{"id":784,"date":"2015-07-17T06:56:21","date_gmt":"2015-07-17T09:56:21","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=784"},"modified":"2025-12-01T16:52:17","modified_gmt":"2025-12-01T19:52:17","slug":"o-real-da-puberdade-e-a-saida-da-infancia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2015\/07\/17\/o-real-da-puberdade-e-a-saida-da-infancia\/","title":{"rendered":"O Real Da Puberdade E A Sa\u00edda Da Inf\u00e2ncia"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>MARGARET PIRES DO COUTO<\/strong><\/h6>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/11-600x501-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"600\" data-large_image_height=\"501\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-785\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/11-600x501-1.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"501\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/11-600x501-1.jpg 600w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/11-600x501-1-300x251.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><\/p>\n<h6><strong>FREDERICO BANDEIRA<\/strong><\/h6>\n<p>Freud examina a puberdade no \u00faltimo dos Tr\u00eas ensaios, dando \u00eanfase \u00e0s metamorfoses que ela comporta. \u00c9 a entrada na puberdade que anuncia o fim da inf\u00e2ncia, e, nesse contexto, Miller (2015) prop\u00f5e que pensemos menos numa l\u00f3gica evolutiva e mais numa topologia do corte. O novo emerge e agita esse corpo, que \u00e9 desalojado da imagem ideal at\u00e9 ent\u00e3o sustentada, exigindo um novo arranjo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A experi\u00eancia da psican\u00e1lise visa ent\u00e3o a investigar esse momento e a permitir ao adolescente encontrar uma solu\u00e7\u00e3o para esse novo que o agita.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que seria esse real respons\u00e1vel pela metamorfose da puberdade? Como os jovens t\u00eam se arranjado com o novo que os acomete? Como a quest\u00e3o do sexo se inscreve para os jovens hoje diante de uma cultura que prop\u00f5e n\u00e3o mais falar em diferen\u00e7a sexual? Como esse novo se inscreve e perturba o corpo? Quais arranjos esse falasser encontrar\u00e1 para inscrever esse corpo no discurso e na cultura?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>1) O real da puberdade: o encontro com um gozo dif\u00edcil de nomear<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O real em jogo nas transforma\u00e7\u00f5es do corpo, caracter\u00edstico da puberdade, n\u00e3o pode ser reduzido a um real org\u00e2nico. O que se chama empuxo hormonal n\u00e3o deve ser entendido como um fen\u00f4meno exclusivamente f\u00edsico, mas como um fen\u00f4meno de corpo. Corpo esse tomado por um gozo estrangeiro, n\u00e3o significantizado pela palavra e, por isso, experimentado como um gozo fora do corpo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A irrup\u00e7\u00e3o de gozo constitui a emerg\u00eancia de alguma coisa diante da qual as palavras falham. Na puberdade, o sujeito depara-se com essa parte de desconhecido, em face da qual as palavras desfalecem, a ponto de se chocarem com um imposs\u00edvel de dizer, agitando tanto os corpos como o pensamento e tornando dif\u00edcil sua tradu\u00e7\u00e3o em palavras (LACADE\u00c9, 2011, p. 74).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O surgimento desse novo produz o que Lacan chamou de uma falha de saber no real. O que significa isso? Para os animais, o instinto \u00e9 um saber no real que faz com que n\u00e3o haja nenhum problema quanto \u00e0 rela\u00e7\u00e3o sexual. Para o ser falante, esse saber no real n\u00e3o existe. Macho e f\u00eamea n\u00e3o sabem o que fazer juntos e precisam da interven\u00e7\u00e3o do Outro, da palavra do Outro, do discurso. Privado da solu\u00e7\u00e3o animal do instinto, mas embara\u00e7ado com a puls\u00e3o em raz\u00e3o de sua inser\u00e7\u00e3o na linguagem, o sujeito, por raz\u00f5es de estrutura, encontra esse buraco, esse vazio na rela\u00e7\u00e3o entre um homem e uma