{"id":771,"date":"2015-07-17T06:56:21","date_gmt":"2015-07-17T09:56:21","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=771"},"modified":"2025-12-01T16:51:03","modified_gmt":"2025-12-01T19:51:03","slug":"bons-roles-e-tudo-o-que-for-bom-a-gente-nao-quer-so-comida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2015\/07\/17\/bons-roles-e-tudo-o-que-for-bom-a-gente-nao-quer-so-comida\/","title":{"rendered":"\u201cBons Rol\u00eas E Tudo O Que For Bom\u201d: A Gente N\u00e3o Quer S\u00f3 Comida"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<h6 class=\"uk-margin-medium-top\" style=\"padding-left: 40px;\"><\/h6>\n<h6><strong>RAQUEL GUIMAR\u00c3ES E VIRGINIA CARVALHO<\/strong><\/h6>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/14-600x403-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"600\" data-large_image_height=\"403\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-772\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/14-600x403-1.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"403\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/14-600x403-1.jpg 600w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/14-600x403-1-300x202.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>\u00c9DER OLIVEIRA<\/strong><\/p>\n<p>\u201cA favela pede paz, mas a guerra nunca vai acabar\u2026\u201d, enuncia Juca, que vivencia em seu territ\u00f3rio um intenso e mort\u00edfero conflito que n\u00e3o cessa desde 2013. Trata-se de uma tens\u00e3o entre dois grupos do tr\u00e1fico, Bahia e Barriga, que se tornaram rivais por disputas que os integrantes n\u00e3o conseguem precisar o in\u00edcio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Juca faz parte do Bahia, grupo constitu\u00eddo por jovens de 15 a 20 anos que agem de modo impulsivo e violento, sem demonstrar c\u00e1lculo em suas a\u00e7\u00f5es que, em geral, s\u00e3o direcionadas ao outro grupo. Esses jovens vinham realizando frequentes enfrentamentos \u00e0 gangue do Barriga. Para tanto, iam ao territ\u00f3rio inimigo, com armas em punho, amea\u00e7ando e convocando para o confronto. Em seguida, corriam para seu territ\u00f3rio aguardando o ataque rival.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cEstamos marcados para morrer\u201d: o encontro fortuito com a morte<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma proposta de trabalho com a gangue do Bahia se colocou a partir da perturba\u00e7\u00e3o que experimentaram esses jovens diante da not\u00edcia de que um de seus colegas havia contra\u00eddo o v\u00edrus HIV. Tal diagn\u00f3stico se deu no momento em que o jovem foi ferido e hospitalizado ap\u00f3s uma troca de tiros. Frente a esse diagn\u00f3stico, os jovens do Bahia se agitaram receando tamb\u00e9m ter o v\u00edrus, em fun\u00e7\u00e3o das parceiras em comum, e anunciaram: \u201cSe a gente tamb\u00e9m tiver contaminado, vamos botar pra quebrar, j\u00e1 que estamos marcados pra morrer\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A morte, presentificada no conflito que eles nomeiam \u201cguerra\u201d, n\u00e3o era quest\u00e3o para o grupo at\u00e9 o momento. Mas a not\u00edcia de que um dos integrantes havia contra\u00eddo um v\u00edrus que poderia mat\u00e1-lo traz para a cena o medo de morrer. A partir disso, tem-se o convite para a conversa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Segundo Ana Lydia Santiago (2011, p. 97),<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>a conversa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma pr\u00e1tica da palavra para tratar as manifesta\u00e7\u00f5es indesejadas que produzem insucessos e fracassos. Busca-se uma muta\u00e7\u00e3o do falar livremente sobre os problemas. O ponto de partida para as conversa\u00e7\u00f5es \u00e9 \u201co que n\u00e3o vai bem\u201d, formulado por meio das queixas. A aposta da conversa\u00e7\u00e3o \u00e9 passar da queixa \u2013 que paralisa a a\u00e7\u00e3o [..] e produz identifica\u00e7\u00f5es indesej\u00e1veis [\u2026] \u2013 a um outro uso da palavra em que a queixa toma a forma de uma quest\u00e3o e a quest\u00e3o, a forma de uma resposta: inven\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para tanto, a primeira pergunta, colocada aos jovens pela enfermeira, foi: \u201cO que lhes tira o sono?