{"id":728,"date":"2015-03-17T06:56:00","date_gmt":"2015-03-17T09:56:00","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=728"},"modified":"2025-12-01T17:03:15","modified_gmt":"2025-12-01T20:03:15","slug":"a-clinica-dos-adolescentes-entradas-e-saidas-do-tunel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2015\/03\/17\/a-clinica-dos-adolescentes-entradas-e-saidas-do-tunel\/","title":{"rendered":"A Cl\u00ednica Dos Adolescentes: Entradas E Sa\u00eddas Do T\u00fanel"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>VILMA COCCOZ TURINETTO<\/strong><\/h6>\n<\/div>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/16442916981_896dd3988b_k-768x512-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"768\" data-large_image_height=\"512\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-729\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/16442916981_896dd3988b_k-768x512-1.jpg\" alt=\"\" width=\"768\" height=\"512\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/16442916981_896dd3988b_k-768x512-1.jpg 768w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/16442916981_896dd3988b_k-768x512-1-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><\/a><\/p>\n<h6 style=\"padding-left: 280px;\">FOTO: JO\u00c3O PERDIG\u00c3O<\/h6>\n<p><strong>N\u00e3o H\u00e1 Adolescente Sem Outro<\/strong><\/p>\n<p>Definir a adolesc\u00eancia como \u201ca mais delicada das transi\u00e7\u00f5es\u201d (HUGO, 1971, p. 20) \u2013 feliz achado que Philippe Lacad\u00e9e (2011) nos faz compartilhar \u2013 permite conceber essa sa\u00edda da puberdade numa l\u00f3gica de discurso, e n\u00e3o simplesmente como etapa do desenvolvimento biol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Freud compara a metamorfose da puberdade ao fato de \u201cescava[r] um t\u00fanel dos dois lados ao mesmo tempo\u201d (FREUD, 1987a, p. 144): portanto, um furo tendo uma extremidade que fura a autoridade, o saber, a consist\u00eancia do Outro e a outra que perturba a viv\u00eancia \u00edntima do corpo. Do modo como Freud formula essa met\u00e1fora, deduzimos que construir um t\u00fanel \u00e9 tamb\u00e9m atravess\u00e1-lo; a sa\u00edda depender\u00e1 do contorno e da localiza\u00e7\u00e3o correta do furo que afeta o saber e daquele que concerne o gozo. Se, aplicando-a a esse trajeto particular da vida, mantivermos firmemente esse princ\u00edpio psicanal\u00edtico de que n\u00e3o j\u00e1 sujeito sem Outro, isso toma o valor de um axioma: \u201cN\u00e3o h\u00e1 adolescente sem Outro\u201d, a saber \u2013 al\u00e9m dos pais, professores ou tutores \u2013, a institui\u00e7\u00e3o ou o analista. As respostas, a posi\u00e7\u00e3o dos adultos que vir\u00e3o ou n\u00e3o investir a fun\u00e7\u00e3o do Outro, adquirem uma import\u00e2ncia fundamental, decisiva, para a entrada e para a sa\u00edda do t\u00fanel.<\/p>\n<p>Seria mais pertinente falar de adolesc\u00eancias, no plural. De fato, cada adolesc\u00eancia, estando ligada a uma experi\u00eancia subjetiva e a uma hist\u00f3ria particular, sua modalidade \u201ccr\u00edtica\u201d e a forma que tomar\u00e1 sua conclus\u00e3o, n\u00e3o pode ser generalizada nem padronizada. De um ponto de vista estrutural, o sujeito se encontra nessa passagem da vida, seja numa dial\u00e9tica com o Outro e sua inconsist\u00eancia seja em ruptura com ele, com um sentimento de err\u00e2ncia, de estar abandonado, desamparado, desorientado diante do que lhe \u00e9 dado viver.<\/p>\n<p>Depois de anos de experi\u00eancia, podemos afirmar que, na cl\u00ednica da adolesc\u00eancia, h\u00e1 lugar para operar uma subjetiva\u00e7\u00e3o da dificuldade estrutural \u00e0 qual o jovem ou a jovem s\u00e3o confrontados. Mas \u00e9 preciso admitir tamb\u00e9m que essa opera\u00e7\u00e3o requer frequentemente um trabalho de elabora\u00e7\u00e3o, uma participa\u00e7\u00e3o decidida da parte dos adultos de refer\u00eancia. \u00c9 habitualmente necess\u00e1rio sustentar uma s\u00e9rie de entrevistas com a fam\u00edlia com o objetivo de dar a palavra ao sujeito. Que ela seja hesitante, atrapalhada, arrogante, reivindicadora, conciliadora ou mentirosa, a palavra, uma vez instalada no dispositivo anal\u00edtico, toma ent\u00e3o valor de enuncia\u00e7\u00e3o particular levada em conta pelo Outro; fato acompanhado, nos casos de conflitos inflamados, de di\u00e1logos rompidos ou imposs\u00edveis. Durante as entrevistas com os pais \u2013 juntos ou separadamente \u2013 e o adolescente, o analista tem a oportunidade de colaborar, em