{"id":800,"date":"2015-07-17T06:56:21","date_gmt":"2015-07-17T09:56:21","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=800"},"modified":"2025-12-01T16:54:20","modified_gmt":"2025-12-01T19:54:20","slug":"o-que-fazer-com-seu-corpo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2015\/07\/17\/o-que-fazer-com-seu-corpo\/","title":{"rendered":"O Que Fazer Com Seu Corpo?"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>S\u00c9RGIO DE MATTOS (RELATOR)<\/strong><\/h6>\n<\/div>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/6-600x440-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"600\" data-large_image_height=\"440\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-801\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/6-600x440-1.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/6-600x440-1.jpg 600w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/6-600x440-1-300x220.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>GIULIA PUNTEL<\/strong><\/h6>\n<p><strong>Problema<\/strong><\/p>\n<p>Como se constr\u00f3i hoje um corpo?<\/p>\n<p>O corpo se evidencia no \u00faltimo ensino de Lacan; n\u00e3o se goza sem corpo. Contudo em \u201cAdeus ao Corpo\u201d, Le Breton cita Stelarc: o corpo \u00e9 obsoleto, \u00e9 urgente livrar-se dele ou emparelha-lo com tecnologias e experi\u00eancias extremas para ampliar possibilidades. Na performance The third hand, uma pr\u00f3tese de m\u00e3o, aumenta muito a efic\u00e1cia corporal, a partir de sinais el\u00e9tricos vindos dos m\u00fasculos abdominais e da perna. Longe de ser sup\u00e9rflua, a terceira m\u00e3o agarra objetos, gira sobre si, \u00e9 capaz de sentir.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, os corpos cada vez importam mais, hiper investidos, mais vis\u00edveis que nunca. A perda do corpo do mundo, de suas coordenadas simb\u00f3licas orientando nossos modos de gozo, nos leva a preocupar-nos com o corpo para dar corpo \u00e0 nossa exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Investigar o tema e testemunhos sobre sua constru\u00e7\u00e3o permitiram apreender o problema desde as sociedades tradicionais at\u00e9 as contempor\u00e2neas. Recorremos a estudos antropol\u00f3gicos sobre a popula\u00e7\u00e3o amer\u00edndia, \u00e0 pr\u00e1tica do Zazen e \u00e0s atuais modifica\u00e7\u00f5es corporais. A segunda vertente do relat\u00f3rio trabalha a constru\u00e7\u00e3o a partir de conceitos da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p><strong>Campo de constru\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Seja para proteger, curar, negar, alimentar, gozar dele, extrair de outros substancias para comp\u00f4-lo, o corpo \u00e9 centro das preocupa\u00e7\u00f5es humanas. Ele sofre, n\u00e3o funciona, n\u00e3o aquenta mais, precisa satisfazer-se, domina nossa exist\u00eancia nos momentos que n\u00e3o est\u00e1 bem. \u00c9 na hi\u00e2ncia onde o mal estar se instala que dele lembramos e precisamos construir ou reconstru\u00ed-lo.<\/p>\n<p>Um corpo nunca esta pronto e a rigor n\u00e3o sabemos o que ele \u00e9. Sempre aqu\u00e9m ou al\u00e9m, surpreendente, desregulado, imaturo, o corpo que fala, \u00e9 aberto a um espectro de afec\u00e7\u00f5es e capaz de ampla gama de respostas. \u00c9 essa sensibilidade e potencialidade que o torna tamb\u00e9m capaz de sintomas e novos arranjos.