{"id":738,"date":"2015-03-17T06:56:00","date_gmt":"2015-03-17T09:56:00","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=738"},"modified":"2025-12-01T17:04:31","modified_gmt":"2025-12-01T20:04:31","slug":"sair-da-adolescencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2015\/03\/17\/sair-da-adolescencia\/","title":{"rendered":"Sair Da Adolesc\u00eancia"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>H\u00c9L\u00c8NE DELTOMBE<\/strong><\/h6>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Sem-ttulo-597x600-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"597\" data-large_image_height=\"600\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-739\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Sem-ttulo-597x600-1.jpg\" alt=\"\" width=\"597\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Sem-ttulo-597x600-1.jpg 597w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Sem-ttulo-597x600-1-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 597px) 100vw, 597px\" \/><\/a><\/p>\n<h6 style=\"padding-left: 160px;\">FOTO: Conrado Almada.FOTO: CONRADO ALMADA.<\/h6>\n<p>Por muito tempo n\u00e3o se colocou a quest\u00e3o da adolesc\u00eancia, j\u00e1 que n\u00f3s pass\u00e1vamos diretamente do estado de infans ao estatuto de adulto. Atualmente, constatamos que a adolesc\u00eancia se inicia cada vez mais cedo e se prolonga tardiamente. H\u00e1 alguns anos um novo termo apareceu, o de adulescente, para caracterizar os que n\u00e3o conseguem sair.<\/p>\n<p>A adolesc\u00eancia se tornou um fen\u00f4meno social estigmatizado por suas manifesta\u00e7\u00f5es preocupantes: oposi\u00e7\u00e3o, recusa, rejei\u00e7\u00e3o, marginaliza\u00e7\u00e3o, condutas aditivas. Os m\u00e9dicos generalistas se dizem hoje invadidos pelos problemas que os adolescentes imp\u00f5em \u00e0 sua volta.<\/p>\n<p>Um uso excessivo \u00e9 feito do termo adolesc\u00eancia. Um exemplo recente: em uma consulta para seu filho de seis anos, seus pais atribu\u00edam as perturba\u00e7\u00f5es do filho a uma crise de adolesc\u00eancia muito precoce. Essa crian\u00e7a estava atormentada por pensamentos indesej\u00e1veis que lhe ditavam sua conduta, o impedindo de se submeter \u00e0 autoridade dos pais.<\/p>\n<p><strong>Um Fen\u00f4meno De Civiliza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Franz Boas, o antrop\u00f3logo teuto-americano, foi o primeiro, em 1925, a pesquisar a adolesc\u00eancia. Sua hip\u00f3tese indicava um fen\u00f4meno moderno, ligado \u00e0 emerg\u00eancia das sociedades industriais incapazes de acompanhar os jovens at\u00e9 a idade adulta, lhes integrando \u00e0 vida social, e queria verific\u00e1-la antes que os contatos entre as sociedades modernas e culturas tradicionais se multiplicassem.<\/p>\n<p>Em 1928, uma de suas jovens estudantes, Margaret Mead, publicou os resultados de um trabalho intitulado Coming of the age in Samoa confirmando que a adolesc\u00eancia n\u00e3o \u00e9 um momento de crise de valor universal, mas uma consequ\u00eancia cultural da evolu\u00e7\u00e3o das sociedades: a jovem de Samoa \u00e9 bem diferente de sua irm\u00e3 americana, sua adolesc\u00eancia \u201cn\u00e3o \u00e9 de maneira alguma um per\u00edodo de crise e de tens\u00e3o, mas o melhor per\u00edodo da vida\u201d, ela tem poucas responsabilidades e os encontros entre adolescentes dos dois sexos sob as palmeiras s\u00e3o frequentes. Essa imagem do amor livre enfeiti\u00e7ou os leitores.