{"id":787,"date":"2015-07-17T06:56:21","date_gmt":"2015-07-17T09:56:21","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=787"},"modified":"2025-12-01T16:52:47","modified_gmt":"2025-12-01T19:52:47","slug":"filiacao-demissao-da-autoridade-desamparo-do-adolescente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2015\/07\/17\/filiacao-demissao-da-autoridade-desamparo-do-adolescente\/","title":{"rendered":"Filia\u00e7\u00e3o: Demiss\u00e3o Da Autoridade, Desamparo Do Adolescente"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>M\u00d5NICA CAMPOS SILVA<\/strong><\/h6>\n<h6><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/10-600x398-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"600\" data-large_image_height=\"398\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-788\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/10-600x398-1.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"398\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/10-600x398-1.jpg 600w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/10-600x398-1-300x199.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><br \/>\n<strong>ATIVIDADE DE CHRISTINA FORNACIARI, \u201cESCULTURAS DE 1 MINUTO\u201d. JOVEM DO PROGRAMA CAPUT<\/strong><\/h6>\n<p>Para al\u00e9m do decl\u00ednio do pai, como deixar de se servir dele? Embora estejamos contemporaneamente diante do enfraquecimento do Nome do Pai, a paternidade continua como uma fun\u00e7\u00e3o reguladora da tirania. Nessa medida, quando utilizamos o termo desfilia\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 de qualquer ruptura que se trata, mas a da filia\u00e7\u00e3o, seja pelas a\u00e7\u00f5es processuais, seja pelo afastamento permeado pela revela\u00e7\u00e3o do fim do afeto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com sua interven\u00e7\u00e3o \u201cEm dire\u00e7\u00e3o \u00e0 adolesc\u00eancia\u201d, Miller (2015) auxilia pensar os efeitos de uma desfilia\u00e7\u00e3o quando aponta que a adolesc\u00eancia \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o. Os recursos ps\u00edquicos necess\u00e1rios para tal constru\u00e7\u00e3o est\u00e3o tamb\u00e9m em como o sujeito nomeia sua fam\u00edlia e em como as fun\u00e7\u00f5es s\u00e3o estabelecidas, bem como no que essa constitui\u00e7\u00e3o regula ou em como faz o empuxo \u00e0 tirania. Assim, ao pensarmos na desfilia\u00e7\u00e3o, do que falamos? De um desenla\u00e7amento, na medida em que o sentido que a fun\u00e7\u00e3o paterna possibilita ao gozo se ofusca, passando a n\u00e3o mais oferecer o apaziguamento, antes regulador.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma breve coloca\u00e7\u00e3o sobre o pai em Freud e Lacan \u00e9 necess\u00e1ria, visando a sustentar o que seriam os efeitos da desfilia\u00e7\u00e3o, ou seja, os efeitos subjetivos da judicializa\u00e7\u00e3o do fim do compromisso parental.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Este tema conduz a duas vertentes para pensar a incid\u00eancia do pai: a subjetiva\u00e7\u00e3o pelo adulto do que \u00e9 ser pai, e, o mais importante, aquela da crian\u00e7a para quem o pai funciona. Dessa maneira, tamb\u00e9m a judicializa\u00e7\u00e3o da paternidade, propriamente dita, leva-nos a uma quest\u00e3o pr\u00f3pria \u00e0 psican\u00e1lise e melhor formalizada por Lacan \u2013 \u201co que \u00e9 ser um pai?\u201d. De in\u00edcio, na psican\u00e1lise, a preponder\u00e2ncia do pai como fun\u00e7\u00e3o interditora relaciona-se \u00e0 \u00e9poca freudiana, a lei da interdi\u00e7\u00e3o do incesto \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o do desejo. N\u00e3o existe \u201cacesso ao sujeito freudiano que n\u00e3o implique o pai como fun\u00e7\u00e3o chave, tanto por sua presen\u00e7a como por sua aus\u00eancia\u201d (FRYD, 2005).