\u201d. Respondem dizendo da guerra, da pol\u00edcia e dos \u201calem\u00e3o\u201d. Juca anuncia seu medo de que os irm\u00e3os e outros colegas morram por causa da guerra: \u201cpoucos da minha \u00e9poca est\u00e3o vivos hoje, a maioria ou morreu, ou est\u00e1 presa\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os efeitos do primeiro encontro foram observados por um dos jovens, que disse que, ap\u00f3s o encontro, s\u00f3 coisas boas aconteceram, sem mais troca de tiros entre os grupos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A partir disso, um segundo momento \u00e9 proposto. Frente \u00e0 oferta da palavra, a demanda que surge dos adolescentes \u00e9 a de que ali se falasse sobre o direito ao lazer, sobre o que a cidade oferece para eles se divertirem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Atividades circenses realizadas por jovens abriram o terceiro encontro. Na conversa\u00e7\u00e3o, em que foi lan\u00e7ada a pergunta sobre o que seria divers\u00e3o para eles, algumas falas se destacaram: \u201cEles s\u00e3o bons de circo e n\u00f3s somos bons de tiro. Se levar eles l\u00e1 para fora, iremos dar aula de tiro\u201d; \u201cA erva (maconha) e as mulheres trazem tranquilidade; com a erva e as meninas n\u00f3s ficamos suave\u201d; \u201c\u00c9 necess\u00e1rio ter pol\u00edcia para controlar, a pol\u00edcia \u00e9 quem mant\u00e9m o controle\u201d. Um dos jovens disse que a pol\u00edcia evita uma guerra maior: \u201cA pol\u00edcia vem pra nos controlar, sem eles aqui todos v\u00e3o andar armados, vai ter gente andando de bazuca\u201d, e completa: \u201cSe n\u00e3o fosse a pol\u00edcia, a favela n\u00e3o existiria\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Considerando que o primeiro instante da conversa\u00e7\u00e3o \u00e9 o de nomea\u00e7\u00e3o das queixas, localizou-se que o grupo se queixava de n\u00e3o saber como se divertir e que a \u201cguerra\u201d lhes tirava o sono. Nas falas, os jovens indicaram a adrenalina de se ter uma arma na m\u00e3o, de fugir da pol\u00edcia, de atacar o grupo rival. Falaram da identifica\u00e7\u00e3o com a \u201cquebrada\u201d e do modo como circulam e se apropriam das ruas e becos, geralmente a partir de delimita\u00e7\u00f5es no territ\u00f3rio que a rivalidade com o outro grupo imp\u00f5e.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cA gente n\u00e3o fica tranquilo depois de matar\u201d: o mal-estar da \u201cguerra\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Um novo encontro e a apresenta\u00e7\u00e3o da \u201cquebrada\u201d fizeram-se importantes. Falaram sobre a viol\u00eancia gerada pela guerra e tamb\u00e9m sobre o impacto do conflito nas fam\u00edlias, na comunidade e em suas vidas. Ao desenharem sua \u201cquebrada\u201d, duas frases se escrevem: \u201cPaz na favela\u201d e \u201cA guerra nunca acaba\u201d. Afirmaram que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil estar em guerra, ter que matar o outro, mesmo sendo rivais. Localizam que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 adrenalina e divers\u00e3o e que est\u00e3o permanentemente sobre tens\u00e3o, com medo de serem surpreendidos pelo grupo rival e perderem suas vidas. Desvela-se um mal-estar na conversa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 encerrada com a fala dos jovens de que n\u00e3o tem como a guerra acabar, pois isso est\u00e1 para al\u00e9m deles.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Anunciavam, com a ang\u00fastia experimentada por se darem conta do lado mort\u00edfero da \u201cguerra\u201d, uma tentativa de passar da queixa inicial sobre a divers\u00e3o a um questionamento sobre a guerra, em que estivessem inclu\u00eddos. Demandavam divers\u00e3o, mas as conversa\u00e7\u00f5es indicavam um ponto de fixa\u00e7\u00e3o na guerra que parecia dar contorno e sentido \u00e0 vida dos jovens que dela participavam, ofertando um lugar na comunidade e, at\u00e9 mesmo, um modo de vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cMil grau\u201d: prescindir da guerra<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O quinto encontro aconteceu em um lugar fora do territ\u00f3rio, permitindo ao grupo circular por outros espa\u00e7os da cidade que pudessem ofertar divers\u00e3o. Na chegada ao local programado, os jovens se mostraram animados para jogar futebol. Dois deles n\u00e3o jogaram por estarem com o movimento de uma das pernas comprometido por balas alojadas no corpo, demonstrando inc\u00f4modo