{"id":792,"date":"2015-07-17T06:56:21","date_gmt":"2015-07-17T09:56:21","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=792"},"modified":"2025-12-01T16:53:14","modified_gmt":"2025-12-01T19:53:14","slug":"a-quimica-da-libido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2015\/07\/17\/a-quimica-da-libido\/","title":{"rendered":"A Qu\u00edmica Da Libido"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>SAMYRA ASSAD<\/strong><\/h6>\n<\/div>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/9-600x420-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"600\" data-large_image_height=\"420\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-793\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/9-600x420-1.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"420\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/9-600x420-1.jpg 600w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/9-600x420-1-300x210.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>NICOLETTA CECCOLI. RECORDAR.<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O g\u00e9rmen, a letra<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Qu\u00edmica e libido, a princ\u00edpio, parece-nos demonstrar dois termos que se op\u00f5em, a n\u00e3o ser quando, a partir de uma escolha (objetal) amorosa \u2013 seja ela permitida ou conden\u00e1vel, conveniente ou n\u00e3o \u2013, frequentemente, escutamos: \u201cexiste uma qu\u00edmica entre n\u00f3s\u2026\u201d E ningu\u00e9m ousaria explicar, prontamente, a raz\u00e3o disso. No m\u00e1ximo, fazemos poucas alus\u00f5es, as quais cederiam o lugar, mais tarde, para transformar as alus\u00f5es em ilus\u00f5es. Desde a\u00ed, o impacto do corpo com o real, com o que n\u00e3o possui sentido, entra em cena na vida amorosa de um sujeito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Assim, a qu\u00edmica, a libido, enfim, certos aspectos do desejo, passam a ocupar lugares importantes no cen\u00e1rio de uma investiga\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica, o que, inegavelmente, nos convida ao esfor\u00e7o de depurar, nessa mescla entre o eu e o objeto de desejo, o que adv\u00e9m de uma subst\u00e2ncia viva, ou, pelo menos, at\u00e9 a\u00ed chegar esbarrando com o que \u00e9 inomin\u00e1vel. Depurar a qu\u00edmica da libido de um corpo vivo, marcado pela linguagem, certamente nos conduzir\u00e1 a um corpo que a precedeu, portanto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De algum modo, percebe-se uma conex\u00e3o intr\u00ednseca entre esses dois termos com o lugar de uma inscri\u00e7\u00e3o no sujeito falante, dando partida \u00e0 sua exist\u00eancia no mundo. A fun\u00e7\u00e3o dessa inscri\u00e7\u00e3o ser\u00e1 dada a partir dos seus efeitos sobre o sujeito, sem que este, no entanto, possa a ela retornar sen\u00e3o sob a forma de um estranho familiar ou de um exterior totalmente \u00edntimo. \u201cO fen\u00f4meno da vida permanece em sua ess\u00eancia completamente impenetr\u00e1vel. Ele continua a nos escapar, n\u00e3o importa o que fa\u00e7amos\u201d (RENN\u00d3, C., 1999, p. 5).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ressalta-se nisso que \u201ca psican\u00e1lise n\u00e3o se ocupa da subst\u00e2ncia viva, mas sim das for\u00e7as que nela operam, (\u2026) a puls\u00e3o\u201d (Idem). Desse modo, \u00e9 poss\u00edvel observar, atrav\u00e9s das for\u00e7as que operam sobre a subst\u00e2ncia viva, um g\u00e9rmen. Lacan afirma que \u201cessas for\u00e7as, de alguma forma, v\u00e3o se estruturar em torno do que pode ser definido como a fun\u00e7\u00e3o da letra, fazendo desta um an\u00e1logo do g\u00e9rmen\u201d (Idem, p.07). Miller prossegue:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>(\u2026) isso \u00e9 ir muito longe na \u2018biologiza\u00e7\u00e3o\u2019 do significante. (\u2026) o g\u00e9rmen se inscreve no corpo, \u00e9 distinto do soma, do corpo como soma; ele sobrevive ao soma. Por isso, podemos compreender porque a letra \u00e9 an\u00e1loga ao g\u00e9rmen. Primeiramente porque sendo a letra aquilo que, do significante, se inscreve no corpo, ela \u00e9 incorporada. (\u2026) Em segundo lugar, ela n\u00e3o \u00e9 o soma, e por \u00faltimo, a dura\u00e7\u00e3o da letra se estende para al\u00e9m da vida do corpo, como nome pr\u00f3prio (\u2026) a letra n\u00e3o \u00e9 um g\u00e9rmen; o g\u00e9rmen \u00e9 celular e a letra n\u00e3o (MILLER, 1999, p. 44-45).