{"id":766,"date":"2015-07-17T06:56:21","date_gmt":"2015-07-17T09:56:21","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=766"},"modified":"2025-12-01T17:01:28","modified_gmt":"2025-12-01T20:01:28","slug":"histeria-do-matema-da-fantasia-ao-discurso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2015\/07\/17\/histeria-do-matema-da-fantasia-ao-discurso\/","title":{"rendered":"Histeria: Do Matema Da Fantasia Ao Discurso"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>GERMANA PIMENTA BONFIOLI<\/strong><\/h6>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/15-600x431-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"600\" data-large_image_height=\"431\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-768\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/15-600x431-1.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"431\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/15-600x431-1.jpg 600w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/15-600x431-1-300x216.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As estruturas cl\u00ednicas \u2013 neurose, psicose e pervers\u00e3o \u2013 s\u00e3o decorrentes de tr\u00eas modos distintos de defesa contra a castra\u00e7\u00e3o. Na neurose, o modo em quest\u00e3o \u00e9 o recalque. Forma de nega\u00e7\u00e3o da castra\u00e7\u00e3o no Outro, que sup\u00f5e o atravessamento do \u00c9dipo e a consequente inscri\u00e7\u00e3o do Nome do Pai. Como efeito, os sujeitos neur\u00f3ticos, de posse da significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, podem se inscrever de um dos lados na partilha do sexo. Dois tipos cl\u00ednicos s\u00e3o caracter\u00edsticos dessa estrutura: histeria e neurose obsessiva. A histeria tomada como a neurose de base e a neurose obsessiva como seu dialeto.<\/p>\n<p>A histeria \u00e9, portanto, um modo particular do sujeito subjetivar a falta imposta pela castra\u00e7\u00e3o, que poder\u00e1 se manifestar nas maneiras sintom\u00e1ticas variadas, mas preservando uma maneira t\u00edpica de lidar com o desejo, estabelecer identifica\u00e7\u00f5es e se relacionar com o Outro. Um modo do sujeito se defender dessa falta que coloca em marcha algumas estrat\u00e9gias fundamentais.<\/p>\n<p>Destacaremos aqui dois momentos distintos ao longo da obra de Lacan em que ele ir\u00e1 trabalhar a histeria: nos anos 50, quando o matema da fantasia hist\u00e9rica aparece pela \u00fanica vez, e em 1969\/1970, no Semin\u00e1rio 17, em que a histeria \u00e9 tomada como discurso.<\/p>\n<p>No Semin\u00e1rio 8, ao se deter sobre os \u201cefeitos sintom\u00e1ticos do complexo de castra\u00e7\u00e3o\u201d (LACAN, 1960\/1961, p. 242), analisando o caso Dora, Lacan enuncia, atrav\u00e9s do matema da fantasia hist\u00e9rica, uma estrat\u00e9gia fundamental de defesa hist\u00e9rica.<\/p>\n<p>Objeto (a), sobre a sua castra\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria, em sua rela\u00e7\u00e3o com o Outro. Oferece, desse modo, sua pr\u00f3pria castra\u00e7\u00e3o ao Outro, como forma de garantir sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>O sujeito hist\u00e9rico, mais que qualquer um, orienta-se pelo desejo do Outro. Interroga-se a todo tempo pelo desejo do Outro para a partir da\u00ed se colocar, como objeto, nesse lugar. De olho no que falta ao Outro, est\u00e1 sempre pronto a se