mulher. Trata-se, portanto, do encontro com a n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual e da inexist\u00eancia de saber no real quanto ao sexo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O encontro com esse real, com esse gozo, traz consequ\u00eancias perturbadoras para a rela\u00e7\u00e3o desse sujeito com o pr\u00f3prio corpo, com a imagem, com a l\u00edngua, e pode levar tanto ao despertar quanto ao ex\u00edlio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O despertar do real da sexualidade, em vez de viabilizar a rela\u00e7\u00e3o sexual, como se poderia esperar, pode suscitar o gozo das fantasias que afastam tal possibilidade. O despertar dos sonhos que os meninos adolescentes v\u00e3o ter que enfrentar \u00e9 malsucedido. No lugar de se relacionar com o Outro, ele se exila ainda mais em sua solid\u00e3o (LACAD\u00c9E, 2011, p. 75).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esse sentimento do despertar e do ex\u00edlio do adolescente, que se articula com o encontro sexual, desterritorializa o sujeito de sua inf\u00e2ncia e antecipa a separa\u00e7\u00e3o de sua fam\u00edlia, de sua casa e de seus pais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A queda dos semblantes paternos e das identifica\u00e7\u00f5es f\u00e1licas<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Freud, em seu texto \u201cAlgumas reflex\u00f5es sobre a psicologia do escolar\u201d (1914), apresenta a tarefa mais essencial do adolescente: separar-se da autoridade de seus pais como o desligamento de seu primeiro ideal. Freud afirma: \u201cTudo que h\u00e1 de admir\u00e1vel, e de indesej\u00e1vel na nova gera\u00e7\u00e3o \u00e9 determinado por esse desligamento do pai\u201d (1914, p. 288). Desligar-se do pai implica um trabalho de separa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica que, por sua vez, n\u00e3o deve ser entendido, como assinala Hugo Freda (1996), como \u201cfazer sem o pai\u201d. Sem pai, n\u00e3o h\u00e1 desligamento. O desligamento desse primeiro ideal permitir\u00e1 ao adolescente encontrar outros modos de inscri\u00e7\u00e3o na cultura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A identifica\u00e7\u00e3o constitu\u00edda como ideal do eu, produzida na sa\u00edda do \u00c9dipo, faz tra\u00e7o e serve de base para que o sujeito se veja digno \u201cde ser amado, e at\u00e9 am\u00e1vel\u201d, permitindo-lhe ter uma ideia de si e orientar sua exist\u00eancia. O ideal do eu \u00e9 o vetor sobre o qual a identifica\u00e7\u00e3o constituinte se apoia. O ideal do eu equivale ao ponto de basta que estabiliza o sentimento de vida, que d\u00e1 ao sujeito seu lugar no Outro (LACAD\u00c9E, 2011, p. 22).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com a chegada do real da puberdade, o sujeito se v\u00ea privado da l\u00edngua de sua inf\u00e2ncia, que sustentava a identifica\u00e7\u00e3o constituinte de seu ser e o sentimento de vida. Esse ponto de apoio vacila e o sujeito se confronta com algo que, ao fazer \u201cfuro no real\u201d, o reenvia a um vazio. H\u00e1, portanto, certo despeda\u00e7amento do imagin\u00e1rio com o surgimento desse real. Do lado da identifica\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, o sujeito precisar\u00e1 operar uma separa\u00e7\u00e3o das figuras de seus pais e modular de outra forma seus ideais, de outra forma que n\u00e3o seja a modula\u00e7\u00e3o pela simples identifica\u00e7\u00e3o paterna.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Desse modo, para que o adolescente avance para al\u00e9m da cerca simb\u00f3lica da fam\u00edlia, para que se abra para o mundo e afronte o in\u00e9dito, ele precisar\u00e1 se servir dos tra\u00e7os e das experi\u00eancias infantis \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o, que servir\u00e3o de ferramentas nessa trilha (FOCCHI, 2009).