{"id":724,"date":"2015-03-17T06:56:00","date_gmt":"2015-03-17T09:56:00","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=724"},"modified":"2025-12-01T17:02:47","modified_gmt":"2025-12-01T20:02:47","slug":"dora-e-as-maridas-duas-tentativas-de-abordar-o-feminino-a-partir-do-amor-ao-pai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2015\/03\/17\/dora-e-as-maridas-duas-tentativas-de-abordar-o-feminino-a-partir-do-amor-ao-pai\/","title":{"rendered":"\u201cDora\u201d E As \u201cMaridas\u201d: Duas Tentativas De Abordar O Feminino A Partir Do Amor Ao Pai"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>MARIA AM\u00c9LIA TOSTES<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/13227282425_eecbbb4d74_c-768x513-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"768\" data-large_image_height=\"513\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-725\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/13227282425_eecbbb4d74_c-768x513-1.jpg\" alt=\"\" width=\"768\" height=\"513\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/13227282425_eecbbb4d74_c-768x513-1.jpg 768w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/13227282425_eecbbb4d74_c-768x513-1-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p><strong>Da Histeria Ao Feminino: O Desafio Que Dora Nos Prop\u00f5e<\/strong><\/p>\n<p>\u201cA histeria n\u00e3o se manifesta apenas como uma neurose, mas, tamb\u00e9m, como uma maneira de colocar a problem\u00e1tica da feminilidade\u201d (ANDR\u00c9, 1991, p. 114). Fazer conversar em uma mulher a histeria com o feminino \u00e9 o desafio que Dora[1] nos requisita desde quando, aos 18 anos de idade, em 31 de dezembro de 1901, em plena virada para o s\u00e9culo XX, ela comunica a Freud que vai lhe deixar, e esse seu gesto provoca a pergunta: o que quer uma mulher?<\/p>\n<p>No vigor do ide\u00e1rio iluminista, quando o papel social da mulher estava sendo fortemente alinhavado ao da \u201cboa m\u00e3e\u201d e ao da competente dona de casa (ANDERSON e ZINSSER, 2009), Dora \u00e9 conduzida por seu pai at\u00e9 Freud para que este a colocasse \u201cno bom caminho\u201d (FREUD, 1989, p. 33). Dora n\u00e3o vinha se mostrando uma mo\u00e7a de bom comportamento, pois estava irredut\u00edvel na exig\u00eancia de que seu pai rompesse o relacionamento que mantinha com o Sr. e a Sra. K, dois antigos amigos de sua fam\u00edlia. Sem contar que j\u00e1 fazia algum tempo que Dora come\u00e7ara a dar sinais de \u201cabatimento, irritabilidade e ideias suicidas\u201d (Ibidem, p. 32).<\/p>\n<p>Dora \u00e9 diagnosticada por Freud como uma hist\u00e9rica, mas uma hist\u00e9rica diferente das outras. Em correspond\u00eancia a Wilhelm Fliess[2], quando Freud rascunhava o que \u00e9 hoje conhecido mais como Caso Dora, ele diz: \u201cde qualquer forma, \u00e9 a coisa mais sutil que j\u00e1 escrevi, e produzir\u00e1 um efeito ainda mais aterrador que de h\u00e1bito\u201d (Ibidem, p. 13).<\/p>\n<p>A novidade que Freud percebe em Dora, inicialmente, tem a ver com a simplicidade de sua histeria que, ao inv\u00e9s dos cl\u00e1ssicos \u201cestigmas de sensibilidade cut\u00e2nea, limita\u00e7\u00e3o do campo visual ou coisas semelhantes\u201d, apresenta-se carregada de manifesta\u00e7\u00f5es corriqueiras do cotidiano que se prestar\u00e3o ao esclarecimento dos fatos \u201cmais comuns\u201d e \u201csintomas mais frequentes e t\u00edpicos\u201d da doen\u00e7a (Ibidem, p. 31).