{"id":781,"date":"2015-07-17T06:56:21","date_gmt":"2015-07-17T09:56:21","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=781"},"modified":"2015-07-17T06:56:21","modified_gmt":"2015-07-17T09:56:21","slug":"adolescencia-o-que-e","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2015\/07\/17\/adolescencia-o-que-e\/","title":{"rendered":"Adolesc\u00eancia, O Que \u00c9?"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<p><strong>ROBERTO ASSIS FERREIRA<\/strong><\/p>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/12-600x391-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"600\" data-large_image_height=\"391\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-782\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/12-600x391-1.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"391\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/12-600x391-1.jpg 600w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/12-600x391-1-300x196.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>NICOLETTA CECCOLI. AUTO-RETRATO.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Adolesc\u00eancia, o que \u00e9? foi o t\u00edtulo que me foi sugerido. Tenho como proposta falar para aqueles que atendem no campo da sa\u00fade mas entendem que a psican\u00e1lise pode trazer contribui\u00e7\u00f5es importantes \u00e0 sua pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sinto-me \u00e0 vontade em trazer alguma coisa do campo da psican\u00e1lise para a medicina. A medicina sempre pescou em outros campos do conhecimento, como exemplos: a causalidade infecciosa de diversas doen\u00e7as \u2013 uma contribui\u00e7\u00e3o de Pasteur, que era um bi\u00f3logo; a gen\u00e9tica de Mendel, este era um monge e bot\u00e2nico; a farmacologia de Pauling, e por a\u00ed afora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Voltando ao tema, vamos come\u00e7ar com a adolesc\u00eancia e a puberdade. Esses s\u00e3o conceitos diferentes, v\u00eam de \u00e1reas diferentes do conhecimento, e distingui-los clareou bastante minha pr\u00e1tica. O conceito de puberdade vem da biologia, da medicina, corresponde a um momento do desenvolvimento do organismo humano, quando acontecem transforma\u00e7\u00f5es muito intensas, sobretudo no corpo. Freud (1901-1905) fala em metamorfoses da puberdade. Os processos biol\u00f3gicos da puberdade s\u00e3o universais, mesmo com particularidades, varia\u00e7\u00f5es individuais. H\u00e1 casos de puberdade tardia e precoce, h\u00e1 fen\u00f4menos que caem no campo da patologia. Em s\u00edntese, a puberdade \u00e9 um conjunto de transforma\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e hormonais que marcam o fim da inf\u00e2ncia. N\u00e3o vou aprofundar essa quest\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>J\u00e1 o conceito de adolesc\u00eancia tem v\u00e1rias compreens\u00f5es. O que se chama adolesc\u00eancia desperta o interesse das ci\u00eancias humanas e sociais: da antropologia, da sociologia, da psicologia e da pr\u00f3pria psican\u00e1lise. Para alguns, \u00e9 uma fase do desenvolvimento humano, confundindo-se um pouco com o conceito de puberdade. Vamos trabalhar com algumas contribui\u00e7\u00f5es da psican\u00e1lise. Miller (2015), no texto \u201cEm dire\u00e7\u00e3o \u00e0 adolesc\u00eancia\u201d, considera a adolesc\u00eancia uma constru\u00e7\u00e3o. Pode-se falar em constru\u00e7\u00e3o social, com particularidades em diversas culturas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A adolesc\u00eancia \u00e9 um momento de dois grandes chamamentos. H\u00e1 um chamado que vem do corpo, do pr\u00f3prio corpo e do corpo do outro; e um segundo, que vem do campo do Outro, do desejo do Outro. O que esse Outro quer de mim? H\u00e1 uma imagem que vi, n\u00e3o sei se em Lacan: um mosquitinho olhando para um louva-a-deus amea\u00e7ador de boca aberta. O mosquitinho, a merc\u00ea do louva-a-deus, se interroga: o que ele quer de mim? \u00c9 isso a\u00ed, o ser falante se angustia diante do desejo do Outro. Como responder a essa grande boca aberta?