com a pouca mobilidade. O jogo de futebol foi repleto de provoca\u00e7\u00f5es, mas sem conflitos. Os jovens relataram terem se divertido muito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o jogo, foram em busca de mais divers\u00e3o. Entraram por uma trilha seguindo o caminho que levava \u00e0s quedas d\u2019\u00e1gua. As brincadeiras giraram em torno do cotidiano da guerra. Fizeram muita algazarra correndo e gritando: \u201ccuidado com os alem\u00e3o\u201d; \u201colha a pol\u00edcia\u201d. No retorno \u00e0 quadra, os jovens se reuniram para a conversa\u00e7\u00e3o, ratificando o que os interessava: \u201cqueremos bons rol\u00eas e tudo o que for bom; paz no cora\u00e7\u00e3o e dinheiro\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os acontecimentos da \u201cguerra\u201d atravessaram os encontros. A pol\u00edcia vinha se fazendo mais presente, com muitas pris\u00f5es e apreens\u00f5es de drogas, prejudicando as vendas do tr\u00e1fico. Uma decis\u00e3o foi tomada pelas lideran\u00e7as de ambas as gangues Barriga e Bahia: era preciso p\u00f4r fim \u00e0 guerra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na conversa\u00e7\u00e3o que se sucedeu a essa decis\u00e3o, os jovens solicitaram assistir a um filme escolhido por eles. Durante a exibi\u00e7\u00e3o, se agitaram nos momentos em que era retratada a guerra entre duas gangues do Rio de Janeiro. A cena final do filme mostra o momento em que um dos personagens decide n\u00e3o dar continuidade aos confrontos, selando um acordo de paz com o rival. Os jovens se mostraram revoltados, dizendo n\u00e3o concordar com tal atitude do personagem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o encontro, v\u00e3o ao baile funk do bairro vizinho com armas e coletes \u00e0 prova de balas, sugerindo uma rivalidade com o grupo que organizava o evento. Foram expulsos do baile pelas lideran\u00e7as da gangue do local.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esse epis\u00f3dio coloca em quest\u00e3o o movimento do grupo, que parecia insistir na guerra, indicando que ela tinha fun\u00e7\u00e3o, servindo como engrenagem que regula a rela\u00e7\u00e3o com a comunidade, com os outros jovens. O que indicam eles ao se lan\u00e7arem na guerra ao mesmo tempo em que demandam divers\u00e3o?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A oferta da palavra a esses jovens nas conversa\u00e7\u00f5es colocou-se no sentido de que eles localizassem a tens\u00e3o e o medo provocados pelo conflito das gangues. O ponto de partida desse trabalho foi a ang\u00fastia do grupo frente ao real da morte que irrompe, n\u00e3o da \u201cguerra\u201d, mas do HIV contra\u00eddo por um dos integrantes. Nesse sentido, as interven\u00e7\u00f5es, nos encontros, visavam a marcar um estranhamento \u00e0 banaliza\u00e7\u00e3o da \u201cguerra\u201d. Os efeitos puderam ser recolhidos somente a posteriori, com o cessar fogo e com a necessidade de que algo se reconfigurasse no modo como eles vinham se movimentando na vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As conversa\u00e7\u00f5es puderam ser conclu\u00eddas com uma solicita\u00e7\u00e3o feita pelos jovens. Pediram a organiza\u00e7\u00e3o de uma partida de futebol contra os integrantes do grupo do Barriga. O jogo contou com um n\u00famero significativo de jovens de ambas as gangues em uma calorosa disputa. Sa\u00edram dizendo que havia sido \u201cmil grau\u201d, muito bom. Atualmente pedem que outras partidas aconte\u00e7am. A guerra cessou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cEles s\u00e3o bons de circo, a gente \u00e9 bom de tiro\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na carta a Einstein, Freud (1932\/1996) se dedica a trabalhar a quest\u00e3o \u201cPor que a guerra?\u201d, indicando, para tanto, que o desejo de aderir \u00e0 guerra \u00e9 efeito da puls\u00e3o de morte, impulso destrutivo que se apresenta no campo lim\u00edtrofe entre o ps\u00edquico e o som\u00e1tico, demandando satisfa\u00e7\u00e3o. A guerra, segundo o Freud de \u201cReflex\u00f5es para os tempos de guerra e morte\u201d, de 1915, altera a rela\u00e7\u00e3o dos homens para com a morte. Ela passa a n\u00e3o ser mais \u201cum acontecimento fortuito\u201d (p. 301), pois \u201co ac\u00famulo de mortes p\u00f5e um termo \u00e0 impress\u00e3o de acaso\u201d (p. 301).