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mesmo antes de utilizar a constru\u00e7\u00e3o sobre o complexo de \u00c9dipo, em um artigo de 1906, intitulado \u201cRomance familiar\u201d, Freud demonstra que, para a crian\u00e7a, os pais s\u00e3o fonte de autoridade e conhecimento, o que a faz desejar igualar-se a eles. Em seu crescimento, a crian\u00e7a torna-se cr\u00edtica e constata ser negligenciada em termos de amor pelos pais, ou seja, constr\u00f3i uma fantasia, um mito pr\u00f3prio, que visa a responder sobre de onde vem e qual \u00e9 seu lugar para os pais. O pai entra como suporte das identifica\u00e7\u00f5es com as quais avan\u00e7a o sujeito, sendo tamb\u00e9m quem aponta a m\u00e3e como objeto desej\u00e1vel ao cifr\u00e1-lo com uma proibi\u00e7\u00e3o. Em \u201cA dissolu\u00e7\u00e3o do Complexo de \u00c9dipo\u201d (1924) e em \u201cAlgumas consequ\u00eancias ps\u00edquicas da diferen\u00e7a anat\u00f4mica entre os sexos\u201d (1925), Freud vai atentar para o fato de como a crian\u00e7a, diante de uma gama extensa de possibilidades em suas descobertas, depreende da sua rela\u00e7\u00e3o com o pai, uma orienta\u00e7\u00e3o que regule e ordene o modo como a sexualidade afeta seu corpo e suas rela\u00e7\u00f5es na fam\u00edlia e na sociedade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ao seguirmos a constru\u00e7\u00e3o freudiana sobre o pai notamos que, a partir do momento em que Freud constatou o lugar do pai como o do interdito do incesto na economia ps\u00edquica, este ganha o lugar de alicerce da constru\u00e7\u00e3o tanto do edif\u00edcio social quanto do religioso, ficando estabelecida a concep\u00e7\u00e3o de Lei articulada ao pai. Este \u00faltimo, como uma constru\u00e7\u00e3o m\u00edtica: morto como ser, conservado como significante. Nesse sentido, Freud d\u00e1 ao pai o estatuto de fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para Lacan, o pai \u00e9 o que introduz a castra\u00e7\u00e3o, inicialmente, de um modo simb\u00f3lico, como pai morto, e, posteriormente, como pai vivo, pela via de consequ\u00eancia de seu gozo representando e veiculando o interdito e vetorizando o desejo. Ao longo da obra de Lacan, h\u00e1 modifica\u00e7\u00f5es sobre a no\u00e7\u00e3o de Pai. Partimos de um pai como sustenta\u00e7\u00e3o da ordem simb\u00f3lica, como fundamento do la\u00e7o social reduzido a um s\u00edmbolo at\u00e9 chegarmos \u00e0 sua fun\u00e7\u00e3o de sinthoma, como pai vivo, m\u00faltiplo das \u201cexce\u00e7\u00f5es\u201d, a lei.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em seu semin\u00e1rio 4, A rela\u00e7\u00e3o de Objeto, Lacan nota que<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>se a castra\u00e7\u00e3o merece efetivamente ser isolada por um nome na hist\u00f3ria do sujeito, ela est\u00e1 sempre ligada \u00e0 incid\u00eancia, \u00e0 interven\u00e7\u00e3o, do pai real. Ela pode igualmente ser marcada de uma maneira profunda, e profundamente desequilibrada, pela aus\u00eancia do pai real. Essa atipia quando ocorre, exige ent\u00e3o a substitui\u00e7\u00e3o do pai real por alguma coisa, o que \u00e9 profundamente neurotizante (LACAN, 1995, p.,180).<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ap\u00f3s um salto, no final dos anos 60, em seu semin\u00e1rio De um Outro ao outro (1968-1969\/ 2006), Lacan ratifica que o fato de n\u00e3o se ter certeza de quem \u00e9 o pai \u00e9 que est\u00e1 na ess\u00eancia e na fun\u00e7\u00e3o do Pai como Nome. \u00c9 importante destacar que, nesse semin\u00e1rio, Lacan faz clara alus\u00e3o \u00e0 problematiza\u00e7\u00e3o da entrada da ci\u00eancia no campo da paternidade:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A ess\u00eancia e a fun\u00e7\u00e3o do pai como Nome, como eixo do discurso, decorre precisamente de que afinal, nunca se pode saber quem \u00e9 o pai. [\u2026]. Ali\u00e1s, \u00e9 absolutamente certo que a introdu\u00e7\u00e3o da pesquisa biol\u00f3gica da paternidade n\u00e3o pode, de forma alguma, deixar de ter incid\u00eancia na fun\u00e7\u00e3o do Nome-do-Pai (p. 149-150).