{"id":761,"date":"2015-07-17T06:56:21","date_gmt":"2015-07-17T09:56:21","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=761"},"modified":"2025-12-01T17:01:02","modified_gmt":"2025-12-01T20:01:02","slug":"o-manejo-da-transferencia-diante-da-demanda-dos-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2015\/07\/17\/o-manejo-da-transferencia-diante-da-demanda-dos-pais\/","title":{"rendered":"O Manejo Da Transfer\u00eancia Diante Da Demanda Dos Pais"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>MARINA S. SIM\u00d5ES<\/strong><\/h6>\n<\/div>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/16-600x550-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"600\" data-large_image_height=\"550\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-762\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/16-600x550-1.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"550\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/16-600x550-1.jpg 600w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/16-600x550-1-300x275.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6 style=\"padding-left: 240px;\">FOTO: FREDERICO BANDEIRA<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Analisar uma crian\u00e7a requer ir al\u00e9m de acolher e escutar o sujeito. O trabalho n\u00e3o depende apenas do desejo desse sujeito em trabalhar e do desejo do analista, mas requer a presen\u00e7a dos pais. S\u00e3o eles que procuram o analista, demandando a an\u00e1lise para a crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Sabemos que, para que uma an\u00e1lise seja poss\u00edvel, \u00e9 imprescind\u00edvel que ocorra transfer\u00eancia. A an\u00e1lise de uma crian\u00e7a requer, tamb\u00e9m, a transfer\u00eancia com os pais. N\u00f3s, enquanto analistas, temos o desafio de criar um la\u00e7o transferencial com os pais, sen\u00e3o a crian\u00e7a, com o seu sintoma, n\u00e3o chega ao tratamento.<\/p>\n<p>Geralmente s\u00e3o os pais que procuram o analista, demandando a an\u00e1lise da crian\u00e7a por diversos motivos que causam mal-estar: algo da crian\u00e7a que os incomoda, demanda da escola ou, ainda, por indica\u00e7\u00e3o de algum m\u00e9dico, parente ou amigo. A primeira demanda \u00e9 dos pais. Acolhemos essa demanda tomando o cuidado de escutar a singularidade que uma crian\u00e7a desperta no adulto que nos procura.<\/p>\n<p>Cabe ao analista investigar o que levou os pais a procur\u00e1-lo e qual \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o deles diante do sintoma da crian\u00e7a. O analista d\u00e1 lugar ao saber dos pais, acolhendo o que eles falam, atento \u00e0 diferencia\u00e7\u00e3o entre o sintoma do par parental, o sintoma da m\u00e3e, do pai e da crian\u00e7a. Abrem-se a\u00ed quest\u00f5es fundamentais: qual \u00e9 o lugar que a crian\u00e7a ocupa na fam\u00edlia, assim como qual \u00e9 o sintoma que ela ocupa para esse Outro?<\/p>\n<p>Podemos obter algumas dessas respostas por meio das entrevistas com os pais, identificando onde se situa seu sintoma em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 crian\u00e7a. A presen\u00e7a do desejo dos pais molda o sujeito, e a sua aus\u00eancia deixa uma marca, que reaparecer\u00e1 nas forma\u00e7\u00f5es do inconsciente, incluindo o seu sintoma, que responde a uma falha na estrutura familiar.<\/p>\n<p>A impossibilidade de estabelecer la\u00e7os transferenciais ocorre quando os pais \u201cn\u00e3o quererem saber\u201d sobre o sintoma do filho. Nesses casos, n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de transfer\u00eancia entre pais e analista. Esses pais n\u00e3o questionam, mas demandam respostas, querem que o analista \u201ccure\u201d o seu filho, fazendo com que o sintoma que incomoda desapare\u00e7a.<\/p>\n<p>Nos casos em que a crian\u00e7a \u00e9 encaminhada por um terceiro, que pode ser a escola, um m\u00e9dico, um amigo, os pais n\u00e3o questionam, n\u00e3o demandam e, algumas vezes, n\u00e3o est\u00e3o incomodados com o \u201cproblema\u201d que o filho apresenta. Apenas cumprem o papel que lhes foi solicitado. Apostamos, ent\u00e3o, na transfer\u00eancia com a crian\u00e7a, para que o tratamento seja poss\u00edvel.