{"id":734,"date":"2015-03-17T06:56:00","date_gmt":"2015-03-17T09:56:00","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=734"},"modified":"2025-12-01T17:04:07","modified_gmt":"2025-12-01T20:04:07","slug":"o-sintoma-na-encruzilhada-dos-caminhos-um-caso-extremo-de-recusa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2015\/03\/17\/o-sintoma-na-encruzilhada-dos-caminhos-um-caso-extremo-de-recusa\/","title":{"rendered":"O Sintoma Na Encruzilhada Dos Caminhos: Um Caso Extremo De Recusa"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>PIERRE NAVEAU<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Pierre-Naveau-400x600-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"400\" data-large_image_height=\"600\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-735\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Pierre-Naveau-400x600-1.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Pierre-Naveau-400x600-1.jpg 400w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Pierre-Naveau-400x600-1-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p>Propomos aqui apresentar o caso de um jovem de 15 anos, Adrien, que decidiu persistir numa posi\u00e7\u00e3o de recusa radical. Seu sintoma \u00e9 ser, inteiramente, recusa. Ele faz de si mesmo o signo de que h\u00e1 algo que n\u00e3o funciona neste mundo, que o mundo vai mal.<\/p>\n<p><strong>I Joyce O Sintoma<\/strong><\/p>\n<p>A fim de abordar esse caso extremo utilizando um vocabul\u00e1rio renovado, escolhemos tomar como refer\u00eancia o ultim\u00edssimo ensino de Lacan e passar pela leitura e coment\u00e1rio de dois de seus textos que foram publicados por Jacques-Alain Miller com o mesmo t\u00edtulo: \u201cJoyce o sintoma\u201d. De fato, esses dois textos evidenciam mais particularmente duas no\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas: portemanteau[1] e escabeau[2]. Parece-me ainda mais importante utiliz\u00e1-las na medida em que esses dois termos do discurso corrente nos remetem a dois instrumentos que t\u00eam, cada um, sua utilidade.<\/p>\n<p><strong>O Portemanteau<\/strong><\/p>\n<p>Tomemos como ponto de partida a defini\u00e7\u00e3o de sintoma dada por Lacan em seu Semin\u00e1rio RSI, por ocasi\u00e3o de sua aula de 18 de fevereiro de 1975. Lacan destaca que \u201co sintoma reflete no real, o fato de que algo n\u00e3o funciona, onde? \u2013 n\u00e3o no real certamente, ele esclarece, mas no campo do real\u201d (1975, p. 105). Lacan faz alus\u00e3o, me parece, \u00e0 distin\u00e7\u00e3o que ele introduziu entre os tr\u00eas campos do real, do simb\u00f3lico e do imagin\u00e1rio, que se entrecruzam em um n\u00f3 espec\u00edfico \u2013 o n\u00f3 borromeano. Ele indica, ent\u00e3o, que h\u00e1 \u201ccoer\u00eancia\u201d (Ibid., p. 106), como ele diz, entre o sintoma e o inconsciente. A esse respeito, ele argumenta que o sintoma se define pela \u201cmaneira como cada um goza do inconsciente, na medida em que o inconsciente o determina\u201d (Idem). \u00c9, portanto, not\u00e1vel que Lacan, em sua confer\u00eancia de 16 de junho de 1975, venha a afirmar que, paradoxalmente, Joyce, o sintoma, \u00e9 tamb\u00e9m Joyce enquanto \u201cdesabonado do inconsciente\u201d (LACAN, 1975, p. 1610). Joyce \u00e9 um sintoma, na medida em que o v\u00ednculo entre o sintoma e o inconsciente \u00e9 rompido. O sintoma est\u00e1, no caso de Joyce, desconectado do inconsciente. Portanto, uma quest\u00e3o se coloca: do que Joyce goza? Para responder a essa quest\u00e3o, Lacan n\u00e3o nos remete ao in\u00edcio da vida de Joyce, isto \u00e9, ao seu livro inaugural, no