ato, no momento delicado da separa\u00e7\u00e3o e da diferencia\u00e7\u00e3o das diversas subjetividades implicadas. A adolesc\u00eancia de um filho ou de uma filha deve ser subjetivada pelos pais em sua dimens\u00e3o verdadeira, tal como um luto libidinal que os afeta e os concerne: a satisfa\u00e7\u00e3o que a crian\u00e7a trazia ao narcisismo de seus pais se esfacela, \u00e9 preciso que ela se aloje em outro lugar. Esse lugar novo n\u00e3o \u00e9 concebido antecipadamente, ele se constr\u00f3i laboriosamente, a partir desses dois furos que se revelaram: aquele relativo ao Outro e aquele relativo ao corpo. O trabalho de educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 acabado, e essa situa\u00e7\u00e3o nova requer uma delicada alquimia entre, de um lado, o respeito do territ\u00f3rio da crian\u00e7a \u2013 seus gostos, sua intimidade, seus desejos \u2013, e, de outro lado, a responsabilidade dos atos de um menor que n\u00e3o se trata de abandonar \u00e0 sua sorte. E tudo isso, mesmo se a crian\u00e7a se obstina nas vias contradit\u00f3rias ou afastadas das expectativas, dos ideais paternos e apesar dos sentimentos de ambival\u00eancia que o sujeito manifesta ou provoca.<\/p>\n<p>O adolescente trope\u00e7a no real do discurso, nessa quest\u00e3o essencial do ser falante: como fazer com o gozo? Ora, esse encontro com o limite do discurso \u00e9 precisamente o que mina a autoridade da palavra do adulto e gera um choque emocional. \u00c9 por essa raz\u00e3o que aqueles que imaginam erroneamente que basta informar e esclarecer se chocam com o fracasso esmagador da educa\u00e7\u00e3o sexual, das estrat\u00e9gias de preven\u00e7\u00e3o da gravidez e do consumo de entorpecentes. Diante da inevit\u00e1vel degrada\u00e7\u00e3o da autoridade, alguns adultos adotam comportamentos extremos \u2013 rigidez ou permissividade exageradas \u2013 numa tentativa desesperada de recuperar uma influ\u00eancia enfraquecida. \u00c0s vezes \u2013 em caso de falsa sa\u00edda de sua pr\u00f3pria adolesc\u00eancia \u2013 o pai ou a m\u00e3e, numa identifica\u00e7\u00e3o infeliz com seu filho, tentam uma cumplicidade entre \u201camigos\u201d e trocam confidencias, \u00e0s vezes obscenas, sobre as dificuldades que eles encontram com seu pr\u00f3prio gozo. \u00c9 essa esp\u00e9cie de tentativa que justifica o termo de \u201cadulterados\u201d, com o qual Lacan (2008, p. 321) qualificou os adultos.<\/p>\n<p>Compreendemos assim a import\u00e2ncia da resposta desses \u00faltimos, se considerarmos que, nessa \u00e9poca da vida, se reedita no inconsciente a quest\u00e3o inaugural do sujeito quanto ao desejo do Outro: de que desejo eu nasci? Quanto valho para o Outro? Ele pode perder-me? Esse momento ganha uma import\u00e2ncia especial a\u00ed onde justamente o adolescente \u00e9 convocado a afrontar a \u201cdeclara\u00e7\u00e3o de seu sexo\u201d (LACAN, 1967): espera-se que ele formule ou que ele defina sua identidade sexual. A aus\u00eancia de uma resposta acabada e conclusiva sobre o ser sexuado no simb\u00f3lico o coloca \u00e0 prova em rela\u00e7\u00e3o ao real. Isso toma uma dimens\u00e3o traum\u00e1tica e angustiante, e d\u00e1 lugar a uma desintrinca\u00e7\u00e3o pulsional, uma crise do desejo, do gozo da vida, tendo como consequ\u00eancia um crescimento da incid\u00eancia da puls\u00e3o de morte.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 manual de instru\u00e7\u00f5es que garanta uma sa\u00edda honrosa do t\u00fanel: em sua travessia, o sujeito experimenta intensamente o non-sens da vida, o que desencadeia uma aflu\u00eancia desenfreada de sensa\u00e7\u00f5es e de afetos t\u00e3o fortes quanto contradit\u00f3rios, assim como a tenta\u00e7\u00e3o da morte, pensada, imaginada ou fantasiada. Uma inclina\u00e7\u00e3o por temas escabrosos surpreende seu c\u00edrculo que percebe uma esp\u00e9cie de j\u00fabilo em cultivar pensamentos e interesses sombrios e sinistros. \u00c9 por essa raz\u00e3o que a eventualidade de comportamentos de risco ou francas tentativas de suic\u00eddio s\u00e3o uma constante preocupa\u00e7\u00e3o na cl\u00ednica psicanal\u00edtica com adolescentes.