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A adolesc\u00eancia \u00e9, assim, essa delicada transi\u00e7\u00e3o em que todo sujeito se encontra ao se separar do Outro. \u00c9 o momento em que se separa do significante mestre ideal, quando \u00e9 o caso, que at\u00e9 ent\u00e3o lhe serviu de sustenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em seu texto \u201cContribui\u00e7\u00f5es para discuss\u00e3o acerca do suic\u00eddio (1910)\u201d, tamb\u00e9m interessante para pensar as quest\u00f5es dos adolescentes, Freud ressalta que esse \u00e9 o momento da vida em que h\u00e1 o afrouxamento dos la\u00e7os familiares, e, por isso, trata-se de momento oportuno para atos em que o sujeito se coloca em risco. Freud acusa a escola de n\u00e3o cumprir, nesse momento, uma fun\u00e7\u00e3o que lhe caberia: \u201cn\u00e3o impelir os jovens ao suic\u00eddio\u201d (FREUD, 1910, p. 217). A escola, como substituta da fam\u00edlia, poderia enla\u00e7ar o jovem com a vida por meio da oferta de um saber que fosse transmitido mediante um desejo vivo, ancorado pelos educadores. O adolescente poderia encontrar ancoragens identificat\u00f3rias no espa\u00e7o escolar, que lhe serviriam de b\u00fassola nesse momento dif\u00edcil da exist\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Damasia Freda, em El adolescente actual (2015), ressalta que, na aus\u00eancia do ideal regulador, encontramos como sintoma contempor\u00e2neo entre os adolescentes a desorienta\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, \u00e9 preciso que o tratamento anal\u00edtico permita ao jovem encontrar algo, algum significante que possa servir de orientador na exist\u00eancia. Em seu livro, a autora cita a pesquisa que ficou conhecida como os \u201cNem-Nem\u201d, tamb\u00e9m realizada no Brasil pela Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas. Em 2013, a referida Funda\u00e7\u00e3o divulgou um dado alarmante: o Brasil tem hoje 1,5 milh\u00e3o de jovens com idade entre 19 e 24 anos sem trabalho e fora da escola. Em face da desorienta\u00e7\u00e3o promovida pelo decl\u00ednio do ideal, os jovens aderem, com frequ\u00eancia, a discursos tanto religiosos como pol\u00edticos de car\u00e1ter totalit\u00e1rio, sem nenhuma dial\u00e9tica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A mesma autora, ao citar os trabalhos de H\u00e9l\u00e8ne Deltombe, aponta que a adolesc\u00eancia se converte em uma etapa em que cada um busca seus apoios \u2013 sobretudo por meio de seus semelhantes \u2013 em identifica\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas que fundam modos de vida. Os sintomas podem se articular ao la\u00e7o social e se converter em epidemias, tais como o alcoolismo, a toxicomania e a delinqu\u00eancia, acentuando seu tra\u00e7o de recha\u00e7o ao Outro. Trata-se de grupos em que se apaga a alteridade e que, ao permanecerem numa identifica\u00e7\u00e3o horizontal, ganham uma consist\u00eancia imagin\u00e1ria, que conduz \u00e0 segrega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>2) Corpo e sexua\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O encontro com o real da puberdade, com aquilo que faz furo, perturba a viv\u00eancia \u00edntima do corpo e traz inquieta\u00e7\u00f5es. O corpo torna-se o lugar onde se atualizam os problemas da identidade e do gozo indiz\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Algo agita o corpo, e, com frequ\u00eancia, o adolescente percebe as modifica\u00e7\u00f5es de seu corpo como sendo outro corpo. O enlace da imagem do corpo com o corpo pulsional, que at\u00e9 ent\u00e3o sustentava o corpo simb\u00f3lico da crian\u00e7a, se modifica. O corpo tomado como semblante f\u00e1lico, ou seja, como substituto do que falta \u00e0 mulher e como equivalente do desejo do Outro, se encontra perturbado pela irrup\u00e7\u00e3o do gozo, fazendo com que o adolescente perca o suporte imagin\u00e1rio. Opera-se ent\u00e3o uma desconex\u00e3o entre seu ser de crian\u00e7a e seu ser de homem ou de mulher, que tinha sido constitu\u00eddo a partir do espelho do Outro, do desejo desse Outro. Lacad\u00e9e (2011) sugere a no\u00e7\u00e3o do surgimento de uma mancha negra no campo dessa imagem, mancha essa que muito angustia o sujeito. Podem