<\/p>\n<p>Freud s\u00f3 se d\u00e1 conta de que a simplicidade sintom\u00e1tica de sua paciente escamoteava, na verdade, uma complexidade in\u00e9dita em sua cl\u00ednica de histeria quando, com cerca de tr\u00eas meses de tratamento, Dora lhe comunica sua decis\u00e3o de abandonar a an\u00e1lise \u2013 \u201choje estou aqui pela \u00faltima vez\u201d (Ibidem, p. 101), \u2013 frustrando as expectativas de Freud, que previa que seu \u201cpleno restabelecimento talvez requeresse um ano\u201d (Ibidem, p. 113).<\/p>\n<p>A sa\u00edda de Dora \u201cem circunst\u00e2ncias peculiares\u201d de seu processo anal\u00edtico (Ibidem, p. 92) vai merecer de Freud algumas elabora\u00e7\u00f5es, as quais seguir\u00e3o basicamente por dois vieses: o transferencial \u2013 \u201cfui surpreendido pela transfer\u00eancia\u201d \u2013 e o que ele chamou de seu \u201cerro t\u00e9cnico\u201d, que estaria relacionado \u00e0 sua demora em notar a \u201cmo\u00e7\u00e3o amorosa homossexual pela Sra. K\u201d por parte de Dora (Ibidem, p. 113).<\/p>\n<p>Ambos os caminhos trilhados por Freud para tentar entender por que Dora o abandona demonstram que sua paciente lhe apresentara em an\u00e1lise quest\u00f5es que lhe demandavam novas ferramentas de trabalho. A mo\u00e7a n\u00e3o desmaiava nem se contorcia como as outras da sua \u00e9poca e sua rebeldia se deslocava do corpo todo para se concentrar, sobretudo, na l\u00edngua \u2013 uma l\u00edngua afiada. Dora desdenhava das laboriosas interpreta\u00e7\u00f5es de Freud: \u201cora, ser\u00e1 que apareceu tanta coisa assim?\u201d, perguntou ela depois que Freud lhe esmiu\u00e7ara, durante duas sess\u00f5es inteiras, ponto por ponto do seu segundo sonho (Ibidem, p. 101).<\/p>\n<p>Mas \u00e9 justo nas interpreta\u00e7\u00f5es que Freud faz \u00e0 sua paciente sobre esse seu segundo sonho que ele exp\u00f5e a sua dificuldade em perceber que a pergunta que Dora dirigia ao dicion\u00e1rio, ap\u00f3s a morte do pai, no sonho, era a mesma que ela encaminhava a Sra. K e demandava saber de Freud: \u201co que \u00e9 uma mulher?\u201d (LACAN, 1956-57\/1995, p. 144). Assim \u00e9 que a pergunta fundamental de uma mulher fora formulada, em an\u00e1lise, por uma hist\u00e9rica \u2013 aquela que est\u00e1 mais para o masculino do que para o feminino.<\/p>\n<p><strong>Dora \u00c9 Aquela Que Ama Seu Pai<\/strong><\/p>\n<p>Ao interrogar sobre o seu sexo, Dora exp\u00f5e a insufici\u00eancia do falo paterno para lhe dar o que lhe falta. No caso de seu pai, tratava-se de uma impot\u00eancia concreta. \u201cO pai, que \u00e9 feito para ser aquele que d\u00e1, simbolicamente, esse objeto faltoso, aqui, no caso de Dora, ele n\u00e3o o d\u00e1, porque n\u00e3o o tem\u201d (LACAN, 1956-57, 1995, p. 142). Contudo, Dora destina um amor a seu pai \u201ccorrelativo e coextensivo \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o deste (dom viril)\u201d (Idem). Ou seja, quanto menos seu pai podia lhe oferecer como falo, mais Dora encobria essa impot\u00eancia com o seu amor, como \u00e9 pr\u00f3prio da rela\u00e7\u00e3o amorosa na qual o falo, tal como o dom, \u00e9 dado em troca de nada. \u201cA car\u00eancia f\u00e1lica do pai atravessa todo o caso como uma nota fundamental\u201d, e Dora ama seu pai \u201cprecisamente pelo que ele n\u00e3o lhe d\u00e1\u201d (Ibidem, p. 143).