<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A ideia de uma forma\u00e7\u00e3o contingencial est\u00e1 presente nisso, nesse encontro do corpo com a linguagem, do qual resulta o tra\u00e7o como uma letra, trazendo consigo uma parte insond\u00e1vel, por\u00e9m ali, sustentando a vida textual de um porvir do sujeito. Uma letra do destino, dizemos assim, podendo ser lida \u2013 contingencialmente tamb\u00e9m \u2013 em um modo de vida adotado: uma esp\u00e9cie de \u201cmarca registrada\u201d, inventada, inimit\u00e1vel, \u00fanica de cada um, singularmente patenteada. Letra do gozo, dir\u00edamos com Lacan. Uma esp\u00e9cie de nome pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Portanto, atrav\u00e9s das for\u00e7as que operam sobre a subst\u00e2ncia viva, um complexo caminho da necessidade ao desejo se desenrola. A qu\u00edmica da natureza dos horm\u00f4nios vai dando lugar a uma vida mental, \u00e0 medida que um tra\u00e7o orientador de uma satisfa\u00e7\u00e3o d\u00e1 in\u00edcio a um circuito que tende a se repetir, j\u00e1 que o destino poderia ser entendido como um dos nomes do inconsciente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Narcisismo, libido e objeto<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A teoria da libido se baseia em grande parte no trabalho de Freud sobre o narcisismo. As formula\u00e7\u00f5es relativas \u00e0 libido do eu e \u00e0 libido do objeto s\u00e3o trazidas por ele especialmente pelo modo em que o eu e o objeto s\u00e3o peculiarmente interagidos, sendo o objeto invariavelmente uma representa\u00e7\u00e3o mental. Podemos imaginar que isso acontece sob o foco de um olhar cujo ponto de onde adv\u00e9m a luz \u00e9 faltoso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Freud falava de uma \u201cqu\u00edmica especial\u201d, atrav\u00e9s da qual se distinguiam quantidade e qualidade da libido. Logo, a produ\u00e7\u00e3o, aumento ou diminui\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o e deslocamento da libido do eu possibilitavam explicar os fen\u00f4menos psicossexuais observados em sua cl\u00ednica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Assim, na d\u00e9cada correspondente aos anos de 1895 a 1905, Freud fazia recair a \u00eanfase sobre a \u201cqu\u00edmica sexual\u201d, dizendo-nos que \u201cnos processos sexuais, subst\u00e2ncias de esp\u00e9cie peculiar decorrem do metabolismo sexual\u201d (FREUD, S., 1905\/1972, p. 222). No entanto, posteriormente, ele vai constatar: \u201cestamos no escuro quanto ao \u00f3rg\u00e3o ou \u00f3rg\u00e3os a que a sexualidade se prende\u201d (Idem). Logo, restava ainda uma lacuna sobre a natureza da excita\u00e7\u00e3o sexual: \u201ca an\u00e1lise das pervers\u00f5es e psiconeuroses mostrou-nos que essa excita\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o se origina apenas das partes chamadas sexuais, mas de todos os \u00f3rg\u00e3os do corpo\u201d (FREUD, S. 1905\/1972, p. 223).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Freud, ent\u00e3o, \u00e9 levado a uma conclus\u00e3o insatisfat\u00f3ria que emerge dos dist\u00farbios da vida sexual, qual seja, a de \u201csabermos muito pouco sobre os processos biol\u00f3gicos que constituem a ess\u00eancia da sexualidade para podermos construir, com nossa informa\u00e7\u00e3o fragment\u00e1ria, uma teoria adequada \u00e0 compreens\u00e3o dos estados tanto normais quanto patol\u00f3gicos\u201d (FREUD, S. 1905\/1972, p. 250). Esse limite, por conseguinte, o impulsiona a recorrer ao mito, principalmente quando ele observa que existe algo que vai mais al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Da biologia ao mito<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Miller faz a leitura de que \u201c\u00e9 pelo vi\u00e9s da suplanta\u00e7\u00e3o da biologia frente ao mito que ele (Freud) inventa a sua puls\u00e3o de morte e a inscreve no mito, n\u00e3o conseguindo que ela tivesse cr\u00e9dito no plano propriamente biol\u00f3gico\u201d (MIILER, 1999, p. 14).