surgir, nesses momentos, os fen\u00f4menos mais diversos, como despersonaliza\u00e7\u00e3o, sensa\u00e7\u00f5es de falta de limite, err\u00e2ncias e produ\u00e7\u00f5es de marcas no corpo, que visam a limitar e a localizar o gozo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A aus\u00eancia de uma resposta acabada e conclusiva sobre o seu ser sexuado no simb\u00f3lico ganha, para o adolescente, valor de coloca\u00e7\u00e3o \u00e0 prova em rela\u00e7\u00e3o ao real. Ele precisar\u00e1 agora subjetivar esse novo modo de ser. Os meninos e as meninas j\u00e1 n\u00e3o sabem o que fazer e v\u00e3o procurar encontr\u00e1-lo no discurso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A metamorfose que a puberdade produz \u00e9, assim, uma nova e radical distin\u00e7\u00e3o entre o menino e a menina. At\u00e9 ent\u00e3o, bastava que a distin\u00e7\u00e3o entre eles fosse uma distin\u00e7\u00e3o significante. Agora se trata de como se diferenciar a partir da rela\u00e7\u00e3o com o outro sexo. \u00c9 assim que a diferen\u00e7a menino e menina se extrai da diferen\u00e7a na linguagem e da diferen\u00e7a imagin\u00e1ria igual\/n\u00e3o igual para se transformar numa diferen\u00e7a dif\u00edcil para o sujeito de suportar e de subjetivar. O sexo deixa de ser apenas um fato de semblante, enquanto significante, e encontra o gozo sexual, que se destaca do corpo e se introduz entre os dois sexos. Os dois sexos se diferenciam por sua rela\u00e7\u00e3o com o gozo sexual. Esse gozo fora do corpo \u00e9 novo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s satisfa\u00e7\u00f5es sexuais da inf\u00e2ncia, ligadas ao corpo e aos objetos pulsionais. Durante a inf\u00e2ncia, os semblantes entre os sexos est\u00e3o sustentados e regulados pela autoridade dos pais. Mas, na puberdade, o real, esse novo que invade, rompe com essa dimens\u00e3o do semblante, e o sujeito ter\u00e1 que se virar com isso (ROY, 2009).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O significante f\u00e1lico \u00e9 aquele que poder\u00e1 operar no inconsciente como regulador do gozo, distribuindo o gozo de acordo com a diferen\u00e7a dos sexos. Falar de sexua\u00e7\u00e3o \u00e9, de alguma maneira, assumir inscrever-se de acordo com o significante f\u00e1lico. A sexua\u00e7\u00e3o depender\u00e1 do encontro do corpo com o significante f\u00e1lico que opera a significantiza\u00e7\u00e3o tanto da diferen\u00e7a sexual como do gozo, que o parasita e o agita (BRODSKY, 2003).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quando esse significante f\u00e1lico est\u00e1 ausente ou opera de forma muito prec\u00e1ria, quais s\u00e3o as consequ\u00eancias para o campo da sexua\u00e7\u00e3o? De que tipo de artif\u00edcio o sujeito poder\u00e1 lan\u00e7ar m\u00e3o na constru\u00e7\u00e3o das identidades sexuais? Qual \u00e9 o efeito hoje do apagamento da exce\u00e7\u00e3o e da diferen\u00e7a \u2013 presente na m\u00e1xima do \u201ctodos iguais\u201d, inclusive dentro da pol\u00edtica de igualdade g\u00eaneros \u2013 para a sexua\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Algumas respostas contempor\u00e2neas dos adolescentes ao real da puberdade<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A adolesc\u00eancia \u00e9 um dos momentos em que mais do que nunca a n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual reaparece para o sujeito. Ao encontrar-se com a inexist\u00eancia do Outro, o adolescente produzir\u00e1 sua resposta sintom\u00e1tica. Trata-se, por conseguinte, de um arranjo particular com o qual ele organizar\u00e1 sua exist\u00eancia, sua rela\u00e7\u00e3o com o mundo e sua rela\u00e7\u00e3o com o gozo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Stevens (2013) enumera uma s\u00e9rie de poss\u00edveis respostas, por ele nomeadas intom\u00e1ticas, que os adolescentes podem construir diante do real da puberdade. S\u00e3o respostas com o saber: quando eles se tornam apaixonados pela pesquisa e esse saber sobre o mundo torna-se um substituto da falta de saber sobre o