{"id":757,"date":"2015-03-17T06:56:00","date_gmt":"2015-03-17T09:56:00","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=757"},"modified":"2025-12-01T17:06:12","modified_gmt":"2025-12-01T20:06:12","slug":"a-adolescencia-prolongada-ontem-hoje-e-amanha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2015\/03\/17\/a-adolescencia-prolongada-ontem-hoje-e-amanha\/","title":{"rendered":"A Adolesc\u00eancia Prolongada, Ontem, Hoje E Amanh\u00e3"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>PHILIPPE LA SAGNA<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/caput-La-sagna-768x502-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"768\" data-large_image_height=\"502\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-758\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/caput-La-sagna-768x502-1.jpg\" alt=\"\" width=\"768\" height=\"502\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/caput-La-sagna-768x502-1.jpg 768w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/caput-La-sagna-768x502-1-300x196.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><\/a><\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6 style=\"padding-left: 80px;\">FOTO: ATIVIDADE DE CHRISTINA FORNACIARI, \u201cSE EU FOSSE FRANCIS BACON\u201d. JOVENS DO PROGRAMA CAPUT.<\/h6>\n<p>No s\u00e9culo XX, nossa percep\u00e7\u00e3o da vida e da vida sexual em particular mudou muito em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quela do s\u00e9culo passado. Ela foi modificada em diferentes planos, e, primeiramente, no plano do real. Segundo alguns autores, em particular Paul Yonnet (2006), antrop\u00f3logo, de quem vou retomar algumas teses, h\u00e1 uma incid\u00eancia real da ci\u00eancia sobre a sexualidade humana, principalmente sobre a procria\u00e7\u00e3o e, portanto, sobre a dura\u00e7\u00e3o e a reparti\u00e7\u00e3o das idades da vida. Yonnet estudou a incid\u00eancia de nossa nova rela\u00e7\u00e3o com a morte, por causa do progresso da ci\u00eancia sobre a vida da fam\u00edlia. A quantidade de vida de que dispomos nunca foi t\u00e3o grande: nosso tempo de exist\u00eancia quase dobrou em menos de um s\u00e9culo.<\/p>\n<p><strong>Adolesc\u00eancia E Idade Da Vida<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 not\u00e1vel que esse prolongamento da vida n\u00e3o seja homog\u00eaneo. Assim, a idade da tenra inf\u00e2ncia e da inf\u00e2ncia parece se reduzir, se condensar cada vez mais. A idade da maturidade \u00e9, ao contr\u00e1rio, cada vez mais restrita. Isso significa que passamos cada vez menos tempo sendo \u201cmaduros\u201d. A adolesc\u00eancia e a terceira idade n\u00e3o param de aumentar at\u00e9 se tornarem idades hegem\u00f4nicas. A sa\u00edda da adolesc\u00eancia e a entrada na idade adulta est\u00e3o ligadas \u00e0s conven\u00e7\u00f5es e parecem ser cada vez mais retardadas; \u00e9 o que prolonga desmesuradamente o tempo da adolesc\u00eancia. Por outro lado, os homens entram na terceira idade ou se aposentam cada vez mais cedo. Atualmente, aqueles que s\u00e3o considerados jovens adolescentes se situam entre quatorze e vinte e cinco anos. Consideramos geralmente que uma sa\u00edda da adolesc\u00eancia \u00e9 tamb\u00e9m uma entrada na vida ativa. O fato de que os jovens ficam mais tempo na casa de seus pais est\u00e1 ligado a diferentes fatores, muito estudados pelos soci\u00f3logos e pelos jornalistas:<\/p>\n<p>\u2013 o prolongamento dos estudos;<\/p>\n<p>\u2013 a impossibilidade real de encontrar condi\u00e7\u00f5es de estabelecimento, isto \u00e9, uma moradia e um trabalho;<\/p>\n<p>\u2013 a terceira raz\u00e3o, mais interessante para n\u00f3s, \u00e9 a dita aus\u00eancia de ruptura de valores entre as gera\u00e7\u00f5es. Os jovens n\u00e3o est\u00e3o mais em ruptura com as ideologias e os modos de vida atribu\u00eddos aos de seus pais. Desde 1968 h\u00e1 uma continuidade sem ruptura de valores entre crian\u00e7as e pais.<\/p>\n<p>Para Yonnet, uma das raz\u00f5es da \u201csociedade dos indiv\u00edduos\u201d \u00e9 que, a partir do momento em que a dura\u00e7\u00e3o da vida aumenta, \u00e9 a vida individual que se torna um valor. Ao contr\u00e1rio, quando a dura\u00e7\u00e3o da vida \u00e9 curta, o valor \u00e9 a fam\u00edlia, ou seja, aquilo que, para o indiv\u00edduo, persiste depois de sua morte. Durante muito tempo, em particular na \u00e9poca do Iluminismo e da Revolu\u00e7\u00e3o, quisemos nos opor ao poder das fam\u00edlias. O poder das fam\u00edlias sobre o indiv\u00edduo era ent\u00e3o efetivo. Hoje, \u00e9 a fam\u00edlia que se coloca a servi\u00e7o do indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>Por