<\/p>\n<p>Algum corpo n\u00e3o passou por modifica\u00e7\u00f5es? Consciente ou inconsciente, voluntariamente ou n\u00e3o, pela alimenta\u00e7\u00e3o, pelo uso no cotidiano, pela est\u00e9tica, podemos afirmar que todo corpo \u00e9 de uma forma ou outra alterado, transformado. A hist\u00f3ria da humanidade \u00e9 marcada por modos de interferir no corpo com m\u00faltiplas justificativas. M. Mauss nas \u201ct\u00e9cnicas do corpo\u201d mostra como cada cultura constr\u00f3i seu corpo \u00e0 sua medida sem cessar. A psican\u00e1lise come\u00e7ou interessando-se pelo corpo que n\u00e3o obedecia a fisiologia. Os dist\u00farbios psicog\u00eanicos na vis\u00e3o, paralisias hist\u00e9ricas s\u00e3o cl\u00e1ssicos. Hoje vis\u00edvel em todos os lugares, o corpo sobe ao c\u00e9u- n\u00e3o mais a alma \u2013 como lugar de gozo. Assim precisamos investigar como foram e s\u00e3o hoje constru\u00eddos, o que as novidades nos ensinam e suas consequ\u00eancias.<\/p>\n<p><strong>O corpo Gen\u00e9rico \u2013 os Yalawap\u00edti<\/strong><\/p>\n<p>de Castro mostra como a no\u00e7\u00e3o de corpo constru\u00eddo \u00e9 intr\u00ednseca \u00e0 vida amer\u00edndia. Nos Yawalap\u00edti o corpo humano \u00e9 submetido a processos intencionais e peri\u00f3dicos de fabrica\u00e7\u00e3o: inumakin\u00e1 (Um\u00e1, fazer ou fabricar). As rela\u00e7\u00f5es sexuais s\u00e3o o inicio dessa tarefa. Fabricar significa tamb\u00e9m \u201cmudar o corpo\u201d e consiste em interven\u00e7\u00f5es que conectam corpo e mundo: fluidos vitais, alimentos, em\u00e9ticos, furos, escarifica\u00e7\u00f5es, peda\u00e7os de outros corpos, penas, peles, \u00f3leos. Porque o que faz um corpo (humano ou n\u00e3o) \u00e9 o modo pelo qual \u00e9 afetado: o que ele come, como se move, se comunica, onde vive, se \u00e9 greg\u00e1rio ou solit\u00e1rio. O corpo \u00e9 um feixe de afec\u00e7\u00f5es e capacidades.[1]<\/p>\n<p>O corpo das esp\u00e9cies, sendo o modo pelo qual o esp\u00edrito universal indiferenciado se particulariza, faz de tudo que existe um poss\u00edvel enunciador, capaz de autorreflex\u00e3o, em posi\u00e7\u00e3o de sujeito da perspectiva de um corpo. Corpo animal e humano s\u00e3o instrumentos e n\u00e3o falsa apar\u00eancia de uma ess\u00eancia; s\u00e3o dispositivos que especificam o espirito. Por isso \u00e9 preciso constru\u00ed-lo desde cedo. No perspectivismo amer\u00edndio, corpo n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de realidade em si, mas conjunto de modos de ser que constituem um habitus.<\/p>\n<p>Trata-se menos de um processo de desanimalizar pela cultura que de particularizar algo inicialmente demasiado gen\u00e9rico,diferenciando-o de outros coletivos humanos e de outras esp\u00e9cies. [2] N\u00e3o se trata de culturaliza\u00e7\u00e3o de um substrato natural mas de fabrica\u00e7\u00e3o. E ao lado da fabrica\u00e7\u00e3o a metamorfose \u2013 yaka \u2013que reintroduz o excesso e a imprevisibilidade na ordem do socius. Vestir uma m\u00e1scara ritual \u00e9 ativar os poderes de um corpo outro, como no uso dos trajes de mergulho. Veste-se um escafandro para funcionar como um peixe, respirando sob a \u00e1gua. Com a aquisi\u00e7\u00e3o da linguagem, passa-se o mesmo, para os \u00edndios, ela se d\u00e1 no n\u00edvel dos h\u00e1bitos corporais. Aprende-la sup\u00f5e que essa toque o corpo, com o sexo, os fluidos fisiol\u00f3gicos, a alimenta\u00e7\u00e3o, com uma materialidade encarnada, que informa o envolvimento com a linguagem.<\/p>\n<p><strong>Zensualidade<\/strong><\/p>\n<p>Ao lado do livro de M.Hardt e A.Negri, Imp\u00e9rio, nosso encontro, evoca em Lituraterra: Imp\u00e9rio dos Semblantes. Alus\u00e3o ao Imp\u00e9rio dos signos[3], livro de R.Barthes sobre o Jap\u00e3o, onde a escrita comporta o vazio de significa\u00e7\u00e3o e a sociedade sabe lidar com o vazio: A troca de signos e\u0301 de uma riqueza, de uma mobilidade, de uma sutileza fascinante [\u2026] A raz\u00e3o e\u0301 que la\u0301 o corpo existe, segundo um puro projeto er\u00f3tico.