{"id":731,"date":"2015-03-17T06:56:00","date_gmt":"2015-03-17T09:56:00","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=731"},"modified":"2025-12-01T17:03:41","modified_gmt":"2025-12-01T20:03:41","slug":"a-adolescencia-como-abertura-do-possivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2015\/03\/17\/a-adolescencia-como-abertura-do-possivel\/","title":{"rendered":"A Adolesc\u00eancia Como Abertura Do Poss\u00edvel"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>MARCO FOCCHI<\/strong><\/h6>\n<\/div>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Focchi-lisley-768x431-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"768\" data-large_image_height=\"431\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-732\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Focchi-lisley-768x431-1.jpg\" alt=\"\" width=\"768\" height=\"431\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Focchi-lisley-768x431-1.jpg 768w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Focchi-lisley-768x431-1-300x168.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><\/a><\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6 style=\"padding-left: 240px;\">FOTO: Jesse Barbosa , Sr. Ka.FOTO: JESSE BARBOSA , SR. KA.<\/h6>\n<p>A adolesc\u00eancia n\u00e3o \u00e9 um conceito cl\u00e1ssico da psican\u00e1lise, mas uma refer\u00eancia de Freud (1976a) pode, no entanto, ajudar-nos a nos orientar nessa quest\u00e3o. Trata-se de seu artigo de 1889 sobre as lembran\u00e7as encobridoras. Freud esclarece seu car\u00e1ter h\u00edbrido, dizendo que elas utilizam ao mesmo tempo um material infantil e reformula\u00e7\u00f5es sucessivas a fim de responder a quest\u00f5es que s\u00e3o colocadas numa idade mais tardia.<\/p>\n<p>Tal como sabemos, as lembran\u00e7as encobridoras n\u00e3o refletem, ou refletem apenas em parte, epis\u00f3dios pertencentes \u00e0 inf\u00e2ncia; elas s\u00e3o mais do que tudo (n\u00e3o s\u00e3o mais que) montagens tardias realizadas com um efeito (de) a posteriori. A idade na qual a maioria dessas lembran\u00e7as se forma se deduz facilmente das necessidades \u00e0s quais elas v\u00eam responder. S\u00e3o aquelas, shilerianas (FREUD, 1976b) a partir das quais Freud forjou o primeiro modelo da no\u00e7\u00e3o de puls\u00e3o: fome e amor (1976a).<\/p>\n<p>A partir do momento em que o sujeito sai do enquadre simb\u00f3lico da fam\u00edlia para se abrir para o espa\u00e7o do mundo, se imp\u00f5em a ele as primeiras escolhas concernentes \u00e0 dire\u00e7\u00e3o a dar \u00e0 sua exist\u00eancia, seu lugar na sociedade e na orienta\u00e7\u00e3o de seus sentimentos para novos objetos de amor. Para enfrentar o in\u00e9dito e o desconhecido, o sujeito se serve do que tem \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o. Os tra\u00e7os e as experi\u00eancias infantis s\u00e3o ent\u00e3o retomados nesse contexto modificado; misturados com temas atuais, eles tra\u00e7am as pistas ao longo das quais buscar uma satisfa\u00e7\u00e3o adequada a essas novas exig\u00eancias.<\/p>\n<p>As lembran\u00e7as encobridoras, com sua natureza composta, constituem assim um limiar, uma fronteira temporal entre a inf\u00e2ncia e o horizonte transformado da vida. As quest\u00f5es fundamentais \u00e0s quais elas devem responder s\u00e3o aquelas do sentido da vida e da morte, que se colocam na adolesc\u00eancia num plano diferente daquele da inf\u00e2ncia. Devemos acrescentar a isso aquelas do amor a partir do momento em que o sujeito abandona seus antigos objetos para se abrir a novas possibilidades.<\/p>\n<p><strong>Matura\u00e7\u00e3o E Adapta\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>A concep\u00e7\u00e3o da adolesc\u00eancia definida por n\u00f3s a partir do limiar que s\u00e3o as lembran\u00e7as encobridoras difere daquela de Erik Erikson (1976), que a apresenta como uma fase do desenvolvimento na qual a identidade se constr\u00f3i numa perspectiva de adapta\u00e7\u00e3o, ou ainda daquela de Peter Blos (1967), que interpreta a adolesc\u00eancia subdividindo-a em diferentes fases: uma primeira fase de pr\u00e9-adolesc\u00eancia, caracterizada pelo crescimento da press\u00e3o pulsional, uma segunda fase comportando um processo de separa\u00e7\u00e3o dos pais e a constru\u00e7\u00e3o dos ideais, uma terceira na qual o sujeito \u00e9 pressionado pela busca de um objeto de amor, e enfim uma fase tardia em que o sujeito atinge uma posi\u00e7\u00e3o sexual e genital definitiva.