<\/p>\n<p>J\u00e1 nos casos em que os pais querem saber, a transfer\u00eancia n\u00e3o \u00e9 apenas poss\u00edvel, mas necess\u00e1ria para o trabalho com a crian\u00e7a. Nesses casos, apostamos no inconsciente do pai e\/ou da m\u00e3e para fazer o la\u00e7o transferencial. Escutamos cada um do par parental, com o seu sintoma e o seu desejo. Aqui, cabe interpretar, diferente do primeiro caso, em que a transfer\u00eancia n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. De acordo com Freud, podemos interpretar apenas quando a transfer\u00eancia j\u00e1 est\u00e1 estabelecida, pois a emerg\u00eancia da transfer\u00eancia significa que h\u00e1 processo inconsciente.<\/p>\n<p>Na rela\u00e7\u00e3o paciente-analista, o paciente realiza o trabalho. \u00c9 ele quem produz, entregando o material ao analista, a este cabendo receb\u00ea-lo, escut\u00e1-lo e, quando poss\u00edvel, interpret\u00e1-lo, intervindo enquanto Outro.<\/p>\n<p>De acordo com Lacan (1964), a interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 aberta a todo e qualquer sentido e tampouco toda interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Ela funciona quando toca o inconsciente, o que \u00e9 complexo e exige cautela do analista. A interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o visa tanto ao sentido; visa mais a reduzir os significantes ao \u201cn\u00e3o-senso\u201d.<\/p>\n<p>Os pais chegam ao psicanalista supondo que este saiba algo do sintoma do seu filho e pedem uma resposta. O analista ocupa o lugar de sujeito suposto saber, que \u00e9 um mecanismo da transfer\u00eancia fundamental para a an\u00e1lise. O sujeito precisa se sentir amado e supor saber ao analista no primeiro momento da transfer\u00eancia. Lacan acreditava que o sujeito suposto saber \u00e9 o piv\u00f4 da transfer\u00eancia, pois a an\u00e1lise se estabelece com essa suposi\u00e7\u00e3o de que o Outro, analista, sabe \u2013 posi\u00e7\u00e3o esta que o paciente consente, mas com a qual o analista n\u00e3o se identifica. Lacan (1964) pontua que<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Desde que haja em algum lugar o sujeito suposto saber (\u2026) h\u00e1 transfer\u00eancia. (\u2026) Ora, \u00e9 bem certo, do conhecimento de todos, que nenhum psicanalista pode pretender representar, ainda que da maneira mais reduzida, um saber absoluto (LACAN, 1964, p. 226).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para Lacan (1938), o sintoma da crian\u00e7a est\u00e1 relacionado com a fam\u00edlia, com esse Outro primordial, pois responde ao sintoma da estrutura familiar, representando a verdade do par parental. O sintoma da crian\u00e7a pode representar o que h\u00e1 de sintom\u00e1tico na m\u00e3e, no pai ou no casal. Lacan pontua que o destino psicol\u00f3gico da crian\u00e7a depende, primeiro, da rela\u00e7\u00e3o que as imagens parentais t\u00eam entre si. Segundo Lacan, a crian\u00e7a \u00e9 o sintoma do par parental. E \u00e9 por esse vi\u00e9s que apostamos na possibilidade da an\u00e1lise com a crian\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">(\u2026) o sintoma da crian\u00e7a acha-se em condi\u00e7\u00e3o de responder ao que existe de sintom\u00e1tico na estrutura familiar. O sintoma \u2013 esse \u00e9 o dado fundamental da experi\u00eancia anal\u00edtica \u2013 se define, nesse contexto, como representante da verdade do casal familiar. Esse \u00e9 o caso mais complexo, mas tamb\u00e9m o mais acess\u00edvel a nossas interven\u00e7\u00f5es (LACAN, 1938, p. 369).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os pais com que trabalhamos s\u00e3o os pais reais, que queixam e demandam, e n\u00e3o os pais da fantasia da crian\u00e7a, como trabalhado por Freud em Romances familiares, aqueles que constituem uma autoridade \u00fanica para a crian\u00e7a, que carrega o conhecimento sobre tudo. Mais tarde, a crian\u00e7a vai compar\u00e1-los a outros pais e depois rivalizar com eles. Esses, n\u00f3s tratamos na an\u00e1lise com a crian\u00e7a. J\u00e1 os pais com que estamos trabalhando aqui ocupam uma fun\u00e7\u00e3o muito importante no tratamento das crian\u00e7as, e n\u00f3s contamos com eles para o trabalho ocorrer. Por\u00e9m, ressaltamos o lugar da crian\u00e7a enquanto analisante, afinal, a an\u00e1lise \u00e9 o espa\u00e7o para a crian\u00e7a, enquanto sujeito, trabalhar as suas quest\u00f5es, e n\u00e3o o lugar de an\u00e1lise dos pais.