qual ele narra sua vida, Retrato do artista. Ele convida seus ouvintes a ler a sua \u00faltima obra, Finnegans Wake. Cada palavra, ou quase, ele insiste, \u00e9 um pun[3]. Um pun muito particular, ele esclarece. Muitas palavras n\u00e3o s\u00e3o jokes, chistes, mas o que Lewis Carroll chama em ingl\u00eas de portmanteau, isto \u00e9, \u201cmots-valises[4]\u201d ou \u201cpalavras-portemanteaux\u201d. O termo portmanteau aparece, na escrita de Lewis Carroll, no capitulo VI de Through the Looking\u2013Glass, quando Alice pede a Humpty Dumpty que ele lhe explique o poema que ela n\u00e3o entende, e que se intitula Jabberwocky (CARROLL, 2010, p. 246). Humpty Dumpty ensina a Alice que uma palavra-portemanteau \u00e9 uma palavra que cont\u00e9m v\u00e1rias significa\u00e7\u00f5es, de fato v\u00e1rias palavras. Por exemplo, slictueux significa \u201cflex\u00edvel, ativo e untuoso\u201d e flivoreux quer dizer \u201cfr\u00edvolo e infeliz\u201d (Ibid., p. 247-248). Nesse fragmento de frase, que se encontra no in\u00edcio do s\u00e9timo cap\u00edtulo de Finnegans Wake e que concerne o personagem de Shem: \u201ctamb\u00e9m Shem em pessoa, Doctateur, pegou a recompensa\u201d (JOYCE, 1997, p. 269), fica claro que a palavra doctateur cont\u00e9m, ao mesmo tempo, as palavras \u201cdocte, docteur e dictateur\u201d[5]. Podemos, portanto, dizer do poema de Lewis Carroll o que Lacan diz de Finnegans Wake: \u201cleiam as p\u00e1ginas de Finnegans Wake, sem tentar entender. Pode-se ler isso. Se pode-se ler isso (\u2026) \u00e9 porque sentimos a presen\u00e7a do gozo daquele que escreveu isso\u201d (LACAN, 2007, p. 160). Segundo Lacan, o gozo de Joyce deve ser relacionado, portanto, n\u00e3o ao duplo sentido do joke (chiste), mas \u00e0s m\u00faltiplas significa\u00e7\u00f5es do pun. Joyce goza do uso que ele faz da palavra-portemanteau. \u00c9, quando ele escreve, sua maneira de gozar da linguagem. Joyce recusa o equ\u00edvoco da l\u00edngua que ataria, como no chiste, o la\u00e7o com o Outro. Joyce diz Lacan \u201cse pro\u00edbe de jogar com os equ\u00edvocos que mexeriam com o inconsciente de qualquer um\u201d (Ibid., 162). Apesar de seus dois nomes fazerem ressoar o riso da alegria, h\u00e1 um abismo entre Joyce e Freud. Desse ponto de vista, Joyce \u00e9 sintoma, se faz sintoma, porque o que ele escreve n\u00e3o se endere\u00e7a ao inconsciente do Outro, \u201cn\u00e3o\u2026 Concerne em nada\u201d, esclarece Lacan (Ibid., 161), o leitor. \u201cN\u00e3o h\u00e1 qualquer chance\u201d, acrescenta Lacan, de que o que ele escreve \u201cretenha algo do nosso inconsciente\u201d (Ibid). O la\u00e7o com o Outro se desfaz. N\u00e3o se trata de criar um sentido, mas de destru\u00ed-lo, de aniquil\u00e1-lo. A l\u00edngua inglesa, como observa Lacan, \u00e9, para Joyce, \u201ca l\u00edngua dos invasores, dos opressores\u201d (Ibid., 162). \u00c9 uma l\u00edngua imposta. \u00c9 por isso que h\u00e1, para ele, esse gozo destrutivo que consiste em despeda\u00e7ar a carne de uma l\u00edngua. O que conta n\u00e3o \u00e9 o sentido e sim o gozo, esse gozo, diz Lacan, \u201c\u00e9 a \u00fanica coisa de seu texto que n\u00f3s podemos alcan\u00e7ar\u201d (Ibid, p. 163). \u00c9, de fato, o que toca o leitor de Finnegans Wake. Ele fica estupefato. O sintoma que Joyce constitui na cultura \u00e9 rebelde ao sentido. Ele encarna a opacidade, essa estrutura de linguagem que apresenta a particularidade de ser, segundo a defini\u00e7\u00e3o de Lacan, um real que exclui o sentido (LACAN, 1975-76, p. 20 e p. 34). \u00c9 por isso que um tal sintoma se situa nesse limite, que \u00e9 o de um caso extremo. Lacan faz, ent\u00e3o, entrar em cena o termo escabelo, quando ele diz que Joyce \u201creservou (para Finnegans Wake) a fun\u00e7\u00e3o de ser o seu escabelo\u201d (LACAN, 2007, p. 160-161). Assim, Finnegans Wake \u00e9 o escabelo no qual Joyce se empoleirou mantendo-se \u00e0 beira do inintelig\u00edvel! Nessa perspectiva, que se abriu para ele do alto de seu escabelo, seu nome, como ele havia predito, lhe sobreviveu. Como diz Lacan em seu Semin\u00e1rio sobre Joyce, este quebrou o Nome-do-Pai e escolheu o Nome contra o Pai. Ele rejeitou o Pai e preferiu o Nome ao Pai (LACAN, 2007). Ele recusou ser tolo do pai (\u00eatre la dupe du p\u00e8re).<\/p>\n<p><strong>O Escabelo<\/strong><\/p>\n<p>No texto publicado em Outros escritos, que tem igualmente o t\u00edtulo de \u201cJoyce o sintoma\u201d, Lacan (2003) destaca o termo escabelo. A palavra escabelo aparece no Retrato do artista, quando Joyce conta que seu pai falou com ele de uma maneira incompreens\u00edvel no momento em que, precisamente, ele estava assentado em um escabelo: \u201cStephen estava assentado em um escabelo, ao lado de seu pai, prestando aten\u00e7\u00e3o ao seu longo e incoerente mon\u00f3logo\u201d (JOYCE, 1992, p. 118, tradu\u00e7\u00e3o nossa). Lacan indica que a arte de Joyce \u00e9 o resultado, o efeito do orgulho que o levou a subir em seu escabelo de artista e a escrever como ele escreveu. \u00c9 nesse sentido que Joyce n\u00e3o \u00e9 um santo. Pois, diz Lacan, s\u00f3 h\u00e1 santo se quisermos escapar dessa posi\u00e7\u00e3o extrema (LACAN, 2003, p. 562). O santo \u00e9, ele esclarece, aquele que escolhe a escapada (to escape quer dizer, em ingl\u00eas, \u201cescapar a\u201d) e que se castra de seu escabelo, do escabelo de seu orgulho (Idem). Lacan evoca, a esse respeito, \u201ca castra\u00e7\u00e3o do escabelo\u201d, o que ele chama a \u201cescabeaustration[6]\u201d (Ibidem, p. 563). O pecado de Joyce, o sin que Lacan acentuou, n\u00e3o \u00e9 a concupisc\u00eancia, como o pr\u00f3prio Joyce tende a diz\u00ea-lo em seu Retrato do artista, mas o orgulho. Joyce quis se tornar o mestre da l\u00edngua inglesa com o intuito de destru\u00ed-la. O dizer de Joyce, que rejeitou a psican\u00e1lise, se diferencia do dizer de Freud e do dizer de Lacan, que se viram, um e outro, \u00e0s voltas com o desejo do analista. Lacan evoca o dizer de Joyce quando ele afirma que \u201cJoyce queria n\u00e3o ter nada, exceto o escabelo do dizer magistral\u201d (Idem), isto \u00e9, de um dizer de mestre. L\u00e1 onde o hist\u00e9rico \u00e9 escravo da linguagem que, tal como uma cisalha, recorta seu corpo, Joyce escolheu ser o mestre dela, para torc\u00ea-la a ponto de quebr\u00e1-la. Ele n\u00e3o quis que o que ele escrevesse fosse compreendido, ele se manteve \u00e0 beira do incompreens\u00edvel. Como Lacan destaca, \u201c\u00e0 beira do incompreens\u00edvel \u00e9 (nesse caso extremo) o escabelo do qual nos mostramos mestre\u201d (Ibidem, p. 566). Para caracterizar a posi\u00e7\u00e3o de \u201cn\u00e3o-santo\u201d de Joyce, Lacan inventa, assim, a palavra-portemanteau artgueilleusement[7]. Joyce, diz Lacan, escabote[8] atrav\u00e9s de sua arte. Ele escamoteia a castra\u00e7\u00e3o do escabelo. Como? Gra\u00e7as a seu savoir faire. Ele tem um saber fazer com a mat\u00e9ria sonora das palavras que o singulariza. Lacan inventa o verbo escaboter: ele \u201c\u00e9 o primeiro, ele chega at\u00e9 mesmo a dizer, a saber escaboter[9] muito bem por ter levado o escabelo a um grau de consist\u00eancia l\u00f3gica onde ele o mant\u00e9m\u201d (Ibidem, p. 565). Finalmente, a tese de Lacan \u00e9 a de que um certo gozo da opacidade desperta: \u201cS\u00f3 h\u00e1 despertar, de Wake, afirma ele, atrav\u00e9s desse gozo\u201d (Ibidem, 566). Desse ponto de vista, Lacan, ali\u00e1s, faz uma aproxima\u00e7\u00e3o entre Joyce e ele mesmo (Idem).