<\/p>\n<p>Depois do estudo cl\u00e1ssico de Stanley Hall, a adolesc\u00eancia, que se tornou um cap\u00edtulo da psicologia evolutiva, \u00e9 considerada como uma condi\u00e7\u00e3o particular da passagem entre a idade infantil e a idade adulta, isto \u00e9, a maturidade realizada. Mas, precisamente, essa defini\u00e7\u00e3o formulada como um simples tru\u00edsmo nos parece problem\u00e1tica. Tomar a adolesc\u00eancia como uma fase de transi\u00e7\u00e3o de um estado para outro significa que se considera como adquirida a defini\u00e7\u00e3o de um in\u00edcio e de um fim, de um ponto de partida e de um objetivo a se atingir. A ideia de uma consecu\u00e7\u00e3o que definiria a idade adulta n\u00e3o se sustenta a n\u00e3o ser se se raciocina em termos de normalidade, isto \u00e9, de adapta\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o \u00e9 por acaso que s\u00e3o os autores da ego psychology os que mais se consagraram a esse tipo de estudo.<\/p>\n<p>Os autores kleinianos adotaram uma perspectiva diferente. Donald Meltzer (1991) centra o problema, sobretudo, sobre o saber. A queda do ideal que toca as figuras parentais concerne principalmente \u00e0 pretensa onisci\u00eancia deles, e, no desencantamento que se segue, o espirito se p\u00f5e \u00e0 busca da verdade como o corpo busca o alimento, encontrando diversas vias poss\u00edveis. Uma primeira via consiste na eventual regress\u00e3o \u00e0 posi\u00e7\u00e3o infantil, o retorno \u00e0 fam\u00edlia, a recusa de andar para frente ou se afastar do ninho completamente. A segunda compete a se juntar ao grupo de pares, mas pode derivar em dire\u00e7\u00e3o ao bando ou \u00e0 horda. A terceira \u00e9 aquela do isolamento. Resta, enfim, aquela da abertura ao mundo social, a mais pr\u00f3xima da normalidade, que permite a matura\u00e7\u00e3o e o acesso ao mundo adulto. A\u00ed tamb\u00e9m, apesar de tudo, a argumenta\u00e7\u00e3o \u00e9 desenvolvida em termos de normalidade e de matura\u00e7\u00e3o, o que parece um escudo dif\u00edcil de evitar quando se fala de adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Doldrums[1]<\/strong><\/p>\n<p>A leitura de Winnicott (1969) \u00e9 mais pessoal apesar de ele n\u00e3o abandonar os temas cl\u00e1ssicos sobre a adolesc\u00eancia: a desconfian\u00e7a diante do quadro familiar, a necessidade de provocar, a busca da verdade e o evitar das falsas solu\u00e7\u00f5es. Mas ele nota tamb\u00e9m que o adolescente, no fundo, n\u00e3o quer ser compreendido, ele v\u00ea, por assim dizer, uma ant\u00edtese entre a adolesc\u00eancia e a busca de compreens\u00e3o. Na adolesc\u00eancia trata-se, sobretudo, de um tempo no qual o sujeito deve se compreender a si mesmo mais do que ser compreendido, e para isso ele deve se subtrair \u00e0 compreens\u00e3o pr\u00e9via do Outro. Esse tempo \u00e9 aquele dos doldrums, melancolias, depress\u00f5es ou tristezas que dominam os humores nascentes, ou ainda um sentimento de mar cinzento ou ainda a altern\u00e2ncia da calma plena e de tempestades s\u00fabitas como aquelas que se encontram sob alguns c\u00e9us oce\u00e2nicos.<\/p>\n<p>Os doldrums do adolescente winnicottiano parecem refletir os versos de A m\u00fasica[2], da colet\u00e2nea de As flores do mal. Depois de ter descrito a m\u00fasica tomando como um mar o poeta que, com o peito saliente, luta contra as torrentes na convuls\u00e3o da tempestade das paix\u00f5es, o poema se conclui com um contraste brutal: \u201c\u2014 Mas quando reina a paz, quando a bonan\u00e7a impera,<br \/>\nQue desespero horr\u00edvel me exaspera!\u201d.<\/p>\n<p>S\u00e3o esses versos que Joseph Conrad coloca exergo em A linha de sombra: uma confiss\u00e3o, um dos mais belos romances sobre a inicia\u00e7\u00e3o na vida. Eles reenviam \u00e0 parte central do romance, a esmagadora calma plan\u00edcie no seio da qual o jovem oficial, em seu primeiro comando, v\u00ea colocada \u00e0 prova sua tenacidade e sua coragem. Sobre a linha de sombra, sobre o limiar que se trata de atravessar, h\u00e1, entretanto, dois obst\u00e1culos a ultrapassar. Um \u00e9 os doldrums: enquanto o segundo oficial \u00e9 tomado pelo del\u00edrio e a tripula\u00e7\u00e3o colocada fora de a\u00e7\u00e3o pela febre tropical, o jovem capit\u00e3o dever\u00e1 sair da imobilidade da calma plan\u00edcie por meio de suas pr\u00f3prias for\u00e7as.