sexual. Respostas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s identifica\u00e7\u00f5es: os sujeitos inventam identifica\u00e7\u00f5es imagin\u00e1rias ou simb\u00f3licas, fundamento dos grupos de adolescentes. E uma terceira s\u00e9rie de respostas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 fantasia que falha: os atos, sejam as passagens ao ato, sejam os acting-out. Quando falha o sintoma e surge o real sem borda, temos os atos como resposta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em todas essas respostas est\u00e1 em jogo o Outro, s\u00e3o respostas que jogam com o Outro. Na contemporaneidade, temos outra l\u00f3gica: dispensar o Outro, sem dele se servir. N\u00e3o se trata, como afirma Stevens (2013), do pai como sintoma, mas, cada vez mais, da dificuldade de responder com o pai, na medida em que h\u00e1 um decl\u00ednio da fun\u00e7\u00e3o paterna. Quais seriam os efeitos disso sobre a adolesc\u00eancia?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para Miller (2015), \u00e9 sobre os adolescentes que se fazem sentir, com maior intensidade, os efeitos da ordem simb\u00f3lica em muta\u00e7\u00e3o. A principal muta\u00e7\u00e3o diz respeito ao decl\u00ednio da fun\u00e7\u00e3o paterna, que se degradou. Os registros tradicionais que ensinavam como ser um homem ou uma mulher n\u00e3o existem mais. A transmiss\u00e3o do saber e as maneiras de fazer escapam \u00e0 voz do pai.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Outro efeito dessa muta\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica destacado por Miller se d\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o ao saber. Miller o nomeia autoer\u00f3tica do saber. Segundo ele, a incid\u00eancia do mundo virtual faz com que o saber, antes depositado nos adultos, ou seja, no Outro, esteja agora no bolso, facilmente dispon\u00edvel, dispensando a media\u00e7\u00e3o desse Outro. Antes, o saber era um objeto que se precisava buscar no Outro, era preciso extra\u00ed-lo do Outro, o que necessitava uma rela\u00e7\u00e3o com o desejo desse Outro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na rela\u00e7\u00e3o com o corpo, tamb\u00e9m encontramos solu\u00e7\u00f5es que revelam a presen\u00e7a do opaco e do indiz\u00edvel, presen\u00e7as que resistem \u00e0 subordina\u00e7\u00e3o da palavra e s\u00e3o portadoras de um tumulto pulsional, que pode conduzir ao pior. Por meio do p\u00f4r-se em risco, algo do gozo do corpo pede para ser limitado e regulado por uma marca simb\u00f3lica, uma vez que a ordem da castra\u00e7\u00e3o n\u00e3o opera. Por n\u00e3o receber essa marca do Outro simb\u00f3lico, o adolescente a providencia sozinho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como ensina Lacad\u00e9e (2011), o jovem trata e esfola seu corpo, cuida dele e o maltrata, ama-o e odeia-o com intensidade vari\u00e1vel, ligada \u00e0 sua hist\u00f3ria pessoal e \u00e0 capacidade de seu entorno de lhe oferecer os limites necess\u00e1rios para refrear o gozo. Quando os limites n\u00e3o comparecem, o jovem os busca na superf\u00edcie desse corpo. Ele testa os limites f\u00edsicos, coloc\u00e1-los em jogo para senti-los e apreend\u00ea-los, a fim de que possam conter o sentimento de identidade. Produz \u201cmarcas\u201d corporais, criando uma esp\u00e9cie de nova pele, por meio das tatuagens e piercings, por exemplo, mas que podem chegar a ferimentos corporais deliberados: incis\u00f5es, escarifica\u00e7\u00f5es, etc. Outros podem fazer dos objetos mais diversos, inclusive os tecnol\u00f3gicos, uma extens\u00e3o do pr\u00f3prio corpo e utiliz\u00e1-los como modos de amarra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os adolescentes contempor\u00e2neos se apresentam frequentemente sob o signo do excesso. A demanda do Outro \u00e9 recebida como um imperativo tir\u00e2nico, e, por outro lado, os produtos de consumo encontram-se na l\u00f3gica da adi\u00e7\u00e3o (ROY, 2009). Eles ficam submetidos a uma ordem de ferro e s\u00e3o levados a escolher um modo de gozo que evite a quest\u00e3o sexual, um