<\/p>\n<p>Algumas vezes os pais precisam do seu espa\u00e7o para falar e colocar suas quest\u00f5es. Esse espa\u00e7o, no entanto, deve ser encontrado fora da an\u00e1lise do filho. Perguntamos quando e como encaminhar um pai e\/ou uma m\u00e3e a um analista, para que tenham um lugar onde eles possam tratar do seu sintoma.<\/p>\n<p>O analista, quando faz uma interven\u00e7\u00e3o com os pais, busca orientar o n\u00f3 do amor, do desejo e do gozo de ambos. Sabemos a import\u00e2ncia de ouvir cada um dos pais para o tratamento da crian\u00e7a, mas questionamos quando devemos cham\u00e1-los para conversar.<\/p>\n<p>Convocamos os pais para conversar quando eles nos solicitam, quando acreditamos ser necess\u00e1rio investigar mais sobre a crian\u00e7a, quando percebemos algo errado com a crian\u00e7a que ela n\u00e3o d\u00e1 conta de falar, quando sentimos a necessidade de dar um retorno e quando precisamos chamar o pai para a sua fun\u00e7\u00e3o, entre outras in\u00fameras situa\u00e7\u00f5es. Eles s\u00e3o fonte de saber sobre a crian\u00e7a, mas n\u00e3o sabem de tudo. Buscamos construir, junto \u00e0 crian\u00e7a e aos pais, algum saber. O trabalho com os pais \u00e9 um trabalho conjunto, visando ao tratamento da crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Alguns pais pedem que o analista os ensine como lidar com o filho, questionando se agem certo ou errado com a crian\u00e7a. Ao analista cabe o cuidado no manejo da transfer\u00eancia com os pais, sendo poss\u00edvel orient\u00e1-los, para o trabalho caminhar. Orientar \u00e9 diferente de dar respostas e ensinar. Orientar \u00e9 construir solu\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, pontuando o que for importante para a continuidade do trabalho.<\/p>\n<p>Os pais s\u00e3o a primeira fonte de saber da crian\u00e7a, eles s\u00e3o a lei e o amor. Questionamos se o pai e a m\u00e3e ocuparam as suas fun\u00e7\u00f5es para essa crian\u00e7a na constru\u00e7\u00e3o do \u00c9dipo. A estrutura do sujeito depende do Outro e dele mesmo, de como a falta se instaura. O sujeito escolhe, via desejo, qual posi\u00e7\u00e3o vai tomar, escolhe se alienar ou n\u00e3o, mas para conseguir chegar ao alcance da escolha, \u00e9 necess\u00e1rio algo antes, e \u00e9 a\u00ed que os pais entram.<\/p>\n<p>Primeiro, o sujeito crian\u00e7a se aliena, dizendo \u201csim\u201d ao Outro. De acordo com Lacan, esse \u00e9 o primeiro passo da opera\u00e7\u00e3o em que se funda o sujeito, sendo essencial a crian\u00e7a passar por ele para chegar ao segundo momento, no qual ele se separa, respondendo \u201cn\u00e3o\u201d ao Outro, dando uma resposta enquanto sujeito desejante. Isso \u00e9 poss\u00edvel quando o seu lugar no desejo do Outro se torna enigm\u00e1tico para a crian\u00e7a, quando ela sai do lugar de assujeitamento ao gozo do Outro para assujeitar-se a uma lei \u2013 a lei do desejo, encarnada pela fun\u00e7\u00e3o do pai. \u00c9 nesse segundo momento que o campo da transfer\u00eancia come\u00e7a a ter lugar. O trabalho da an\u00e1lise consiste em ajudar a crian\u00e7a a fazer essa separa\u00e7\u00e3o, intervindo no lugar em que nos \u00e9 dado pela transfer\u00eancia.<\/p>\n<p>Nesse momento de impasse, pode acontecer de alguns pais suspenderem o tratamento da crian\u00e7a, porque dizem que ela j\u00e1 est\u00e1 bem, quando o sintoma que os incomodava apazigua, ou quando acreditam que a crian\u00e7a \u201cpiorou\u201d, est\u00e1 \u201crebelde\u201d, \u201cagressiva\u201d, pois est\u00e1 se separando, se posicionando enquanto sujeito. Acontece que, quando a an\u00e1lise abre a possibilidade do sujeito crian\u00e7a aparecer, criando certa independ\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o aos pais, estes a interrompem, com ou sem transfer\u00eancia com o analista. S\u00e3o eles que decidem o momento de interromper, e n\u00e3o o analista junto ao analisante.