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Faria (2013) lembra que, no Brasil, morrem mais jovens por ano nas guerras entre gangues do que nos pa\u00edses em guerra. Segundo sua pesquisa, esses jovens, em um momento v\u00edtimas e, em outro, agressores, s\u00e3o \u201clevados pelo tr\u00e1fico, pela conquista de territ\u00f3rio [\u2026], pelo prest\u00edgio, pela menina\u201d (p. 12). Para ela, \u201co t\u00eanue limite que separa os `jovens da esquina\u2019 ou as \u2018galeras\u2019 das \u2018gangues\u2019 se desfaz frente \u00e0 amea\u00e7a de um terceiro, algu\u00e9m da comunidade, uma turma de bairro vizinho e, em especial, a pol\u00edcia\u201d (p. 21). Nesses momentos de enfrentamento e amea\u00e7as, quando o sentimento de grupo se refor\u00e7a, emergem as gangues: \u201cO que, de in\u00edcio, era apenas turma, acaba se tornando grupo de conflito, com seus primeiros l\u00edderes e suas pr\u00f3prias regras de conviv\u00eancia\u201d (p. 21).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas teriam as \u201cguerras\u201d entre gangues o mesmo estatuto que o das guerras entre os pa\u00edses? Se, nestas \u00faltimas, \u00e9 poss\u00edvel identificar uma inscri\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, essa outra \u201cguerra\u201d, feita pelos jovens, apresenta muito mais uma vertente de gozo, pela via da transgress\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Freud (1915\/1996) sustentava para Einstein que lutar contra a guerra seria contrapor \u00e0 puls\u00e3o de morte seu antagonista, Eros. Ou seja, favorecer o estreitamento dos la\u00e7os sociais atuaria contra a guerra. Para ele, o amor e a identifica\u00e7\u00e3o seriam duas maneiras de promover tal estreitamento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Miller (2015), ao comentar sobre a participa\u00e7\u00e3o dos adolescentes no Estado Isl\u00e2mico, nos lembra que, para Lacan, as identifica\u00e7\u00f5es s\u00e3o determinadas pelo desejo do Outro, mas n\u00e3o satisfazem a puls\u00e3o. Perguntando-se sobre o motivo pelo qual as cenas de decapita\u00e7\u00e3o dissipadas pelo Estado Isl\u00e2mico atrairia tantos recrutas, Miller interroga se n\u00e3o seria essa uma tentativa de uma nova alian\u00e7a entre identifica\u00e7\u00e3o e puls\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No relato do confronto entre Bahia e Barriga, chama aten\u00e7\u00e3o, mais do que as quest\u00f5es pr\u00f3prias da \u201cguerra\u201d, o modo jocoso como os jovens do Bahia se colocavam nela. A ideia da morte em fun\u00e7\u00e3o dos conflitos entre as gangues era certa e esperada, fora do acaso, como indica Freud, ao descrever a situa\u00e7\u00e3o de guerra entre os pa\u00edses. No entanto, o diagn\u00f3stico do HIV coloca em cena a conting\u00eancia e a necessidade de um rearranjo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se inicialmente os Bahia respondem, como grupo, pela vertente do \u201csomos bons de tiro\u201d, a dificuldade que revelam e pela qual pedem ajuda \u00e9 a de fazerem parte do \u201ccirco\u201d. Esses jovens, em seu \u201cdespertar dos sonhos\u201d (Lacan, 1974\/2003), querem se divertir, mas n\u00e3o sabem como faz\u00ea-lo. Conversando sobre a guerra, percebem que ela n\u00e3o \u00e9 divertida, \u00e9 mort\u00edfera. E pedem aux\u00edlio para encontrar na cidade lugares em que possam fazer \u201cbons rol\u00eas\u201d e encontrar \u201ctudo mais que for bom\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No jogo de futebol proposto por eles, os jovens do Bahia parecem ter encontrado um novo lugar para recolocar suas \u201carmas\u201d f\u00e1licas. Consentem com o fim da guerra depois do jogo, que deu lugar \u00e0s provoca\u00e7\u00f5es, fazendo borda ao conflito. Para Freud,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>algu\u00e9m que est\u00e1 crescendo deixa de brincar, renunciando claramente ao ganho de prazer que a brincadeira lhe trazia. Mas quem conhece a vida ps\u00edquica das pessoas sabe que nada \u00e9 mais dif\u00edcil do que renunciar a um prazer que um dia foi conhecido. No fundo, n\u00e3o poder\u00edamos renunciar a nada, apenas trocamos uma coisa por outra; o que parece ser uma ren\u00fancia \u00e9, na verdade, uma forma\u00e7\u00e3o substitutiva ou um suced\u00e2neo (1908\/2015, p. 55).