. ed. Rio de Janeiro: Imago, 1980. v.21, p.81-178 (Vers\u00e3o brasileira de 1980).<\/h6>\n<h6>MILLER, J. A. Intui\u00e7\u00f5es milanesas, Op\u00e7\u00e3o lacaniana online, n. 5, ano II, Julho de 2011.http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_5\/Intui%C3%A7%C3%B5es_milanesas.pdf. Acesso em 5 de dezembro de 2014.<\/h6>\n<h6>_______. Primeiro dos coment\u00e1rios sobre o atentado ao jornal Charlie Hebdo, publicado no site Op\u00e7\u00e3o lacaniana Online. ISSN 2177-2673 Mar\u00e7o de 2015, ano VI. Acesso em 30 de mar\u00e7o de 2015.<\/h6>\n<h6>SANTAELLA, L. Imagem: cogni\u00e7\u00e3o, semi\u00f3tica e m\u00eddia, Sao Paulo: Iluminuras, 2001.<\/h6>\n<h6>SANTIAGO, J. Revista eletr\u00f4nica Sephora, Gangues: os efeitos do abalo do Nome-do-Pai no contexto da viol\u00eancia juvenil, n. 16, vol. VIII, maio-out de 2013. Acesso em 1\u00ba de dezembro de 2014.<\/h6>\n<h6>WAJCMAN, G. L\u2019\u0153il absolu, Paris: \u00e9ditions Denoel, 2010.<\/h6>\n<h6>ZIAD\u00c9, R. Ic\u00f4nes du Petit Palais, Les Collections de la ville de Paris, 2014.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>S\u00e9rgio Campos<\/strong><\/p>\n<p>Membro da EBP\/AMP. Doutor pela FM-UFMG. Preceptor da Resid\u00eancia de Psiquiatria do IRS\/FHEMIG E-mail:\u00a0<span id=\"cloak1421fbfd0790ebd327377e8be4bcf11e\"><a href=\"mailto:sergiodecampos@uol.com.br\">sergiodecampos@uol.com.br<\/a><\/span>.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00c9RGIO CAMPOS &nbsp; O mundo das imagens, grosso modo, se divide em dois dom\u00ednios. O primeiro dom\u00ednio \u00e9 o da esfera do aparelho ps\u00edquico do parl\u00eatre, das imagens produzidas pelo nosso inconsciente como as representa\u00e7\u00f5es mentais: sonhos, devaneios e fantasias. O segundo dom\u00ednio pode ser descrito como sendo o das representa\u00e7\u00f5es visuais, os objetos materiais&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58197,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[],"class_list":["post-718","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-15","category-11","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/718","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=718"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/718\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58198,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/718\/revisions\/58198"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58197"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=718"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=718"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=718"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}