<\/p>\n<p>O livro destaca a arte das embalagens, magn\u00edficos embrulhos do vazio. Apre\u00e7o pela vacuidade, presente nos haicais e na pr\u00f3pria escrita ideogr\u00e1fica, onde predomina isen\u00e7\u00e3o e efra\u00e7\u00e3o do sentido. O que \u00e9 a\u00ed o corpo, nesse mundo flutuante de signos que se entret\u00e9m entre si? Na hist\u00f3ria japonesa, nota-se ao lado da produ\u00e7\u00e3o de moldes, formas de entender, viver e expressar o corpo; um outro modo, perturbador, que o Zen gerou no seio dessa cultura.[4]<\/p>\n<p>No primeiro caso, usos paradigm\u00e1ticos do corpo, encarnados nos setores dominantes, em seguida imitados pela popula\u00e7\u00e3o. Conjunto de certa iconografia corporal: samurai, haijin, gueixa. Por outro, Zazen prova de que o Imp\u00e9rio dos signos n\u00e3o se fecha sobre si, funcionando como ferramenta opondo-se ao marco mental e social restritivo, intervindo no modo de entender o corpo e valer-se dele. Zen concebe o humano como corporal (sem alma, interioridade, sem sujeito que dirija), numa pr\u00e1tica da vida da pessoa-desde-o-corpo, lugar de apagamento e esvaziamento do sentido. Corpo em transito entre bonbu e bodhy (viv\u00eancia e representa\u00e7\u00e3o do corpo mais imaginativa, sensorial). O Zazen n\u00e3o elimina paradigmas mas os desestabiliza, os relativiza, os subverte.<\/p>\n<p>Tal postura surgiu do encontro das doutrinas budistas com uma vis\u00e3o gozosa, corporal e emotiva do ser humano, j\u00e1 encontrada em Genji Monogatari, encontro cujo produto \u00e9 segundo Ot\u00e1vio Paz o que o Jap\u00e3o nos ensinou: uma sensibilidade.<\/p>\n<p>Marca-se ai uma diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s abordagens paradigm\u00e1ticas do corpo, nessas a constru\u00e7\u00e3o social atua como realidade fundante do ser humano. A visada pr\u00f3pria do Zen n\u00e3o desconsiderando fatos hist\u00f3ricos, inclui uma resposta que n\u00e3o \u00e9 d\u00f3cil \u00e0 pauta corporal proposta, abrindo-se \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma dic\u00e7\u00e3o sobre eles! A l\u00f3gica da posi\u00e7\u00e3o anti-paradigm\u00e1tica \u00e9 a explicita\u00e7\u00e3o da natureza singular da experi\u00eancia corporal.[5]<\/p>\n<p>Essa abertura ao novo emana do hara[6], desde onde o corpo pensa outramente, pensa sem pensar (mushin), sem consci\u00eancia pessoal. Concentrando na postura, consentindo a tudo que lhe ocorre, sem ir contra nem se entretendo com isso, esse corpo deixa-se atravessar, por um saber, que n\u00e3o \u00e9 nem instintivo, nem tampouco um sistema articulado. Saber que no budismo se chamaPrajna: Sabedoria al\u00e9m da sabedoria, experi\u00eancia de vacuidade e interconex\u00e3o entre as coisas, represent\u00e1vel com imagens da vacuidade e transitoriedade (rios, nuvens) express\u00e3o de uma exist\u00eancia sem subst\u00e2ncia.<\/p>\n<p><strong>Body Mod: Identidade em peda\u00e7os<\/strong><\/p>\n<p>Alguns cortes fizeram girar o uso do corpo na hist\u00f3ria do ocidente que tra\u00e7am a rota at\u00e9 o momento atual. O primeiro quando os anatomistas transgridem a fronteira da pele, dissecam os corpos, exp\u00f5e as v\u00edsceras, abrindo espa\u00e7o para o surgimento no ocidente de um corpo-objeto.[7] O segundo, instaurador da modernidade, o cogito cartesiano[8], separa o homem (subst\u00e2ncia pensante) do corpo cujo modelo \u00e9 a m\u00e1quina feita de pe\u00e7as e engrenagens (substancia extensa). O corpo encarna ent\u00e3o a parte ruim e fr\u00e1gil, um rascunho a ser corrigido.