<\/p>\n<p>Ocorre que Dora n\u00e3o sabe \u201co que ela \u00e9, n\u00e3o sabe onde se situar, nem onde est\u00e1, nem para o que serve, nem para que serve o amor\u201d (Ibidem, p. 149). Sua posi\u00e7\u00e3o \u00e9 daquela que possui uma quest\u00e3o: \u201co que \u00e9 que meu pai ama na Sra. K?\u201d (Ibidem, p. 143). Dora se situa em algum ponto entre seu pai e a Sra. K. Mas existe ainda a figura do Sr. K, que \u00e9 com quem Dora se identifica, enxergando nele a sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o: a de ponte para um mais al\u00e9m do amor \u2013 do pai, no caso de Dora, e da Sra. K, no caso do Sr. K. A triangula\u00e7\u00e3o se d\u00e1, ent\u00e3o, entre Dora, o Sr. K e a Sra. K. O pai de Dora fica de fora, na condi\u00e7\u00e3o de Outro por excel\u00eancia (Ibidem, p. 145-46).<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o permanece equilibrada at\u00e9 que o Sr. K diz a Dora, na \u201caventura do lago\u201d, que ele n\u00e3o tinha mais nada com sua mulher, e Dora lhe esbofeteia o rosto (FREUD, 1989). Para Lacan (1956-57\/1995), essa atitude de Dora \u00e9 da ordem do insuport\u00e1vel de ser tolerado por ela, pois, ao se identificar com o mesmo lugar ocupado pelo Sr. K, de forma invertida, ela se v\u00ea n\u00e3o sendo nada, igualmente, para seu pai. Dora, conforme diz Lacan, \u00e9 aquela \u201cque ama seu pai\u201d (Ibidem, p. 143). Ela o ama em troca de nada, como \u00e9 pr\u00f3prio do amor em seu sentido mais primitivo, mas ela n\u00e3o pode se imaginar n\u00e3o significando nada para ele.<\/p>\n<p>Dora, uma hist\u00e9rica, inaugura o s\u00e9culo XX perguntando o que \u00e9 ser uma mulher a partir de um amor endere\u00e7ado ao pai. \u00c9 por amor, ent\u00e3o, que Dora quis saber sobre o seu sexo, no s\u00e9culo passado, em um tempo em que as mulheres enfrentavam pesados obst\u00e1culos quando n\u00e3o se contentavam em ocupar apenas a sala de estar. O cen\u00e1rio feminino global mudou desde ent\u00e3o, e o tradicional \u201csexo fr\u00e1gil\u201d se imp\u00f5e hoje como for\u00e7a motriz fundamental da vida social, pol\u00edtica e econ\u00f4mica das sociedades ocidentais, podendo-se constatar, sem nenhuma estranheza, que, atualmente, \u201co mundo \u00e9 das mulheres[3]\u201d.<\/p>\n<p><strong>As \u201cMaridas\u201d E A Fal\u00eancia Do Pai<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 em meio a essa feminiza\u00e7\u00e3o atual que nos deparamos com um comportamento que nos chama a aten\u00e7\u00e3o: elas s\u00e3o vistas sempre em par \u2013 onde uma est\u00e1, a outra est\u00e1 por perto. S\u00e3o insepar\u00e1veis. Frequentam a night, mas tamb\u00e9m curtem os parques, os saraus, as feiras, a rua. Est\u00e3o em dia com a moda e com o mundo fashion. S\u00e3o absolutamente contempor\u00e2neas: ficam \u00e0 vontade com seus corpos e transitam com desenvoltura pelos espa\u00e7os urbanos. Elas s\u00e3o amigas de todas as horas e ocasi\u00f5es. Sentem-se protegidas e confiantes quando est\u00e3o juntas. S\u00e3o companheiras, c\u00famplices, confidentes, sedutoras e carinhosas uma com a outra. S\u00e3o namoradas? N\u00e3o. Elas s\u00e3o heterossexuais e fazem sexo com parceiros de ocasi\u00e3o. \u00c0s vezes elas dividem o mesmo parceiro, quando ele cai nas gra\u00e7as de ambas. Atestam n\u00e3o competir entre si nem sentir ci\u00fames uma da outra. Os homens s\u00e3o coadjuvantes nessa rela\u00e7\u00e3o de \u201cmaridas\u201d \u2013 como elas definem esse tipo de compromisso com a melhor amiga.