posicionar, de modos diversos, como quem ir\u00e1 preencher essa falta. Essa versatilidade hist\u00e9rica pode ser facilmente observada na cl\u00ednica, por exemplo, atrav\u00e9s dos variados estilos que uma hist\u00e9rica pode assumir diante de diferentes parcerias, fazendo-se a mulher sob medida para cada homem. Ao mesmo tempo, para manter esse outro desejante, \u00e9 condi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m se subtrair como objeto, n\u00e3o satisfaz\u00ea-lo inteiramente, esquivando-se em tornar-se objeto de gozo. E aqui outro modo t\u00edpico de funcionamento da mulher hist\u00e9rica aparece: ela segue em dire\u00e7\u00e3o ao desejo do Outro, provoca-o e, na sequ\u00eancia, se esquiva dele como meio de resistir a ser tomada como objeto de gozo.<\/p>\n<p>No matema da fantasia hist\u00e9rica, \u00e9 como objeto a que a hist\u00e9rica se identifica, mas o que est\u00e1 por baixo da barra, aquilo que ela se esfor\u00e7a em ocultar, atrav\u00e9s dessa estrat\u00e9gia de oferecer-se como objeto de desejo do Outro, \u00e9 sua pr\u00f3pria castra\u00e7\u00e3o. Do lado direito do matema, o que aparece como resultado dessa oferta \u00e9 um Outro sem barra, o Outro n\u00e3o castrado. Ao apostar que pode completar o outro, fazendo-o passar de um Outro barrado para um Outro sem barra, o que est\u00e1 em jogo \u00e9 a sua rela\u00e7\u00e3o com a falta. A aposta \u00e9, em \u00faltima inst\u00e2ncia, na sua pr\u00f3pria exist\u00eancia, como toda. Se a barra n\u00e3o incide sobre o outro, n\u00e3o incide tamb\u00e9m sobre si mesma.<\/p>\n<p>\u00c9 a prop\u00f3sito de Dora, c\u00e9lebre caso de Freud (FREUD, 1905, p. 12-115), que Lacan ir\u00e1 nos esclarecer a respeito das regras desse jogo complicado. O pai de Dora, sabidamente impotente, \u00e9 incapaz de copular com sua amante, a Sra. K. Mas isso n\u00e3o importa se \u00e9 ela, seguindo o molde da fantasia hist\u00e9rica, quem ir\u00e1 sustentar a rela\u00e7\u00e3o dos dois, fornecendo ao pai o signo f\u00e1lico que lhe falta.<\/p>\n<p><em>Pois tudo o que est\u00e1 em quest\u00e3o para Dora, como para toda hist\u00e9rica, \u00e9 se fornecedora desse signo sob a forma imagin\u00e1ria. O devotamento da hist\u00e9rica, sua paix\u00e3o por se identificar com todos os dramas sentimentais, de estar ali, de sustentar nos bastidores tudo que possa acontecer de apaixonante e que, no entanto, n\u00e3o \u00e9 da sua conta, \u00e9 a\u00ed que est\u00e1 a mola, o recurso do que vegeta e prolifera todo o seu comportamento (LACAN, 1960\/1961, p. 243).<\/em><\/p>\n<p>Tudo vai bem at\u00e9 o ponto em que est\u00e3o todos insatisfeitos em seus desejos. Pois faz parte dos artif\u00edcios desse jogo que, para seguir desejando, o Outro seja mantido insatisfeito. Mesmo ao pre\u00e7o da insatisfa\u00e7\u00e3o do seu pr\u00f3prio desejo, o que vai se tornar a marca registrada de uma histeria. Mais importante do que a satisfa\u00e7\u00e3o do seu desejo \u00e9 que o Outro mantenha o enigma como garantia da sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c9 ao seu pai que Dora demanda amor. Ao pai do terceiro tempo do \u00c9dipo, descrito por Lacan (LACAN, 1957\/1958, p. 200), como aquele que estaria em condi\u00e7\u00e3o de fornecer-lhe simbolicamente o que lhe falta. Nos dois tempos antecedentes, o sujeito, primeiramente, se identifica imaginariamente