<\/p>\n<p>Mas antes ainda, para chegar ao navio, ele n\u00e3o deve deixar escapar a oportunidade de assumir o comando, ele deve t\u00ea-la e perceber que o pobre e miser\u00e1vel capit\u00e3o Hamilton busca surrupi\u00e1-la dele. \u00c9 ent\u00e3o que o capit\u00e3o Giles, velho lobo do mar com expertise no comando dos navios, mas tamb\u00e9m na arte de navegar na vida, vem ajud\u00e1-lo. O protagonista n\u00e3o percebe imediatamente a sabedoria do discurso de Giles, tomando-o por um simples idiota. O di\u00e1logo entre o protagonista e o capit\u00e3o Giles \u00e9 formidavelmente constru\u00eddo, as palavras deste \u00faltimo parecem nunca chegar ao ponto central, pois ele sabe muito bem que o que \u00e9 crucial n\u00e3o pode ser dito diretamente; ele sabe que a oportunidade n\u00e3o pode ser explicada, mas apenas indicada, tal como uma interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica. O capit\u00e3o Giles \u00e9 o modelo por excel\u00eancia daquele que sabe falar a quem ainda n\u00e3o conhece o que est\u00e1 em quest\u00e3o. Ele n\u00e3o acredita que suas palavras possam ser escutadas pelo ne\u00f3fito da mesma maneira que pelo homem de experi\u00eancia. \u00c9 o estatuto do saber que est\u00e1 em jogo em A linha de sombra, \u00e9 a demonstra\u00e7\u00e3o de sua essencial intransmissibilidade: o que Giles compreendeu n\u00e3o pode ser comunicado ao jovem, que simplesmente o refutaria, mas Giles, com o que sabe, pode levar o jovem a se aperceber e, assim, a poder captar o que se passa diante dele sem que ele veja.<\/p>\n<p><strong>Um Mundo Atr\u00e1s Do Mundo?<\/strong><\/p>\n<p>O cl\u00e1ssico romance de forma\u00e7\u00e3o, em suas diversas express\u00f5es, tem tamb\u00e9m como fio condutor o tema do reconhecimento: o protagonista deve aprender a ver o que tem diante dos olhos, mas que inicialmente n\u00e3o se desvela de forma alguma a ele. David Copperfield (DICKENS, 2014) luta para fazer um caminho na vida e se casa com Dora, filha de Mr. Spanlow, o titular do curso de advogado em que fez seu aprendizado. Quando Dora morre, Agnes, a filha do advogado Wickfield, com o qual David tinha morado durante seus estudos universit\u00e1rios, est\u00e1 ao seu lado. David vai levar um tempo para perceber aquilo que Dora, morrendo, tinha percebido imediatamente com clareza: o fato de que Agnes estava apaixonada por ele, que secretamente ela sempre o havia sido, e que \u00e9 junto dela que se realizaria seu destino sentimental.<\/p>\n<p>O quadro da inicia\u00e7\u00e3o feminina \u00e9 bem diferente. N\u00e3o \u00e9 de seu pr\u00f3prio amor que Jane Eyre (BRONT\u00cb, 2011) deve se aperceber \u2013 as mulheres nesse ponto t\u00eam uma certeza incomparavelmente superior \u00e0 dos homens \u2013, mas ela deve descobrir o mist\u00e9rio de um homem. Mr. Rochester, se dando conta de que sua paix\u00e3o secreta por Jane \u00e9 compartilhada, a pede em casamento, mas a faustuosa resid\u00eancia de Thornfield Hall guarda um terr\u00edvel segredo que Jane dever\u00e1 dolorosamente descobrir no momento mesmo em que se casa: Mr. Rochester j\u00e1 \u00e9 o marido de uma mulher louca, isolada numa torre, escondida do olhar de todos. O inc\u00eandio da propriedade contribuir\u00e1 para retirar o obst\u00e1culo e para oferecer a Jane um Mr. Rochester vi\u00favo, mas a partir de ent\u00e3o cego e desprovido do fausto que a havia deslumbrado. O que Jane deve reconhecer, acolher e fazer seu, \u00e9 o cofre de chumbo de um homem privado da suntuosidade dos semblantes f\u00e1licos.<\/p>\n<p>O amor n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico tema da descoberta adolescente. O jovem T\u00f6rless (MUSIL, 1996) \u00e9 aluno do col\u00e9gio militar muit\u00edssimo exclusivo ao qual o destinou a fortuna de uma fam\u00edlia burguesa pr\u00f3spera. Bozena, a prostituta, o faz descobrir a sexualidade sob um aspecto degradado, lhe revelando o que h\u00e1 de obscuro, de confuso, de dissoluto, de destrutivo atr\u00e1s do mundo diurno, racional e burgu\u00eas. O que T\u00f6rless deve descobrir, com dor e sentimento de abandono, \u00e9 a aus\u00eancia de qualidade do mundo no qual ele vive. Isso se tornar\u00e1 para Ulrich, o protagonista de O homem sem qualidades (MUSIL, 2015), recusa radical de valores esvaziados de sentido. Depois de ter participado com dois colegas, Reiting e Beineberg, dos servi\u00e7os infligidos ao fraco Basini, T\u00f6rless conhece com ele uma experi\u00eancia er\u00f3tica. O que ele deve deixar \u00e9 o mundo burgu\u00eas ao qual pertence sem perceber sua vacuidade.<\/p>\n<p>Num clima inteiramente diferente, Os indiferentes (MORAVIA, 1988) conta a revela\u00e7\u00e3o de um mundo atr\u00e1s do mundo. Um jovem e sua irm\u00e3, Michele e Carla Ardengo s\u00e3o passivos diante da vida, incapazes de experimentar outros sentimentos al\u00e9m do t\u00e9dio. Eles fingem n\u00e3o ver a liga\u00e7\u00e3o que Leo Merumeci tem com a m\u00e3e deles, Mariagrazia. Leo, cansado da m\u00e3e, busca seduzir a filha, enquanto Michele sofre passivamente os avan\u00e7os de Lisa, uma amiga de sua m\u00e3e. Leo tenta embebedar Carla no dia de seu anivers\u00e1rio de vinte e quatro anos com o objetivo de se aproveitar dela, mas esse prop\u00f3sito fracassa porque a jovem, que n\u00e3o \u00e9 habituada ao \u00e1lcool, se sente mal e vomita. Tudo isso se passa num clima de torpor moral no qual Lisa se encarrega de acordar Michele lhe mostrando a rela\u00e7\u00e3o entre Leo e sua irm\u00e3. Michele tenta vingar a honra da fam\u00edlia: ele atira em Leo com uma arma que se esqueceu de carregar, se condenando a um destino de perdedor. Trata-se aqui, tamb\u00e9m, de ver a duplicidade e a hipocrisia do mundo convencional no qual os jovens est\u00e3o aprisionados. Entretanto, nesse caso, os protagonistas n\u00e3o conseguem ultrapassar a prova e atravessar o limiar: a pistola do irm\u00e3o emperra e sua irm\u00e3 aceita se casar com Leo, um casamento sem amor que lhe assegurar\u00e1 a continuidade e o bem estar de sua vida burguesa.