<\/p>\n<p><strong>A Vontade De Morrer De Um Jovem<\/strong><\/p>\n<p>O jovem, cujo caso eu proponho evocar aqui, \u00e9, como Joyce, um sintoma. Como \u00e9 que esse sintoma se manifesta? \u00c9 a essa quest\u00e3o que temos de responder, nos apoiando nas no\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas que acabaram de ser expostas.<\/p>\n<p><strong>A Dita \u201cTentativa De Suic\u00eddio\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Adrien tem quinze anos. Ele ficou hospitalizado por um ano, em um hospital psiqui\u00e1trico, porque fez o que ele chama de \u201cuma tentativa de suic\u00eddio\u201d. Eu o encontrei, uma \u00fanica vez, por ocasi\u00e3o de uma apresenta\u00e7\u00e3o de enfermos que aconteceu em um hospital-dia para adolescentes. O que Adrien chama de \u201csua tentativa de suic\u00eddio\u201d \u00e9, na verdade, algo singular. Ele tinha estocado os medicamentos no arm\u00e1rio de seu quarto. Soulian e Prozac. Sua m\u00e3e percebeu isso quando o ajudava a arrumar o quarto. Ele os tinha escondido na caixa onde sua m\u00e3e guardava sua flauta transversa. Ele tinha decidido se suicidar. Sua m\u00e3e descobriu os medicamentos estocados dois dias antes da data que ele tinha escolhido para passar ao ato. A caixa onde sua m\u00e3e guarda a flauta tem um fundo falso. Ela teve a ideia de levantar o fundo. Se ela n\u00e3o tivesse pensado nisso, n\u00e3o teria encontrado os medicamentos que ele tinha escondido. Faltou pouco para que ela n\u00e3o tivesse feito isso. Adrien insistiu sobre o car\u00e1ter contingente do incidente. Se sua m\u00e3e n\u00e3o tivesse descoberto os medicamentos, dois dias depois ele teria tomado uma garrafa de \u00e1gua e os teria engolido. Ele pensou em suicidar-se dessa forma quando esteve em um hospital psiqui\u00e1trico. Uma adolescente tinha tomado medicamentos. Vinte e cinco, ela contou. Foi por isso que ele escolheu dobrar a dose e estocar cinquenta. Assim, acrescentou, ele tinha certeza de que morreria. Ele pensava ter chegado a esse ponto extremo, que \u00e9 o da certeza de morrer. Ele apostava, portanto, nessa certeza. Ele tinha feito disso uma aposta. Certamente, como Lacan chegou a dizer, a \u00fanica coisa de que temos certeza \u00e9 de que vamos morrer. Mas Adrien queria ser o mestre da certeza de morrer. Estocar os medicamentos em quantidade suficiente significava para ele tornar-se mestre dessa certeza.<\/p>\n<p><strong>A Rivalidade Com O Irm\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Adrien tem um irm\u00e3o mais velho, Damien. Ele n\u00e3o se d\u00e1 bem com seu irm\u00e3o. Este \u00e9 um \u00f3timo aluno, bem sucedido. A pior nota do irm\u00e3o \u00e9 sua melhor nota. \u00c9 por isso que Adrien se considera um fracassado. Eu pergunto se ele reconhece em si uma qualidade. Ele responde que n\u00e3o tem nenhuma. Eu arrisco ent\u00e3o e digo que, ouvindo-o dizer o que se passa com ele, percebe-se imediatamente que ele \u00e9 um rapaz inteligente. Ele retruca rapidamente: \u201cDe jeito nenhum, eu n\u00e3o sou inteligente\u201d. Mostro, ent\u00e3o, que ele n\u00e3o aceita que as pessoas reconhe\u00e7am nele alguma qualidade. Ele diz que se ele faz um julgamento t\u00e3o severo de si mesmo \u00e9 porque ele se compara com seu irm\u00e3o. Ali\u00e1s, um colega um dia lhe disse: \u201cVoc\u00ea \u00e9 realmente um idiota!