{"id":803,"date":"2015-07-17T06:56:21","date_gmt":"2015-07-17T09:56:21","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=803"},"modified":"2025-12-01T16:54:48","modified_gmt":"2025-12-01T19:54:48","slug":"comentario-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2015\/07\/17\/comentario-2\/","title":{"rendered":"Coment\u00e1rio &#8211; Fernanda Otoni B-Brisset"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>FERNANDA OTONI B-BRISSET<\/strong><\/h6>\n<h6><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/51-597x600-1.gif\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"597\" data-large_image_height=\"600\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-804\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/51-597x600-1.gif\" alt=\"\" width=\"597\" height=\"600\" \/><\/a><\/h6>\n<p><strong>FOTO: FREDERICO BANDEIRA<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio de Lilany traz orienta\u00e7\u00f5es preciosas que articulam a cl\u00ednica da toxicomania hoje e o que ela distingue como o campo pol\u00edtico das adi\u00e7\u00f5es. A distin\u00e7\u00e3o entre toxicomania e adi\u00e7\u00e3o \u00e9 um trabalho de investiga\u00e7\u00e3o que a rede TyA tem feito e que n\u00f3s acompanhamos.<\/p>\n<p>Localizar as adi\u00e7\u00f5es como um campo pol\u00edtico me fez pensar que quando Lacan toma a pol\u00edtica como um efeito de discurso, ele extrai dessa formula\u00e7\u00e3o que o inconsciente \u00e9 a pol\u00edtica. O inconsciente, como discurso do Outro, \u00e9 um dos efeitos da copula\u00e7\u00e3o da linguagem com o corpo. Esse encontro contingente guarda um mist\u00e9rio \u2013 o do corpo falante \u2013 e determina uma pol\u00edtica \u2013 a pol\u00edtica do gozo. Ao marcar o corpo, o significante, num mesmo golpe, o mortifica e recorta na carne o vivo que anima o psiquismo. Esse encontro produz gozo e define sua orienta\u00e7\u00e3o. Uma orienta\u00e7\u00e3o para o gozo \u00e9 uma das consequ\u00eancias desse encontro do significante com o corpo. Assim, entendo que o inconsciente \u00e9 a pol\u00edtica, o que se verificava mais claramente sob a l\u00f3gica do inconsciente transferencial, na aproxima\u00e7\u00e3o mesmo do inconsciente com o discurso do mestre, o lugar de agente dado ao S1.<\/p>\n<p>Todavia, ser\u00e1 que o inconsciente \u00e9 a pol\u00edtica ainda hoje, quando evidenciamos na cl\u00ednica certa muta\u00e7\u00e3o no campo simb\u00f3lico, face ao inconsciente real? Eu guardava essa quest\u00e3o comigo. Como atualizar a leitura dessa assertiva lacaniana com a derrocada dos mestres? Destacar as adi\u00e7\u00f5es como um campo pol\u00edtico parece se abrir a essa investiga\u00e7\u00e3o. A pol\u00edtica continua sendo um efeito de discurso, mas hoje o discurso capitalista \u00e9 o que buzina nos nossos ouvidos. O direito ao gozo surge como uma marca do cidad\u00e3o moderno. Os meios de comunica\u00e7\u00e3o, a favor desse discurso, ensejam o consumo dos objetos atrav\u00e9s de uma linguagem n\u00e3o articulada, palavras iterativas, imagens espetaculares, sem apelo \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o, mas que ressoam no corpo. Isto parece apontar que os significantes em circula\u00e7\u00e3o produzidos pelo discurso capitalista, sem apoio no sentido, se infiltram como um real no corpo, de forma r\u00edgida, determinando os modos aditivos do gozo. Na \u00faltima li\u00e7\u00e3o do Semin\u00e1rio Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana destacou-se que \u201co lugar do simb\u00f3lico n\u00e3o \u00e9 o esp\u00edrito, mas o corpo\u201d. N\u00e3o seria no campo das adi\u00e7\u00f5es que verificamos que o inconsciente real \u00e9 a pol\u00edtica? Todos adictos, cada um com sua droga, em terra onde o Outro n\u00e3o existe! Um discurso (capitalista), um inconsciente (real), uma pol\u00edtica do gozo (aditivo).