ao objeto de desejo da m\u00e3e. A seguir, a m\u00e3e de Dora, que mal aparece na hist\u00f3ria, \u00e9 privada de seu falo imagin\u00e1rio e permanecer\u00e1 a\u00ed ausente da situa\u00e7\u00e3o. A lei paterna incide, a interdi\u00e7\u00e3o \u00e9 consumada, e assim estamos diante de um sujeito neur\u00f3tico. Os dois primeiros tempos l\u00f3gicos s\u00e3o atravessados e chega-se ent\u00e3o \u00e0 terceira etapa do \u00c9dipo, que guarda uma grande import\u00e2ncia, pois \u201c\u00e9 dela que depende a sa\u00edda do Complexo de \u00c9dipo\u201d (LACAN, 1957\/1958, p. 200).<\/p>\n<p>O terceiro tempo do \u00c9dipo, destacado por Lacan, \u00e9 aquele em que o pai tem que dar provas de possuir o objeto f\u00e1lico, podendo d\u00e1-lo ou recus\u00e1-lo. No caso de Dora ele n\u00e3o o d\u00e1, porque n\u00e3o o tem, isso a mant\u00e9m presa no complexo de \u00c9dipo, incapaz de atravess\u00e1-lo. Seu pai fracassa em fornecer-lhe o dom viril. Como boa hist\u00e9rica, Dora sofre de amor ao pai e segue ligada a ele. O tributo de amor ao pai, facilmente identific\u00e1vel em Dora, impede a hist\u00e9rica de atravessar o \u00c9dipo, deduzindo que o pai pode lhe dar o que lhe falta mantendo o seu ponto de castra\u00e7\u00e3o intacto.<\/p>\n<p>A Sra. K \u00e9, na medida em que \u00e9 o desejo do pai, o objeto de desejo de Dora. Mas seu pai \u00e9 impotente, e \u201dseu desejo pela Sra. K \u00e9 um desejo barrado\u201d (LACAN, 1957\/1958, P380). Assim tem-se um desejo que n\u00e3o se satisfaz nem para Dora nem para seu pai. E isso \u00e9 o que mant\u00e9m as coisas equilibradas. Mas, para a manuten\u00e7\u00e3o desse equil\u00edbrio, \u00e9 necess\u00e1rio que Dora encontre um ponto de identifica\u00e7\u00e3o que lhe permita sustentar seu pai em um lugar potente. Nesse caso, o Sr. K \u00e9 que funciona como o outro imagin\u00e1rio portador das ins\u00edgnias f\u00e1licas necess\u00e1rias \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o de Dora. \u00c9 por interm\u00e9dio dele, \u201c\u00e9 na medida que ela \u00e9 o Sr. K, \u00e9 no ponto imagin\u00e1rio constitu\u00eddo pela personalidade do Sr. K que Dora est\u00e1 ligada ao personagem da Sra. K\u201d (LACAN, 1956-1957, p. 141).<\/p>\n<p>Pelo seu apego homossexual \u00e0 Sra. K, Dora ir\u00e1 se esfor\u00e7ar em dar suporte \u00e0 sua rela\u00e7\u00e3o com seu pai, deixando-se tomar como c\u00famplice. Nota-se a presen\u00e7a das indica\u00e7\u00f5es de Lacan (LACAN, 1956-1957) a respeito da histeria: a hist\u00e9rica ama por procura\u00e7\u00e3o, seu objeto \u00e9 homossexual e ela o aborda por identifica\u00e7\u00e3o a algu\u00e9m do outro sexo.<\/p>\n<p>Em Interven\u00e7\u00e3o sobre a transfer\u00eancia (LACAN, 1951, p. 214-225), Lacan esconde do caso Dora tr\u00eas desenvolvimentos da verdade mediados por tr\u00eas invers\u00f5es dial\u00e9ticas. No primeiro desenvolvimento trazido por Dora a Freud, seu pai e a Sra. K s\u00e3o amantes h\u00e1 anos, e ela \u00e9 oferecida como moeda de troca ao Sr. K. Numa primeira invers\u00e3o dial\u00e9tica, Freud questiona: \u201dQual \u00e9 a sua pr\u00f3pria parte na desordem de que voc\u00ea se queixa?