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Freud foi chamado a intervir sobre esse tema em 1910, num simp\u00f3sio onde foi colocada a quest\u00e3o sobre a responsabilidade a ser atribu\u00edda aos professores nas passagens ao ato suicidas de seus alunos. Em sua interven\u00e7\u00e3o, Freud manifesta uma vis\u00e3o muito agu\u00e7ada sobre os respons\u00e1veis pela educa\u00e7\u00e3o diante desse momento da vida. Alguns instantes antes de sua exposi\u00e7\u00e3o, um professor havia intervindo, tentando inocentar os professores pelo final tr\u00e1gico como o de certos jovens, argumentando que esses atos infelizes tinham igualmente lugar em camadas desfavor\u00e1veis (n\u00e3o escolarizadas). \u201cMas o col\u00e9gio [responde Freud com ironia e justeza] deve fazer mais do que n\u00e3o pressionar os jovens ao suic\u00eddio; ele deve lhes proporcionar o anseio de viver e lhes oferecer sustenta\u00e7\u00e3o e ponto de apoio numa \u00e9poca de suas vidas em que eles s\u00e3o pressionados, pelas condi\u00e7\u00f5es de seu desenvolvimento, a afrouxar sua rela\u00e7\u00e3o com a casa parental e com sua fam\u00edlia. [\u2026] A escola n\u00e3o deve nunca esquecer que ela trata com indiv\u00edduos ainda imaturos, aos quais n\u00e3o pode ser negado o direito de se atrasar em alguns est\u00e1dios, ainda que inc\u00f4modos, de desenvolvimento. Ela n\u00e3o deve reivindicar para sua conta a inexorabilidade da vida, ela n\u00e3o deve querer ser mais do que um jogo de vida\u201d (FREUD, 1987b, p. 217-218).<\/p>\n<p>A lucidez da reflex\u00e3o de Freud nos toca particularmente em nossa \u00e9poca, na qual vemos crescer a cada dia o car\u00e1ter definitivo de certos julgamentos sobre os jovens, da parte dos professores e dos avaliadores, tomando assim a forma de uma inexor\u00e1vel senten\u00e7a do destino. Numerosos s\u00e3o esses pequenos jovens que, diante desses julgamentos, abandonam toda tentativa de se recuperar, se declarando \u201cincapazes ou um zero \u00e0 esquerda\u201d por causa de seus fracassos ou de suas condutas.<\/p>\n<p>Para Maria, felizmente, as consequ\u00eancias nefastas que j\u00e1 surgiam puderam ser evitadas, sua entrada no t\u00fanel da puberdade tendo precipitado uma demanda de an\u00e1lise. Tudo come\u00e7ou por um grande acting out: um desmaio com convuls\u00f5es que a enviou ao servi\u00e7o de urg\u00eancia, num susto geral. Depois de terem submetido a crian\u00e7a a todo tipo de teste, conclu\u00edram que ela \u201cn\u00e3o tinha nada\u201d e, gra\u00e7as \u00e0 interven\u00e7\u00e3o de um parente, a psican\u00e1lise cruzou sua vida. As crises diminu\u00edram imediatamente e Maria conseguiu inverter o preconceito que j\u00e1 se refor\u00e7ava quanto a seu comportamento. No tempo das primeiras entrevistas, se destacava de suas afirma\u00e7\u00f5es a tens\u00e3o na qual seu sintoma se articulava ao discurso do mestre. Ela tinha constatado a incid\u00eancia que podia ter sobre a popularidade de uma jovem de seu col\u00e9gio uma infelicidade ocorrida na vida pessoal desta. \u00c0 imagem dessa contamina\u00e7\u00e3o hist\u00e9rica de crises de choro num internato que Freud descreveu, e no momento sens\u00edvel do in\u00edcio da sedu\u00e7\u00e3o e da forma\u00e7\u00e3o das alian\u00e7as e das leaderships, Maria havia detectado que as aus\u00eancias (devidas a dificuldades na vida familiar) de colegas assim \u201cdistinguidas\u201d ganhavam um valor na considera\u00e7\u00e3o do Outro encarnado por um professor. O acting-out respondia a uma l\u00f3gica inconsciente complexa que se elaborou ao longo das sess\u00f5es, enquanto que o sintoma desaparecia da cena com a descoberta pela crian\u00e7a da trama inconsciente na qual ela estava tomada. Esse avan\u00e7o n\u00e3o foi feito sem os pais que, passado o estupor inicial, tiveram que admitir uma mudan\u00e7a total da parte de uma crian\u00e7a at\u00e9 ent\u00e3o exemplar. Operou-se ent\u00e3o uma mudan\u00e7a na maneira deles considerarem sua filha; eles compreenderam que esse momento particular atravessado por Maria exigia, entre outras coisas, \u201cdistingui-la\u201d por um tratamento especial em rela\u00e7\u00e3o a seus irm\u00e3os menores. At\u00e9 ent\u00e3o, ela era simplesmente tratada como a mais velha de uma s\u00e9rie, sem diferen\u00e7a particular.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m da cronologia, \u00e9 preciso o desenrolar de um tempo l\u00f3gico, com uma conclus\u00e3o que fa\u00e7a ponto de basta, limite vital, onde a sa\u00edda do t\u00fanel ganhe, no melhor dos casos, a forma de um projeto de vida.