<\/p>\n<p>Parece-nos, ent\u00e3o, que a biologia freudiana suplantada pelo mito que deu origem ao conceito de puls\u00e3o de morte foi sucedida pela biologia lacaniana, se posso dizer, trazida para sustentar o conceito de gozo ligado ao corpo vivo. Mas aqui n\u00e3o poder\u00edamos supor, por exemplo, que haveria um saber pr\u00f3prio do corpo, o qual Freud teria revelado sob a esp\u00e9cie de uma qu\u00edmica especial da fun\u00e7\u00e3o sexual, e que Lacan teria a relido como sendo o gozo pr\u00f3prio do corpo vivo?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se assim o for, penso que isso sofisticaria, e de certo modo atualizaria, o que, enfim, diz respeito ao nosso objeto de investiga\u00e7\u00e3o, a saber, o lugar da causalidade ps\u00edquica ligada \u00e0 qu\u00edmica da libido, portanto, no s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De Freud a Lacan<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pois bem. Como o regime da civiliza\u00e7\u00e3o na \u00e9poca de Freud se sustentava na interdi\u00e7\u00e3o, o s\u00e9culo XX se mostrou como sendo a era do Pai, do simb\u00f3lico, de uma refer\u00eancia simb\u00f3lica que orientaria as representa\u00e7\u00f5es, o campo da significa\u00e7\u00e3o. As transforma\u00e7\u00f5es da puberdade contavam com essa refer\u00eancia; os sintomas eram interpret\u00e1veis a partir de uma cadeia simb\u00f3lica inconsciente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os mitos de \u00c9dipo e de Totem e Tabu apresentavam a transmiss\u00e3o de um imposs\u00edvel acerca dos efeitos da libido sobre o corpo. Isso caracterizava, enfim, as neuroses sustentadas por uma lei que instaurava o desejo e a culpa, a partir da morte do Pai. Portanto, a inscri\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o paterna para o sujeito era trazida sob uma forma \u00e9pica, implicando o aspecto simb\u00f3lico da morte, da castra\u00e7\u00e3o, em uma inscri\u00e7\u00e3o da linguagem no ser falante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A adolescente Dora, o rapaz Homem dos Ratos e a jovem homossexual expressavam, portanto, no sentido mais restrito de uma subjetividade do s\u00e9culo XX, a refer\u00eancia a um Pai, \u00e0 castra\u00e7\u00e3o \u2013 e, na pervers\u00e3o, o seu desmentido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em contrapartida, na nossa contemporaneidade, s\u00e9culo XXI, o regime civilizat\u00f3rio n\u00e3o mais se assenta sobre a interdi\u00e7\u00e3o, mas sobre o gozo. Observa-se, hoje, um quadro social em que a satisfa\u00e7\u00e3o \u00e9 exigida sem mesmo que o sujeito se pergunte sobre o que ele quer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Situamo-nos, portanto, na era do mais al\u00e9m do \u00c9dipo. A predomin\u00e2ncia do real em detrimento do simb\u00f3lico nos conduz, inclusive, a levantar uma hip\u00f3tese \u2013 aquela de uma qu\u00edmica inerente ao jogo libidinal do sujeito contempor\u00e2neo que n\u00e3o se interage com um tra\u00e7o constitutivo, mas com a sua pluraliza\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que a refer\u00eancia paterna caiu. Encontrei depois um coment\u00e1rio de Marcelo Veras, em rede social, que me chegou como luvas: \u201cPrecisamos com urg\u00eancia reler o texto Psicologia das Massas pensando os novos modelos de identifica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o mais organizados pelo tra\u00e7o, mas pelo gozo autista do objeto a\u201d. (VERAS, M., 26\/05\/2016).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quais seriam, ent\u00e3o, os efeitos da libido sobre o sujeito diante da queda dos Ideais e, por conseguinte, da ascens\u00e3o do gozo? Se a\u00ed o imp\u00e9rio \u00e9 o da satisfa\u00e7\u00e3o e da imagem, do olho absoluto e n\u00e3o o da castra\u00e7\u00e3o, da desinibi\u00e7\u00e3o e n\u00e3o o da inibi\u00e7\u00e3o, qual ser\u00e1, enfim, a transforma\u00e7\u00e3o da puberdade nos tempos atuais?