<\/p>\n<p>Na experi\u00eancia com a cl\u00ednica, assistimos a tratamentos de crian\u00e7as sendo interrompidos por v\u00e1rias raz\u00f5es: al\u00e9m dos citados acima, porque os pais acreditam em outra(s) forma(s) de tratamento e creem que ter\u00e3o mais \u00eaxito, porque est\u00e3o com baixas condi\u00e7\u00f5es financeiras, porque acreditam que a crian\u00e7a j\u00e1 est\u00e1 h\u00e1 muito tempo em tratamento e n\u00e3o obtiveram os resultados esperados, tamb\u00e9m por quest\u00f5es de mudan\u00e7a de hor\u00e1rio ou inviabilidade de levar a crian\u00e7a ao atendimento, entre outras. Nesse momento, n\u00f3s, enquanto analistas, se poss\u00edvel, chamamos esses pais para mais uma conversa, al\u00e9m de outras ocorridas durante o tratamento da crian\u00e7a. Ressaltamos a import\u00e2ncia do tratamento pontuando que ele ainda n\u00e3o chegou ao fim, e que, portanto, n\u00e3o concordamos com sua interrup\u00e7\u00e3o. Cabe ao analista amparar tamb\u00e9m os pais nessa separa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma das causas da interrup\u00e7\u00e3o do tratamento da crian\u00e7a \u00e9 a resist\u00eancia, que pode ser do lado da crian\u00e7a ou do lado de um dos pais. H\u00e1 casos em que o pai ou a m\u00e3e diz que a crian\u00e7a n\u00e3o quer mais ir \u00e0s consultas. Investigamos de qual lado est\u00e1 a resist\u00eancia, para trabalharmos com ela, afinal, a resist\u00eancia \u00e9 uma forma de transfer\u00eancia. Ela aparece como um obst\u00e1culo para a cura, mas com o manejo da transfer\u00eancia \u00e9 poss\u00edvel venc\u00ea-la. De acordo com Freud (1912),<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\">(\u2026) a transfer\u00eancia (porquanto os pais reais ainda est\u00e3o em evid\u00eancia) desempenha um papel diferente. As resist\u00eancias internas contra as quais lutamos, no caso dos adultos, s\u00e3o na sua maior parte substitu\u00eddas, nas crian\u00e7as, pelas dificuldades externas. Se os pais s\u00e3o aqueles que propriamente se constituem em ve\u00edculos da resist\u00eancia, o objetivo da an\u00e1lise \u2013 e a an\u00e1lise como tal \u2013 muitas vezes corre perigo. Da\u00ed se deduz que muitas vezes \u00e9 necess\u00e1ria determinada dose de influencia anal\u00edtica junto aos pais (FREUD, 1912, p. 146).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ainda segundo Freud (1912), os fen\u00f4menos da transfer\u00eancia \u2013 resist\u00eancia, repeti\u00e7\u00e3o e sugest\u00e3o \u2013 representam grande dificuldade para o psicanalista, mas s\u00e3o necess\u00e1rios para tornar manifesto os impulsos er\u00f3ticos ocultos do paciente, ou seja, para chegarmos ao inconsciente do sujeito.<\/p>\n<p>Em 1912, Freud afirma que a resist\u00eancia deve ser contornada atrav\u00e9s da interpreta\u00e7\u00e3o, que \u00e9 colocada como uma arte, principalmente no que diz da identifica\u00e7\u00e3o das resist\u00eancias. Trata-se do manejo da transfer\u00eancia dando o devido tempo para o paciente elabor\u00e1-la, superar a resist\u00eancia e abrir a possibilidade, assim, de recordar e prosseguir com o tratamento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Depois que ela for vencida, a suspens\u00e3o das outras partes do complexo quase n\u00e3o apresenta novas dificuldades. (\u2026) assim, a transfer\u00eancia, no tratamento anal\u00edtico, invariavelmente nos aparece, desde o in\u00edcio, como arma mais forte da resist\u00eancia, e podemos concluir que a intensidade e persist\u00eancia da transfer\u00eancia constituem efeito e express\u00e3o da resist\u00eancia. Ocupamo-nos do mecanismo da transfer\u00eancia (\u2026) mas o papel que a transfer\u00eancia desempenha no tratamento s\u00f3 pode ser explicado se entrarmos na considera\u00e7\u00e3o de suas rela\u00e7\u00f5es com as resist\u00eancias (FREUD, 1912, p. 115-116).