<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Embora Lacan j\u00e1 previsse a entrada da ci\u00eancia no campo subjetivo, ele diz de uma incid\u00eancia na fun\u00e7\u00e3o e n\u00e3o de um desmoronamento do Nome-do-Pai. Nesse sentido, Lacan continua servindo-se do pai, enquanto fun\u00e7\u00e3o, mesmo ao pluraliz\u00e1-lo, dando a ele o estatuto de ferramenta da qual o sujeito pode se servir. Lacan marca que \u00e9 por se conservar como \u201csimb\u00f3lico que o Nome-do-Pai \u00e9 o eixo em torno do qual gira todo um campo da subjetividade\u201d (p. 150). Assim, podemos arriscar que, mesmo a ci\u00eancia se apresentando como forma de certifica\u00e7\u00e3o de quem \u00e9 o pai, ele permanece sendo essencialmente um desconhecido, sendo o que n\u00e3o \u00e9 ofertado pela ci\u00eancia e ratificado pela justi\u00e7a, um conhecimento no real.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em O avesso da psican\u00e1lise, Lacan insiste que a quest\u00e3o do pai n\u00e3o pode ser localizada pela ci\u00eancia. Do pai real, que de alguma maneira efetiva a castra\u00e7\u00e3o, a ci\u00eancia n\u00e3o d\u00e1 conta. \u00c9 o ponto de incerteza que exige a nomea\u00e7\u00e3o do pai, sendo a constru\u00e7\u00e3o da realidade ps\u00edquica ligada mais \u00e0 fun\u00e7\u00e3o paterna do que ao biol\u00f3gico. O Nome-do-Pai \u00e9 presente e constitutivo do sujeito como semidito, a falha fazendo parte do Nome-do-Pai.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No final de seu ensino, o Nome-do-Pai deixa de ser a garantia e passa a operar a partir de uma lacuna, sendo o que comportar\u00e1 um lugar para a causa do desejo, para o singular.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A escolha de um gozo e n\u00e3o de outro, daquele que \u00e9 a causa do desejo por uma mulher e n\u00e3o do que est\u00e1 ligado \u00e0 imposi\u00e7\u00e3o da disciplina ou \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o da lei \u00e9 que possibilitar\u00e1 a inscri\u00e7\u00e3o da marca paterna (ZENONI, 2007, p. 20).<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata mais do universal da lei, mas do \u201cum por um\u201d dos sujeitos que se dizem pais, ou seja, da exce\u00e7\u00e3o que qualquer um pode fazer para que a fun\u00e7\u00e3o da exce\u00e7\u00e3o se torne modelo (LACAN, 1975).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Podemos concluir, a partir de Freud e Lacan, que a fun\u00e7\u00e3o do Nome do Pai responde a um uso pr\u00e1tico, podendo-se dela prescindir com a condi\u00e7\u00e3o de dela nos servirmos. Para Phillippe Lacad\u00e9e,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>(\u2026) o pai \u00e9 aquele que permite apreender a rotina que faz coincidir o significante e o significado. Por isso, \u00e9 melhor que uma crian\u00e7a tenha acesso a um homem que lhe permita calcular, sob sua presen\u00e7a, a fun\u00e7\u00e3o essencial para todo o ser humano que \u00e9 a inven\u00e7\u00e3o, uma vez que o pai \u00e9 a inven\u00e7\u00e3o do sujeito (2006, p. 54).<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Entretanto, se \u00e9 no momento da adolesc\u00eancia que o sujeito precisa se descolar da autoridade parental, como fazer quando a sustenta\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para essa transi\u00e7\u00e3o se desfaz? Quando, diante da lei, a refer\u00eancia paterna \u00e9 destitu\u00edda? Quando o operador da fun\u00e7\u00e3o a abandona? Observamos que os endere\u00e7amentos ap\u00f3s a desfilia\u00e7\u00e3o, da ruptura de promessa, ganham cores mais intensas. Os efeitos para esses sujeitos se apresentam mais devastadores, mais ainda na adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 no tribunal de fam\u00edlia que chegam as demandas ao judici\u00e1rio para se abdicar do lugar de pai. Escutar esses casos auxilia na busca por entender por que esse pai, por vezes figura viva, ao se demitir da paternidade, provoca profunda desregula\u00e7\u00e3o. Nessas situa\u00e7\u00f5es, o