gozo-fora-do-sexo. A toxicomonia e tamb\u00e9m a anorexia-bulimia jogam com o consumo, com o vazio e com o pleno, mas ambas envolvem um gozo autista, ou seja, que pode ser obtido sozinho, sem o Outro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Finalizo com uma indica\u00e7\u00e3o que extraio do texto de Hugo Freda (1996): se a passagem da inf\u00e2ncia \u00e0 adolesc\u00eancia desaloja o sujeito de sua l\u00edngua e de seu corpo infantil, \u00e9 preciso ent\u00e3o que ele possa encontrar novos modos de inscri\u00e7\u00e3o no mundo e de re-constitui\u00e7\u00e3o de seu Outro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>BIBLIOGRAFIA<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>BRODSKY, G. \u201cA escolha do sexo\u201d. In: Clique. O sexo e seus furos, n.1. Belo Horizonte: IPSM-MG, 2003, p. 30-35.<\/h6>\n<h6>FREDA, H. \u201cO adolescente freudiano\u201d. In: RIBEIRO, H. C. e POLLO, V. (Orgs.). Adolesc\u00eancia. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 1996, p. 21-30.<\/h6>\n<h6>FREDA, D. A. El adolescente actual. Nociones clinicas. San Mart\u00edn: UNSAM, Fundaci\u00f3n CIPAC, 2015.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1905\/1990). \u201cAs transforma\u00e7\u00f5es da puberdade\u201d. In: Tr\u00eas ensaios sobre a teoria da sexualidade (Obras completas de Sigmund Freud). Rio de Janeiro: Imago, vol. VII.<\/h6>\n<h6>______. (1910\/1990) \u201cContribui\u00e7\u00f5es para uma discuss\u00e3o acerca do suic\u00eddio\u201d. In: Obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, vol. XI, p.217-218.<\/h6>\n<h6>\u00a0______. (1914\/1990) \u201cAlgumas reflex\u00f5es sobre a psicologia do escolar\u201d. In: Idem. Rio de Janeiro: Imago, vol. XIII, p. 281-288<\/h6>\n<h6>FOCCHI, M. \u201cA adolesc\u00eancia como abertura do poss\u00edvel\u201d. In: Mental, n\u00ba. 23. Quel avenir pour l\u2019adolescence?, Paris, diffusion Seiul, dezembro de 2009, p. 29-40.<\/h6>\n<h6>LACAD\u00c9E, P. O despertar e o ex\u00edlio. Ensinamentos psicanal\u00edticos da mais delicada das transi\u00e7\u00f5es, a adolesc\u00eancia. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2011.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cPref\u00e1cio a O despertar da primavera\u201d. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 557-559.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. \u201cEm dire\u00e7\u00e3o \u00e0 adolesc\u00eancia\u201d. Interven\u00e7\u00e3o de encerramento da 3\u00aa Jornada do Instituto da Crian\u00e7a. 2015. Dispon\u00edvel em http:\/\/minascomlacan.com.br\/blog\/em-direcao-a-adolescencia. Acesso em 20 de mai. 2016.<\/h6>\n<h6>______. \u201cPr\u00f3logo para Damasia\u201d. In: El adolescente actual. Nociones clinicas.<\/h6>\n<h6>San Mart\u00edn: UNSAM, Fundaci\u00f3n CIPAC, 2015.<\/h6>\n<h6>ROY, D. \u201cProte\u00e7\u00e3o da adolesc\u00eancia\u201d. In: Mental, n\u00ba. 23. Quel avenir pour l\u2019adolescence?, Paris, diffusion Seiul, dezembro de 2009, p. 51-54.<\/h6>\n<h6>STEVENS, A. \u201cQuando a adolesc\u00eancia se prolonga\u201d. In: Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online, Ano 4, n\u00famero 11, Junho 2013, p. 11-15.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Margaret Pires Do Couto<\/strong><\/h6>\n<h6>Margaret Pires Do Couto. Psicanalista, Membro da Se\u00e7\u00e3o Minas Gerais da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, Doutora em Educa\u00e7\u00e3o pela Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da UFMG.\u00a0<span id=\"cloakaa1b212093ed32f84cef486a233470fa\"><a href=\"mailto:mpcouto@uol.com.br\">mpcouto@uol.com.br<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MARGARET PIRES DO COUTO FREDERICO BANDEIRA Freud examina a puberdade no \u00faltimo dos Tr\u00eas ensaios, dando \u00eanfase \u00e0s metamorfoses que ela comporta. \u00c9 a entrada na puberdade que anuncia o fim da inf\u00e2ncia, e, nesse contexto, Miller (2015) prop\u00f5e que pensemos menos numa l\u00f3gica evolutiva e mais numa topologia do corte. 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