\u201d. Surge um novo desenvolvimento da verdade: a rela\u00e7\u00e3o dos amantes perdura gra\u00e7as \u00e0 sua cumplicidade. Na segunda invers\u00e3o dial\u00e9tica, Freud observa que o ci\u00fame de Dora pelo pai mascara seu interesse pela Sra. K. No terceiro desenvolvimento tem-se, assim, o fasc\u00ednio de Dora pela Sra. K, que culminaria na \u00faltima invers\u00e3o dial\u00e9tica, em que a Sra. K \u00e9 aquela quem guardaria a chave do mist\u00e9rio sobre a feminilidade. \u00c9 ela quem pode responder \u00e0 Dora a quest\u00e3o fundamental de toda hist\u00e9rica: o que \u00e9 ser uma mulher?<\/p>\n<p>Retomando o matema da fantasia na histeria, temos aqui um outro modo de l\u00ea-lo: do lado esquerdo, ter\u00edamos a identifica\u00e7\u00e3o viril de Dora ao Sr. K, que recobre sua castra\u00e7\u00e3o para, atrav\u00e9s dessa posi\u00e7\u00e3o, poder fazer a pergunta \u00e0 Sra. K, que encarna o outro sem barra e poderia, desse modo, responder a pergunta sobre A mulher.<\/p>\n<p>Essa interroga\u00e7\u00e3o primordial, \u201dO que \u00e9 ser uma mulher?\u201d, pode ser tomada como algo que define a histeria. \u00c9 isso que interessa saber \u00e0 hist\u00e9rica. A despeito de toda a querel\u00e2ncia em que um sujeito hist\u00e9rico pode incidir, de toda a sorte de queixumes t\u00edpicos da insatisfa\u00e7\u00e3o hist\u00e9rica que, para preservar seu desejo, mant\u00e9m a falta recusando-se \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o, a queixa fundamental na histeria refere-se \u00e0 falta de identidade, falta de um significante que possa definir o seu ser. Essa \u00e9, ent\u00e3o, a quest\u00e3o crucial endere\u00e7ada ao Outro, no caso de Dora, representado pela Sra. K. Esse endere\u00e7amento ao Outro de uma quest\u00e3o sobre o feminino \u00e9 descrito tamb\u00e9m atrav\u00e9s do discurso hist\u00e9rico.<\/p>\n<p>No semin\u00e1rio 17, Lacan nos oferece uma nova leitura da histeria, calcada na l\u00f3gica discursiva. Institui o discurso hist\u00e9rico como um dos quatro modos de se estabelecer la\u00e7o social, arranjando os elementos significantes, o sujeito e o gozo da seguinte forma:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 280px;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/images\/almanaque-anteriores\/almanaque-17\/152.jpg\" alt=\"\" width=\"133\" height=\"87\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na parte superior do discurso da histeria, tem-se $\u00ae S1. A posi\u00e7\u00e3o dominante desse discurso \u00e9 ocupada pelo sujeito barrado, muito bem representado na histeria, sujeito dividido por excel\u00eancia, que evidencia sua divis\u00e3o atrav\u00e9s de seus enigmas. Quem ocupa o lugar do outro \u00e9 um S1, somente a um mestre sua pergunta poderia ser confiada. Na parte inferior do matema, sob o sujeito barrado, o que aparece em posi\u00e7\u00e3o de verdade \u00e9 o objeto a, causa de desejo, como aquilo que o sujeito desconhece ao se endere\u00e7ar ao mestre interrogando-o em busca de um S2. O saber instalado no lugar da produ\u00e7\u00e3o deve responder a quest\u00e3o sobre o que \u00e9 uma mulher para, de posse dele, poder sustentar a rela\u00e7\u00e3o sexual. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, esse \u00e9 o saber que a hist\u00e9rica espera ver produzido, e, para Lacan (LACAN, 1969-1970, p. 98), \u00e9 a\u00ed que reside o m\u00e9rito desse discurso, por manter de p\u00e9 em sua estrutura a pergunta sobre a rela\u00e7\u00e3o sexual. Por\u00e9m, o S2 que o mestre produz \u00e9, por estrutura, insuficiente para lhe dizer sobre o seu gozo de mulher, pois n\u00e3o h\u00e1 o significante que possa definir o que \u00e9 uma mulher.