<\/p>\n<p><strong>Metapsicologia Da Adolesc\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Mead foi criticada por ceder a uma premissa culturalista, mascarando a quest\u00e3o de que todo adolescente \u00e9 levado a resolver, como Freud sublinha nos seus Tr\u00eas ensaios sobre a teoria da sexualidade, indicando as origens das perturba\u00e7\u00f5es na adolesc\u00eancia durante as metamorfoses da puberdade (FREUD, 1980, p. 111). Dentre esses elementos, alguns s\u00e3o hoje particularmente significativos, como um \u201cexcesso de carinho dos pais\u201d na primeira inf\u00e2ncia, que gera um adolescente \u201cinsaci\u00e1vel\u201d, \u201ctemporariamente incapaz de renunciar ao amor, ou de se satisfazer com um amor mais contido\u201d (Ibidem, p. 134). A busca pelo gozo \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o que se torna banal quando a crian\u00e7a \u00e9 colocada no lugar de objeto a pelos pais, nesse contexto, estigmatizado por Jacques-Alain Miller, de \u201csubida ao z\u00eanite social do objeto pequeno a\u201d (MILLER, 2005, p. 11). Tamb\u00e9m \u00e9 o caso quando o adolescente se arrisca em uma rela\u00e7\u00e3o sexual com um parceiro, a presen\u00e7a de uma \u201cpuls\u00e3o parcial, que no curso da vida infantil j\u00e1 produziu um prazer excessivo\u201d, \u201co processo sexual n\u00e3o pode continuar\u201d (FREUD, op. cit., p. 118). Al\u00e9m disso, o sujeito se encontra dividido entre objeto de amor e objeto sexual, entre \u201cduas tend\u00eancias, a da ternura e a da sensualidade\u201d, escreveu Freud (Ibid., p. 112). Buscando o objeto sexual, o adolescente se depara com o desejo de reencontrar o objeto original, o primeiro objeto de satisfa\u00e7\u00e3o sexual. Esse objeto foi perdido no ponto em que a puls\u00e3o sexual se tornou auto er\u00f3tica, e o adolescente tenta \u201creencontrar a felicidade perdida\u201d (Ibid., p. 133). Um projeto imposs\u00edvel, j\u00e1 que o \u201cobjeto final da puls\u00e3o sexual n\u00e3o \u00e9 mais o objeto original, mas seu substituto\u201d (FREUD, 1987a, p. 171).<\/p>\n<p>O tratamento anal\u00edtico permite ao sujeito identificar suas dificuldades e encontrar uma solu\u00e7\u00e3o, segundo a singularidade do desejo de cada um, mas n\u00e3o sem reconhecer com Lacan \u201cque n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d. Trata-se, com efeito, para cada um, de renunciar \u00e0 ideia de que a rela\u00e7\u00e3o sexual seria a sa\u00edda aos conflitos e mal-entendidos que dividem o sujeito em seu ser.<\/p>\n<p><strong>Mal-Estar Contempor\u00e2neo<\/strong><\/p>\n<p>A considera\u00e7\u00e3o de Freud pelas dificuldades de todo adolescente n\u00e3o impede de dar raz\u00e3o aos trabalhos antropol\u00f3gicos mais recentes, que confirmam uma parte da hip\u00f3tese de Franz Boas, segundo a qual as sociedades modernas re\u00fanem caracter\u00edsticas pr\u00f3prias a fazer da adolesc\u00eancia um per\u00edodo de tens\u00f5es e ang\u00fastia.<\/p>\n<p>Freud, ali\u00e1s, desenvolveu ele mesmo, em 1929, no Mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o, considerando que uma demanda maior \u00e9 endere\u00e7ada ao sujeito em nossas sociedades modernas do que nas sociedades tradicionais: \u201cdurante a evolu\u00e7\u00e3o, a rela\u00e7\u00e3o entre o amor e a civiliza\u00e7\u00e3o deixa de ser un\u00edvoca: o primeiro combate aos interesses da segunda que, por outro lado, o amea\u00e7a com dolorosas limita\u00e7\u00f5es\u201d (FREUD, 1987b, p. 171).<\/p>\n<p>A tens\u00e3o entre fam\u00edlia e civiliza\u00e7\u00e3o se torna ainda mais rude: \u201cEssa hostilidade rec\u00edproca, continua Freud, parece invi\u00e1vel [\u2026] o afastamento da fam\u00edlia, para todo adolescente, se torna uma tarefa\u201d (Idem). Nesse contexto da civiliza\u00e7\u00e3o que a psican\u00e1lise pode intervir, como sublinha J.-A. Miller, frente \u00e0 \u201cnecessidade de se desfazer o la\u00e7o familiar. Fazemos uma an\u00e1lise para concluir esse rito de passagem ainda incompleto\u201d (MILLER, 1992).