supereu caprichoso viria ocupar esse lugar da fun\u00e7\u00e3o, transformando-se em tirania para esse sujeito? A pergunta se faz a partir da verifica\u00e7\u00e3o de que, na maioria das vezes, h\u00e1 uma solu\u00e7\u00e3o pela via de um tamponamento, tir\u00e2nico, da quest\u00e3o. H\u00e1 algo na desfilia\u00e7\u00e3o que abala profundamente a rela\u00e7\u00e3o lei\/desejo, tornando a vida exigente (imperiosa), e vemos muitas vezes impotentes, como as senten\u00e7as, medidas de prote\u00e7\u00e3o ou responsabilidade no campo do direito que n\u00e3o restabelecem a ordem e uma orienta\u00e7\u00e3o para a subjetividade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em termos de efeitos subjetivos, notamos produzir nos jovens o que Miller (2015) aponta em seu texto, ou seja, um prolongamento, ou mesmo uma fixa\u00e7\u00e3o da adolesc\u00eancia, como real, que n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever, mas tamb\u00e9m, em alguns casos, diante do inassimil\u00e1vel, produz certa antecipa\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o adulta na crian\u00e7a e no adolescente. Para Lacan, uma das consequ\u00eancias da demiss\u00e3o do pai \u00e9 que o significante serve mais ao gozo do que \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o. Assim, se o nome do pai \u00e9 aquele que tem \u201cas ferramentas necess\u00e1rias \u00e0 bricolagem da vida, ou ao menos que faz seu filho acreditar nisso\u201d (LACAD\u00c9E, 2006, p. 56), por sua vez, a desfilia\u00e7\u00e3o exp\u00f5e o insuport\u00e1vel, \u201dpor ter revelado um buraco na significa\u00e7\u00e3o de seu ser no Campo do Outro (Idem)\u201d. \u00c9 como se a nomea\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica vacilasse, ficando o sujeito \u00e0 deriva de um puro real, irredut\u00edvel ao efeito de sentido. E ainda que o pater incertus est, ao tornar-se pater est, tenha em si a certeza sobre a paternidade, incide sobre a fic\u00e7\u00e3o constru\u00edda pelo sujeito. Dessa forma, na desfilia\u00e7\u00e3o,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>o filho tem acesso direto a um pai que n\u00e3o sustenta mais a fun\u00e7\u00e3o paterna, tornando-se uma pessoa an\u00f4nima, humilhando o filho que disso se envergonha. O pai n\u00e3o est\u00e1 mais ali para velar o objeto real, dando um nome ao real, ao contr\u00e1rio, n\u00e3o h\u00e1 mais ningu\u00e9m para introduzir o filho em uma d\u00edvida simb\u00f3lica devida \u00e0 fun\u00e7\u00e3o do Nome do Pai (Idem).<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A ruptura abrupta de uma hist\u00f3ria constitutiva pode deixar o sujeito, frente a um real, sem recurso. A pr\u00e1tica institucional revela-nos que o efeito de uma destitui\u00e7\u00e3o paterna na subjetividade do sujeito permite, ainda assim, a constru\u00e7\u00e3o de uma sa\u00edda, fazendo uso do pai. Contudo, um mal-estar, um imposs\u00edvel, se coloca, pois se o direito pode instaurar ou desinstaurar a paternidade do ponto de vista legal, na subjetividade, ao contr\u00e1rio, n\u00e3o se pode inscrever ou desinscrever o pai. A legalidade ou a prova pericial podem interferir drasticamente na vida de um sujeito, colocando em teste os recursos que ele articular\u00e1 para encontrar um novo nome, uma nova resposta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica judici\u00e1ria, frente aos casos que nos chegam, podemos perceber que a justi\u00e7a, em certa medida, ao responder as a\u00e7\u00f5es, tenta demonstrar que, mesmo no judici\u00e1rio, campo da lei, \u00e9 preciso passar pelas regras que constituem o mundo humano, bem como por uma transmiss\u00e3o, ou seja, que algo da castra\u00e7\u00e3o, do interdito, esteja presente. Para a psican\u00e1lise, o sujeito \u00e9 constitu\u00eddo a partir do lugar que ocupa na rela\u00e7\u00e3o pai e m\u00e3e. O direito, ao tentar regular aquilo que escapa, vai buscar modos de provar e estabelecer o que s\u00e3o e o que n\u00e3o s\u00e3o pai e m\u00e3e. Isso n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 dif\u00edcil como imposs\u00edvel, localizando nesse ponto a dificuldade para tratar os casos nos quais se demanda, de algum modo, a judicializa\u00e7\u00e3o da parentalidade em geral.