outro lado, o tempo de forma\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo est\u00e1 cada vez mais prolongado. A forma\u00e7\u00e3o nunca \u00e9 suficientemente perfeita e o trabalho \u00e9 raro: passamos, portanto, a vida nos preparando. Essa prepara\u00e7\u00e3o passa por um treinamento que sup\u00f5e a a\u00e7\u00e3o. A a\u00e7\u00e3o, para a psican\u00e1lise, se diferencia do ato. Os adolescentes s\u00e3o muito ativos, mas, por outro lado, n\u00e3o fazem nada no sentido do ato concebido como uma a\u00e7\u00e3o que tem consequ\u00eancias. Treinar, praticar esportes, \u00e9 frequentemente uma a\u00e7\u00e3o sem consequ\u00eancias. A oposi\u00e7\u00e3o a\u00e7\u00e3o\/ato \u00e9 um dos crit\u00e9rios que permitiria distinguir a adolesc\u00eancia da maturidade. Censuramos aqueles que est\u00e3o na adolesc\u00eancia por fazerem demasiadas a\u00e7\u00f5es, isto \u00e9, por se mexerem demais. Quando n\u00e3o sabemos que ato fazer, \u00e9 normal tentarmos todas as a\u00e7\u00f5es poss\u00edveis.<\/p>\n<p>O her\u00f3i adolescente \u00e9 autoengendrado: n\u00e3o \u00e9 algu\u00e9m que dependa dos outros, como percebeu Yonnet. \u00c9 algu\u00e9m que utiliza seus pais e seu entorno para engendrar a si mesmo. O sujeito moderno \u00e9, portanto, um autoengendrado. Isso \u00e9 importante porque o autoengendrado \u00e9 sempre tamb\u00e9m um autodestru\u00eddo. O avesso do autoengendramento \u00e9 a autodestrui\u00e7\u00e3o. Isso esclarece certas tend\u00eancias suicidas. Pressionamos cada vez mais o adolescente a se autoengendrar, isto \u00e9, a se formar de maneira aut\u00f4noma e assim, sem saber, ele \u00e9 pressionado a se autodestruir.<\/p>\n<p>Atualmente, cultivamos um inacabamento de n\u00f3s mesmos, de nossa forma\u00e7\u00e3o, de nossa identidade, de nosso desejo, at\u00e9 mesmo da realidade. Esse inacabamento cultivado caminha junto com um certo desespero: se isso nunca acaba, \u00e9 porque \u00e9 intermin\u00e1vel. Ser\u00e1 sempre melhor amanh\u00e3, e o sujeito permanece suspenso a um futuro l\u00edquido no sentido de Zigmunt Bauman (2004). O inacabamento da \u201cBildung\u201d do ego em forma\u00e7\u00e3o produz tamb\u00e9m um ego vago in progress\u2026<\/p>\n<p><strong>A Novidade Da Idade Da Escolha?<\/strong><\/p>\n<p>Atualmente, n\u00e3o nos engajamos porque n\u00e3o sabemos muito bem em que nos engajar. Podemos dizer que hoje nada mais \u00e9 \u201cpara sempre\u201d. Antigamente, o \u201csempre\u201d ou o \u201cpara sempre\u201d ocorria rapidamente. Muito frequentemente, entre dezesseis e dezoito anos, o sujeito sabia com quem ele ficaria \u201cpara sempre\u201d no amor e qual of\u00edcio ele teria \u201cpara sempre\u201d. Hoje, supomos que o sujeito tenha v\u00e1rias vidas, v\u00e1rios of\u00edcios e at\u00e9 mesmo v\u00e1rias fam\u00edlias, fam\u00edlias recompostas. Ent\u00e3o, o problema \u00e9 que o sujeito passa a vida escolhendo e n\u00e3o vivendo. A possibilidade de escolha \u00e9 preservada mais do que tudo. E, essa maneira de preservar em tudo a escolha, de estar diante de v\u00e1rias hip\u00f3teses sem escolher nenhuma delas e de experimentar um pouco todas, \u00e9 exatamente a posi\u00e7\u00e3o subjetiva do adolescente.<\/p>\n<p>A adolesc\u00eancia n\u00e3o est\u00e1 simplesmente prolongada no tempo, ela \u00e9, al\u00e9m disso, valorizada socialmente como prolongamento generalizado e adolesc\u00eancia generalizada. A sociedade prop\u00f5e que sejamos eternos adolescentes, sempre prontos para qualquer coisa que vai vir e que n\u00e3o vem, sempre treinando para esse algo que vai vir. Freud e todos os p\u00f3s-freudianos pensavam que o la\u00e7o social tinha efeitos sobre a psican\u00e1lise e a psican\u00e1lise sobre o la\u00e7o social. Ou seja, que aquilo que n\u00f3s tratamos n\u00e3o era unicamente efeitos de sujeito, mas tamb\u00e9m efeitos de discurso.<\/p>\n<p><strong>A Adolesc\u00eancia Com Freud<\/strong><\/p>\n<p>No s\u00e9culo XX, Freud pensava que seria necess\u00e1ria uma a\u00e7\u00e3o exterior, uma a\u00e7\u00e3o social, para separar a crian\u00e7a de sua fam\u00edlia. Mesmo a famosa inibi\u00e7\u00e3o, a barreira contra o incesto que podia reinar no seio da fam\u00edlia, era comandada pela sociedade. Para Freud, os la\u00e7os familiares eram muito fortes. Seria preciso, portanto, opor a eles uma outra for\u00e7a, aquela da civiliza\u00e7\u00e3o. Era importante \u201cestabelecer unidades sociais mais elevadas\u201d (FREUD, 1972) do que a fam\u00edlia. A sociedade fazia, portanto, uso de todos os meios a fim de que, no adolescente, se afrouxassem os la\u00e7os familiares que existiam durante a inf\u00e2ncia. O que mudou, desde Freud, \u00e9 que a sociedade hoje n\u00e3o faz quase nada para cumprir essa tarefa. De fato, a primeira coisa a fazer seria dar aos jovens os meios para se separar da fam\u00edlia. Ora, na maioria das vezes, n\u00e3o \u00e9 o caso.