<\/p>\n<p>Outro fator de corte: as estruturas imagin\u00e1rias da hist\u00f3ria; a rede de s\u00edmbolos da tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3. Na Cria\u00e7\u00e3o divina homens s\u00e3o co-criadores, logo h\u00e1 valoriza\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o sobre o mundo e gosto pela experimenta\u00e7\u00e3o. O Cristianismo por exemplo fundamenta sua especificidade nos temas da encarna\u00e7\u00e3o, conduzindo a atividade espiritual que lhe \u00e9 pr\u00f3pria para seu enraizamento objetivo.<\/p>\n<p>Nesse ambiente surge uma raz\u00e3o motivada a tomar o corpo imperfeito, mortal e sua reconstru\u00e7\u00e3o, como um dos empreendimentos mais importantes da modernidade. Essa raz\u00e3o militante adquire impulso, devido as novas tecnologias, tornando-se uma das apostas estrat\u00e9gicas mais subversivas e de alto impacto das performances contempor\u00e2neas. O empreendimento de compensa\u00e7\u00e3o das fragilidades tem paradoxalmente o levado a tornar-se excesso e imagina-se seu desaparecimento, substitui\u00e7\u00e3o, imers\u00e3o num mundo virtual. Esse ativismo que invadiu o mundo com seus objetos t\u00e9cnicos, relativizou valores, perturbou tradi\u00e7\u00f5es, desligou o homem de suas imagens est\u00e1veis propostas pelo social, deixando os corpos desligados de suas referencias vindas do Outro. Corpos deixados a si-mesmos convocados a se constru\u00edrem sem as antigas refer\u00eancias que os dominavam mas tamb\u00e9m os confortavam. A atualidade dos corpos, configura-se com a converg\u00eancia de alguns fatores importantes: 1) Corpo do ser falante nascido imaturo fragmentado 2) Discurso cient\u00edfico cujo m\u00e9todo reduz o corpo a pe\u00e7as de uma m\u00e1quina que podem ser trocadas, reparadas 3) Imagin\u00e1rio coletivo que pretende recriar a natureza 4) Introdu\u00e7\u00e3o no mundo de pr\u00f3teses cada vez mais sofisticadas e potentes compensando os limites corporais.<\/p>\n<p>Do ponto de vista da psican\u00e1lise, o cen\u00e1rio produz um corpo em que a libido a ele retorna com mudan\u00e7as de distribui\u00e7\u00e3o. A libido que se ligava aos objetos do mundo e estabilizava imagens do eu enquadrada pelos ideais, retorna investindo novos objetos que erogenizam o corpo de formas isoladas. Constr\u00f3i-se \u2013 com objetos-signos \u2013 ilhas de satisfa\u00e7\u00e3o, em uma regi\u00e3o que parece nova. Discern\u00edvel entre um que de hipocondria (retorno da libido a novas \u00e1reas investidas do corpo que ganhar\u00e3o erogeidade) e um investimento num corpo constru\u00eddo individualmente para reconectar-se a um Outro cada vez mais circunscritas a \u00e2mbitos limitados entre pares ou como arte. O corpo encarna-se em performances individuais, com caracter\u00edsticas in\u00e9ditas.<\/p>\n<p>Nas entrevistas[9], nota-se efeitos das modifica\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p><strong>Thiago<\/strong>: Comecei com 15 anos\u2026 estava construindo minha identidade diferente da desejada pelos pais, o menininho que vai para a Igreja que n\u00e3o toca no corpo\u2026 n\u00e3o conseguiria viver sem essas modifica\u00e7\u00f5es \u2026 sempre tive interesse por corpos que n\u00e3o fossem padr\u00f5es.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma satisfa\u00e7\u00e3o diferente antes e depois das modifica\u00e7\u00f5es? Thiago: Eu era completamente complexado com meu corpo, \u2026 estranha minha rela\u00e7\u00e3o com ele, n\u00e3o usava bermuda, nem camisa regata\u2026me achava branco, perna fina, bra\u00e7o fino, conforme fui me modificando fui recuperando meu pr\u00f3prio corpo. Tatuei a perna ganhei uma bermuda, tatuei o bra\u00e7o usei regata, at\u00e9 conseguir trabalhar com performance art\u00edstica e chegar ao nu, foi recuperar o corpo mesmo \u2013 as modifica\u00e7\u00f5es me ajudaram muito, \u00e9 um outro Thiago \u2026foi a forma que encontrei, outra pessoa encontra outra, fui ganhando meu corpo \u00e0 medida que fui modificando-o.