<\/p>\n<p><strong>O Percurso Do T\u00fanel<\/strong><\/p>\n<p>A respeito da incorpora\u00e7\u00e3o da estrutura, devemos precisar que, nessa encruzilhada da adolesc\u00eancia, observam-se alguns invariantes. \u00c9 verdade que essas mudan\u00e7as na rela\u00e7\u00e3o com o gozo, pela qual nossa civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 atravessada, atribuem a essa encruzilhada uma not\u00e1vel especificidade; entretanto, observamos \u2013 apesar de tingidos pelo discurso contempor\u00e2neo \u2013 algumas coordenadas comuns a todas as \u00e9pocas. Sobre essas invariantes, o livro de Robert Musil intitulado O jovem T\u00f6rless, publicado em 1906, continua tendo um enorme interesse para n\u00f3s. Esse livro descreve de modo magistral essa travessia do t\u00fanel vivida por um jovem, onde os adultos est\u00e3o implicados, a import\u00e2ncia dos pares, dos semelhantes, aparece a\u00ed em toda a sua dimens\u00e3o. Estranha e fundamental experi\u00eancia de socializa\u00e7\u00e3o que afeta a sexualidade, com a viol\u00eancia s\u00f3rdida que pode acompanhar o tormento e as tenta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A primeira cena do romance se desenvolve numa pequena esta\u00e7\u00e3o de uma estrada de ferro; pais se despedem de seu filho que parte para uma escola renomada aonde s\u00e3o enviados os filhos das melhores fam\u00edlias. Apesar de ele pr\u00f3prio ter insistido em conquistar esse n\u00edvel de sua forma\u00e7\u00e3o, \u201cessa decis\u00e3o deve t\u00ea-lo feito chorar muito [\u2026] as saudades de casa o invadiam, com uma terr\u00edvel viol\u00eancia\u201d (MUSIL, 2003, p. 8), nem os jogos nem as distra\u00e7\u00f5es dos internos o interessavam:<\/p>\n<p>Ele escrevia para sua casa quase cotidianamente, e n\u00e3o vivia sen\u00e3o nessas cartas; todas as suas outras ocupa\u00e7\u00f5es lhe pareciam incidentes insignificantes, irreais [\u2026] O estranho \u00e9 que essa paix\u00e3o s\u00fabita e devoradora por seus pais era inesperada e bastante desconcertante aos seus pr\u00f3prios olhos [\u2026] Houve alguns dias nos quais ele tinha se sentido relativamente bem, depois isso o havia tomado repentinamente, com a viol\u00eancia de uma tempestade. Saudades, nostalgia de casa, se dizia. Na realidade, tratava-se de um sentimento muito mais vago e complexo. [\u2026] Assim, T\u00f6rless n\u00e3o conseguia evocar a imagem daqueles que ele chamava ent\u00e3o comumente, para si s\u00f3, de seus \u201cqueridos, queridos pais\u201d. Se ele tentasse faz\u00ea-lo, n\u00e3o lhe vinha a imagem, mas o sofrimento sem limites cuja nostalgia o atormentava alimentando-o, porque essas chamas ardentes eram ao mesmo tempo dor e deslumbramento. Tamb\u00e9m o pensamento de seus pais n\u00e3o foi logo mais para T\u00f6rless nada al\u00e9m do pretexto para acordar esse sofrimento ego\u00edsta que o trancafiava em seu orgulho voluptuoso\u201d (Ibidem, p. 8-9).<\/p>\n<p>Essa passagem ilustra bem o modo subjetivo pelo qual o t\u00fanel se escava, at\u00e9 que o menino tome consci\u00eancia, claramente, que de fato: \u201celemento positivo, uma for\u00e7a interior, alguma coisa que havia desabrochado nele sob a cobertura do sofrimento\u201d (Ibidem, p. 9). Do outro lado do t\u00fanel, o furo relativo ao corpo e ao narcisismo se abria igualmente deixando aflorar uma angustiante sensa\u00e7\u00e3o de fragilidade: \u201cAssim, ele mesmo se sentiu empobrecido e frustrado, como uma jovem \u00e1rvore que, depois de ter inutilmente florescido, afronta seu primeiro inverno\u201d (Ibidem, p. 10).<\/p>\n<p>O autor descreve claramente a posi\u00e7\u00e3o dos pais do personagem: nem os sofrimentos do primeiro per\u00edodo que sucedeu a separa\u00e7\u00e3o nem a alegre leveza do segundo os fizeram suportar o penoso caminho interior que o filho deles est\u00e1 vivendo: \u201celes n\u00e3o reconheceram [\u2026] [que] foi a primeira tentativa, ali\u00e1s, infeliz, do jovem para sozinho desenvolver suas energias interiores\u201d (Idem). Entretanto, o eixo central do drama reside nas paix\u00f5es que desencadeiam nele suas primeiras experi\u00eancias de gozo, tanto hetero como homossexuais. \u00c9 justamente essa problem\u00e1tica do gozo que Lacan (1967) evoca em seu breve, mas substancial coment\u00e1rio da obra, quando ele se alarma com a posi\u00e7\u00e3o dos professores que desviam o olhar, n\u00e3o querem saber nada da atroz \u2013 e espont\u00e2nea \u2013 captura das crian\u00e7as nos fantasmas de seus colegas.