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Freud apontava para duas quest\u00f5es nesse momento da puberdade. A primeira, no campo da sexualidade, para a qual o sujeito nunca est\u00e1 preparado. A segunda, a separa\u00e7\u00e3o, ou seja, o descolamento dos pais ou, ainda, falando de forma mais ampla, a separa\u00e7\u00e3o do outro familiar. Essa separa\u00e7\u00e3o s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel se alguma coisa aconteceu no tempo da inf\u00e2ncia, se alguma coisa aconteceu no \u00c9dipo, se houve, como clareou Lacan, a entrada do Nome do Pai.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Alexandre Stevens (2004) entende a adolesc\u00eancia como sintoma da puberdade. Essa \u00e9 uma boa aproxima\u00e7\u00e3o cl\u00ednica: pensar a adolesc\u00eancia como uma resposta \u00e0 irrup\u00e7\u00e3o pubert\u00e1ria. O sujeito, nesse momento, inventa um modo de sobreviv\u00eancia visando a essa dif\u00edcil travessia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Gosto de ilustrar com uma analogia: voc\u00ea est\u00e1 andando de \u00f4nibus, est\u00e1 em p\u00e9, sem lugar para se assentar, \u201cno balan\u00e7o pra l\u00e1 e pra c\u00e1\u201d, \u00e9 preciso se segurar em algo, sen\u00e3o se vai ao ch\u00e3o. Isso chamo de sintoma, um segurador de \u00f4nibus, alguma coisa em que o sujeito se segura para enfrentar as atribula\u00e7\u00f5es da vida. O sintoma, para a psican\u00e1lise, n\u00e3o \u00e9 propriamente sintoma de doen\u00e7a, embora possa ser. N\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno universal nem apenas particular, \u00e9 algo singular, cada um tem sua adolesc\u00eancia como seu sintoma. Portanto, a partir da psicanalise, podemos adotar a compreens\u00e3o de que adolesc\u00eancia, para cada um, \u00e9 singular. \u00c9 alguma coisa que d\u00e1 sustenta\u00e7\u00e3o ao sujeito. A adolesc\u00eancia entendida como sintoma pode dar sustenta\u00e7\u00e3o \u00e0 travessia da inf\u00e2ncia para o mundo adulto, substituindo, em nossa \u00e9poca, os ritos de passagem de outras culturas. Essa \u00e9 uma leitura poss\u00edvel das coisas, o que n\u00e3o impede de haver outras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 adolesc\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Miller (2015), no texto \u201cEm dire\u00e7\u00e3o a adolesc\u00eancia\u201d, provoca e incita o campo freudiano a trabalhar sobre a adolesc\u00eancia. Prop\u00f5e que se trate das quest\u00f5es da atualidade, mas aponta a import\u00e2ncia dos conceitos b\u00e1sicos. N\u00e3o h\u00e1 como aprofundar esse debate sem partir do estudo da pr\u00f3pria crian\u00e7a, sem ir ao que Freud e muitos p\u00f3s-freudianos elaboraram, chegando-se ao que se produz hoje. Est\u00e1 colocado o desafio, principalmente \u00e0queles que se dedicam \u00e0 cl\u00ednica da adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Miller coloca que, para a psican\u00e1lise, h\u00e1 tr\u00eas quest\u00f5es centrais na adolesc\u00eancia. Como primeira, a sa\u00edda da inf\u00e2ncia, momento que vem \u00e0 tona com a puberdade. A\u00ed \u00e9 fundamental ler Freud (1901-1905), em especial seu texto \u201cMetamorfoses da puberdade\u201d, mas tamb\u00e9m estudar fora da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como segunda, um tema bem atual, a diferencia\u00e7\u00e3o sexual. Como essa quest\u00e3o se coloca para o ser falante na inf\u00e2ncia e na adolesc\u00eancia? J\u00e1 n\u00e3o se sabe mais o que \u00e9 ser um homem ou uma mulher. Os semblantes est\u00e3o confusos, as balizas simb\u00f3licas j\u00e1 n\u00e3o d\u00e3o tanta sustenta\u00e7\u00e3o \u00e0 transmiss\u00e3o vertical: o Nome do Pai, o Ideal do eu, as ins\u00edgnias do Outro. Isso leva os jovens na contemporaneidade a construir respostas