<\/p>\n<p>Para Freud, a tarefa a ser cumprida no momento da puberdade \u00e9 uma reconstitui\u00e7\u00e3o diferente da rela\u00e7\u00e3o com o objeto. A constitui\u00e7\u00e3o de uma rela\u00e7\u00e3o com o objeto novo vai preparar o encontro com um objeto exterior, ou seja, o encontro com um parceiro sexual, o que quer dizer aqui um parceiro\/objeto no exterior do corpo pr\u00f3prio. Esse parceiro n\u00e3o pode ser o corpo pr\u00f3prio, o que constituiria uma solu\u00e7\u00e3o narc\u00edsica, e isso n\u00e3o pode ser apenas um encontro na fantasia. Se h\u00e1 adolesc\u00eancias prolongadas, h\u00e1 tamb\u00e9m s\u00edndromes de Peter Pan, sujeitos que permanecem num amor n\u00e3o sensual infantil e eterno, sujeitos que se designam tamb\u00e9m atualmente como \u201cassexuais\u201d.<\/p>\n<p>Se, para Freud, a tarefa a ser cumprida na adolesc\u00eancia \u00e9 a \u201creconstitui\u00e7\u00e3o\u201d desse objeto sexual novo, h\u00e1 um obst\u00e1culo. A corrente sensual pode permanecer fixada numa satisfa\u00e7\u00e3o autoer\u00f3tica, numa satisfa\u00e7\u00e3o masturbat\u00f3ria na qual o sujeito se satisfaz com o corpo pr\u00f3prio e com a fantasia. Na adolesc\u00eancia, com efeito, as correntes sensuais se descarregam alimentando-se das fantasias. Freud sublinha que uma produ\u00e7\u00e3o desenfreada de fantasias \u00e9 o que caracteriza a adolesc\u00eancia. A fantasia n\u00e3o \u00e9, de fato, algo que prepara o encontro com o objeto exterior, mas algo que se op\u00f5e a ele pela cria\u00e7\u00e3o de um desvio.<\/p>\n<p>O que vai estar em jogo \u00e9 produzir um estatuto novo do objeto que possa permitir ao sujeito encontrar um objeto no exterior, um objeto que n\u00e3o seja o objeto edipiano do passado. Os psicanalistas observaram muito cedo que a s\u00e9rie dos objetos do passado surgia naquele momento e, em particular, os objetos pr\u00e9-genitais. Isso n\u00e3o quer dizer que a famosa regress\u00e3o dos adolescentes os traga de volta ao pr\u00e9-genital. Isso quer dizer que, para fabricar um objeto novo, que lhes servir\u00e1 de guia em dire\u00e7\u00e3o a um objeto exterior, eles v\u00e3o utilizar em parte os objetos parciais pr\u00e9-genitais. No caminho da constitui\u00e7\u00e3o de uma sexualidade dita madura, o adolescente estar\u00e1 sujeito a tempestades de gozo \u201cparcial\u201d totalmente \u201cimaturo\u201d. \u00c9 por isso que os adolescentes bebem, fumam, vomitam, sujam, gritam exatamente como se fossem beb\u00eas! Isso porque eles precisam buscar no passado os materiais para fabricar algo novo. O prolongamento da adolesc\u00eancia leva ao prolongamento dessas manifesta\u00e7\u00f5es. Por exemplo, a anorexia\/bulimia, enquanto epidemia, \u00e9 algo que vai surgir nesse momento.<\/p>\n<p><strong>A Adolesc\u00eancia Dif\u00edcil Dos P\u00f3s-Freudianos<\/strong><\/p>\n<p>Um dos grandes debates entre os p\u00f3s-freudianos da IPA gira em torno da quest\u00e3o de saber se a etapa ou a via do narcisismo \u00e9 um meio necess\u00e1rio para permitir o encontro com um objeto exterior ou se, ao contr\u00e1rio, \u00e9 um obst\u00e1culo. Para alguns psicanalistas, com Freud, trata-se de um obst\u00e1culo. Eles consideram, com raz\u00e3o, que h\u00e1 uma oposi\u00e7\u00e3o entre o narcisismo e o fato de encontrar um objeto exterior a si, j\u00e1 que o narcisismo \u00e9 o amor de si mesmo e que o objeto exterior \u00e9 suposto ser diferente do si. Outros v\u00e3o pensar que, para atingir o objeto exterior, \u00e9 preciso um eu suficientemente forte, \u00e9 preciso refor\u00e7ar o ego. O narcisismo n\u00e3o \u00e9 ent\u00e3o o obst\u00e1culo, mas o meio de obter o objeto exterior. Isso tem consequ\u00eancias:<\/p>\n<p>\u2013 seja que a adolesc\u00eancia \u00e9 sobretudo um trabalho de refor\u00e7o do ego, de fabrica\u00e7\u00e3o de um eu que deve ser um eu forte para assegurar a conquista do objeto, ou mesmo suportar seu encontro;<\/p>\n<p>\u2013 seja que a adolesc\u00eancia \u00e9 um tempo no qual n\u00e3o se trata de refor\u00e7ar o ego, mas o desejo, desejo de ir ao encontro do objeto no exterior libertando-se das fantasias e do autoerotismo.