<\/p>\n<p><strong>Alguns Sintomas Do La\u00e7o Social<\/strong><\/p>\n<p>Quando, nos anos 30, Jacques Lacan j\u00e1 sublinhava em Os complexos familiares que n\u00f3s somos inexoravelmente confrontados ao decl\u00ednio da fun\u00e7\u00e3o paterna, de acordo com um processo inerente \u00e0s sociedades modernas (LACAN, 2001), afirm\u00e1vamos, ainda nos anos 60, que o adolescente buscava \u201cmatar o pai\u201d para se libertar da domina\u00e7\u00e3o familiar. Entretanto, o desapego da fam\u00edlia n\u00e3o se resolve na oposi\u00e7\u00e3o. A adolesc\u00eancia se tornou uma classe de idade na qual todos procuram apoio em seus semelhantes, atrav\u00e9s de identifica\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas, criando modos de vida. Os sintomas tomam uma nova forma, a dos sintomas do la\u00e7o social que, por vezes, terminam em epidemia: alcoolismo, toxicomania, bulimia, anorexia, delinqu\u00eancia, suic\u00eddios\u2026 Modos de vestir e do comportamento marcadas pela rejei\u00e7\u00e3o dos adultos, acentuando um processo de marginaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O adolescente se encontra, assim, preso em um fen\u00f4meno de segrega\u00e7\u00e3o social, que pode fix\u00e1-lo em uma posi\u00e7\u00e3o de gozo que determinar\u00e1 seu modo de ser: \u201cSou toxic\u00f4mano\u201d, \u201cSou bul\u00edmico\u201d\u2026 Ele n\u00e3o se situa mais como um sujeito com quest\u00f5es que precisam ser resolvidas, pior quando n\u00e3o \u00e9 encorajado por seus pr\u00f3ximos, facilmente iludidos pelo discurso sociol\u00f3gico sobre a adolesc\u00eancia, ao modo: \u201cEle \u00e9 adolescente, com a idade isso passa.\u201d Ora, trata-se de considerar o sofrimento expresso no sintoma, um pedido singular de dizer. Tal como J.-A. Miller formulou em seu curso, o parceiro do sujeito \u00e9 o sintoma, formando com o sujeito \u201co casal do gozo\u201d (MILLER, 1998). Na falta de resposta de um Outro, ele convoca um sintoma para fazer o Outro existir atrav\u00e9s dos significantes que ele sustenta em seu n\u00f3. A psican\u00e1lise pode permitir ao adolescente decifrar seu sintoma desde que ele encontre os meios de resolver o seu \u201cn\u00e3o quero saber de nada\u201d, que visa proteger seu modo de gozar.<\/p>\n<p><strong>Uma Demanda De Bem-Estar<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 o problema que essa adolescente, Anne, de 17 anos, trouxe com ela quando entrou em minha sala aos trope\u00e7os, durante as primeiras consultas. Ela se assentava, fixava os olhos no teto e o sorriso extasiado exprimia o gozo que lhe tomava todo o seu ser, e, assim, em minha presen\u00e7a, ela se ausentava. Dominada por drogas pesadas, ela permanecia im\u00f3vel e muda por uma eternidade. Ela veio ao meu encontro em considera\u00e7\u00e3o ao amigo de inf\u00e2ncia que n\u00e3o suportava mais v\u00ea-la perdida, sem rumo, e lhe falou da sua an\u00e1lise come\u00e7ada h\u00e1 dois anos, insistindo para que ela me procurasse. Ela era, no entanto, incapaz de atender a esperan\u00e7a que ele tinha por ela, pois, ao contr\u00e1rio, ela me confiava o orgulho que tinha da sua vida marginal, seguindo seus amigos de err\u00e2ncia pelas ruas, onde dormia por vezes.<\/p>\n<p>Em seus momentos de lucidez, no entanto, ela era tomada de ang\u00fastia com a ideia de n\u00e3o haver mais lugar algum para ela. Foi com o passar dos encontros, aos poucos, que ela p\u00f4de descobrir a import\u00e2ncia da presen\u00e7a de algu\u00e9m que esteja ali e que queira ouvi-la. Contou-me de maneira fragmentada que se drogava h\u00e1 muitos anos. Primeiro \u201cbaseados\u201d, drogas leves, \u00e1lcool e, posteriormente, drogas pesadas. Indicou-me sua preocupa\u00e7\u00e3o com a necessidade de aumentar as doses e diminuir os intervalos entre o uso dos t\u00f3xicos; pois a sensa\u00e7\u00e3o de falta era insuport\u00e1vel. Eu a escutava sendo cuidadosa e discreta, sem emitir julgamento. Corajosamente, Anne arriscou uma demanda: que eu a ajudasse a encontrar um bem-estar.