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 certo que uma regula\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria e que a fun\u00e7\u00e3o do Estado \u00e9 buscar oferecer o maior ou melhor interesse para a \u201cpessoa em desenvolvimento\u201d, conforme preconiza o ECA, tentando, inclusive, manter a filia\u00e7\u00e3o. Contudo, podemos perceber que o sentenciamento, por si s\u00f3, n\u00e3o regula os sujeitos, e, como consequ\u00eancia, n\u00e3o promove mudan\u00e7as significativas ou efeitos que beneficiem os jovens em quest\u00e3o. Pois \u00e9 a pr\u00f3pria impot\u00eancia do sujeito para lidar com o que se apresenta, bem como para que essa interven\u00e7\u00e3o do outro tenha efeitos, o que est\u00e1 em jogo. O dado externo, ou seja, a senten\u00e7a, n\u00e3o regula o modo como o sujeito responde.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A problem\u00e1tica da filia\u00e7\u00e3o\/desfilia\u00e7\u00e3o lan\u00e7ada no campo do direito alcan\u00e7a a constru\u00e7\u00e3o ficcional realizada pelo sujeito, fazendo-nos buscar entender qual lugar ocupa a fam\u00edlia para o sujeito. Mais al\u00e9m de seu aspecto social e seu percurso hist\u00f3rico, chegando \u00e0 diversidade do que podemos chamar de fam\u00edlia contemporaneamente, consideramos que, do ponto de vista ps\u00edquico, ela \u00e9 a substitui\u00e7\u00e3o do biol\u00f3gico pelo simb\u00f3lico. De outro modo, na psican\u00e1lise, a fam\u00edlia distingue a dimens\u00e3o humana da condi\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica na medida em que a fam\u00edlia \u00e9 o que o sujeito nomeia, enquanto fun\u00e7\u00e3o, como pai e m\u00e3e (LAURENT, 2008). Nesse sentido, n\u00e3o h\u00e1 prova pericial e decis\u00e3o judicial que por si s\u00f3 restitua ou destitua um pai. Uma crian\u00e7a, como o resto do encontro entre a causa de um desejo e um sintoma, \u00e9 marcada por essa equa\u00e7\u00e3o. Ela \u00e9 esse fruto. Assim, os lugares de pai e m\u00e3e s\u00e3o inelimin\u00e1veis, e a marca que deixam \u00e9 o sujeito \u2013 n\u00e3o pode ser suspensa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De tal modo, diante da casu\u00edstica, buscamos apreender em que a presen\u00e7a de um homem, com seu investimento, se associa \u00e0 fun\u00e7\u00e3o paterna e sobre as consequ\u00eancias subjetivas de um desaparecimento abrupto dessa figura, ou seja, quando h\u00e1 uma ruptura dos la\u00e7os e do investimento estabelecidos concretamente. Entretanto, \u00e9 poss\u00edvel antever que o sujeito filho n\u00e3o fica impune; h\u00e1 um abalo em sua cren\u00e7a sobre o semblante, sobre a fic\u00e7\u00e3o que construiu para seu ser a partir da fun\u00e7\u00e3o paterna.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vinhetas pr\u00e1ticas:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma crian\u00e7a \u00e9 criada por seu pai at\u00e9 a entrada na adolesc\u00eancia. Ap\u00f3s a separa\u00e7\u00e3o do casal, o pai descobre que a crian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 sua. No que se refere \u00e0 crian\u00e7a, a partir do resultado do DNA, ela perde a posi\u00e7\u00e3o privilegiada no desejo desse pai e passa a ter acesso \u00e0 sua raiva, que a humilha e exclui. A crian\u00e7a vive certa perturba\u00e7\u00e3o, se desorienta, respondendo com seu sil\u00eancio. Em um atendimento, a crian\u00e7a fala: \u201cme chamam de bastardo. N\u00e3o sei o que significa isso direito, mas tem a ver com o fato do meu pai n\u00e3o querer me ver\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em seu semin\u00e1rio De um Outro ao outro, Lacan aponta que o mais importante para a crian\u00e7a \u00e9 entender como o saber, o