<\/p>\n<p>Ao eleger algu\u00e9m para ocupar esse lugar S1 e endere\u00e7ar-lhe sua quest\u00e3o, pressupondo que este pode produzir um saber a seu respeito, ela se aliena ao mestre deixando-se definir pelos sentidos vindos dele. A hist\u00e9rica interessa-se tanto por um mestre, esfor\u00e7a-se tanto por sustent\u00e1-lo que, como nos diz Lacan, \u00e9 preciso indagar se n\u00e3o foi ela quem o inventou. Por\u00e9m, \u00e9 preciso que esse mestre tenha seus limites. \u00c9 o que se v\u00ea na ambiguidade hist\u00e9rica, que est\u00e1 sempre colocando o senhor em cheque e destituindo-o.<\/p>\n<p><em>Ela quer um mestre. Ela quer que o outro seja um mestre, que saiba muitas e muitas coisas, mas mesmo assim, que n\u00e3o saiba demais, para que n\u00e3o acredite que ela \u00e9 o pr\u00eamio m\u00e1ximo de todo o seu saber. Em outras palavras, quer um mestre sobre o qual ela reine. Ela reina, e ele n\u00e3o governa (LACAN, 1969-1970, pg. 136).<\/em><\/p>\n<p>Se por um lado o sujeito hist\u00e9rico se endere\u00e7a a um mestre, supondo-lhe uma pot\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao saber, por outro ele aliena-se do mestre, resistindo a ser dividido pelo S1, ao recusar que seu corpo obede\u00e7a a ele. \u00c9 pela via do corpo que escapa a aliena\u00e7\u00e3o ao mestre: isso que Freud chamava de complac\u00eancia som\u00e1tica, Lacan nomeou por recusa do corpo na histeria.<\/p>\n<p>No caso Dora, a impot\u00eancia de seu pai perpassa toda a trama e ainda assim \u00e9 no lugar do senhor que ele vai estar para ela, levando Lacan (LACAN, 1969-1970, p. 100) a reafirmar a constitui\u00e7\u00e3o do pai por avalia\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. Por mais moribundo que possa estar, h\u00e1 uma \u201dpot\u00eancia de cria\u00e7\u00e3o\u201d implicada na palavra pai que faz com que ele desempenhe \u201desse papel-mestre no discurso da hist\u00e9rica\u201d. O pai colocado no lugar de S1, puro significante, \u00e9 dotado de uma pot\u00eancia criadora sobre o real do seu gozo, sob a forma de um saber. Assim, na fantasia de que o pai \u00e9 potente para fornecer-lhe o significante da rela\u00e7\u00e3o sexual, ela o salva. Salvar o pai comporta, conforme Alvarenga (ALVARENGA, p. 19), o paradoxo de conferir a ele uma pot\u00eancia para, a seguir, jog\u00e1-lo na impot\u00eancia, pois o saber que produz ser\u00e1 sempre insuficiente para responder-lhe sobre o papel da mulher na rela\u00e7\u00e3o sexual, deixando o pr\u00f3prio sujeito hist\u00e9rico na impot\u00eancia. Mas isso n\u00e3o faz com que Dora desista de se dirigir ao mestre, pelo contr\u00e1rio: condena-a a insistir na quest\u00e3o. Fato que se observa muitas vezes na cl\u00ednica sob a forma de uma demanda infinita ao pai ou a qualquer outro que venha a ocupar esse lugar de S1.