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia alternativa que a de deixar-me guiar por essa demanda paradoxal, insistindo para que me explicasse o que ela queria dizer com isso \u2013 encontrar o bem-estar \u2013, confiando na palavra que permitiria aos significantes tomar a frente sobre sua vontade de gozo. O desejo do analista s\u00f3 pode encontrar seu caminho se articulando a essa busca, trata-se \u201cde fazer do gozo uma fun\u00e7\u00e3o e de lhe dar sua estrutura l\u00f3gica\u201d (MILLER, 2007, p. 26). O menor sinal que ela me dava era uma ocasi\u00e3o para lhe interpelar, mas no in\u00edcio expressava apenas a vontade de \u201catingir o nirvana\u201d. Essa demanda estava na l\u00f3gica da sua fantasia, que ela colocava acima de tudo, inclusive do nosso encontro.<\/p>\n<p>De onde lhe vinha essa vontade desenfreada de gozo? Ela tomou essa quest\u00e3o para si e, pouco a pouco, evocou lembran\u00e7as, fornecendo, assim, a prova de que \u201cantes de tudo o sintoma \u00e9 o mutismo no sujeito supostamente falante\u201d e que \u201c\u00e9 propriamente no movimento de falar que a hist\u00e9rica constitui seu desejo\u201d (LACAN, 1973, p. 16). O intervalo do uso de t\u00f3xicos foi aumentando, a rela\u00e7\u00e3o transferencial se estabeleceu.<\/p>\n<p><strong>A Busca Por Gozo Absoluto<\/strong><\/p>\n<p>Quando crian\u00e7a, ela observava a rela\u00e7\u00e3o de seus pais, suas brigas, e n\u00e3o suportava nem a viol\u00eancia do seu pai sobre sua m\u00e3e nem a conformidade desta. Esse era o acordo sintom\u00e1tico de seus pais. A disc\u00f3rdia, portanto, representava para ela uma obje\u00e7\u00e3o \u00e0 rela\u00e7\u00e3o sexual; ela se perguntava o que os mantinha juntos. Ela os espiava \u00e0 noite pela porta aberta do quarto deles, se deixando cativar pela cena primitiva. Da qual ela deduziu que o gozo sexual era o que fazia a rela\u00e7\u00e3o sexual, desenvolvendo em excesso seu imagin\u00e1rio sobre esse plano. Ela se deu conta de que suas divaga\u00e7\u00f5es infantis foram exacerbadas pelo ci\u00fame, em sua posi\u00e7\u00e3o de filha \u00fanica, remo\u00edda de solid\u00e3o perante seus pais.<\/p>\n<p>Anne pensava que iria conhecer a \u201cvida de verdade\u201d quando tivesse rela\u00e7\u00f5es sexuais. Ela n\u00e3o se esfor\u00e7ava e era boa aluna, mas a escola n\u00e3o parecia despertar nela o menor interesse, j\u00e1 que n\u00e3o esclarecia o que lhe era importante. Ela se empenhou desde muito jovem a conquistar rapazes, para dar forma a sua idealiza\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o sexual (LACAN, 2006). Aos doze anos ela fugia de casa e matava aula. Apesar de tudo, ela passava de ano, mas deixou a escola durante o final do segundo grau para romper com os h\u00e1bitos de encontros e adi\u00e7\u00f5es e estudar para o vestibular em um local isolado, o que lhe permitiu ser aprovada, por pouco. Ou seja, ela se protege do pior, mantendo uma certa vigil\u00e2ncia, para n\u00e3o perder-se completamente.<\/p>\n<p>Insatisfeita, Anne multiplicava seus encontros, pois ela ainda acreditava \u201cno Um da rela\u00e7\u00e3o, rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d (LACAN, 1975, p. 13), n\u00e3o querendo reconhecer que o gozo sexual \u00e9 marcado pela sua impossibilidade. Essa fantasia, no entanto, se enfraquecia a cada novo encontro ruim, colocando-a em perigo. Mas, ela guardava a esperan\u00e7a de ser preenchida, atestando sua recusa em assumir que toda rela\u00e7\u00e3o se amarra na dimens\u00e3o do fracasso e que sempre \u00e9 \u201co encontro, no parceiro, de sintomas, de afetos, de tudo que em cada um marca o tra\u00e7o de seu ex\u00edlio [\u2026] da rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d (Ibid., p. 132).