<\/p>\n<p><strong>Os Ritos De Inicia\u00e7\u00e3o Tribal<\/strong><\/p>\n<p>A descoberta de um mundo atr\u00e1s do mundo \u2013 al\u00e9m da descoberta da sexualidade e seu lugar na sociedade \u2013 constitui tamb\u00e9m a subst\u00e2ncia dos ritos de inicia\u00e7\u00e3o que assinam a sa\u00edda da inf\u00e2ncia nas sociedades primitivas, com a diferen\u00e7a que implica a dimens\u00e3o do sagrado. Os ritos de inicia\u00e7\u00e3o tribal introduzem de maneira estritamente codificada o jovem na experi\u00eancia, o que o romance de forma\u00e7\u00e3o deixa para conting\u00eancias mais diversas.<\/p>\n<p>Com uma diferen\u00e7a importante nas formas, vemos que a problem\u00e1tica \u00e9 an\u00e1loga: \u00e9 necess\u00e1rio atravessar o limiar das apar\u00eancias para ir em dire\u00e7\u00e3o a uma verdade que n\u00e3o se mostra imediatamente. Nos ritos de inicia\u00e7\u00e3o tribal, trata-se de aceder ao conhecimento das rela\u00e7\u00f5es m\u00edsticas entre a tribo e os seres sobrenaturais que est\u00e3o na origem da cria\u00e7\u00e3o (ELIADE, 1976). Isso passa pela aprendizagem de comportamentos, de t\u00e9cnicas e de institui\u00e7\u00f5es que pertencem ao mundo adulto, ao mesmo tempo em que o acesso ao conhecimento dos mitos, das tradi\u00e7\u00f5es sagradas da tribo, dos nomes dos deuses, da hist\u00f3ria e das fa\u00e7anhas deles. Sair da inf\u00e2ncia significa aprender como as coisas vieram ao ser, e ao mesmo tempo o que funda os comportamentos humanos, as institui\u00e7\u00f5es sociais e culturais. Aceder ao fundamento significa remontar \u00e0s origens onde tudo come\u00e7ou, num tempo m\u00edtico.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a do ritual nas sociedades tribais e sua aus\u00eancia em nosso mundo tem uma significa\u00e7\u00e3o precisa. No mundo moderno, n\u00e3o haveria lugar para um ritual porque a descoberta do mundo atr\u00e1s do mundo se faz de maneira progressiva, numa \u00e9poca em que o homem se considera autorizado a continuar e aperfei\u00e7oar indefinidamente o dado inicial, em busca do novo. Nas sociedades arcaicas prevalece muito mais o contr\u00e1rio: projetar o novo num tempo primordial fazia retorno ao horizonte atemporal das origens.<\/p>\n<p>No romance de J. Conrad, o contraste entre o antigo e o novo \u00e9 particularmente evidente. A\u00ed a inicia\u00e7\u00e3o concerne \u00e0 tomada de responsabilidades que implica o comando e o comando deve ser disputado com o velho capit\u00e3o Hamilton. O jovem se op\u00f5e ao antigo, o antigo \u00e9 apresentado como sem recursos \u2013 ele nunca consegue pagar seu aluguel \u2013 e reivindica os aspectos sobre os quais o autor faz incidir um sopro de ironia, nos sugerindo que suas pretens\u00f5es s\u00e3o, se n\u00e3o abusivas, pelo menos fora de prop\u00f3sito. O in\u00edcio do di\u00e1logo com o capit\u00e3o Giles parece creditar a suspeita do jovem de que aquele que n\u00f3s consideraremos, na sequ\u00eancia, como um velho s\u00e1bio, poderia bem ser, ao contr\u00e1rio, um velho parvo.<\/p>\n<p>No mundo dessacralizado, o que \u00e9 velho ou mesmo antigo n\u00e3o prevalece de forma alguma sobre o que \u00e9 atual; ele est\u00e1, pelo contr\u00e1rio, submetido a um imperativo de renova\u00e7\u00e3o. Nas sociedades arcaicas, o acesso \u00e0 responsabilidade e o fim da ignor\u00e2ncia sup\u00f5em, ao contr\u00e1rio, a morte inici\u00e1tica da crian\u00e7a para que um homem novo seja forjado no molde do tempo original, um homem que ter\u00e1 tomado sobre si o peso da tradi\u00e7\u00e3o. O velho mundo \u00e9 aniquilado por um retorno simb\u00f3lico ao caos primordial, n\u00e3o para avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o a um mundo novo, mas para restabelecer o mundo ao seu come\u00e7o, ali onde as coisas chegaram pela primeira vez. Os gestos e as opera\u00e7\u00f5es que se desenrolam no curso da inicia\u00e7\u00e3o s\u00e3o de fato a repeti\u00e7\u00e3o de modelos exemplares, s\u00e3o os mesmos gestos e as mesmas opera\u00e7\u00f5es que aquelas realizadas pelos pais fundadores.