\u201d Ele viu pelo seu olhar e pelo tom de sua voz que esse colega realmente pensava o que dizia. De fato, Adrien pensa que ele \u00e9 um cretino. Ele poderia ter dito: Eu sou um tolo ou Eu sou um imbecil, ou ainda Eu sou um idiota. Mas Adrien gosta de dizer Eu sou um cretino (Je suis um cr\u00e9tin), porque, como ele mesmo explica, Adrien rima com cr\u00e9tin (\u201cAdrien le cr\u00e9tin, \u00e7a consonne\u201d).<\/p>\n<p><strong>Seu Pai E Sua M\u00e3e N\u00e3o Gostam Dele<\/strong><\/p>\n<p>Seu pai \u00e9 engenheiro. Sua m\u00e3e \u00e9 jurista. Adrien diz, de forma surpreendente, que eles s\u00e3o cool. Eu pergunto: \u201cSeu pai gosta de voc\u00ea?\u201d \u201cN\u00e3o!\u201d, ele me responde. Seu pai e ele nunca se beijam, nem para se cumprimentar nem para se despedir. Eu pergunto se alguma vez seu pai o abra\u00e7ou. Ele tamb\u00e9m responde que n\u00e3o. Ele n\u00e3o conversa muito com o pai. Se ele faz uma pergunta, o pai logo se irrita. Adrien diz que n\u00e3o gosta de sua m\u00e3e. Eu pergunto se ela fica preocupada com o que acontece com ele. Ele me responde que n\u00e3o. \u201cEla fica transtornada?\u201d \u201cN\u00e3o!\u201d \u201cEla fica assustada?\u201d \u201cN\u00e3o!\u201d \u201cSua m\u00e3e lia hist\u00f3rias quando voc\u00ea era pequeno?\u201d Qual n\u00e3o foi minha surpresa quando ele me respondeu que ela lia para ele e para o irm\u00e3o o C\u00f3digo Civil! Foi ent\u00e3o que Adrien disse uma coisa impressionante. Sua m\u00e3e, que \u00e9 jurista, lhe disse: \u201cQuando voc\u00ea tiver dezoito anos, voc\u00ea ser\u00e1 livre para se matar.\u201d Em outros termos, ela lhe d\u00e1 a entender que, quando ele tiver dezoito anos, ser\u00e1 respons\u00e1vel por seus atos. Sua m\u00e3e estar\u00e1 livre dessa responsabilidade. Estupefato, saiu do fundo do meu cora\u00e7\u00e3o e eu gritei: \u201cSua m\u00e3e \u00e9 completamente louca!\u201d. Mas Adrien, no auge da entrevista, perde a paci\u00eancia. Ele diz: \u201cEu n\u00e3o estou nem a\u00ed, nem para a minha m\u00e3e nem para o meu pai. Eu sou obcecado pela morte. Eu s\u00f3 penso nisso!\u201d. Ao tomar como axioma a escolha de identifica\u00e7\u00e3o com a certeza da morte, Adrien \u00e9 ent\u00e3o levado a evocar o pensamento da morte. H\u00e1 para ele uma rela\u00e7\u00e3o entre o eixo de sua exist\u00eancia, que \u00e9 aquele da vontade de morrer, e o pensamento da morte. A \u00fanica coisa que o separa da passagem ao ato \u00e9 o pensamento. Seus pais lhe s\u00e3o indiferentes, ele afirmou, porque ele pensa constantemente n\u00e3o neles, mas na morte. \u00c9 essa indiferen\u00e7a que ele projeta neles ao pronunciar essas palavras desiludidas: \u201cEles me ignoram completamente. Eles n\u00e3o est\u00e3o nem a\u00ed para o que est\u00e1 acontecendo comigo\u201d. Ele chegou at\u00e9 mesmo a dizer que pensou em mat\u00e1-los, que tem esse poder. Uma noite, ele se levantou e foi at\u00e9 a cozinha, pegou uma faca na gaveta e a colocou de volta. \u201cEu pensei, naquele momento, declarou ele, que poderia degol\u00e1-los.