com seus pr\u00f3prios recursos, usando a transmiss\u00e3o horizontal, a identifica\u00e7\u00e3o com os pares, os modismos, as \u201ccomunidades de gozo\u201d. Essa falta de refer\u00eancia estimula a experimenta\u00e7\u00e3o. Cada um procura, pela pr\u00f3pria experi\u00eancia, o que \u00e9 melhor para ele, o que lhe d\u00e1 mais satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Um par\u00eantesis: a medicina biotecnol\u00f3gica, resultante da alian\u00e7a da ci\u00eancia com o capitalismo, traz grandes avan\u00e7os t\u00e9cnico-cient\u00edficos, mas deixa um resto, que bate \u00e0s portas da medicina. A cl\u00ednica do adolescente \u00e9 precursora dessas manifesta\u00e7\u00f5es, na qual h\u00e1 resist\u00eancia, de cl\u00ednicos e de pediatras, ao atendimento de adolescentes. Pode-se listar formas de adoecer, atua\u00e7\u00f5es de risco, enfim, desafios \u00e0 sa\u00fade: depress\u00e3o, bipolaridade, anorexia, v\u00edcios em inform\u00e1tica, inibi\u00e7\u00f5es sexuais, toxicomania, viol\u00eancia e mortalidade por causas externas, etc., problemas pouco valorizados pela medicina h\u00e1 algumas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como terceira, o que Miller chama de \u201ca imiscui\u00e7\u00e3o do adulto na crian\u00e7a\u201d, a\u00ed est\u00e1 em discuss\u00e3o o que ele chama, sem gostar da express\u00e3o, de \u201cdesenvolvimento da personalidade\u201d, no qual se articulam conceitos como o eu ideal e o Ideal do eu, nesse momento p\u00fabere em que o narcisismo se reconfigura. Miller (1999), em outro lugar, comentando o Semin\u00e1rio 5 e referindo-se ao terceiro tempo do \u00c9dipo, faz diferencia\u00e7\u00e3o entre Supereu e Ideal do eu, duas fun\u00e7\u00f5es que t\u00eam sido confundidas na psican\u00e1lise. Afirma que o Supereu suporta fun\u00e7\u00f5es de proibi\u00e7\u00e3o, por outro lado,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>o Ideal do eu exerce sua fun\u00e7\u00e3o sobre o desejo e a normatividade sexual. Lacan diz: tipifica\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma fun\u00e7\u00e3o que coloca o sujeito sobre o eixo do que deve fazer como homem ou como mulher. Todas as perguntas sobre a identifica\u00e7\u00e3o feminina ou viril s\u00e3o quest\u00f5es que, na teoria psicanal\u00edtica, giram em torno do Ideal do eu, no\u00e7\u00e3o que Lacan teve prontamente como leitor de Freud (MILLER, 1999, p. 75).<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Adolesc\u00eancia, um momento especial de encontro com o real.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Costuma-se colocar a adolesc\u00eancia como um momento de despertar. H\u00e1 uma famosa pe\u00e7a teatral de Wedekind, do fim do s\u00e9c. XIX, \u201cO Despertar da Primavera\u201d, que foi comentada por Freud e Lacan. A pe\u00e7a conta a hist\u00f3ria de jovens que viveram esses chamamentos da puberdade, a viv\u00eancia da sexualidade numa \u00e9poca de grande repress\u00e3o sexual. Desenrola-se uma trag\u00e9dia: um jovem se suicida, uma garota engravida e morre ao provocar aborto, outro rapaz \u00e9 salvo do chamado ao suic\u00eddio por um avatar do pai \u2013 \u201cum cavaleiro mascarado\u201d. Nesse momento especial da puberdade, o que leva ao despertar \u00e9 o que na psican\u00e1lise lacaniana se chama de Real, um encontro com o real. Um encontro com real pode levar o sujeito a mudar de dire\u00e7\u00e3o: construir um sintoma; fazer uma passagem ao ato, como um suic\u00eddio; desencadear uma psicose\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que seria esse real que leva o sujeito a despertar? O Real n\u00e3o pode propriamente ser definido, mas \u00e9 poss\u00edvel tentar passar dele alguma compreens\u00e3o. O Real como \u201cencontro faltoso\u201d, um encontro com a falta, como est\u00e1 no semin\u00e1rio 11; \u201ccomo imposs\u00edvel\u201d, imposs\u00edvel de suportar; como \u201cencontro traum\u00e1tico\u201d, aquilo que n\u00e3o tem sentido, aquilo que escapa \u00e0 simboliza\u00e7\u00e3o, enfim, um encontro com o que desencadeia a ang\u00fastia: aquilo que n\u00e3o engana!