<\/p>\n<p>Num outro plano, a sexualidade que para T\u00f6rless se revela na decad\u00eancia e se apresenta como uma for\u00e7a empurrando-o para recusar o mundo no qual nasceu, participa, ao contr\u00e1rio, nas sociedades arcaicas, da espera do sagrado. Mircea Eliade destaca a aparente contradi\u00e7\u00e3o presente nas culturas nas quais a virgindade \u00e9 particularmente valorizada ao mesmo tempo que os pais da jovem n\u00e3o apenas toleram, mas encorajam os encontros com os rapazes. N\u00e3o se trata, no entanto, simplesmente de liberdade pr\u00e9-matrimonial ou de costumes dissolutos, mas da revela\u00e7\u00e3o de uma sacralidade da mulher que toca \u00e0s fontes da vida e da fecundidade. Os encontros pr\u00e9-conjugais das jovens n\u00e3o t\u00eam em si um car\u00e1ter err\u00e1tico, mas acima de tudo ritual: elas participam mais de um mist\u00e9rio sagrado do que s\u00e3o fonte de prazeres terrestres.<\/p>\n<p><strong>Desencantamento<\/strong><\/p>\n<p>Em sua interven\u00e7\u00e3o no congresso de N\u00e1poles em junho de 2009 sobre o tema Varia\u00e7\u00f5es sexuais e realidade do inconsciente, Domenico Cosenza (2009) se pergunta muito justamente como, na \u00e9poca contempor\u00e2nea, se realiza o encontro com esse mundo atr\u00e1s do mundo quando faltam os ideais reguladores fortes, permitindo estruturar o momento de atravessamento do limiar da adolesc\u00eancia \u00e0 luz da verdade desalojada de seu lugar central.<\/p>\n<p>Nos romances dos s\u00e9culos XIX e XX, a descoberta da verdade \u00e9 acompanhada de efeitos de desidealiza\u00e7\u00e3o, de queda das apar\u00eancias, atr\u00e1s das quais se revela uma realidade degradada, ou imoral, ou uma melancolia devoradora, como em A ilha de Arturo (MORANTE, 2003), uma das obras primas insuper\u00e1veis do g\u00eanero.<\/p>\n<p>Wilhelm \u2013 o pai de Arturo, um mito para seu filho, que sempre imaginou suas aus\u00eancias como maravilhosas viagens pelo mundo, lhe dando aos olhos do filho a dimens\u00e3o de um her\u00f3i sem igual \u2013 se revela no final do romance n\u00e3o ser nada al\u00e9m de um pobre homem, bode expiat\u00f3rio de todos, e cujas grandes viagens nunca foram mais longe do que os arredores de N\u00e1poles. Arturo embarca ent\u00e3o e se afasta de Procida sem nunca se virar para tr\u00e1s: enquanto a ilha se torna cada vez menor na medida em que o navio se afasta, ele deixa sua inf\u00e2ncia para tr\u00e1s com decep\u00e7\u00e3o e uma nostalgia infinita.<\/p>\n<p>A separa\u00e7\u00e3o adolescente coincide, nesse caso, com o desvelamento, com uma verdade dolorosa ou despojada, com um desencantamento que \u00e9 o contr\u00e1rio da descoberta do sagrado e da dimens\u00e3o espiritual da vida que acontece nas sociedades arcaicas. Devemos ent\u00e3o nos resignar a esse empobrecimento dos sonhos, a essa degrada\u00e7\u00e3o dos ideais, a essa perda de imagina\u00e7\u00e3o como pre\u00e7o a ser pago e porta de entrada na idade adulta, um empobrecimento nost\u00e1lgico que deixa como \u00fanica alternativa um conformismo assentado nos imperativos pragm\u00e1ticos da riqueza material?<\/p>\n<p><strong>A Queda Dos Semblantes<\/strong><\/p>\n<p>A literatura moderna prop\u00f5e outra abordagem do atravessamento do limiar conduzindo da leveza aturdida da inf\u00e2ncia \u00e0 responsabilidade adulta: \u00e9 a imagem da invers\u00e3o que se encontra na conclus\u00e3o de um dos textos mais ricos e densos da literatura do s\u00e9culo XIX, um livro que certamente n\u00e3o falta na biblioteca de nenhuma crian\u00e7a e que vale a pena ser percorrido, mesmo na idade adulta: As aventuras de Pin\u00f3quio (COLLODI, 2002). Sa\u00eddo do Pa\u00eds dos Brinquedos, Pin\u00f3quio \u00e9 devorado pelo Tubar\u00e3o (na vers\u00e3o de Walt Disney \u00e9 uma baleia particularmente agressiva, talvez uma evoca\u00e7\u00e3o da pot\u00eancia sugestiva que Moby Dick, encarna\u00e7\u00e3o da ess\u00eancia do mal, exerce sobre o imagin\u00e1rio americano). Na barriga do Tubar\u00e3o, Pin\u00f3quio encontra Gepeto, ali\u00e1s muito fr\u00e1gil para conduzir seus projetos de fuga. Pin\u00f3quio sobrevive levando Gepeto em seus ombros e, com a ajuda de um atum, nada at\u00e9 a margem. Essa invers\u00e3o de posi\u00e7\u00e3o, na qual o filho carrega o pai \u2013 tendo como pano de fundo Eneias carregando Anquises \u2013 equivale a salvar o pai. A crian\u00e7a que foi sustentada por seu pai, agora o ajuda. \u00c9 apenas depois dessa invers\u00e3o entre o acima e o abaixo, entre o salvador e o salvo, que o boneco se transforma em criatura de carne e osso. A\u00ed nada de desilus\u00e3o nem de nostalgia, mas muito mais uma reconcilia\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 a revela\u00e7\u00e3o da verdade de um mundo atr\u00e1s do mundo, mas um encontro com o real, com o risco de ser engolido \u2013 o tubar\u00e3o \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o genial disso \u2013 e com a necessidade de encontrar uma solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pin\u00f3quio, como exemplo de passagem do limiar da adolesc\u00eancia, segue sem d\u00favida uma via mais pr\u00f3xima daquela que Lacan sugere em seu coment\u00e1rio de O despertar da primavera (WEDEKIND, 2008), texto banhado numa sexualidade mais crua, e que nos d\u00e1 elementos para captar as coisas nessa perspectiva. Lacan (2003) indica que o que se trata de desvelar n\u00e3o \u00e9 um mundo atr\u00e1s do mundo, mas o real da aus\u00eancia de rela\u00e7\u00e3o sexual. O que se revela com a queda dos semblantes \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual, e com o real n\u00e3o se trata de buscar uma via de adapta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o nos adaptamos ao real, diz Lacan (2005), no m\u00e1ximo nos habituamos com ele. Os adolescentes representados por Wedekind em O despertar da primavera, Wendla, Moritz, Melchior, descobrem a brutalidade do sexo, a hipocrisia burguesa dos adultos, o fracasso, a vergonha. Nisso eles s\u00e3o como os adolescentes do romance de forma\u00e7\u00e3o e devem rasgar o v\u00e9u de uma responsabilidade fict\u00edcia e intolerante. Os dois primeiros sucumbem. Wendla morre logo depois de um aborto mal praticado. Moritz se suicida para n\u00e3o revelar a seus pais seu fracasso escolar. Melchior \u00e9 salvo, ele que, tendo encontrado seu amigo suicidado no cemit\u00e9rio e depois que buscou lev\u00e1-lo consigo para a tumba, escolhe seguir uma enigm\u00e1tica figura de Homem Mascarado, no qual Lacan reconhece a express\u00e3o do semblante por excel\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Melchior: Qui \u00eates-vous? Qui \u00eates-vous? Je ne peux me confier \u00e0 un homme que je ne connais pas.<\/em><\/p>\n<p><em>L\u2019homme masqu\u00e9: Tu n\u2019apprendras pas \u00e0 me conna\u00eetre \u00e0 moins de te confier \u00e0 moi.<\/em><\/p>\n<p><em>Melchior: Croyez-vous?<\/em><\/p>\n<p><em>L\u2019homme masqu\u00e9: C\u2019est ainsi! D\u2019ailleurs tu n\u2019as plus de choix.<\/em><\/p>\n<p><em>Melchior: Je peux encore \u00e0 tout moment tendre la main \u00e0 mon ami.<\/em><\/p>\n<p><em>L\u2019homme masqu\u00e9: Ton ami est um charlatan. Nul ne sourit qui n\u2019a plus qu\u2019un sou vaillant em poche. L\u2019humoriste sublime est de toute la cr\u00e9ation la cr\u00e9ature la plus pitoyable, la plus d\u00e9plorable[3].<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As apar\u00eancias burguesas ca\u00edram, sua duplicidade, sua afeta\u00e7\u00e3o, suas imposturas s\u00e3o desmascaradas e, at\u00e9 a\u00ed, o percurso \u00e9 o mesmo que em T\u00f6rless ou em Os indiferentes. Mas n\u00e3o h\u00e1 o gesto de recusa virando as costas \u00e0 dissimula\u00e7\u00e3o, como em T\u00f6rless, ou o compromisso conformista, como em Os indiferentes. \u00c9 a escolha de seguir apesar de tudo o semblante, que aqui o Homem Mascarado encarna. Em outros termos: n\u00e3o h\u00e1 necessidade de acreditar no semblante para segui-lo. O que Carlo Collodi representa com sua f\u00e1bula burlesca, Wedekind mostra de maneira dram\u00e1tica, mas, em um caso como no outro, trata-se de dizer sim ao pai, de salv\u00e1-lo da queda \u00e0 qual ele seria condenado se ele retirasse sua m\u00e1scara, refutando toda f\u00e9 nos semblantes.<\/p>\n<p><strong>Reunamos Para Concluir Os Pontos Que Examinamos:<\/strong><\/p>\n<p>1 \u2013 A adolesc\u00eancia, que na tradi\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica p\u00f3s-freudiana foi considerada uma fase, um tempo de matura\u00e7\u00e3o visando \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o, pode ser considerada mais como um momento de escans\u00e3o quando se apoia no texto freudiano: ela \u00e9 o limiar entre uma situa\u00e7\u00e3o est\u00e1tica e a abertura do poss\u00edvel. Isso faz da adolesc\u00eancia o caso particular de uma eventualidade mais geral. Ficar apaixonado, por exemplo, em qualquer idade que seja, sempre tem no fundo um car\u00e1ter adolescente, a partir do momento em que esse novo amor reabre um campo de possibilidades que a rotina da vida se encarrega em geral de fechar.<\/p>\n<p>2 \u2013 Essa passagem do est\u00e1tico ao poss\u00edvel \u00e9 codificada de maneira ritual nas sociedades arcaicas como movimento, conduzindo de uma vida por natureza irrespons\u00e1vel \u2013 assim \u00e9 considerada a inf\u00e2ncia \u2013 a uma vida que assume a cultura da tribo e, portanto, a uma vida que tem um sentido. O acesso ao sentido vem da participa\u00e7\u00e3o no tempo dos come\u00e7os, a revela\u00e7\u00e3o do original sagrado, a inicia\u00e7\u00e3o em um mundo m\u00edtico escondido atr\u00e1s do mundo de todos os dias. O mundo tem sentido porque h\u00e1 um mundo invis\u00edvel atr\u00e1s do vis\u00edvel, que constitui seu fundamento e seu princ\u00edpio. O limiar da adolesc\u00eancia desemboca, portanto, na obten\u00e7\u00e3o de uma vida espiritual como suplemento da vida natural que permite a integra\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel do indiv\u00edduo na comunidade da qual, a partir de ent\u00e3o, ele conhece e compartilha os valores.