\u201d<\/p>\n<p><strong>Ser O Mestre<\/strong><\/p>\n<p>Esse jogo com Adrien exige muita prud\u00eancia e habilidade. Ele diz: \u201cEu quero morrer\u201d. Eu lhe mostro que temos o direito de n\u00e3o concordar com ele. Ele responde que, se temos o direito de n\u00e3o concordar, n\u00e3o temos, entretanto, o direito de impedi-lo de se matar. Eu tomo partido e digo que isso pode ser discutido. \u201cSe n\u00e3o nos opusermos a essa inten\u00e7\u00e3o, podemos ser acusados de n\u00e3o-assist\u00eancia \u00e0 pessoa em perigo. Que ele seja maior ou menor pouco importa. O que importa \u00e9 que a responsabilidade de cada um \u00e9 colocada em quest\u00e3o, a partir do momento em que ele declara sua recusa de viver e sua vontade de morrer. Quando ele afirma: \u2019Eu tenho o direito de me matar se eu quiser\u2019 e insiste no que ele considera como seu direito mais \u00edntimo, ele d\u00e1 a entender que ele \u00e9 o mestre de sua vida e de sua morte, que ele tem, de um certo modo, um direito soberano de vida e morte sobre ele, e, portanto, sobre seu pr\u00f3prio corpo.\u201d Meu sentimento \u00e9, de fato, que \u00e9 atrav\u00e9s de sua vontade de morrer que Adrien quer vencer o obst\u00e1culo, que pode fazer dele um mestre. Ele diz ser o mestre de sua vida e de sua morte, mas ele parece acreditar que s\u00f3 ser\u00e1 o mestre se ousar enfrentar a morte, se ele se matar. Ele ser\u00e1, ent\u00e3o, o assassinado, o morto, o cad\u00e1ver. Ele ter\u00e1 se tornado, portanto, equivalente ao Um do tra\u00e7o que se conta. Adrien, com essa vontade, se identifica, ent\u00e3o, \u00e0 certeza do tra\u00e7o, da marca irredut\u00edvel que se escreve. \u00c9, precisamente, a defini\u00e7\u00e3o que Lacan d\u00e1 do mestre, segundo Hegel, em seu Semin\u00e1rio 16 (LACAN, 2008). O mestre \u00e9 aquele que se identifica ao tra\u00e7o do Um. Ser o mestre \u00e9 se imobilizar, \u00e9 se fazer um. Ele d\u00e1 a impress\u00e3o de que, se ele n\u00e3o se mantiver nessa posi\u00e7\u00e3o extrema, nesse lugar de uma experi\u00eancia limite, ent\u00e3o nada se sustenta, nada \u00e9 certo, nada vale.<\/p>\n<p><strong>O Escabelo Do Orgulho<\/strong><\/p>\n<p>Eu lhe pergunto se, de vez em quando, ele tem o sentimento de que algu\u00e9m o aprecia, gosta dele. Ele responde que n\u00e3o. Visivelmente, o desejo do Outro lhe causa horror. A \u00fanica coisa que ele p\u00f4de dizer a esse respeito foi que, nesse hospital-dia, ele \u00e9 um \u201cpaciente especial\u201d. N\u00e3o poder\u00edamos argumentar que nesse \u201ceu sou um paciente especial\u201d aparece uma ponta de orgulho? N\u00e3o poder\u00edamos arriscar em dizer que Adrien se empoleirou no alto do escabelo de seu \u201cEu quero morrer e nada pode me impedir\u201d? Adrien, com o seu Eu quero morrer, para retomar a palavra de Lacan, escabote, pois ele n\u00e3o demonstra nenhuma afli\u00e7\u00e3o, nenhum pesar, nenhum desespero, nenhum abandono. Ele privilegia uma inten\u00e7\u00e3o, uma decis\u00e3o, uma vontade pura. Ele escolheu o nada ao inv\u00e9s do ser. Ele trope\u00e7a no ato. O que lhe falta \u00e9 o ato. Em seu caso, n\u00e3o se trata da morte como ato falho, mas da morte como ato faltante. Se podemos dizer dessa forma, isso lhe falta terrivelmente. \u00c9, ali\u00e1s, nessa perspectiva do ato a ser realizado que ele encontra seu \u00fanico ponto de apoio. N\u00e3o sem uma ponta de desafio, como se ele quisesse me dar uma rasteira, ele n\u00e3o p\u00f4de deixar de dizer, no fim da entrevista, que ele sabia agora como proceder para se matar.<\/p>\n<p><strong>O Desinteresse Pela L\u00edngua<\/strong><\/p>\n<p>O Eu quero morrer \u00e9, ent\u00e3o, para Adrien, uma ideia fixa. Ela est\u00e1 parafusada em sua mente. Eu arrisquei tudo e lhe perguntei se ele n\u00e3o gostaria de mudar essa ideia fixa. Esta, triste, poderia ser desparafusada, e uma outra, mais alegre, poderia ser parafusada no seu lugar. Esse meu modo de falar n\u00e3o o fez rir. O tom de com\u00e9dia n\u00e3o lhe conv\u00e9m, destoa, \u00e9 dissonante. Eu ent\u00e3o lhe perguntei se ele se sentia deprimido. Ele ficou com raiva. Ele n\u00e3o est\u00e1 deprimido, explicou ele, ele \u00e9 um suicida, n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa. Ele colocou os pontos nos is: a \u00fanica coisa que o interessa \u00e9 o suic\u00eddio. Ele decidiu se matar, \u00e9 tudo. Ele \u00e9 fascinado pelo vazio, \u00e9 assim. Quando ele tinha sete anos, pensou em se jogar pela janela. No momento de concluir a entrevista, eu perguntei: \u201cVoc\u00ea escreve?