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em algum momento, contingencial ou n\u00e3o, h\u00e1 encontro com o Real. Em especial na adolesc\u00eancia, o simb\u00f3lico que se constr\u00f3i na inf\u00e2ncia, muitas vezes n\u00e3o \u00e9 capaz de dar conta das situa\u00e7\u00f5es enfrentadas, constituindo-se respostas sintom\u00e1ticas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>No mundo contempor\u00e2neo: qual a resposta \u00e0 invas\u00e3o pubert\u00e1ria?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na contemporaneidade, a adolesc\u00eancia tem car\u00e1ter cada vez mais particular, de fam\u00edlia, de \u00e9poca, de camada social, de grupos sociais. H\u00e1 tend\u00eancia a um alongamento da adolesc\u00eancia tanto para baixo, quando meninos e meninas de nove anos se portam como adolescentes, quanto para cima, quando rapazes de 26 a 30 anos ainda se comportam como adolescentes \u2013 ainda est\u00e3o estudando, morando com os pais, sem defini\u00e7\u00e3o de uma profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma dimens\u00e3o fundamental de nossa \u00e9poca \u00e9 o decl\u00ednio da ordem simb\u00f3lica, ou seja, o decl\u00ednio do Nome do Pai. Como consequ\u00eancia, pode-se falar do hedonismo contempor\u00e2neo. Vive-se em uma sociedade de grande insatisfa\u00e7\u00e3o, na qual h\u00e1 a ilus\u00e3o hedonista de um gozo ilimitado, levando \u00e0 busca cont\u00ednua de objetos de consumo, gadgets de toda ordem lan\u00e7ados continuamente no mercado. Jacques-Alain Miller criou a express\u00e3o I &lt; a (Ideais &lt; objetos).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Miller (2015), no texto j\u00e1 comentado \u2013 \u201cEm dire\u00e7\u00e3o \u00e0 adolesc\u00eancia\u201d \u2013, aponta para o que h\u00e1 de novo na adolesc\u00eancia e ressalta quest\u00f5es que v\u00eam sendo estudadas por nossos colegas analistas. Entre elas, a referida procrastina\u00e7\u00e3o da adolesc\u00eancia, como esse tempo de separa\u00e7\u00e3o dos pais e do la\u00e7o familiar vem se alongando. Isso \u00e9 comum nas camadas m\u00e9dias mais abastadas, nas quais predominam fam\u00edlias pequenas e greg\u00e1rias, associando-se \u00e0s dificuldades de inser\u00e7\u00e3o no mercado, dificultando ocupar um lugar no mundo do trabalho. Em outro aspecto, h\u00e1 uma nova rela\u00e7\u00e3o com o saber: este j\u00e1 \u00e9 n\u00e3o \u00e9 mais propriedade dos adultos, est\u00e1 facilmente acess\u00edvel, a transmiss\u00e3o j\u00e1 \u00e9 n\u00e3o t\u00e3o vertical pelos pais e pelos professores, que serviam de modelos. Os modelos est\u00e3o nos pr\u00f3prios pares. Vive-se tamb\u00e9m uma realidade imoral, degradada, banalizada, at\u00e9 certo ponto amoral. Por outro lado, pode-se falar em socializa\u00e7\u00e3o dos sintomas, em modismos sintom\u00e1ticos, em \u201ccomunidades\u201d de gozo. Miller aponta para diversas consequ\u00eancias das muta\u00e7\u00f5es da ordem simb\u00f3licas, como o decl\u00ednio do patriarcado, a destitui\u00e7\u00e3o das tradi\u00e7\u00f5es e o d\u00e9ficit do respeito \u2013 \u201crespeitar e ser respeitado\u201d. Por fim, alerta para um fen\u00f4meno que cresce na pr\u00f3pria Europa e se antep\u00f5e ao discurso da ci\u00eancia, uma outra tradi\u00e7\u00e3o: o Isl\u00e3.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Cl\u00ednica da recusa: uma caracter\u00edstica da adolesc\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 uma particularidade de import\u00e2ncia na condu\u00e7\u00e3o do tratamento de adolescentes. Pode-se falar de recusa ou de recha\u00e7o ao tratamento. Essa \u00e9 uma quest\u00e3o central no trabalho cl\u00ednico com as anor\u00e9xicas. Isso est\u00e1 nas anor\u00e9xicas, mas tamb\u00e9m est\u00e1 nos adolescentes. O adolescente, na maioria das vezes, n\u00e3o tem demanda pr\u00f3pria. \u00c0s vezes h\u00e1 motiva\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas: febre, dor no est\u00f4mago, cefaleia, a puberdade que ainda n\u00e3o come\u00e7ou. Querem tratar disso e pronto!