<\/p>\n<p>H\u00e1, portanto, dois modos de considerar o tratamento na adolesc\u00eancia: ou a \u00eanfase \u00e9 dada \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o, sempre muito fr\u00e1gil, do adolescente, ou a \u00eanfase \u00e9 dada ao desejo. Atualmente, o discurso contempor\u00e2neo consiste antes de tudo em dizer: \u201cReforce sempre sua identifica\u00e7\u00e3o\u201d. Ser adulto \u00e9 ter terminado a \u201cforma\u00e7\u00e3o\u201d desse ego forte. A partir do momento em que o sujeito \u00e9 sempre inacabado, ele apresentar\u00e1 for\u00e7osamente um dist\u00farbio de identidade. De fato, o eu forte exigido pela sociedade \u00e9 um eu suscet\u00edvel de ter uma identidade mut\u00e1vel. Portanto, de fora o sujeito \u00e9 persuadido a aderir a tal ou tal identidade, o que o desangustia, ao mesmo tempo em que o car\u00e1ter inst\u00e1vel dessa identidade restaura a ang\u00fastia!<\/p>\n<p>Ou se escolhe a identifica\u00e7\u00e3o ou se escolhe o valor da des-identifica\u00e7\u00e3o e do desejo. O valor da des-identifica\u00e7\u00e3o tem consequ\u00eancias na esfera sexual, j\u00e1 que ela pode colocar em quest\u00e3o a identifica\u00e7\u00e3o sexual que parecia antigamente uma fonte de identifica\u00e7\u00e3o forte. N\u00e3o nos vest\u00edamos da mesma maneira, n\u00e3o viv\u00edamos da mesma maneira, n\u00e3o fal\u00e1vamos da mesma maneira, n\u00e3o frequent\u00e1vamos os mesmos lugares, caso f\u00f4ssemos uma mo\u00e7a ou um rapaz. Os encontros se davam de maneira regrada, segundo um c\u00e1lculo social. Compreendemos que todo o discurso de Freud sobre a necessidade de identifica\u00e7\u00e3o surge numa \u00e9poca em que a identifica\u00e7\u00e3o \u00e9 uma ideia forte na sociedade.<\/p>\n<p>Atualmente, a identifica\u00e7\u00e3o valorizada \u00e9 aquela que \u00e9 l\u00edquida (BAUMAN, 2004), muito mais do que fixada: \u00e9 preciso estar pronto para tudo! Pedimos, por exemplo, \u00e0s vezes, ao adolescente, que ele se identifique com empatia ao outro sexo. \u00c9 um efeito recente, que data da Segunda Guerra Mundial. \u00c9 a partir desse momento, em que vemos rapazes com os cabelos compridos, que as identidades sexuais s\u00e3o perturbadas. Come\u00e7amos a fazer disso uma doutrina que \u00e9 a doutrina atual da IPA na esfera sexual: para se ter uma vida sexual realizada, \u00e9 preciso participar da sexualidade do outro no sentido da identifica\u00e7\u00e3o, pelo menos mental. Se antes participar da sexualidade do outro significava ter um parceiro do Outro sexo, hoje isso significa se identificar aos desejos, at\u00e9 mesmo ao gozo suposto do outro. Nos pedem para sermos \u201cbissexuais\u201d, o que vemos claramente nas fantasias contempor\u00e2neas.<\/p>\n<p><strong>A Descoberta Do Adolescente Prolongado<\/strong><\/p>\n<p>O termo adolesc\u00eancia prolongada data de 1923. Ele foi inventado por Siegfried Bernfeld (1924), que faz o seu retrato: o adolescente \u00e9 um adolescente idealista, deprimido. Esse adolescente idealista tem tend\u00eancia a abrir m\u00e3o da busca do objeto exterior para se perder, n\u00e3o em fantasias, mas em algo que parece com elas, isto \u00e9, em sublima\u00e7\u00f5es. Temos a\u00ed a primeira apari\u00e7\u00e3o de uma tese que far\u00e1 sucesso: como impedir o adolescente de sublimar?<\/p>\n<p>Vemos a invers\u00e3o das teses, pois hoje a ideia \u00e9 de que \u00e9 preciso absolutamente faz\u00ea-lo sublimar! O que Bernfeld diz \u00e9 que essa sublima\u00e7\u00e3o participa de um medo narc\u00edsico de perder o falo. Ele observa justamente que isso explica o que ele chama de regress\u00f5es arcaicas. Todos esses jovens que preparam a revolu\u00e7\u00e3o passam, de fato, seu tempo em bares, onde eles fumam e bebem.<\/p>\n<p>Bernfeld deixa Berlim em 1932 para ir para a Am\u00e9rica e sua tese do adolescente idealista \u00e9 retomada por sua amiga Anna Freud (1958). Esta \u00faltima descreve, sobretudo, uma adolescente asceta e intelectual que \u00e9 um retrato ps\u00edquico da adolesc\u00eancia da pr\u00f3pria Anna Freud, com uma discreta nota homossexual e masoquista. Para a doutrina psicanal\u00edtica cl\u00e1ssica, a adolesc\u00eancia n\u00e3o era um per\u00edodo determinante no n\u00edvel dos sintomas. Clinicamente, quando se prop\u00f5e aos pacientes falar espontaneamente e livremente, observa-se que eles falam de sua inf\u00e2ncia e raramente de sua adolesc\u00eancia. Isso \u00e9 verdade se eles s\u00e3o neur\u00f3ticos. Mas todos os psicanalistas que, depois da guerra trataram psic\u00f3ticos ou borderlines, observaram que, de modo inverso, eles falavam muito frequentemente de suas adolesc\u00eancias. Anna Freud vai ent\u00e3o dizer que a adolesc\u00eancia \u00e9 talvez mais determinante do que se cr\u00ea. A determina\u00e7\u00e3o do desejo \u00e9 o \u00c9dipo e a inf\u00e2ncia, e a fabrica\u00e7\u00e3o do ego \u00e9 a adolesc\u00eancia. Ela pensa que o essencial na psican\u00e1lise \u00e9 a fabrica\u00e7\u00e3o do eu, ou seja, a Ego-psychology. A adolesc\u00eancia \u00e9 ent\u00e3o quase t\u00e3o determinante para ela quanto a inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Na metade dos anos sessenta, todo mundo, e tamb\u00e9m os psicanalistas, se apaixona pela adolesc\u00eancia. \u00c9 o nascimento dos Teen-agers. \u00c9 o nascimento da adolesc\u00eancia como entidade definida, como grupo social. Winnicott notava isso: \u201cOs jovens adolescentes s\u00e3o isolados reunidos [\u2026] um agregado de isolados\u201d (WINNICOTT, 1969, p. 401). \u00c9 exatamente o que se constata na sociabilidade moderna.