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De outra ordem\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 not\u00f3ria a incid\u00eancia crescente e expressiva das psicoses silenciadas ou ordin\u00e1rias, provavelmente assentadas sobre uma ordem de ferro, suced\u00e2nea \u00e0 queda do Pai. Assim Lacan a denominou em 1970, inclusive, preconizando a perda da dimens\u00e3o amorosa na subjetividade. Podemos dizer que encontramos hoje essa ordem de ferro por meio de normas familiares, pol\u00edticas, sociais e religiosas. Al\u00e9m disso, vemos as ofertas relativas aos dispositivos t\u00e1teis e visuais, os quais favorecem uma conex\u00e3o com o corpo atrav\u00e9s do uso superegoico inerente ao la\u00e7o virtual entre os jovens adolescentes. Todos conectados![i]<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Trago aqui, especialmente, um recorte cl\u00ednico que tange os efeitos da libido sobre o caso de um jovem homossexual, por exemplo, que faz uso de aplicativos introduzidos em seu celular. Trata-se de um recurso para se distrair e fugir do t\u00e9dio e da solid\u00e3o. Esses aplicativos permitem ao jovem a exibi\u00e7\u00e3o de seu corpo nu para que o outro o veja, e vice-versa, e, enfim, avaliam se querem ou n\u00e3o se relacionar sexualmente \u2013 n\u00e3o sem antes passarem pelo que se entende, assim, como crivo da beleza de um corpo, segundo o culto a ele dirigido via protuber\u00e2ncia dos m\u00fasculos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De todo modo, parece haver a\u00ed a presen\u00e7a n\u00e3o de dois, tal como uma representa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica permitiria supor em se tratando de um endere\u00e7amento da libido, mas, de Um, de Um sozinho\u2026 Com o tato no celular atrav\u00e9s dos seus dedos, todo um imp\u00e9rio visual sustentado pela ordem de uma satisfa\u00e7\u00e3o narc\u00edsica determina a sua excita\u00e7\u00e3o sexual. Eles marcam um encontro, se relacionam e v\u00e3o embora, cada um depois permanecendo no anonimato do seu canto original, escuro, solit\u00e1rio, fazendo ressoar o vazio do sil\u00eancio quando o barulho da poeira abaixa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Trata-se de uma ordem que permitiria ao jovem transitar entre elementos viventes dos mais diversos poss\u00edveis, inclusive descart\u00e1-los ou ser ele pr\u00f3prio descartado, em meio ao sexo casual e compulsivo: forte terreno do sadismo e do masoquismo, enfim, uma satisfa\u00e7\u00e3o cujo pano de fundo pertence \u00e0 puls\u00e3o de morte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Aplicativos como Nude, Hornet, Grindr, Scruff e Tinder permitem o acesso e o descarte do gozo em nome de um uso narc\u00edsico cujas letras, para provar a exist\u00eancia do sujeito, passam por um aparelho, grosso modo dizendo, n\u00e3o propriamente mental\u2026 Possivelmente, isso demonstra outra transforma\u00e7\u00e3o da puberdade nos tempos atuais. Outras letras ditam o destino do gozo para esse sujeito. A prop\u00f3sito, a materialidade f\u00f4nica desses aplicativos \u00e9 algo que salta aos ouvidos, acompanhada, inegavelmente, de um tom estrangeiro. Basta repeti-los seguidamente, lendo-os em voz alta\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sirvo-me de uma pergunta de Miller, feita quando ele aborda o dispositivo da internet: \u201cO que \u00e9 que se multiplica nessas fic\u00e7\u00f5es? Multiplicam-se, finalmente, os semblantes de corpos. Isso torna apenas mais insistente a quest\u00e3o sobre o que est\u00e1 fazendo, de seu lado, o corpo original, enquanto seu semblante \u00e9 mostrado\u201d (MILLER, 1999, p. 32). Ou seja, nesse reenvio ao \u201ccorpo original\u201d, algo de estranho, em ato, permanece.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma lacuna adv\u00e9m, tal como o jovem adolescente o demonstra: \u201cO superficial \u00e9 falso\u2026\u201d Sim, podemos concordar com ele, mesmo porque, \u201co elemento anulado pela dist\u00e2ncia n\u00e3o est\u00e1 presente, a saber, o que esses corpos n\u00e3o fazem juntos, presencialmente, pois, juntos, eles tornariam presente uma interdi\u00e7\u00e3o, uma separa\u00e7\u00e3o, uma n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o\u201d (MILLER, 1999, p. 32). O aforisma lacaniano \u2013 a rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o existe \u2013 permanece intacto, independente das ilus\u00f5es das quais o sujeito contempor\u00e2neo faz uso atrav\u00e9s do imp\u00e9rio das imagens. Talvez at\u00e9 o aguce.