<\/p>\n<p>O caso de Juan \u00e9 ilustrativo sobre esse ponto. Aluno considerado superdotado, suas capacidades sendo realmente extraordin\u00e1rias, ele chegou ao col\u00e9gio sem problemas maiores, apesar de uma falta de \u201captid\u00f5es sociais\u201d. Mas em plena puberdade, come\u00e7aram a persegui-lo por seu fracasso nas disciplinas esportivas e de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, que colocavam em evid\u00eancia a falta de dom\u00ednio de seu corpo; seu rendimento intelectual ca\u00eda na medida em que seu esp\u00edrito estava ocupado pelos pensamentos obsedantes devido aos atos cotidianos ofensivos e humilhantes que ele suportava com dificuldade. O desprezo da parte das jovens foi a gota que fez transbordar o copo. Ele se tornou v\u00edtima do que chamamos em nossos dias de bullying, inclusive da parte das crian\u00e7as menores; ele se tornou um pestilento, aviltado e bode expiat\u00f3rio de todos. A apatia e a abulia que ele manifestava em casa contrastavam com um estado de hiperatividade na sala, que o impedia de ficar sentado em sil\u00eancio. As notas e as puni\u00e7\u00f5es infligidas pelos professores redobravam, colocando em perigo o destino de g\u00eanio que seus pais projetavam para ele e para o qual eles trabalhavam duramente.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das sess\u00f5es com ele, o trabalho de elabora\u00e7\u00e3o com os pais foi fundamental, levando-os pouco a pouco a compreender o lugar de exce\u00e7\u00e3o no qual seu filho se situava. Eles entenderam que a aus\u00eancia de efic\u00e1cia simb\u00f3lica do significante da lei o empurrava ao desafio e a gozar dos semblantes de autoridade. Pudemos elaborar, juntos, estrat\u00e9gias de sustenta\u00e7\u00e3o para impedir a segrega\u00e7\u00e3o de Juan, que parecia inevit\u00e1vel. Em pouco tempo, a situa\u00e7\u00e3o se estabilizou e o tratamento continuou at\u00e9 que ele se sentisse integrado ao grupo e que o amor de uma jovem o distinguisse.<\/p>\n<p><strong>O Corpo, Sexuado<\/strong><\/p>\n<p>O caminho evocado aqui \u00e9 uma trajet\u00f3ria discursiva complexa, ao mesmo tempo movida e interrompida pelas puls\u00f5es que, por um empuxo novo, desencadeiam na adolesc\u00eancia emo\u00e7\u00f5es e afetos poderosos; a dimens\u00e3o do corpo a\u00ed se encontra, portanto, fortemente engajada. O Outro, solicitando o abandono do discurso infantil para passar a um modo novo e pessoal de habitar a fala, coloca-o em quest\u00e3o, desvalorizando os esfor\u00e7os ou negando seu alcance, e desse jeito contribui para que o adolescente forje sua pr\u00f3pria enuncia\u00e7\u00e3o abrindo um caminho tateando. \u00c9 por isso que o adolescente passa v\u00e1rias horas em sua toca[1], n\u00e3o por pregui\u00e7a ou por neglig\u00eancia, mas porque ele efetua um trabalho de elabora\u00e7\u00e3o ps\u00edquica, de lenta e progressiva subjetiva\u00e7\u00e3o, de um novo modo de ser com o qual se apresentar ao mundo.<\/p>\n<p>Apesar de intelectuais, seus pais n\u00e3o podiam compreender a mudan\u00e7a de seu filho Jorge, que n\u00e3o era mais aquele ser soci\u00e1vel, com v\u00e1rios interesses, nem esse brilhante colegial que ele havia sido at\u00e9 ent\u00e3o. Ele se tornou ab\u00falico, pregui\u00e7oso, blas\u00e9. A ansiedade de seus pais crescia com as amea\u00e7as de castigo ao recusar certas normas e contrapor com formula\u00e7\u00f5es inconvenientes as incita\u00e7\u00f5es de quem queria encoraj\u00e1-lo. Diante desse quadro, se acrescentaram faltas por doen\u00e7as repetitivas das quais ele saia esgotado e ainda mais abatido. Durante o trabalho com seus pais, decidiu-se transferi-lo para uma escola que lhe preparasse para um vestibular em arte, mais apropriado \u00e0 sensibilidade do menino. Essa escolha foi crucial na resolu\u00e7\u00e3o do estado preocupante no qual ele afundava perigosamente, devastado por ideias de suic\u00eddio.<\/p>\n<p>Entre as respostas sintom\u00e1ticas apresentadas por esses dois jovens, muitas s\u00e3o de uma ordem regressiva: numerosos casos de toxicomania, de anorexia, de bulimia e de adi\u00e7\u00f5es se declaram nesse per\u00edodo.<\/p>\n<p>Am\u00e9lie Nothomb, a escritora belga, descreve muito bem essa ruptura total com o mundo infantil que a havia mergulhado \u2013 atrav\u00e9s de um transitivismo marcante com sua irm\u00e3 \u2013 num estado larvar. Elas passavam horas intermin\u00e1veis deitadas no div\u00e3 a se entediar, ab\u00falicas, deprimidas, sozinhas, o que para ela derivou num grave estado de anorexia. A sa\u00edda desse t\u00fanel escuro e mort\u00edfero, gra\u00e7as \u00e0 escrita, tomou a forma de um genial autotratamento pelo qual a autora de La biographie de lafaim resolve a solu\u00e7\u00e3o falha de um grave sintoma de tipo regressivo. Traduzida em v\u00e1rias l\u00ednguas, Nothomb se tornou um \u00edcone importante para os adolescentes, pela crueza refinada e ir\u00f4nica com a qual ela relata os avatares de seus jovens anos. Ela lhes fornece um not\u00e1vel efeito de verdade sobre essa experi\u00eancia do t\u00fanel, o de que eles lhe s\u00e3o reconhecidos num momento em que os semblantes do mundo adulto vacilam e se tornam falsos e hip\u00f3critas.