<\/p>\n<p>Uma sa\u00edda seria atrav\u00e9s do que Lacan chamou, ainda no Semin\u00e1rio XVII, de \u201dterceiro homem\u201d. Que a hist\u00e9rica possa se endere\u00e7ar a um terceiro homem, que assim \u00e9 chamado por ter o \u00f3rg\u00e3o, e que possa permitir dividir-se por ele, deixando-se tomar por objeto de seu gozo. \u00c9 aquele que conjuga o ideal do pai universal abstrato com o desejo particular de um homem concreto (ALVARENGA, p. 20). O Sr. K conv\u00e9m a Dora como terceiro homem, por estar claro desde muito cedo, quando ele lhe assedia, ser possuidor do \u00f3rg\u00e3o. Mas Dora n\u00e3o se interessa por fazer do seu atributo f\u00e1lico meio de gozo, por \u201dfazer dele sua felicidade\u201d (LACAN, 1969-1970, p. 100). Quando o Sr. K diz \u00e0 Dora: \u201dMinha mulher n\u00e3o \u00e9 nada pra mim. (\u2026) nesse momento o gozo do Outro se oferece ela, e ela n\u00e3o o quer, porque o que quer \u00e9 o saber como meio de gozo\u2026\u201d (LACAN, 1969-1970, pg. 101). Assim, pode-se dizer que o Sr. K n\u00e3o cumpre sua fun\u00e7\u00e3o de terceiro homem para Dora, uma vez que ela n\u00e3o se deixa interpelar por ele, n\u00e3o consente como desejo dele.<\/p>\n<p>Seguindo o caso Dora, atrav\u00e9s do matema da fantasia e do discurso hist\u00e9rico, em busca das estrat\u00e9gias de defesa na histeria, v\u00ea-se que sua pergunta fundamental, \u201dO que \u00e9 uma mulher?\u201d, \u00e9 sua paradoxal defesa. Insistir na quest\u00e3o, apostando que outro tem a reposta, \u00e9 seguir acreditando que A mulher existe. Ao escamotear \u00e0 castra\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s do seu enigma, ela n\u00e3o bascula para a posi\u00e7\u00e3o feminina, que sup\u00f5e que o sujeito possa se orientar pela l\u00f3gica do n\u00e3o-todo, consentindo com algo da castra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Bilbliografia<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>ALVARENGA, E. \u201cVariedades do sintoma, unicidade do tipo cl\u00ednico\u201d, Correio. EBP, n. 58, p. 13-22.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1905). Fragmentos da an\u00e1lise de um caso de histeria. In: Obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1989, vol. VII, p. 12-115.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1951). Interven\u00e7\u00e3o sobre a transfer\u00eancia. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1951. pp. 214-225.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1956-57). O Semin\u00e1rio. Livro 4: A rela\u00e7\u00e3o de objeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1995.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1969-70). O Semin\u00e1rio. Livro 5: As forma\u00e7\u00f5es do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1969-70). O Semin\u00e1rio. Livro 8: A transfer\u00eancia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1969-70). O Semin\u00e1rio. Livro 17: O avesso da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Germana Pimenta Bonfioli.<\/strong><\/h6>\n<h6>Analista praticante. Psic\u00f3loga da rede de sa\u00fade mental de Mariana\/MG. Email :\u00a0<span id=\"cloak8adbdb7929225c886f7ae34193544324\"><a href=\"mailto:germanabonfioli@hotmail.com\">germanabonfioli@hotmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GERMANA PIMENTA BONFIOLI &nbsp; As estruturas cl\u00ednicas \u2013 neurose, psicose e pervers\u00e3o \u2013 s\u00e3o decorrentes de tr\u00eas modos distintos de defesa contra a castra\u00e7\u00e3o. Na neurose, o modo em quest\u00e3o \u00e9 o recalque. Forma de nega\u00e7\u00e3o da castra\u00e7\u00e3o no Outro, que sup\u00f5e o atravessamento do \u00c9dipo e a consequente inscri\u00e7\u00e3o do Nome do Pai. 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