gozo e o objeto a lhe foram oferecidos pela linguagem, ou seja, que aquilo que lhe foi oferecido seja sustentado pelo desejo de um pai e de uma m\u00e3e. Como fazer valer uma solu\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do sujeito, uma inven\u00e7\u00e3o diante do real fora de sentido que, nesse caso, adv\u00e9m do exame de DNA, resultando em uma desfilia\u00e7\u00e3o abrupta? Essa crian\u00e7a ter\u00e1 que decidir se e como responder a isso, tomando o ponto de vista de que h\u00e1 aquilo que n\u00e3o mudar\u00e1. Embora a senten\u00e7a judicial mantenha a paternidade do ponto de vista legal, h\u00e1 claramente a retirada desse pai de sua vida. Fica a impermeabilidade do DNA e, como consequ\u00eancia, esse sujeito faz uma interrup\u00e7\u00e3o na rela\u00e7\u00e3o com o saber, e uma importante debilidade se instala.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em outro caso, com percurso semelhante ao primeiro, o adolescente passa a se intoxicar e, em pouco tempo, morre de overdose. \u00c9 poss\u00edvel perceber que se trata de uma revela\u00e7\u00e3o que faz cair a fic\u00e7\u00e3o, tendo como efeito de um saber absoluto que n\u00e3o deixaria lacuna para uma sa\u00edda subjetiva.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em outra situa\u00e7\u00e3o, um jovem, \u00f3timo aluno, com boas aspira\u00e7\u00f5es profissionais, \u00e9 interpelado por seu pai que lhe revela, subitamente, n\u00e3o s\u00ea-lo. O genitor comunica que buscar\u00e1 a justi\u00e7a para solicitar a retirada do registro paterno da certid\u00e3o de nascimento, bem como para a suspens\u00e3o do pagamento da pens\u00e3o aliment\u00edcia, propondo que, apesar disso, o garoto continuasse a consider\u00e1-lo pai. Diante desse contexto, o adolescente passa a ter dificuldades na escola, desinteressando-se por ela e pela futura profiss\u00e3o. Inicia uma rela\u00e7\u00e3o de amizade com o traficante da regi\u00e3o, se aliando a este e indo v\u00ea-lo todos os dias, embora n\u00e3o seja usu\u00e1rio de drogas. N\u00e3o sabe bem por que vai, mas \u00e9 l\u00e1 que quer estar. A resposta desse adolescente evidencia o engessamento e a devasta\u00e7\u00e3o produzida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que a ruptura de promessa provocou? Parece-me que, ap\u00f3s a perplexidade, com o fim da cren\u00e7a e tomados pela puls\u00e3o \u2013 j\u00e1 que o que regulava cai \u2013, esses sujeitos buscam responder. A cren\u00e7a no Outro fica abalada, o real que a\u00ed aparece \u00e9 inicialmente maci\u00e7o e sem borda. Aparece, como comenta Miller, \u201cuma realidade imoral, sem dial\u00e9tica e sem compromisso\u201d[i].<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma \u00faltima casu\u00edstica de demiss\u00e3o paterna chama a aten\u00e7\u00e3o: ap\u00f3s a separa\u00e7\u00e3o do casal, apesar de n\u00e3o haver obst\u00e1culos para a conviv\u00eancia paterno-filial, ocorre um distanciamento radical do pai. A judicializa\u00e7\u00e3o, solu\u00e7\u00e3o do filho para seu desamparo, nesse caso intitulado juridicamente de abandono afetivo, pouco ou nenhum efeito produziu na rela\u00e7\u00e3o com seu genitor, mesmo que no n\u00edvel das obriga\u00e7\u00f5es legais este n\u00e3o se ausentasse. Assim, fica a pergunta: teria acontecido uma \u201cdesado\u00e7\u00e3o[ii]\u201d, uma ruptura de promessa? A consequ\u00eancia maior para esse filho \u00e9 uma desorienta\u00e7\u00e3o, \u00e0 qual busca dar tratamento pela Lei.