<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em uma conversa\u00e7\u00e3o, lidamos com a demanda do Outro e a do sujeito. Nesse caso, a demanda do Outro era a paz na favela. Considerava-se essa \u201cguerra\u201d como um sintoma. No entanto, dar voz aos jovens que vinham perdendo o sono com a possibilidade de morrerem de outro modo, que n\u00e3o nessa \u201cguerra\u201d, permitiu a localiza\u00e7\u00e3o do impasse deles em rela\u00e7\u00e3o a ela. A dimens\u00e3o mort\u00edfera da \u201cguerra\u201d se apresenta e eles se perguntam sobre como sair dela, dando lugar \u00e0 puls\u00e3o. Foi poss\u00edvel se deslocarem da \u201cguerra da favela\u201d, rumo \u00e0 pergunta sobre como fazer para se divertirem. O jogo de futebol entre as gangues parece ter entrado, nesse caso, como a inven\u00e7\u00e3o in\u00e9dita desses jovens, atrav\u00e9s das conversa\u00e7\u00f5es. N\u00e3o como uma solu\u00e7\u00e3o pret-\u00e0-porter pela via educativa ou sublimat\u00f3ria, mas como recurso para responderem aos impasses experimentados em suas constru\u00e7\u00f5es adolescentes. Ap\u00f3s o jogo, a paz at\u00e9 pode ser mantida na favela, mas n\u00e3o sem dar lugar \u00e0 guerra pulsional de cada um.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>[1] Texto elaborado a partir da conversa\u00e7\u00e3o realizada no Centro Interdisciplinar de Estudos sobre a Crian\u00e7a (CIEN) de Minas Gerais. O tema foi \u201ca favela pede paz, mas a guerra nunca vai acabar: o que fazer com os jovens que enunciam essa frase?\u201d.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>BILBIOGRAFIA<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>FARIA, L. F. Tribos urbanas: os efeitos do abalo do Nome do Pai no contexto da viol\u00eancia juvenil (2013). Tese de doutorado apresentada ao programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Teoria Psicanal\u00edtica da Faculdade de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte: UFMG.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Reflex\u00f5es para os tempos de guerra e morte (1915). In: Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996<\/h6>\n<h6>______. Por que a guerra? (1932) In: Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. XXII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.<\/h6>\n<h6>______. O poeta e o fantasiar (1908). In: Obras Incompletas de Sigmund Freud, Arte, Literatura e os Artistas. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2015.<\/h6>\n<h6>LACAD\u00c9E, P. A passagem ao ato nos adolescentes. In: Asephallus. Revista Eletr\u00f4nica do N\u00facleo Sephora. Volume 2, n\u00famero 4, maio a outubro de 2007.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Pref\u00e1cio a \u201cO despertar da primavera\u201d (1974). In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: JZE, 2003.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. \u201cEm dire\u00e7\u00e3o \u00e0 adolesc\u00eancia\u201d. Interven\u00e7\u00e3o de encerramento da 3\u00aa Jornada do Instituto da Crian\u00e7a. 2015. Dispon\u00edvel em http:\/\/minascomlacan.com.br\/blog\/em-direcao-a-adolescencia. Acesso em 20 mai. 2016.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Raquel Guimar\u00e3es E Virginia Carvalho<\/strong><\/h6>\n<h6>Raquel Guimar\u00e3es Lara. Psicanalista, graduada em psicologia pela PUC-Minas, especialista em Psican\u00e1lise pela Universidade FUMEC. Atua com pol\u00edticas p\u00fablicas de preven\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia e criminalidade. E-mail:\u00a0<span id=\"cloak49d3adc993bda98e538a411f1cddd2fb\"><a href=\"mailto:raquelguima@yahoo.com.br\">raquelguima@yahoo.com.br<\/a><\/span>\u00a0&#8211; Virginia Carvalho. Psicanalista, coordenadora do CIEN Minas, doutoranda e mestre em Estudos Psicanal\u00edticos pela UFMG, especialista em Psicologia Cl\u00ednica pela PUC-MG. Professora do curso de Psicologia da Educa\u00e7\u00e3o da PUC-MG e integrante do N\u00facleo Interdisciplinar de Pesquisa em Psican\u00e1lise e Educa\u00e7\u00e3o (FAE\/UFMG). E-mail:\u00a0<span id=\"cloakc49254f211b2ec923f3ec3476ea06f6d\"><a href=\"mailto:vivscarvalho@yahoo.com.br\">vivscarvalho@yahoo.com.br.<\/a><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>RAQUEL GUIMAR\u00c3ES E VIRGINIA CARVALHO \u00c9DER OLIVEIRA \u201cA favela pede paz, mas a guerra nunca vai acabar\u2026\u201d, enuncia Juca, que vivencia em seu territ\u00f3rio um intenso e mort\u00edfero conflito que n\u00e3o cessa desde 2013. 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