<\/p>\n<p><strong>Como escolhe o que vai colocar no corpo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Rafa<\/strong>: O que escolho pode ter significado ou n\u00e3o\u2026 s\u00e3o coisas que remetem a algo que vivi \u2026 tinha problemas com o corpo e ainda tenho, sou muito t\u00edmido, era fechado e isso abriu uma porta, me for\u00e7ou a socializar, a responder o que era aquilo que viam. Minha pele \u00e9 minha hist\u00f3ria. J\u00e1 fiz modifica\u00e7\u00f5es, suspens\u00e3o pra chegar no meu limite, queria me elevar, sair do corpo\u2026 Mas n\u00e3o tem padr\u00e3o! N\u00e3o quero que generalizem! Cada um faz por um motivo\u2026um porque \u00e9 doid\u00e3o, outro quer uma eleva\u00e7\u00e3o espiritual, voc\u00ea \u00e9 modificado, n\u00e3o julgue minha modifica\u00e7\u00e3o, s\u00f3 entenda que \u00e9 ser humano.<\/p>\n<p><strong>O corpo para voc\u00ea \u00e9 obsoleto?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Thiago<\/strong>: Completamente. Se fosse levar em considera\u00e7\u00e3o o natural, j\u00e1 estaria morto. Al\u00e9m da constru\u00e7\u00e3o da identidade e o recorte tatuagem e piercing, sou asm\u00e1tico, preciso de uma bombinha pra respirar, tenho esteretroc\u00f4nio, precisei de transplante de c\u00f3rnea, lente de contato e \u00f3culos, precisei da tecnologia pra sobreviver.<\/p>\n<p>Os testemunhos, embora n\u00e3o generaliz\u00e1veis, cont\u00e9m constantes que encontramos nas bibliografias: constru\u00e7\u00e3o da identidade, dom\u00ednio de si, experimenta\u00e7\u00e3o dos poss\u00edveis corporais. Aqui o indiv\u00edduo, torna-se ele pr\u00f3prio fonte de escolhas segundo as ofertas do seu mundo, como modo de vivifica\u00e7\u00e3o e gozo. Os corpos ai respondem \u00e0 l\u00f3gica da bricolagem, sujeitos aos acontecimentos que o marcam, gerando uma er\u00f3tica das pe\u00e7as. Tomados nesse contexto, como conjunto de pe\u00e7as carnais, \u00e9 poss\u00edvel dizer com Orlan: \u201cQuerida amo seu ba\u00e7o e a linha de seu f\u00eamur me excita\u201d.<\/p>\n<p>Na atividade art\u00edstica propriamente dita Irene Accarine, com Stelarc, Orlan e outros, prop\u00f5e um conceito que nos serviria para pensar esses corpos: o \u201calter-corpo\u201d ou \u201ccorpos-elas\u201d, eles contrastam com as imagens pseudo belas das publica\u00e7\u00f5es que alimentam os olhares dos solit\u00e1rios de nossa \u00e9poca, s\u00e3o corpos que gozam de si mesmos deslocados, feitos de outras bordas que aquelas delimitadas pelo dom\u00ednio do signo f\u00e1lico e da imagem ideal.<\/p>\n<p><strong>Constru\u00e7\u00e3o pela psican\u00e1lise<\/strong><\/p>\n<p>A psican\u00e1lise tamb\u00e9m constr\u00f3i seu corpo. O constr\u00f3i como imagem, corpo do Outro e lugar de satisfa\u00e7\u00e3o: corpo libidinal, pulsional. \u00c9 para a psican\u00e1lise antes de tudo um corpo que se faz para gozar de si mesmo. Ela o constr\u00f3i ao longo dos tratamentos, no autismo, psicoses e menos evidente nas neuroses; torna-se evidenciado nos testemunhos de Passes.<\/p>\n<p>Como imagem, orientou Lacan, a rela\u00e7\u00e3o entre ela e seu efeito de real. Eficaz por dar unidade ilus\u00f3ria a um organismo pontuado por ilhas de autoerotismo. O est\u00e1dio do espelho adv\u00e9m dessa orienta\u00e7\u00e3o, a imagem narc\u00edsica, o eu ideal ao qual o sujeito nunca se identificar\u00e1 totalmente e o ideal do eu, enuncia\u00e7\u00f5es de valor e rejei\u00e7\u00e3o. Imagem global e corpo fragmentado se enla\u00e7am nessa montagem atrav\u00e9s das zonas er\u00f3genas: pontos de abertura do organismo e grampos, permitindo a comunica\u00e7\u00e3o entre corpo e mundo exterior atrav\u00e9s das experi\u00eancias de gozo.