\u201d. Ele me respondeu que, uma vez, ele escreveu uma hist\u00f3ria, um esbo\u00e7o de um romance, ele explicou. Uma mulher \u00e9 estuprada. Uma crian\u00e7a nasce desse estupro. Um menino, talvez. Quando cresce, essa crian\u00e7a mata sua m\u00e3e. Esse foi o cen\u00e1rio que ele conseguiu articular. A rela\u00e7\u00e3o sexual \u00e9 um estupro. E a rela\u00e7\u00e3o entre a crian\u00e7a e sua m\u00e3e s\u00f3 pode passar por um assassinato. Que significa\u00e7\u00e3o dar a essa sequ\u00eancia tr\u00e1gica? A \u00fanica coisa que pode ser dita \u00e9 que essa hist\u00f3ria curta d\u00e1 a entender que \u00e9 somente na morte que a crian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 separada da m\u00e3e. Essa fic\u00e7\u00e3o, reduzida a sua express\u00e3o mais curta, n\u00e3o seria uma tentativa desesperada e v\u00e3 de escrever o que n\u00e3o pode se escrever \u2013 a rela\u00e7\u00e3o sexual? Em todo caso, o que se escuta no que Adrien conta do que ele escreveu \u00e9 que ele n\u00e3o tem nenhum gosto pela l\u00edngua enquanto tal. Ser o Mestre, para Adrien, \u00e9 n\u00e3o ser, como Humpty Dumpty acredita ter-se tornado, o mestre das palavras. As palavras n\u00e3o s\u00e3o nada e nada fazem por ele. As hist\u00f3rias n\u00e3o lhe dizem nada. Adrien est\u00e1 longe, muito longe do jogo das palavras. Cada crian\u00e7a tem seu mundo. Adrien tem o seu. Nesse mundo, a palavra-portemanteau, que intriga tanto Alice e apaixona Deleuze (2011), n\u00e3o conv\u00e9m. Mas se fosse preciso arriscar a inventar uma nova palavra-portemanteau para caracterizar a posi\u00e7\u00e3o subjetiva de Adrien, talvez possamos propor a seguinte: horsgueilleusement, que faria ressoar o orgulho de estar fora de, isto \u00e9, ao mesmo tempo, o orgulho e o fora de, o fora do mundo, do discurso, do la\u00e7o social. A esse respeito, Adrien est\u00e1 s\u00f3. O grito de Adrien, se pudermos falar assim, \u00e9: \u201cAcabou a tagarelice!\u201d. J\u00e1 se falou muito, Humpty Dumpty significa isso com uma palavra ins\u00f3lita: Impenetrabilidade. \u00c9 desse ponto extremo do muro da impenetrabilidade que Adrien se aproxima. A \u00fanica sa\u00edda poss\u00edvel \u00e9 ent\u00e3o a passagem ao ato.<\/p>\n<p><strong>Para Concluir<\/strong><\/p>\n<p>O sintoma ao qual Adrien ent\u00e3o se identificou \u00e9 um: Eu quero morrer. Esse Eu quero morrer \u00e9 a f\u00f3rmula geral da puls\u00e3o de morte e nos remete \u00e0 posi\u00e7\u00e3o que Arist\u00f3teles d\u00e1 como exemplo da Proposi\u00e7\u00e3o Universal Afirmativa (PUA): \u201cTodo homem \u00e9 mortal\u201d. Lacan (2003, p. 450) observa \u2013 essa PUA joga todo homem nas contas da morte, inscreve todo homem sob o tra\u00e7o da mortifica\u00e7\u00e3o. Como Lacan indica, ent\u00e3o, a morte \u00e9, desde ent\u00e3o, poss\u00edvel. Para Adrien, trata-se exatamente de faz\u00ea-la passar da modalidade do poss\u00edvel \u00e0 modalidade do necess\u00e1rio. Podemos dizer de Adrien o que Lacan diz de Moritz no seu pref\u00e1cio do Despertar da primavera, de Wedekind: ele \u00e9 \u201cum n\u00e3o-tolo\u201d (Ibidem, p. 559). Adrien aspira, de fato, como