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Acontece que as preocupa\u00e7\u00f5es dos pais podem ser de outra ordem. Estes usam essas queixas, que permitem ao adolescente ir ao m\u00e9dico para que sejam abordadas outras quest\u00f5es. \u00c9 preciso entender que essa \u00e9 uma caracter\u00edstica dessa cl\u00ednica. N\u00e3o h\u00e1 demanda pois n\u00e3o h\u00e1 transfer\u00eancia pr\u00e9via, o adolescente n\u00e3o sup\u00f5e no Outro um saber sobre suas quest\u00f5es. Claro que o adolescente pode \u201cser transferido\u201d com o profissional com quem trata desde a inf\u00e2ncia, mas \u00e9 uma transfer\u00eancia constitu\u00edda de outra ordem. O que n\u00e3o indica sempre que essa transfer\u00eancia permita uma abordagem no campo espec\u00edfico da adolesc\u00eancia. Alguma manobra vai ser necess\u00e1ria ao profissional, \u00e9 preciso algum manejo para que se constitua espa\u00e7o para as quest\u00f5es pr\u00f3prias da adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dependendo das quest\u00f5es, elas podem ser abordadas pelo pr\u00f3prio profissional, outras devem ser referenciadas a outro, como a um analista ou a um psic\u00f3logo. Em geral, n\u00e3o d\u00e1 bons resultados receitar inicialmente um psic\u00f3logo; h\u00e1 resist\u00eancias. Antes, \u00e9 preciso permitir que a subjetividade do sujeito venha \u00e0 tona, que algo surja nesse campo. Essa \u00e9 minha experi\u00eancia. E, para que alguma coisa surja da subjetividade, de queixas subjetivas, \u00e9 preciso uma pitada de escuta, abrir uma pequena janela de escuta, como tem insistido a prof.\u00aa Cristiane de Freitas Cunha (2014).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 uma nomea\u00e7\u00e3o que aprendi, \u00e9 um instrumento. Por exemplo: um m\u00e9dico, para permitir ao adolescente se deslocar ao trabalho de suas quest\u00f5es com outro profissional e abordar aquelas que realmente est\u00e3o perturbando a sua vida e a da sua fam\u00edlia, tem que se colocar no lugar de um \u201cm\u00e9dico passador\u201d (MILLER, 2012, p. 98). Algu\u00e9m que permita a passagem de um campo ao outro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 o que se aprende no trabalho com as anor\u00e9xicas e com os adolescentes. O m\u00e9dico sabe que o paciente tem anorexia, mas, para permitir a entrada de um analista, de um profissional ligado \u00e0s quest\u00f5es que est\u00e3o ali incutidas, tem que estar disposto a escutar, possibilitar que a subjetividade do paciente apare\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Concluindo, a cl\u00ednica do adolescente \u00e9 uma cl\u00ednica da recusa, na qual n\u00e3o h\u00e1 demanda pr\u00f3pria para tratamento das quest\u00f5es subjetivas. Mesmo quando h\u00e1 algum la\u00e7o transferencial, este pode se romper. O que compete a n\u00f3s? Escutar o adolescente e talvez ir um pouco al\u00e9m, ajud\u00e1-lo a encontrar um lugar de endere\u00e7amento para seu sofrimento. Essa \u00e9 uma tarefa que se coloca para cada profissional da \u00e1rea da sa\u00fade, mesmo para aqueles que n\u00e3o v\u00e3o assumir a condu\u00e7\u00e3o do trabalho psicoter\u00e1pico ou psicanal\u00edtico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"uk-margin-medium-top\"><strong>A inscri\u00e7\u00e3o e a n\u00e3o inscri\u00e7\u00e3o no campo do Outro<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ainda um \u00faltimo aspecto! Um grande desafio \u00e0 adolesc\u00eancia: como conquistar um lugar no campo do Outro? A quest\u00e3o do sujeito \u201cse inscrever\u201d ou \u201cn\u00e3o se inscrever\u201d no campo do Outro. Hugo Freda (1996), no artigo \u201cO