<\/p>\n<p>O per\u00edodo de sua adolesc\u00eancia se fechou no fracasso de sua busca e suas decep\u00e7\u00f5es repetidas a levaram a rapazes que consumiam \u00e1lcool, drogas leves e, depois, drogas pesadas. O consumo de subst\u00e2ncias t\u00f3xicas com um parceiro sexual lhe deu por um momento a ilus\u00e3o de realizar seu fantasma de gozo absoluto, mas bem cedo n\u00e3o teve mais rela\u00e7\u00f5es sexuais, o falo, deixou de estar nos encontros. Ela e seus companheiros de mis\u00e9ria mergulharam em um mort\u00edfero gozo autoer\u00f3tico, desertando de sua pr\u00f3pria exist\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>O Romance Familiar<\/strong><\/p>\n<p>Um dos primeiros efeitos da palavra no dispositivo anal\u00edtico foi o de dar status de sintoma \u00e0 adi\u00e7\u00e3o da qual Anne come\u00e7ou a se queixar e sentir como um sofrimento. Ela revelou ter tentado v\u00e1rias vezes se suicidar, testemunhando assim que o \u201chedonismo \u00e9 um sonho\u201d e que \u201co gozo al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer, [\u2026] indica o horizonte da puls\u00e3o de morte\u201d (LAURENT, 2007, p. 18). Mas se separar do objeto de gozo criou um vazio, a ang\u00fastia decorrente a levou a elaborar seu romance familiar no dispositivo anal\u00edtico que \u201cse encontra no lugar da falta de rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d (LACAN, 1975, p. 187), o que permite a emerg\u00eancia de um novo saber.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia anal\u00edtica lhe permitiu exumar lembran\u00e7as de sua primeira inf\u00e2ncia. Ela se lembrou de que era tratada como uma pequena rainha pelos seus pais, situa\u00e7\u00e3o da qual ela se aproveitava exageradamente. Objeto de uma ternura excessiva do seu pai, ela era insaci\u00e1vel e provocava inveja em sua m\u00e3e. Ela n\u00e3o suportava frustra\u00e7\u00f5es nem as obriga\u00e7\u00f5es e afastava agressivamente tudo o que a incomodava em seu caminho. Ela submetia seu cachorro aos piores e mais humilhantes tratamentos, e ele permanecia d\u00f3cil. Ela se lembrou de situa\u00e7\u00f5es em que se sentiu transportada em um transe, como aconteceu em uma festa em torno de uma fogueira que a mergulhou em um estado hipn\u00f3tico do qual que seus pais n\u00e3o conseguiam lhe arrancar.<\/p>\n<p>Ela reuniu o que sabia sobre seu pai e interrogou-o sobre o que ainda ignorava: filho \u00fanico, origem judia, ficou escondido em Paris com seus pais quando ainda era uma criancinha, durante a guerra 39-45. Perdeu sua m\u00e3e ao final da guerra, morta de frio e de fome. Durante essa \u00e9poca, assim que p\u00f4de, sa\u00eda sozinho \u00e0s ruas \u00e0 procura de comida e informa\u00e7\u00f5es. F\u00edsico, homem erudito, descrito por ela como um leitor ass\u00edduo, buscava informa\u00e7\u00f5es constantemente e se apoiava nesse saber para se confortar na ideia de que a humanidade iria se perder. Isso causava horror em Anne, e a admira\u00e7\u00e3o pelo seu pai se desdobrava assim em hostilidade, j\u00e1 que ela atribu\u00eda o cinismo e a viol\u00eancia do seu pai a essa lucidez. Ela observava tamb\u00e9m que a cultura da sua m\u00e3e era in\u00f3cua, dada sua posi\u00e7\u00e3o masoquista perante o marido. Ela passou a sentir repulsa pelo saber e se sentia, assim, justificada a viver a vida segundo seus impulsos.