<\/p>\n<p>Ren\u00e9e, quatorze anos, atravessou um per\u00edodo similar, apesar de seus recursos n\u00e3o terem tido a efic\u00e1cia daqueles de Nothomb. Identificada com o sintoma de uma irm\u00e3 mais velha, ela come\u00e7ou a induzir seu pr\u00f3prio v\u00f4mito e se distanciar dos interesses intelectuais que, at\u00e9 ent\u00e3o, cativavam-na. Revelou-se uma obsess\u00e3o por seu corpo que ela queria tornar perfeito por meio de exerc\u00edcios e de uma disciplina de controle. A grave anorexia para onde essa depend\u00eancia a levou necessitou de uma hospitaliza\u00e7\u00e3o. Seus pais tiveram ent\u00e3o a veleidade de recorrer a uma psican\u00e1lise. Mas eles se chocaram com uma sugest\u00e3o antianal\u00edtica do hospital, desaconselhando essa via a eles, o que fez eco a uma demanda inconsciente de rejeitar a implica\u00e7\u00e3o subjetiva no sintoma; eles ent\u00e3o engajaram sua filha nos trilhos normativos da medicina e da terapia cognitivo-comportamental. Nesse caso, a influ\u00eancia dos pais demonstrou sua efic\u00e1cia, mas no sentido contr\u00e1rio ao sujeito do inconsciente.<\/p>\n<p>O sujeito e seus pr\u00f3ximos est\u00e3o frequentemente longe de suspeitar que a esses sintomas encontram-se subjacentes incita\u00e7\u00f5es \u00e0 mortifica\u00e7\u00e3o ou tentativas mais ou menos graves de suic\u00eddio ou de se colocar em situa\u00e7\u00f5es de perigo. A cl\u00ednica psicanal\u00edtica nos ensina que o essencial, para uma sa\u00edda mais ou menos bem sucedida do t\u00fanel, est\u00e1 na disponibilidade dos recursos simb\u00f3licos e imagin\u00e1rios para tratar um real do sexo que desvela a inconsist\u00eancia do Outro. Com efeito, o real, em sua defini\u00e7\u00e3o lacaniana, escapa \u00e0 fala e ao sentido, o que Lacan formulou como sendo o grande segredo desvelado pela psican\u00e1lise: \u00e9 imposs\u00edvel escrever a rela\u00e7\u00e3o entre os sexos. Ou seja, n\u00e3o se pode escrever a lei de atra\u00e7\u00e3o dos corpos sexuados como se escreveu a lei da gravidade, a lei da atra\u00e7\u00e3o dos planetas. Mas essa dificuldade estrutural \u00e9 em parte atenuada se a problem\u00e1tica do gozo ganha uma orienta\u00e7\u00e3o prop\u00edcia ao significante f\u00e1lico, regulador da castra\u00e7\u00e3o. Mesmo nos casos em que o significante f\u00e1lico n\u00e3o opera no inconsciente como regulador de gozo, constata-se os benef\u00edcios de sua incid\u00eancia imagin\u00e1ria como artif\u00edcio, o que permite a diferen\u00e7a entre os sexos operando uma falta sobre o Outro materno.<\/p>\n<p>A m\u00e3e de Oscar, jovem adolescente, alarmada pelo machismo de seu filho que, a seus olhos de feminista e militante de esquerda, parecia sinistro, p\u00f4de subjetivar sua responsabilidade sobre a causa do comportamento de seu filho. Exagerando sua ternura materna \u2013 ela n\u00e3o tinha vida de casal \u2013 ela impunha a seu filho uma proximidade f\u00edsica que lhe era dificilmente suport\u00e1vel; dispondo da fun\u00e7\u00e3o que regula a diferen\u00e7a dos sexos no inconsciente e funda a barreira do incesto, ele reagia com uma viol\u00eancia e uma agressividade excessivas ao encontro do sexo feminino. Nessa ocasi\u00e3o, entrevistas separadas com os pais divorciados desembocaram numa compreens\u00e3o sem precedentes. A consequ\u00eancia foi a interven\u00e7\u00e3o pacificadora do pai, consentida pela m\u00e3e, que se mostrou crucial para Oscar, para a retifica\u00e7\u00e3o de uma identifica\u00e7\u00e3o viril que lhe permitiu uma aproxima\u00e7\u00e3o mais cavalheira das meninas.<\/p>\n<p><strong>E O T\u00fanel No S\u00e9culo XXI?