<\/p>\n<p>3 \u2013 Num mundo dessacralizado, a revela\u00e7\u00e3o inici\u00e1tica abre, ao contr\u00e1rio, para o vazio, a pobreza, a degrada\u00e7\u00e3o, a engana\u00e7\u00e3o que se mant\u00e9m atr\u00e1s da apar\u00eancia do mundo vis\u00edvel. Quando o sagrado n\u00e3o tem mais fun\u00e7\u00e3o de organizar a vida da comunidade, fazer cair o v\u00e9u das apar\u00eancias leva a desmascarar a mentira, a desmistificar. O romance de forma\u00e7\u00e3o apresenta assim a experi\u00eancia da adolesc\u00eancia como desencantamento, isto \u00e9, como o contr\u00e1rio do que ela \u00e9 nas sociedades arcaicas. Abrir os olhos pode tamb\u00e9m querer dizer descobrir o amor, como para David Copperfield, mas isso ocorre depois de uma travessia que despoja a inf\u00e2ncia de todo encanto, fazendo-a passar pelo embrutecimento de um trabalho que \u00e9 pura explora\u00e7\u00e3o e por inumer\u00e1veis intimida\u00e7\u00f5es que mostram a realidade de um mundo atr\u00e1s do mundo que \u00e9 sua pura nega\u00e7\u00e3o. David deve, al\u00e9m disso, desmascarar a hipocrisia repugnante de Uriah Heep, sua falsa humildade, sua obsequiosidade trai\u00e7oeira, seus desejos ign\u00f3beis que s\u00e3o o equivalente da perversidade m\u00f3rbida presente em T\u00f6rless. Atravessar o limiar da adolesc\u00eancia num mundo dessacralizado significa despojar a inf\u00e2ncia de sua magia e de sua inoc\u00eancia e v\u00ea-la desaparecer com nostalgia como Procida em A ilha de Arturo.<\/p>\n<p>4 \u2013 Na perspectiva que podemos destacar a partir de Lacan, a queda dos semblantes n\u00e3o corresponde \u00e0 revela\u00e7\u00e3o de um mundo atr\u00e1s do mundo, ao florescer de uma verdade escondida que faz decair o que \u00e9 manifesto. O v\u00e9u cai deixando captar o real, que n\u00e3o \u00e9 um mundo porque ele n\u00e3o \u00e9 todo. N\u00e3o se entra assim numa l\u00f3gica que op\u00f5e o verdadeiro e o falso, porque o semblante n\u00e3o \u00e9 reduzido ao reino da mentira e pode guardar uma fun\u00e7\u00e3o. A queda do semblante, da qual adv\u00e9m o encontro com o real, \u00e9, sobretudo, o tempo em que pode se verificar uma invers\u00e3o do que n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever ao que cessa de n\u00e3o se escrever \u2013 se pensamos nisso, \u00e9 a mesma invers\u00e3o que se realiza para Pin\u00f3quio quando a fuga imposs\u00edvel se torna poss\u00edvel \u2013 e \u00e9 a abertura sobre o poss\u00edvel que adv\u00e9m com a adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante observar tamb\u00e9m que frequentemente, na cl\u00ednica, quando se procura encontrar o momento constitutivo dos sintomas ou do mal-estar do qual o paciente se queixa, se n\u00e3o fatores traum\u00e1ticos ou solu\u00e7\u00e3o de continuidade em sua vida, remonta-se sempre ao tempo da adolesc\u00eancia. O momento constitutivo do sintoma \u00e9 a adolesc\u00eancia porque \u00e9 um tempo no qual o encontro com o real como abertura do poss\u00edvel deixa um tra\u00e7o. \u00c9 \u00e0 luz disso que devemos considerar o fato de que as lembran\u00e7as encobridoras s\u00e3o o equivalente freudiano do sintoma, o tra\u00e7o do atravessamento do limiar, com o qual o sujeito poder\u00e1 ou n\u00e3o se identificar. Em outros termos: ele poder\u00e1 gozar ou sofrer dele.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: Cristina Drummond<\/h6>\n<h6>Revis\u00e3o: Lilany Pacheco<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Bibliografia:<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>BAUDELAIRE, C. A m\u00fasica. In: As Flores do mal. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.<\/h6>\n<h6>BLOS, P. Les adolescentes: essai de psychanalyse, Paris : Stock, 1967, esgotado.<\/h6>\n<h6>BRONT\u00cb C. Jane Eyre. Rio de Janeiro: BestBolso, 2011.<\/h6>\n<h6>COLLODI, C. Les aventures de Pinocchio, Paris : Mille et Une Nuits, 1998.<\/h6>\n<h6>CONRAD, J. A linha de sombra: uma confiss\u00e3o. Porto Alegre: L&amp;PM, 2010.<\/h6>\n<h6>COSENZA, D. \u201cL\u2019initiation dans l\u2019adolescence: entre mythe et structure\u201d, Mental, n.23, FEEP, dezembro de 2009.<\/h6>\n<h6>DICKENS, C. David Copperfield. S\u00e3o Paulo: Cosac &amp; Naify, 2014.<\/h6>\n<h6>\u00c9LIADE M. Initiation, rites, soci\u00e9t\u00e9s secr\u00e8tes. Naissances mystiques. Essai sur quelques types d\u2019initiation, Paris: Gallimard, 1976.