<\/p>\n<p>Winnicott (Ibidem, p. 398\u2013408) retoma a quest\u00e3o da adolesc\u00eancia prolongada: \u201c\u00c9 preciso precipitar as coisas?\u201d, \u201c\u00c9 preciso apressar o movimento da adolesc\u00eancia?\u201d. Winnicott diz: \u201cde modo algum\u201d. E esse \u201cde modo algum\u201d passar\u00e1 por um certo n\u00famero de teses entre as quais esta, c\u00e9lebre, de que n\u00e3o \u00e9 preciso tentar compreender os adolescentes. N\u00e3o \u00e9 preciso compreender os adolescentes, porque eles n\u00e3o querem ser compreendidos (Ibidem, p. 398). Eles ficam furiosos quando voc\u00eas os compreendem. A partir do momento em que o seu desejo \u00e9 um x para voc\u00ea, que voc\u00ea n\u00e3o sabe o que voc\u00ea quer, n\u00e3o h\u00e1 nada mais irritante do que aqueles que sabem em seu lugar. \u00c9 o que os pais frequentemente fazem. O que Winnicott tamb\u00e9m diz \u00e9 que, se intervimos, arriscamos o pior. Arriscamos destruir, estragar um processo natural e arriscamos terminar na doen\u00e7a mental (Ibidem, p. 399). Para ele, o que mais falta ao sujeito adolescente \u00e9 \u201cse sentir real\u201d (Idibem, p. 405). Poder\u00edamos dizer que o sujeito moderno tamb\u00e9m n\u00e3o se sente real. Para se sentir real, o adolescente busca criar antagonismos (Idem). Ele provoca o Outro para se sentir real atrav\u00e9s da resposta que lhe \u00e9 dada. Winnicott explica assim o acting-out adolescente. Dessa forma, ele define indiretamente o que seria um adulto: um adulto seria algu\u00e9m que se sente real. Portanto, prolongamos tamb\u00e9m um sujeito irreal!<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca, Peter Blos publica Os adolescentes (1967), obra na qual ele precisamente estudou \u201ca adolesc\u00eancia prolongada\u201d (1954), que ele chama \u00e0s vezes de \u201ca adolesc\u00eancia retardada\u201d. Para ele, a conscientiza\u00e7\u00e3o do fim irremedi\u00e1vel da inf\u00e2ncia, das obriga\u00e7\u00f5es do engajamento no mundo, da impossibilidade de escapar aos limites da exist\u00eancia individual, essa conscientiza\u00e7\u00e3o faz nascer um sentimento de medo, de opress\u00e3o e de p\u00e2nico. Por isso muitos adolescentes preferem permanecer numa fase transit\u00f3ria, a adolesc\u00eancia retardada. Esse \u00e9 um retrato de um adolescente angustiado que oscila entre ang\u00fastia e desespero. Ele observa que isso est\u00e1 ligado \u00e0 impossibilidade de escolher um tipo de vida. Nos anos sessenta, vemos a apari\u00e7\u00e3o de um fato social novo: a possibilidade de escolher um tipo de vida. Anteriormente isso n\u00e3o era poss\u00edvel, e, segundo Blos, o risco de ficar angustiado n\u00e3o existia. Alguns lamentam a \u00e9poca em que o sujeito via seu pai cultivar a terra e ficava tranquilo porque, um dia, ele tamb\u00e9m cultivaria a terra. A ideia de escolher sua vida mudou totalmente a subjetividade contempor\u00e2nea como o fato moderno de ter sucessivamente v\u00e1rias vidas profissionais e amorosas.<\/p>\n<p>Blos sublinha que, para se tornar um sujeito, o essencial do trabalho \u00e9 se separar das tend\u00eancias regressivas, isto \u00e9, operar um luto do objeto ao mesmo tempo edipiano e pr\u00e9-edipiano. O objeto edipiano \u00e9, por exemplo, o Outro materno; o objeto pr\u00e9-edipiano s\u00e3o todos os objetos pr\u00e9-genitais que alimentam a tend\u00eancia regressiva como a tend\u00eancia \u00e0 intoxica\u00e7\u00e3o e a fazer a festa. N\u00e3o sentir mais uma necessidade imperiosa de festa \u00e9 considerado como um guia para uma sa\u00edda da adolesc\u00eancia, enquanto em nossa sociedade contempor\u00e2nea sup\u00f5e-se que todo mundo deva fazer a festa at\u00e9 muito tarde! A partir do momento em que a sociedade l\u00edquida (BAUMAN, 2004) \u00e9 valorizada, como essa de hoje, que n\u00e3o tem mais nenhuma fixidez, n\u00e3o sabemos o que acontecer\u00e1 amanh\u00e3. Se o sujeito quer um futuro, ele deve mudar de identidade rapidamente. Nesses casos, onde vai entrar a festa? Ela s\u00f3 pode se alojar numa festa permanente. N\u00e3o h\u00e1 mais distin\u00e7\u00e3o entre a festa e a sociedade. Uma n\u00e3o \u00e9 o avesso da outra.