<\/p>\n<p>Seguindo esta pista \u2013 o campo pol\u00edtico da adi\u00e7\u00e3o na era do parl\u00eatre, numa leitura cruzada com o texto do Miller, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 adolesc\u00eancia -, vemos como as drogas e as imagens, hoje, participam da constru\u00e7\u00e3o da adolesc\u00eancia de forma preponderante. O filme Gangues de Hollywwod destacado por Lilany, a partir de um caso real, \u00e9 exemplar.<\/p>\n<p>O filme, como na vida real, mostra como a eclos\u00e3o do real do sexual desorganiza o sentido e solu\u00e7\u00f5es montadas na inf\u00e2ncia. O p\u00fabere n\u00e3o reconhece mais o corpo pr\u00f3prio, nem o Outro familiar \u00e9 uma refer\u00eancia suficiente para restabelecer sua unidade. \u00c9 um momento onde se nota uma desamarra\u00e7\u00e3o, desentrinca\u00e7\u00e3o\u2026 uma soltura das amarras do gozo estabelecidas na inf\u00e2ncia a exigir uma reconfigura\u00e7\u00e3o. A tend\u00eancia ao agir se instala.<\/p>\n<p>Miller, n\u00e3o gosta da express\u00e3o \u201cdesenvolvimento da personalidade\u201d, mas a utiliza para destacar que esse momento \u00e9 um tempo de indefini\u00e7\u00e3o, de impasse, embara\u00e7o, \u00e0 espera de uma amarra\u00e7\u00e3o do gozo que foi desinstalado na sa\u00edda da inf\u00e2ncia. Dir\u00e1 quando o narcisismo se reconfigura e que, de Freud a Lacan, a sa\u00edda da inf\u00e2ncia \u00e9 um momento onde, nessa sala de espera de um novo la\u00e7o, dentre os objetos de desejo, o corpo do Outro surge de forma privilegiada, passando a jogar sua partida na economia do gozo.<\/p>\n<p>Freud, em \u201cA psicologia do escolar\u201d, mostra como o adulto a\u00ed era tomado como modelo que poderia servir nessa reconfigura\u00e7\u00e3o. Prevalecia em Freud uma aposta de que a crian\u00e7a desorientada pelo despertar da adolesc\u00eancia poderia retomar a estrada principal a partir do encontro marcante com um Outro de fora, no caso, um adulto.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, os tempos s\u00e3o outros. \u00c9 para dizer dessa nova era que Miller, lendo Robert Epstein, vai sublinhar que os adolescentes, na hist\u00f3ria, foram considerados como adultos, viviam entre eles e podiam tom\u00e1-los como \u201cmodelos\u201d. Contudo, agora, \u201cfazemos adolescentes viver entre eles, isolados dos adultos, numa cultura que lhes \u00e9 pr\u00f3pria, suscet\u00edveis a modas e entusiasmos\u201d.<\/p>\n<p>Lilany, nessa dire\u00e7\u00e3o, enfatiza o que considero uma das teses do relat\u00f3rio: Na atualidade constata-se que em lugar da escolha de um objeto articulado ao quadro da realidade er\u00f3tica representada pela fantasia, o que se destaca \u00e9 a preval\u00eancia de um gozo autista, da itera\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o e sua voca\u00e7\u00e3o aditiva. Evid\u00eancia cl\u00ednica que verifica que o gozo habita o corpo pr\u00f3prio. Os destinos da puls\u00e3o, hoje, em muitos casos seguem bem instaladas nesse curto-circuito, um circuito que n\u00e3o passa pelo Outro e faz do corpo pr\u00f3prio um Outro corpo para o sujeito.<\/p>\n<p>Vejamos o filme. A princ\u00edpio, n\u00e3o h\u00e1 adultos nele. Tem algo que ali se passa que testemunha esse deserto do adulto entre os jovens. Come\u00e7a com um menino sem jeito, com um corpo que parece escapar de si. \u00c9 exclu\u00eddo dos grupos. At\u00e9 o encontro com uma menina. N\u00e3o \u00e9 o apelo er\u00f3tico que a\u00ed faz o la\u00e7o, mas o convite a extrair dos adultos os seus gadgets. Primeiro os carros largados, depois as casas esvaziadas de modelos famosas. Visitam seus closets, experimentam a transforma\u00e7\u00e3o do corpo pr\u00f3prio num outro corpo e saem de l\u00e1 vestidos delas. Imagens e mais imagens. Postam fotos e mais fotos de si nas redes sociais. Fazem bazar com os objetos, parecem populares. Acumulam malas, usam e espalham os objetos pela casa, e se acham: s\u00e3o muitos os espelhos. Interessante \u00e9 que junto \u00e0 montagem dos corpos com os objetos desses modelos famosos, os adolescentes vivem uma rotina atravessada por imagens e objetos, e ainda as drogas.