adolescente freudiano\u201d, aborda esse tema em um texto muito rico e delicado. \u00c9 uma quest\u00e3o muito cl\u00ednica, pois muitos adolescentes n\u00e3o conseguem sair da adolesc\u00eancia e ficam perdidos na vida. Por n\u00e3o encontrar esse lugar, n\u00e3o foram capazes de se inscrever nesse campo do Outro. Alguns desses jovens at\u00e9 constru\u00edram ideais, tinham expectativas, mas fracassaram e n\u00e3o conseguem fazer a virada, ou seja, retificar suas expectativas, se reescrever no campo do Outro, fazer novas amarra\u00e7\u00f5es. Hugo Freda entende a adolesc\u00eancia como esse momento em que se buscam e se constroem os caminhos para a inscri\u00e7\u00e3o no campo do Outro. Ele cita Freud como um exemplo bem-sucedido. Ele queria trazer uma contribui\u00e7\u00e3o ao saber humano e trouxe. Cita outros exemplos bem-sucedidos e alerta que se pode repertoriar sintomas e comportamentos diante da impossibilidade da inscri\u00e7\u00e3o: o suic\u00eddio, a toxicomania, os viciados em jogos, delinquentes e, enfim, formas bizarras de inscri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por fim, uma palavra aos profissionais que se dedicam \u00e0 adolesc\u00eancia: feliz do jovem que, em dificuldades, encontra uma refer\u00eancia confi\u00e1vel no mundo adulto, um avatar do pai, \u201cum cavaleiro mascarado\u201d, uma refer\u00eancia capaz de dizer sim, de escut\u00e1-lo e ajud\u00e1-lo a construir uma dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o devemos esquecer que a adolesc\u00eancia \u00e9 um per\u00edodo de trabalho, de desafios, de incertezas, de sintomas sociais, mas tamb\u00e9m \u00e9 um dos momentos mais belos da vida, merecendo ser vivida intensamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>[1] Semin\u00e1rio de abertura sobre adolesc\u00eancia do NIPPM \u2013 1\u00ba semestre de 2016. Texto gravado e transcrito por Bianca Ferreira Rocha, reformulado pelo expositor.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>BIBLIOGRAFIA<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>CUNHA, C.F. A janela da escuta. Belo Horizonte: Scriptum, 2014.<\/h6>\n<h6>FREDA, H. O adolescente freudiano. In: Adolesc\u00eancia: o despertar\/Kalimeros, EBP: Rio de Janeiro, Heloisa Caldas e Vera Pollo (Orgs) 1996.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Tr\u00eas ensaios sobre a teoria da sexualidade: transforma\u00e7\u00f5es da puberdade (1905), In: Um caso de histeria, tr\u00eas ensaios sobre a teoria da sexualidade e outros trabalhos (1901-1905). Rio de Janeiro: Imago, 2006 (Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira da Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud, v.7).<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. \u201cEm dire\u00e7\u00e3o \u00e0 adolesc\u00eancia\u201d. Interven\u00e7\u00e3o de encerramento da 3\u00aa Jornada do Instituto da Crian\u00e7a. 2015. Dispon\u00edvel em http:\/\/minascomlacan.com.br\/blog\/em-direcao-a-adolescencia.<\/h6>\n<h6>______. Perspectivas do Semin\u00e1rio 5 de Lacan: As forma\u00e7\u00f5es do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1999.<\/h6>\n<h6>______. Embrollos del cuerpo. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2012.<\/h6>\n<h6>\u00a0STEVENS, A. Adolesc\u00eancia como sintoma da puberdade. Cl\u00ednica do contempor\u00e2neo. Curinga, Belo Horizonte, n.20, p.27-39, 2004.<\/h6>\n<h6>WEDEKIND, B. F. O despertar da primavera. Lisboa: Ed. Estampa, 1991.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Roberto Assis Ferreira<\/strong><\/h6>\n<h6>Roberto Assis Ferreira. M\u00e9dico, Analista praticante, Doutor em Medicina, Prof. Em\u00e9rito da UFMG, Membro EBP\/AMP.\u00a0<span id=\"cloak22911bdb97cdfdf867aa212ef9924963\"><a href=\"mailto:robassisf@gmail.com\">robassisf@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ROBERTO ASSIS FERREIRA &nbsp; NICOLETTA CECCOLI. 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