<\/p>\n<p>Tratava-se de faz\u00ea-la perceber que se seus motivos de recuo face ao saber eram s\u00e9rios, ela, no entanto, os utilizava de abrigo para encontrar conforto em um modo de vida. A falta de efic\u00e1cia do saber de seus pais n\u00e3o a dispensava de se aventurar na dire\u00e7\u00e3o do que poderia lhe esclarecer e orientar. A considera\u00e7\u00e3o pelas identifica\u00e7\u00f5es a seus pais \u2013masoquista como sua m\u00e3e, violenta como seu pai \u2013 abria o caminho para um novo saber, o saber inconsciente. Ela, que acordava \u00e0 noite sem saber porque gritava, e dizia nunca sonhar, um dia veio correndo contar um sonho em uma sess\u00e3o. \u201cMeu pai me perseguia. Eu queria me suicidar e cortava a garganta do meu pai.\u201d Ela descobre, por esse sonho, o traumatismo que constitui para ela a rela\u00e7\u00e3o a seu pai. Ela interpreta sua deriva aditiva e suicida e se extrai do que ela \u00e9 como \u201csintoma [\u2026] do casal familiar\u201d (LACAN, 2001, p. 373). Ela quer resolver a ang\u00fastia que suscita o amor mort\u00edfero de seu pai. Ela percebe em seguida que o verdadeiro conflito n\u00e3o est\u00e1 entre seus parentes e ela, mas sim entre ela e si mesma, entre seus impulsos e sua raz\u00e3o, entre gozo e saber.<\/p>\n<p><strong>Do Significante Ao Indiz\u00edvel<\/strong><\/p>\n<p>Sua morbidez se reduzia, e Anne come\u00e7ava a levar a s\u00e9rio a quest\u00e3o do saber, considerando sua escolha do estudo com um outro olhar. Ela havia se inscrito em belas artes supondo que esse seria o curso que a dispensaria da necessidade de fazer apelo ao saber. Acreditava que bastaria deixar-se levar pela sua livre express\u00e3o. Mas, impedida de seguir qualquer curso por conta de seu estado, ela come\u00e7ou seu curso apenas no ano seguinte, depois de fazer uma nova inscri\u00e7\u00e3o; s\u00f3 ent\u00e3o ela come\u00e7ou a explorar a dimens\u00e3o inconsciente da sua rela\u00e7\u00e3o com a arte. Adolescente, ela modelava personagens fazendo caretas, expressando diferentes lados da dor, mas ela os destru\u00eda nos momentos de crises de c\u00f3lera com seus pais, ou, quando se sentia muito solit\u00e1ria, os quebrava jogando contra muros ou espelhos, como se fosse, assim, exorcizar seu sofrimento. Esfor\u00e7ando-se para seguir os cursos na universidade, ela come\u00e7ou a pintar tamb\u00e9m. Ela me disse n\u00e3o suportar a arte contempor\u00e2nea porque as deforma\u00e7\u00f5es lhe angustiavam, e, apesar disso, suas telas eram muito sombrias, n\u00e3o figurativas. Eu lhe fiz reparar que ela passou de modelagens figurativas a uma pintura abstrata. A experi\u00eancia anal\u00edtica, lhe colocando na trilha significante de sua exist\u00eancia, lhe abria a via de uma express\u00e3o pela pintura ligada ao seu gozo.<\/p>\n<p>No decorrer da an\u00e1lise, seu pai adoece gravemente. Enfraquecido, ele n\u00e3o conseguia mais se debater com os horrores da sua inf\u00e2ncia, deixando a ang\u00fastia emergir, o que tinha efeitos delet\u00e9rios sobre a subjetividade de Anne. Esse quadro era aprofundado nas sess\u00f5es de an\u00e1lise, mas a parte indiz\u00edvel era passada para sua pintura em modo n\u00e3o figurativo testemunhando o \u201cirrepresent\u00e1vel\u201d (WAJGMAN, 2000, p. 35) que seu pai fazia pesar sobre ela, sabendo que \u201co acontecido n\u00e3o pode ser figurado, nem dito\u201d (Idem). Se o quadro, tradicionalmente, \u00e9 uma janela sobre o mundo assim como o quadro da fantasia, a pintura abstrata \u201cfaz quadro de um fora da hist\u00f3ria\u201d (Ibid., p. 42), consiste no projeto de fazer quadro da aus\u00eancia de objeto (Ibid., p. 44). Assim, Anne participa da \u201carte n\u00e3o como um lugar de consola\u00e7\u00e3o, de esquecimento, ou de uma trai\u00e7\u00e3o, mas ao contr\u00e1rio como esse lugar onde o irrepresent\u00e1vel viria se mostrar\u201d (Ibid., p. 48). Ela encontra uma forma de express\u00e3o que inventou e que faz supl\u00eancia \u00e0 rela\u00e7\u00e3o sexual que n\u00e3o existe. Sua pintura, que n\u00e3o tem sentido