<\/strong><\/p>\n<p>Vemos que essa encruzilhada e seu alcance subjetivo respondem a alguns elementos estruturais que podemos considerar como invariantes, aos quais cada \u00e9poca d\u00e1 seu colorido. Entretanto, \u00e9 bom se interrogar sobre os efeitos que podem ocasionar essas mudan\u00e7as que conhecemos hoje na rela\u00e7\u00e3o com o gozo. A esse respeito, o artigo de Serge Cottet (2006) avan\u00e7a uma tese original a respeito das raz\u00f5es singulares do mal-estar que, de uma maneira ou de outra, afeta o gozo dos seres falantes, no atual estado de capitalismo avan\u00e7ado, incessante produtor de objetos de gozo. Decorre disso que \u00e0s invariantes estruturais vieram se acrescentar as consequ\u00eancias de um empuxo a gozar devido \u00e0 atual permissividade e ao relaxamento dos diques que freavam ou desviavam esse gozo ego\u00edsta e cruel pr\u00f3prio \u00e0s puls\u00f5es parciais. Cottet se refere a Lacan que, a prop\u00f3sito da complexa articula\u00e7\u00e3o entre a lei e o gozo, exprimiu o que a experi\u00eancia anal\u00edtica lhe ensinou: \u201cO que \u00e9 permitido se tornou obrigat\u00f3rio\u201d (LACAN, 1995, p. 286). As consequ\u00eancias de abulia, de t\u00e9dio e de saciedade das quais se queixam os saciados do gozo, fazem Lacan (2003) dizer que se as fic\u00e7\u00f5es de interdi\u00e7\u00e3o n\u00e3o existissem, seria necess\u00e1rio invent\u00e1-las, e ele alerta contra as consequ\u00eancias nefastas de um desejo levando a um acesso f\u00e1cil ao gozo. Disso Cottet nota que em nossa \u00e9poca, na qual se desvanecem os papeis sexuais, s\u00e3o os sentimentos e n\u00e3o o sexo que s\u00e3o agora considerados como indecentes: por falta de destinat\u00e1rios e na aus\u00eancia de receptores, aquele que exprime sentimentos cai no rid\u00edculo.<\/p>\n<p>Sejamos conscientes do risco da insist\u00eancia da parte dos psic\u00f3logos em apresentar a conquista da identidade como modelo de sa\u00edda da crise da adolesc\u00eancia, pois hoje se divagou muito a partir da confus\u00e3o que se estendeu a todo o planeta, entre o ser e o corpo. Os adolescentes s\u00e3o uma presa f\u00e1cil para o mercado da confus\u00e3o medi\u00e1tica que promove o imperativo \u201cser sexy\u201d, slogan no qual eles caem, acreditando resolver assim esse desarranjo do corpo que faz tremerem as identifica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Os Adolescentes No Campo Freudiano<\/strong><\/p>\n<p>Se levarmos em conta os avan\u00e7os da cl\u00ednica de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana promovida por Jacques-Alain Miller, o que chamamos de sa\u00edda do t\u00fanel equivale ao achado de uma solu\u00e7\u00e3o sinthom\u00e1tica coordenada \u00e0 conquista de um semblante ligando o sujeito a um parceiro sexuado. Tal como vimos, tanto a entrada quanto a sa\u00edda do t\u00fanel est\u00e1 estreitamente ligada \u00e0s respostas que os adultos de refer\u00eancia podem oferecer ao sujeito em dificuldade. Porque, finalmente, trata-se de um trabalho de separa\u00e7\u00e3o que possa despertar ou facilitar o interesse dos jovens por sua exist\u00eancia no \u201cgrande mundo\u201d.<\/p>\n<p>Quando Freud se lembra de seus pr\u00f3prios anos de t\u00fanel, que ele situava entre seus dez e dezoito anos, \u201ccom seus pressentimentos e suas err\u00e2ncias, suas transforma\u00e7\u00f5es dolorosas e seus sucessos ben\u00e9ficos\u201d (FREUD, 1987c, p. 285), ele declara que esse grande mundo simb\u00f3lico se torna para ele \u201cum consolo sem igual nos combates da vida\u201d (Idem). Foi nessa \u00e9poca que Freud viu nascer o pressentimento de uma tarefa, que n\u00e3o se esbo\u00e7ava, a princ\u00edpio, sen\u00e3o em voz baixa at\u00e9 que eu n\u00e3o pudesse em minha disserta\u00e7\u00e3o de final de estudos vesti-la de palavras sonoras: eu queria em minha vida trazer uma contribui\u00e7\u00e3o ao nosso saber humano (Idem).<\/p>\n<p>Lidas na perspectiva de \u201cSobre a psicologia escolar\u201d, as cartas de juventude de Freud ganham um grande interesse; retroativamente, senten\u00e7as apaixonadas e confid\u00eancias profundas endere\u00e7adas a amigos \u00edntimos ganham, ent\u00e3o, sentido. Tomemos a carta a Emil Fluss de 28 de setembro de 1872. O futuro psicanalista declara se encontrar no caso de um s\u00e1bio que voc\u00eas questionariam sobre o passado da terra. [\u2026] Eu singro de velas abertas em dire\u00e7\u00e3o ao futuro; que eu pude abordar aqui um dia, me refrescar a\u00ed, eis o que se apaga bem r\u00e1pido da mem\u00f3ria quando se tem apenas o objetivo diante dos olhos (FREUD, 1990, p. 231).<\/p>\n<p>O editor espanhol (FREUD, 1973) dessas cartas nota muito justamente que nessa fase pode-se ler uma antecipa\u00e7\u00e3o de que o valor subjetivo da lembran\u00e7a depende da presen\u00e7a do afeto. Ele mostra igualmente que a preocupa\u00e7\u00e3o de Freud n\u00e3o se refere tanto a sua identidade como argumento da quest\u00e3o do \u201cquem sou?