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quando o sujeito enuncia a frase citada acima, vislumbra-se o caminho de sua desobjetaliza\u00e7\u00e3o, ou a uma submiss\u00e3o n\u00e3o-toda aos tra\u00e7os impostos nas ofertas de satisfa\u00e7\u00e3o que o discurso da ci\u00eancia e do capitalismo imprimiram na evolu\u00e7\u00e3o dos tempos. Necessariamente, um ponto de ang\u00fastia preceder\u00e1 tanto essa quest\u00e3o quanto uma solu\u00e7\u00e3o singular.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em se tratando da biologia dos corpos, do metabolismo sexual \u00e0 subst\u00e2ncia gozante, ou do percurso que se inicia com a qu\u00edmica da libido em Freud ao saber do corpo em Lacan, o adolescente freudiano transmite, com o seu sintoma, o dois em um; o adolescente lacaniano, o Um em dois, certa manifesta\u00e7\u00e3o aut\u00edstica do gozo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Parece ser assim que a solid\u00e3o \u00e9 trazida na cena anal\u00edtica do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<h6><\/h6>\n<h6>[1] Com rela\u00e7\u00e3o a esse aspecto, trabalhei um caso de uma adolescente que fez do seu insepar\u00e1vel iPhone uma extens\u00e3o do seu corpo como uma solu\u00e7\u00e3o. O lugar contingente que esse aparelho ocupou p\u00f4de ser extra\u00eddo quando a f\u00f3rmula confusional do sujeito, inicialmente trazida como \u201cuma coisa pensa em mim\u201d, adquiriu outro estatuto: esse aparelho como extens\u00e3o do seu corpo alojou, justamente, esse fen\u00f4meno. O gozo se deslocou do corpo para o objeto insepar\u00e1vel de suas m\u00e3os, o que me permitiu introduzir um par\u00eantesis especial para intitular esse caso: \u201cI (am) phone\u2026\u201d. O trabalho foi apresentado na Jornada Cl\u00ednica do X Congresso da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise, \u201cO Corpo Falante \u2013 Sobre o ICS no s\u00e9culo XXI\u201d, em abril de 2016 no Rio de Janeiro. Texto in\u00e9dito.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><\/h6>\n<\/div>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>BIBLIOGRAFIA<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>FREUD, S (1905\/1972). \u201cTransforma\u00e7\u00f5es da Puberdade\u201d, In: Obras Completas de Sigmund Freud. Escritos sobre \u201cTr\u00eas Ensaios da Teoria da Sexualidade\u201d \u2013 1905. Rio de Janeiro: Imago, vol. VII, p\u00e1gs. 213-250.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. Elementos de Biologia Lacaniana, Belo Horizonte, EBP-MG, 1999.<\/h6>\n<h6>RENN\u00d3, Celso, \u201cApresenta\u00e7\u00e3o\u201d, in: MILLER, J-A. Elementos de Biologia Lacaniana. Belo Horizonte, EBP-MG, 1999, citando Lacan em 1955.<\/h6>\n<h6>VERAS, M. Coment\u00e1rio em rede social, dispon\u00edvel em www.facebook.com.br, acesso em 26\/5\/2016.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Samyra Assad<\/strong><\/h6>\n<h6>Psicanalista. Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP), Membro da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP). E-mail:\u00a0<span id=\"cloak21b500f249ffe1d623d67a8733da5ec7\"><a href=\"mailto:samyra@uai.com.br\">samyra@uai.com.br<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SAMYRA ASSAD NICOLETTA CECCOLI. RECORDAR. &nbsp; O g\u00e9rmen, a letra &nbsp; Qu\u00edmica e libido, a princ\u00edpio, parece-nos demonstrar dois termos que se op\u00f5em, a n\u00e3o ser quando, a partir de uma escolha (objetal) amorosa \u2013 seja ela permitida ou conden\u00e1vel, conveniente ou n\u00e3o \u2013, frequentemente, escutamos: \u201cexiste uma qu\u00edmica entre n\u00f3s\u2026\u201d E ningu\u00e9m ousaria explicar,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58135,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[],"class_list":["post-792","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-17","category-13","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/792","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=792"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/792\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58136,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/792\/revisions\/58136"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58135"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=792"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=792"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=792"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}