<\/p>\n<p>A ideia de Blos \u00e9 que, se escolhemos nossa vida, devemos poder escolher nossa estrutura ps\u00edquica, e ent\u00e3o uma das ang\u00fastias da adolesc\u00eancia recai sobre o fato de n\u00e3o saber que estrutura ps\u00edquica escolher. Essa perspectiva \u00e9 singular. Para Lacan, ao contr\u00e1rio, n\u00e3o escolhemos nossa estrutura ps\u00edquica. Os psicanalistas da IPA pensavam que a adolesc\u00eancia era o tempo em que se fabricava uma estrutura, e assim tomavam dist\u00e2ncia de Freud.<\/p>\n<p>Para Blos, o essencial \u00e9 se separar dos objetos internos para produzir uma individua\u00e7\u00e3o. O perigo, segundo ele, \u00e9 que se essa individua\u00e7\u00e3o do sujeito \u00e9 muito r\u00e1pida, vai-se produzir um adulto \u201ccomo se\u201d, um falso adulto. Vai ser necess\u00e1rio, portanto, evitar a pressa na matura\u00e7\u00e3o da adolesc\u00eancia. \u00c9 o fen\u00f4meno Tanguy que se anuncia: quanto mais o adolescente fica na casa de seus pais, mais ele se torna um adulto formid\u00e1vel. E Blos considera que tudo o que vai no sentido inverso desse prolongamento \u00e9 for\u00e7osa e necessariamente um acting-out. Por exemplo, a crian\u00e7a que foge de casa, a jovem que engravida, todos esses fen\u00f4menos s\u00e3o acting-out, quer dizer, um efeito de pressa e uma recusa da matura\u00e7\u00e3o lenta. Ele considera em particular que o luto do objeto n\u00e3o tem por objetivo permitir o acesso ao objeto exterior, mas tem por objetivo refor\u00e7ar o eu e as identidades. O objeto deve servir \u00e0 individua\u00e7\u00e3o, \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o de uma identidade forte pr\u00e9via \u00e0 separa\u00e7\u00e3o. Houve alguns protestos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s suas teses na IPA, aquele de Erik H. Erikson (1976), por exemplo, que diz que na realidade a adolesc\u00eancia n\u00e3o \u00e9 tanto um fen\u00f4meno ps\u00edquico, mas uma morat\u00f3ria social. \u00c9 um fen\u00f4meno que n\u00e3o tem sua origem no sujeito, mas na modifica\u00e7\u00e3o do la\u00e7o social na metade do s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p>Helen Deutsch observa que o essencial da cl\u00ednica da adolesc\u00eancia n\u00e3o \u00e9 uma cl\u00ednica do sintoma, mas frequentemente uma cl\u00ednica das a\u00e7\u00f5es, dos acting-out (DEUTSCH, 1977). Ela acrescenta que \u00e9 a raz\u00e3o pela qual os pacientes adultos n\u00e3o falam muito frequentemente de sua adolesc\u00eancia. Por que eles n\u00e3o a evocam? Porque os acting-out n\u00e3o deixam tra\u00e7o, eles deixam lembran\u00e7as, mas n\u00e3o tra\u00e7os determinantes (Idem). O acting-out \u00e9 uma falsa separa\u00e7\u00e3o, sempre a ser repetida, operada por meio de um objeto mostrado. Esse objeto, em jogo nesse falso ato, serve de pseudo-separa\u00e7\u00e3o, no sentido de que ele serve de ponto de ruptura e de diferencia\u00e7\u00e3o. A adolesc\u00eancia \u00e9, portanto, algo que desencadeia um certo n\u00famero de acting-outs que s\u00e3o, com efeito, o avesso das separa\u00e7\u00f5es efetivas. Numerosos jovens passam o tempo estudando e se formando. Helen Deutsch observa que a sociedade contempor\u00e2nea \u00e9 uma sociedade do training, da prepara\u00e7\u00e3o, que exige uma ren\u00fancia ao objeto real muito maior do que nos s\u00e9culos XVIII e XIX. Ao contr\u00e1rio dos acting-outs, os sintomas, nascidos na inf\u00e2ncia, deixam tra\u00e7os porque eles s\u00e3o uma escrita tendo uma consist\u00eancia pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>No final do s\u00e9culo XX, qual \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o a esse respeito na IPA? Richard C. Marohn, em um artigo de 1999, ataca a posi\u00e7\u00e3o de Blos. Ele critica a ideia de que em algum momento se chegaria a um self acabado. Para ele, o self n\u00e3o se acaba nunca, a transfer\u00eancia tamb\u00e9m n\u00e3o, a constru\u00e7\u00e3o de si \u00e9 infinita. N\u00e3o se trata de falar de separa\u00e7\u00e3o e de individua\u00e7\u00e3o, mas muito mais, na adolesc\u00eancia, de um \u201cper\u00edodo significativo de transforma\u00e7\u00e3o do eu\u201d sem fim. Assim, a constru\u00e7\u00e3o de si pode durar do nascimento at\u00e9 a morte. Os filmes de Woody Allen o presentificam: apesar de estar numa idade avan\u00e7ada, o personagem do filme procede sempre na constru\u00e7\u00e3o de seu eu. O fato de afastar para o infinito o encontro do objeto serve sempre ao narcisismo.