\u201d quanto \u00e0 quest\u00e3o sobre o que ele sabe e o que ele pode ou n\u00e3o chegar a saber. Freud termina sua carta pedindo a seu amigo not\u00edcias de sua m\u00e3e, pois, como ele explica, \u201cme agrada explorar a densa rede dos fios que nos ligam, fios que o acaso e o destino teceram em torno de todos n\u00f3s\u201d (FREUD, 1990, p. 231).<\/p>\n<p>Fazemos nossas essas lindas f\u00f3rmulas para nos orientar nas condi\u00e7\u00f5es atuais da adolesc\u00eancia. \u00c9 urgente colaborar com a difus\u00e3o de estrat\u00e9gias institucionais orientadas pelo ensino de Lacan, tais como o Courtil ou os dispositivos do Cien, a fim de proteger todos esses jovens que, renunciando a uma verdadeira realiza\u00e7\u00e3o subjetiva, se perdem na busca de autossacrif\u00edcios que eles oferecem, sem o saberem, a \u201cdeuses obscuros\u201d, o que os condenam a permanecer na obscuridade do t\u00fanel. As boas sa\u00eddas, as sa\u00eddas em dire\u00e7\u00e3o a \u201co grande mundo\u201d e ao gozo da vida, se decidem numa \u201cequa\u00e7\u00e3o pessoal\u201d tecida com o fio do acaso e do destino. Dito de outra forma, num entrela\u00e7amento de inconsciente e de encontros contingentes cuja forma n\u00e3o estava ainda inscrita na experi\u00eancia, para ser aquela de cada um, resultado de uma inven\u00e7\u00e3o singular que n\u00e3o pode, no entanto, se aventurar no mundo sem que o Outro diga \u201csim\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: Cristina Drummond<\/h6>\n<h6>Revis\u00e3o Renato Sarieddine<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Bibliografia:<\/strong><\/h6>\n<h6>COTTET, S. \u201cLe sex e faible des ados: Sexe-machine ET mythologie Du coeur\u201d, La Cause Freudienne, N\u00ba 64. Paris: Navarin \u00c9diteur, octobre 2006.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. \u201cAs transforma\u00e7\u00f5es da puberdade\u201d. In: Tr\u00eas ensaios sobre a teoria da sexualidade (Vol. 7, 2\u00aa ed.). Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago. 1987a.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Contribui\u00e7\u00f5es para uma discuss\u00e3o acerca do suic\u00eddio (Vol. 11, 2a ed., pp. 217-218). Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago. 1987b.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Algumas reflex\u00f5es sobre a psicologia escolar (Vol. 13, 2a ed., pp. 283-288). Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago. 1987.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Lettres de jeunesse. Paris: Gallimard, 1990.<\/h6>\n<h6>HUGO, V. Os trabalhadores do mar. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1971.<\/h6>\n<h6>LACAD\u00c9E, P. O despertar e o ex\u00edlio. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2011.<\/h6>\n<h6>LACAN J. O Semin\u00e1rio. Livro 4: a rela\u00e7\u00e3o de objeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1995.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. O Semin\u00e1rio. Livro 16: de um Outro ao outro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cPetit discours aux psychiatres de Sainte Anne\u201d, 11 de outubro de 1967, in\u00e9dito.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. O Semin\u00e1rio. Livro 14: a l\u00f3gica do fantasma, aula de 1\u00ba de fevereiro de 1967, in\u00e9dito.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cTelevis\u00e3o\u201d, Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.<\/h6>\n<h6>MUSIL, R. O jovem T\u00f6rless. S\u00e3o Paulo: Folha de S\u00e3o Paulo, 2003.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>[1] Segundo o termo apropriado (\u201cterrier\u201d em franc\u00eas) de nossa colega Erminia Maccola.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Vilma Coccoz Turinetto<\/strong><\/h6>\n<h6>Vilma Coccoz Turinetto &#8211; psicanalista, AME da ELP e AMP. E-mail:\u00a0<span id=\"cloak25430929d9994c2709a3d4e90a428133\"><a href=\"mailto:vicoccoz@correo.cop.es\">vicoccoz@correo.cop.es<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VILMA COCCOZ TURINETTO FOTO: JO\u00c3O PERDIG\u00c3O N\u00e3o H\u00e1 Adolescente Sem Outro Definir a adolesc\u00eancia como \u201ca mais delicada das transi\u00e7\u00f5es\u201d (HUGO, 1971, p. 20) \u2013 feliz achado que Philippe Lacad\u00e9e (2011) nos faz compartilhar \u2013 permite conceber essa sa\u00edda da puberdade numa l\u00f3gica de discurso, e n\u00e3o simplesmente como etapa do desenvolvimento biol\u00f3gico. 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