algum, tem \u201cefeito de sentido\u201d, o de considerar um per\u00edodo da hist\u00f3ria e seus efeitos subjetivos \u2013 \u201cum efeito de gozo\u201d \u2013, apaixonada por sua experi\u00eancia art\u00edstica, ela exp\u00f5e suas telas \u2013 e \u201cum efeito de n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d \u2013, ela fala de arte com seus companheiros, ela est\u00e1 com eles em uma conquista de saber e n\u00e3o mais em \u201cuma demanda de felicidade\u201d segundo a l\u00f3gica de sua fantasia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: Renato Sarieddine<\/h6>\n<h6>Revis\u00e3o: M\u00e1rcia Mez\u00eancio<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Bibliografia<\/strong><\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1912). \u201cSobre a tend\u00eancia universal \u00e0 deprecia\u00e7\u00e3o na esfera do amor\u201d (Vol. 11, 2\u00aa Ed). Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1987a.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1930). \u201cO mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o\u201d. (Vol. 21, 2\u00aa Ed.). Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1987b.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1905). \u201cTr\u00eas ensaios sobre a teoria da sexualidade\u201d. (Vol. 7, 2\u00aa Ed). Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1987.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. O Semin\u00e1rio, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. O Semin\u00e1rio, livro 16: De um Outro ao outro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. O Semin\u00e1rio, livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cLa troisi\u00e8me\u201d, Lettre de l\u2019E.F.P. n\u00ba16, Paris: 1975.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1969 ) \u201cNotas sobre a crian\u00e7a\u201d In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1938) \u201cOs complexos familiares na forma\u00e7\u00e3o do individuo\u201d In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. \u201cLes enjeux du congr\u00e8s 2008\u201d, Lettre mensuelle, n\u00ba261, septembre\/octobre 2007.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cUma fantasia\u201d. In: Op\u00e7\u00e3o lacaniana, N. 42. Fevereiro de 2005.<\/h6>\n<h6>MILLER J.-A. L\u2019orientation lacanienne, \u201cDe la nature des semblants\u201d, enseignement pronounce dans le cadre du d\u00e9partement de psychanalyse de Paris VIII, aula de 29 de janeiro de 1992, in\u00e9dito.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. L\u2019orientation lacanienne \u201cle partenaire sympt\u00f4me\u201d en seignement pronounce dans le cadre du d\u00e9partement de psychanalyse de Paris VIII, aula de 18 de mar\u00e7o de 1998, in\u00e9dito.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. Uma leitura do Semin\u00e1rio: de um Outro ao outro. In Op\u00e7\u00e3o lacaniana, 49. Agosto de 2007.<\/h6>\n<h6>WAJGMAN, G. \u201cA arte, a psican\u00e1lise, o s\u00e9culo\u201d, Lacn, l\u2019\u00e9crit, l\u2019image, Paris: Flammarion, 2000.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>H\u00e9l\u00e8ne Deltombe<\/strong><\/h6>\n<h6>H\u00e9l\u00e8ne Deltombe &#8211; psicanalista, ECF e AMP. E-mail:\u00a0<span id=\"cloakc94b350c4a75ee46228f682d99b01e4c\"><a href=\"mailto:helenedeltombe@gmail.com\">helenedeltombe@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00c9L\u00c8NE DELTOMBE &nbsp; FOTO: Conrado Almada.FOTO: CONRADO ALMADA. Por muito tempo n\u00e3o se colocou a quest\u00e3o da adolesc\u00eancia, j\u00e1 que n\u00f3s pass\u00e1vamos diretamente do estado de infans ao estatuto de adulto. Atualmente, constatamos que a adolesc\u00eancia se inicia cada vez mais cedo e se prolonga tardiamente. 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