<\/p>\n<p>J\u00e9sus Santiago considera que \u201cmesmo na experi\u00eancia do espelho, pode surgir o momento em que a cren\u00e7a na imagem contida no espelho enfraquece-se e abala-se e por efeito torna-se alvo de perturba\u00e7\u00e3o no corpo.\u201d Esta perturba\u00e7\u00e3o, esse res\u00edduo desalojado do espelho, no caso da gangue de Hollywood, parece que era tratada com Louboutin, anestesiando esse peda\u00e7o. Assim, os jovens, compulsivamente, retornam v\u00e1rias vezes \u00e0s mesmas casas, usam a casa como se fosse extens\u00e3o deles, a cada vez que a celebridade viaja. Eles s\u00e3o elas. E o impressionante do filme \u00e9 que nenhum adulto sente falta de nada que foi roubado. A gangue segue sustentando a unidade do corpo nessa amarra\u00e7\u00e3o entre objetos e imagens, e Louboutin, compulsivamente. At\u00e9 que uma c\u00e2mara de TV captura a imagem da gangue, por acaso, e o adulto entre em cena na forma da pol\u00edcia. A montagem de corpo cai da cena, de forma singular para cada um.<\/p>\n<p>Miller nos convida a estudar a forma l\u00f3gica da imiscui\u00e7\u00e3o, hoje. E \u00e9 a\u00ed que uma pergunta do relat\u00f3rio pode nos orientar. At\u00e9 que ponto a ades\u00e3o ao campo das imagens e seus objetos virtuais, na era do outro que n\u00e3o existe, para alguns casos, denota um esfor\u00e7o para encontrar um ponto de amarra\u00e7\u00e3o para o gozo? Lilany sugere que nossa cl\u00ednica parece confirmar que pela adi\u00e7\u00e3o aos objetos e imagens ofertados pelo discurso capitalista se faz uma amarra\u00e7\u00e3o hoje, monta-se um tamborete sobre o qual um corpo se sustenta sem passar pela mensagem do Outro.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que na cl\u00ednica do parl\u00eatre \u2013 a cl\u00ednica com adolescentes a demonstra como nenhuma outra -, certa imiscui\u00e7\u00e3o se passa na parceria com o campo pol\u00edtico da adi\u00e7\u00e3o? Poder\u00edamos encontrar a l\u00f3gica da imiscui\u00e7\u00e3o do adulto no p\u00fabere, n\u00e3o mais como mensagem como Lacan destaca no caso de Gide, mas um adulto imiscu\u00eddo atrav\u00e9s do consumo de sua imagem e objetos, servindo de cabide para fazer um corpo no la\u00e7o social?<\/p>\n<p>N\u00e3o seria uma sa\u00edda como a de Gide, mas, em muitos casos, parece ser uma solu\u00e7\u00e3o para o impasse, ainda que frouxa, uma orienta\u00e7\u00e3o para a amarra\u00e7\u00e3o do gozo. A l\u00f3gica da imiscui\u00e7\u00e3o do adulto joga sua partida, com vigor, mas perguntaria se o adulto-modelo, hoje, tamb\u00e9m se imiscui atrav\u00e9s de imagens e objetos e n\u00e3o s\u00f3 por sua mensagem?<\/p>\n<p>Um modelo biruta, n\u00e9? Modelo s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>[1] Coment\u00e1rios ao relat\u00f3rio: Drogas e imagens \u2013 novas adi\u00e7\u00f5es, de Lilany Pacheco apresentado na XVI conversa\u00e7\u00e3o do Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental de Minas Gerais<\/h6>\n<\/div>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><del><\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><\/del><\/h6>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>Fernanda Otoni B-Brisset<\/strong><\/h6>\n<h6>Fernanda Otoni B-Brisset. Psicanalista. Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP), Membro da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP). E-mail:<span id=\"cloakb68b4708a766b9bbc6d3c73f22dad0c7\"><a href=\"mailto:fernanda.otonibb@gmail.com\">fernanda.otonibb@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>FERNANDA OTONI B-BRISSET FOTO: FREDERICO BANDEIRA &nbsp; O relat\u00f3rio de Lilany traz orienta\u00e7\u00f5es preciosas que articulam a cl\u00ednica da toxicomania hoje e o que ela distingue como o campo pol\u00edtico das adi\u00e7\u00f5es. A distin\u00e7\u00e3o entre toxicomania e adi\u00e7\u00e3o \u00e9 um trabalho de investiga\u00e7\u00e3o que a rede TyA tem feito e que n\u00f3s acompanhamos. 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