<\/h6>\n<h6>ERIKSON, E. Identidade: Juventude e crise, Rio de Janeiro: Zahar, 1976.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. \u201cLembran\u00e7as encobridoras\u201d, In: Obras Completas, Rio de Janeiro, Imago, 1976a.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. \u201cO mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o\u201d, In: Obras Completas, Rio de Janeiro, Imago, 1976b.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Pref\u00e1cio a \u201cO despertar da primavera\u201d, Outros Escritos, RJ: Jorge Zahar Editor, 2003.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Le triomphe de La religion, Paris: Seuil, 2005.<\/h6>\n<h6>MELTZER, D. \u201cPsicopatologia dell\u2019adolescenza\u201d, in Quaderni di psicoterapia infantil, n. 1, 1991.<\/h6>\n<h6>MORANTE, E. A ilha de Arturo. S\u00e3o Paulo: Berlendis e Vertecchia, 2003.<\/h6>\n<h6>MORAVIA A. Os indiferentes. Rio de Janeiro: Bertrand Braisl, 1988.<\/h6>\n<h6>MUSIL, R. O jovem T\u00f6rless. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996.<\/h6>\n<h6>MUSIL, R. O homem sem qualidades. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.<\/h6>\n<h6>WEDEKIND, F. L\u2019eveil du printemps. Paris: Gallimard, 1974.<\/h6>\n<h6>WINNICOTT, D.W. \u201cL\u2019adolescence\u201d. In: De la p\u00e9diatrie \u00e0 la psychanalyse. Paris, Payot, 1969.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>[1]Termo de navega\u00e7\u00e3o marinha ou a\u00e9rea indicando o momento em que n\u00e3o se sabe de que lado o vento vai virar ou se vai haver vento. To be in the doldrums: estar num marasmo, na fossa, estagnar.<\/h6>\n<h6>[2] BAUDELAIRE C., \u201cA m\u00fasica\u201d, As Flores do mal<\/h6>\n<h6>A m\u00fasica p\u2019ra mim tem sedu\u00e7\u00f5es de oceano!<br \/>\nQuantas vezes procuro navegar,<br \/>\nSobre um dorso brumoso, a vela a todo o pano,<br \/>\nMinha p\u00e1lida estrela a demandar!<\/h6>\n<h6>O peito saliente, os pulm\u00f5es distendidos<br \/>\nComo o rijo velame d\u2019um navio,<br \/>\nIntento desvendar os reinos escondidos<br \/>\nSob o manto da noite escuro e frio;<\/h6>\n<h6>Sinto vibrar em mim todas as como\u00e7\u00f5es<br \/>\nD\u2019um navio que sulca o vasto mar;<br \/>\nChuvas temporais, ciclones, convuls\u00f5es<\/h6>\n<h6>Conseguem a minh\u2019alma acalentar.<br \/>\n\u2014 Mas quando reina a paz, quando a bonan\u00e7a impera,<br \/>\nQue desespero horr\u00edvel me exaspera!<\/h6>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o de Delfim Guimar\u00e3es<\/h6>\n<h6>[3] Melchior: Quem \u00e9 voc\u00ea? Eu n\u00e3o posso confiar num homem que n\u00e3o conhe\u00e7o.<\/h6>\n<h6>O homem mascarado: Voc\u00ea n\u00e3o aprender\u00e1 a me conhecer a n\u00e3o ser confiando em mim.<\/h6>\n<h6>Melchior: Voc\u00ea acha?<\/h6>\n<h6>O homem mascarado: \u00c9 assim! Ali\u00e1s, voc\u00ea n\u00e3o tem mais escolha.<\/h6>\n<h6>Melchior: Eu ainda posso a qualquer momento estender a m\u00e3o ao meu amigo.<\/h6>\n<h6>O homem mascarado: Seu amigo \u00e9 um charlat\u00e3o. Ningu\u00e9m sorri sem ter um tost\u00e3o v\u00e1lido no bolso. O humorista sublime \u00e9 de toda a cria\u00e7\u00e3o a criatura mais pat\u00e9tica, a mais deplor\u00e1vel<\/h6>\n<h6>(WEDEKIND, 1974, p. 95, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Marco Focchi<\/strong><\/h6>\n<h6>Marco Focchi- psicanalista, AME da SLP e AMP. E-mail:\u00a0<span id=\"cloak67d6c8aba631b00122497bd5aff4b65c\"><a href=\"mailto:marcofocchi52@gmail.com\">marcofocchi52@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MARCO FOCCHI FOTO: Jesse Barbosa , Sr. Ka.FOTO: JESSE BARBOSA , SR. KA. A adolesc\u00eancia n\u00e3o \u00e9 um conceito cl\u00e1ssico da psican\u00e1lise, mas uma refer\u00eancia de Freud (1976a) pode, no entanto, ajudar-nos a nos orientar nessa quest\u00e3o. Trata-se de seu artigo de 1889 sobre as lembran\u00e7as encobridoras. Freud esclarece seu car\u00e1ter h\u00edbrido, dizendo que elas&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58165,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[],"class_list":["post-731","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-16","category-12","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/731","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=731"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/731\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58166,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/731\/revisions\/58166"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58165"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=731"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=731"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=731"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}