<\/p>\n<p>Nessa suposta divis\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es \u2013 amorosa e sexual \u2013, as \u201cmaridas\u201d s\u00e3o enf\u00e1ticas ao afirmar que \u201cpegam, mas n\u00e3o se apegam\u201d aos homens, pelo menos facilmente. Elas podem se desgrudar uma da outra quando surge um namoro s\u00e9rio que acaba em casamento. Mas garantem que nunca se desvencilham por completo, porque felicidade mesmo \u00e9 ser casada com a melhor amiga[4].<\/p>\n<p>As \u201cmaridas\u201d exibem uma atua\u00e7\u00e3o feminina da ordem do dia, em que a parceria entre as duas mulheres aparenta se estabelecer pelo vi\u00e9s afetivo desvinculado do sexual e dos homens. Uma clivagem entre amor e sexo, bem conhecida do universo masculino, que agora ganha valor junto a um tipo de p\u00fablico feminino. N\u00e3o deixa de ser curioso que, no limiar do s\u00e9culo XXI, a pergunta \u201co que \u00e9 uma mulher\u201d seja feita de mulher para mulher, prescindindo de um Sr. K como intermedi\u00e1rio, como no caso de Dora.<\/p>\n<p>Marie H\u00e9l\u00e8ne Brousse considera que, tradicionalmente, as hist\u00e9ricas nunca foram as mais adequadas para irem mais al\u00e9m do pai, mas, na sua opini\u00e3o, o fator decisivo para a variedade contempor\u00e2nea de atua\u00e7\u00f5es entre mulheres com aspectos homossexuais se concentra na queda da figura paterna. Segundo Brousse, o pai, hoje, deixou de ser a figura identificat\u00f3ria fundamental da hist\u00e9rica que, mesmo quando ainda consegue am\u00e1-lo, n\u00e3o \u00e9 um amor capaz de sustentar a impot\u00eancia paterna como no s\u00e9culo passado[5].<\/p>\n<p>Para Lacan, o pai \u00e9 sempre aquele que possui uma fun\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, ostenta uma titula\u00e7\u00e3o de ex-combatente (ex-genitor) e, ao mesmo tempo, nunca perde a sua condi\u00e7\u00e3o de \u201cpot\u00eancia de cria\u00e7\u00e3o\u201d, seja esse pai um doente ou n\u00e3o. No discurso da hist\u00e9rica, o pai desempenha o \u201cpapel-piv\u00f4, mai\u00fasculo, o papel-mestre\u201d (LACAN, 1992, p. 89) e, mesmo fora de forma, esse pai \u00e9 capaz de sustentar, \u201csob esse \u00e2ngulo da pot\u00eancia de cria\u00e7\u00e3o, sua posi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher\u201d (Idem). \u00c9 o que Lacan designa como \u201co pai idealizado\u201d da hist\u00e9rica. O pai de Dora era um pai castrado em sua condi\u00e7\u00e3o de pot\u00eancia sexual, mas que desempenhava o papel-piv\u00f4 de toda a est\u00f3ria. Segundo Lacan, todos os casos freudianos de histeria exibem um pai deficiente e, no entanto, completamente atuante sob o ponto de vista da sua fun\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica (Idem).<\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es Finais<\/strong><\/p>\n<p>As \u201cmaridas\u201d explicitam o qu\u00e3o fora de combate est\u00e3o os homens de uma forma geral, especialmente no quesito amoroso. Dora amava e idealizava um pai ex-combatente e impotente \u2013 como diz Lacan \u2013, e esse amor lhe sinalizava com o lugar da mulher diante do falo como dom em suas parcerias amorosas. Se as \u201cmaridas\u201d atestam que, melhor do que amar um homem \u00e9 amar sua melhor amiga e fazer sexo com um homem, elas talvez estejam mais interessadas em revelar do que encobrir a falta do falo paterno, numa demonstra\u00e7\u00e3o de que um falo em potencial, como o do pai, n\u00e3o lhes tem mais nenhuma serventia.