{"id":796,"date":"2015-07-17T06:56:21","date_gmt":"2015-07-17T09:56:21","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=796"},"modified":"2025-12-01T16:53:50","modified_gmt":"2025-12-01T19:53:50","slug":"comentario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2015\/07\/17\/comentario\/","title":{"rendered":"Coment\u00e1rio &#8211; Cristiane de Freitas Cunha"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>CRISTIANE DE FREITAS CUNHA<\/strong><\/h6>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/61-600x431-1.gif\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"600\" data-large_image_height=\"431\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-797\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/61-600x431-1.gif\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"431\" \/><\/a><\/strong><\/h6>\n<h6><strong>POR GIULIA PUNTEL<\/strong><\/h6>\n<p>O relato de S\u00e9rgio de Mattos nos instiga a percorrer suas refer\u00eancias. Com Viveiros de Castro, aprendemos a perspectiva amer\u00edndia de constru\u00e7\u00e3o do corpo, no processo de reclus\u00e3o, exibi\u00e7\u00e3o e metamorfose. Na cultura yawalap\u00edti, o social constitui o corpo, n\u00e3o \u00e9 algo externo que se deposita sobre ele. Nesse processo de fabrica\u00e7\u00e3o, h\u00e1 uma dial\u00e9tica entre a reclus\u00e3o e a exibi\u00e7\u00e3o do corpo. A fabrica\u00e7\u00e3o dos corpos, com a tecnologia da reclus\u00e3o, tem in\u00edcio com as rela\u00e7\u00f5es sexuais com a finalidade de procria\u00e7\u00e3o. Na puberdade, o corpo \u00e9 recluso por um tempo, durante o qual o p\u00fabere depende da comunidade para sua sobreviv\u00eancia, e os pais se abst\u00e9m das rela\u00e7\u00f5es sexuais. A reclus\u00e3o da puberdade \u00e9 marcada pela fragilidade e pela vergonha. Depois, h\u00e1 a exibi\u00e7\u00e3o do corpo nos rituais comunit\u00e1rios, nos quais o corpo \u00e9 marcado. A reclus\u00e3o envolve, por fim, a morte e o luto. A fabrica\u00e7\u00e3o produz seres humanos que acedem \u00e0 vida, adquirem a capacidade de perpetu\u00e1-la e morrem. H\u00e1 tamb\u00e9m a metamorfose, algo da ordem do excesso, do imprevis\u00edvel, que pode transformar os homens em esp\u00edritos ou em plantas, como na experi\u00eancia do xamanismo (CASTRO, 2002).<\/p>\n<p>Um fragmento de uma entrevista do relat\u00f3rio de Mattos evoca tamb\u00e9m a modifica\u00e7\u00e3o corporal para produzir um ser humano, ao dizer que \u201ca pele \u00e9 sua hist\u00f3ria: n\u00e3o julgue minha modifica\u00e7\u00e3o, s\u00f3 entenda que \u00e9 ser humano\u201d.<\/p>\n<p>Seguimos Gustavo Dessal, em suas viagens e medita\u00e7\u00f5es sobre a vida amorosa. Em Boston, no ver\u00e3o de 2012, ele se depara com um encontro de cosplay[i]. Dessal captura imagens dessas identidades flex\u00edveis, apartadas do encontro com o sexo, com o real, com a castra\u00e7\u00e3o, com o desejo. Personagens que posam para a sua c\u00e2mera e o ignoram. De T\u00f3quio, ele nos fala da concretude da inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual, materializada no deslocamento do encontro com o parceiro para a aquisi\u00e7\u00e3o das bonecas infl\u00e1veis \u2013 que n\u00e3o demandam nada, conforme o an\u00fancio do fabricante \u2013; no caminho para casa, evitando o encontro com o parceiro que demanda, quando h\u00e1 um; no trajeto pelas casas de massagens; nos aparatos que assessoram a masturba\u00e7\u00e3o. E, para saciar o desejo do encontro com um corpo vivo, h\u00e1 os bares onde os gatos podem ser acariciados. E, mais al\u00e9m do desejo, a reclus\u00e3o dos hikikomori, adolescentes enclausurados em seus quartos. Em Nova Iorque, na primavera de 2013, Dessal visita lojas cenogr\u00e1ficas onde se podem comprar corpos e peda\u00e7os de corpos. Ele observa que em Nova Iorque h\u00e1 lugar para a estranheza, desde que a diferen\u00e7a continue inserida no sistema produtivo, na l\u00f3gica do empreendedorismo de si mesmo (DESSAL, 2013).<\/p>\n<p>Continuamos pelo fio do empreendedorismo de si com Safatle, que nos fala da plasticidade mercantil do corpo (2015, p. 193). O cap\u00edtulo que trata desse tema \u00e9 aberto com duas cita\u00e7\u00f5es: \u201ceu creio que o corpo \u00e9 obsoleto\u201d, de Orlan, e outra, \u201cEconomia \u00e9 o m\u00e9todo. O objetivo \u00e9 mudar o cora\u00e7\u00e3o e a alma\u201d, de Margaret Thatcher.