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Diante das vinhetas apresentadas, alcan\u00e7amos que, no mundo humano, diferente da natureza, um filho, biol\u00f3gico ou n\u00e3o, ter\u00e1 sempre que ser adotado, ou seja, ter\u00e1 que haver um investimento, um desejo que n\u00e3o seja an\u00f4nimo, para que ali se constitua um sujeito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica anal\u00edtica permite perceber a import\u00e2ncia do uso da ferramenta pai e como, apesar do sofrimento e do abandono iniciais, as demandas que se apresentam, principalmente dos filhos, v\u00e3o ao vi\u00e9s de uma solu\u00e7\u00e3o que os amparem. \u00c9 o uso que cada um pode fazer da fun\u00e7\u00e3o paterna que orientar\u00e1 a constru\u00e7\u00e3o de uma sa\u00edda pr\u00f3pria. Assim, podemos escutar a incompreens\u00e3o e a desorienta\u00e7\u00e3o quando verbalizam suas hist\u00f3rias e o anseio por uma resolu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida. Ante os casos, \u00e9 poss\u00edvel observar que a opera\u00e7\u00e3o realizada pela fun\u00e7\u00e3o paterna n\u00e3o \u00e9 pass\u00edvel de ser anulada, mas o desaparecimento da presen\u00e7a do pai tem efeitos para a crian\u00e7a e para o adolescente. Mesmo que tenham recursos simb\u00f3licos suficientes, isso n\u00e3o d\u00e1 garantias de que as sa\u00eddas ser\u00e3o tranquilas. Ao contr\u00e1rio, podemos ver, em nossa pr\u00e1tica, que as sa\u00eddas podem ser mort\u00edferas. Nessa medida, o que podemos extrair \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 interven\u00e7\u00e3o do direito que altere o sujeito constitu\u00eddo. Entretanto, essas interven\u00e7\u00f5es podem alterar o modo como o sujeito vinha lidando com a vida, com as faltas, com sua pr\u00f3pria inscri\u00e7\u00e3o. Nos casos apresentados, vemos a constante em que os adolescentes s\u00e3o retirados do lugar de objeto de desejo e lan\u00e7ados para o lugar de dejeto, sem que qualquer tratamento seja dado \u00e0 responsabilidade que cabe aos respons\u00e1veis pelo filho nessa situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 importante criar as condi\u00e7\u00f5es para que cada um possa falar sobre seu lugar em sua hist\u00f3ria, permitindo uma responsabiliza\u00e7\u00e3o, principalmente dos adolescentes. Se o sujeito n\u00e3o aparece no enunciado, \u00e9 preciso fazer valer a enuncia\u00e7\u00e3o e auxili\u00e1-lo para que ele se aproprie dela. Desse modo, permitir que uma elabora\u00e7\u00e3o possa ser feita n\u00e3o \u00e9 encontrar uma resposta adequada, \u00e9 muito mais suportar o que n\u00e3o encontra uma adequa\u00e7\u00e3o. \u00c9 sustentar que \u00e9 poss\u00edvel uma nova sa\u00edda que seja digna para o pr\u00f3prio sujeito, no sentido de sua responsabilidade, com contornos poss\u00edveis, e n\u00e3o um engessamento que n\u00e3o comporte nada do que \u00e9 pr\u00f3prio ao sujeito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>[1] MILLER, J-A. \u201cEm dire\u00e7\u00e3o \u00e0 adolesc\u00eancia\u201d. Dispon\u00edvel em http:\/\/minascomlacan.com.br\/blog\/em-direcao-a-adolescencia.<\/h6>\n<h6>[1] O termo \u201cdesado\u00e7\u00e3o\u201d, como o de desfilia\u00e7\u00e3o, \u00e9 aqui utilizado para indagar o aspecto do desejo, da singularidade que deixa de existir.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>BIBLIOGRAFIA<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>FACCHIN, L. E. Da paternidade: rela\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica e afetiva. Belo Horizonte: Del Rey, 1996.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1896\/1980). \u201cA psican\u00e1lise e sua influ\u00eancia nos processos jur\u00eddicos\u201d. In: Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. 9. Rio de Janeiro: Imago.<\/h6>\n<h6>______. (1909\/1980) \u201cO romance familiar\u201d. In: Idem, vol. 9.<\/h6>\n<h6>______. (1913\/1980) \u201cTotem e Tabu\u201d. In: Idem, vol. 13.<\/h6>\n<h6>______. (1923\/1980) \u201cA organiza\u00e7\u00e3o genital infantil: uma interpola\u00e7\u00e3o na teoria da sexualidade\u201d. In: Idem, vol. 19.<\/h6>\n<h6>______. (1924\/1980) \u201cA dissolu\u00e7\u00e3o do complexo de \u00c9dipo\u201d. In: Idem, vol. 19.<\/h6>\n<h6>______. (1925\/1980) \u201cAlgumas consequ\u00eancias da distin\u00e7\u00e3o anat\u00f4mica entre os sexos\u201d. In: Idem, vol. 19.<\/h6>\n<h6>FRYD, A. (2005) O Reino que acabou. 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