[10] Na ruptura desse la\u00e7o, a explos\u00e3o da imagem global, angustia, estranheza e cat\u00e1strofes subjetivas.<\/p>\n<p>\u00c9 isso que causa alguns avan\u00e7os da ci\u00eancia: rupturas da imagem total, ao converter o organismo em objetos cortados, compr\u00e1veis, refragmentando o corpo ao extremo. Tamb\u00e9m ao criar novas imagens, vistas por m\u00e1quinas, ela escapa das redes simb\u00f3licas que as continham produzindo efeitos perturbadores. Neste contexto, M.H Brousse considera que o eu ideal vem substituindo o Ideal do Eu: \u00e0 medida que a ci\u00eancia avan\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao conhecimento e \u00e0s modifica\u00e7\u00f5es do organismo e das imagens, mais d\u00e9beis s\u00e3o os ideais tradicionais, relacionados ao discurso do Outro sobre o corpo, e sobre essa quest\u00e3o corporal do gozo\u2026 esse ideal funciona, por certo, como imagem do corpo, mas uma imagem do corpo um pouco cortada do Outro da palavra. Mas parece-nos que al\u00e9m disso, um certo retorno a um relativo autoerotismo das pe\u00e7as soltas tamb\u00e9m ocorre.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso notar que uma tese psicanal\u00edtica sobre a constru\u00e7\u00e3o dos corpos, sup\u00f5e uma comunica\u00e7\u00e3o, que se faz entre o corpo, a imagem e o Outro, ou sua falta. Talvez possamos ver nos testemunhos dos Body Moders uma esp\u00e9cie de reatualiza\u00e7\u00e3o do Est\u00e1dio do Espelho num di\u00e1logo, as vezes mon\u00f3logo, com o estatuto atual desse Outro. E nos testemunhos de passe aspectos dessas intera\u00e7\u00f5es levada ao extremo.<\/p>\n<p>O primeiro testemunho de Marcos Andr\u00e9 Vieira, nos lembra que o corpo que temos \u00e9 feito daquilo que foi poss\u00edvel fazer com o que o Outro fez conosco. Ele se constitui a partir do encontro entre o excesso que nos habita e a incid\u00eancia do Outro em nossa vida. O que se tra\u00e7a deste encontro define o que ser\u00e1 e o que n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel em termos de prazer e dor, assim como dos locais onde isso acontecer\u00e1.<\/p>\n<p>Nesse espa\u00e7o entre vivo, imagem e Outro, incorpora-se toda sorte de composi\u00e7\u00e3o do que seria para cada corpo que fala, a constru\u00e7\u00e3o de um modo de gozo que um tratamento pode construir.<\/p>\n<p>Marcus testemunha como seu corpo montado pela fantasia vivia-se como um mosquito leve at\u00e9 ser tocado pela palavra do analista com a gravidade de um tambor: Seu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 um tambor \u2013 estantanbour. A interpreta\u00e7\u00e3o do analista \u00e9 visceral; desloca a montagem significante e imagin\u00e1ria do fantasma (mosquito leve) e se serve da materialidade sonora ressoando no corpo como as batidas do cora\u00e7\u00e3o tambor. Trata-se de um exemplo paradigm\u00e1tico, do uso da interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, no que diz respeito a constru\u00e7\u00e3o do corpo. Marcus testemunha a partir deste momento o acontecimento de um novo corpo. Naquele vivido como um mosquito, cora\u00e7\u00e3o batendo r\u00e1pido, tomado em uma constante luta de picadas e partidas, Marcus v\u00ea abrir-se um espa\u00e7o corporal sem lugar e forma claros, e nada do Outro. Do mosquito ao corpo tambor aparece um v\u00e1cuo, onde um novo corpo pode acontecer. Seria instrutivo investigar como neste n\u00edvel da experi\u00eancia anal\u00edtica, tocar o corpo depende da materialidade sonora e de ressoar em um vazio? J\u00e9sus Santiago testemunha[11] como o orif\u00edcio n\u00e3o \u00e9 um oco e que \u00e9 preciso alcan\u00e7a-lo \u2013 o vazio intr\u00ednseco da puls\u00e3o \u2013 para livrar-se do engodo f\u00e1lico. Seriam nossos corpo, cada um a seu modo, como um tambor \u2013 borda\/vazio \u2013 com suas sonoridades que poder\u00e3o ou n\u00e3o ser tocado pelo analista segundo uma interpreta\u00e7\u00e3o visceral?