<\/p>\n<p>O corpo se torna obsoleto, o risco se torna obsoleto. Convocados a uma muta\u00e7\u00e3o e reconfigura\u00e7\u00e3o cont\u00ednuas, a sociedade e os indiv\u00edduos assumem o estatuto de uma empresa. As t\u00e9cnicas de gest\u00e3o e de interven\u00e7\u00e3o terap\u00eautica, a administra\u00e7\u00e3o e a psicologia convergem para fornecer o arcabou\u00e7o desse projeto de humaniza\u00e7\u00e3o do capitalismo e ajudam a gerir o medo do fracasso e a inseguran\u00e7a, inadmiss\u00edveis em uma sociedade flex\u00edvel. Nesta, as normas n\u00e3o s\u00e3o transgredidas, s\u00e3o flexibilizadas em um c\u00e1lculo preciso dos custos e resultados (SAFATLE, 2015).<\/p>\n<p>No projeto da muta\u00e7\u00e3o corporal, as dietas, f\u00e1rmacos e cirurgias prometem uma configura\u00e7\u00e3o de si a baixo custo. E, no mercado do corpo, a m\u00eddia \u00e9 um instrumento privilegiado de expans\u00e3o, incorporando qualquer resist\u00eancia. Nos anos 90 do s\u00e9culo passado, observa-se um processo de reconfigura\u00e7\u00e3o de representa\u00e7\u00f5es midi\u00e1ticas relacionadas ao corpo. A Benetton lan\u00e7a uma campanha publicit\u00e1ria na qual corpos marcados pela aids s\u00e3o expostos. Calvin Klein e Versace investem na erotiza\u00e7\u00e3o de corpos doentes, mortificados, portadores de uma sexualidade amb\u00edgua. Os consumidores s\u00e3o convocados a um papel de cidad\u00e3o diante do revestimento da m\u00eddia como forma de conscientiza\u00e7\u00e3o e provoca\u00e7\u00e3o. E em uma perspectiva inclusiva dos consumidores, a m\u00eddia investe tamb\u00e9m na exposi\u00e7\u00e3o dos corpos saud\u00e1veis e harm\u00f4nicos, simultaneamente, expondo a bipolaridade das marcas (SAFATLE, 2015).<\/p>\n<p>Uma pe\u00e7a publicit\u00e1ria da PlayStation apresenta o corpo com interface de conex\u00e3o, um corpo prot\u00e9tico e reconfigur\u00e1vel. Vemos um corpo diante da prateleira de cabe\u00e7as, dispon\u00edveis para escolha e uso, como na loja de corpos e peda\u00e7os de corpos de Dessal. Uma outra pe\u00e7a contrap\u00f5e o t\u00e9dio da vida cotidiana e a aventura da vida virtual (SAFATLE, 2015). Na vida cotidiana, a morosidade do trabalho; na virtual, a conquista de imp\u00e9rios com ex\u00e9rcitos numerosos, que atesta o valor da exist\u00eancia.<\/p>\n<p>O capitalismo avan\u00e7ado, humanizado, inclusivo, deixa \u00e0 margem a experi\u00eancia da estranheza, da fissura (LACAN, 1962-1963). Os mercados comuns tornam cada vez mais duros os processos de segrega\u00e7\u00e3o (LACAN, 1968).<\/p>\n<p>E s\u00e3o seres humanos \u00e0 margem, segregados, que podem se aventurar na experi\u00eancia anal\u00edtica. Corpos marcados pelos significantes do Outro, que testemunham um mal-estar inerente ao ser humano. Que podem se permitir falar de modo prec\u00e1rio sobre esse mal-estar no corpo que n\u00e3o se \u00e9, mas se tem. Um dos entrevistados por S\u00e9rgio de Mattos (2015) diz: \u201cs\u00e3o coisas que remetem a algo que vivi (\u2026) tinha problemas com o corpo e ainda tenho\u201d. Ainda, apesar das modifica\u00e7\u00f5es, suspens\u00f5es, eleva\u00e7\u00f5es, tentativas de sair do corpo. Ele atesta o fracasso da t\u00e9cnica, da ci\u00eancia, para curar o mal-estar. E conclui: \u201cn\u00e3o julgue minha modifica\u00e7\u00e3o, s\u00f3 entenda que \u00e9 ser humano\u201d.<\/p>\n<h6><\/h6>\n<h6>[1] Cosplay: Segundo Dessal, condensa\u00e7\u00e3o do ingl\u00eas costume, disfarce; display, exibi\u00e7\u00e3o; play, jogo.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<h6><\/h6>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><strong>BIBLIOGRAFIA<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>DESSAL, G. \u201cMedita\u00e7\u00f5es de um psicanalista sobre a vida amorosa em Mutandia\u201d. In: TORRES, M., SCHNITZER, G., ANTU\u00d1A, A., PEIDRO, S. Transformaciones: ley, diversidad, sexuaci\u00f3n. Buenos Aires: Grama Ediciones, 2013, p. 267-275.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. O semin\u00e1rio, livro 10: a ang\u00fastia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.<\/h6>\n<h6>______. Proposition du 9 octobre 1967 sur le psychanalyste de l\u2019\u00c9cole, in Silicet, Paris, Seuil, 1968, p. 14-30.<\/h6>\n<h6>MATTOS, S de. \u201cO que fazer com o seu corpo?\u201d Dispon\u00edvel em &lt;http:\/\/oimperiodasimagens.com.br\/pt\/faq-items\/o-que-fazer-com-seu-corpo-sergio-de-mattos\/&gt;. 2015. Acesso em 28 de junho de 2016.<\/h6>\n<h6>SAFATLE, V. O circuito dos afetos. S\u00e3o Paulo: Cosac Naify, 2015.<\/h6>\n<h6>CASTRO, E. A. V. de. Inconst\u00e2ncia da alma selvagem e outros ensaios de antropologia. S\u00e3o Paulo: Cosac Naify, 2002.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Cristiane De Freitas Cunha<\/strong><\/h6>\n<h6>Cristiane de Freitas Cunha. M\u00e9dica e Psicanalista. Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP), Membro da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP). 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