<\/p>\n<p><strong>Lacan E A Solu\u00e7\u00e3o Do Objeto Separador<\/strong><\/p>\n<p>O ponto de vista lacaniano exige ser freudiano: n\u00e3o \u00e9 a identifica\u00e7\u00e3o que permite o acesso ao objeto, mas \u00e9 muito mais o encontro com o objeto e sua perda que produzem uma identifica\u00e7\u00e3o. \u00c9 o encontro que produz a identidade e n\u00e3o a identidade que permite o encontro. No horizonte do encontro h\u00e1 a quest\u00e3o do ato sexual. N\u00e3o h\u00e1 ato sexual que permita que um sujeito se assegure que ele \u00e9 homem ou mulher. Felizmente h\u00e1 o amor, que pode fazer supl\u00eancia a essa falha de certeza do ato sexual. O amor permite ao sujeito pensar que ele \u00e9 homem ou mulher, de um modo muitas vezes um pouco delirante, que passa pela imagina\u00e7\u00e3o e pelo discurso. A matura\u00e7\u00e3o que deve operar a partir do encontro sexual n\u00e3o \u00e9 de forma alguma aquela do eu ou do narcisismo, mas aquela da rela\u00e7\u00e3o com o pr\u00f3prio objeto.<\/p>\n<p>O objeto \u00e9, de fato, o que vai servir \u00e0 separa\u00e7\u00e3o do sujeito e do Outro. Para Freud, n\u00e3o se trata tanto para o adolescente de se separar do objeto, mas de utilizar um objeto \u201cexterior\u201d para se separar do Outro, o objeto a, objeto que deve ser distinguido da exterioridade \u201crealista\u201d do objeto. A utiliza\u00e7\u00e3o desse objeto passa por um certo luto do objeto ed\u00edpico, como do objeto parcial, ou seja, dos objetos tais como eles existiam anteriormente para o sujeito. Na perspectiva freudiana, existe uma exig\u00eancia social que permite a separa\u00e7\u00e3o. Na perspectiva de Lacan, a sociedade vem em segundo lugar em rela\u00e7\u00e3o ao efeito dos modos de discurso que servem para regular o gozo. Um dos modos no qual o gozo contempor\u00e2neo se distribui \u00e9 o objeto dito mais-de-gozar. A sociedade vende produtos mais-de-gozar que consomem os adolescentes. Esses objetos de consumo v\u00e3o entrar em concorr\u00eancia com outros objetos e outras satisfa\u00e7\u00f5es enodando fantasias e usos regressivos do objeto e saturando, por vezes, o local e o uso poss\u00edvel do objeto separador para o sujeito.<\/p>\n<p>Para Lacan, a adolesc\u00eancia \u00e9 por excel\u00eancia o fato de que o sujeito passa da posi\u00e7\u00e3o infantil de desejado \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de desejante. Como crian\u00e7a, o adolescente certamente foi desejado ou n\u00e3o desejado, mas n\u00e3o lhe pedimos tanto que seja desejante. A partir do momento em que ele \u00e9 adolescente, ele \u00e9 convocado a ser desejante ou mais ainda a se propor \u201ccomo um desejante\u201d. No semin\u00e1rio A Ang\u00fastia, Lacan precisa: \u201cPropor-me como desejante, eron, \u00e9 propor-me como falta de a\u201d (LACAN, 2005, p. 198). Vemos que o objeto separador n\u00e3o \u00e9 o objeto que d\u00e1 as bases ao ego, mas que ele \u00e9 o que produz um desejo, a partir do momento em que \u201ceu me aproximo como desejante\u201d, como falta de objeto.<\/p>\n<p>Por exemplo, a jovem que, no desejo do rapaz \u00e9 um pequeno a, poder\u00e1 suportar esse desejo sem muita ang\u00fastia se ela puder verificar que ela tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 \u201csomente isso\u201d, isto \u00e9, que ela fez um pouco o luto de ser esse objeto. O rapaz poder\u00e1 tamb\u00e9m encontrar uma jovem, que \u00e9 um pequeno a, n\u00e3o tanto porque ela \u00e9 pequeno a, mas porque ela \u00e9 o pequeno a que falta a ele. Trata-se a\u00ed, para o rapaz, de se aproximar como desejante, como \u201cmenos a\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso, portanto, uma queda do gozo da fantasia onde o sujeito se percebe como objeto para que se crie um desejo eficaz. O que constitui o desejo \u00e9 uma sucess\u00e3o de encontros do objeto, encontros que produzem um certo n\u00famero de lutos. Cada vez que o sujeito encontra o objeto e que \u201cisso falha\u201d, o que \u00e9 frequente e quase sempre certo, produz, no luto, um desejo. O desejo est\u00e1 ligado ao fato de se ter perdido o objeto numa experi\u00eancia de amor real e n\u00e3o na fantasia onde o objeto subsiste intocado. As aventuras amorosas adolescentes s\u00e3o, portanto, extremamente formadoras do desejo. Os adolescentes t\u00eam aventuras curtas e m\u00faltiplas e \u00e9 exatamente o que \u00e9 necess\u00e1rio para eles. H\u00e1 sempre exce\u00e7\u00f5es. O amor produz alguma coisa. \u00c9 uma grande ideia da psican\u00e1lise: o amor \u00e9 produtor, produtor de desejo e produtor de um