Moritz, levar a cabo o ato que barra o significante, que recusa a vida, nega a palavra e faz obje\u00e7\u00e3o ao la\u00e7o social. Ele prioriza o ser-para-a-morte ao inv\u00e9s do ser-para-o-sexo (LACAN, 2003, p. 362\u2013363). A fantasia \u00e9 imposs\u00edvel. O desejo se esvanece. O sintoma de Adrien, em sua radicalidade, est\u00e1 assim desconectado do inconsciente. Afinal, podemos falar de Adrien como Lacan fala de Joyce \u2013 ele \u00e9 desabonado do inconsciente. E encontramos em Adrien o que encontramos em Joyce \u2013 a recusa do inconsciente e a recusa desse pesadelo que \u00e9 a hist\u00f3ria. O ponto comum entre Adrien e Joyce, guardadas as devidas propor\u00e7\u00f5es, \u00e9 o fato de se situar num ponto extremo. Desse ponto de vista, o sintoma de Adrien \u00e9 inanalis\u00e1vel. Adrien quer se fazer ileg\u00edvel. Trata-se, para ele, de escapar a toda leitura poss\u00edvel, e, para sempre, apagar-se totalmente.<\/p>\n<\/div>\n<h6><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>[1] NT: pe\u00e7a de madeira ou de metal fixada na parede, que serve para pendurar roupas, casacos e outros objetos.<\/h6>\n<h6>[2] NT: pequena escada com poucos degraus. Em portugu\u00eas \u201cescabelo\u201d, que tem o mesmo sentido, mas tem um uso restrito em nossa cultura.<\/h6>\n<h6>[3] NT: Pun: do ingl\u00eas, trocadilho, jogo de palavras<\/h6>\n<h6>[4] NT: Mot-valise: palavra composta por peda\u00e7os n\u00e3o significantes de duas ou v\u00e1rias palavras.<\/h6>\n<h6>[5] NT: douto, doutor e ditador.<\/h6>\n<h6>[6] NT: Palavra formada por escabeau + castra\u00e7\u00e3o.<\/h6>\n<h6>[7] Palavra formada por \u201cart\u201d (arte) + \u201corgueilleusement\u201d, (orgulhosamente). Traduzido em \u201cOutros escritos\u201d como \u201corgulhartosamente\u201d.<\/h6>\n<h6>[8] Aqui Lacan joga com \u201cescamoter\u201d e \u201cescabeau\u201d e faz um novo \u201cmot-valise\u201d.<\/h6>\n<h6>[9] Traduzido em \u201cOutros escritos\u201d para \u201cescabelotar\u201d<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><\/h6>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: Cristina Vidigal e Maria Bernadete Carvalho<\/h6>\n<h6>Revis\u00e3o: M\u00e1rcia Bandeira<\/h6>\n<\/div>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Bibliografia<\/strong><\/h6>\n<h6>CARROLL, L. Atrav\u00e9s do espelho. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010.<\/h6>\n<h6>DELEUZE G. L\u00f3gica do sentido. S\u00e3o Paulo: Ed.Perspectiva, 2011.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Le Seminaire, livre XXII, \u201cRSI\u201d in Ornicar? N. 4. Paris: Lyse, 1975.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. O Semin\u00e1rio, livro 23: O sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007 (Semin\u00e1rio proferido em 1975-1976).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cJoyce o sintoma\u201d. In: O Semin\u00e1rio, livro 23: O sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007 (Confer\u00eancia proferida em 16 de junho de 1975).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cJoyce, o sintoma\u201d. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cPref\u00e1cio a O despertar de primavera\u201d. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PIERRE NAVEAU &nbsp; &nbsp; Propomos aqui apresentar o caso de um jovem de 15 anos, Adrien, que decidiu persistir numa posi\u00e7\u00e3o de recusa radical. Seu sintoma \u00e9 ser, inteiramente, recusa. Ele faz de si mesmo o signo de que h\u00e1 algo que n\u00e3o funciona neste mundo, que o mundo vai mal. 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