<\/p>\n<p><strong>Corpo do acontecimento de gozo<\/strong><\/p>\n<p>Desde o gozo, somos, e os passes d\u00e3o seus testemunhos \u2013 antes de tudo constru\u00eddos por acontecimentos de corpo, incorpora\u00e7\u00e3o, corporifica\u00e7\u00e3o, provocando desregula\u00e7\u00e3o no organismo, despeda\u00e7amentos, excessos jamais apaziguados pelo princ\u00edpio do prazer. Somos feitos de efeitos no corpo chamados \u00e0 partir do semin\u00e1rio XX de afetos. Afec\u00e7\u00f5es no corpo vivo, excita\u00e7\u00f5es perturbadoras que constituem na raiz os corpos que nos chegam para tratamentos, marcados as vezes febrilmente com signos que n\u00e3o lhe d\u00e1 consist\u00eancia.<\/p>\n<p>O significante traum\u00e1tico, piercing significante, escarifica\u00e7\u00e3o da linguagem, escrita litoral, faz buraco no corpo e carnaval, e poder\u00edamos reserva-lhe o status do mais radical elemento material, de constru\u00e7\u00e3o do corpo no que se refere \u00e0 nossa pr\u00e1xis. Sobre essa carne cuja palpita\u00e7\u00e3o, condiciona e anima todo o universo mental [12], o acontecimento de corpo, \u00e9 o que consideramos como a substancia \u00faltima, a argamassa do que constr\u00f3i hoje um corpo para n\u00f3s.<\/p>\n<p>Para finalizar uma advert\u00eancia. Cito Lacan: Quando voltarmos \u00e0 raiz do corpo, se revalorizamos a palavra irm\u00e3o [\u2026] saibam que o que sobe, que ainda n\u00e3o vimos at\u00e9 as \u00faltimas consequ\u00eancias, e que se enra\u00edza no corpo, na fraternidade do corpo, \u00e9 o racismo. E. Laurent[13]comenta o que ai se anunciava, baseava-se na l\u00f3gica de que diante do desatino do nosso gozo, s\u00f3 haveria o Outro para situ\u00e1-lo:n\u00e3o sabemos o que \u00e9 o gozo segundo o qual poder\u00edamos nos orientar. Sabemos apenas rejeitar o gozo do outro. Da\u00ed a vontade de normalizar o gozo daquele que esta deslocado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>S\u00e9rgio De Mattos (Relator)<\/strong><\/h6>\n<h6>S\u00e9rgio de Mattos Psicanalista. Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP), Membro da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP). E-mail:\u00a0<span id=\"cloak15eed6667ee7a32b44cfd2612ca50cd6\"><a href=\"mailto:sergioecmattos@hotmail.com\">sergioecmattos@hotmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00c9RGIO DE MATTOS (RELATOR) GIULIA PUNTEL Problema Como se constr\u00f3i hoje um corpo? O corpo se evidencia no \u00faltimo ensino de Lacan; n\u00e3o se goza sem corpo. Contudo em \u201cAdeus ao Corpo\u201d, Le Breton cita Stelarc: o corpo \u00e9 obsoleto, \u00e9 urgente livrar-se dele ou emparelha-lo com tecnologias e experi\u00eancias extremas para ampliar possibilidades. Na&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58139,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[],"class_list":["post-800","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-17","category-13","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/800","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=800"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/800\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58140,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/800\/revisions\/58140"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58139"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=800"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=800"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=800"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}