<\/p>\n<p>Amar uma igual a si e fazer sexo com um diferente de si: eis o que as \u201cmaridas\u201d postulam. Estar\u00edamos diante de uma l\u00f3gica funcional que visa ao melhor custo-benef\u00edcio de cada g\u00eanero? A especializa\u00e7\u00e3o-setoriza\u00e7\u00e3o-classifica\u00e7\u00e3o-cientifiza\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o amorosa seria o tra\u00e7o moderno desse comportamento de \u201cmaridas\u201d? O amor fundamental e nobre, como \u201ccoisa de mulheres\u201d, e o sexo desej\u00e1vel, casual e desclassificado, como \u201ccoisa de homens\u201d, apontaria para um paradigma de mercado e de consumo no qual se deve buscar no outro apenas o que ele pode oferecer de melhor, uma vez que o sujeito contempor\u00e2neo \u00e9 aquele que n\u00e3o deve se contentar com nada menos do que \u201co melhor\u201d?<\/p>\n<p>Dora, no s\u00e9culo XX, demandava saber sobre o seu sexo pelo vi\u00e9s do amor ao pai como aquele que, potencialmente, poderia lhe dar o que lhe faltava. Tratava-se de um amor na qualidade de um \u201cdevir\u201d, portanto \u2013 um amor no qual a hist\u00e9rica normalmente acredita como sendo capaz de encobrir a sua falta tal como ela encobre a impot\u00eancia do pai para si mesma. As \u201cmaridas\u201d, nossas contempor\u00e2neas, sinalizam que, ao inv\u00e9s de apostarem suas fichas em um falo capenga, que falha e frustra, como \u00e9 o caso do falo paterno, elas preferem potencializar, por si mesmas, as suas rela\u00e7\u00f5es com os dois sexos \u2013 da melhor amiga elas obt\u00eam o amor; dos homens, o sexo.<\/p>\n<p>Mas, se as \u201cmaridas\u201d podem ser tomadas como um desdobramento da fal\u00eancia paterna na contemporaneidade, a ponto de prescindirem da figura masculina para indagar sobre o feminino, n\u00e3o seria o caso de considerarmos o que Lacan nos apresenta, ou seja, de que o pai continua exibindo a sua condi\u00e7\u00e3o de pot\u00eancia criadora e, como tal, ostentando a sua tradicional condi\u00e7\u00e3o de figura piv\u00f4 da est\u00f3ria das hist\u00e9ricas? Isto \u00e9: pela via do pai idealizado ou do pai desfalicizado e fragilizado, as hist\u00e9ricas ainda formulariam suas estrat\u00e9gias amorosas a partir do pai?<\/p>\n<p>Por outro lado, esse amor \u201cpuro\u201d entre duas amigas \u201cmaridas\u201d, no sentido de um sentimento desvencilhado do sexo e da diferen\u00e7a sexual, nos suscita uma outra pergunta: o que \u00e9 um homem para uma mulher, em nossos dias?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>[1] Faz-se refer\u00eancia aqui ao nome escolhido por Freud para designar a sua paciente no relato que ele formula em 1901, mas que \u00e9 publicado em 1905, sob o t\u00edtulo \u201cFragmento da an\u00e1lise de um caso de histeria\u201d.<\/h6>\n<h6>[2] Conforme Carta 140, de 25 de janeiro de 1901 (Freud, 1901-05, p. 13).<\/h6>\n<h6>[3] O mundo \u00e9 das mulheres foi o primeiro programa feminino da TV brasileira realizado na d\u00e9cada de 60, pelo canal 5 da antiga TV Paulista, atual TV Globo, que lan\u00e7ou com sucesso a apresentadora Hebe Camargo, j\u00e1 falecida. (http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=cv40-tcU-RQ) Por sua vez, o ex-presidente do Brasil Luiz In\u00e1cio Lula da Silva fora ovacionado quando, em junho de 2011, expressou essa frase durante uma cerim\u00f4nia, em Curitiba, se referenciando ao incremento da presen\u00e7a feminina no Planalto Central. (http:\/\/oglobo.globo.com\/politica\/o-mundo-das-mulheres-diz-lula-2877204)<\/h6>\n<h6>[4] As \u201cmaridas\u201d foram tema da revista Marie Claire n\u00famero 289, de abril de 2015: uma edi\u00e7\u00e3o comemorativa dos 24 anos da chegada da revista ao Brasil.