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De acordo com Freud (1912), citado por Miller (1988, p. 104), a transfer\u00eancia se produz quando o desejo do sujeito encontra um elemento particular na pessoa do analista, ou seja, quando algo do inconsciente se liga a algum significante que remete ao analista. Ainda segundo Freud (1912), a transfer\u00eancia se d\u00e1 devido \u00e0 imago paterna, semelhante \u00e0 imago materna ou \u00e0 imago fraterna, sendo a transfer\u00eancia a pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o da cura, o tempo da experi\u00eancia e da elabora\u00e7\u00e3o, na medida em que tem o Outro como figura central.<\/p>\n<p>A transfer\u00eancia, com a possibilidade de interpreta\u00e7\u00e3o, favorece o tratamento da crian\u00e7a abrindo espa\u00e7o para ela construir o seu pr\u00f3prio sintoma, separado do sintoma do pai, da m\u00e3e ou do par parental.<\/p>\n<p>Ainda de acordo com Freud (1912), os sintomas podem adquirir uma nova significa\u00e7\u00e3o a partir da an\u00e1lise, pois o sintoma \u00e9 um elemento com uma significa\u00e7\u00e3o que se dirige ao Outro. Sendo assim, o sintoma pode se direcionar ao lugar ocupado pelo analista na cura, lugar este de receptor do sintoma onde, devido \u00e0 transfer\u00eancia, ele pode operar sobre aquele.<\/p>\n<p>H\u00e1, ent\u00e3o, no tratamento com crian\u00e7as, a possibilidade do advir de um sujeito, o que permite a interpreta\u00e7\u00e3o do analista. Portanto, a an\u00e1lise da crian\u00e7a \u00e9, sim, poss\u00edvel, com o manejo da transfer\u00eancia do lado do pai, da m\u00e3e e do filho. Apostamos na possibilidade de a crian\u00e7a construir o seu sintoma e saber sobre ele num processo transferencial junto ao analista.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Bibliografia:<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1909\/2006) \u201cRomances familiares\u201d, In: Edi\u00e7\u00e3o Standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud. \u201cGradiva\u201d de Jensen e outros trabalhos (1906-1908) Rio de Janeiro: Imago Editora, Vol.IX, p. 219-222.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1912) \u201cSobre o in\u00edcio do tratamento (novas recomenda\u00e7\u00f5es sobre a t\u00e9cnica da psican\u00e1lise I)\u201d, In: Edi\u00e7\u00e3o Standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud. O caso Schereber, artigos sobre t\u00e9cnica e outros trabalhos (1911-1913), Rio de Janeiro: Imago Editora, Vol XII, p. 137 \u2013 158.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (2964) \u201cDo sujeito suposto saber, da d\u00edade primeira e do bem\u201d, In: O Semin\u00e1rio. Livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985\/2008, p. 224 \u2013 236.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1938) \u201cNota sobre a crian\u00e7a\u201d, In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001, p. 369-370.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1938) \u201cOs complexos familiares\u201d, In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001, p. 29-90.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1964) \u201cO sujeito e o Outro (I): A aliena\u00e7\u00e3o\u201d In: O Semin\u00e1rio. Livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985\/2008, p. 199-210.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1964) \u201cO sujeito e o Outro (II): A af\u00e2nise\u201d In: O Semin\u00e1rio. Livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985\/2008, p. 211-223.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><strong>Marina S. Sim\u00f5es<\/strong><\/h6>\n<h6>Psicanalista. Graduado em Psicologia pela PUC MINAS. Graduated in Psychology from PUC MINAS. E-mail :<span id=\"cloakc0d86d9cf9f856b21e69ad4556ec19de\"><a href=\"mailto:marina.s.simoes@hotmail.com\">marina.s.simoes@hotmail.com<\/a><\/span>\u00a0https:\/\/www.instagram.com\/p\/aEZJKAjG8o\/?taken-by=fredbandeira<\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MARINA S. SIM\u00d5ES FOTO: FREDERICO BANDEIRA &nbsp; Analisar uma crian\u00e7a requer ir al\u00e9m de acolher e escutar o sujeito. O trabalho n\u00e3o depende apenas do desejo desse sujeito em trabalhar e do desejo do analista, mas requer a presen\u00e7a dos pais. S\u00e3o eles que procuram o analista, demandando a an\u00e1lise para a crian\u00e7a. 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