novo tipo de objeto. Assim, a transfer\u00eancia como amor produz uma nova rela\u00e7\u00e3o com o objeto, mas tamb\u00e9m um novo tipo de objeto que \u00e9, para Lacan, o objeto causa do desejo. \u00c9 por isso que ele coloca que o amor \u00e9 o que \u201cpermite ao gozo condescender ao desejo\u201d (LACAN, 2005, p. 197). Lacan sempre se op\u00f4s \u00e0 ideia ing\u00eanua da matura\u00e7\u00e3o ou da evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, percebemos que os amores que valem s\u00e3o tamb\u00e9m frequentemente amores que acabam. \u00c9 a opini\u00e3o de Marguerite Duras. Como \u00e9 que sabemos que um amor acaba? Sabemos que um amor acabou quando come\u00e7amos a amar algum outro. \u00c9 nesse momento, entre um amor que se apaga e outro que nasce que tocamos o encontro do objeto, de um objeto em posi\u00e7\u00e3o de causa. Podemos mudar de amor tamb\u00e9m, passamos de um amor de um certo tipo para outro de um outro tipo. \u00c9 o que se passa na adolesc\u00eancia. A adolesc\u00eancia \u00e9 mudar de amor. \u00c9 por isso que a adolesc\u00eancia \u00e9 uma cl\u00ednica do amor; a quest\u00e3o \u00e9 saber: h\u00e1 um amor adulto?<\/p>\n<p>No final do Semin\u00e1rio A Ang\u00fastia, Lacan prop\u00f5e que o adulto \u00e9 aquele que n\u00e3o ignora a causa de seu desejo. Seria ent\u00e3o, para Lacan, o produto de uma an\u00e1lise. Talvez a psican\u00e1lise pudesse ajudar para que saiamos hoje dessa adolesc\u00eancia retardada que \u00e9 tamb\u00e9m uma adolesc\u00eancia generalizada, proposta a todos. Isso sup\u00f5e que compreendamos a l\u00f3gica de um objeto a que participa da er\u00f3tica do tempo, tal como o mostrou Jacques-Alain Miller (2000). Isso teria tamb\u00e9m o efeito positivo de acabar com o apetite inextingu\u00edvel de identidade, porque a partir do momento em que o sujeito conhece a causa de seu desejo, \u00e9 ela que o autoriza; n\u00e3o \u00e9 sua identidade, ainda que ela seja forte, que lhe dar\u00e1 acesso a ela.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: Cristina Drummond<\/h6>\n<h6>Revis\u00e3o: M\u00e1rcia Bandeira<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Bibliografia<\/strong><\/h6>\n<h6>BAUMAN, Z. Amor l\u00edquido. Sobre a fragilidade dos la\u00e7os humanos. RJ: Jorge Zahar Editor, 2004.<\/h6>\n<h6>BERNFELD, S. \u00dcber eine typische Form der M\u00e4nnlichen Pubert\u00e4t. Wien: Imago, 1924, BD.IX, S, p. 169-188.<\/h6>\n<h6>BLOS, P. Les adolescents. Paris: Stock, 1967, esgotado.<\/h6>\n<h6>BLOS, P. Prolonged male adolescence: The formulation of a syndrome and its therapeutic implications, American Journal of Orthopsychiatry. XXIV, 1954.<\/h6>\n<h6>DEUTSCH, H. Problemas psicol\u00f3gicos da adolesc\u00eancia. Rio de Janeiro: Zahar, 1977.<\/h6>\n<h6>ERIKSON, E.H. Identidade, juventude e crise. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.<\/h6>\n<h6>FREUD, A. Adolescence, The Psycoanalytic Study of the Child. New York: International Universities press, 1958, Vol. XIII.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Tr\u00eas ensaios sobre a teoria da sexualidade. Rio de Janeiro: Imago, 1972.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. O Semin\u00e1rio. Livro 10: a ang\u00fastia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005<\/h6>\n<h6>MAROHN, C. R. A re-examination of Peter Blos\u2019s concept of prolonged adolescence, Adolescent Psychiatry. 1999. Dispon\u00edvel em http:\/\/findarticles.com\/p\/articles\/mi_qa3882\/is_199901\/ai_n8851397\/<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. A er\u00f3tica do tempo. Rio de Janeiro: Latusa \u2013 Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2000.<\/h6>\n<h6>YONNET, P. Le recul de la mort. Paris: Gallimard, 2006.<\/h6>\n<h6>WINNICOTT, D. W. \u201cL\u2019adolescence\u201d. In: De la p\u00e9diatrie \u00e0 la psychanalyse. Paris: Payot, 1969.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Philippe La Sagna<\/strong><\/h6>\n<h6>Philippe La Sagna &#8211; psicanalista, AME da ACF, NLS e AMP. E-mail:\u00a0<span id=\"cloakbdb0c49800f9cc7d1bcd07c66212262b\"><a href=\"mailto:plasagna@free.fr\">plasagna@free.fr<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PHILIPPE LA SAGNA &nbsp; FOTO: ATIVIDADE DE CHRISTINA FORNACIARI, \u201cSE EU FOSSE FRANCIS BACON\u201d. JOVENS DO PROGRAMA CAPUT. No s\u00e9culo XX, nossa percep\u00e7\u00e3o da vida e da vida sexual em particular mudou muito em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quela do s\u00e9culo passado. Ela foi modificada em diferentes planos, e, primeiramente, no plano do real. 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