<\/h6>\n<h6>[5] Entrevista dispon\u00edvel em: http:\/\/moviepsi.blogspot.com.br\/2013\/05\/entrevista-marie-helene-brousse.html.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Bibliografia<\/strong><\/h6>\n<h6>ANDERSON, B. S. e ZINSSER, J. P. Historia de las Mujeres \u2013 Una historia propia. Espanha: Editora Critica, 2009.<\/h6>\n<h6>ANDR\u00c9, S. O que quer uma mulher? Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2a Ed., 1991.<\/h6>\n<h6>BROUSSE, M-H. [mar\u00e7o de 2013] Nodus \u2013 L\u2019aperi\u00f2dic virtual de la secci\u00f3 cl\u00ednica de Barcelona. Entrevista concedida a Howard Rouse. Dispon\u00edvel em http:\/\/moviepsi.blogspot.com.br\/2013\/05\/entrevista-marie-helene-brousse.html.<\/h6>\n<h6>Acesso em 10\/1\/2016.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1901-1905) Fragmento da An\u00e1lise de Um Caso de Histeria. In: STRACHEY, J. (ed.) e RIBEIRO, Vera (trad.), (Vol. 7, 2\u00aa ed.), Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago (vers\u00e3o brasileira de 1989).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1956-1957). Dora e a jovem homossexual. In: O Semin\u00e1rio. Livro 4: a rela\u00e7\u00e3o de objeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1969-1970). O Mestre Castrado. In: O Semin\u00e1rio. Livro 17: o avesso da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992.<\/h6>\n<h6>\u201cAs novas maridas\u201d. Revista Marie Claire. Rio de Janeiro: Editora Globo, n\u00famero 289, abril de 2015, p. 102 -105.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><strong>Maria Am\u00e9lia Tostes<\/strong><\/h6>\n<h6>Maria Am\u00e9lia Tostes \u2013 Aluna do Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental de Minas Gerais, jornalista, mestre e doutora em Ci\u00eancias da Sa\u00fade.\u00a0<span id=\"cloak9ec41abfb65ec533d3217e3e7bd3578a\"><a href=\"mailto:mameliatostes@uol.com.br\">mameliatostes@uol.com.br<\/a><\/span>\u00a0(31) 98888 &#8211; 7755<\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MARIA AM\u00c9LIA TOSTES &nbsp; &nbsp; Da Histeria Ao Feminino: O Desafio Que Dora Nos Prop\u00f5e \u201cA histeria n\u00e3o se manifesta apenas como uma neurose, mas, tamb\u00e9m, como uma maneira de colocar a problem\u00e1tica da feminilidade\u201d (ANDR\u00c9, 1991, p. 114). Fazer conversar em uma mulher a histeria com o feminino \u00e9 o desafio que Dora[1] nos&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58161,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[],"class_list":["post-724","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-16","category-12","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/724","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=724"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/724\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58162,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/724\/revisions\/58162"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58161"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=724"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=724"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=724"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}